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segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Um breve olhar sobre Mateus 15,1-2.10-14.

A liturgia da Igreja Católica Romana proclama o Evangelho de Mateus 15,1-2.10-14 na terça-feira da 18ª Semana do Tempo Comum, dentro do caminho espiritual das celebrações feriais em que a comunidade cristã é conduzida a aprofundar o mistério de Cristo e a compreender progressivamente as exigências do Reino de Deus. Nesse período do Tempo Comum, a Igreja contempla Jesus como aquele que revela o verdadeiro rosto do Pai e conduz seus discípulos para além de uma religiosidade marcada apenas por práticas externas, chamando-os a uma conversão profunda do coração. O texto paralelo de Marcos 7,1-23 também possui lugar importante na liturgia. Nas missas feriais da 5ª Semana do Tempo Comum, a Igreja proclama Marcos 7,1-13 na terça-feira e Marcos 7,14-23 na quarta-feira, apresentando a mesma controvérsia entre Jesus, os fariseus e os escribas sobre a verdadeira fonte da pureza. Nas celebrações dominicais do Ano B, Marcos 7,1-8.14-15.21-23 é proclamado no 22º Domingo do Tempo Comum, oferecendo à assembleia uma reflexão sobre a relação entre tradição, consciência e fidelidade a Deus. Outras tradições cristãs históricas, como as Igrejas Ortodoxas, Anglicanas, Luteranas e demais comunidades que conservam calendários litúrgicos baseados nos Evangelhos Sinóticos, também acolhem essa passagem como um texto fundamental para o discernimento entre uma fé autêntica e uma religiosidade reduzida à aparência. O texto de Mateus 15,1-2.10-14 não apresenta apenas um debate sobre costumes religiosos do século I. Ele revela um dos conflitos centrais da missão de Jesus: a tensão entre uma religião que pode se prender às estruturas externas e a fé que nasce da transformação interior realizada por Deus. A pergunta dos fariseus e escribas não é simplesmente sobre lavar ou não lavar as mãos, mas sobre o modo como o ser humano compreende sua relação com Deus. A questão profunda é saber se as tradições religiosas permanecem como caminhos que conduzem à vida ou se podem transformar-se em obstáculos quando são colocadas acima da misericórdia. Jesus está profundamente enraizado na história de Israel. Ele não aparece como alguém que despreza a Lei, os profetas ou a tradição de seu povo. Pelo contrário, afirma: "Não penseis que vim abolir a Lei ou os Profetas; não vim abolir, mas cumprir" (Mt 5,17). A novidade de Cristo está em revelar o sentido pleno da vontade divina, mostrando que toda prática religiosa deve estar orientada pelo amor a Deus e ao próximo. A fidelidade verdadeira não consiste apenas em preservar formas externas, mas em permitir que a Palavra de Deus transforme a existência.

Para compreender a força dessa passagem, é necessário observar o contexto narrativo que a antecede. O capítulo 14 de Mateus apresenta uma sequência de acontecimentos que revelam o modo como Jesus manifesta o Reino. João Batista é assassinado por denunciar a corrupção moral do poder de Herodes Antipas (Mt 14,1-12). O profeta que preparou o caminho do Messias torna-se testemunha da verdade até o fim. Sua morte revela que a palavra de Deus frequentemente confronta interesses políticos, privilégios e estruturas injustas. Depois desse episódio, Jesus alimenta uma multidão no deserto (Mt 14,13-21). O gesto da multiplicação dos pães recorda a ação de Deus no Êxodo e revela que o Reino não é uma realidade distante da vida concreta. Deus preocupa-se com a fome, com a necessidade e com a dignidade das pessoas. Jesus não oferece apenas ensinamentos espirituais; Ele manifesta uma presença que cura, alimenta e restaura.

Em seguida, Jesus caminha sobre as águas (Mt 14,22-33), revelando sua autoridade sobre o caos e o medo, e cura os enfermos em Genesaré (Mt 14,34-36), mostrando uma santidade que não se afasta da fragilidade humana, mas aproxima-se dela para comunicar vida. Essa sequência prepara o leitor para compreender o contraste presente em Mateus 15: enquanto Jesus se aproxima das dores humanas, alguns líderes religiosos aproximam-se preocupados com questões externas de pureza. O conflito, portanto, não acontece entre fé e ausência de fé. Jesus não está diante de pessoas que rejeitam Deus, mas diante de pessoas religiosas que interpretam a fidelidade de uma maneira diferente. O Evangelho apresenta uma pergunta sempre atual: é possível defender a religião e, ao mesmo tempo, afastar-se do coração de Deus?

Os fariseus e escribas que vêm de Jerusalém representam uma autoridade religiosa reconhecida. Jerusalém era o centro espiritual do judaísmo do período, cidade do Templo e símbolo da identidade religiosa de Israel. A pergunta dirigida a Jesus possui caráter de fiscalização: "Por que teus discípulos transgridem a tradição dos antigos? Pois não lavam as mãos quando comem?" (Mt 15,2). No contexto judaico do primeiro século, a questão das mãos não estava relacionada principalmente à higiene, mas às práticas de pureza ritual desenvolvidas pela tradição dos anciãos. Essas interpretações buscavam proteger a observância da Lei, criando aplicações detalhadas para a vida cotidiana. O termo grego utilizado por Mateus para tradição é "parádosis" (παράδοσις), aquilo que foi transmitido, recebido e conservado.

A tradição, em si mesma, possui valor. A própria fé cristã nasce de uma tradição recebida e transmitida: "Eu vos transmiti aquilo que eu mesmo recebi" (1Cor 15,3). O problema não está em conservar a memória da fé, mas em transformar interpretações humanas em absolutos, colocando-as acima da Palavra de Deus. Quando uma tradição deixa de conduzir à misericórdia, à justiça e ao amor, ela perde sua finalidade. Por isso Jesus responde com uma denúncia profética: "Por que também vós transgredis o mandamento de Deus por causa da vossa tradição?" (Mt 15,3). Ele não permanece no nível da discussão ritual, mas revela a questão ética que está por trás dela. Como exemplo, menciona o mandamento de honrar pai e mãe (Ex 20,12; Dt 5,16), mostrando que nenhuma prática religiosa pode justificar o abandono das responsabilidades fundamentais com a vida humana.

A crítica de Jesus está em plena continuidade com a tradição profética de Israel. Os profetas sempre denunciaram uma religião separada da justiça. Isaías proclama: "Aprendei a fazer o bem, procurai o direito, socorrei o oprimido, fazei justiça ao órfão, defendei a causa da viúva" (Is 1,17). Amós anuncia: "Quero ver o direito correndo como água e a justiça como um rio permanente" (Am 5,24). Miqueias resume a vontade de Deus: "Praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com teu Deus" (Mq 6,8)..Jesus, portanto, não destrói a religião de Israel, mas revela sua verdadeira finalidade. Ele recorda que Deus nunca desejou um culto separado da compaixão. A adoração autêntica sempre conduz ao cuidado com o outro, especialmente com aqueles que sofrem.

Quando chama a multidão e afirma: "Escutai e compreendei" (Mt 15,10), Jesus utiliza uma linguagem profundamente ligada à espiritualidade bíblica. Escutar, no sentido das Escrituras, não significa apenas ouvir, mas acolher uma palavra que transforma a vida. O grande mandamento de Israel começa com o chamado: "Escuta, Israel" (Dt 6,4). Jesus convida a uma escuta mais profunda, capaz de ultrapassar aparências e alcançar a vontade de Deus. A questão da pureza possuía grande importância na organização religiosa e social do mundo bíblico. As categorias de puro e impuro ajudavam Israel a preservar sua identidade, mas também poderiam ser utilizadas para estabelecer fronteiras de exclusão. Toda sociedade cria símbolos de pertencimento; o problema surge quando essas fronteiras deixam de proteger a vida e passam a justificar superioridade, rejeição ou indiferença..Jesus realiza uma mudança decisiva ao deslocar a pureza do exterior para o interior. O ser humano não se afasta de Deus apenas pelo contato com determinadas realidades externas, mas pelas escolhas que nascem de um coração fechado ao amor. A verdadeira impureza nasce daquilo que destrói a comunhão com Deus e com o próximo.

O coração, na compreensão bíblica, não representa apenas o campo dos sentimentos. O termo hebraico "lev" indica o centro da pessoa, onde estão a consciência, a vontade, a memória e as decisões fundamentais. Por isso a sabedoria bíblica afirma: "Guarda teu coração, porque dele brotam as fontes da vida" (Pr 4,23)..A mensagem de Jesus conduz a humanidade para uma profunda conversão interior. O problema fundamental não está apenas nas ações visíveis, mas nas raízes invisíveis que orientam essas ações. O Evangelho revela que Deus deseja transformar o coração humano para que a vida inteira seja renovada..A transformação do coração anunciada por Jesus encontra suas raízes nas grandes promessas proféticas de Israel. Jeremias havia anunciado uma nova aliança na qual Deus não escreveria sua vontade apenas em tábuas de pedra, mas no interior da pessoa humana: "Porei minha lei no seu íntimo e a escreverei em seu coração" (Jr 31,33). Ezequiel utiliza uma imagem ainda mais forte ao proclamar a ação renovadora de Deus: "Dar-vos-ei um coração novo e porei dentro de vós um espírito novo; tirarei de vós o coração de pedra e vos darei um coração de carne" (Ez 36,26). Jesus, portanto, não apresenta uma novidade desligada da história bíblica, mas realiza a esperança de uma humanidade reconciliada interiormente com Deus.

Essa visão possui uma profunda dimensão antropológica. A Bíblia compreende o ser humano como uma realidade integrada, na qual pensamentos, desejos, escolhas e ações estão unidos. A violência, a injustiça e a indiferença não aparecem de forma repentina; frequentemente são frutos de processos interiores alimentados por egoísmo, medo, ressentimento ou desejo de dominação. Jesus revela que a transformação do mundo começa também pela transformação da pessoa e a  compreensão do  fato  dialoga com a psicologia humana. As atitudes externas geralmente revelam valores, convicções e afetos cultivados no interior. Uma pessoa pode construir uma imagem religiosa diante da sociedade e, ao mesmo tempo, carregar no íntimo sentimentos contrários ao amor de Deus. Por isso Jesus critica uma espiritualidade baseada apenas na aparência. A verdadeira conversão exige sinceridade diante de Deus e diante de si mesmo.

O livro do Gênesis já apresenta essa realidade no relato das origens. O pecado humano começa como uma ruptura interior da confiança em Deus (Gn 3,1-19). Antes de ser uma ação externa, ele nasce de uma interpretação equivocada sobre Deus e sobre a própria liberdade humana. A história de Caim aprofunda essa reflexão quando Deus pergunta: "Onde está teu irmão Abel?" (Gn 4,9). A pergunta divina atravessa toda a história porque nenhuma espiritualidade pode ser considerada verdadeira quando ignora o sofrimento do outro e  a  perspectiva aparece na pregação de Jesus. No Sermão da Montanha, Ele aprofunda o sentido do mandamento "não matarás", mostrando que a raiz da violência também está na ira, no desprezo e na incapacidade de reconhecer a dignidade do irmão (Mt 5,21-22). O Reino de Deus não transforma apenas comportamentos visíveis, mas modifica a maneira como o ser humano olha, pensa e se relaciona.

Paulo desenvolve essa compreensão ao afirmar: "Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para discernirdes a vontade de Deus" (Rm 12,2). A conversão cristã não é simplesmente adequação moral a determinadas normas, mas uma nova forma de existir orientada pelo Espírito Santo..Os grandes mestres da tradição cristã compreenderam essa dimensão interior do Evangelho. 

  • Santo Agostinho refletiu profundamente sobre a busca humana por sentido ao afirmar que o coração permanece inquieto enquanto não encontra sua verdadeira orientação em Deus. Sua reflexão revela que muitas crises espirituais nascem quando o ser humano coloca realidades limitadas no lugar do absoluto e busca nelas uma plenitude que elas não podem oferecer.
  • São João Crisóstomo, ao comentar os Evangelhos, insistia que não existe verdadeira devoção a Deus quando a pessoa permanece indiferente diante da pobreza e do sofrimento humano. Para ele, a celebração religiosa perde seu sentido quando não conduz à caridade concreta. Essa interpretação permanece atual diante de uma religiosidade que pode valorizar manifestações externas e, ao mesmo tempo, esquecer aqueles que vivem situações de abandono.
  • Orígenes desenvolveu uma leitura espiritual da Escritura mostrando que a Palavra de Deus não deve ser recebida apenas como uma norma exterior, mas como uma força capaz de iluminar o interior humano. A Bíblia não revela somente quem é Deus; ela também revela quem somos nós diante dele e quais áreas da existência precisam ser transformadas.

A compreensão encontra confirmação nas cartas do Novo Testamento. A Carta de Tiago afirma: "A religião pura e sem mancha diante de Deus consiste em cuidar dos órfãos e das viúvas em suas tribulações e guardar-se da corrupção do mundo" (Tg 1,27). João também ensina: "Quem possui os bens deste mundo e vê seu irmão necessitado, mas fecha o coração, como permanecerá nele o amor de Deus?" (1Jo 3,17). O Evangelho de Mateus, portanto, confronta uma das grandes tentações da experiência religiosa: separar a fé da vida concreta. É possível possuir discursos religiosos, defender tradições e participar de práticas espirituais sem permitir que o coração seja realmente transformado. Jesus recorda que a autenticidade da fé aparece nos frutos produzidos na existência.

 A advertência possui grande importância para compreender a religião enquanto fenômeno humano e social. As tradições religiosas possuem capacidade de gerar solidariedade, esperança e sentido comunitário. Ao mesmo tempo, podem sofrer deformações quando seus símbolos são utilizados para controle, exclusão ou busca de poder. A religião permanece fiel à sua vocação quando conduz à liberdade interior e ao compromisso com a vida..O próprio Jesus denuncia esse risco ao confrontar lideranças religiosas que haviam transformado a autoridade espiritual em instrumento de prestígio. No capítulo 23 de Mateus, Ele critica aqueles que colocam cargas pesadas sobre os outros sem ajudá-los a carregar (Mt 23,4), que procuram reconhecimento público (Mt 23,5-7) e que impedem as pessoas de aproximarem-se do Reino de Deus (Mt 23,13). E a  denúncia continua atual diante do clericalismo, entendido como uma deformação da autoridade eclesial quando o serviço se transforma em privilégio e a liderança passa a ser exercida como domínio. O próprio Jesus estabelece outro modelo: "Quem quiser tornar-se grande entre vós, seja aquele que serve" (Mc 10,43). A autoridade cristã nasce da entrega, da escuta e da proximidade com o povo.

A passagem de Mateus também ilumina o discernimento necessário diante da instrumentalização da religião na sociedade contemporânea. A fé possui consequências públicas e deve participar da construção do bem comum, mas não pode ser reduzida a instrumento de disputa de poder. Quando símbolos religiosos são utilizados para legitimar interesses particulares, a mensagem do Evangelho corre o risco de ser substituída por projetos humanos..Jesus rejeitou essa lógica desde o início de sua missão. Nas tentações do deserto, Ele recusou utilizar poder, prestígio ou domínio como caminhos para cumprir sua missão (Mt 4,1-11). Sua autoridade nasce da fidelidade ao Pai e do serviço aos irmãos. A cruz revela uma forma de poder completamente diferente daquela oferecida pelos sistemas humanos: o poder do amor que se entrega.

Por isso, Mateus 15 oferece um critério para avaliar toda expressão religiosa: aquilo que produz misericórdia, justiça, reconciliação e cuidado com a vida está em sintonia com o coração de Deus; aquilo que gera ódio, exclusão, desprezo e desumanização contradiz a lógica de Cristo, ainda que utilize linguagem religiosa..A fé cristã não pode ser confundida com projetos de superioridade espiritual ou cultural. Jesus não construiu uma comunidade baseada na rejeição dos outros, mas no acolhimento daqueles que buscavam vida nova. Ele aproximou-se dos marginalizados, tocou os excluídos, acolheu pecadores e revelou que ninguém está fora do alcance da misericórdia divina. Olhando  texto  da perícope  de Mateus 15: Deus não olha apenas para aquilo que aparece diante dos olhos humanos, mas para o coração. A verdadeira santidade não está em criar distância dos outros, mas em permitir que o amor de Deus transforme a maneira como vemos, acolhemos e servimos cada pessoa.

A palavra de Jesus sobre a verdadeira pureza conduz diretamente à missão da Igreja no mundo. Se a origem das ações humanas está no coração, então a evangelização não pode limitar-se à transmissão de normas ou à preservação de estruturas. A missão cristã consiste em permitir que o encontro com Cristo transforme pessoas, comunidades e realidades sociais. O Evangelho não é uma proposta de fuga da história, mas uma força de renovação dentro da própria história humana. O Concílio Vaticano II aprofundou essa compreensão ao recordar que a Igreja deve interpretar permanentemente os sinais dos tempos à luz da Palavra de Deus. A Constituição Pastoral Gaudium et Spes afirma que as alegrias, esperanças, tristezas e angústias da humanidade são também as da Igreja. Essa afirmação rompe com uma visão religiosa fechada em si mesma. Uma comunidade cristã fiel ao Evangelho não pode permanecer indiferente diante da fome, da pobreza, da violência, da exclusão e das feridas que atingem a dignidade humana.

  • A Constituição Dogmática Lumen Gentium apresenta a Igreja como povo de Deus, chamado à comunhão e à participação na missão de Cristo. Essa visão recorda que todos os batizados possuem responsabilidade na construção do Reino. A fé cristã não pode ser reduzida a uma experiência reservada apenas a ministros ou especialistas religiosos. O Espírito Santo age em todo o povo de Deus e chama cada discípulo a testemunhar o Evangelho na realidade concreta.
  • A Constituição Dei Verbum oferece uma chave fundamental para compreender a relação entre Escritura e vida. A Palavra de Deus não é um conjunto de frases isoladas utilizadas para defender interesses humanos, mas um diálogo vivo entre Deus e a humanidade. A interpretação bíblica exige respeito ao contexto histórico, ao sentido do texto e à tradição da Igreja. A Escritura não deve ser manipulada para confirmar ideologias, mas acolhida como Palavra que julga, ilumina e converte.

Na América Latina, essa consciência adquiriu uma expressão profética própria. A Conferência de Medellín, ao aplicar o espírito do Concílio Vaticano II à realidade latino-americana, chamou a Igreja a reconhecer as estruturas que produzem pobreza e injustiça. Puebla aprofundou a opção preferencial pelos pobres como dimensão essencial da missão evangelizadora. Santo Domingo e Aparecida reafirmaram o chamado para uma Igreja missionária, próxima das periferias humanas e comprometida com a vida dos mais vulneráveis.

  • O Documento de Aparecida recorda que o encontro com Jesus Cristo transforma discípulos em missionários. A fé não pode ser reduzida a uma busca individual de conforto espiritual, pois o verdadeiro encontro com Cristo conduz ao serviço. Uma Igreja que anuncia o Reino precisa estar presente onde a vida está ameaçada, reconhecendo o rosto de Jesus nos pobres, nos excluídos e nos que sofrem.

A perspectiva ajuda a compreender os desafios religiosos do presente. Algumas expressões da chamada teologia da prosperidade podem reduzir a relação com Deus a uma lógica de recompensa material, como se a fé fosse um instrumento para garantir sucesso econômico e realização individual. Essa visão corre o risco de substituir o Evangelho da graça por uma mentalidade de troca. Jesus, porém, anuncia uma vida marcada pela partilha, pelo serviço e pela solidariedade. Ele afirma: "A vida de alguém não consiste na abundância dos bens" (Lc 12,15)..O centro da fé cristã permanece a cruz de Cristo. O Filho de Deus não revela o amor dominando, acumulando ou impondo-se sobre os outros, mas entregando a própria vida. O gesto do lava-pés resume essa lógica do Reino: "Eu vos dei o exemplo, para que façais como eu vos fiz" (Jo 13,15). A grandeza cristã não está no poder sobre pessoas, mas na capacidade de servir..É  preciso   discernir quando a linguagem religiosa é utilizada para justificar projetos de controle ou dominação. A chamada teologia do domínio, quando transforma a missão cristã em busca de influência política ou superioridade cultural, distancia-se do caminho de Jesus. O Reino de Deus não cresce pela imposição, mas pelo testemunho. A autoridade de Cristo nasce da humildade, da verdade e da misericórdia.

A relação entre fé e política exige igualmente discernimento. Os cristãos são chamados a participar da construção da sociedade e defender a dignidade humana, mas a religião não pode ser transformada em instrumento de manipulação partidária ou legitimação de projetos autoritários. Quando o nome de Deus é usado para alimentar ódio, exclusão ou desprezo por grupos humanos, ocorre uma profunda contradição com o Evangelho. Jesus nunca anunciou um Reino baseado na eliminação do outro. Sua prática foi marcada pela aproximação dos marginalizados, pela cura dos enfermos, pelo perdão aos pecadores e pela defesa dos pequenos. Por isso, toda expressão religiosa que se aproxima de discursos de intolerância, violência ou desumanização precisa ser confrontada pela mensagem de Cristo.

O Papa Francisco, na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, denuncia o risco do mundanismo espiritual, quando a fé passa a buscar prestígio, segurança institucional ou reconhecimento humano em vez de anunciar o Evangelho. A Igreja é chamada a ser uma comunidade em saída, capaz de escutar as dores do mundo e aproximar-se das periferias existenciais..

  • Na Encíclica Laudato Si', Francisco mostra que a crise ecológica possui uma raiz espiritual. Um coração humano dominado pelo desejo de possuir e controlar transforma a criação em objeto de exploração. O cuidado com a casa comum está ligado à defesa dos pobres, pois são os mais frágeis aqueles que mais sofrem com a degradação ambiental.
  • Em Fratelli Tutti, o Papa apresenta a fraternidade como resposta à cultura da indiferença e da divisão. Essa mensagem encontra profunda sintonia com Mateus 15, pois Jesus revela que a maior impureza não está nas coisas externas, mas em um coração incapaz de reconhecer o outro como irmão.

A passagem de Mateus continua, portanto, como uma pergunta dirigida à Igreja e a cada discípulo: nossas práticas religiosas revelam o rosto de Cristo ou apenas preservam aparências? Nossas tradições conduzem à misericórdia ou criam barreiras? Nossa fé produz serviço ou busca privilégios?

A conversão proposta por Jesus é uma transformação integral. Não basta mudar discursos; é necessário renovar atitudes. Não basta defender valores cristãos; é preciso viver o amor que esses valores anunciam. Não basta falar sobre Deus; é necessário permitir que Deus transforme a forma como tratamos as pessoas e assumimos a realidade. A verdadeira pureza cristã é um coração reconciliado com Deus e aberto ao próximo. É uma vida libertada do egoísmo, da violência e da indiferença. É a capacidade de olhar a humanidade com os olhos de Cristo e reconhecer que cada pessoa possui uma dignidade que nasce do próprio Criador..Assim, Mateus 15,1-2.10-14 permanece como uma palavra profética para o nosso tempo. Ele chama a Igreja a uma renovação permanente, recordando que a tradição só permanece viva quando conduz ao amor, que a autoridade só é cristã quando se torna serviço e que a religião só revela Deus quando produz misericórdia.

A voz de Jesus continua atravessando a história: "Escutai e compreendei". O convite permanece para que a fé deixe de ser apenas aparência e se transforme em vida concreta. O mundo não necessita apenas de discursos religiosos, mas de testemunhas capazes de revelar, através de suas atitudes, o rosto daquele que veio para que todos tenham vida em abundância (Jo 10,10). "Quero misericórdia e não sacrifício" (Mt 9,13; 12,7). Essa palavra resume o coração do Evangelho. Deus procura uma humanidade reconciliada, uma Igreja servidora e discípulos comprometidos com a justiça, a fraternidade e a esperança. Quando a misericórdia ocupa o centro, a religião reencontra sua verdadeira vocação: revelar ao mundo o amor transformador de Deus.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

sábado, 6 de dezembro de 2025

Um novo olhar sobre Mateus 3, 1-12

Na semana  passada inicianos o  novo ano litúrgico    e celebrando  o segundo  domingo  do tempo do Advento  vamos  ler Mateus 3, 1-12 texto   que refletimos  em 2022 e esse domingo  traz o mosaico  de leituras  Isaías 11,1-10; Salmo 71(72) com a resposta “Nos dias do Senhor nascerá a justiça e a paz para sempre”; Romanos 15,4-9;  que nos colocam diante de uma tessitura profunda que atravessa expectativa, promessa, denúncia, conversão e esperança. O Advento não é estação decorativa, mas um tempo existencial no qual o coração humano se vê convocado a romper com automatismos espirituais e a recuperar a sensibilidade para perceber o Deus que vem. Este domingo é marcado por essa figura inconfundível que atravessa séculos e consciências: João Batista, profeta do limiar, voz que ecoa entre deserto e rio, entre ruptura e recomeço. O Advento inteiro gira ao redor dessa tensão: Deus se aproxima e nós precisamos nos aproximar do Deus que se aproxima. Nada disso é mecânico; tudo é chamado, tudo é travessia, tudo é deslocamento, sem esquecer sentido do Advento  conforme  o texto  Advento  advinire

Mateus 3,1-12 é proclamado em diversas liturgias do ciclo A, sempre no contexto adventício, porque ninguém prepara o nascimento do Messias sem antes desinstalar estruturas acomodadas e ilusões religiosas. No 2º Domingo do Advento, a Igreja nos faz ouvir João para que possamos reencontrar o fio crítico da nossa fé, lembrando-nos de que o Messias esperado não é a confirmação dos nossos caprichos, mas o desmonte das nossas idolatrias. João não aparece onde o status religioso esperaria encontrá-lo; surge no deserto, lugar simbólico da purificação e da escuta, lembrando Israel do caminho do Êxodo, quando o povo experimentou Deus sem estruturas de poder, sem templos de mármore, sem garantias externas. O deserto é, portanto, a crítica viva ao culto sem vida, ao ritualismo vazio, à fé que se acomoda em palácios – e por isso João veste roupas rústicas, alimenta-se do que a criação oferece, não negocia com autoridades e não se deixa seduzir por alianças. Ele é, por si mesmo, uma parábola.

Quando o texto diz que ele veste “pelos de camelo e um cinturão de couro”, não é um detalhe folclórico. Mateus está ecoando deliberadamente as descrições de Elias (2Rs 1,8). João encarna a tradição profética que não se curva ao poder. Ele não representa uma espiritualidade alienada, mas uma fé com os pés na terra. A psicologia moderna poderia dizer que João expressa a figura do sujeito que integra coragem e lucidez, alguém capaz de enfrentar as sombras que a sociedade tenta esconder; sociologicamente, ele é o contraponto aos arranjos de poder que tentam domesticar a religião; antropologicamente, ele recupera o arquétipo do mensageiro liminar que anuncia transições radicais; filosoficamente, ele revela que nenhuma verdade se sustenta sem confrontar a mentira; teologicamente, ele anuncia que o Reino chega não pelo acúmulo de privilégios, mas pela conversão; espiritualmente, ele desestabiliza o narcisismo religioso que sempre tenta transformar Deus em espelho das próprias vaidades. João é a ruptura viva contra todos os fariseus de ontem e de hoje, sobretudo os fariseus da prosperidade, do domínio, da fé-mercadoria e do clericalismo que transforma o povo em plateia de espetáculo.

O evangelho faz questão de situar João no deserto, não em Jerusalém. Isso, para Mateus, é profundamente simbólico: o centro religioso está saturado de manipulações, alianças com Roma, hipocrisia e disputa de prestígio. João, ao contrário, está na periferia, na borda, no não-lugar onde Deus pode ser ouvido sem maquiagem. Ele anuncia um Reino que contrasta abertamente com qualquer império, antigo ou moderno. Onde o império se impõe pela força, o Reino se oferece como graça; onde o império exige culto ao poder, o Reino chama à conversão; onde o império alimenta violências, o Reino cultiva justiça. Isaías 11,1-10 já antecipava essa inversão: do tronco aparentemente morto de Jessé nascerá um rebento, pequeno, inesperado, improvável, mas cheio do Espírito. A esperança de Deus nunca nasce dos cenários onde os poderosos se juntam, mas das beiradas onde a vida resiste. O salmo reforça que nos dias do verdadeiro Messias brotará justiça e paz, e não espetáculos religiosos, negociatas políticas, campanhas de arrecadação travestidas de fé ou tentativas de transformar o Evangelho em comício ideológico.

João denuncia exatamente esses mecanismos. Quando fariseus e saduceus aparecem para receber o batismo, ele os enfrenta com a expressão mais dura do Novo Testamento: “Raça de víboras!” Ele sabe que muitos se aproximam atraídos não pela conversão, mas pelas vantagens simbólicas que a religião oferece. É o mesmo movimento que hoje vemos em pregadores que dizem falar em nome de Cristo, mas vivem em palácios, cercados de seguranças, pedindo PIX e vendendo milagres embalados como produto de prateleira. São líderes que transformam fé em mercado, esperança em moeda, sacramentos em serviço, Bíblia em arma ideológica, liturgia em palco, púlpito em trono. A teologia da prosperidade e a teologia do domínio repetem a mesma sedução imperial que João e Jesus denunciaram: a tentativa de transformar Deus em rotativo bancário e o Evangelho em manual de conquista e enriquecimento. João grita contra isso no deserto; Jesus gritará contra isso no templo. A verdade do Reino é incompatível com qualquer fé que funcione como negócio.

Mateus insiste que João batiza no Jordão, outro símbolo fundamental. O Jordão é a fronteira entre escravidão e promessa; é o lugar onde Israel entrou na terra; é o marco da passagem. O batismo ali é convite para atravessar de novo, para deixar atrás o velho Egito interior, para romper com o que adoece a alma e paralisa o coração. Psicologicamente, esse rito revela que ninguém se renova sem enfrentar suas sombras; sociologicamente, mostra que a transformação pessoal implica assumir responsabilidade coletiva; teologicamente, aponta para o batismo cristão como nascimento para uma nova identidade; filosoficamente, indica que toda verdade libertadora exige atravessar limites. João não está apenas pedindo comportamentos moralistas; está pedindo mudança radical de mentalidade, aquilo que a exegese bíblica chama metanoia: uma conversão que atinge raízes, estruturas, afetos, práticas. Nada superficial.

Quando ele anuncia: “O machado já está posto à raiz das árvores”, ele não está pregando medo, mas urgência. Árvores que não dão fruto, na lógica bíblica, são símbolos de religiosidade estéril. Jeremias, Oseias, Miqueias e outros profetas retomam essa imagem repetidamente. No Novo Testamento, Jesus repetirá o mesmo sinal ao amaldiçoar a figueira infrutífera (Mc 11,12-14). A árvore estéril é qualquer fé que não gera justiça. É o cristão que grita “amém” na porta da igreja mas fecha o coração diante do pobre. É a comunidade que aplaude o padre ou o pastor, mas não move uma palha para acolher o ferido. É o devoto que ostenta sacramentos mas não pratica misericórdia. É a Igreja que se enfeita de vestes caras mas silencia diante da violência. É o indivíduo que usa a Bíblia para atacar minorias e defender poderosos. João está dizendo que Deus não se deixa enganar por performances. Sem frutos, não há Reino.

O fogo, outro elemento anunciando por João, não é destruição barata; é purificação. Na tradição bíblica, o fogo purifica metais, revela autenticidade, expõe o que é falso, ilumina o que está escondido. Malaquias 3,2 fala do “fogo do fundidor” que refina o ouro; Isaías 6 narra o carvão ardente que purifica os lábios do profeta. Sociologicamente, o fogo desmascara práticas religiosas alienantes; psicologicamente, ele simboliza o processo interior de autoconhecimento que queima ilusões; antropologicamente, remete às fogueiras rituais que marcam transições; filosoficamente, é metáfora da verdade que incinera mentiras; teologicamente, aponta para o Espírito que transforma. João anuncia um que virá depois dele – e esse é Jesus – que batizará “com o Espírito Santo e com fogo”, isto é, com vida nova e purificação profunda.

O texto se alarga quando lembramos que a mesma cena aparece também em Marcos 1,1-8, Lucas 3,1-18 e, de modo indireto, no prólogo de João 1,19-28. Cada sinótico acrescenta nuances próprias: Marcos enfatiza a urgência; Lucas amplia a denúncia social (“Quem tem duas túnicas...”); Mateus sublinha o confronto com os líderes religiosos. Mas todos convergem no essencial: o Messias não nasce nos centros de poder, mas entre os pequenos; não se revela em templos luxuosos, mas na simplicidade; não legitima opressores, mas liberta feridos; não abençoa impérios, mas inaugura outra lógica. É isso que Isaías 11 anuncia: um Messias que julga com justiça os pobres, que defende o fraco, que não julga pelas aparências, que refaz a criação ferida. O reino messiânico é uma inversão total: o lobo habitará com o cordeiro, o leopardo com o cabrito, a criança com a serpente. Não é zoologia literal; é profecia política e espiritual. Isaías está dizendo que onde Deus reina, os antagonismos criados pela violência humana perdem força. Onde Deus reina, os opressores não têm a última palavra. Onde Deus reina, a criação inteira respira paz.

Romano 15,4-9 fecha esse conjunto litúrgico lembrando que tudo foi escrito para nossa esperança. A Palavra não é museu; é pão. Paulo insiste que Cristo nos acolheu, e por isso também devemos acolher uns aos outros. Advento é exatamente isso: Deus nos acolhe ao ponto de assumir nossa carne; nós somos chamados a acolher o próximo com a mesma radicalidade. Isso desmonta qualquer projeto que transforme religião em arma de exclusão ou crença em privilégio. O clericalismo, denunciado tantas vezes pelo Magistério, especialmente por Papa Francisco, é a tentação de transformar o ministério em casta superior. João Batista destrói esse esquema: ele não se exibe, não reivindica status, não busca honra, não vende a fé como produto. É uma crítica atualíssima a padres, pastores, líderes e pregadores digitais que performam santidade enquanto negociam influência, ego, cifras e conveniências políticas.

A patrística reconheceu profundamente essa função liminar de João. Santo Agostinho dizia que João é “a voz”, enquanto Cristo é “a Palavra”; a voz passa, a Palavra permanece. Orígenes afirmava que João denuncia para que Cristo possa curar; se a verdade não é dita, a graça não encontra espaço. São Gregório Magno descreve João como aquele que aponta, prepara e depois se retira. Toda liderança cristã deveria estremecer ao ouvir isso: João não buscou centralidade, não construiu marca pessoal, não fez da fé palco. Ele diminuiu para que Cristo crescesse. Hoje, ao contrário, há quem aumente a si mesmo e diminua Cristo, usando o nome do Senhor como se fosse slogan empresarial. João desmonta isso.

O Advento, iluminado por esse evangelho, nos convoca à conversão que rompe superficialidades. Não basta ter sacramentos, Bíblia, oração e agenda de pastoral. Nada disso salva se não houver frutos de justiça, misericórdia, paz, serviço, verdade e coragem. João chama para uma espiritualidade não ritualista, não normativa, não escravista. Ele denuncia a fé-espetáculo, a fé-negócio, a fé-individualista, a fé-narcisista. Ele chama para uma fé que se torne vida. Uma fé capaz de superar discursos de ódio, idolatrias políticas, fanatismos religiosos e rituais vazios. Uma fé que construa uma nova cultura, menos marcada por ego, disputa e aparência, e mais marcada por cuidado, fraternidade e serviço. Uma fé que reconheça que todos somos filhos do mesmo Pai.

O Advento é essa travessia. É deixar o palácio e ir ao deserto para ouvir a verdade. É sair do conforto para entrar no Jordão e recomeçar. É abandonar a árvore estéril para gerar frutos. É permitir que o fogo do Espírito purifique intenções. É abandonar uma fé que pede privilégio e abraçar uma fé que se coloca a serviço. É permitir que Isaías reacenda nossa esperança. É permitir que o salmo devolva nossa fome de justiça. É deixar que Paulo nos reacostume ao acolhimento. É deixar que João nos diga que o Reino está mais perto do que pensamos, mas exige mais do que gestos rituais: exige vida nova.

Assim, acompanhando João neste 2º domingo do Advento, ouvimos o que ele ainda grita hoje: não se iludam com aparências. Não pensem que títulos, cargos, sacramentos, funções e prestígios garantem salvação. O machado está à raiz. A árvore precisa dar fruto. O fogo precisa purificar. O Espírito quer transformar. E aquele que vem – aquele que está vindo – não aceita mistificações. Ele vem com justiça, com ternura, com verdade. Ele vem para consolar os pequenos e derrubar os arrogantes. Ele vem para inaugurar um mundo novo, mas esse mundo novo começa em cada um de nós.

Quem tiver ouvidos, ouça o que a voz do deserto ainda anuncia: preparem o caminho do Senhor. Endireitem seus caminhos. Na simplicidade, no serviço, na justiça, no cuidado, na misericórdia, no amor encarnado. É assim que se prepara o Advento. É assim que nasce o Reino. É assim que Deus chega.



DNonato – Teólogo do Cotidiano

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

Um breve olhar sobre Mateus 9,35–10,1.6–8


O tempo do Advento nos coloca em expectativa ativa. Somos chamados a esperar com vigilância, preparando o caminho do Senhor, atentos à sua presença no mundo e nas pequenas coisas da vida cotidiana. Mateus nos apresenta Jesus percorrendo aldeias e cidades, entrando nas sinagogas, ensinando e proclamando que o Reino dos Céus estava próximo, curando toda enfermidade e fragilidade. Ele olha para as multidões e sente compaixão: “Estavam aflitas e desamparadas, como ovelhas sem pastor” (Mt 9,36). A metáfora da ovelha dispersa revela a fragilidade humana diante da solidão, da dor, da fome, da marginalização e da injustiça. Também aponta para a responsabilidade comunitária: um rebanho sem guia evidencia a necessidade de liderança justa, próxima, solidária e servidora.
A compaixão de Jesus, expressa pelo termo grego splagchnizomai, não é mero sentimentalismo. É uma empatia que move o corpo, a mente e o coração, levando à ação concreta. Ele se aproxima do sofrimento humano, toca, cura, ensina e liberta. Historicamente, a Palestina do século I era marcada por desigualdade, exploração e opressão. Hoje, as periferias urbanas, os centros de trabalho, escolas e hospitais revelam feridas semelhantes: pobreza, violência, desvalorização da vida, abandono. Psicologicamente, a compaixão de Cristo nos ensina a cultivar empatia ativa: não basta compreender; é preciso agir. Filosoficamente, a ética do Reino se realiza no agir justo, na solidariedade e na transformação concreta da vida alheia.
Mateus enfatiza que Jesus percorria cidades e aldeias, ensinando nas sinagogas, proclamando a Boa Nova e curando toda enfermidade (Mt 9,35). Cada gesto de cura, cada palavra de anúncio é pedagógico: o Reino se manifesta em ação, presença, compaixão. Os milagres não são espetáculos ou demonstração de poder; são sinais de libertação e dignidade restaurada. O Evangelho ensina que anunciar o Reino exige presença concreta, atenção às dores humanas e coragem de enfrentar estruturas que oprimem.
O envio dos discípulos, registrado em Mateus 10,1.6‑8, apresenta a missão como tarefa compartilhada: Jesus chama os doze e lhes concede autoridade sobre espíritos impuros, para curar enfermidades e proclamar o Reino. Lucas 10,1–2 descreve o envio dos 72 discípulos, destacando simplicidade e dependência de Deus; Marcos 6,7–13 enfatiza a radicalidade do testemunho e a confiança na providência. João 10,11–16 reforça a imagem do Bom Pastor, que dá a vida pelas ovelhas e convoca colaboradores para cuidar do rebanho. Patrísticos como Orígenes e Santo Agostinho veem o envio como participação na missão de Cristo: autoridade é serviço, liderança é cuidado, poder é libertação e não dominação.
O texto de Mateus é repleto de símbolos ricos: a ovelha representa fragilidade e busca de cuidado; o pastor, liderança servidora e proteção; o campo de messe, vocação e corresponsabilidade; o poder sobre espíritos impuros, autoridade ética e espiritual voltada à libertação integral. Cada símbolo nos convida a refletir sobre nossa própria vocação: cuidar, servir, curar, libertar e transformar o mundo em consonância com o Reino.
O Documento 105 da CNBB reforça que leigos e leigas são sujeitos eclesiais, com vocação própria, chamados a atuar no mundo e na Igreja. Pelo Batismo e Crisma, participam do sacerdócio, da profecia e da realeza de Cristo. A missão laical se realiza em todas as dimensões da vida cotidiana: família, trabalho, escola, cultura, política e sociedade. O laicato não é auxiliar ou secundário: é protagonista da evangelização, agente de justiça, esperança e transformação social.
O Evangelho denuncia o clericalismo e a concentração de poder. Jesus distribui autoridade, confia e envia. Liderança cristã é servidora, nunca opressiva. Distorções como a teologia da prosperidade, a fé-mercadoria e o individualismo prometem milagres, riquezas e prestígio em troca de fé, mas contradizem radicalmente a pedagogia de Cristo. O discípulo é chamado a entregar-se ao serviço concreto, à presença junto aos pobres, doentes e marginalizados, promovendo a transformação social e libertação integral.
Sociologicamente, leigos e leigas conhecem as feridas do mundo e podem agir de forma criativa e corresponsável, transformando estruturas, denunciando injustiças e promovendo dignidade. Psicologicamente, a vocação exige discernimento, coragem, empatia e dedicação. Filosoficamente, evidencia que o Reino se constrói com ética, justiça e ação transformadora. Historicamente, a missão continua: o mundo precisa de pastores servos, operários da messe e anunciadores da Boa Nova, capazes de transformar estruturas sociais, familiares e políticas.
A vocação laical encontra sua expressão concreta na vida diária: professores que educam com ética e esperança, médicos e enfermeiros que cuidam com dedicação, agentes sociais que promovem justiça, famílias que educam na fé e no amor, jovens que atuam nas comunidades e periferias. Cada gesto de compaixão, justiça e solidariedade é expressão do Reino. A fé não é mercadoria; a Igreja não é palco; o Reino não é espetáculo: é serviço, ação concreta e transformação da vida humana.
No Advento, somos chamados à vigilância e à esperança ativa. A compaixão de Cristo nos desafia a agir. Cada batizado é convocado a ser presença viva do Reino: cuidar dos pobres, libertar os oprimidos, denunciar injustiças e promover fraternidade e dignidade. Cada ação concreta, cada gesto de amor e solidariedade torna-se anúncio do Reino.
A Igreja é convocada a ser corpo presente, fermento do Reino, luz no mundo. O Documento 105 da CNBB enfatiza que leigos e leigas devem ser formados, conscientes de sua missão, capazes de agir em todos os ambientes do mundo secular. Padres e consagrados caminham junto, promovendo corresponsabilidade e evitando clericalismo. Juntos, todos participam da missão profética de Cristo: libertar, curar, anunciar e servir.
A leitura deste Evangelho nos desperta à vigilância, à esperança ativa e à coragem de assumir a missão de Jesus no mundo. Que possamos ser pastores servos, operários da messe, curadores, libertadores, anunciadores do Reino, firmes na esperança, atentos à dor do mundo e generosos na ação concreta de amor. Que neste Advento, o Reino se torne realidade viva, presente em nossas mãos, nossos gestos e nossa vida inteira.
Que cada um de nós escute o chamado de Jesus, perceba sua vocação, viva com coragem e generosidade, e transforme nossas comunidades, nossas relações e nossas estruturas sociais. Que sejamos operários da messe, servos compassivos, profetas do amor e da justiça. Que, neste tempo de Advento, a espera se transforme em ação, a compaixão se transforme em cuidado e o Reino de Deus se torne realidade concreta, visível, presente em nossa vida cotidiana e na vida de todos

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

Um breve olhar sobre Mateus 9,27-31

 

O Advento sempre nos põe em movimento. É tempo de espera ativa, tempo de olhos que se abrem pouco a pouco, tempo de ver o que ainda não vemos, tempo em que Deus acende claridades nas noites mais densas. Nesse contexto litúrgico, a Igreja nos oferece, na sexta-feira da primeira semana, o episódio de Mateus 9,27-31, onde dois cegos seguem Jesus clamando: “Filho de Davi, tem piedade de nós!”. A liturgia faz este texto ressoar também de maneira próxima ao ciclo do Tempo Comum, quando se medita a sequência de milagres reunidos por Mateus no capítulo 9, formando um mosaico da compaixão messiânica. Cada cura é um lampejo escatológico. Cada gesto de Jesus é Advento em miniatura. A liturgia atualiza o gesto: ouvir essa Palavra é estar diante do mesmo Jesus que passa, que entra na casa, que pergunta, que toca, que restitui luz.

O Evangelho nos mostra que aqueles dois cegos não apenas veem Jesus passar — porque não veem — mas o escutam, o percebem, o desejam. Na narrativa mateana, a fé nasce do ouvido: “A fé vem pelo ouvir”, dirá Paulo mais tarde (Rm 10,17), e aqui essa verdade se encarna de modo literal. Antes de verem, eles creem. Antes de enxergarem, seguem. Antes de terem clareza, caminham. E aqui já somos confrontados com nossas cegueiras contemporâneas: cegueiras sociais, cegueiras políticas, cegueiras religiosas, cegueiras afetivas, cegueiras que escolhemos manter porque ver exige conversão, ver exige responsabilidade, ver exige ruptura com as sombras que alimentam nossas ilusões. Como repetimos tantas vezes: pior que o cego que não vê é o cego que não quer ouvir, o que não suporta escutar o chamado divino que desenraiza falsas seguranças.

O clamor “Filho de Davi” já é um mergulho no Antigo Testamento. É título messiânico, presente na tradição judaica, que aponta para as promessas feitas a Davi em 2Sm 7. É também eco de Isaías 35 — texto proclamado diversas vezes no Advento — onde o profeta anuncia que, nos dias messiânicos, “os olhos dos cegos se abrirão” (Is 35,5). Mateus quer deixar claro que Jesus cumpre essas promessas. E é importante recordar que, no mundo bíblico, cegueira não é apenas condição física, mas símbolo existencial, teológico e social. O cego é alguém marginalizado, impedido do culto pleno, muitas vezes reduzido à mendicância. A crença popular afirmava — como aparece em João 9 — que cegueira era punição por pecado. Jesus confronta essa mentalidade e a corrige. Ele não apenas cura o corpo: cura a imagem de Deus deformada pelos moralismos e pelos discursos religiosos culpabilizadores. Ele devolve dignidade.

O texto diz que os cegos “o seguiram”. É teologicamente ousado. Mateus utiliza akolouthein — o verbo do discipulado. Antes de verem, eles já são discípulos. Esse detalhe contradiz a lógica meritocrática da fé-mercadoria e desmonta a teologia da prosperidade, que atrela fé à visibilidade do sucesso e às evidências de bênçãos materiais. Os cegos mostram o contrário: a fé verdadeira nasce na escuridão, caminha no não-saber, atravessa a noite. Em um mundo dominado pela idolatria do controle, onde se busca um Deus que dê certezas e vantagens, o Evangelho mostra que o seguimento começa justamente sem garantias.

Eles entram na casa. Esse detalhe ecoa inúmeros episódios bíblicos onde a casa é lugar de revelação: a casa de Abraão onde passam os três visitantes (Gn 18), a casa de Matatias na resistência macabaica, a casa de Maria em Nazaré na Anunciação, a casa de Zaqueu que se transforma em templo, a casa da Última Ceia. A casa é espaço da intimidade, do desvelamento, do encontro profundo. A cura não acontece no espetáculo da rua — ao contrário do show religioso digital que busca audiência — mas no silêncio da casa. Jesus nos recorda que fé não é performance, não é palco, não é holofote, não é “live” para ganhar seguidores. A fé cresce no escondimento, no íntimo, no espaço onde Deus fala ao coração, como em Oseias 2,16: “Eu a conduzirei ao deserto e lhe falarei ao coração”.

Jesus pergunta: “Credes que eu posso fazer isso?” A pergunta é antropológica, psicológica e espiritual. Jesus não impõe a cura; convida a entrar em relação. Ele convoca a responsabilidade subjetiva. A fé é sempre encontro de duas liberdades: a divina que oferece, a humana que acolhe. Psicologicamente, esse gesto revela o respeito à autonomia do sujeito, a necessidade de que quem sofre participe da própria transformação. Não há cura sem consentimento. Filosoficamente, é Kierkegaard em Nazaré: Deus pede o salto, mas não empurra. A fé como confiança fundamental, como entrega do coração.

LlllDiante da declaração de fé, Jesus toca os olhos deles. O toque é sacramento: gesto concreto, sensível, que comunica graça. É gesto que atravessa fronteiras sociais, porque tocar um cego significava, para muitos, tocar a impureza. Jesus ultrapassa as fronteiras da religião rígida, denuncia com o próprio corpo o moralismo que exclui. Aqui se desmonta também toda teologia do domínio que faz do sagrado instrumento de controle. Jesus não domina; liberta. Não manipula; eleva. Não humilha; cura. A Igreja primitiva viu nesse toque um símbolo da encarnação: Deus toca a humanidade para fazê-la ver. Os Padres da Igreja, como Santo Irineu, diziam que o Verbo se faz carne para “acostumar o homem a ver Deus e acostumar Deus a habitar no homem”. Cada toque de Jesus educa o olhar humano para reconhecer a presença divina.

Quando os olhos se abrem, eles veem. O texto é rápido, direto, sem espetáculo. Mateus quer frisar que o essencial não é a visibilidade da cura, mas o encontro com o Messias. A cura é sinal do Reino que irrompe. É anúncio escatológico. São Beda o Venerável, comentando esse trecho, dizia que a cura dos cegos representa a Igreja que é iluminada pela Palavra para ver a verdade e denunciar as mentiras que circulam como luz falsa. Hoje, numa sociedade saturada de imagens e vazia de visão, somos chamados a recuperar a capacidade de ver à luz do Evangelho, e isso implica resistir às ideologias que distorcem a realidade: a extrema-direita que manipula símbolos cristãos para justificar violência, os pregadores digitais que transformam fé em produto, o clericalismo que reduz a missão a uma casta de puros e iluminados, a teologia da prosperidade que transforma Deus em caixa eletrônico de bênçãos.

Jesus os adverte severamente para não contarem a ninguém. Esse “segredo messiânico”, típico da tradição sinótica, mostra que Jesus rejeita publicidade religiosa. Ele não quer seguidores por interesse, não quer devotos ávidos por vantagens espirituais, não quer mercado de milagres. Mateus reforça isso quando recorda, mais adiante, que muitos dirão “Senhor, Senhor”, mas ouvirão: “Não vos conheço” (Mt 7,21-23). Fé não é espetáculo. Fé é verdade. E verdade não busca aplauso. Ao mandar silêncio, Jesus nos educa contra o narcisismo espiritual, contra o exibicionismo religioso, contra a fé como moeda. É crítica direta ao nosso tempo em que a religião virou mercado e celebridades eclesiais disputam espaço com influenciadores digitais.

Mas eles, ao saírem, divulgaram por toda a região. Aqui se revela a ambiguidade do coração humano. O encontro com Jesus transforma, mas nem sempre transforma plenamente. A libertação recebida é real, mas a pedagogia do Reino exige ainda maturidade. Mesmo assim, o Evangelho mostra que Deus age não por causa de nossa perfeição, mas apesar de nossas imperfeições. Isso é profundamente cristológico e profundamente pastoral. Deus não age só quando estamos prontos; age para nos tornar prontos.

Mateus insere esse episódio em um capítulo marcado por um duplo movimento: Jesus cura e envia. Logo depois, ele olha as multidões e se compadece porque são “como ovelhas sem pastor” (Mt 9,36), e então envia os discípulos para a missão (Mt 10). A cura da cegueira antecede a missão: só pode ser enviado quem aprendeu a ver. Não se evangeliza sem conversão do olhar. Sem essa conversão, a religião vira arma, vira ideologia, vira domínio. A extrema-direita pseudo-religiosa que usa cruz como símbolo de guerra revela a cegueira espiritual de quem nunca deixou Jesus tocar seus olhos. O clericalismo que se arroga superioridade moral revela a cegueira de quem não entende que a missão nasce da compaixão, não do poder. A teologia da prosperidade revela a cegueira de quem substituiu o Evangelho pelo mercado.

O Advento, então, nos chama a pedir olhos novos. Pedir para ver a realidade como Deus vê: ver as dores sociais, ver as injustiças, ver os que sofrem, ver os marginalizados, ver os que são cegados pelo sistema. A sociologia nos ajuda a enxergar como estruturas de desigualdade produzem cegueiras coletivas; a antropologia nos recorda que toda cultura carrega sombras que precisam ser iluminadas; a filosofia mostra que há verdades que só se percebem quando deixamos cair as ilusões; a psicologia revela como traumas, medos e defesas internas nos impedem de ver a realidade espiritual e afetiva. O Evangelho integra tudo isso e ilumina tudo isso, porque a fé cristã é sempre encarnada, nunca é fuga do real.

O gesto de Jesus abre também uma crítica profética às espiritualidades individualistas. Os cegos caminham juntos. A cura acontece na communio. Não existe cristão solitário. A Igreja ― como lembra Fratelli Tutti ― só existe como fraternidade universal, como laço que une diferentes. A cura dos cegos é ícone dessa experiência: caminhar junto, clamar junto, crer junto. A fé não é mero esforço pessoal; é encontro, é relação, é povo. O Magistério da Igreja, especialmente no Vaticano II, sublinha o caráter comunitário da salvação. Lumen Gentium recorda que ninguém se salva sozinho; Gaudium et Spes insiste que as alegrias e esperanças, tristezas e angústias de cada pessoa são também as da Igreja.

Assim compreendemos que o Advento é escola de olhar. É tempo de cura das cegueiras que cultivamos, voluntárias ou involuntárias. É tempo de deixar o Cristo tocar o que ainda não vemos. É tempo de escutar sua pergunta: “Crês que eu posso fazer isso?” A liturgia de hoje não é memória distante, mas convocação presente. Somos os cegos que clamam e somos também os cegos que resistem à luz. Somos os que recebem a cura e os que ainda não compreendem plenamente. Somos os que precisam deixar Deus desfazer nossas sombras políticas, eclesiais, afetivas, espirituais. O toque de Jesus é sempre libertação: liberta da mentira, da manipulação, do medo, da ideologia, da religião vazia, do clericalismo que obscurece, da fé utilitária que cega, da espiritualidade de consumo que embota.

Que este Advento seja tempo de ver, tempo de luz, tempo de cura. Que a Palavra abra nossos olhos como abriu os daqueles dois cegos. Que possamos ver o que Deus vê e denunciar o que Deus denuncia. Que possamos caminhar juntos até que a noite se dissolva e o Cristo, Sol da Justiça, nasça em nós.



DNonato – Teólogo do Cotidiano

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

Um breve olhar sobre Mateus, 7, 21.24-27

 
O Advento sempre nos coloca nesse limiar onde promessa e cumprimento se abraçam, nesse lugar simbólico em que o ainda-não já começa a iluminar o agora. É como se Deus acendesse uma luz detrás das montanhas antes que o sol realmente surgisse. Por isso, proclamar Mateus 7,21.24-27 na quinta-feira da primeira semana do Advento não é apenas uma escolha litúrgica coerente: é um gesto profundamente escatológico, que nos devolve ao coração do Sermão da Montanha. Nesse trecho final, Jesus não fala apenas do futuro distante, mas revela as estruturas invisíveis que sustentam — ou desabam — o presente. É um texto que provoca, desinstala e purifica. E, quando esse Evangelho é lido em celebrações matrimoniais, ele ilumina a verdade fundamental de toda vida compartilhada: não existe casa, relacionamento, família, projeto ou futuro que sobreviva à força do tempo se não estiver alicerçado na rocha que sustenta o peso dos ventos, da história, da crise e da verdade. E aqui, desde já, é preciso afirmar: a rocha não é um sistema de crenças; é um modo de viver. Não é uma teoria; é um estilo de existência configurado ao Cristo.

O texto funciona como um selo interpretativo de tudo o que foi proclamado antes. Ele fecha o Sermão da Montanha com uma nota profética, quase cortante, que impede qualquer leitura superficial. É como se Jesus dissesse: “Vocês ouviram discursos intensos. Agora vejam se desejam realmente viver o que ouviram.” A advertência é dura, mas profundamente amorosa. Ela ecoa a crítica que Deus faz por meio de Ezequiel: o povo ouve o profeta como quem escuta uma canção bela, mas não põe em prática nada do que ouviu (Ez 33,30-32). É a mesma tensão aqui: gente que ama a estética da religião, mas rejeita sua ética; gente que aprecia a poesia do Evangelho, mas não aceita a conversão que ele exige. A palavra que não se encarna torna-se ilusão. E, como dirá Tiago, é autoengano (Tg 1,22).

Nesse sentido, o texto sintoniza com o espírito do Advento. Porque o Advento nunca permitiu superficialidade. Ele não é tempo de brilho artificial, mas de vigilância. Não é tempo de slogans religiosos, mas de esvaziamento e prontidão. Não é tempo de espetáculo, mas de preparação. A lógica do Advento é a lógica da rocha: firme, silenciosa, consistente, paciente. E é exatamente por isso que Mateus 7,21.24-27 é tão providencial tanto para quem se prepara para a vinda do Senhor quanto para quem inaugura uma vida matrimonial. O amor, como a fé, não se sustenta em euforia; sustenta-se em decisão, em perseverança, em responsabilidade. Toda casa sólida é invisivelmente construída com escolhas diárias. Por isso, Jesus não fala de doutrina, mas de prática; não fala de ideias, mas de fundações.

A parábola dos dois construtores não é uma metáfora arquitetônica isolada. Ela mergulha na antropologia bíblica, na psicologia humana, na sociologia do cotidiano e no universo simbólico da casa mediterrânea. No mundo bíblico, a casa não é apenas um abrigo; é o espaço da memória, da continuidade, da proteção, da fé doméstica, do nome que permanece. Construir sobre areia, portanto, não é apenas um erro de engenharia: é uma afronta ao bom senso ancestral. Aquele que constrói sobre areia é alguém seduzido pela facilidade, alguém que busca beleza rápida, alguém que se deixa levar por atalhos. O insensato da parábola não é preguiçoso — é superficial. Ele é o ícone da espiritualidade líquida descrita por Zygmunt Bauman: uma religião sem aderência, uma fé sem profundidade, um pertencimento sem raízes.

E aqui a crítica de Jesus se torna cirúrgica para nosso tempo. Ele denuncia antes de nós as teologias que hoje seduzem multidões: a teologia da prosperidade, que promete bênçãos sem cruz; a teologia do domínio, que promete poder sem serviço; o evangelho do individualismo, que promete autonomia sem comunhão; a fé-mercadoria, que trata Deus como produto e a Igreja como mercado. Todas essas narrativas constroem casas impressionantes por fora, mas frágeis por dentro. São palácios erguidos na areia da performance religiosa. E o pior é que essas casas muitas vezes se sustentam enquanto o tempo está bom, mas basta um vento — uma doença, um luto, uma crise econômica, um escândalo, uma crise moral — e tudo desaba. Porque o Evangelho não promete estabilidade sem fundação.

Nesse ponto, o texto dialoga com Lucas 6,46-49, onde Jesus formula a mesma advertência: “Por que me chamais ‘Senhor, Senhor’, e não fazeis o que eu digo?” A duplicidade é uma forma de idolatria. O discurso religioso que não se traduz em vida transforma Deus em adereço. E o adorno não sustenta ninguém na tempestade. Os profetas já haviam denunciado isso: Isaías, ao criticar a aliança feita sobre mentiras (Is 28,15-17); Jeremias, ao denunciar o templo que se torna esconderijo de injustiças (Jr 7,1-11); Amós, ao revelar que Deus rejeita cantos e sacrifícios quando a justiça não corre como um rio (Am 5,21-24). A Bíblia inteira sabe que fé sem obras é areia.

A patrística ecoa essa leitura de modo esplêndido. São João Crisóstomo ensina que o maior perigo não é a tempestade, mas a falsa sensação de segurança. Agostinho afirma que a rocha é a caridade vivida — “não a que se declara, mas a que se pratica”. São Basílio insiste: “obra sem amor é casa sem alicerce: exteriormente bela, interiormente oca”. Orígenes, comentando Mateus, vê na tempestade a metáfora das provações que revelam o verdadeiro fundamento. Tertuliano recorda que a fé cristã não se sustenta no discurso, mas no testemunho. E Gregório de Nissa interpreta a rocha como o próprio Cristo, cuja firmeza nos transforma. A tradição inteira converge: ouvir sem praticar é construir na areia da ilusão.

E esse Evangelho precisa tocar a Igreja hoje, especialmente suas formas de poder. O clericalismo é areia — e Jesus o denuncia sem piedade. É areia quando transforma o ministério em plataforma de visibilidade; quando troca serviço por prestígio; quando confunde autoridade pastoral com poder social; quando reduz o Evangelho a regras, códigos, opiniões pessoais, discursos moralistas ou teatralizações litúrgicas. O clericalismo constrói casas altíssimas, mas de vidro. A primeira tempestade pública derruba, expõe e escancara a fragilidade. E por quê? Porque a rocha não é a instituição; é o Cristo servidor.

Do ponto de vista psicológico, a imagem da tempestade é uma das mais ricas da Escritura. Ventos, chuvas, enchentes evocam crises, ansiedades, traumas, rupturas. A casa construída sobre areia é a vida emocional sustentada por validação externa, por autoimagem, por aplauso, por superficialidade. Ela desmorona porque não possui recursos internos de enfrentamento. É a personalidade dependente da performance. Já a casa construída sobre rocha é a vida integrada, coerente, enraizada em valores, vínculos, espiritualidade encarnada, sentido profundo. A rocha é a integridade que unifica. É a coerência entre o que digo e o que faço, entre o que anuncio e o que vivo, entre o que prometo e o que sustento.

Sociologicamente, vivemos em tempos de fundações frágeis. Tudo é líquido, instável, descartável. Relações, instituições, identidades, compromissos — tudo parece provisório. A metáfora da casa atravessa nossa contemporaneidade: famílias desestruturadas por pressões econômicas, vínculos afetivos corroídos pelo individualismo, comunidades esvaziadas pela lógica de consumo, espiritualidades transformadas em produtos. Em uma sociedade assim, construir sobre rocha parece quase absurdo — mas é exatamente o que salva. A rocha não tira a liberdade; oferece sentido. Não suprime o movimento; impede o colapso.

Teologicamente, a imagem da casa dialoga com toda a Escritura. Em Provérbios, a casa do justo permanece, mas a dos ímpios cai (Pr 12,7). No Salmo 127, afirmamos: “Se o Senhor não constrói a casa, em vão trabalham os construtores.” No Apocalipse, a Nova Jerusalém é construída sobre doze fundamentos (Ap 21,14). Paulo afirma que ninguém pode pôr outro fundamento além de Cristo (1Cor 3,11). A casa é símbolo do ser, da comunidade, da Igreja, da humanidade.

Quando esse texto é proclamado em um matrimônio, adquire espessura sacramental: o amor é a arte de construir. O amor começa bonito, mas permanece somente quando se torna trabalho diário. O casal que deseja estabilidade precisa cavar, aprofundar, resistir, recomeçar. Não existe casamento sem tempestade. Tempestade não é sinal de fracasso, mas de realidade. A diferença entre queda e permanência nunca é a tempestade — é o fundamento. Casamentos construídos na areia da vaidade, da mentira, do ciúme, da falta de diálogo, do individualismo e da espiritualidade superficial ruem com o tempo. Mas casamentos construídos na rocha do perdão, da fidelidade, do diálogo honesto, da espiritualidade concreta e do amor real permanecem.

Os documentos da Igreja refletem isso com clareza. Dei Verbum insiste que a audição da Palavra exige obediência da fé. Gaudium et Spes recorda que toda estrutura humana baseada na injustiça ruirá sobre os pobres. Evangelii Gaudium denuncia o mundanismo espiritual como areia perigosa. Fratelli Tutti afirma que sociedades construídas sobre interesse e polarização desabam inevitavelmente. O Magistério confirma o ensinamento de Jesus: casas sem fundamento ético, espiritual e comunitário desmoronam — sejam casas individuais, familiares, eclesiais ou sociais.

E a história também confirma. Quando a Igreja se uniu demais ao poder, perdeu a rocha. Quando se uniu aos pequenos, tornou-se rocha para eles. Quando seguiu César, caiu. Quando seguiu Cristo, sustentou. A profecia de Jesus não é apenas moral: é histórica.

Por fim, o Advento nos devolve ao essencial: sobre o quê estou construindo minha vida? Quais são meus alicerces? O que resiste quando a verdade sopra forte? O que permanece quando a chuva cai? O que sustenta meus afetos, minhas escolhas, minha fé, minha família, minha comunidade, meu país? Porque a queda da casa construída sobre areia não é apenas grande — é trágica. Ela destrói não só paredes, mas histórias, vínculos, memórias, futuros. E é trágica porque poderia ter sido evitada.

O Evangelho não nos dá uma metáfora, mas um caminho. Ele nos chama à autenticidade: que a fé seja vida, não estética; que a espiritualidade seja encontro, não performance; que a Igreja seja casa, não palco; que o amor seja compromisso, não impulso. Construir sobre a rocha é fazer do cotidiano o lugar da eternidade. É permitir que o Cristo que vem encontre, ao chegar, um coração enraizado, não um coração escorado.

No Advento — e no matrimônio — essa é a promessa: preparar uma casa que possa acolher Deus e acolher o outro. Uma casa que resista ao vento porque ama a verdade; que resista à noite porque guarda a esperança; que resista ao tempo porque é construída na eternidade. Uma casa que não desaba porque conhece a força da rocha. A rocha que é Cristo — o Deus que vem, que chega silencioso, mas firme; discreto, mas invencível; terno, mas inabalável. Ele vem. Sempre vem. E quando vier, encontrará em nós uma casa construída não sobre a areia da ilusão, mas sobre a rocha da justiça, da misericórdia, da verdade e do amor que permanece.



DNonato – Teólogo do Cotidiano

terça-feira, 30 de setembro de 2025

Um breve olhar sobre Lucas 9,57-62

O Evangelho segundo São Lucas, no capítulo 9, versículos 57 a 62, nos apresenta um dos momentos mais radicais e desafiadores da caminhada de Jesus em direção a Jerusalém. Esse texto é proclamado pela liturgia em um duplo movimento que nos ajuda a compreender sua densidade. Na terça-feira da 26ª semana do Tempo Comum, a Igreja proclama Lucas 9,51-56, onde vemos Jesus “endurecer o rosto para ir a Jerusalém” e ser rejeitado pelos samaritanos, enquanto os discípulos, movidos por ímpeto humano, querem recorrer à violência, pedindo fogo do céu. Jesus, porém, os repreende e continua o caminho. Na sequência, na quarta-feira da mesma semana, ouvimos Lucas 9,57-62, três encontros decisivos em que Jesus mostra que segui-lo exige renunciar às seguranças, deixar que os mortos enterrem os mortos e não olhar para trás depois de pôr a mão no arado. Esses dois trechos, proclamados em dias sucessivos, formam uma unidade pedagógica: primeiro, a decisão irrevogável de Jesus e a correção do ímpeto de seus discípulos; depois, a exigência radical colocada a quem deseja segui-lo. A mesma narrativa completa (Lc 9,51-62) é retomada no 13º Domingo do Tempo Comum do Ano C, para que toda a comunidade cristã se confronte com a firmeza de Jesus ao iniciar sua subida a Jerusalém e assuma sem hesitações as condições do discipulado. Assim, a liturgia, ao repartir esse texto em diferentes momentos, recorda-nos que a decisão de seguir Jesus envolve tanto a firmeza do Mestre quanto a disposição dos discípulos, tanto a correção das nossas falsas imagens quanto a radicalidade da adesão.

O contexto narrativo de Lucas é carregado de força simbólica. Jesus “endurece o rosto” para ir a Jerusalém, expressão que evoca a decisão dos profetas diante da missão (cf. Is 50,7). Jerusalém é o lugar do sacrifício, da entrega, da morte e da ressurreição. É o centro da história da salvação, o lugar onde o tempo se cumpre. Caminhar para Jerusalém é caminhar para a cruz, mas também para a vida nova. Por isso, esse caminho não admite distrações nem meias medidas. O discípulo é convidado a seguir Jesus não em uma estrada cômoda, mas em um êxodo existencial, em um deserto interior que exige confiança radical. Nesse cenário, três pessoas aparecem em diálogo com Jesus. A primeira se oferece espontaneamente: “Eu te seguirei para onde quer que fores” (Lc 9,57). A resposta de Jesus soa como um choque de realidade: “As raposas têm tocas e as aves do céu ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça” (Lc 9,58). A segunda é chamada diretamente: “Segue-me” (Lc 9,59). Mas a resposta é condicionada: “Deixa-me primeiro ir sepultar meu pai.” Jesus replica: “Deixa que os mortos sepultem seus mortos; tu, porém, vai anunciar o Reino de Deus” (Lc 9,60). A terceira pessoa também se oferece, mas com a condição de despedir-se dos familiares. Jesus, então, encerra com a sentença dura: “Quem põe a mão no arado e olha para trás não é apto para o Reino de Deus” (Lc 9,62). Três encontros, três exigências, três revelações do que significa seguir Jesus.

O texto de Lucas 9,57-62 está carregado de símbolos que revelam camadas profundas do discipulado. O “Filho do Homem sem onde reclinar a cabeça” simboliza a total entrega, a renúncia às seguranças humanas e a vida itinerante do discípulo, evocando o Servo sofredor de Isaías e a peregrinação do povo de Israel pelo deserto. O pedido de deixar os mortos enterrarem os mortos não se refere apenas à literalidade do sepultamento, mas ao abandono das convenções sociais e do apego às estruturas que impedem a vida plena do Reino. O arado representa o trabalho cotidiano e a disciplina necessária para cultivar o Reino, enquanto o ato de “não olhar para trás” evidencia que o discípulo deve fixar o olhar no horizonte do Reino de Deus, sem permitir que a nostalgia, os medos ou as obrigações paralelas comprometam a missão. Cada símbolo dialoga com imagens bíblicas, patrísticas e existenciais: o arado ecoa o chamado de Eliseu por Elias, o olhar para trás lembra a esposa de Ló, e a ausência de morada remete à total confiança em Deus como verdadeira segurança.

Os paralelos nos demais sinóticos enriquecem a compreensão. Mateus (8,18-22) apresenta duas dessas exigências, sem a terceira. Lucas, ao acrescentar a terceira, radicaliza ainda mais. Essa terceira evocação remete ao chamado de Eliseu por Elias (1Rs 19,19-21). Eliseu estava lavrando a terra com doze juntas de bois, quando Elias o chama. Eliseu pede para despedir-se da família, e Elias consente. Mas Eliseu, para não voltar atrás, sacrifica os bois e queima o arado. A cena mostra que quem é chamado deve romper com as seguranças e não deixar brechas para voltar atrás. Lucas parece intensificar esse paralelo, pois em Jesus a urgência é maior: nem tempo de despedida há. O Reino já chegou, e sua exigência é imediata. Paulo ressoa essa mesma lógica em Filipenses 3,13-14: “Esquecendo o que fica para trás e lançando-me para o que está à frente, prossigo para a meta, para o prêmio da vocação celeste em Cristo Jesus.” O autor da Carta aos Hebreus reforça: “Corramos com perseverança a corrida que nos é proposta, fixando os olhos em Jesus” (Hb 12,1-2). A experiência de fé é sempre movimento para frente, nunca prisão ao passado. O Evangelho de João, em outro registro, mostra a mesma dureza: quando muitos abandonam Jesus após o discurso do pão da vida, Ele pergunta: “Também vós quereis ir embora?” (Jo 6,67). O discipulado não admite meias medidas.

O texto toca no coração das estruturas culturais do Oriente antigo. O sepultamento do pai não era apenas um dever familiar, mas a expressão máxima da identidade coletiva. Renunciar a isso parecia escandaloso. Mas Jesus provoca: o Reino inaugura um tempo novo, que relativiza até mesmo os vínculos mais sagrados. Isso não significa desprezar a família, mas ordená-la ao Reino. Hoje, quantas vezes se absolutizam valores de família, tradição ou nação como se fossem intocáveis, e acabam tornando-se ídolos? O Evangelho nos liberta desses absolutismos. O Papa Francisco, em Evangelii Gaudium (n. 53-54), lembra que a fé não pode se confundir com nacionalismo excludente nem com religiosidade autorreferencial. O discipulado exige abertura ao universal, ao pobre, ao migrante, ao descartado.

A psicologia existencial ajuda a perceber o drama humano que o texto revela. A necessidade de ter onde reclinar a cabeça é o anseio profundo de segurança, abrigo, estabilidade. Mas a fé nos convida a viver o despojamento, a suportar a vulnerabilidade. O ser humano, muitas vezes, busca máscaras de estabilidade para não encarar a própria fragilidade. O seguimento de Jesus desmonta essas máscaras. Quem quer segui-lo deve aceitar a condição de estrangeiro, de peregrino, de andarilho da fé. A verdadeira segurança não está nas posses, mas em Deus. A renúncia ao passado e às despedidas simboliza a necessidade de viver o presente com inteireza, sem deixar-se paralisar por nostalgias ou medos.

A filosofia ilumina esse horizonte. Kierkegaard via na fé um salto no absurdo, uma decisão radical que não pode ser garantida pela razão, mas apenas pela confiança. Nietzsche denunciava a vida ressentida, presa ao passado. Lévinas falava da urgência do outro: a responsabilidade pelo próximo não pode ser adiada. Arendt lembra que toda ação é início, e olhar para trás é abdicar da possibilidade de recomeço. O discípulo deve criar o novo, lançar-se para frente, confiar no futuro que Deus inaugura.

A patrística leu essas palavras com profundidade. Orígenes via no Filho do Homem sem onde reclinar a cabeça o símbolo do cristão sempre em êxodo. Agostinho advertia que quem olha para trás, depois de pôr a mão no arado, mostra coração dividido, incapaz de amar a Deus totalmente. Gregório Magno aplicava o texto aos pastores da Igreja: se buscam privilégios, não seguem o Cristo pobre. João Crisóstomo via no “não olhar para trás” a renúncia à duplicidade, e Inácio de Antioquia lembrava que “é melhor ser discípulo em silêncio do que em palavras”.

Contra a teologia da prosperidade, que promete riquezas e conforto, Jesus responde: o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça. Contra a teologia do domínio, que instrumentaliza a fé para poder político, Jesus mostra que o Reino não se impõe pela força. Contra o individualismo, que reduz a fé a projeto de autorrealização, Jesus lembra que é preciso romper vínculos egocêntricos. Contra a fé como mercadoria, o Evangelho mostra que a adesão a Cristo não se vende nem se compra. Contra o clericalismo, o texto denuncia qualquer apego a títulos, status ou honras.

Historicamente, o texto se insere no itinerário da subida de Jesus a Jerusalém. Lucas apresenta Jesus como profeta decidido, que caminha sem medo. Os discípulos, ao contrário, ainda querem recorrer à violência ou aos apegos culturais. A tensão entre Jesus e os discípulos mostra que o discipulado não é evidente nem fácil. É aprendizagem, é conversão. Sociologicamente, o texto desmascara a tentação do comodismo. Quando a fé se torna acomodada, perde sua força profética. É o que vemos hoje em igrejas que transformam o Evangelho em espetáculo, em arma ideológica ou em mercadoria. O texto lucano desmonta essas distorções e chama de volta à radicalida. O  texto revela que o ser humano é um ser de decisão. Não decidir é já escolher o comodismo. Jesus exige decisão clara. O olhar para trás simboliza a indecisão, a nostalgia, o coração dividido. O ser humano encontra sua plenitude quando aceita arriscar-se na entrega total. Esse risco é condição da liberdade. Só quem arrisca descobre o sentido pleno da vida. Só quem abandona as falsas seguranças encontra a verdadeira segurança.

Portanto, Lucas 9,57-62 é texto de exigência radical e de esperança escatológica. Ele nos lembra que o seguimento de Jesus não é romantismo nem tradição morta, mas decisão concreta, feita de pobreza, disponibilidade e firmeza. Seguir Jesus é aceitar não ter onde reclinar a cabeça, reconhecendo que a verdadeira morada é Deus, como canta o Salmo: “Tu que habitas sob a proteção do Altíssimo e moras à sombra do Onipotente” (Sl 91,1). É deixar que os mortos enterrem seus mortos, reconhecendo que a vida do Reino não pode ser paralisada por nostalgias ou tradições que não geram vida. É pôr a mão no arado e não olhar para trás, lembrando a esposa de Ló (Gn 19,26), que se petrificou ao voltar-se para o passado, e entendendo, como dizia Santo Agostinho, que “não se pode caminhar para a frente com os pés presos às correntes do ontem”.

O arado, que corta a terra e abre sulcos, é símbolo do discipulado que abre a história, sem possibilidade de ser guiado olhando no retrovisor. Como lembra Hannah Arendt, toda ação é início, novidade que se abre diante de nós; olhar para trás é abdicar da possibilidade de recomeço. O discípulo é chamado a seguir Jesus com o olhar fixo no horizonte do Reino, não como quem caminha de costas, mas como quem confia no futuro que Deus inaugura.

São João Crisóstomo via no “não olhar para trás” a renúncia a toda duplicidade de coração; Inácio de Antioquia lembrava que “é melhor ser discípulo em silêncio do que apenas em palavras”, advertindo contra desculpas que adiam a decisão. Hoje, essa mesma exigência desmascara o clericalismo que busca privilégios e o escândalo de uma Igreja que acumula seguranças enquanto proclama seguir o Cristo sem lugar para reclinar a cabeça. Denuncia também a teologia da prosperidade e do domínio, que reduzem o Evangelho a mercadoria e o transformam em instrumento de poder.

Esse texto nos convoca a romper com as falsas missões que buscam glória distante, mas se esquecem do pobre ao lado. Ele nos chama a uma Igreja que não teme perder prestígio para ganhar fidelidade ao Reino, que não negocia com a violência nem com os poderes deste mundo, mas fixa o rosto para Jerusalém como o Mestre. Em tempos em que muitos tentam controlar o sagrado para transformá-lo em palco, o Evangelho nos pede silêncio fecundo e decisão concreta.

Por isso, não é à toa que a liturgia nos entrega esse Evangelho em etapas: na terça-feira da 26ª semana do Tempo Comum, vemos a firme decisão de Jesus e sua reprovação à violência dos discípulos; na quarta-feira, ouvimos as exigências concretas do seguimento; e no 13º Domingo do Tempo Comum, contemplamos o conjunto que une a decisão de Cristo e a convocação da comunidade. Esse itinerário pedagógico nos ensina que o discipulado não é escolha isolada, mas caminho comunitário, contínuo, sustentado pela decisão irrevogável de Jesus que caminha à frente. Como afirma o Papa Francisco em Evangelii Gaudium (n. 49), “prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e pela comodidade de se agarrar às próprias seguranças”. Seguir Jesus é isso: caminhar sem olhar para trás, com coragem profética e confiança no futuro de Deus.

✍️ DNonato – Teólogo do Cotidiano