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quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

Um breve olhar sobre Mateus, 7, 21.24-27

 
O Advento sempre nos coloca nesse limiar onde promessa e cumprimento se abraçam, nesse lugar simbólico em que o ainda-não já começa a iluminar o agora. É como se Deus acendesse uma luz detrás das montanhas antes que o sol realmente surgisse. Por isso, proclamar Mateus 7,21.24-27 na quinta-feira da primeira semana do Advento não é apenas uma escolha litúrgica coerente: é um gesto profundamente escatológico, que nos devolve ao coração do Sermão da Montanha. Nesse trecho final, Jesus não fala apenas do futuro distante, mas revela as estruturas invisíveis que sustentam — ou desabam — o presente. É um texto que provoca, desinstala e purifica. E, quando esse Evangelho é lido em celebrações matrimoniais, ele ilumina a verdade fundamental de toda vida compartilhada: não existe casa, relacionamento, família, projeto ou futuro que sobreviva à força do tempo se não estiver alicerçado na rocha que sustenta o peso dos ventos, da história, da crise e da verdade. E aqui, desde já, é preciso afirmar: a rocha não é um sistema de crenças; é um modo de viver. Não é uma teoria; é um estilo de existência configurado ao Cristo.

O texto funciona como um selo interpretativo de tudo o que foi proclamado antes. Ele fecha o Sermão da Montanha com uma nota profética, quase cortante, que impede qualquer leitura superficial. É como se Jesus dissesse: “Vocês ouviram discursos intensos. Agora vejam se desejam realmente viver o que ouviram.” A advertência é dura, mas profundamente amorosa. Ela ecoa a crítica que Deus faz por meio de Ezequiel: o povo ouve o profeta como quem escuta uma canção bela, mas não põe em prática nada do que ouviu (Ez 33,30-32). É a mesma tensão aqui: gente que ama a estética da religião, mas rejeita sua ética; gente que aprecia a poesia do Evangelho, mas não aceita a conversão que ele exige. A palavra que não se encarna torna-se ilusão. E, como dirá Tiago, é autoengano (Tg 1,22).

Nesse sentido, o texto sintoniza com o espírito do Advento. Porque o Advento nunca permitiu superficialidade. Ele não é tempo de brilho artificial, mas de vigilância. Não é tempo de slogans religiosos, mas de esvaziamento e prontidão. Não é tempo de espetáculo, mas de preparação. A lógica do Advento é a lógica da rocha: firme, silenciosa, consistente, paciente. E é exatamente por isso que Mateus 7,21.24-27 é tão providencial tanto para quem se prepara para a vinda do Senhor quanto para quem inaugura uma vida matrimonial. O amor, como a fé, não se sustenta em euforia; sustenta-se em decisão, em perseverança, em responsabilidade. Toda casa sólida é invisivelmente construída com escolhas diárias. Por isso, Jesus não fala de doutrina, mas de prática; não fala de ideias, mas de fundações.

A parábola dos dois construtores não é uma metáfora arquitetônica isolada. Ela mergulha na antropologia bíblica, na psicologia humana, na sociologia do cotidiano e no universo simbólico da casa mediterrânea. No mundo bíblico, a casa não é apenas um abrigo; é o espaço da memória, da continuidade, da proteção, da fé doméstica, do nome que permanece. Construir sobre areia, portanto, não é apenas um erro de engenharia: é uma afronta ao bom senso ancestral. Aquele que constrói sobre areia é alguém seduzido pela facilidade, alguém que busca beleza rápida, alguém que se deixa levar por atalhos. O insensato da parábola não é preguiçoso — é superficial. Ele é o ícone da espiritualidade líquida descrita por Zygmunt Bauman: uma religião sem aderência, uma fé sem profundidade, um pertencimento sem raízes.

E aqui a crítica de Jesus se torna cirúrgica para nosso tempo. Ele denuncia antes de nós as teologias que hoje seduzem multidões: a teologia da prosperidade, que promete bênçãos sem cruz; a teologia do domínio, que promete poder sem serviço; o evangelho do individualismo, que promete autonomia sem comunhão; a fé-mercadoria, que trata Deus como produto e a Igreja como mercado. Todas essas narrativas constroem casas impressionantes por fora, mas frágeis por dentro. São palácios erguidos na areia da performance religiosa. E o pior é que essas casas muitas vezes se sustentam enquanto o tempo está bom, mas basta um vento — uma doença, um luto, uma crise econômica, um escândalo, uma crise moral — e tudo desaba. Porque o Evangelho não promete estabilidade sem fundação.

Nesse ponto, o texto dialoga com Lucas 6,46-49, onde Jesus formula a mesma advertência: “Por que me chamais ‘Senhor, Senhor’, e não fazeis o que eu digo?” A duplicidade é uma forma de idolatria. O discurso religioso que não se traduz em vida transforma Deus em adereço. E o adorno não sustenta ninguém na tempestade. Os profetas já haviam denunciado isso: Isaías, ao criticar a aliança feita sobre mentiras (Is 28,15-17); Jeremias, ao denunciar o templo que se torna esconderijo de injustiças (Jr 7,1-11); Amós, ao revelar que Deus rejeita cantos e sacrifícios quando a justiça não corre como um rio (Am 5,21-24). A Bíblia inteira sabe que fé sem obras é areia.

A patrística ecoa essa leitura de modo esplêndido. São João Crisóstomo ensina que o maior perigo não é a tempestade, mas a falsa sensação de segurança. Agostinho afirma que a rocha é a caridade vivida — “não a que se declara, mas a que se pratica”. São Basílio insiste: “obra sem amor é casa sem alicerce: exteriormente bela, interiormente oca”. Orígenes, comentando Mateus, vê na tempestade a metáfora das provações que revelam o verdadeiro fundamento. Tertuliano recorda que a fé cristã não se sustenta no discurso, mas no testemunho. E Gregório de Nissa interpreta a rocha como o próprio Cristo, cuja firmeza nos transforma. A tradição inteira converge: ouvir sem praticar é construir na areia da ilusão.

E esse Evangelho precisa tocar a Igreja hoje, especialmente suas formas de poder. O clericalismo é areia — e Jesus o denuncia sem piedade. É areia quando transforma o ministério em plataforma de visibilidade; quando troca serviço por prestígio; quando confunde autoridade pastoral com poder social; quando reduz o Evangelho a regras, códigos, opiniões pessoais, discursos moralistas ou teatralizações litúrgicas. O clericalismo constrói casas altíssimas, mas de vidro. A primeira tempestade pública derruba, expõe e escancara a fragilidade. E por quê? Porque a rocha não é a instituição; é o Cristo servidor.

Do ponto de vista psicológico, a imagem da tempestade é uma das mais ricas da Escritura. Ventos, chuvas, enchentes evocam crises, ansiedades, traumas, rupturas. A casa construída sobre areia é a vida emocional sustentada por validação externa, por autoimagem, por aplauso, por superficialidade. Ela desmorona porque não possui recursos internos de enfrentamento. É a personalidade dependente da performance. Já a casa construída sobre rocha é a vida integrada, coerente, enraizada em valores, vínculos, espiritualidade encarnada, sentido profundo. A rocha é a integridade que unifica. É a coerência entre o que digo e o que faço, entre o que anuncio e o que vivo, entre o que prometo e o que sustento.

Sociologicamente, vivemos em tempos de fundações frágeis. Tudo é líquido, instável, descartável. Relações, instituições, identidades, compromissos — tudo parece provisório. A metáfora da casa atravessa nossa contemporaneidade: famílias desestruturadas por pressões econômicas, vínculos afetivos corroídos pelo individualismo, comunidades esvaziadas pela lógica de consumo, espiritualidades transformadas em produtos. Em uma sociedade assim, construir sobre rocha parece quase absurdo — mas é exatamente o que salva. A rocha não tira a liberdade; oferece sentido. Não suprime o movimento; impede o colapso.

Teologicamente, a imagem da casa dialoga com toda a Escritura. Em Provérbios, a casa do justo permanece, mas a dos ímpios cai (Pr 12,7). No Salmo 127, afirmamos: “Se o Senhor não constrói a casa, em vão trabalham os construtores.” No Apocalipse, a Nova Jerusalém é construída sobre doze fundamentos (Ap 21,14). Paulo afirma que ninguém pode pôr outro fundamento além de Cristo (1Cor 3,11). A casa é símbolo do ser, da comunidade, da Igreja, da humanidade.

Quando esse texto é proclamado em um matrimônio, adquire espessura sacramental: o amor é a arte de construir. O amor começa bonito, mas permanece somente quando se torna trabalho diário. O casal que deseja estabilidade precisa cavar, aprofundar, resistir, recomeçar. Não existe casamento sem tempestade. Tempestade não é sinal de fracasso, mas de realidade. A diferença entre queda e permanência nunca é a tempestade — é o fundamento. Casamentos construídos na areia da vaidade, da mentira, do ciúme, da falta de diálogo, do individualismo e da espiritualidade superficial ruem com o tempo. Mas casamentos construídos na rocha do perdão, da fidelidade, do diálogo honesto, da espiritualidade concreta e do amor real permanecem.

Os documentos da Igreja refletem isso com clareza. Dei Verbum insiste que a audição da Palavra exige obediência da fé. Gaudium et Spes recorda que toda estrutura humana baseada na injustiça ruirá sobre os pobres. Evangelii Gaudium denuncia o mundanismo espiritual como areia perigosa. Fratelli Tutti afirma que sociedades construídas sobre interesse e polarização desabam inevitavelmente. O Magistério confirma o ensinamento de Jesus: casas sem fundamento ético, espiritual e comunitário desmoronam — sejam casas individuais, familiares, eclesiais ou sociais.

E a história também confirma. Quando a Igreja se uniu demais ao poder, perdeu a rocha. Quando se uniu aos pequenos, tornou-se rocha para eles. Quando seguiu César, caiu. Quando seguiu Cristo, sustentou. A profecia de Jesus não é apenas moral: é histórica.

Por fim, o Advento nos devolve ao essencial: sobre o quê estou construindo minha vida? Quais são meus alicerces? O que resiste quando a verdade sopra forte? O que permanece quando a chuva cai? O que sustenta meus afetos, minhas escolhas, minha fé, minha família, minha comunidade, meu país? Porque a queda da casa construída sobre areia não é apenas grande — é trágica. Ela destrói não só paredes, mas histórias, vínculos, memórias, futuros. E é trágica porque poderia ter sido evitada.

O Evangelho não nos dá uma metáfora, mas um caminho. Ele nos chama à autenticidade: que a fé seja vida, não estética; que a espiritualidade seja encontro, não performance; que a Igreja seja casa, não palco; que o amor seja compromisso, não impulso. Construir sobre a rocha é fazer do cotidiano o lugar da eternidade. É permitir que o Cristo que vem encontre, ao chegar, um coração enraizado, não um coração escorado.

No Advento — e no matrimônio — essa é a promessa: preparar uma casa que possa acolher Deus e acolher o outro. Uma casa que resista ao vento porque ama a verdade; que resista à noite porque guarda a esperança; que resista ao tempo porque é construída na eternidade. Uma casa que não desaba porque conhece a força da rocha. A rocha que é Cristo — o Deus que vem, que chega silencioso, mas firme; discreto, mas invencível; terno, mas inabalável. Ele vem. Sempre vem. E quando vier, encontrará em nós uma casa construída não sobre a areia da ilusão, mas sobre a rocha da justiça, da misericórdia, da verdade e do amor que permanece.



DNonato – Teólogo do Cotidiano

sábado, 1 de novembro de 2025

Um olhar sobre Lucas 12, 35-40 - Dia dos Fiéis Defuntos

 
As leituras que a Igreja propõe para o Dia de Finados são as seguintes sugestões:

  • Primeira leitura (do Antigo Testamento pode ser lida uma dessas): Jó 19,1.23-27a; 2 Macabeus 12,43-46; Sabedoria 3,1-9; Sabedoria 4,7-15; Isaías 15,6a.7-9; Lamentações 3,17-26; ou Daniel 12,1-3.
  • Salmo responsorial; (se esolhe um deles)23(24),1-2.3-4ab.5-6 (R. cf. v. 6); 114(116A),5.6; 115,10-11.15-16ac (R. v. 114,9); 26(27),1.4.7-8b.9a.13-14 (R. v. 1a ou 13); 22(23),1-3.4.5.6 (R. v. 1 ou 4a).
  • Segunda leitura (do Novo Testamento se escolhe uma dessas): 2 Timóteo 2,8-13; 1 Coríntios 15,20-24a.25-28; 1 Coríntios 14,7-9.10c-12; Romanos 8,31b-35.37-39; Romanos 8,14-23; Romanos 6,3-9; Romanos 5,17-21; ou Romanos 5,5-11.
  • Evangelho: João 17,24-26; João 14,1-6; João 12,23-28; João 11,17-27; Lucas 7,11-17; Marcos 15,33-39; Marcos 16,1-6; Mateus 25,1-13; Mateus 11,25-30; Mateus 5,1-12a; ou Lucas 12,35-40, qur escolhemos  para reflexão.

As escolhas das leituras  podem  variar  conforme o tempo e as circunstâncias pastorais, mas todas convergem para um mesmo horizonte de fé: a esperança da ressurreição e o chamado à vigilância. O Evangelho de João 6,37-40 proclama que “todo aquele que o Pai me der virá a mim, e o que vem a mim não o rejeitarei; [...] e eu o ressuscitarei no último dia.” Mateus 5,1-12a faz eco às Bem-Aventuranças, nas quais Jesus declara felizes os que choram, os mansos e os puros de coração — uma liturgia de consolo e promessa. Em Mateus 11,25-30, ouvimos o Cristo que acolhe os cansados e oprimidos, oferecendo repouso para as almas. Mateus 25,31-46 apresenta o juízo final, onde a medida do amor é a medida da eternidade. Lucas 7,11-17 narra a ressurreição do filho da viúva de Naim, sinal da compaixão divina. E Lucas 23,44-46.24,1-6a traz o ápice: o Cristo crucificado que entrega o espírito e o túmulo vazio que anuncia a vitória da vida sobre a morte.

Entre todas essas páginas, Lucas 12,35-40 ressoa como um eixo espiritual que costura a esperança e a responsabilidade, a eternidade e o tempo, o consolo e o compromisso. É um texto breve, mas denso, que nos convida a viver “de rins cingidos e lâmpadas acesas” — uma imagem simbólica que une a prontidão da fé e a luminosidade da consciência. Ele é proclamado na liturgia do 19º Domingo do Tempo Comum (Ano C), mas encontra ressonância profunda no Dia de Finados, quando a Igreja reza por seus filhos e filhas falecidos e recorda o mistério pascal em que todos estão mergulhados.

“Que vossos rins estejam cingidos e as lâmpadas acesas” (Lc 12,35).

O gesto de cingir os rins, na cultura semita, era sinal de quem está preparado para agir, como os hebreus na noite da Páscoa (Êx 12,11): prontos para partir, atentos à voz de Deus. A lâmpada acesa, por sua vez, remete à vigilância das virgens prudentes (Mt 25,1-13) e à luz da fé que deve brilhar em meio às trevas do mundo (Mt 5,14-16). No contexto de Finados, essas imagens tornam-se metáforas da alma desperta, do coração que vive o tempo como dom e não como espera passiva. Lucas escreve para uma comunidade que enfrenta o cansaço do adiamento da parusia — a volta do Senhor parece tardar, e a tentação do sono espiritual ronda os discípulos. Jesus, então, propõe uma pedagogia do instante: o Filho do Homem virá “na hora em que menos o esperardes” (Lc 12,40). Esse “menos esperar” não é ameaça, mas convite à autenticidade. A morte, sempre imprevisível, revela a urgência de viver o presente em plenitude. A espiritualidade lucana aqui é profundamente existencial: o que conta não é quando o Senhor virá, mas como estamos vivendo enquanto Ele demora.

O pretexto imediato do texto — o contexto narrativo — é o discurso sobre o servo fiel e prudente (Lc 12,41-48), onde se enfatiza que a responsabilidade cresce com o dom recebido. No contexto mais amplo, há um paralelo claro com Mateus 24,42-51 e Marcos 13,33-37: “Vigiai, pois, porque não sabeis quando virá o dono da casa.” Em todos os sinóticos, a vigilância é atitude escatológica e ética ao mesmo tempo. Vigiar é viver o tempo como sacramento: o agora é o espaço onde a eternidade toca a história.

A antropologia do texto é profunda. O ser humano é visto como peregrino, servo e hóspede — não dono do tempo, mas guardião dele. A filosofia da existência ecoa aqui: o tempo não é inimigo, é o tecido no qual o sentido se borda. Heidegger chamaria isso de “ser-para-a-morte”, mas em Lucas há um “ser-para-o-Encontro”. A morte não é aniquilação, mas travessia. O ser humano, consciente de sua finitude, é convidado a viver de modo vigilante, amoroso e justo. A fé, portanto, não nega a morte; ilumina-a.

Do ponto de vista psicológico, o texto combate duas tentações opostas: a negação e o desespero. A negação tenta fazer a vida parecer eterna; o desespero antecipa a morte antes do tempo. Jesus propõe a serenidade da vigilância: não medo, mas sentido. Vigiar é manter a alma desperta, é ter o coração acordado para o essencial. Na linguagem simbólica do Evangelho, a lâmpada acesa é também a consciência reta — aquela que, segundo Santo Agostinho, é “a morada de Deus no homem”.

A sociologia do texto nos convida a ver a vigilância não como isolamento, mas como responsabilidade comunitária. Em tempos de individualismo e religiosidade autocentrada, Lucas recorda que o servo fiel é aquele que serve os outros enquanto espera. O contrário da vigilância é o comodismo de quem transforma a fé em consumo, o Evangelho em mercado, a esperança em anestesia. A teologia da prosperidade, que promete bens imediatos e transforma Deus em distribuidor de riquezas, é justamente o oposto do Evangelho deste dia. O servo fiel não acumula, partilha; não espera ser servido, mas serve.

Há ainda uma crítica implícita à teologia do domínio — aquela que imagina o Reino de Deus como conquista de poder político ou moral. Em Lucas, o Senhor “se cingirá e fará os servos sentar-se à mesa, e passando, os servirá” (Lc 12,37). É a inversão radical: o Senhor se torna servo. A lógica do Reino é a do serviço e da humildade, não do domínio e do prestígio. São João Crisóstomo dizia: “Se queres honrar o corpo de Cristo, não o desprezes quando o vês nu.” A vigilância se mede na compaixão.

Nesse sentido, o Dia de Finados é também um ato de denúncia: contra a idolatria do poder e a banalização da morte. Vivemos numa sociedade que fala da morte apenas quando ela serve ao espetáculo ou à estatística. A espiritualidade cristã, porém, nos convida a olhar a morte com reverência e responsabilidade. Cada vida é um evangelho vivido; cada morte é um capítulo que se encerra nas mãos do Autor da existência.  O banquete do Reino, que Jesus promete aos servos vigilantes, é o mesmo que se cumpre nas parábolas e nas promessas pascais. João 6,37-40 é o espelho da esperança: “Esta é a vontade do Pai: que eu não perca nenhum dos que me deu, mas os ressuscite no último dia.” Mateus 25,31-46 nos lembra que essa ressurreição se decide na caridade concreta: “Tive fome e me destes de comer...” A vigilância é o amor em movimento.

 Santo Irineu dizia que “a glória de Deus é o homem vivo, e a vida do homem é a visão de Deus.” Santo Agostinho via na morte a passagem do tempo para o eterno: “Não morre quem vive em Deus, apenas se muda de casa.” São Gregório Magno, comentando a vigilância, afirmava que “esperar o Senhor é já participar de Sua vinda.” Assim, rezar pelos mortos é também reconhecer que permanecemos ligados a eles no amor — a comunhão dos santos é uma trama viva entre o tempo e a eternidade.

A Gaudium et Spes (n. 18) afirma com ternura e realismo: “O mistério da morte faz com que todo o esforço humano pareça inútil; no entanto, o instinto do coração leva o homem a rejeitar e repelir a ruína total e o fim definitivo de sua pessoa.” A esperança cristã nasce justamente dessa tensão: não negamos a morte, mas a transfiguramos na luz da Páscoa. A Evangelii Gaudium (n. 272) recorda que “a fé é a memória do futuro”, e a Fratelli Tutti (n. 215) fala dos encontros e desencontros que continuam além do túmulo, na comunhão do amor.

Há também um aspecto pastoral e histórico: o Dia de Finados nasceu no século XI, quando São Odilon de Cluny instituiu a celebração para lembrar os mortos esquecidos (narrado aqui em nosso blog),  os pobres, os anônimos, os que não tinham quem rezasse por eles. Isso é profundamente evangélico. Recordar os mortos é resistir ao esquecimento, é recusar a lógica do descarte. É proclamar que ninguém se perde na memória de Deus. 

Nessa luz, a vigilância de Lucas 12 é também a memória ativa da vida. Cingir os rins é preparar-se para amar. Manter a lâmpada acesa é manter a consciência desperta diante das injustiças. O servo fiel, hoje, é aquele que se opõe à cultura da indiferença, à fé mercantilizada, ao clericalismo que transforma o serviço em privilégio. Vigiar é não adormecer diante da fome, da exclusão, da violência. É carregar dentro do coração uma chama que denuncia e anuncia. Por isso, o texto de Lucas 12 é também um espelho escatológico da parábola das dez virgens (Mt 25). Ambas falam da espera, mas com uma diferença: aqui o foco não está apenas na chegada do noivo, mas na atitude dos servos. É uma espera ativa, comunitária, ética. O servo fiel é aquele que, mesmo quando o Senhor demora, continua acendendo lâmpadas no mundo. A esperança cristã é subversiva porque não espera de braços cruzados; constrói o Reino enquanto espera.

Na morte, o tempo humano toca o mistério divino. O servo que vigia é aquele que vive a cada instante como se fosse o primeiro e o último. A vida cristã é um “agora” contínuo. Como dizia São Francisco de Assis: “Bem-aventurado o servo que ama seu irmão quando está longe como quando está perto; se a morte o encontra amando, ela o encontrará pronto.”  

Ao rezarmos neste dia pelos fiéis defuntos, não apenas pedimos por eles, mas também aprendemos com eles. A morte dos que amamos se torna palavra que nos ensina a viver. As lápides são evangelhos silenciosos, e o cemitério é o mais eloquente dos templos. Ali, entre nomes e datas, Deus escreve o evangelho da eternidade: “Ele não é Deus dos mortos, mas dos vivos” (Lc 20,38). Vigiar, portanto, é viver reconciliado com o tempo, com os outros e consigo mesmo. É caminhar entre os túmulos com o coração cheio de ressurreição. É olhar o crucificado de Lucas 23 e ouvir de novo: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito.” É acordar com as mulheres ao amanhecer de Lucas 24 e ouvir o anjo dizer: “Por que buscais entre os mortos aquele que vive?”

Finados não é dia de luto apenas; é dia de lucidez. É memória e profecia. É chamado a manter as lâmpadas acesas, mesmo quando a noite parece longa. É a celebração da comunhão que ultrapassa a morte e a afirmação de que, em Cristo, toda ausência é promessa de reencontro.

“Felizes os empregados que o Senhor encontrar acordados quando chegar.” (Lc 12,37).

Felizes os que permanecem fiéis à esperança, mesmo entre as cinzas. Felizes os que não vendem a fé nem negociam a consciência. Felizes os que amam até o fim, porque o fim é apenas o outro nome do início. Assim, no Dia de Finados, o Evangelho nos devolve a coragem do instante e a serenidade da eternidade. A morte é o ponto final da gramática terrena, mas o Espírito escreve, logo abaixo, uma vírgula: “Ressuscitou.”

DNonato – Teólogo do Cotidiano

domingo, 20 de julho de 2025

Amizade: do lado esquerdo do peito

Há companhias que apenas ocupam espaço, presenças que não aquecem, cuidados que escondem controle. E há amizades que, mesmo à distância, nos alcançam como sol em dia nublado. O tempo, com suas partidas e encontros, nos ensina que estar junto é mais do que simplesmente compartilhar o mesmo lugar. Amizade é quando a alma reconhece no outro um lugar possível de refúgio, de riso e de verdade. É quando o “nós” se torna tão denso que dissolve os muros do “eu”. Onde não há mais cálculo, mas comunhão. Onde amar não depende do merecimento, mas da mútua pertença. Na amizade verdadeira, não há competição de dores, não há silêncio como punição, nem há acúmulo de mágoas escondidas sob sorrisos mecânicos. A amizade é uma forma de amor que não exige retorno nem contrato: ela é livre como o vento e firme como raiz.

O Papa Francisco, em Fratelli Tutti (n. 215), afirma:  “Na vida há momentos em que sentimos que as palavras não bastam. Precisamos de gestos, de presenças, de abraços que nos sustentem. Os encontros são essenciais. Mas também os desencontros nos moldam. O importante é não deixar que os desencontros se tornem muros intransponíveis.”

Quantas amizades se perderam por falta de escuta, por mágoas não ditas ou por escolhas que criaram distâncias... E mais recentemente, quantas se destruíram por motivações religiosas e políticas, que deveriam ser caminhos de construção e não de separação? Como Jacó e Esaú, que se reencontraram com lágrimas depois de tanto afastamento (Gn 33), também nós somos chamados a transformar nossos desertos afetivos em abraços possíveis.

“Você, meu amigo de fé, meu irmão camarada” — cantou Roberto Carlos na canção Amigo (1977), composta por ele e Erasmo Carlos. E Milton Nascimento eternizou a amizade como algo para se guardar “do lado esquerdo do peito”, em sua Canção da América (1980), escrita com Fernando Brant. Já Amizade é Tudo (Thiaguinho e Rodriguinho, 2014) nos lembra que, mesmo quando tudo desaba, “quem é de verdade sabe quem é de mentira”. Em tempos de solidão coletiva, em que vínculos se desfazem como stories de 24 horas e afetos viram curtidas descartáveis, urge redescobrir a amizade como sacramento cotidiano.

A Bíblia está repleta de amizades que marcaram destinos. Davi e Jônatas fizeram uma aliança selada com lágrimas e fidelidade (1Sm 18–20). Davi também encontrou em Natã não um bajulador, mas um amigo profético que teve coragem de confrontá-lo com a verdade (2Sm 12). Paulo teve em Timóteo um verdadeiro “filho na fé” (1Tm 1,2), alguém com quem partilhou não apenas a missão, mas também as aflições da caminhada. Jesus chamou os discípulos de amigos, não servos (Jo 15,15), pois amizade é partilha do coração. E como diz a sabedoria do Eclesiástico: “Um amigo fiel é um refúgio seguro; quem o encontra, encontrou um tesouro. Um amigo fiel não tem preço, e seu valor é incalculável” (Eclo 6,14-16).

No mundo greco-romano, a amizade era considerada uma das formas mais nobres de afeição. Aristóteles dizia que “sem amizade, ninguém escolheria viver, mesmo que tivesse todos os outros bens” (Ética a Nicômaco, VIII). Já o Islã valoriza profundamente a irmandade e o companheirismo sincero (ukhuwah), como reflexo da solidariedade desejada por Alá. No candomblé, a amizade é vivida em forma de comunidade e ancestralidade partilhada — cada filho de santo é irmão. Nas culturas indígenas da América do Norte, o amigo é chamado de “irmão de espírito”; na tradição maia, da América Central, ser amigo é ter “coração compartilhado”; e no Brasil profundo, entre os povos originários, amizade é mais que palavra: é plantar e colher junto, dançar e chorar junto, é ser parte viva do mutirão da existência, onde ninguém se salva sozinho.

Agora, convidemos os amigos e amigas para um mosaico musical de afetos. Cada título de canção abaixo é uma forma de dizer que a amizade resiste, persiste e renasce:

Canções em português:

Amigo é pra essas coisas (1970 – Aldir Blanc & Silvio da Silva Jr.),

Você é meu amigo de fé, meu irmão camarada (1977 – Roberto Carlos),

Amizade Sincera (1991 – Renato Teixeira & Sérgio Reis),

Amizade é tudo (2014 – Thiaguinho & Rodriguinho),

Velha infância (2002 – Tribalistas),

Trem Bala (2016 – Ana Vilela),

Meus bons amigos (1999 – Lulu Santos),

A amizade é mesmo assim (2006 – Eliana),

O que é, o que é? (1982 – Gonzaguinha),

Pra ser feliz (2009 – Daniel),

Amigo estou aqui (1995 – Toy Story),

Meu amigo Jesus (2012 – Adriana Arydes),

Amizade (2001 – Padre Zezinho),

De amigo pra amigo (2013 – Anjos de Resgate),

Canção da América (1980 – Milton Nascimento),

Amigos para sempre (1992 – José Carreras & Sarah Brightman).

Clássicos internacionais:

You’ve Got a Friend (1971 – Carole King)

With a Little Help from My Friends (1967 – The Beatles)

Stand By Me (1961 – Ben E. King)

Count On Me (2010 – Bruno Mars)

That’s What Friends Are For (1985 – Dionne Warwick & Friends)

I’ll Be There for You (1995 – The Rembrandts)

I Will Be Here (1989 – Steven Curtis Chapman)

The Wind Beneath My Wings (1989 – Bette Midler)

True Colors (1986 – Cyndi Lauper)

Bridge Over Troubled Water (1970 – Simon & Garfunkel)

Forever Friends (1998 – Sandi Patty)

Lean On Me (1972 – Bill Withers)

Esses títulos, por si só, já formam mensagens que merecem ser lidas como pequenos evangelhos da convivência. Por exemplo:

🧡 Amigo é pra essas coisas. Você é meu amigo de fé, meu irmão camarada. Amizade sincera é tudo. Na velha infância ou no trem bala da vida, com meus bons amigos, a amizade é mesmo assim. O que é, o que é? Pra ser feliz. Amigo, estou aqui, meu amigo Jesus. De amigo pra amigo, seguimos juntos. Amigos para sempre, guardados do lado esquerdo do peito.

🌍 Mensagem com títulos internacionais (tradução entre parênteses):

You’ve Got a Friend (Você tem um amigo), and With a Little Help from My Friends (com uma ajudinha dos meus amigos), we Stand By Me (estamos ao seu lado) and Count On Me (conte comigo). That’s What Friends Are For (é pra isso que servem os amigos) — because I’ll Be There for You (estarei lá por você). Even when life shakes, I Will Be Here (estarei aqui), like The Wind Beneath Your Wings (o vento sob suas asas), showing your True Colors (suas verdadeiras cores). We walk together, always building Bridge Over Troubled Water (ponte sobre águas turbulentas), because we are Forever Friends (amigos para sempre). And in the silence of the journey, I whisper: Lean On Me (apoie-se em mim).

Porque no final, toda verdadeira amizade é também uma pequena bênção que Deus nos confiou. Que saibamos cuidar, perdoar, recomeçar. Que não nos falte coragem de dizer: “Me perdoa”, “Senti sua falta”, “Conta comigo”.

Oração da amizade 

Senhor, amigo fiel dos pequenos e quebrantados,ensina-nos a cultivar a amizade como se cultiva uma planta rara: com paciência, com verdade, com amor gratuito.

Dá-nos coragem para reconstruir pontes, dá-nos sabedoria para silenciar quando o ego quiser ferir, e humildade para reconhecer os amigos como sinais da Tua presença.

Que nunca nos falte ombro, riso e escuta.

Que nossas amizades, Senhor, sejam sinais vivos desse Salmo antigo que canta:  “Oh! Como é bom e agradável viverem unidos os irmãos!” (Sl 133,1)

E que em cada reencontro, ecoe em nós o Teu Evangelho: “Já não vos chamo servos… mas amigos” (Jo 15,15).

Amém.



DNonato - Teólogo do Cotidiano 

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