domingo, 19 de julho de 2026

Um breve olhar sobre Mateus 13,24-30,

O Evangelho de Mateus 13,24-30, que narra a Parábola do Joio e do Trigo, é proclamado na Liturgia da Igreja Católica Romana no sábado da 16ª Semana do Tempo Comum, anualmente. Entretanto, quando esse sábado coincide com uma celebração de maior grau litúrgico,  como a Festa de São Tiago Apóstolo, celebrada em 25 de julho, cujo Evangelho próprio é Mateus 20,20-28 —, a liturgia da festa prevalece sobre a do Tempo Comum, conforme as normas do calendário litúrgico, continuando o Evangelho  da sexta-feira Mateus  13 , 18-23   preparando o texto  da segunda-feira  da 17ª semana do Tempo Comum  Mateus 13,31-35 e   Mateus 13,36-43, é proclamada na  terça-feira  da 17ª Semana do Tempo Comum, permitindo que a Igreja proponha primeiro a escuta da narrativa e, dias depois, conduza os fiéis à interpretação dada pelo próprio Senhor.. Embora a temática do Reino de Deus e a imagem da semente estejam amplamente presentes nos três Evangelhos Sinóticos, a Parábola do Joio e do Trigo é exclusiva de Mateus, não possuindo paralelo direto em Marcos nem em Lucas. Essa singularidade confere à narrativa um lugar privilegiado na teologia mateana, pois expressa, com extraordinária profundidade, a convivência entre o bem e o mal durante o tempo presente e a certeza de que o discernimento definitivo pertence unicamente a Deus. Mais do que responder a uma questão agrícola ou moral, Jesus revela a lógica do Reino dos Céus, que não se impõe pela eliminação imediata dos maus, mas manifesta a longanimidade divina, oferecendo tempo para a conversão e conduzindo a história, com paciência e justiça, até sua plena consumação. Nas Igrejas Ortodoxas Bizantinas, embora a distribuição litúrgica siga outro lecionário, esta parábola também é proclamada em diversos domingos dedicados ao ensinamento sobre o Reino de Deus. As Igrejas Anglicanas, Luteranas, Reformadas, Metodistas e outras comunidades cristãs históricas igualmente a conservam em seus lecionários, sobretudo no período após Pentecostes, reconhecendo nela um dos ensinamentos centrais de Cristo sobre a paciência de Deus, o discernimento espiritual e o juízo final.

A parábola do joio e do trigo está inserida no grande discurso parabólico de Mateus 13, o terceiro dos cinco grandes discursos estruturantes do Evangelho segundo Mateus. Antes desta passagem, Jesus havia contado a parábola do semeador .no 15⁰  domingo  do tempo  comum Mateus 13,1-23, que depois  novamente  proclamada na  16ª  semana  do tempo comum,  mostrando que a Palavra encontra diferentes tipos de terreno humano. Em seguida, apresenta uma sucessão de parábolas sobre o Reino dos Céus, entre elas o joio e o trigo, o grão de mostarda, o fermento, qur foi  proclamado   no  domingo  da 16ª Semana do Tempo Comum Mateus 13,24-43 e  no  a 17ª domingo  do tempo comum se proclama  a parábola  do tesouro escondido, da  perola e da rede,  Mateus 13,44-52. Não se trata de narrativas isoladas, mas de um conjunto pedagógico cuidadosamente organizado pelo evangelista para mostrar que o Reino cresce discretamente na história, enfrenta resistências, amadurece lentamente e somente alcançará sua plenitude na consumação dos tempos.
Mateus escreve para comunidades marcadas por conflitos internos, perseguições externas e pela difícil convivência entre judeus e gentios convertidos ao cristianismo. Muitos esperavam um Reino que eliminasse imediatamente os maus e recompensasse os justos. Jesus, porém, desconstrói essa expectativa. O Reino já está presente, mas ainda convive com as ambiguidades da história. O julgamento pertence a Deus, não aos seres humanos. A imagem utilizada por Jesus nasce da experiência agrícola da Palestina do século I. O trigo era a base da alimentação e representava a vida, enquanto o joio, provavelmente o Lolium temulentum, uma planta muito semelhante ao trigo durante seu crescimento inicial, tornava-se distinguível apenas quando os frutos apareciam. Suas raízes frequentemente se entrelaçavam às do trigo, tornando impossível arrancar uma sem destruir a outra. A legislação romana conhecia inclusive práticas criminosas de semear joio no campo alheio para provocar prejuízo, o que torna ainda mais concreta a narrativa de Jesus. O cenário é profundamente simbólico.

  •  O semeador representa o Filho do Homem, como o próprio Jesus explicará posteriormente (Mt 13,37). 
  • O campo não é apenas a Igreja, mas o mundo inteiro (Mt 13,38). 
  • O trigo são os filhos do Reino. O joio representa aqueles que aderem ao mal. O inimigo é o diabo. 
  • A colheita simboliza o fim dos tempos, e os ceifeiros representam os anjos (Mt 13,39-43). 
Entretanto, antes da explicação alegórica, a narrativa já produz um ensinamento essencial: Deus não governa o mundo pela lógica da eliminação imediata, mas pela paciência redentora.
A pergunta dos empregados continua profundamente atual. "Queres que vamos arrancá-lo?" (Mt 13,28). Essa pergunta acompanha toda a história humana. É a tentação permanente de dividir o mundo entre puros e impuros, santos e condenados, bons e maus, amigos e inimigos. É a lógica presente na história de Caim e Abel (Gn 4), na intolerância dos amigos de Jó (Jó 4–25), na violência religiosa denunciada pelos profetas (Is 1,10-17; Am 5,21-24; Mq 6,6-8) e até mesmo na atitude dos discípulos que desejaram fazer descer fogo do céu sobre uma aldeia samaritana (Lc 9,51-56). Jesus rejeita essa mentalidade.
Sua resposta surpreende: "Não, para que não aconteça que, ao arrancar o joio, arranqueis também o trigo" (Mt 13,29)..Essa resposta revela uma das maiores diferenças entre a justiça humana e a justiça divina. Os seres humanos julgam pela aparência. Deus conhece as profundezas do coração (1Sm 16,7). Aquilo que hoje parece joio pode tornar-se trigo pela ação da graça. 

  • O perseguidor Saulo transforma-se em Paulo (At 9). 
  • O publicano Levi torna-se evangelista (Mt 9,9). 
  • Zaqueu converte-se (Lc 19,1-10).
  •  O ladrão crucificado ao lado de Jesus recebe a promessa do paraíso (Lc 23,39-43). 
  • Pedro, que negou Cristo três vezes (Mt 26,69-75), torna-se testemunha da Ressurreição (Jo 21,15-19). 
Deus nunca reduz uma pessoa ao seu pior momento. A parábola revela também a complexidade da condição humana. O bem e o mal não existem apenas em grupos distintos. Eles atravessam o coração de cada pessoa. Jeremias afirma que o coração humano é enganoso (Jr 17,9), Paulo descreve esse conflito interior ao confessar: "Não faço o bem que quero, mas o mal que não quero" (Rm 7,19). O Reino de Deus não começa eliminando pessoas, mas convertendo corações.

É  preciso  reconhecer que amadurecer implica integrar conflitos internos, reconhecer limites, enfrentar sombras pessoais e abandonar mecanismos de projeção. Frequentemente, aquilo que condenamos com maior intensidade nos outros corresponde a aspectos não reconciliados dentro de nós mesmos. Jesus desloca o foco do julgamento externo para a conversão interior. Antes de procurar o joio na vida alheia, é preciso permitir que Deus transforme nosso próprio coração..E  mostra que grupos religiosos frequentemente constroem sua identidade pela exclusão de quem pensa diferente. Essa tendência estava presente entre alguns fariseus e reaparece continuamente na história. Sempre existe a tentação de transformar a comunidade dos discípulos numa comunidade dos perfeitos. Contudo, a Igreja nunca foi uma assembleia de impecáveis, mas um povo de pecadores chamados à santidade. Como recorda o Concílio Vaticano II, a Igreja é ao mesmo tempo santa e sempre necessitada de purificação, caminhando continuamente pelo caminho da penitência e da renovação, conforme ensina a Constituição Lumen Gentium (n. 8)..Por isso, esta parábola constitui uma forte denúncia contra o clericalismo,  pois  quando ministros ordenados ou lideranças religiosas assumem a postura de proprietários da graça, confundem a autoridade recebida com poder absoluto e passam a decidir quem merece ou não permanecer na comunidade, deixam de agir segundo o Evangelho. O Papa Francisco denunciou repetidas vezes o clericalismo como uma perversão da missão da Igreja, especialmente na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium (nn. 102-104), afirmando que ele sufoca os carismas, impede a corresponsabilidade dos leigos e transforma o serviço em privilégio. A parábola também interpela a instrumentalização política da religião. Sempre que o nome de Deus é utilizado para legitimar projetos de dominação, nacionalismos religiosos, autoritarismos ou idolatrias políticas, o Evangelho é reduzido a instrumento ideológico. Jesus nunca permitiu que o Reino fosse confundido com qualquer projeto de poder terreno (Jo 18,36). Sua autoridade manifesta-se no serviço (Mc 10,42-45), na misericórdia (Mt 9,13) e na entrega da própria vida (Jo 13,1-15). A cruz desmonta definitivamente toda pretensão de um messianismo baseado na força.

Nesse horizonte, também merecem crítica as expressões religiosas influenciadas pela teologia da prosperidade e pela chamada teologia do domínio, que frequentemente identificam bênção divina com riqueza, sucesso econômico, influência política ou conquista de espaços de poder. Essa lógica contradiz frontalmente as Bem-aventuranças (Mt 5,1-12), ignora o Cristo pobre (2Cor 8,9) e silencia diante da realidade dos crucificados da história. A Conferência de Aparecida recorda que a missão da Igreja consiste em formar discípulos missionários comprometidos com a vida plena para todos, especialmente para os pobres e excluídos (Documento de Aparecida, nn. 391-398). Da mesma forma, quando determinadas expressões religiosas se aproximam de projetos autoritários, de discursos de ódio ou de ideologias de extrema direita que absolutizam a violência, demonizam adversários e transformam diferenças políticas em guerras espirituais, ocorre um grave esvaziamento da mensagem de Jesus. O Evangelho não legitima a cultura da eliminação, mas a cultura do encontro. A fraternidade universal proposta pelo Papa Francisco na Encíclica Fratelli Tutti rejeita toda forma de exclusão, xenofobia, autoritarismo e manipulação das consciências em nome da religião.
A parábola não relativiza a existência do mal. Pelo contrário, reconhece sua presença concreta na história. Há injustiça, exploração econômica, corrupção, racismo, misoginia, violência doméstica, destruição ambiental, guerras, fome e exclusão. Há estruturas de pecado, como ensinava São João Paulo II na Exortação Reconciliatio et Paenitentia e na Encíclica Sollicitudo Rei Socialis. A CNBB, em sucessivos documentos sociais e nas Campanhas da Fraternidade, recorda que a evangelização exige compromisso concreto com a justiça, a dignidade humana e a defesa dos mais vulneráveis. O CELAM, desde Medellín até Aparecida, insiste que a fé cristã possui inevitáveis consequências sociais e históricas. Contudo, Jesus distingue claramente entre combater o mal e eliminar pessoas. A justiça do Reino combate estruturas injustas, denuncia sistemas opressores e enfrenta o pecado, mas nunca abandona a esperança da conversão humana. Essa é uma diferença decisiva. O discípulo combate a mentira, mas não perde a esperança no mentiroso. Enfrenta a corrupção, mas continua acreditando na possibilidade de arrependimento. Denuncia a violência sem abandonar a misericórdia. Age segundo o exemplo daquele que rezou pelos próprios algozes (Lc 23,34).
A parábola possui ainda um profundo sentido escatológico. O tempo presente é o tempo da paciência de Deus. Pedro recordará que o Senhor não demora em cumprir sua promessa, mas é paciente, querendo que todos cheguem ao arrependimento (2Pd 3,9). Essa paciência não significa indiferença diante do mal, mas oportunidade para a conversão. A colheita virá. O julgamento pertence a Deus. A justiça definitiva não será fruto da vingança humana, mas da santidade divina.  

Jesus ao  afirma que "os justos brilharão como o sol no Reino de seu Pai" (Mt 13,43), retorna  diretamente a esperança escatológica anunciada em Daniel 12,3, onde aqueles que permaneceram fiéis resplandecem como as estrelas pelos séculos eternos. A história, portanto, não caminha para o triunfo do mal, mas para a manifestação definitiva da justiça e da glória de Deus. Essa esperança já havia sido anunciada no livro da Sabedoria (Sb 12,13-19), que apresenta um Deus cujo poder se manifesta sobretudo na misericórdia. Porque é soberano sobre todas as coisas, Deus não necessita agir com violência; ao contrário, governa o universo com justiça, paciência e clemência, concedendo aos pecadores tempo para o arrependimento. É precisamente essa lógica que ilumina a resposta do dono do campo: permitir que trigo e joio cresçam juntos não significa tolerar o mal, mas revelar que a misericórdia antecede o julgamento e que a justiça divina nunca se confunde com precipitação ou vingança. Essa promessa alcança sua plenitude na visão do Apocalipse (Ap 21,1-5), quando João contempla o novo céu e a nova terra, a Nova Jerusalém descendo de junto de Deus, e ouve a proclamação: "Eis a morada de Deus com os seres humanos." Nesse Reino consumado já não haverá morte, luto, dor ou lágrimas, porque tudo o que pertence ao velho mundo terá passado. O campo da história, marcado por ambiguidades, dará lugar à criação plenamente reconciliada, onde a presença de Deus será a fonte definitiva da vida. Por fim, São Paulo anuncia o horizonte último da história ao afirmar que, depois de vencer todo poder contrário e destruir a própria morte, Cristo entregará o Reino ao Pai, "para que Deus seja tudo em todos" (1Cor 15,28). A consumação do Reino não consiste apenas na derrota do mal, mas na plena comunhão de toda a criação com Deus, quando sua vontade será perfeitamente realizada e sua vida preencherá todas as coisas. É para essa esperança que a Parábola do Joio e do Trigo aponta. Ela convida a Igreja e cada discípulo a viverem o tempo presente com perseverança, discernimento e misericórdia, sem ceder à tentação de ocupar o lugar do Juiz. Enquanto aguardamos a colheita definitiva, somos chamados a cultivar o trigo da justiça, da compaixão e da fidelidade ao Evangelho, certos de que a paciência de Deus não é sinal de ausência, mas expressão de seu amor salvador. A última palavra da história não pertence ao pecado, à violência ou à morte, mas ao Reino definitivo de Deus, no qual a justiça resplandecerá, a criação será renovada e o amor revelado em Cristo crucificado e ressuscitado triunfará para sempre.

Cada cristão é convidado a perguntar não onde está o joio na vida dos outros, mas quanto ainda precisa permitir que Deus purifique o próprio coração. O Reino cresce silenciosamente, muitas vezes escondido, como o trigo que amadurece sem fazer barulho. Deus continua semeando vida em meio às contradições da história. Cabe aos discípulos cultivar a esperança, perseverar na justiça, resistir às seduções do poder e permanecer fiéis ao Evangelho da misericórdia.

.Enquanto tantos desejam arrancar pessoas, Jesus continua cultivando vidas, enquanto muitos proclamam condenações definitivas e Deus continua oferecendo tempo para a conversão. Enquanto o mundo constrói muros, o Reino semeia reconciliação. Esta é a esperança cristã. Não uma esperança ingênua que ignora o mal, mas uma esperança pascal que acredita que a graça de Deus possui força maior do que qualquer pecado, que a misericórdia é mais poderosa do que a condenação e que o amor revelado em Cristo crucificado e ressuscitado permanece a última e definitiva palavra sobre a história humana.

DNonato- Teólogo do Cotidiano 

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