domingo, 17 de setembro de 2023

Um olhar sobre São Mateus 18,21-35 / 24º Domingo do Tempo Comum .


A liturgia do do 24⁰  Domingo do Tempo Comum no calendário romano, reúne:  Eclesiástico 27,33 a 28,9, o Salmo 102, Romanos 14,7-9 e Mateus 18,21-35. Não são textos isolados. Juntos, formam uma profunda pedagogia sobre as relações humanas diante da ofensa, do conflito, da culpa e da necessidade de recomeçar. 
  • Eclesiástico 27,33 a 28,9 denuncia o rancor e pergunta como alguém pode pedir compaixão a Deus enquanto conserva hostilidade contra o semelhante. 
  • O Salmo 102 proclama o rosto de um Deus compassivo, paciente e rico em bondade, que não nos trata segundo nossas faltas. 
  • Romanos 14,7-9, Paulo  nos recorda que ninguém vive para si mesmo, porque pertencemos ao Senhor, aquele que morreu e ressuscitou para ser Senhor dos vivos e dos mortos. 
Mateus leva essas afirmações para o terreno concreto da convivência. Se a vida pertence ao Senhor e se recebemos dele uma misericórdia que não conseguimos produzir por nós mesmos, nossas relações não podem ser organizadas pela contazbilidade das culpas. O Evangelho de hoje não apresenta simplesmente uma lição sobre perdoar. Ele questiona uma maneira de viver que transforma pessoas em devedoras permanentes e conflitos em sentenças definitivas. Para compreender a pergunta de Pedro, precisamos voltar ao  23⁰ domingo  do Tempo  comum que proclama  Mateus 18,15-20, Jesus ensina como enfrentar uma ruptura dentro da comunidade. 
  1. Chamar em particular   
  2. Chamar os amigos 
  3. Chamar a Comunidade.   
  4. tratar como um pagão ( processo de exclusão)  
O grande problema nosso é que invertemos a ordem. muitas das vezes excluímos e pronto Precisamos  entender a pedagogia desse processo: 
  1. aproximar
  2. Dialogar
  3. Discernir
  4. Responsabilizar  
  5. Apenas no limite, afastar.
Nossa sociedade frequentemente inverte essa ordem. Julgamos antes de ouvir, expomos antes de conversar, formamos grupos antes de conhecer os fatos e excluímos antes de procurar uma saída. Nas redes sociais, na política, nas famílias e até em ambientes religiosos, a sentença muitas vezes chega antes da escuta. Jesus propõe o contrário. O conflito deve ser enfrentado, mas a pessoa não pode ser reduzida imediatamente ao seu erro.

É nesse contexto que Pedro pergunta: “Senhor, quantas vezes devo perdoar, se meu irmão pecar contra mim? Até sete vezes?”. Pedro procura estabelecer um limite para a obrigação de perdoar, considerando sete uma medida já bastante generosa. Jesus, porém, não amplia esse limite com um número maior, mas afirma: “Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete”. Algumas traduções apresentam “setenta e sete vezes”; outras, “setenta vezes sete”. O sentido, contudo, não está na matemática, mas na superação da própria lógica de contabilizar o perdão. Jesus desmonta a pergunta sobre quantas vezes ainda devemos conceder uma oportunidade antes de considerar o outro irrecuperável. No Reino de Deus, o perdão não pode ser reduzido a uma obrigação calculada, porque nasce de uma relação que busca restaurar, reconciliar e transformar. Assim, a pergunta deixa de ser “até quando sou obrigado a perdoar?” e passa a ser “que tipo de relação o Reino de Deus deseja construir?”. Jesus substitui a contabilidade pela transformação. Há aqui uma possível ressonância com Gênesis 4,23-24, onde Lamec representa uma humanidade presa à lógica da vingança, respondendo à violência recebida com uma violência ainda maior. Em Mateus, porém, Jesus inverte radicalmente essa dinâmica: aquilo que Lamec multiplica pela vingança, o discípulo é chamado a multiplicar pela misericórdia. A violência cria uma cadeia que se alimenta de si mesma, pois uma agressão provoca outra, que gera uma nova resposta, perpetuando o ciclo indefinidamente. Jesus propõe romper essa lógica, não ignorando a gravidade do mal nem tratando a injustiça como algo irrelevante, mas recusando que ela tenha a última palavra sobre nossas escolhas. O Evangelho nos chama, portanto, a não permitir que a violência sofrida nos transforme em continuadores dela, abrindo, pela misericórdia e pelo perdão, a possibilidade de interromper o ciclo e escrever um novo capítulo na história Para explicar isso, Jesus conta uma parábola construída em torno da dívida. Um rei decide acertar contas com seus servos e encontra um homem que lhe deve dez mil talentos, uma quantia deliberadamente desproporcional e praticamente impossível de quitar. Diante da cobrança, o homem implora por mais tempo e promete pagar tudo, embora sua situação torne essa promessa irrealizável. O rei, porém, age de maneira inesperada: movido pela compaixão, cancela a dívida e rompe a lógica da cobrança. Não se trata simplesmente de adiar o vencimento, mas de libertar aquele homem de uma obrigação que determinava seu destino. Ele recebe, pela misericórdia do rei, uma possibilidade de recomeço que jamais poderia produzir por suas próprias forças. Essa imagem fazia sentido para os ouvintes de Jesus.
 A dívida  do companheiro  era de  “cem moedas”  conforme  mencionadas por Jesus correspondem, no texto original, a cem denários, sendo que um denário representava aproximadamente o pagamento de um dia de trabalho. Assim, cem denários correspondiam a cerca de cem dias de trabalho, ou aproximadamente três a quatro meses de salário. Fazendo apenas uma comparação aproximativa com o salário mínimo brasileiro atual, isso representaria algo em torno de R$ 4 mil a R$ 5  mil. Não se trata de uma conversão monetária exata, mas de uma maneira de perceber a dimensão da dívida. Jesus estabelece um contraste poderoso: enquanto a dívida do primeiro empregado era humanamente impagável, a dívida de seu companheiro, embora significativa, era possível de ser quitada. 
Na Palestina do primeiro século vivia sob o domínio romano e conhecia de perto a tributação, a pobreza, a dependência econômica e a concentração de poder. As dívidas podiam significar a perda de terras, a dependência e até mesmo a servidão. Por isso, a linguagem utilizada por Jesus não é abstrata: ele parte de uma experiência social concreta para falar da relação entre Deus e o ser humano. O devedor representa aquele que, diante de uma dívida impagável, não consegue libertar-se por suas próprias forças, enquanto a iniciativa da misericórdia parte do rei.Aquele que recebeu misericórdia em uma proporção incomparavelmente maior não foi capaz de exercer misericórdia. É justamente nesse contraste que está a força da parábola: quem experimenta o perdão de Deus é chamado a transformar a misericórdia recebida em misericórdia oferecida ao irmão. A graça, portanto, precede a capacidade de pagamento e revela que a salvação não é resultado de uma negociação entre iguais, mas dom que nasce da compaixão. Essa imagem, entretanto, possui também uma dimensão econômica e social que continua profundamente provocadora. Em sociedades marcadas pela desigualdade, pelo endividamento e pela precarização da vida, somos levados a perguntar quem realmente recebe uma segunda oportunidade e quem é condenado definitivamente por seus fracassos. Aqueles que possuem poder e influência frequentemente encontram mecanismos para renegociar suas perdas, enquanto os pobres e vulneráveis muitas vezes conhecem apenas a cobrança, a punição e a responsabilização individual por situações produzidas por estruturas maiores. O Evangelho não apresenta uma teoria econômica, mas impede que compreendamos a dívida apenas como um problema individual, pois nos obriga a enxergar também as relações de poder, as estruturas sociais e as condições concretas que produzem dependência e exclusão. A tradição bíblica não permite separar o altar da vida nem a fé da justiça. Amós 5,21-24 denuncia um culto incapaz de produzir justiça; Isaías 1,11-17 rejeita uma religião repleta de ritos quando os vulneráveis continuam abandonados; e Miqueias 6,8 resume a fidelidade a Deus em uma existência marcada pela justiça, pela misericórdia e pela humildade. Assim, uma sociedade que exige rigor absoluto dos vulneráveis enquanto oferece tolerância seletiva aos poderosos precisa ouvir novamente a voz dos profetas. A misericórdia recebida de Deus não pode transformar-se em privilégio individual, mas deve gerar responsabilidade diante do outro, especialmente diante daqueles que carregam sobre si o peso da pobreza, da dívida e da exclusão.

A experiência de Deus precisa produzir consequências sociais, porque não existe fidelidade cristã quando a oração pede compaixão para nós, enquanto a prática cotidiana gera humilhação e sofrimento para os outros. É justamente essa contradição que a segunda parte da parábola evidencia: o homem cuja enorme dívida foi cancelada encontra um companheiro que lhe deve cem denários, uma quantia significativa, mas incomparavelmente menor diante daquilo que ele próprio acabara de receber. Em vez de deixar que a misericórdia experimentada transformasse sua maneira de se relacionar, ele retoma imediatamente a lógica da cobrança e chega a agarrar o outro pela garganta. A cena revela, assim, o drama de alguém que foi libertado, mas permaneceu prisioneiro da mesma lógica que o aprisionava; recebeu uma nova oportunidade, mas foi incapaz de convertê-la em misericórdia para com o próximo. Aqui Jesus toca uma enfermidade presente tanto na vida individual quanto na experiência religiosa: querer graça para si e rigor para os outros. Pedimos compreensão quando nossa história é conhecida, mas julgamos o outro sem conhecer seu caminho; desejamos uma nova oportunidade depois de errar, mas transformamos a falha alheia em identidade permanente. Defendemos a complexidade quando somos acusados e recorremos à simplificação quando acusamos. Essa moral seletiva destrói a fraternidade porque transforma a diferença em ameaça e a falha em sentença, esquecendo que a experiência da graça recebida deveria produzir uma nova maneira de olhar e tratar o outro. Os Evangelhos Sinóticos confirmam essa tensão e aprofundam essa exigência. Marcos 11,25 associa a oração à disposição de perdoar; Lucas 17,3-4 mantém juntas a correção e a misericórdia, mostrando que o irmão deve ser advertido quando erra, mas também acolhido quando se arrepende; Mateus, por sua vez, insere esse ensinamento no discurso comunitário, destacando que a vida da comunidade precisa ser orientada pela responsabilidade, pela reconciliação e pelo cuidado com o outro. A convergência é significativa: o Evangelho não propõe indiferença diante do mal, nem relativiza a responsabilidade, mas também não autoriza a vingança, a humilhação ou a condenação definitiva. Corrigir e acolher não são atitudes opostas, mas dimensões de uma mesma dinâmica de conversão. A comunidade cristã é chamada, portanto, a preservar a verdade sem transformá-la em instrumento de destruição, a denunciar o erro sem reduzir a pessoa ao seu erro e a praticar uma justiça atravessada pela misericórdia, porque quem experimentou a graça não pode fazer da vida do outro um tribunal permanente.

Isso é fundamental porque existe uma leitura perigosa do texto que transforma o perdão em obrigação de permanecer em qualquer relação, mas Jesus não ensina isso. Uma pessoa vítima de abuso, violência doméstica, exploração ou crime pode afastar-se, procurar proteção, denunciar e recorrer à justiça, pois a responsabilidade pela reconciliação não pode ser colocada exclusivamente sobre quem sofreu o dano. O arrependimento de quem causou a violência precisa manifestar-se em atitudes concretas, assumindo responsabilidade, reparando o possível e respeitando os limites estabelecidos pela vítima. Reconciliação, portanto, não significa simplesmente voltar a conviver, mas pressupõe mudança, responsabilidade e segurança. O Evangelho não protege o agressor em nome de uma falsa ideia de paz; protege a vida e a dignidade humana. Essa compreensão também precisa alcançar as estruturas religiosas, porque uma instituição que utiliza o perdão para silenciar vítimas contradiz o próprio Evangelho que anuncia. Da mesma forma, quando uma autoridade exige obediência, mas se recusa a prestar contas, reproduz a lógica denunciada por Jesus em Mateus 23,4, ao criticar aqueles que colocam fardos pesados sobre os outros sem se disporem a carregá-los. O problema do clericalismo não está simplesmente na existência de uma autoridade religiosa, mas na sua transformação em instrumento de privilégio e poder pessoal, fazendo da comunidade um espaço de submissão em vez de serviço. Jesus não concede imunidade ao poder religioso; sua prática e sua palavra mostram, ao contrário, que toda autoridade deve permanecer submetida à verdade, à justiça e ao serviço, especialmente à defesa daqueles cuja voz foi silenciada.

Por isso,  para  entender  a liturgia  do  24⁰ Domingo se entende  somente  após a leitura  de Mateus 18,15-20 que  não deve ser utilizado como um manual de exclusão, pois seu movimento é justamente o contrário: antes de afastar, procura-se; antes de condenar, estabelece-se o diálogo; antes de transformar alguém em inimigo, busca-se compreender o que aconteceu e abrir um caminho de correção e reconciliação. Jesus, porém, também reconhece que nem todo conflito chega a esse desfecho e que existem situações nas quais a distância se torna necessária. A questão fundamental está na motivação e na finalidade dessa atitude: estabelecer limites para proteger a vida, a dignidade e a integridade de alguém não é o mesmo que excluir por ressentimento; denunciar uma injustiça não significa alimentar vingança; responsabilizar quem causou um dano não implica negar sua humanidade. Nesse sentido, Romanos 14,7-9 acrescenta uma dimensão ainda mais profunda ao recordar que ninguém vive para si mesmo, porque Cristo é Senhor dos vivos e dos mortos. Paulo escreve a uma comunidade marcada por divergências relacionadas a práticas e costumes religiosos e desloca o centro da discussão: a identidade fundamental do cristão não está na vitória sobre quem pensa diferente, mas na pertença ao Senhor. Quando divergências secundárias passam a determinar quem merece respeito, acolhimento ou dignidade, a comunidade perde de vista aquilo que deveria uni-la. Essa advertência permanece profundamente atual em uma sociedade marcada pela polarização política, religiosa e cultural, na qual pessoas são rapidamente classificadas como amigas ou inimigas, boas ou más, pertencentes ou excluídas. O Evangelho, entretanto, não exige que abandonemos nossas convicções nem que relativizemos a verdade e a justiça; exige que não transformemos nossas convicções em autorização para desumanizar o outro. A mesma lógica de julgamento aparece hoje de maneira intensa nas redes sociais, onde uma frase, uma fotografia, uma acusação ou mesmo um erro podem ser suficientes para desencadear uma multidão contra alguém. O julgamento coletivo produz uma sensação imediata de superioridade moral, mas raramente conduz à verdadeira justiça: acusações são compartilhadas sem verificação, suspeitas rapidamente se transformam em certezas e histórias inteiras são reduzidas a um único episódio. Mateus 18,15-20 apresenta uma pedagogia radicalmente diferente, fundada na proximidade antes da exposição, na escuta antes da condenação e no discernimento antes da sentença. Isso não significa esconder crimes, impedir denúncias legítimas ou relativizar a responsabilidade de quem pratica o mal; significa recusar o linchamento moral como substituto da justiça. Essa perspectiva também alcança o sofrimento psicológico contemporâneo. Setembro, no Brasil, é marcado por campanhas de prevenção do suicídio e valorização da vida, e esse contexto nos recorda que não se pode reduzir o sofrimento psíquico à falta de fé, à fraqueza espiritual ou à incapacidade de perdoar. Depressão, ansiedade, ideação suicida e outras formas de sofrimento possuem dimensões biológicas, psicológicas, familiares, sociais e econômicas e podem exigir acompanhamento profissional. A fé, entretanto, pode oferecer algo decisivo: uma comunidade que não transforme a dor em culpa nem acrescente condenação àquele que já está sobrecarregado. Há pessoas que vivem sob uma acusação interior permanente, esmagadas por fracassos, perdas, vergonha e sentimentos de inutilidade. Por isso, as palavras de Jesus em Mateus 11,28-30, dirigidas aos cansados e sobrecarregados ganham uma força particular: uma comunidade cristã coerente deveria ser espaço de escuta, cuidado e reconstrução, e não mais um peso sobre os ombros de quem sofre

Nesse horizonte, também é necessário compreender com cuidado a expressão “perdoar a si mesmo”. Biblicamente, ela não significa declarar que nossos erros não têm importância, mas reconhecer a falta, assumir a responsabilidade, reparar o que for possível e acolher a misericórdia de Deus sem transformar a culpa em uma condenação definitiva. Zaqueu, em Lucas 19,1-10, expressa isso de modo concreto: seu encontro com Jesus não termina numa emoção religiosa passageira, mas modifica sua relação com o dinheiro e com aqueles que havia prejudicado. A graça não elimina a responsabilidade; ao contrário, torna possível assumi-la sem permanecer aprisionado ao passado. A cruz de Cristo aprofunda ainda mais essa compreensão. Em Lucas 23,34, Jesus pede ao Pai que perdoe aqueles que o crucificam, enquanto João 20,27 conserva no corpo do Ressuscitado as marcas da paixão. A redenção, portanto, não é amnésia. A história permanece, mas deixa de funcionar como sentença. Quem foi ferido não precisa fingir que nada aconteceu para continuar vivendo; pode reconhecer a dor, conservar a memória e, ao mesmo tempo, recusar que a violência determine para sempre sua identidade. A ressurreição proclama que uma história atravessada pelo sofrimento ainda pode receber um futuro. Essa compreensão também possui uma dimensão coletiva, porque povos, comunidades e instituições precisam recordar suas próprias violências para não reproduzi-las. Não existe reconciliação verdadeira quando se exige que a vítima esqueça enquanto o responsável permanece sem prestar contas. Uma paz construída sobre o silêncio pode ser apenas injustiça ocultada; mas uma memória transformada em vingança permanente também não produz futuro. O caminho bíblico é mais exigente: recordar para aprender, responsabilizar para transformar e reconstruir quando existirem condições reais para isso. A parábola do servo impiedoso, portanto, ultrapassa o âmbito das relações individuais e revela uma lógica capaz de se instalar em sistemas inteiros. Existe uma economia que pode transformar a necessidade em dívida, uma política que converte adversários em inimigos permanentes, uma cultura que transforma erros em identidades definitivas e até uma religião que se torna especialista em apontar pecadores enquanto evita examinar seus próprios mecanismos de poder. Algumas pergunta são inevitáveis: 
  • Quem nossa sociedade mantém permanentemente no banco dos réus? 
  • Quem recebe oportunidades e quem é condenado para sempre? 
  • Quem pode errar sem perder sua dignidade? 
  • Quem é ouvido quando denuncia
  • Quem é silenciado para preservar reputações? 
Jesus não responde a essas questões por meio de um programa político, mas por uma prática que recoloca a dignidade humana no centro. Em Mateus 25,31-46, ele se identifica com o faminto, o sedento, o estrangeiro, o enfermo e o encarcerado; em Lucas 4,18-19, apresenta sua missão como boa notícia aos pobres e libertação aos oprimidos. A fé, portanto, não pode ser reduzida à interioridade nem confinada ao espaço litúrgico. O Deus que perdoa também chama seus discípulos a reconhecer aqueles que a sociedade transforma em descartáveis. É justamente aí que a mensagem de Mateus adquire sua força profética: diante de uma cultura que recompensa a polarização, a exposição e a humilhação, Jesus propõe uma comunidade capaz de enfrentar o mal sem reproduzir sua lógica. O objetivo não é alimentar o ciclo da vingança, mas interrompê-lo; não transformar a culpa em identidade, mas abrir caminho para a conversão; não confundir autoridade com poder, mas colocar a responsabilidade a serviço da vida. A grande questão, então, não é apenas quem nos feriu, mas o que fazemos com aquilo que recebemos de Deus. O servo da parábola foi libertado de uma dívida que jamais conseguiria pagar, mas não soube viver como homem livre: continuou preso à necessidade de cobrar. Algo semelhante pode acontecer conosco quando participamos da liturgia, falamos de fé e rezamos sobre a misericórdia, mas continuamos alimentando antigas sentenças contra pessoas, grupos e comunidades. Podemos celebrar a graça no altar e praticar a condenação na vida cotidiana; quando isso acontece, a religião corre o risco de se transformar em discurso sem conversão. O Evangelho chama para uma liberdade mais profunda: reconhecer o mal sem permanecer dominado pelo ódio, estabelecer limites sem transformar o outro em monstro, denunciar sem desejar sua destruição, buscar justiça sem convertê-la em vingança e preservar a memória sem permitir que ela ocupe todo o futuro. Do mesmo modo, reconhecer os próprios erros não significa permanecer submetido a uma culpa sem fim. A misericórdia cristã não elimina a verdade nem dissolve a responsabilidade; impede, porém, que a verdade seja instrumentalizada para destruir a pessoa. Por isso, uma comunidade cristã madura precisa unir responsabilidade e esperança: acolher quem sofre, proteger quem está vulnerável, confrontar quem pratica o mal, acompanhar processos concretos de mudança, pedir perdão quando erra, reparar os danos que causa e aceitar críticas quando suas próprias estruturas produzem sofrimento. Uma Igreja incapaz de reconhecer suas falhas corre o risco de repetir a atitude do servo impiedoso: deseja a graça para si, mas mantém uma contabilidade rigorosa para os demais. O Evangelho, entretanto, aponta para outra forma de existência: uma comunidade em que a verdade não seja inimiga da misericórdia, a justiça não seja confundida com vingança, a autoridade não seja instrumento de dominação e a memória não seja utilizada para perpetuar condenações, mas para construir um futuro no qual a dignidade humana, a responsabilidade e a possibilidade de conversão permaneçam abertas.

Neste contexto, setembro também nos recorda que valorizar a vida significa construir relações nas quais ninguém precise enfrentar sozinho a própria dor. Quando alguém pede ajuda, não precisa de condenação, mas de presença, escuta e acolhimento; diante de um sofrimento profundo, é necessário levar a pessoa a sério, reconhecendo que a fé pode oferecer sentido e esperança, mas não substitui o cuidado psicológico, médico, familiar e social quando esses recursos se fazem necessários. A comunidade cristã realiza sua vocação justamente quando aprende a permanecer próxima, sem reduzir a complexidade da dor humana a respostas fáceis ou explicações religiosas simplistas. Eclesiástico nos chama a abandonar o rancor; o Salmo revela a compaixão de Deus; Paulo recorda que pertencemos ao Senhor; e Mateus mostra que essa fé precisa transformar concretamente nossas relações. As leituras, portanto, não nos conduzem a uma espiritualidade distante da realidade, mas nos desafiam a abandonar a lógica da contabilidade moral, que registra cada ofensa como uma dívida a ser cobrada e transforma pessoas em seus erros. A graça que recebemos não nos coloca acima dos outros nem nos autoriza a julgá-los; ao contrário, torna-nos responsáveis pelo modo como acolhemos, perdoamos, cuidamos e permanecemos ao lado daqueles que atravessam suas próprias noites de sofrimento..Que as atitudes  de Jesus alcance nossas famílias, amizades, comunidades, ambientes de trabalho, relações políticas e experiências religiosas, ensinando-nos: 
  1.  a conversar antes de condenar
  2. ouvir antes de expor 
  3. discernir antes de excluir. 
Que nos dê coragem para reconhecer nossos próprios erros, sabedoria para não permanecermos aprisionados ao mal que outros nos fizeram e maturidade para compreender que estabelecer limites pode ser necessário, mas jamais precisa nascer do ódio. Que a Igreja também tenha a coragem de se deixar confrontar por essa Palavra, porque não basta anunciar a misericórdia sem praticá-la, falar de justiça sem proteger os vulneráveis ou denunciar os erros do mundo sem permitir que o Evangelho questione suas próprias estruturas. Uma Igreja que acolhe os feridos, enfrenta os abusos, reconhece suas falhas e exerce a autoridade como serviço torna visível, na realidade concreta, a prática de Jesus; porém, quando se preocupa mais com a própria reputação do que com a verdade, a dignidade humana e a proteção dos vulneráveis, corre o risco de reproduzir aquilo que os profetas denunciaram: uma religião repleta de palavras, ritos e discursos, mas distante da justiça, da misericórdia e da transformação da vida. 

No fim, Pedro pergunta quantas vezes deve perdoar, e Jesus se recusa a transformar o amor em cálculo. Sua resposta não estabelece um número, mas aponta para uma nova maneira de existir, na qual o perdão deixa de ser uma contabilidade de faltas e se torna expressão de uma vida reconciliada. Mateus 18 começa ensinando a enfrentar os conflitos com responsabilidade, sem precipitar a exclusão, e prossegue mostrando que a comunidade não pode transformar a culpa em uma dívida eterna. Em determinadas situações, a ruptura pode ser necessária para preservar a dignidade, a segurança e a verdade, mas jamais deve se converter em licença para odiar. A correção deve buscar a verdade sem humilhar, a autoridade precisa proteger sem dominar, a justiça deve impedir novos danos sem alimentar a vingança e a misericórdia deve manter aberta a possibilidade de conversão. Perdoar, portanto, não significa negar o mal, apagar suas consequências ou abandonar os limites necessários; significa recusar que a ofensa tenha a última palavra sobre a relação humana. É essa a radicalidade do Evangelho: Jesus não nos pede que chamemos o mal de bem nem que aceitemos abusos em nome da religião, mas que não permitamos que o mal determine quem seremos. A violência procura reproduzir-se em nós, o ressentimento pode transformar-se em identidade, a culpa pode converter-se em sentença e a exclusão pode apresentar-se como solução. Jesus interrompe esse ciclo e inaugura outro caminho, no qual o passado pode ser reconhecido sem dominar o futuro, o erro pode ser responsabilizado sem destruir definitivamente a pessoa, a justiça pode permanecer firme sem transformar-se em vingança e a fé pode deixar de ser apenas um discurso sobre Deus para tornar-se experiência concreta de transformação. Talvez seja essa a pergunta que devemos levar para casa: não quantas vezes ainda somos obrigados a perdoar, mas se permitimos que a graça recebida transforme nossa maneira de olhar para quem nos feriu, para quem pensa diferente, para quem errou e também para nós mesmos. O servo da parábola recebeu uma dívida impossível de pagar e saiu livre, mas continuou agindo como escravo da cobrança. Também nós podemos viver essa contradição: livres pela graça e presos ao ressentimento, acolhidos por Deus e incapazes de acolher, perdoados em nossas orações e implacáveis em nossas relações. O Evangelho nos chama, então, a romper essa incoerência: receber a misericórdia não apenas como benefício pessoal, mas como uma força capaz de transformar a maneira como tratamos o outro. O perdão cristão não é esquecimento, ingenuidade ou submissão diante da injustiça; é a decisão de não permitir que a ferida determine o futuro, mantendo a verdade, a responsabilidade e a dignidade no centro da reconciliação.

O Evangelho nos chama a romper essa contradição: não para apagar a verdade, mas para impedir que ela seja sequestrada pela vingança; não para eliminar a justiça, mas para libertá-la do desejo de destruir; não para esquecer as feridas, mas para que elas não tenham a última palavra.  Se faz necessário  lembrar  que quando a misericórdia assume a dimensão concreta, deixa de ser apenas linguagem religiosa e se torna força histórica capaz de transformar relações, questionar estruturas, proteger os vulneráveis, devolver futuro aos que foram condenados e confrontar uma sociedade acostumada a transformar pessoas em culpados permanentes. É então que o culto encontra a vida, a fé se traduz em ética, a justiça se abre à compaixão e a comunidade volta a ser sinal do Reino. É nesse horizonte que a pergunta de Pedro encontra sua verdadeira resposta: não existe quantidade capaz de medir a misericórdia, porque o discípulo não é chamado a viver de contas, mas de graça. O Deus anunciado pelo Eclesiástico, cantado pelo Salmo, proclamado por Paulo e revelado plenamente em Jesus não nos conduz à indiferença diante do mal, mas a uma liberdade mais profunda, na qual reconhecer a dívida não significa perpetuar a cobrança, enfrentar o conflito não significa alimentar a hostilidade, assumir responsabilidades não significa condenar para sempre e proteger a vida exige romper com tudo aquilo que transforma o ressentimento em destino. Assim, a matemática da vingança é interrompida, a lógica da dívida perde seu domínio e a história se abre novamente à possibilidade da reconciliação e da esperança. O Reino de Deus torna-se visível quando aqueles que se reconhecem alcançados pela graça deixam de viver como cobradores e aprendem, com Jesus, a transformar o perdão recebido em compromisso concreto com a dignidade humana, a justiça, a misericórdia e a vida.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Obrigado pelo seu comentário.