O texto funciona como um selo interpretativo de tudo o que foi proclamado antes. Ele fecha o Sermão da Montanha com uma nota profética, quase cortante, que impede qualquer leitura superficial. É como se Jesus dissesse: “Vocês ouviram discursos intensos. Agora vejam se desejam realmente viver o que ouviram.” A advertência é dura, mas profundamente amorosa. Ela ecoa a crítica que Deus faz por meio de Ezequiel: o povo ouve o profeta como quem escuta uma canção bela, mas não põe em prática nada do que ouviu (Ez 33,30-32). É a mesma tensão aqui: gente que ama a estética da religião, mas rejeita sua ética; gente que aprecia a poesia do Evangelho, mas não aceita a conversão que ele exige. A palavra que não se encarna torna-se ilusão. E, como dirá Tiago, é autoengano (Tg 1,22).
Nesse sentido, o texto sintoniza com o espírito do Advento. Porque o Advento nunca permitiu superficialidade. Ele não é tempo de brilho artificial, mas de vigilância. Não é tempo de slogans religiosos, mas de esvaziamento e prontidão. Não é tempo de espetáculo, mas de preparação. A lógica do Advento é a lógica da rocha: firme, silenciosa, consistente, paciente. E é exatamente por isso que Mateus 7,21.24-27 é tão providencial tanto para quem se prepara para a vinda do Senhor quanto para quem inaugura uma vida matrimonial. O amor, como a fé, não se sustenta em euforia; sustenta-se em decisão, em perseverança, em responsabilidade. Toda casa sólida é invisivelmente construída com escolhas diárias. Por isso, Jesus não fala de doutrina, mas de prática; não fala de ideias, mas de fundações.
A parábola dos dois construtores não é uma metáfora arquitetônica isolada. Ela mergulha na antropologia bíblica, na psicologia humana, na sociologia do cotidiano e no universo simbólico da casa mediterrânea. No mundo bíblico, a casa não é apenas um abrigo; é o espaço da memória, da continuidade, da proteção, da fé doméstica, do nome que permanece. Construir sobre areia, portanto, não é apenas um erro de engenharia: é uma afronta ao bom senso ancestral. Aquele que constrói sobre areia é alguém seduzido pela facilidade, alguém que busca beleza rápida, alguém que se deixa levar por atalhos. O insensato da parábola não é preguiçoso — é superficial. Ele é o ícone da espiritualidade líquida descrita por Zygmunt Bauman: uma religião sem aderência, uma fé sem profundidade, um pertencimento sem raízes.
E aqui a crítica de Jesus se torna cirúrgica para nosso tempo. Ele denuncia antes de nós as teologias que hoje seduzem multidões: a teologia da prosperidade, que promete bênçãos sem cruz; a teologia do domínio, que promete poder sem serviço; o evangelho do individualismo, que promete autonomia sem comunhão; a fé-mercadoria, que trata Deus como produto e a Igreja como mercado. Todas essas narrativas constroem casas impressionantes por fora, mas frágeis por dentro. São palácios erguidos na areia da performance religiosa. E o pior é que essas casas muitas vezes se sustentam enquanto o tempo está bom, mas basta um vento — uma doença, um luto, uma crise econômica, um escândalo, uma crise moral — e tudo desaba. Porque o Evangelho não promete estabilidade sem fundação.
Nesse ponto, o texto dialoga com Lucas 6,46-49, onde Jesus formula a mesma advertência: “Por que me chamais ‘Senhor, Senhor’, e não fazeis o que eu digo?” A duplicidade é uma forma de idolatria. O discurso religioso que não se traduz em vida transforma Deus em adereço. E o adorno não sustenta ninguém na tempestade. Os profetas já haviam denunciado isso: Isaías, ao criticar a aliança feita sobre mentiras (Is 28,15-17); Jeremias, ao denunciar o templo que se torna esconderijo de injustiças (Jr 7,1-11); Amós, ao revelar que Deus rejeita cantos e sacrifícios quando a justiça não corre como um rio (Am 5,21-24). A Bíblia inteira sabe que fé sem obras é areia.
A patrística ecoa essa leitura de modo esplêndido. São João Crisóstomo ensina que o maior perigo não é a tempestade, mas a falsa sensação de segurança. Agostinho afirma que a rocha é a caridade vivida — “não a que se declara, mas a que se pratica”. São Basílio insiste: “obra sem amor é casa sem alicerce: exteriormente bela, interiormente oca”. Orígenes, comentando Mateus, vê na tempestade a metáfora das provações que revelam o verdadeiro fundamento. Tertuliano recorda que a fé cristã não se sustenta no discurso, mas no testemunho. E Gregório de Nissa interpreta a rocha como o próprio Cristo, cuja firmeza nos transforma. A tradição inteira converge: ouvir sem praticar é construir na areia da ilusão.
E esse Evangelho precisa tocar a Igreja hoje, especialmente suas formas de poder. O clericalismo é areia — e Jesus o denuncia sem piedade. É areia quando transforma o ministério em plataforma de visibilidade; quando troca serviço por prestígio; quando confunde autoridade pastoral com poder social; quando reduz o Evangelho a regras, códigos, opiniões pessoais, discursos moralistas ou teatralizações litúrgicas. O clericalismo constrói casas altíssimas, mas de vidro. A primeira tempestade pública derruba, expõe e escancara a fragilidade. E por quê? Porque a rocha não é a instituição; é o Cristo servidor.
Do ponto de vista psicológico, a imagem da tempestade é uma das mais ricas da Escritura. Ventos, chuvas, enchentes evocam crises, ansiedades, traumas, rupturas. A casa construída sobre areia é a vida emocional sustentada por validação externa, por autoimagem, por aplauso, por superficialidade. Ela desmorona porque não possui recursos internos de enfrentamento. É a personalidade dependente da performance. Já a casa construída sobre rocha é a vida integrada, coerente, enraizada em valores, vínculos, espiritualidade encarnada, sentido profundo. A rocha é a integridade que unifica. É a coerência entre o que digo e o que faço, entre o que anuncio e o que vivo, entre o que prometo e o que sustento.
Sociologicamente, vivemos em tempos de fundações frágeis. Tudo é líquido, instável, descartável. Relações, instituições, identidades, compromissos — tudo parece provisório. A metáfora da casa atravessa nossa contemporaneidade: famílias desestruturadas por pressões econômicas, vínculos afetivos corroídos pelo individualismo, comunidades esvaziadas pela lógica de consumo, espiritualidades transformadas em produtos. Em uma sociedade assim, construir sobre rocha parece quase absurdo — mas é exatamente o que salva. A rocha não tira a liberdade; oferece sentido. Não suprime o movimento; impede o colapso.
Teologicamente, a imagem da casa dialoga com toda a Escritura. Em Provérbios, a casa do justo permanece, mas a dos ímpios cai (Pr 12,7). No Salmo 127, afirmamos: “Se o Senhor não constrói a casa, em vão trabalham os construtores.” No Apocalipse, a Nova Jerusalém é construída sobre doze fundamentos (Ap 21,14). Paulo afirma que ninguém pode pôr outro fundamento além de Cristo (1Cor 3,11). A casa é símbolo do ser, da comunidade, da Igreja, da humanidade.
Quando esse texto é proclamado em um matrimônio, adquire espessura sacramental: o amor é a arte de construir. O amor começa bonito, mas permanece somente quando se torna trabalho diário. O casal que deseja estabilidade precisa cavar, aprofundar, resistir, recomeçar. Não existe casamento sem tempestade. Tempestade não é sinal de fracasso, mas de realidade. A diferença entre queda e permanência nunca é a tempestade — é o fundamento. Casamentos construídos na areia da vaidade, da mentira, do ciúme, da falta de diálogo, do individualismo e da espiritualidade superficial ruem com o tempo. Mas casamentos construídos na rocha do perdão, da fidelidade, do diálogo honesto, da espiritualidade concreta e do amor real permanecem.
Os documentos da Igreja refletem isso com clareza. Dei Verbum insiste que a audição da Palavra exige obediência da fé. Gaudium et Spes recorda que toda estrutura humana baseada na injustiça ruirá sobre os pobres. Evangelii Gaudium denuncia o mundanismo espiritual como areia perigosa. Fratelli Tutti afirma que sociedades construídas sobre interesse e polarização desabam inevitavelmente. O Magistério confirma o ensinamento de Jesus: casas sem fundamento ético, espiritual e comunitário desmoronam — sejam casas individuais, familiares, eclesiais ou sociais.
E a história também confirma. Quando a Igreja se uniu demais ao poder, perdeu a rocha. Quando se uniu aos pequenos, tornou-se rocha para eles. Quando seguiu César, caiu. Quando seguiu Cristo, sustentou. A profecia de Jesus não é apenas moral: é histórica.
Por fim, o Advento nos devolve ao essencial: sobre o quê estou construindo minha vida? Quais são meus alicerces? O que resiste quando a verdade sopra forte? O que permanece quando a chuva cai? O que sustenta meus afetos, minhas escolhas, minha fé, minha família, minha comunidade, meu país? Porque a queda da casa construída sobre areia não é apenas grande — é trágica. Ela destrói não só paredes, mas histórias, vínculos, memórias, futuros. E é trágica porque poderia ter sido evitada.
O Evangelho não nos dá uma metáfora, mas um caminho. Ele nos chama à autenticidade: que a fé seja vida, não estética; que a espiritualidade seja encontro, não performance; que a Igreja seja casa, não palco; que o amor seja compromisso, não impulso. Construir sobre a rocha é fazer do cotidiano o lugar da eternidade. É permitir que o Cristo que vem encontre, ao chegar, um coração enraizado, não um coração escorado.
No Advento — e no matrimônio — essa é a promessa: preparar uma casa que possa acolher Deus e acolher o outro. Uma casa que resista ao vento porque ama a verdade; que resista à noite porque guarda a esperança; que resista ao tempo porque é construída na eternidade. Uma casa que não desaba porque conhece a força da rocha. A rocha que é Cristo — o Deus que vem, que chega silencioso, mas firme; discreto, mas invencível; terno, mas inabalável. Ele vem. Sempre vem. E quando vier, encontrará em nós uma casa construída não sobre a areia da ilusão, mas sobre a rocha da justiça, da misericórdia, da verdade e do amor que permanece.
DNonato – Teólogo do Cotidiano


Nenhum comentário:
Postar um comentário
Obrigado pelo seu comentário.