quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Um breve olhar sobre Lucas 5,12-16

 

A liturgia da sexta-feira depois da Epifania do Senhor, ainda inserida no horizonte l7uminoso do Tempo do Natal, nos conduz a um dos textos mais densos, perturbadores e teologicamente explosivos do Evangelho segundo Lucas: o encontro de Jesus com um homem coberto de lepra (Lc 5,12-16). Não se trata de um simples relato de cura, nem de um episódio piedoso destinado a confirmar poderes extraordinários. Trata-se de uma verdadeira epifania às avessas, na qual Deus se revela não no brilho das estrelas, nem na solenidade dos palácios, nem nos circuitos oficiais do sagrado, mas no corpo ferido, interditado e socialmente descartado de um homem condenado a viver fora da cidade, fora da convivência humana e fora do culto. A Epifania, aqui, não ilumina reis nem sábios; ilumina as margens, expõe o conflito entre vida e sistema religioso, entre misericórdia e ritualismo, entre a compaixão encarnada e a religião quando se converte em mecanismo de controle, classificação e exclusão.

Lucas situa essa cena em um momento decisivo do ministério de Jesus. Ele já ensina com autoridade, já chamou discípulos, já enfrentou resistências, e sua fama começa a se espalhar pelas aldeias da Galileia. É justamente nesse contexto que irrompe a figura do leproso, rompendo todas as barreiras simbólicas, sociais e religiosas que sustentavam a ordem vigente. A lepra, no mundo bíblico, não era apenas uma enfermidade física entre outras. Ela concentrava um peso simbólico devastador. Conforme os capítulos 13 e 14 do Levítico, cabia aos sacerdotes declarar quem estava puro ou impuro, apto ou inapto para a convivência social, econômica e religiosa. O leproso era obrigado a viver isolado, rasgar as vestes, cobrir o rosto e anunciar publicamente sua condição com o grito ritual de “impuro, impuro”. Não era apenas alguém que sofria no corpo; tornava-se ameaça à ordem sagrada, um sinal ambulante de desordem, um corpo que encarnava o medo coletivo e a ruptura da normalidade.

Essa lógica atravessa o Antigo Testamento de modo complexo. Em Jó, a enfermidade desperta suspeita moral: quem sofre deve ter pecado. Nos Salmos de lamento, como o Salmo 38, a doença aparece associada ao abandono social, à solidão, ao afastamento dos amigos e parentes. No Servo Sofredor de Isaías 53, o corpo ferido, desprezado e rejeitado torna-se paradoxalmente lugar de salvação. Em 2 Reis 5, a cura de Naamã, o sírio, revela que a ação de Deus não se submete às fronteiras étnicas nem às hierarquias religiosas de Israel. Todos esses textos constroem um pano de fundo decisivo para compreender a cena lucana: a doença não é apenas biológica, mas social, simbólica, religiosa e política.

Quando esse homem se aproxima de Jesus, ele já realizou um gesto profundamente transgressor. Aproximar-se significava quebrar o isolamento imposto pela Lei. Falar significava romper o silêncio social ao qual fora condenado. Prostrar-se diante de Jesus significava reconhecer nele uma autoridade que ultrapassa o sistema que o havia declarado impuro. Seu pedido é curto, direto e carregado de densidade teológica: “Se queres, tens o poder de me purificar”. Não há barganha, não há promessa, não há cálculo religioso. Há apenas confiança radical. O verbo utilizado por Lucas não se limita à ideia de cura física; remete à purificação, isto é, à reintegração plena à vida comunitária, cultual e social. O que está em jogo não é apenas a saúde do corpo, mas a restituição da dignidade, da pertença e do sentido de existir.

A resposta de Jesus desconcerta ainda mais: ele estende a mão e toca o homem. O toque antecede a palavra. Antes de qualquer explicação teológica, vem o gesto. Esse detalhe é decisivo e profundamente escandaloso. Em Marcos 1,40-45 e Mateus 8,1-4, a cena aparece de forma semelhante, mas Lucas acentua com particular força a proximidade corporal e a ruptura simbólica que esse gesto representa. Tocar um leproso significava, segundo a Lei, tornar-se impuro. Jesus não ignora essa realidade; ele a enfrenta frontalmente. Ao tocar, Jesus não apenas cura o homem, mas desmonta a lógica que absolutizou a pureza ritual em detrimento da vida. A impureza não passa do homem para Jesus; a vida passa de Jesus para o homem. Aqui se revela uma inversão teológica radical: não é a Lei que salva a vida, é a vida que revela o verdadeiro sentido da Lei.

Essa inversão possui implicações antropológicas profundas. O corpo, tantas vezes usado como critério de exclusão — corpo doente, corpo pobre, corpo feminino, corpo negro, corpo envelhecido, corpo dissidente — torna-se lugar da revelação de Deus. O cristianismo não nasce como religião do espírito desencarnado, mas como fé na Palavra que se fez carne. Jesus não espiritualiza a dor, não a transforma em prova moral, não a associa automaticamente a castigo divino. Ele se aproxima, toca e devolve humanidade. Nesse sentido, o Evangelho confronta frontalmente as teologias da prosperidade e do domínio, que associam bênção a sucesso, fé a vitória, sofrimento a fracasso espiritual. O leproso de Lucas desmonta essas narrativas de forma irrefutável. Ele não é curado porque mereceu, nem porque acreditou corretamente, nem porque fez algo certo; ele é curado porque Deus é misericórdia e porque a vida humana vale mais do que qualquer sistema religioso ou doutrina justificadora da exclusão.

Ao ordenar que o homem se apresente ao sacerdote, Jesus não reforça o poder clerical, mas revela uma tensão estrutural. Ele respeita o caminho institucional previsto, sem permitir que a instituição se coloque como origem da graça. A cura não parte do templo, nem da hierarquia, nem do aparato cultual, mas da compaixão. A autoridade religiosa é chamada a reconhecer aquilo que Deus já realizou fora de seus limites e controles. Aqui o texto se converte em crítica direta ao clericalismo, entendido não apenas como excesso de poder do clero, mas como lógica religiosa que sequestra o sagrado, absolutiza mediações e transforma ministérios em mecanismos de controle da vida alheia. Quando a religião se fecha em normas, títulos e autorreferencialidade, ela deixa de ser mediação de vida e se transforma em obstáculo ao Reino.

Lucas acrescenta um detalhe decisivo: Jesus pede silêncio, mas a notícia se espalha ainda mais. Esse chamado ao silêncio, presente também em Marcos, não é simples estratégia narrativa, mas revela o que a tradição chama de “silêncio messiânico”. Jesus recusa ser reduzido a taumaturgo, curandeiro ou ídolo religioso. Quanto mais se tenta controlar o impacto do Reino, mais ele transborda. Ainda assim, Jesus não se deixa capturar pela fama nem pelo sucesso religioso. Ele se retira para lugares desertos e reza. O deserto, na tradição bíblica, é lugar de purificação, de confronto interior, de reencontro com o essencial. É no deserto que Israel aprende a depender de Deus; é no deserto que os profetas escutam a Palavra; é no deserto que Jesus enfrenta as tentações do poder, do espetáculo e da dominação.

Esse movimento impede qualquer leitura triunfalista do texto. O Reino não se confunde com espetáculo, nem com performance religiosa, nem com números, curtidas ou aplausos. Há aqui uma crítica contundente à fé transformada em mercadoria, à religião convertida em produto, ao culto reduzido a entretenimento. Jesus cura, mas não se promove. Age, mas se retira. Toca, mas não se apropria do milagre. Essa atitude revela uma espiritualidade profundamente crítica ao individualismo religioso e à lógica do mercado que infiltra práticas pastorais e discursos teológicos.

Essa lógica atravessa toda a Escritura. O Deus que toca o leproso é o mesmo que escuta o clamor dos escravizados no Egito, que se aproxima de Agar no deserto, que se deixa questionar por Moisés, que se inclina sobre o ferido à beira do caminho na parábola do samaritano, que se deixa tocar por uma mulher considerada impura e que morre fora dos muros da cidade, como recorda a Carta aos Hebreus. Em todos esses textos, Deus não aparece como guardião da ordem estabelecida, mas como presença que desestabiliza sistemas injustos e restitui dignidade aos descartados da história.

À luz do Concílio Vaticano II, especialmente da Gaudium et Spes, essa cena ganha densidade ainda maior. A Igreja é chamada a ler os sinais dos tempos a partir das dores e esperanças da humanidade concreta, sobretudo dos pobres e excluídos. Onde há sofrimento, exclusão e negação de dignidade, ali se encontra um lugar teológico privilegiado. O caminho latino-americano, de Medellín a Puebla, de Santo Domingo a Aparecida, insistiu que a opção preferencial pelos pobres não é um apêndice pastoral nem uma ideologia sociológica, mas exigência evangélica que brota do próprio modo de agir de Jesus. A CNBB, em suas diretrizes pastorais e documentos sociais, tem reiterado que não existe fé autêntica desvinculada da defesa da vida, da justiça e da superação das estruturas que produzem exclusão, violência e morte.

Lucas 5,12-16 continua, assim, julgando nossas práticas religiosas. Interroga se nossas comunidades são espaços de acolhida ou de controle; se nossos rituais geram vida ou apenas preservam privilégios; se nossa teologia liberta ou culpa; se nossa espiritualidade toca ou se mantém à distância; se nossas pastorais curam ou apenas administram a exclusão de forma piedosa. O texto desmonta o individualismo religioso que reduz a fé à experiência privada e ignora as feridas sociais. A cura do leproso não é um evento íntimo nem isolado; ela tem consequências comunitárias, econômicas, litúrgicas e políticas. Reintegrar alguém à comunidade significa devolver-lhe trabalho, vínculos, voz e lugar.

A Palavra permanece aberta. Lucas não fecha a cena com um final harmonioso. Há tensão, há conflito, há retirada para o deserto. O Evangelho não oferece conforto fácil nem espiritualidade anestesiante. Ele nos coloca diante de uma decisão permanente: seguir um Cristo que toca, reintegra e desinstala ou domesticar a fé para que ela não nos obrigue a sair das zonas de segurança, dos privilégios religiosos e das estruturas excludentes. A epifania que brilha nesse texto não ilumina palcos nem templos grandiosos; ela resplandece na carne ferida que volta a ser reconhecida como vida digna de comunhão.



DNonato – Teólogo do Cotidiano

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