Lucas situa essa cena em um momento decisivo do ministério de Jesus. Ele já ensina com autoridade, já chamou discípulos, já enfrentou resistências, e sua fama começa a se espalhar pelas aldeias da Galileia. É justamente nesse contexto que irrompe a figura do leproso, rompendo todas as barreiras simbólicas, sociais e religiosas que sustentavam a ordem vigente. A lepra, no mundo bíblico, não era apenas uma enfermidade física entre outras. Ela concentrava um peso simbólico devastador. Conforme os capítulos 13 e 14 do Levítico, cabia aos sacerdotes declarar quem estava puro ou impuro, apto ou inapto para a convivência social, econômica e religiosa. O leproso era obrigado a viver isolado, rasgar as vestes, cobrir o rosto e anunciar publicamente sua condição com o grito ritual de “impuro, impuro”. Não era apenas alguém que sofria no corpo; tornava-se ameaça à ordem sagrada, um sinal ambulante de desordem, um corpo que encarnava o medo coletivo e a ruptura da normalidade.
Essa lógica atravessa o Antigo Testamento de modo complexo. Em Jó, a enfermidade desperta suspeita moral: quem sofre deve ter pecado. Nos Salmos de lamento, como o Salmo 38, a doença aparece associada ao abandono social, à solidão, ao afastamento dos amigos e parentes. No Servo Sofredor de Isaías 53, o corpo ferido, desprezado e rejeitado torna-se paradoxalmente lugar de salvação. Em 2 Reis 5, a cura de Naamã, o sírio, revela que a ação de Deus não se submete às fronteiras étnicas nem às hierarquias religiosas de Israel. Todos esses textos constroem um pano de fundo decisivo para compreender a cena lucana: a doença não é apenas biológica, mas social, simbólica, religiosa e política.
Quando esse homem se aproxima de Jesus, ele já realizou um gesto profundamente transgressor. Aproximar-se significava quebrar o isolamento imposto pela Lei. Falar significava romper o silêncio social ao qual fora condenado. Prostrar-se diante de Jesus significava reconhecer nele uma autoridade que ultrapassa o sistema que o havia declarado impuro. Seu pedido é curto, direto e carregado de densidade teológica: “Se queres, tens o poder de me purificar”. Não há barganha, não há promessa, não há cálculo religioso. Há apenas confiança radical. O verbo utilizado por Lucas não se limita à ideia de cura física; remete à purificação, isto é, à reintegração plena à vida comunitária, cultual e social. O que está em jogo não é apenas a saúde do corpo, mas a restituição da dignidade, da pertença e do sentido de existir.
A resposta de Jesus desconcerta ainda mais: ele estende a mão e toca o homem. O toque antecede a palavra. Antes de qualquer explicação teológica, vem o gesto. Esse detalhe é decisivo e profundamente escandaloso. Em Marcos 1,40-45 e Mateus 8,1-4, a cena aparece de forma semelhante, mas Lucas acentua com particular força a proximidade corporal e a ruptura simbólica que esse gesto representa. Tocar um leproso significava, segundo a Lei, tornar-se impuro. Jesus não ignora essa realidade; ele a enfrenta frontalmente. Ao tocar, Jesus não apenas cura o homem, mas desmonta a lógica que absolutizou a pureza ritual em detrimento da vida. A impureza não passa do homem para Jesus; a vida passa de Jesus para o homem. Aqui se revela uma inversão teológica radical: não é a Lei que salva a vida, é a vida que revela o verdadeiro sentido da Lei.
Essa inversão possui implicações antropológicas profundas. O corpo, tantas vezes usado como critério de exclusão — corpo doente, corpo pobre, corpo feminino, corpo negro, corpo envelhecido, corpo dissidente — torna-se lugar da revelação de Deus. O cristianismo não nasce como religião do espírito desencarnado, mas como fé na Palavra que se fez carne. Jesus não espiritualiza a dor, não a transforma em prova moral, não a associa automaticamente a castigo divino. Ele se aproxima, toca e devolve humanidade. Nesse sentido, o Evangelho confronta frontalmente as teologias da prosperidade e do domínio, que associam bênção a sucesso, fé a vitória, sofrimento a fracasso espiritual. O leproso de Lucas desmonta essas narrativas de forma irrefutável. Ele não é curado porque mereceu, nem porque acreditou corretamente, nem porque fez algo certo; ele é curado porque Deus é misericórdia e porque a vida humana vale mais do que qualquer sistema religioso ou doutrina justificadora da exclusão.
Ao ordenar que o homem se apresente ao sacerdote, Jesus não reforça o poder clerical, mas revela uma tensão estrutural. Ele respeita o caminho institucional previsto, sem permitir que a instituição se coloque como origem da graça. A cura não parte do templo, nem da hierarquia, nem do aparato cultual, mas da compaixão. A autoridade religiosa é chamada a reconhecer aquilo que Deus já realizou fora de seus limites e controles. Aqui o texto se converte em crítica direta ao clericalismo, entendido não apenas como excesso de poder do clero, mas como lógica religiosa que sequestra o sagrado, absolutiza mediações e transforma ministérios em mecanismos de controle da vida alheia. Quando a religião se fecha em normas, títulos e autorreferencialidade, ela deixa de ser mediação de vida e se transforma em obstáculo ao Reino.
Lucas acrescenta um detalhe decisivo: Jesus pede silêncio, mas a notícia se espalha ainda mais. Esse chamado ao silêncio, presente também em Marcos, não é simples estratégia narrativa, mas revela o que a tradição chama de “silêncio messiânico”. Jesus recusa ser reduzido a taumaturgo, curandeiro ou ídolo religioso. Quanto mais se tenta controlar o impacto do Reino, mais ele transborda. Ainda assim, Jesus não se deixa capturar pela fama nem pelo sucesso religioso. Ele se retira para lugares desertos e reza. O deserto, na tradição bíblica, é lugar de purificação, de confronto interior, de reencontro com o essencial. É no deserto que Israel aprende a depender de Deus; é no deserto que os profetas escutam a Palavra; é no deserto que Jesus enfrenta as tentações do poder, do espetáculo e da dominação.
Esse movimento impede qualquer leitura triunfalista do texto. O Reino não se confunde com espetáculo, nem com performance religiosa, nem com números, curtidas ou aplausos. Há aqui uma crítica contundente à fé transformada em mercadoria, à religião convertida em produto, ao culto reduzido a entretenimento. Jesus cura, mas não se promove. Age, mas se retira. Toca, mas não se apropria do milagre. Essa atitude revela uma espiritualidade profundamente crítica ao individualismo religioso e à lógica do mercado que infiltra práticas pastorais e discursos teológicos.
Essa lógica atravessa toda a Escritura. O Deus que toca o leproso é o mesmo que escuta o clamor dos escravizados no Egito, que se aproxima de Agar no deserto, que se deixa questionar por Moisés, que se inclina sobre o ferido à beira do caminho na parábola do samaritano, que se deixa tocar por uma mulher considerada impura e que morre fora dos muros da cidade, como recorda a Carta aos Hebreus. Em todos esses textos, Deus não aparece como guardião da ordem estabelecida, mas como presença que desestabiliza sistemas injustos e restitui dignidade aos descartados da história.
À luz do Concílio Vaticano II, especialmente da Gaudium et Spes, essa cena ganha densidade ainda maior. A Igreja é chamada a ler os sinais dos tempos a partir das dores e esperanças da humanidade concreta, sobretudo dos pobres e excluídos. Onde há sofrimento, exclusão e negação de dignidade, ali se encontra um lugar teológico privilegiado. O caminho latino-americano, de Medellín a Puebla, de Santo Domingo a Aparecida, insistiu que a opção preferencial pelos pobres não é um apêndice pastoral nem uma ideologia sociológica, mas exigência evangélica que brota do próprio modo de agir de Jesus. A CNBB, em suas diretrizes pastorais e documentos sociais, tem reiterado que não existe fé autêntica desvinculada da defesa da vida, da justiça e da superação das estruturas que produzem exclusão, violência e morte.
Lucas 5,12-16 continua, assim, julgando nossas práticas religiosas. Interroga se nossas comunidades são espaços de acolhida ou de controle; se nossos rituais geram vida ou apenas preservam privilégios; se nossa teologia liberta ou culpa; se nossa espiritualidade toca ou se mantém à distância; se nossas pastorais curam ou apenas administram a exclusão de forma piedosa. O texto desmonta o individualismo religioso que reduz a fé à experiência privada e ignora as feridas sociais. A cura do leproso não é um evento íntimo nem isolado; ela tem consequências comunitárias, econômicas, litúrgicas e políticas. Reintegrar alguém à comunidade significa devolver-lhe trabalho, vínculos, voz e lugar.
A Palavra permanece aberta. Lucas não fecha a cena com um final harmonioso. Há tensão, há conflito, há retirada para o deserto. O Evangelho não oferece conforto fácil nem espiritualidade anestesiante. Ele nos coloca diante de uma decisão permanente: seguir um Cristo que toca, reintegra e desinstala ou domesticar a fé para que ela não nos obrigue a sair das zonas de segurança, dos privilégios religiosos e das estruturas excludentes. A epifania que brilha nesse texto não ilumina palcos nem templos grandiosos; ela resplandece na carne ferida que volta a ser reconhecida como vida digna de comunhão.
DNonato – Teólogo do Cotidiano


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