Fora desse dia específico, o Lecionário não proclama Marcos 6,34-44 de forma integral. No Tempo Comum, o texto aparece apenas de modo fragmentado. No sábado da quarta semana do Tempo Comum, por exemplo, o Evangelho é Marcos 6,30-34, encerrando-se antes da multiplicação. A liturgia opta por destacar o retorno dos apóstolos da missão, o convite de Jesus ao descanso e, sobretudo, o seu olhar compassivo diante da multidão. A ausência deliberada do milagre ensina que a ação pastoral nasce primeiro da escuta, do cuidado e da leitura sensível da realidade, antes de qualquer gesto extraordinário.
O mesmo critério aparece na liturgia dominical do Ano B. No 16º Domingo do Tempo Comum, a Igreja proclama novamente Marcos 6,30-34, sem a continuação do relato. Mais uma vez, a multiplicação dos pães é omitida. O foco recai inteiramente sobre a compaixão de Jesus e sua decisão de ensinar. A liturgia educa o olhar da comunidade: antes de pensar no pão multiplicado, é preciso aprender a ver como Jesus vê.
Nos domingos seguintes do Ano B, quando o tema do pão reaparece, a Igreja não retorna a Marcos, mas conduz a assembleia ao capítulo 6 do Evangelho de João, especialmente ao discurso do Pão da Vida. Assim, o gesto narrado por Marcos é retomado e aprofundado em chave eucarística e cristológica por João. Trata-se de uma releitura teológica, não de uma repetição narrativa.
Dessa forma, a distribuição litúrgica de Marcos 6,34-44 é clara e intencional:
- Proclamado integralmente apenas na terça-feira depois da Epifania;
- No Tempo Comum e no Ano B dominical, aparecem apenas os versículos iniciais (6,30-34);
- Aprofundamento eucarístico do sinal do pão ocorre por meio de João 6, e não pela repetição do texto de Marcos.
Essa pedagogia litúrgica preserva o núcleo do Evangelho. A Igreja não apresenta primeiro o milagre, mas o olhar, a compaixão e a responsabilidade. Jesus não surge como um distribuidor mágico de pão, mas como o Pastor que ensina, organiza, envolve e chama os discípulos à corresponsabilidade: “Dai-lhes vós mesmos de comer”. Assim, a liturgia guarda a verdade mais profunda do texto: não há multiplicação sem compaixão, não há Eucaristia sem compromisso com a fome concreta do povo, não há manifestação de Deus que não passe pela vida real.
Não se trata apenas de um relato edificante sobre um milagre extraordinário, mas de uma catequese densa, cuidadosamente construída por Marcos, que articula cristologia, eclesiologia, antropologia e uma crítica profética às formas distorcidas de religião e de organização social. Desde o início, o evangelista imprime ao texto o ritmo que lhe é característico: movimento, tensão, deslocamento constante entre retirada e retorno, silêncio e anúncio, deserto e multidão, compondo uma narrativa que nunca é estática, mas sempre provocadora.
Marcos escreve para comunidades marcadas pela perseguição, pela pobreza e pela sensação de abandono. Seu Evangelho é conciso, urgente, atravessado pelo advérbio “imediatamente”, mas, ao mesmo tempo, profundamente simbólico. Quando afirma que Jesus “viu uma grande multidão e teve compaixão, porque eram como ovelhas sem pastor” (Mc 6,34), o evangelista convoca toda a memória bíblica de Israel. A imagem das ovelhas sem pastor não é ingênua nem sentimental. Ela remete às denúncias proféticas de Ezequiel 34, onde os pastores de Israel são acusados de apascentar a si mesmos e não ao rebanho, e ao clamor de Moisés em Números 27,17, quando pede a Deus um líder para que o povo não fique “como ovelhas sem pastor”. Marcos afirma, de modo implícito e teologicamente ousado, que em Jesus essa promessa se cumpre, e, simultaneamente, revela o juízo de Deus sobre lideranças religiosas e políticas que falharam em sua missão.
A compaixão de Jesus não é apenas emoção; é um verbo carregado de corporeidade. O termo grego splagchnízomai indica um movimento das entranhas, das vísceras, o mesmo verbo utilizado na parábola do pai misericordioso (Lc 15,20) e na do bom samaritano (Lc 10,33). Trata-se de uma reação profundamente humana e, ao mesmo tempo, reveladora do próprio modo de ser de Deus. A multidão não é repreendida por sua desorganização nem dispensada por sua carência. Jesus não espiritualiza a fome nem a transforma em mérito ascético. Ele ensina longamente, porque a fome é também simbólica: fome de sentido, de justiça, de palavra verdadeira, de direção. Antes de resolver o problema, Ele se deixa afetar por ele, revelando uma pedagogia que nasce da escuta e da proximidade.
Esse movimento acontece no deserto, lugar central em Marcos. Biblicamente, o deserto é espaço de prova, de dependência e de revelação. Foi ali que Israel aprendeu que não vive apenas de pão (Dt 8,3), mas também ali descobriu que o pão não pode faltar. O deserto desmonta falsas seguranças, desmascara ídolos religiosos e econômicos e obriga o povo a reaprender a confiar. Historicamente, o deserto da Palestina do século I não era apenas metáfora espiritual, mas realidade social marcada por precariedade, exploração e abandono estrutural. Marcos situa o milagre exatamente onde o sistema falha, revelando que a ação de Deus não acontece à margem da história, mas no coração de suas feridas.
Antes de multiplicar o pão, Jesus oferece a Palavra. Marcos sublinha que Ele “começou a ensinar-lhes muitas coisas”. A Palavra precede o pão, mas nunca o substitui. Diferente das teologias que absolutizam o espiritual e desprezam o corpo, o Evangelho articula ensino e alimento, revelação e sobrevivência. A fé bíblica nunca separa o humano do divino. Em Deuteronômio 8, Israel aprende que “nem só de pão vive o homem”, mas os profetas insistem que não há fidelidade a Deus sem justiça concreta. A multiplicação dos pães é, portanto, um sinal integral, que recusa tanto o espiritualismo evasivo quanto o materialismo sem transcendência.
Quando o dia começa a declinar, os discípulos entram em cena com uma lógica pragmática e aparentemente sensata: despedir a multidão para que cada um resolva seu próprio problema. Marcos constrói aqui uma tensão pedagógica decisiva. Jesus devolve o problema aos discípulos: “Dai-lhes vós mesmos de comer” (Mc 6,37). Não se trata de um teste de eficiência, mas de um chamado à corresponsabilidade. A Igreja aprende que não pode terceirizar a dor do mundo nem espiritualizar a miséria alheia. A resposta dos discípulos revela tanto realismo econômico quanto pobreza de imaginação. O cálculo é correto, mas o horizonte é estreito. Quantas vezes, ainda hoje, a fé calcula corretamente e sonha pouco?
Jesus não censura o pouco que eles têm, mas pergunta: “Quantos pães tendes?” A pergunta desloca o olhar da falta para o dom. Cinco pães e dois peixes não são solução suficiente, mas ponto de partida. Aqui o texto toca uma dimensão antropológica profunda: a transformação da realidade começa quando o sujeito reconhece o que possui e o coloca em relação. A psicologia contemporânea reconhece que o desespero paralisa, enquanto a responsabilidade partilhada gera criatividade. A fé bíblica vai além: o pouco oferecido, quando atravessado pela gratidão, torna-se espaço de ação divina e de transformação social.
O gesto de Jesus ao tomar os pães, erguer os olhos ao céu, pronunciar a bênção, partir e distribuir, antecipa a linguagem eucarística. Marcos escreve para comunidades que já celebram a fração do pão. O milagre não é apenas quantitativo; é sacramental. Dar graças antes da abundância é um ato profundamente contracultural. A lógica do Reino não espera a solução para agradecer; agradece para transformar. Aqui se rompe a lógica da teologia da prosperidade, que condiciona a bênção ao sucesso visível, e da fé-mercadoria, que transforma Deus em fornecedor de resultados. Jesus agradece no meio da escassez, desmascarando uma religião que só louva quando vence.
A ordem para que todos se sentem na relva verde também é simbólica. Evoca o Salmo 23: “Em verdes prados me faz repousar”. O Pastor conduz, organiza, cria espaço de dignidade. Não se trata de uma massa amorfa, mas de grupos organizados. A sociologia ajuda a perceber que a organização comunitária é condição para a partilha real. Onde tudo é individualizado, o milagre não acontece. A multiplicação dos pães é, ao mesmo tempo, dom divino e conversão social. A abundância surge quando o pão deixa de ser propriedade e se torna relação.
Todos comem e ficam saciados. Não há racionamento simbólico nem espiritualização da fome. A saciedade é plena, e os doze cestos que sobram remetem às doze tribos de Israel, sinal de que o Reino não exclui, mas restaura a totalidade. Aqui ecoa Isaías 25,6, o banquete preparado por Deus para todos os povos, antecipando a esperança escatológica que atravessa toda a Escritura e aponta para uma história reconciliada.
Mateus 14,13-21 associa a multiplicação à morte de João Batista. O retiro de Jesus não é fuga, mas luto e discernimento diante da violência do poder. A multidão que o segue representa um povo que continua buscando vida quando as lideranças produzem morte. Mateus sublinha que Jesus cura os doentes antes da partilha, reforçando que o Reino restaura integralmente o humano.
Lucas 9,10-17 destaca a acolhida. Jesus recebe a multidão, fala-lhes do Reino e cura os que precisam. A missão dos Doze não termina no anúncio, mas se verifica na capacidade de sustentar a vida concreta do povo. Em termos sociológicos, Lucas revela uma comunidade alternativa, onde ninguém é descartado por ser inconveniente ou improdutivo.
João 6 aprofunda a dimensão pascal do sinal. Situado próximo da Páscoa, o pão multiplicado dialoga com o maná do deserto. O detalhe do menino com cinco pães e dois peixes desloca o foco para a pequenez que se oferece. Jesus recusa ser proclamado rei, desmontando as teologias do domínio e do messianismo político. O discurso do pão da vida revela que não se trata de consumo religioso, mas de comunhão exigente, capaz de gerar crise e conversão.
A reação dos discípulos expressa mecanismos clássicos diante do excesso de demanda: negação, racionalização e deslocamento da responsabilidade. Jesus os conduz a atravessar o medo da insuficiência. A fé madura não nega os limites; oferece-os. Esse movimento transforma a angústia paralisante em gesto criativo de entrega. O texto mostra que a partilha exige mediação comunitária. Jesus não distribui diretamente; entrega aos discípulos. A Igreja é chamada a ser ponte. Onde o clericalismo concentra, o pão não chega; onde a fé vira mercadoria, o pão se torna privilégio; onde o individualismo reina, a multidão continua faminta. A crítica se estende também às leituras eucarísticas desvinculadas da justiça social, como denuncia Paulo em 1Coríntios 11,17-34.
Santo Agostinho via nos pães a Palavra que, quanto mais partilhada, mais se multiplica. São João Crisóstomo insistia que o milagre começa quando se vence o apego. Basílio de Cesareia denunciava o pão acumulado como roubo do pobre. Orígenes via na multiplicação um convite à leitura sempre renovada das Escrituras. A tradição inteira concorda: Deus não substitui a responsabilidade humana; Ele a eleva.
A Igreja não pode administrar a escassez como se ela fosse destino, nem sacralizar sa desigualdade social, como se fossem vontade de Deus. Em Marcos 6,34-44, a multiplicação dos pães é, ao mesmo tempo, juízo e anúncio:
- Juízo: contra toda religião que legitima a exclusão, a acumulação e a indiferença; anúncio de um Reino que nasce quando o pouco é colocado em comum. Onde a religião justifica o abandono, Jesus reparte; onde o cálculo transforma pessoas em números, Jesus ergue os olhos e agradece; onde o medo paralisa e fecha os punhos
- Anúncio: esus convoca a comunidade e confia a ela a tarefa de alimentar o povo.
A pergunta permanece incômoda e necessária:
- Quantos pães realmente temos quando nos recusamos a repartir?
O Evangelho desmonta a lógica da falta, porque revela que a verdadeira escassez não está nos recursos, mas na recusa da partilha. Não é o pouco que impede o milagre, mas o fechamento do coração e das estruturas.
Por isso, Marcos 6,34-44 permanece como paradigma permanente da vida e da missão da Igreja. A abundância prometida por Deus não é fuga para um amanhã idealizado, nem compensação espiritual para a injustiça presente. Ela começa agora, no chão da história, quando a gratidão se converte em gesto, quando a fé se traduz em partilha concreta, quando a comunidade assume a fome do outro como sua própria responsabilidade.
Esse Evangelho não conforta consciências nem legitima acomodações. Ele inquieta, desinstala e julga. E, justamente por isso, chama a Igreja a ser sinal visível do
Reino: não administradora da escassez nem gerente do possível, mas testemunha profética da abundância que nasce do dom, rompe a lógica da exclusão e gera vida plena para todos
DNonato - Teólogo do Cotidiano


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