quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Um breve olhar sobre Mateus 7,7-12.

  • O Convite à Oração e Confiança Filial

O Evangelho de Mateus 7,7-12, proclamado na liturgia do Rito Romano na primeira semana da Quaresma, representa o clímax do Sermão da Montanha (Mt 5–7), convidando à oração perseverante e confiada. Jesus apresenta pedir, buscar e bater como práticas existenciais que moldam a vida inteira, articulando confiança em Deus e compromisso ético com o próximo. A oração não se reduz a rituais mecânicos; é expressão de uma relação viva com o Pai, inseparável da justiça, da misericórdia e da solidariedade comunitária.8

O verbo grego empregado enfatiza continuidade e persistência, indicando que o discípulo deve cultivar um diálogo constante com Deus. Essa dinâmica é ecoada no Antigo Testamento: Abraão intercede por Sodoma (Gn 18,23-33), Moisés pelo povo (Êx 32,11-14), Samuel clama por arrependimento (1Sm 7,5-9), Daniel ora diante do decreto de morte (Dn 6,10-11) e Elias suplica pelo fim da seca (1Rs 18,36-37). Esses exemplos mostram que a oração nasce da vulnerabilidade humana, da consciência da dependência de Deus e da esperança na intervenção divina para justiça e restauração.

Nos Sinóticos, a oração perseverante aparece de formas complementares: Lucas 11,5-13 apresenta a parábola do amigo insistente, demonstrando que Deus atende pela fidelidade e persistência do discípulo; Marcos 11,24-25 enfatiza confiança total e reconciliação com o próximo; Mateus acrescenta uma dimensão ética e comunitária mais explícita, conectando oração, justiça social e ação transformadora.

A “regra de ouro” (Mt 7,12; Lc 6,31) sintetiza a Lei e os Profetas (Mt 22,37-40), mostrando que pedir pão ao Pai não se dissocia de dar pão ao irmão e de promover a justiça (Is 58,6-10; Am 5,21-24; Jr 22,3; Mq 6,6-8). Oração autêntica transforma o coração e gera ação concreta. Sem essa dimensão, a fé se torna religiosidade vazia, como alertam Isaías 1,11-17 e Jeremias 7,5-7, denúncia que permanece atual diante de cultos que ignoram injustiças, desigualdade e exploração.

Historicamente, a comunidade de Mateus enfrentava tensões com o judaísmo pós-destruição de Jerusalém (70 d.C.), deslocamentos e perseguição. Nesse contexto, Jesus apresenta Deus como Pai que oferece pão e peixe, símbolos de sustento e vida concreta, contrapondo-os à pedra e à serpente, representações de perigo e engano (Mt 4,3-4; Gn 3,1; Nm 21,6-9). O Pai não manipula nem ilude; oferece aquilo que é bom para a vida plena, incluindo discernimento espiritual e resistência ao mal.

Do ponto de vista antropológico, a figura paterna mediterrânea é reinterpretada: Deus cuida sem opressão, protege sem dominação. Psicologicamente, a confiança filial é antídoto contra ansiedade e desesperança (Mt 6,25-34; Sl 37,3-7), oferecendo segurança interior mesmo em contextos de tribulação. A oração não é instrumento de enriquecimento material (Tg 4,3), mas caminho de comunhão com a vontade divina (Jo 15,16; 1Jo 5,14-15).

A oração evidencia resistência profética frente à autossuficiência, competição e consumismo religioso. Persistir em pedir, buscar e bater denuncia estruturas de exploração, fortalece solidariedade e transforma a sociedade. Lucas 18,1-8, com a parábola da viúva persistente, ilustra a paciência e fidelidade necessárias para que a justiça prevaleça. Na realidade contemporânea, essa perseverança nos convoca a enfrentar desigualdades, violência urbana, precarização do trabalho, corrupção, feminicídio e exclusão social, convertendo fé em ação transformadora.

O simbolismo de pedir, buscar e bater é rico e multifacetado: pedir revela consciência da própria limitação; buscar exige ação e desejo ativo; bater evoca esperança e insistência diante de portas fechadas (Ap 3,20; Mt 25,35-40). Pão e peixe simbolizam sustento e vida compartilhada (Jo 6,35; Lc 24,42); pedra representa provações e tentação (Mt 4,3-4); serpente lembra o mal persistente desde a queda da humanidade (Gn 3,1; Nm 21,6-9). Cada símbolo articula dimensões espirituais, éticas e comunitárias, formando discípulos engajados na fé e na transformação social. A promessa de receber, encontrar e ter a porta aberta aponta à plenitude do Reino de Deus (Mt 25,34-40; Lc 12,32). A oração não elimina sofrimento imediato, mas forma discípulos pacientes e perseverantes (Lc 22,42), integrando esperança, fé e ação ética. A regra de ouro reforça que religiosidade sem transformação social é vazia (Is 58,6-10; Am 5,21-24), lembrando que oração e compromisso comunitário são inseparáveis.

A espiritualidade individualista é desafiada: o Pai é Nosso, o pão é nosso,  comunitário e o perdão é recíproco (Mt 6,9-13; Lc 6,37-38). A oração une história, comunidade e ética, desarma fanatismos e impede que a fé seja manipulada por interesses excludentes. No contexto latino-americano e global, marcado por desigualdades, violência estrutural e exclusão social, pedir justiça implica engajamento; buscar o Reino exige transformação das estruturas; bater à porta de Deus exige abrir portas aos marginalizados, empobrecidos e oprimidos.

A tradição patrística e mística reforça a inseparabilidade entre oração e ação.

  •  Santo Agostinho  afirma:  que a oração é abertura à vontade de Deus, mas também ação em consonância com essa vontade, permitindo que a graça transforme decisões, atitudes e circunstâncias. A oração não substitui a responsabilidade humana, mas a orienta ou seja pedir, buscar e bater como progressão espiritual: ora-se com a boca, busca-se com ação e bate-se com perseverança até entrar na intimidade de Deus. 
  •  Santos, mártires e pobres demonstram que oração e caridade caminham juntas, e que a perseverança na fé constitui resistência profética diante de injustiça, exploração e violência (Tg 5,16; 1Cor 2,9; Jo 14,16-17).

Paulo reforça a dimensão ética:

  •  “Orai sem cessar” (1Ts 5,16-18), “oferecei-vos como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus” (Rm 12,1-2) e “orai em todo tempo no Espírito, com súplicas e ações de graças” (Ef 6,18). A oração é inseparável da vida ética, da resistência profética e do compromisso social.

Aplicando ao tempo presente, a oração perseverante denuncia estruturas de opressão: exploração econômica, corrupção política, violência contra mulheres, racismo estrutural, destruição ambiental e exclusão social. Assim como Isaías e Jeremias clamaram à justiça, a prática da oração hoje é engajamento ativo, solidariedade comunitária e denúncia profética, promovendo dignidade, igualdade e transformação social.No contexto da vida contemporânea, isso significa que a persistência na oração exige engajamento social: lutar contra desigualdades, combater injustiças, proteger os marginalizados e agir em favor da dignidade humana, assim como a oração de Israel nas batalhas exigia disciplina, coragem e participação ativa

A oração verdadeira, conforme ensina Mateus 7,7-12, não se limita a palavras ou gestos isolados; ela exige participação ativa de quem ora, pois Deus chama o discípulo a colaborar com a própria graça. Como afirma o ditado popular, “faça por onde que te ajudarei”, a iniciativa humana não substitui a ação divina, mas abre espaço para que ela se manifeste. Esse princípio encontra eco na experiência de Israel em batalha. Quando o povo enfrentava inimigos, Moisés levantava suas mãos em oração, apoiado por Arão e Hur, e a vitória dependia tanto da persistência da oração quanto da manutenção das mãos erguidas, como está registrado em Êxodo 17,8-13. De forma semelhante, Josué conduziu Israel à vitória em Jericó confiando em Deus e obedecendo às instruções divinas, marchando e tocando trombetas, mostrando que fé e ação caminham juntas (Js 6,6-20). Samuel intercedeu pelo povo diante das ameaças dos filisteus, clamando por justiça e proteção enquanto o povo cumpria seu papel de enfrentar o inimigo (1Sm 7,5-13). Daniel, diante da perseguição, orava com portas abertas e coração comprometido, evidenciando que a oração exige postura, disciplina e coragem diante das dificuldades (Dn 6,10-11).

No Novo Testamento, a dimensão da ação unida à oração permanece central. Lucas 11,5-13 apresenta a parábola do amigo insistente à meia-noite, enfatizando que Deus responde à perseverança de quem pede e se dispõe a agir. Paulo, em Efésios 6,18, convoca a orar “em todo tempo no Espírito, com súplicas e ações de graças”, mostrando que a oração deve ser acompanhada de discernimento, esforço e envolvimento prático na vida comunitária. Tiago 2,14-17 alerta que a fé sem obras é morta; orar sem agir diante das injustiças, da pobreza ou da opressão reduz a fé à mera formalidade. Jesus mesmo ensina que pedir pão ao Pai não se dissocia de dar pão ao irmão (Mt 7,12; Is 58,6-10; Am 5,21-24), unindo oração, ética e solidariedade.

O simbolismo de pedir, buscar e bater reforça essa integração entre oração e ação. Pedir indica reconhecimento da própria limitação e dependência de Deus; buscar implica movimento, iniciativa e esforço consciente; bater pressupõe insistência e esperança diante de portas fechadas (Ap 3,20). Pão e peixe simbolizam sustento e partilha comunitária (Jo 6,35; Lc 24,42); pedra representa provação e obstáculo (Mt 4,3-4); serpente lembra astúcia do mal desde a queda da humanidade (Gn 3,1; Nm 21,6-9). Cada gesto e cada símbolo articulam dimensões espirituais, éticas e sociais, convidando o discípulo a agir e perseverar, tornando a oração um instrumento de transformação concreta da vida pessoal e coletiva.

Mateus 7,7-12 permanece, portanto, como convite profético: confiar, agir e perseverar. Pedir, buscar e bater tornam-se verbos que moldam a vida inteira, orientando o discípulo ao Pai e ao próximo, transformando o mundo à luz da justiça, da misericórdia e da solidariedade. A oração perseverante é instrumento de esperança, resistência e construção de um Reino presente, encarnado na realidade contemporânea, mantendo viva a fé que transforma indivíduos e comunidades

Assim, a oração perseverante não é passiva nem individualista. Ela convoca o crente a aliar confiança em Deus à responsabilidade pessoal e comunitária, tornando-se instrumento de solidariedade, justiça e esperança ativa. Pedir, buscar e bater não é esperar que tudo aconteça sem esforço, mas envolver-se com fé na construção do bem, na defesa dos marginalizados e na promoção de um mundo mais justo. O modelo de oração de Mateus 7,7-12 permanece como convite profético: orar com persistência, agir com responsabilidade e confiar que Deus responde às ações consistentes e alinhadas à Sua vontade, evidenciando que fé e prática ética são inseparáveis.

DNonato -  Teólogo e Cotidiano 

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