A forma abreviada dessa narrativa, Mateus 21,33-43, também é proclamada no 27º Domingo do Tempo Comum no ano A, quando a liturgia omite os versículos 45 e 46. Nesse contexto dominical, a comunidade cristã é colocada diante da pergunta central da parábola: que frutos estamos produzindo na vinha que Deus nos confiou? Nos dois momentos litúrgicos, a Palavra apresenta o mesmo núcleo teológico e espiritual. Deus plantou uma vinha, cuidou dela com amor e espera frutos de justiça. A questão fundamental não é se a vinha foi bem preparada, mas se os trabalhadores estão sendo fiéis à missão recebida.
Jesus conta essa parábola em um momento decisivo de sua missão. Ele já está em Jerusalém e os acontecimentos caminham rapidamente para o drama da cruz. O capítulo 21 de Mateus descreve uma sequência de acontecimentos profundamente simbólicos. Primeiro aparece a entrada messiânica de Jesus na cidade. Montado em um jumento, ele realiza o sinal profético anunciado em Zacarias 9,9, revelando um messianismo humilde e pacífico, em contraste com os modelos de poder dominador do mundo.
Em seguida vem a purificação do templo. Jesus denuncia que a casa de oração havia sido transformada em espaço de exploração religiosa, recordando as palavras de Jeremias 7,11 sobre o “covil de ladrões”. Esse gesto inaugura um confronto direto com as autoridades religiosas da época. A partir desse momento surgem debates intensos com os sumos sacerdotes, os anciãos e os especialistas da Lei. É nesse contexto de tensão que Jesus narra três parábolas consecutivas.
- A primeira é a parábola dos dois filhos, em Mateus 21,28-32, que denuncia a incoerência entre discurso religioso e prática concreta.
- A segunda é a parábola dos vinhateiros homicidas, em Mateus 21,33-46.
- A terceira a parábola do banquete nupcial, em Mateus 22,1-14.
Para compreender plenamente essa parábola é necessário voltar ao seu pré-texto bíblico. A imagem da vinha está profundamente enraizada na tradição espiritual de Israel. Um dos textos mais importantes nesse sentido é Isaías 5,1-7, conhecido como o cântico da vinha. O profeta descreve Deus como um agricultor apaixonado que escolhe uma colina fértil, limpa o terreno, planta videiras escolhidas, constrói uma torre e cava um lagar. Tudo é feito com cuidado e expectativa. No entanto, quando chega o momento da colheita, a vinha produz uvas amargas.
O próprio profeta explica o significado simbólico da metáfora. A vinha é a casa de Israel. Deus esperava justiça, mas encontrou violência. Esperava retidão, mas ouviu gritos de sofrimento. Jesus retoma essa tradição conhecida por seus ouvintes e a leva a um nível ainda mais radical. A parábola não fala apenas de frutos ruins. Ela denuncia um processo mais grave: a apropriação indevida da vinha. Na narrativa, o proprietário da vinha representa Deus, fonte da vida e do projeto do Reino. A vinha representa o povo de Deus e, em sentido mais amplo, toda a criação confiada à responsabilidade humana. A cerca indica proteção e cuidado. O lagar indica o lugar onde o fruto será transformado em vinho, símbolo bíblico de alegria, abundância e comunhão. A torre indica vigilância e responsabilidade. Cada detalhe revela que o dono da vinha preparou tudo com atenção e amor. O problema não está na estrutura do projeto divino, mas na atitude dos trabalhadores.
Os arrendatários simbolizam as lideranças encarregadas de cuidar da vinha. No contexto imediato da parábola são os chefes religiosos de Israel, responsáveis pela condução espiritual do povo. Contudo, o alcance do símbolo é muito mais amplo. Ele abrange qualquer liderança religiosa, política ou social que recebe autoridade e passa a agir como se fosse proprietária daquilo que pertence a Deus.
O erro fundamental dos vinhateiros é a mentalidade de posse. Eles deixam de se reconhecer como administradores e passam a se comportar como donos da vinha. Essa atitude revela uma distorção profunda da própria ideia de autoridade. Na perspectiva bíblica, autoridade sempre significa serviço.
A narrativa menciona também os servos enviados pelo proprietário para recolher os frutos. Esses servos representam os profetas enviados ao longo da história de Israel. A memória bíblica registra que muitos desses profetas foram perseguidos ou silenciados por denunciar injustiças. Jeremias foi preso e lançado numa cisterna por causa de sua palavra incômoda, como relata Jeremias 38. Amós foi expulso do santuário de Betel depois de denunciar a exploração dos pobres, segundo Amós 7,10-13. Zacarias foi assassinado no templo, conforme 2Crônicas 24,20-22. Jesus recorda essa história de perseguição quando lamenta sobre Jerusalém em Mateus 23,37, afirmando que a cidade mata os profetas e apedreja os enviados de Deus.
A violência contra os servos na parábola ecoa essa longa história de resistência à voz profética. No entanto, o ponto culminante da narrativa ocorre quando o proprietário decide enviar seu próprio filho. Na cultura semita o filho representava a autoridade e a presença do pai. Enviar o filho significava confiar plenamente na possibilidade de reconciliação. Contudo os vinhateiros dizem entre si: “Este é o herdeiro. Vamos matá-lo e ficaremos com a herança”. Nesse momento a parábola revela uma dimensão antropológica profunda. O poder tende a se absolutizar. Quando pessoas ou instituições exercem autoridade durante muito tempo, podem começar a acreditar que aquilo que administram lhes pertence. A consciência de serviço se transforma lentamente em mentalidade de posse.
Esse mecanismo aparece em muitas dimensões da história humana. Ele se manifesta quando líderes religiosos transformam a fé em instrumento de dominação. Surge quando instituições passam a defender seus próprios interesses em vez de cuidar da vida do povo. A parábola de Jesus denuncia exatamente esse processo. Ao final da narrativa Jesus faz uma pergunta direta aos ouvintes. O que o dono da vinha fará quando voltar? Os próprios ouvintes respondem que ele destruirá os maus trabalhadores e confiará a vinha a outros que produzam frutos.
Então Jesus cita o Salmo 118,22: “A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular”. Esse versículo se torna central na teologia do Novo Testamento. Ele aparece também em Atos 4,11 e em 1Pedro 2,7 para afirmar que Cristo, rejeitado pelos líderes de seu tempo, tornou-se fundamento de uma nova humanidade.
Nesse ponto surge um elemento fundamental da hermenêutica cristã. A parábola não anuncia apenas julgamento. Ela anuncia também um novo começo. A vinha não será destruída. O projeto de Deus continua na história. Ele será confiado a trabalhadores capazes de produzir frutos de vida.
A tradição do Novo Testamento retoma essa imagem em outros textos:
- No Evangelho de João, Jesus afirma: “Eu sou a videira verdadeira e meu Pai é o agricultor” (João 15,1). Nesse discurso o discípulo é chamado a permanecer na videira para dar fruto. Quem permanece em Cristo produz vida; quem se separa dele torna-se estéril.
O critério fundamental da fé, portanto, não é o discurso religioso, mas o fruto produzido na história. A própria Bíblia insiste repetidamente nesse tema:
- Em Mateus 7,16 Jesus afirma que a árvore é conhecida pelos frutos.
- Em Gálatas 5,22-23 Paulo descreve o fruto do Espírito como amor, alegria, paz, paciência, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio.
- Em Tiago 2,17 encontramos uma formulação direta: a fé sem obras está morta.
A tradição bíblica não reconhece uma espiritualidade desligada da prática concreta da justiça. Essa dimensão torna-se especialmente importante quando observamos a realidade religiosa contemporânea. Em muitos contextos a fé foi reduzida a experiência individual ou a promessa de prosperidade pessoal.
A chamada teologia da prosperidade apresenta Deus como instrumento de ascensão econômica e transforma a relação com o sagrado em espécie de investimento espiritual. Essa lógica contradiz frontalmente a mensagem do Evangelho. Jesus afirma claramente em Mateus 6,24 que ninguém pode servir a Deus e ao dinheiro, e adverte em Lucas 12,15 que a vida não consiste na abundância de bens.
A vinha de Deus não existe para enriquecer seus administradores, mas para produzir vida para o povo. Quando a religião se transforma em negócio ou instrumento de poder, ela repete o erro dos vinhateiros da parábola.
Os documentos sociais da Igreja também recordam essa dimensão ética da fé. A Constituição pastoral Gaudium et Spes afirma que as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos pobres são também as alegrias e as esperanças dos discípulos de Cristo. A encíclica Laudato Si' recorda que toda a criação é um dom confiado à responsabilidade humana.
Nesse sentido a vinha pode ser compreendida também como metáfora da própria terra. Quando ela é explorada de forma predatória e transformada apenas em fonte de lucro, a humanidade repete a lógica dos trabalhadores que se comportam como donos daquilo que receberam apenas para cuidar.
A parábola revela como estruturas de poder podem se fechar à crítica profética. Ao longo da história muitos sistemas políticos e religiosos eliminaram vozes incômodas para preservar privilégios. A morte simbólica do filho na parábola expressa exatamente esse mecanismo. No entanto, o Evangelho revela que a última palavra não pertence à violência. A pedra rejeitada torna-se fundamento. O Filho assassinado torna-se Senhor da vida. A ressurreição mostra que o projeto de Deus continua mesmo quando encontra resistência.
A imagem da vinha atravessa os quatro Evangelhos e aparece em contextos diferentes, sempre associada à responsabilidade humana diante do Reino:
Em Mateus encontramos a parábola dos vinhateiros homicidas no contexto do confronto entre Jesus e as autoridades religiosas de Jerusalém. O mesmo episódio aparece também em Marcos 12,1-12, Lucas 20,9-19. Nos três Evangelhos sinóticos a cena ocorre no templo, poucos dias antes da paixão, quando Jesus denuncia uma religião que perdeu sua dimensão profética.
O Evangelho de João não repete essa mesma parábola, mas desenvolve o simbolismo da vinha de forma mais espiritual. Em João 15,1-8 Jesus apresenta a imagem da videira e dos ramos para falar da comunhão entre Cristo e os discípulos. Permanecer na videira significa viver em comunhão com ele e produzir o fruto do amor, como o próprio texto afirma alguns versículos depois: “Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros como eu vos amei” (João 15,12).
Assim, ao percorrer os quatro Evangelhos, percebemos que a imagem da vinha se torna um fio condutor da revelação bíblica. Ela começa no Antigo Testamento como metáfora do povo de Deus, aparece na pregação profética como denúncia da injustiça e encontra em Jesus seu significado pleno. Quando esse Evangelho é proclamado na sexta-feira da segunda semana da Quaresma, ele se torna um convite à conversão comunitária. A Igreja é chamada a examinar sua própria fidelidade ao Evangelho. A parábola não pertence apenas ao passado. Ela continua interpelando cada geração de cristãos.
Cada comunidade recebeu uma parte da vinha. Cada discípulo recebeu responsabilidades concretas na construção do Reino. A pergunta permanece viva: estamos produzindo frutos de justiça, de compaixão e de compromisso com a dignidade humana, ou estamos apenas administrando a vinha em benefício próprio?
O Evangelho continua sendo uma palavra profundamente provocadora. Ele questiona modelos de religião centrados no poder, no dinheiro ou no prestígio social. Ele recorda que a vinha pertence a Deus e que todos nós somos trabalhadores chamados a servir.
Cada gesto de solidariedade, cada defesa da vida, cada compromisso com a justiça é fruto da vinha de Deus. A parábola dos vinhateiros homicidas permanece como advertência e esperança. Advertência para que ninguém transforme a fé em instrumento de dominação. Esperança porque, apesar das infidelidades humanas, Deus continua confiando sua vinha à humanidade e esperando que ela produza frutos de vida para todos.
DNonato - Teólogo do Cotidiano


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