A perícope de Evangelho de João 10,11-18 ocupa um lugar privilegiado na vida litúrgica da Igreja. Na tradição da Igreja Católica Apostólica Romana, ela é proclamada no Quarto Domingo da Páscoa do ano B, conhecido como Domingo do Bom Pastor, e também na segunda-feira da quarta semana da Páscoa no ano par sendo continuidade do Evangelho de Domingo do ano A , inserindo-se no tempo pascal, quando a comunidade celebra a vitória da vida sobre a morte e contempla o Ressuscitado como aquele que continua a conduzir o seu povo na história, conforme a promessa de Mateus 28,20. Não se trata apenas de recordar um evento passado, mas de reconhecer a presença viva daquele que, como em Hebreus 13,20, é o grande pastor das ovelhas. No domingo, a Igreja reza pelas vocações, recordando que toda vocação nasce do chamado daquele que conhece cada ovelha pelo nome, como em João 10,3. Em outros ciclos litúrgicos, o mesmo capítulo aparece em variações, articulado com Atos 4,8-12, onde Cristo é a pedra rejeitada que se torna angular, e 1 João 3,1-2, que revela a dignidade filial dos que são chamados filhos de Deus.
O texto joanino se insere no fluxo narrativo iniciado em João 9, com a cura do cego de nascença. Ali, cumpre-se o sinal anunciado em Isaías 35,5, onde os olhos dos cegos se abrem. No entanto, a reação das autoridades revela o cumprimento paradoxal de Isaías 6,9-10, onde ver não significa necessariamente compreender. O homem curado, que passa das trevas à luz, ecoando João 8,12, é expulso da comunidade, revelando uma estrutura religiosa incapaz de acolher a ação de Deus. É nesse contexto que a metáfora do pastor emerge como contraponto. O cego curado torna-se imagem da ovelha que escuta a voz do pastor, enquanto os líderes religiosos se aproximam da figura denunciada em Ezequiel 34,2, que se apascentam a si mesmos.
O pano de fundo veterotestamentário ilumina profundamente essa afirmação. Em Ezequiel 34,11-16, o próprio Deus declara que buscará suas ovelhas, reunindo-as e cuidando delas. O Salmo 23,1 afirma “O Senhor é meu pastor, nada me faltará”, revelando uma confiança que atravessa a experiência do sofrimento, como no vale da sombra da morte em Salmo 23,4. Jeremias 23,1-4 denuncia os pastores que dispersam o rebanho, enquanto Zacarias 11,4-17 apresenta a tragédia de lideranças corruptas. Ao afirmar “Eu sou o bom pastor” (João 10,11), Jesus não apenas retoma essas tradições, mas cumpre a promessa divina, assumindo um papel que remete diretamente à identidade de Deus.
A expressão kalós, traduzida como bom, revela uma plenitude que vai além da moralidade. Trata-se da beleza do amor que se manifesta em ação, em contraste com o mercenário descrito em João 10,12-13. A afirmação de que o pastor dá a vida pelas ovelhas encontra ressonância em Isaías 53,4-7, onde o servo sofre em favor de muitos, e em Marcos 10,45, onde o Filho do Homem veio para servir e dar a vida em resgate por muitos. Em João 10,18, Jesus afirma que entrega sua vida livremente, revelando uma obediência amorosa que ecoa Filipenses 2,6-8. Essa entrega culmina na cruz, mas não termina nela, pois, como afirma João 10,17, ele retoma sua vida, apontando para a ressurreição.
Essa entrega possui uma dimensão eucarística profunda. Em João 6,51 que refletimos na quinta feira da terceira semana da Páscoa, Jesus se apresenta como o pão vivo descido do céu, cuja carne é dada para a vida do mundo. A relação entre pastoreio e alimento revela que o cuidado de Deus se concretiza na partilha. Em 1 Coríntios 10,16-17, a comunhão no pão e no cálice expressa a unidade do corpo. A Eucaristia torna visível o amor do pastor que não apenas conduz, mas se dá como alimento.
A figura do mercenário revela uma crítica que atravessa a história. Em Zacarias 13,7, o ferimento do pastor provoca a dispersão das ovelhas, mas no caso de Jesus, sua entrega gera unidade. O mercenário, por não ter vínculo, abandona o rebanho diante do perigo, em contraste com o cuidado constante descrito em 1 Pedro 5,2-4, onde os pastores são chamados a apascentar o rebanho de Deus com dedicação. Essa oposição revela uma tensão permanente entre serviço e exploração.
O conhecimento mútuo entre o pastor e as ovelhas, em João 10,14-15, reflete a intimidade da relação entre o Pai e o Filho, como em João 17,21. Esse conhecimento não é superficial, mas existencial, como em Gálatas 4,9, onde conhecer a Deus implica ser conhecido por Ele. Trata-se de uma relação de amor que transforma.
A menção às outras ovelhas em João 10,16 amplia o horizonte da missão, em consonância com Isaías 49,6, onde a luz se estende às nações. Essa universalidade encontra eco em Mateus 28,19 e Atos 1,8. O Concílio Vaticano II, na Lumen Gentium, afirma que a Igreja é sinal da unidade de todo o gênero humano, superando divisões e exclusões.
A tensão com as autoridades religiosas revela o cumprimento de Jeremias 2,8, onde os pastores se desviam, e de Miqueias 3,11, que denuncia líderes que julgam por interesse. Jesus, ao contrário, encarna o pastor prometido em Ezequiel 34,23. O Documento de Aparecida retoma essa imagem ao chamar a Igreja a ser missionária e próxima dos pobres. A CNBB insiste na necessidade de uma presença pastoral comprometida com a realidade social. Em Mateus 6,24, Jesus afirma que não se pode servir a Deus e ao dinheiro. Em 2 Pedro 2,1-3, há um alerta contra falsos mestres que exploram o povo. Em 1 Timóteo 6,5, denuncia-se a fé usada como fonte de lucro. Essas advertências permanecem atuais diante de práticas que transformam a religião em instrumento de poder. A lógica do Reino, ao contrário, se manifesta na kenosis, no esvaziamento, como em Filipenses 2,7.
A imagem do pastor adotada por Jesus responde à busca humana por orientação, como em Provérbios 3,5-6, que convida a confiar no Senhor. No entanto, há o risco de alienação, denunciado em Colossenses 2,8, que alerta contra filosofias enganosas. O discernimento espiritual, como em 1 João 4,1, torna-se essencial para distinguir o verdadeiro do falso.
A nossa realidade, marcada por sofrimento e desigualdade, encontra eco nas palavras de Jesus em Mateus 9,36, onde ele vê as multidões como ovelhas sem pastor. A resposta divina não é abandono, mas envio, como em João 20,21. A parábola da ovelha perdida, em Lucas 15,4-7, revela um Deus que busca incansavelmente. João 10,11-18 revela não apenas a identidade de Jesus, mas o critério de toda liderança. Em Apocalipse 7,17, o Cordeiro é também pastor, conduzindo às fontes de água viva. Seguir o bom pastor implica assumir sua lógica de amor, serviço e entrega. Implica viver o mandamento de João 13,34, amar como ele amou.
O Bom Pastor não é uma memória estática, mas presença ativa na história. Ele continua a falar, a convocar, a inquietar consciências endurecidas. Como em Ez 18,30, sua voz não negocia com a injustiça, mas chama à conversão concreta, a uma mudança de rota que envolve estruturas e práticas. Não se trata de uma espiritualidade intimista, mas de uma reorientação da vida inteira. Sua voz se reconhece onde o direito corre como água e a justiça como um rio que não seca (Am 5,24). Em um mundo marcado por desigualdades gritantes, exploração do trabalho e descarte de vidas, escutar o Pastor exige posicionamento. Não há escuta autêntica sem compromisso com a dignidade humana. Por isso, Ele também nos recorda: “Quero misericórdia e não sacrifícios” (Os 6,6). Aqui está uma crítica permanente a toda religião vazia, ritualista, que preserva aparências enquanto ignora o sofrimento real das pessoas. Misericórdia, na tradição bíblica, não é sentimento superficial, mas prática concreta de cuidado, justiça restaurativa e solidariedade.
Escutar sua voz é entrar no caminho (Jo 14,6), que não é ideologia nem fuga do mundo, mas seguimento encarnado. Ignorá-lo é permanecer na dispersão, na lógica do individualismo que fragmenta e desumaniza. O rebanho, na imagem joanina, não é massa passiva, mas comunidade que reconhece, discerne e responde. Seguir o Bom Pastor é participar do seu mistério pascal (Rm 6,4): morrer para as lógicas de morte egoísmo, indiferença, violência e ressurgir para uma vida nova, marcada pela partilha, pela justiça e pela esperança ativa. É deixar-se plasmar por um amor que vai “até o fim” (cf. Jo 13,1), um amor que não recua diante do conflito, nem se curva aos poderes que produzem morte.
Assim, à luz de Jo 10,11-18, o Pastor que dá a vida pelas ovelhas nos revela que a autoridade verdadeira não domina, mas se entrega. Ele não explora o rebanho, como fazem os mercenários de ontem e de hoje figuras que podem ser reconhecidas tanto em sistemas políticos excludentes quanto em práticas religiosas clericalistas que se distanciam do povo. O Cristo Pastor desmascara essas lógicas e inaugura um novo modo de conduzir: pelo serviço, pela proximidade e pela doação. Por isso, a conclusão não pode ser apenas contemplativa, mas necessariamente ética e profética: acolher o Bom Pastor é assumir sua causa. É fazer da própria vida um espaço onde a vida floresça para todos, especialmente para os mais vulneráveis. Como Ele mesmo afirma, veio para que todos tenham vida e a tenham em abundância (Jo 10,10). Essa abundância não é acúmulo, mas plenitude compartilhada.
Segui o Bom Pastor, portanto, é tornar-se também sinal dessa vida no meio da história: uma Igreja e uma sociedade que escutam, discernem e agem, comprometidas com o Reino que já desponta, mas ainda pede mãos, vozes e coragem para se tornar visível.
DNonato - Apenas uma Ovelha do rebanho o


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