sexta-feira, 10 de abril de 2026

Um breve olhar sobre Marcos 16,9-15

 
A perícope de Marcos 16,9-15, pertencente ao chamado final longo do Evangelho de Marcos, encontra seu lugar privilegiado na vida litúrgica da Igreja Católica Romana no coração do Tempo Pascal, sendo proclamada na oitava da Páscoa, especialmente no sábado da Oitava. 
Marcos 16,9-15 se desenrola como um movimento progressivo que parte da solidão, atravessa a incredulidade coletiva e culmina na presença transformadora do Ressuscitado que envia seus discípulos. Não é um quadro estático, mas uma sucessão de momentos carregados de tensão espiritual, densidade humana e significado teológico. Tudo começa na intimidade silenciosa de uma manhã que ainda carrega os ecos da dor recente. Maria Madalena surge como figura central, marcada por uma história de libertação profunda, conforme Marcos 16,9 e Lucas 8,2. Ela não aparece como alguém triunfante, mas como alguém que carrega memória, afeto e ferida. A cena pressupõe o ambiente do luto, onde o corpo ainda se move, mas a alma está atravessada pela perda. Ela é a primeira a experimentar o encontro com o Ressuscitado. Não há descrição detalhada desse encontro em Marcos, mas o dado essencial é afirmado: Jesus apareceu primeiro a ela. Esse “primeiro” já rompe a lógica social e religiosa, deslocando o centro do testemunho para as margens.

Maria, então, se move. O texto indica que ela vai ao encontro dos que tinham estado com Jesus, que agora se encontram mergulhados em tristeza e lágrimas, conforme Marcos 16,10. Podemos imaginar esse ambiente como um espaço fechado, carregado de silêncio interrompido por choros contidos, semelhante ao cenário de João 20,19, onde os discípulos estão reunidos com medo. Não há aqui expectativa, apenas desolação. A memória da cruz ainda é recente demais. A esperança parece ter sido sepultada com o corpo. Quando Maria anuncia que Jesus está vivo, o contraste é imediato. Sua palavra carrega vida, mas encontra corações fechados. Marcos 16,11 afirma que eles não acreditaram. A cena é marcada por uma ruptura entre experiência e recepção. De um lado, o testemunho vivo; de outro, a incapacidade de acolher. Não se trata apenas de dúvida racional, mas de uma resistência existencial. O ambiente permanece pesado, como se a notícia não conseguisse penetrar o véu da dor.

A narrativa então se desloca para outro cenário. Dois discípulos caminham, (sugerindo  os discípulos de Emaús - Lucas 24, 13-35 texto da quarta-feira da Oitava de Pascoa) conforme Marcos 16,12. O caminho sugere afastamento, talvez fuga, talvez tentativa de reorganizar o sentido da vida e o caminho é símbolo da existência humana, como em Deuteronômio 8,2. A presença do Ressuscitado no caminho revela uma teologia da proximidade, onde Deus se manifesta na história concreta. Os doiscaminham desiludidos. A cena é dinâmica, marcada pelo deslocamento físico que reflete o deslocamento interior. Jesus aparece sob outra forma, indicando que o Ressuscitado não é imediatamente reconhecível dentro das categorias antigas. A presença está ali, mas exige um novo olhar..Esses dois também retornam e anunciam aos demais, conforme Marcos 16,13. Mais uma vez, o testemunho encontra incredulidade. A repetição intensifica o drama. A comunidade está fechada em si mesma, incapaz de se abrir ao novo. A cena coletiva se configura como um espaço de resistência, onde múltiplos sinais não conseguem romper a dureza do coração.

Então ocorre o momento decisivo. Jesus aparece aos Onze enquanto estão à mesa, conforme Marcos 16,14. A mesa é um espaço concreto, familiar, cotidiano. Não é um lugar extraordinário, mas justamente o lugar da convivência. Isso confere à cena uma força particular: o Ressuscitado entra na realidade comum. Podemos imaginar os discípulos sentados, talvez em silêncio, talvez ainda discutindo, talvez ainda tentando compreender o que aconteceu. E, de repente, a presença irrompe..a reação de Jesus não é de simples consolo. Ele os repreende por sua incredulidade e dureza de coração. Esse detalhe é essencial. A cena não é romantizada. O Ressuscitado confronta. Sua palavra atravessa o ambiente, revelando aquilo que estava oculto: a incapacidade de crer, a resistência interior, o fechamento à verdade. Essa repreensão ecoa toda a tradição bíblica sobre o coração endurecido, como em Êxodo 7,13 e Ezequiel 36,26. Mas essa correção não é o fim da cena. Ela é passagem. Imediatamente, o tom se transforma. Aquele que repreende é o mesmo que envia. Em Marcos 16,15, Jesus pronuncia o mandato: ir por todo o mundo e anunciar o Evangelho a toda criatura. A cena se abre. O espaço fechado da tristeza se rompe. O horizonte se expande do interior de um grupo ferido para a totalidade da criação.

Há, portanto, um movimento claro na cena. Começa com uma mulher sozinha que testemunha, passa por uma comunidade fechada que não crê, atravessa caminhos onde a presença não é reconhecida e culmina com o próprio Cristo que entra, confronta e envia. Cada elemento é carregado de significado. O silêncio inicial, o choro, o anúncio rejeitado, o caminho, a mesa, a repreensão e o envio formam uma sequência que descreve não apenas um momento histórico, mas o processo da fé.
A cena revela que a ressurreição não elimina imediatamente a fragilidade humana. A incredulidade faz parte do caminho. O Ressuscitado não aparece para os perfeitos, mas para os feridos, os confusos e os resistentes. E é exatamente a esses que Ele confia a missão. Isso redefine completamente a lógica religiosa. Não é a certeza que gera a missão, mas o encontro que transforma a incerteza.

Na liturgia o domingo se  prolonga como um único dia a alegria da Ressurreição, constitui o ambiente teológico no qual a Igreja contempla as aparições do Ressuscitado e a transformação dos discípulos, chamando de oitava. Também nas tradições das Igrejas históricas do Oriente e do Ocidente, ainda que com variações no lecionário, esse conjunto de textos pascais ocupa posição central, pois expressa a fé fundante da comunidade cristã, como testemunhado em 1Coríntios 15,3-8, onde a ressurreição é proclamada como evento decisivo da história da salvação. A passagem, portanto, não é apenas memória, mas atualização litúrgica de uma experiência que continua a configurar a identidade da Igreja. Para compreender a densidade desse texto, é necessário voltar ao caminho que o antecede. O Evangelho de Marcos constrói, desde Marcos 1,1, um itinerário marcado por revelação e incompreensão. A identidade de Jesus vai sendo progressivamente revelada, mas continuamente mal interpretada, inclusive pelos mais próximos. Em Marcos 4,13, Jesus questiona a incapacidade dos discípulos de compreender as parábolas, e em Marcos 6,52 afirma-se que seus corações estavam endurecidos. Esse endurecimento não é mero erro intelectual, mas uma resistência profunda ao modo como Deus age na história. Quando Pedro, em Marcos 8,29, reconhece Jesus como o Cristo, imediatamente rejeita o caminho do sofrimento, sendo repreendido em Marcos 8,33. O discipulado, portanto, já nasce tensionado entre expectativa de glória e realidade de cruz.

A narrativa da paixão em Marcos 14–15 deve ser lida como o colapso definitivo das projeções humanas sobre Deus. Em Marcos 14,50, todos fogem, revelando o fracasso da fidelidade. Pedro, em Marcos 14,66-72, nega aquele que prometera seguir até a morte, expondo a fragilidade da identidade construída sobre si mesmo. As autoridades religiosas, em Marcos 15,1-5, preferem preservar estruturas de poder a reconhecer a verdade. O poder imperial romano, em Marcos 15,16-20, manifesta sua violência estrutural, transformando o inocente em objeto de escárnio. A cruz, em Marcos 15,34, retoma o clamor do Salmo 22,1, inserindo Jesus na tradição do justo sofredor. Esse cenário não é apenas teológico, mas profundamente histórico, refletindo um mundo marcado pela dominação imperial, desigualdade social e instrumentalização religiosa..Nesse horizonte, a ressurreição não pode ser compreendida como simples reversão da morte, mas como resposta de Deus à injustiça da história. Marcos 16,1-8 apresenta o túmulo vazio e o anúncio pascal, evocando imagens apocalípticas como em Daniel 7,9 e Daniel 10,5-6. O medo das mulheres em Marcos 16,8 revela a tensão entre revelação divina e capacidade humana de acolhimento. O final longo, onde se encontra Marcos 16,9-15, surge como desenvolvimento dessa experiência. Ainda que os manuscritos mais antigos, como os códices Vaticano e Sinaítico, terminem em 16,8, a tradição eclesial acolheu o final longo como expressão autêntica da fé da Igreja. Essa recepção canônica revela que a verdade do Evangelho não depende apenas da forma literária original, mas da vida da comunidade que, guiada pelo Espírito, reconhece a presença do Ressuscitado, como em João 20,30-31.

O texto inicia com Maria Madalena, de quem Jesus expulsara sete demônios, conforme Marcos 16,9 e Lucas 8,2. O número sete, na simbólica bíblica, indica plenitude, como em Gênesis 2,2-3 (conforme explicamos no texto  da sexta-feira da Oitava de Páscoa sobre os os símbologia dos números). Sua libertação representa uma restauração total da pessoa. Em termos antropológicos, trata-se da reintegração de alguém marcado por exclusão social e sofrimento psíquico. A escolha de Maria como primeira testemunha rompe com as estruturas patriarcais do mundo antigo, onde o testemunho feminino era desvalorizado. Essa inversão revela a lógica do Reino, onde Deus escolhe o que é desprezado para manifestar sua graça, como em 1Coríntios 1,27. Também João 20,11-18 proclamado na terça-feira da oitava de Páscoa, reforça essa centralidade de Maria Madalena como apóstola dos apóstolos, antecipando uma eclesiologia que não pode ser reduzida a hierarquias de poder..Aqui emergem símbolos e atitudes que atravessam toda a narrativa e revelam sua profundidade espiritual;

  • O “levantar-se cedo” associado à manhã pascal, ainda que explicitado em Marcos 16,2, permanece como pano de fundo de todo o relato, indicando o tempo novo inaugurado por Deus, como em Lamentações 3,22-23, onde a misericórdia se renova a cada manhã. 
  • A atitude de Maria Madalena, que vai, vê e anuncia, manifesta o dinamismo da fé que não se encerra na experiência individual, mas se torna testemunho, em consonância com Salmo 96,2-3. 
  • A incredulidade dos discípulos revela o símbolo do “coração endurecido”, recorrente nas Escrituras, como em Êxodo 7,13 e Ezequiel 36,26, indicando uma resistência existencial à ação divina.
  •  O caminho dos dois discípulos, em Marcos 16,12, simboliza a peregrinação humana, marcada por dúvidas e buscas, como em Salmo 84,6-7. 
  • A mesa, em Marcos 16,14, é sinal de comunhão restaurada, evocando tanto a aliança do Sinai em Êxodo 24,11 quanto a partilha do pão em Atos 2,42. 
  • O gesto de Jesus: que repreende e, ao mesmo tempo, envia, revela uma pedagogia divina que corrige para restaurar e envia para dar sentido, como em Provérbios 3,11-12. 
  •  “ir” de Marcos 16,15 não é apenas deslocamento geográfico, mas atitude existencial de saída de si, como em Gênesis 12,1, onde Abraão é chamado a deixar sua terra, inaugurando uma espiritualidade do êxodo permanente.

Quando Maria anuncia que Jesus está vivo, os discípulos não acreditam, conforme Marcos 16,11. Essa incredulidade é reiterada em Marcos 16,13 e confrontada em Marcos 16,14. Em Lucas 24,11, suas palavras são consideradas delírio, e em João 20,25 Tomé exige provas. A incredulidade deve ser compreendida à luz da psicologia do luto. Os discípulos experimentam uma ruptura radical de sentido, semelhante ao clamor do Salmo 13,2-3. A esperança messiânica, projetada sobre um libertador político, entra em colapso diante da cruz. Em Lucas 24,21, os discípulos de Emaús confessam sua frustração. A resistência em acreditar não é apenas falta de fé, mas incapacidade de reconfigurar a própria visão de mundo. o entanto, O  testemunho  não é acolhido, revela  a dificuldade humana em reconhecer o novo que Deus realiza, como denunciado em Isaías 43,18-19. Quando Jesus aparece aos Onze à mesa, em Marcos 16,14, o cenário assume profunda densidade simbólica. A mesa é lugar de comunhão, como em Êxodo 24,11, e de revelação, como em Lucas 22,14-20. Também remete à multiplicação dos pães em Marcos 6,30-44 e à promessa escatológica de Isaías 25,6. A repreensão de Jesus à incredulidade e dureza de coração retoma a tradição profética, como em Ezequiel 36,26. No entanto, trata-se de uma correção que restaura e envia, como em Hebreus 12,6. A comunidade ferida é reconstruída a partir do encontro com o Ressuscitado.

O mandato missionário em Marcos 16,15 amplia radicalmente o horizonte. “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura” encontra paralelo em Mateus 28,19-20, Lucas 24,47 e Atos 1,8. A expressão “toda criatura” introduz uma dimensão cósmica, em sintonia com Colossenses 1,15-20 e Romanos 8,19-23. A missão não é apenas antropocêntrica, mas envolve toda a criação, apontando para uma teologia ecológica da redenção. Cada Evangelho desenvolve esse envio de modo próprio. Mateus enfatiza o discipulado e o ensino, Lucas destaca o cumprimento das Escrituras e a ação do Espírito, João apresenta o envio como continuidade da missão de Cristo, em João 20,21, e Marcos evidencia a superação da incredulidade como condição para a missão. Essa diversidade revela a riqueza da tradição apostólica e sua adaptação às diferentes comunidades.

A Igreja, ao longo da história, reconheceu nesse envio sua identidade mais profunda. O Concílio Vaticano II, em Lumen Gentium 1, define a Igreja como sacramento universal de salvação. Ad Gentes 2 afirma sua natureza missionária. Evangelii Nuntiandi 14 declara que evangelizar é sua vocação essencial. O Documento de Aparecida 548 convoca a uma Igreja em saída, fiel a Mateus 25,35-40. A CNBB insiste na conversão pastoral, superando estruturas fechadas. No entanto, a missão pode ser pervertida. A instrumentalização da fé para fins políticos encontra paralelo na advertência de 1Samuel 8,10-18, onde o desejo de poder leva à opressão. Jesus rejeita essa lógica em João 18,36. A teologia da prosperidade contradiz Lucas 16,19-31 e Mateus 6,19-24, ignorando o sofrimento dos pobres. A teologia do domínio se opõe a Marcos 10,42-45, onde o poder é redefinido como serviço. O clericalismo nega 1Pedro 2,9 e João 13,1-15, transformando o ministério em privilégio.

Diante de ideologias autoritárias que instrumentalizam a religião. Apocalipse 13 denuncia o poder que se absolutiza e se torna idolatria. Amós 5,21-24 e Isaías 1,11-17 rejeitam um culto desvinculado da justiça. A fé que não se traduz em compromisso com a vida é vazia. A realidade atual exige essa leitura crítica. A desigualdade social, denunciada em Tiago 5,1-6, a exclusão e a violência clamam por resposta. O Documento de Aparecida 65-70 denuncia estruturas de morte na América Latina. Fratelli Tutti 109-127 critica a cultura do descarte. Miqueias 6,8 resume a exigência ética: praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar com Deus.

A experiência dos discípulos também pode ser lida à luz da psicologia do trauma. O medo dá lugar à coragem, como em Atos 2,14. A tristeza se transforma em alegria, como em João 16,20. Esse processo é obra do Espírito Santo, prometido em João 14,26 e derramado em Atos 2,1-4. A fé pascal é transformação interior que gera compromisso exterior. A dimensão cósmica da missão amplia ainda mais o horizonte. Gênesis 1–2 apresenta a criação como boa, Colossenses 1,15-20 revela Cristo como centro da criação e Apocalipse 21–22 aponta para sua renovação. A missão cristã inclui o cuidado da casa comum, reconhecendo que a redenção abrange toda a realidade.

Diante disso, Marcos 16,9-15 se revela como paradigma permanente. A incredulidade não é o fim, a dor não é definitiva e a missão nasce do encontro com o Ressuscitado. A Igreja é chamada a viver essa dinâmica, superando medos e assumindo sua vocação. Essa perícope, assim, convoca a uma conversão profunda. “Escolhe, pois, a vida”, como em Deuteronômio 30,19. “Eu e minha casa serviremos ao Senhor”, como em Josué 24,15. “Quem ouve estas palavras e as pratica”, como em Mateus 7,24. Trata-se de abandonar uma fé superficial e assumir um discipulado comprometido.

Precisamos ter consciência  que o Ressuscitado continua a chamar, a corrigir e a enviar. Ele transforma lágrimas em missão, medo em coragem e incredulidade em anúncio. A Boa Nova não pode ser aprisionada por interesses, ideologias ou estruturas de poder. Ela é força de vida, justiça e libertação. E aqueles que a encontram não podem permanecer os mesmos, pois são enviados ao mundo inteiro, a toda criatura, para testemunhar que a morte não tem a última palavra e que Deus, em Cristo, faz novas todas as coisas, conforme Apocalipse 21,5. Assim, essa cena, percebe-se que ela não é apenas narrativa, mas espelho. Nela estão presentes nossas próprias resistências, nossos medos, nossa dificuldade de crer. E também nela está a mesma voz que continua a atravessar nossos fechamentos e a nos enviar para além de nós mesmos.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

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