quinta-feira, 9 de abril de 2026

Um breve olhar sobre João 21,1-14

A perícope de João 21,1-14 é proclamada na liturgia da Igreja Católica Romana na sexta-feira da Oitava da Páscoa e reaparece, em forma ampliada, no terceiro domingo da Páscoa do Ano C, quando se lê João 21,1-19. Este mesmo horizonte pascal também é reconhecido, com variações, nas tradições das Igrejas históricas, tanto no Oriente quanto no Ocidente, que contemplam o Ressuscitado não apenas como aquele que venceu a morte, mas como aquele que reconstrói a comunidade ferida, reinstaura a missão e reconfigura a identidade dos discípulos. Em diálogo com este texto, a tradição litúrgica também proclama Lucas 5,1-11, a pesca milagrosa inicial, no 5⁰ domingo do Tempo Comum do Ano C e também na quinta-feira da 22ª semana do Tempo Comum do ano impar , revelando um arco teológico que vai do chamado à missão até a sua restauração pascal. A leitura conjunta dessas duas narrativas oferece uma chave hermenêutica poderosa para compreender a dinâmica do discipulado, marcado por rupturas, quedas, recomeços e fidelidade divina.

O capítulo 21 de João, frequentemente considerado um acréscimo redacional posterior, apresenta uma densidade teológica que não pode ser ignorada. Ele funciona como epílogo, mas também como reinterpretação de toda a experiência pascal da comunidade. A cena se passa novamente na Galileia, no mar de Tiberíades, lugar das origens. Este retorno não é nostálgico, mas pedagógico. A Galileia, chamada “Galileia dos gentios” em Isaías 9,1, é espaço de fronteira, de mistura cultural, de abertura universal. Ali, Jesus iniciou sua missão segundo Mateus 4,12-17, e é ali que a comunidade reencontra o Ressuscitado, indicando que a missão não é centrada em Jerusalém, símbolo do poder religioso, mas nas periferias, onde a vida pulsa e onde os excluídos habitam.

A presença de sete discípulos, número simbólico da totalidade, remete à plenitude da criação em Gênesis 2,2-3 e à totalidade da Igreja. O número sete aparece também em Apocalipse 1,4, com as sete Igrejas da Ásia, indicando universalidade e comunhão. A comunidade reunida ao redor de Pedro não é homogênea, mas plural:

  1.  Pedro que coordena  com suas certezas e inseguranças
  2. Tomé carrega a dúvida a cerca da ressurreição
  3. Natanael / Bartolomeu a sinceridade 
  4. os filhos de Zebedeu (sao dois) a memória da ambição narrada em Marcos 10,35-45, e
  5.  os discípulos (são dois) anônimos representam todos aqueles que não ocupam lugar de destaque, mas sustentam a vida eclesial. 
Esta composição revela uma  realidade comunitária que valoriza a diversidade e denuncia qualquer tentativa de uniformização ou exclusão. 

A decisão de Pedro de voltar à pesca em João 21,3 deve ser lida à luz da experiência traumática da cruz e da dificuldade de integrar a ressurreição à vida concreta. A pesca noturna, infrutífera, simboliza a crise existencial e espiritual. A noite, na tradição bíblica, é tempo de prova e de ausência aparente de Deus, como em Salmo 77,2-10. A ausência de peixe indica esterilidade, não apenas econômica, mas também missionária. Aqui se estabelece um paralelo direto com Lucas 5,5, onde Pedro afirma ter trabalhado a noite inteira sem nada pescar. Em ambos os casos, o esforço humano, desvinculado da escuta da palavra, revela-se insuficiente.

A figura de Jesus na margem, não reconhecido inicialmente, revela uma cristologia pascal que desafia as categorias anteriores. O Ressuscitado não se impõe, mas se aproxima discretamente. A pergunta “Filhos, tendes algo para comer?” em João 21,5 revela uma pedagogia que parte da realidade concreta. O termo “filhos” indica uma relação de cuidado e autoridade, evocando também 1 João 2,1. A orientação de lançar a rede à direita da barca em João 21,6 remete à simbologia do lado direito como lugar de bênção e ação divina, como em Salmo 118,16.

A obediência à palavra produz abundância. A rede cheia de cento e cinquenta e três grandes peixes, sem se romper, é um dos elementos mais ricos da narrativa. A tradição patrística oferece diversas interpretações. Jerônimo, em seu comentário a Ezequiel 47,10, associa o número à totalidade das espécies de peixes conhecidas, simbolizando a universalidade da missão, a soma dos algarismos 1+5+3 resulta em 9, número que na tradição bíblica pode ser associado ao fruto da ação divina, como os nove frutos do Espírito em Gálatas 5,22-23, e ao tempo de gestação, sugerindo vida nova que se forma no interior da comunidade.

Santo Agostinho construiu uma leitura teológica, matemática, considerando que 153é um número triangular sendo   a soma dos números de 1 a 17, sendo que  10,  representa a Lei, especialmente os mandamentos em Êxodo 20,1-17, e 7, que expressa a plenitude divina, como na criação em Gênesis 2,2-3. Assim, 17 simboliza a união entre Lei e Graça. O número 153, sendo a soma de 1 até 17, representa então a totalidade daqueles que são alcançados por essa plenitude, isto é, a universalidade da missão da Igreja. A rede cheia de peixes em João 21,11 torna-se sinal de uma comunidade chamada a reunir todos os povos sem se romper, indicando unidade na diversidade.

Em síntese, o 153 aponta para a missão universal, a plenitude em Deus e a integração entre Lei e Graça, expressando, de forma simbólica, a ação do Ressuscitado que reúne toda a humanidade na comunhão. O simbolismo dos números na Bíblia é recorrente e significativo: 

  • 1 expressa a unidade absoluta de Deus. É o fundamento do monoteísmo bíblico, como em Deuteronômio 6,4: “O Senhor é um”. Indica também origem, princípio e exclusividade. Tudo procede do Um e para Ele converge.
  • 2 representa testemunho e relação. Em Deuteronômio 19,15, uma causa se confirma com duas testemunhas. Também aponta para a alteridade, a necessidade do outro, como em Gênesis 2,18, onde o ser humano não foi criado para a solidão.
  • 3 indica plenitude divina e confirmação. Está ligado à ação de Deus que se completa, como na ressurreição ao terceiro dia em Lucas 24,7. Também aparece em diversas teofanias e estruturas narrativas.
  • 4 simboliza a totalidade da terra e da criação. Relaciona-se aos quatro pontos cardeais, como em Isaías 11,12, e aos quatro ventos em Apocalipse 7,1. Representa o mundo criado em sua extensão.
  • 5 pode indicar responsabilidade humana diante de Deus. Está presente nos cinco livros da Torá, o Pentateuco, que estruturam a vida do povo em aliança, como em Josué 1,7-8.
  •  6 é associado à incompletude ou limite humano. O ser humano é criado no sexto dia em Gênesis 1,26-31, antes do descanso divino. Em Apocalipse 13,18, o 666 intensifica essa ideia como símbolo de poder humano que se absolutiza sem Deus.
  • 7 é um dos mais importantes, simbolizando perfeição, plenitude e ação divina. Está na criação em Gênesis 2,2-3, nas sete igrejas em Apocalipse 1,4 e em inúmeros ciclos litúrgicos e rituais.
  •  8 indica novo começo, nova criação. Após os sete dias, o oitavo rompe o ciclo e inaugura algo novo. Está associado à ressurreição, que ocorre “no primeiro dia da semana”, como em João 20,1, entendido pelos Padres como o “oitavo dia”.
  • 9 pode ser visto como fruto e maturidade espiritual. Embora menos explícito na Bíblia, é associado aos frutos do Espírito em Gálatas 5,22-23 e a processos de plenitude que estão prestes a se completar.
  • 10 representa totalidade normativa e ordem. Os Dez Mandamentos em Êxodo 20,1-17 são o exemplo mais claro. Também aparece em parábolas como a das dez virgens em Mateus 25,1-13.
  • 11 geralmente indica transição, incompletude ou tensão antes da plenitude. Após a morte de Judas, restam onze apóstolos em Atos 1,26, aguardando recomposição da totalidade.
  • 12 simboliza o povo de Deus em sua forma plena e organizada. São doze tribos de Israel em Gênesis 49 e doze apóstolos em Mateus 10,1-4. Em Apocalipse 21,12-14, o novo povo de Deus é descrito com base nesse número.
A partir deles, a Bíblia frequentemente constrói outros números por combinação.
Multiplicação como intensificação: 
  • 12 × 12 = 144, como em Apocalipse 7,4, indicando a plenitude total do povo de Deus
  • 12 × 1000 = 12.000 (e depois 144.000), onde 1000 amplia para dimensão incontável ou plena (Sl 90,4)
  • 7 × 7 = 49, que prepara o jubileu (Lv 25,8-10), seguido do 50 como plenitude libertadora
Repetição como ênfase:
  •  “Setenta vezes sete” em Mateus 18,22 não é cálculo literal, mas superabundância do perdão
  • Os 40 dias (Gn 7,12; Mt 4,2) repetem um padrão de tempo completo de prova
Combinações simbólicas mais amplas:
  • 24 em Apocalipse 4,4 (12 + 12) une Antiga e Nova Aliança
  • 70 ou 72 em Lucas 10,1 remete às nações de Gênesis 10, indicando universalidade
Agora, o ponto importante: isso não significa que todo número bíblico deriva mecanicamente de 1 a 12. Alguns números têm valor próprio ligado à experiência histórica e cultural, como: 
  • 40 (tempo de prova) 
  • 50 (jubileu), mesmo que depois também entrem em sistemas simbólicos maiores.
O que se percebe é uma gramática simbólica, não uma fixa: na tradição bíblica, os números, em operações simples como soma, divisão, multiplicação ou subtração, costumam apontar para sentidos recorrentes. Veja:
  • 153 → 1+5+3 = 9, e 9 é múltiplo de 3 (Jo 21,11);
  • 144 → 1+4+4 = 9, e sua raiz é 12, cujo 1+2 = 3, raiz de 9 (Ap 7,4; 21,17);
  • 72 → 7+2 = 9 (Lc 10,1).
O 12 revela a dinâmica simbólica: dividido por 3 dá 4, dividido por 4 dá 3; e 3+4 = 7, síntese de plenitude.
Do ponto de vista hermenêutico, isso revela algo profundo: a Bíblia pensa a realidade como ordenada, significativa, integrada. Os números ajudam a expressar que Deus age na história com sentido, não de forma caótica. Como diz Sabedoria 11,20, Deus “dispôs todas as coisas com medida, número e peso”.
Em síntese, esses números estruturam uma linguagem simbólica que atravessa toda a Escritura, articulando teologia, história e experiência humana. Eles ajudam a perceber que a revelação bíblica não comunica apenas por conceitos, mas também por formas, padrões e repetições que apontam para uma ordem mais profunda da ação de Deus na história.  Mas é essencial manter equilíbrio. A tradição séria da Igreja, reafirmada em Dei Verbum 12, alerta que o sentido principal da Escritura não está em códigos ocultos, mas na ação de Deus na história. O simbolismo numérico ilumina, organiza e aprofunda, mas não substitui o núcleo do Evangelho.
Aplicando isso ao caso de João 21, o número 153 não é um enigma para decifrar, mas um sinal: a missão do Ressuscitado é total, inclusiva, universal. A rede não se rompe porque o projeto de Deus não é fragmentação, mas comunhão.
A rede que não se rompe em João 21,11 contrasta com Lucas 5,6, onde as redes começam a se romper diante da abundância. Este contraste revela um desenvolvimento teológico. Em Lucas, a missão ainda está em início, marcada pela fragilidade e pela necessidade de colaboração. Em João, após a páscoa, a comunidade é chamada a uma unidade mais profunda, capaz de sustentar a diversidade sem ruptura. Este ideal eclesial é retomado em Efésios 4,3-6, que exorta à unidade do Espírito no vínculo da paz. O reconhecimento de Jesus pelo discípulo amado em João 21,7 indica que o amor é critério de discernimento. Não é o poder, nem a estrutura, mas a relação afetiva que permite perceber a presença do Ressuscitado. Pedro, ao ouvir, lança-se ao mar, gesto que revela sua impetuosidade e desejo de reconciliação. A água, símbolo ambíguo, remete ao batismo em Romanos 6,3-4, indicando morte e ressurreição.

A refeição na margem, com pão e peixe, evoca a multiplicação em João 6 e antecipa a Eucaristia. O gesto de Jesus de tomar o pão e distribuí-lo em João 21,13 remete à última ceia em João 13,26 e aos relatos sinóticos em Lucas 22,19. A refeição partilhada com o Ressuscitado é sinal de comunhão, reconciliação e missão. O convite “Vinde comer” em João 21,12 é um chamado à intimidade e à participação.

O paralelo com Lucas 5,1-11 é fundamental. Na narrativa lucana, Jesus entra na barca de Pedro, ensina as multidões e convida à pesca em águas profundas. A resposta de Pedro, “Afasta-te de mim, Senhor, porque sou um pecador” em Lucas 5,8, revela consciência de indignidade. Jesus responde com um chamado: “Não tenhas medo; doravante serás pescador de homens” em Lucas 5,10. Em João 21, após a ressurreição, o chamado é renovado, não mais como início, mas como restauração. A missão não é anulada pela queda, mas purificada.

A narrativa revela um processo de reconstrução da identidade. Após a negação, Pedro precisa reencontrar seu lugar. A psicologia da culpa e da reconciliação se manifesta em seu gesto de lançar-se ao mar. A presença do fogo de brasas em João 21,9 remete diretamente à cena da negação em João 18,18, criando um paralelismo que prepara a reabilitação em João 21,15-19. A memória é reconfigurada à luz do encontro com o Ressuscitado. A  leitura  aponta para uma comunidade em crise que precisa redefinir sua missão. A pesca, atividade econômica coletiva, simboliza a ação missionária. A abundância não é fruto de técnica, mas de escuta. Este dado desafia modelos eclesiais baseados em eficiência e marketing. A missão nasce da relação com Cristo e se realiza na partilha.

 A instrumentalização  da fé  nos dias atuais para fins político-partidários , a adesão as ideologias autoritárias, a teologia da prosperidade que reduz o Evangelho a promessa de sucesso, e o clericalismo  nas diversas  Igrejas  que transforma o serviço em poder, são formas de redes lançadas sem escuta. O Cristo da margem não legitima tais práticas. Ele convida à conversão, à justiça e à solidariedade. Como em Amós 5,24, “corra o direito como água e a justiça como um rio perene”.

O Concílio Vaticano II, em Gaudium et Spes 1, afirma que as alegrias e esperanças, tristezas e angústias dos homens são também as da Igreja. João 21 revela uma Igreja que partilha da angústia, mas também da esperança. O Documento de Aparecida 33 insiste na necessidade de discernir os sinais dos tempos. A pesca abundante após a escuta da palavra é um sinal de que a missão continua possível, mesmo em contextos adversos.

O clericalismo encontra eco na figura de Pedro, que não é exaltado como dominador, mas como servidor inclusive ele entra na soma  dos 7 pescadores. A autoridade nasce do amor, como será explicitado em João 21,15-17. A Igreja é chamada a ser espaço de serviço, não de disputa. Como afirma Lumen Gentium 27, a autoridade deve ser exercida como serviço, à imagem de Cristo.

A relação com a sociedade contemporânea é inevitável. Em um mundo marcado por desigualdade, exclusão e violência, a narrativa de João 21 convida a uma prática cristã comprometida com a justiça. A pesca abundante não pode ser apropriada por poucos, mas partilhada. A rede que não se rompe é símbolo de uma sociedade inclusiva, capaz de acolher a diversidade sem fragmentação.

Somos convidados  à contemplação e à ação. O Cristo ressuscitado continua à margem da história, chamando, orientando, alimentando. A comunidade é convidada a lançar novamente as redes, não com base em estratégias humanas, mas na escuta da palavra. A missão não é um projeto de poder, mas um serviço de amor. A Páscoa não é apenas memória, mas compromisso com a vida nova que se manifesta na justiça, na solidariedade e na esperança. O mar da Galileia continua sendo cenário de encontro, e a voz do Ressuscitado continua ecoando, chamando cada discípulo a sair da noite e entrar na luz da missão.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

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