A narrativa se abre a partir de um chão humano profundamente marcado pelo abalo. O pré-texto imediato, em Lucas 24,13-35, apresenta discípulos em fuga, desiludidos, incapazes de sustentar a esperança. O fracasso da cruz, aos olhos humanos, parecia ter encerrado a história. Essa condição ecoa a experiência do justo sofredor descrita em Livro dos Salmos 22,2, onde o grito de abandono revela o limite da compreensão humana diante do sofrimento. A comunidade reunida carrega esse peso. A notícia da ressurreição, ainda que anunciada, não é suficiente para romper imediatamente o ciclo do medo. Aqui se revela um dado antropológico fundamental. O ser humano não muda apenas por informação, mas por experiência. A fé não é mera adesão intelectual, mas processo de transformação que atravessa a memória, o corpo e a afetividade. Quando Jesus se coloca no meio deles e diz “A paz esteja convosco” em Lucas 24,36, inaugura-se uma nova realidade. A palavra “eirene”, herdeira do “shalom” bíblico, não designa apenas tranquilidade interior, mas a restauração integral da vida, conforme a promessa de Livro do Profeta Isaías 52,7, onde a paz está associada à boa nova da libertação. Essa paz é escatológica, sinal de que o tempo de Deus irrompe na história. No entanto, a reação dos discípulos é de medo e perturbação, como em Lucas 24,37. Eles pensam ver um espírito. A experiência do trauma distorce a percepção da realidade. A psicologia da experiência humana mostra que, diante de eventos que rompem a lógica conhecida, a mente tende a recorrer a categorias que preservem uma certa estabilidade, mesmo que inadequadas. Assim, o Ressuscitado é inicialmente reduzido a algo menos do que é.
Jesus responde não com reprovação, mas com pedagogia. Ele pergunta pelos pensamentos que agitam o coração, em Lucas 24,38, revelando que a fé passa pela escuta da interioridade. Em seguida, convida ao toque. “Vede minhas mãos e meus pés” em Lucas 24,39. Aqui se encontra um dos núcleos mais densos da teologia pascal. As mãos e os pés, marcados pela violência da cruz, permanecem no corpo glorificado. Não há negação da história. As chagas tornam-se lugar de revelação. Esse dado se conecta com Livro do Profeta Isaías 53,5, onde o servo é ferido por nossas transgressões, e com Apocalipse de João 5,6, onde o Cordeiro está de pé como que imolado. A ressurreição não elimina o sofrimento vivido, mas o transfigura em sinal de vida. Isso tem implicações profundas para a existência humana. As feridas, quando atravessadas pela graça, deixam de ser apenas marcas de dor e tornam-se memória redentora.
O gesto de tocar é também profundamente antropológico. Em Primeira Carta de João 1,1, a fé é descrita como aquilo que foi ouvido, visto e tocado. A corporeidade não é descartada, mas assumida. Contra toda espiritualidade desencarnada, o Ressuscitado afirma a dignidade do corpo. Em um mundo que ora idolatra o corpo como objeto de consumo, ora o despreza em contextos de pobreza e exclusão, essa afirmação é radical. O corpo humano, especialmente o corpo ferido, torna-se lugar teológico. Mesmo assim, a alegria ainda não é plena. Lucas 24,41 afirma que eles não podiam acreditar de tanta alegria. Trata-se de uma expressão paradoxal que revela a complexidade da experiência humana. A esperança, quando reaparece, pode ser tão intensa que se torna difícil de acolher. Jesus então pede algo para comer. O gesto de comer peixe diante deles em Lucas 24,42-43 não é um detalhe secundário. Ele insere a ressurreição no cotidiano. Comer, no mundo mediterrâneo antigo, é ato de comunhão, de reconhecimento mútuo, de pertença. Esse gesto remete às refeições de Jesus com pecadores em Evangelho de Lucas 5,29-32 e antecipa a dimensão eucarística já vivida em Lucas 22,19. A refeição torna-se espaço de revelação. O Ressuscitado não se impõe de forma espetacular, mas se deixa reconhecer nos gestos simples que constroem a vida.
A seguir, o texto atinge um ponto decisivo. Jesus abre a mente dos discípulos para compreender as Escrituras em Lucas 24,45. O verbo utilizado, “dianoigo”, indica uma abertura profunda, plena. É o mesmo movimento ocorrido em Lucas 24,31, quando os olhos dos discípulos de Emaús foram abertos. Há aqui uma unidade interna na narrativa. Ver, compreender e crer fazem parte de um mesmo processo. A Escritura não é simplesmente explicada, mas revelada a partir da experiência pascal. Isso se conecta com Evangelho de Mateus 5,17, onde Jesus afirma cumprir a Lei e os Profetas, e com Carta aos Hebreus 1,1-2, onde Deus fala de modo definitivo no Filho.
Essa releitura das Escrituras é também crítica. Ela desmascara interpretações que absolutizam a letra e perdem o espírito, como denunciado em Evangelho de João 5,39-40. A Escritura, quando lida sem abertura ao Espírito, pode ser usada para legitimar opressões. Quando aberta pelo Ressuscitado, torna-se fonte de libertação. Essa tensão é profundamente atual. Em muitos contextos, textos bíblicos são recortados e utilizados para justificar exclusão, violência e dominação. O Cristo que abre a mente dos discípulos rompe com essa lógica. Ele revela que toda a Escritura converge para a vida, para a misericórdia, para a dignidade humana.
O conteúdo dessa interpretação é claro. Era necessário que o Cristo sofresse e ressuscitasse, como em Lucas 24,46. A necessidade aqui não é fatalismo, mas fidelidade ao projeto de Deus revelado na história. A cruz não é vontade arbitrária de Deus, mas consequência de um amor que confronta estruturas de morte. Isso se conecta com Carta aos Filipenses 2,8-9, onde a humilhação de Cristo conduz à exaltação, e com Carta aos Romanos 4,25, onde Ele é entregue por nossos pecados e ressuscitado para nossa justificação.
A partir dessa compreensão nasce a missão. Em Lucas 24,47-48, o anúncio da conversão e do perdão dos pecados deve alcançar todas as nações. Essa universalidade retoma a promessa de Livro do Gênesis 12,3 e se concretiza na prática da Igreja nascente em Atos dos Apóstolos 2,38-39. No entanto, essa missão não pode ser confundida com expansão de poder. Ela é testemunho. E testemunhar implica assumir as consequências da verdade, como mostram os apóstolos em Atos dos Apóstolos 5,29, afirmando obedecer a Deus antes que aos homens.
A tradição da Igreja aprofunda essa dimensão. O Concílio Vaticano II, em Dei Verbum, afirma que a revelação se dá na história e exige resposta viva. Em Gaudium et Spes, a Igreja se reconhece solidária com a humanidade, especialmente com os que sofrem. A CNBB e o CELAM, em Conferência de Aparecida, reafirmam que o encontro com Cristo leva à missão junto aos pobres, ecoando Evangelho de Lucas 4,18-19.
Essa dimensão missionária carrega uma exigência profética. O Ressuscitado que mostra suas feridas denuncia toda forma de violência. Em um mundo marcado por desigualdades gritantes, como já denunciava Carta de Tiago 2,14-17, a fé sem obras é morta. A religião que se alia ao poder para manter privilégios trai o Evangelho. Jesus já havia denunciado essa distorção em Evangelho de Mateus 23, ao criticar líderes que oprimem o povo em nome de Deus. O clericalismo, que transforma serviço em domínio, contradiz Evangelho de Marcos 10,45. A teologia da prosperidade, que associa fé a riqueza, ignora Evangelho de Lucas 6,20-26, onde os pobres são bem-aventurados. Mais grave ainda é quando a fé é capturada por projetos autoritários, que utilizam símbolos religiosos para legitimar exclusão, violência e desprezo pelos vulneráveis. Essa instrumentalização da religião contradiz frontalmente o Evangelho.
O Cristo ressuscitado não legitima impérios, mas inaugura o Reino de Deus, que cresce como semente, conforme Evangelho de Marcos 4,30-32. A ressurreição é subversiva. Ela afirma que a última palavra não pertence aos poderosos, mas à vida que Deus gera. No horizonte contemporâneo, a humanidade vive crises profundas de sentido, marcada por violência, exclusão e fragmentação. A experiência dos discípulos revela que o medo pode ser transformado, mas não por imposição, e sim por encontro. O Ressuscitado se coloca no meio. Ele não fala de fora da história, mas a partir dela. Ele mostra suas feridas, que hoje continuam presentes nos corpos dos pobres, dos marginalizados, das vítimas da violência, conforme Evangelho de Mateus 25,40.
A abertura da mente e do coração continua sendo necessária. Como afirma Carta aos Romanos 12,2, é preciso transformar a mentalidade para discernir a vontade de Deus. Essa transformação não é apenas individual, mas comunitária. Ninguém crê sozinho. A fé nasce e cresce na comunhão. Em um mundo marcado pelo individualismo, essa dimensão é profundamente contracultural..Ao final, permanecem os sinais. As mãos e os pés marcados, a paz oferecida, a refeição partilhada, a mente aberta. Esses elementos não são apenas memória, mas presença. Eles se atualizam na vida da Igreja, especialmente na Eucaristia, onde o Ressuscitado continua a se dar como alimento, conforme Evangelho de João 6,51. Eles se atualizam também na prática da justiça, quando a comunidade se compromete com os pobres e excluídos.
Existe um chamado exigente, é preciso reconhecer o Ressuscitado no meio das crises. Permitir que as feridas sejam transformadas em fonte de vida. Ler as Escrituras à luz da Páscoa. Assumir a missão como testemunho e serviço. E denunciar, com coragem, tudo aquilo que contradiz o Evangelho. Porque a ressurreição não é fuga da história. É sua transformação radical. É a irrupção de Deus no coração da realidade humana. É a afirmação de que a vida, mesmo ferida, é mais forte que a morte. E é o envio de uma comunidade chamada a viver essa verdade, até que todas as coisas sejam recriadas naquele que faz novas todas as coisas, conforme Apocalipse de João 21,5.
DNonato - Teólogo do Cotidiano


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