segunda-feira, 11 de maio de 2026

Dissonância Coletiva: Entre a Fé e a Fake News

Já ouviu falar em dissonância cognitiva?


O conceito foi desenvolvido pelo psicólogo social Leon Festinger (1919–1989) para explicar um fenômeno profundamente humano: o desconforto mental provocado quando a realidade entra em choque com crenças, identidades ou convicções emocionais já consolidadas. Quando os fatos ameaçam aquilo em que alguém acredita, a reação nem sempre é rever a própria posição. Muitas vezes acontece exatamente o contrário. A mente cria mecanismos de defesa para preservar sua coerência interna. Negam-se evidências, reinterpretam-se acontecimentos, atacam-se fontes de informação ou fabricam-se narrativas paralelas capazes de proteger emocionalmente o indivíduo do peso de admitir o erro. A dissonância cognitiva não é simples ignorância, mas um mecanismo psicológico complexo envolvendo medo, orgulho, pertencimento social, identidade coletiva e autopreservação psíquica. Admitir que alguém foi enganado, manipulado ou que depositou esperança excessiva em líderes políticos pode significar enfrentar vergonha, humilhação pública, perda de pertencimento grupal e até crise de identidade. Por isso, frequentemente o cérebro prefere fabricar justificativas em vez de aceitar a realidade.

Festinger percebeu isso ao estudar um grupo religioso apocalíptico nos Estados Unidos nos anos 1950. O grupo acreditava que o mundo acabaria em determinada data. Quando nada aconteceu, o esperado seria o abandono da crença. Mas muitos seguidores ficaram ainda mais fanáticos. Criaram uma racionalização: disseram que sua fé havia salvado o planeta da destruição. A realidade foi reconstruída para preservar a crença. Décadas depois, estudos da psicologia cognitiva, da neurociência e da sociologia política continuam confirmando algo desconfortável: o ser humano não é tão racional quanto imagina.

Daniel Kahneman (1934–2024) demonstrou como nossas decisões frequentemente são guiadas por impulsos emocionais e atalhos mentais inconscientes. Erich Fromm (1900–1980) analisou como sociedades inseguras tendem a buscar líderes autoritários que ofereçam sensação de ordem e proteção. Hannah Arendt (1906–1975) alertou que regimes baseados em propaganda prosperam quando a população perde a capacidade de distinguir verdade objetiva de narrativa ideológica. Já Umberto Eco (1932–2016) observou que movimentos autoritários frequentemente sobrevivem alimentando medo, paranoia social, culto à tradição e fabricação permanente de inimigos.

Tudo isso ajuda a compreender o fenômeno do bolsonarismo no Brasil. O bolsonarismo não se estruturou apenas como corrente política. Tornou-se identidade emocional, comunidade tribal e, em certos setores, quase uma devoção simbólica. Para muitos seguidores, Jair Bolsonaro (presidente do Brasil: 2019–2022) deixou de ser apenas um governante e passou a ocupar o lugar de figura salvadora, representante do “bem” contra forças imaginadas como ameaça absoluta à nação, à família, à religião e à moral. A política deixou de ser, para muitos, espaço de debate racional e passou a funcionar quase como religião ideológica. Quando a política assume contornos religiosos, o pensamento crítico passa a ser tratado como heresia; a crítica vira perseguição; o contraditório transforma-se em conspiração; e o adversário deixa de ser apenas adversário para se tornar inimigo moral ou demonizado.

É nesse ambiente emocional que a dissonância cognitiva floresce. Durante quatro anos, dezenas de deputados, senadores e governadores ligados ao bolsonarismo foram eleitos pelas urnas eletrônicas. O sistema eleitoral era plenamente aceito enquanto produzia vitórias para o grupo. Mas, quando Bolsonaro perdeu a eleição presidencial, a mesma urna passou a ser chamada de fraudulenta. Ou seja: a eleição “vale” quando confirma a crença; quando contraria o líder, transforma-se em conspiração. A lógica racional entra em colapso porque a narrativa precisa ser protegida. Se o líder não venceu, então a realidade deve estar corrompida. Trata-se de um exemplo clássico de dissonância cognitiva e viés de confirmação: a tendência humana de aceitar apenas informações que reforçam crenças prévias e rejeitar evidências contrárias.

O mesmo mecanismo apareceu durante a pandemia de COVID-19 (2019–2023, fase crítica global). Mesmo diante de estudos científicos internacionais, milhões de mortes e evidências médicas robustas, setores radicalizados insistiram na ideia da “cura precoce” com Cloroquina e Ivermectina. A necessidade emocioonal de acreditar num líder “contra o sistema” tornou-se mais forte que a própria realidade científica. Admitir o erro significaria reconhecer que decisões equivocadas poderiam ter contribuído para sofrimento e mortes evitáveis. Para evitar essa dor moral, muitos preferiram desacreditar cientistas, universidades, jornalistas e instituições médicas. Em muitos discursos, criou-se uma inversão simbólica: enfatizavam-se casos isolados de recuperação como prova de eficácia, enquanto os números de mortes, estatísticas epidemiológicas e dados consolidados eram relativizados, contestados ou até demonizados, pedia para ver o numero de curados não de mortos. Esse fenômeno foi reforçado por narrativas emocionais e, em alguns contextos, até por apelos religiosos que interpretavam a doença como “prova espiritual” ou “guerra invisível”, deslocando o debate do campo científico para o campo da fé e da ideologia. O resultado foi uma fragmentação da percepção da realidade, onde dados objetivos passaram a disputar espaço com crenças, medo e identidade política. 

As fake news também revelam esse mecanismo psicológico coletivo. Narrativas absurdas como:

  •  “mamadeira erótica”
  •  “kit gay”
  • comunismo iminente
  • fraude vacinal
  • fechamento de igrejas
  •  globalismo
  • chips em vacinas
  • satanização de adversários políticos 
  • vídeos banais transformados em “provas” conspiratórias 

Tais  fatos  ganham  força porque não apelavam à razão, mas ao medo, ao ressentimento e à indignação emocional. A mentira funcionava não porque era lógica, mas porque reforçava a identidade do grupo. Compartilhar fake news passou a funcionar como demonstração pública de fidelidade ideológica. O grupo já não consumia informações para compreender a realidade, mas para reafirmar pertencimento tribal.

Nesse ambiente, até produtos cotidianos passaram a ser transformados em símbolos ideológicos. O caso da Ypê e até das Havaianas revelam isso de maneira quase caricatural. Detergentes e sandálias tornaram-se objetos de guerra cultural a partir de rumores e campanhas emocionais nas redes sociais. O consumo virou teste de fidelidade política. O absurdo passou a parecer normal dentro das bolhas digitais.

Outro exemplo de dissonância cognitiva apareceu no debate sobre a dosimetria das penas relacionadas aos ataques de 8 de janeiro de 2023. Muitos dos que defendiam endurecimento penal, prisão severa e frases como “bandido bom é bandido morto” passaram a relativizar crimes graves quando praticados por integrantes do próprio grupo político. O critério moral mudou conforme o lado envolvido. A lei deixou de ser princípio universal e passou a funcionar como instrumento de conveniência ideológica. O problema já não era o crime em si, mas quem o cometia. A sociologia política explica que movimentos autoritários frequentemente dependem desse tipo de dinâmica emocional. Fabricam inimigos permanentes, criam sensação contínua de perseguição, estimulam medo coletivo e transformam o líder em figura quase messiânica. A imprensa vira “inimiga”. Universidades tornam-se suspeitas. Professores passam a ser tratados como doutrinadores. A ciência é atacada quando contradiz a narrativa ideológica. O pensamento crítico transforma-se em ameaça.

As redes sociais aprofundaram drasticamente esse processo. Vivemos hoje dentro do capitalismo algorítmico da atenção. Plataformas digitais lucram com engajamento emocional. Medo, raiva, choque e indignação geram compartilhamentos, comentários e tempo de tela. O ódio tornou-se economicamente rentável. O algoritmo funciona como espelho deformado: devolve às pessoas não a realidade, mas aquilo que elas emocionalmente desejam enxergar. Quanto mais agressivo, absurdo ou conspiratório o conteúdo, maior tende a ser seu alcance. Criou-se uma verdadeira indústria da paranoia política. Influenciadores monetizam indignação. Canais lucram espalhando teorias conspiratórias. A mentira circula mais rápido que a verificação jornalística. Como alertava Hannah Arendt (1906–1975), o objetivo final da propaganda totalitária não é apenas convencer as pessoas de uma mentira específica, mas destruir sua confiança na possibilidade de existir verdade objetiva. 

Isso não acontece apenas no Brasil. Nos Estados Unidos, apoiadores de Donald Trump (presidente dos EUA: 2017–2021) continuaram acreditando em fraude eleitoral mesmo após auditorias, investigações e decisões judiciais demonstrarem ausência de provas consistentes. O ataque ao Capitólio dos Estados Unidos em janeiro de 2021 mostrou como narrativas conspiratórias podem gerar violência concreta. Na Europa, movimentos antivacina cresceram utilizando teorias conspiratórias sobre controle populacional, chips eletrônicos e manipulação genética. Durante o Brexit no Reino Unido (processo político principal: 2016–2020), campanhas emocionais baseadas em desinformação mobilizaram medo e ressentimento nacionalista. A história oferece exemplos ainda mais extremos. O fascismo europeu do século XX utilizou mecanismos semelhantes: manipulação do medo, nacionalismo performático, anti-intelectualismo e culto à personalidade. O nazismo na Alemanha (1933–1945) fabricou inimigos internos através de propaganda massiva. Em Ruanda (genocídio de 1994), rádios foram usadas para espalhar desumanização étnica antes do massacre. Na Coreia do Norte (fundada em 1948; regime dinástico até hoje), o culto à personalidade transforma líderes políticos em figuras quase divinas. Os contextos históricos são diferentes, mas os mecanismos psicológicos possuem semelhanças inquietantes: fabricação de inimigos, repetição contínua de propaganda, simplificação da realidade, culto ao líder, paranoia coletiva, manipulação emocional das massas e destruição da confiança nas instituições.

O Brasil possui ainda agravantes históricos próprios. Nossa formação social foi marcada por escravidão, autoritarismo, coronelismo, militarização política e tradição de personalismos messiânicos. O bolsonarismo não surgiu no vazio. Ele dialoga com uma cultura histórica marcada pela busca recorrente por “salvadores da pátria”, soluções autoritárias e desprezo estrutural pela reflexão crítica. Existe ainda um elemento religioso profundamente preocupante nesse processo. Parte do bolsonarismo instrumentalizou a fé cristã como ferramenta de poder político. O nome de Deus passou a ser usado para legitimar intolerância, violência verbal, culto às armas e demonização de adversários. Em muitos casos, a religião deixou de ser caminho de compaixão e justiça para se tornar identidade tribal e mecanismo de manipulação emocional.

Mas o Evangelho mostra Jesus Cristo (aprox. 4 a.C.–30/33 d.C.) fazendo exatamente o contrário. Jesus confrontava hipocrisias, denunciava manipulações religiosas e criticava líderes que usavam a fé para dominar consciências. Em Mateus 7,16, afirma: “pelos frutos os conhecereis”. Em João 8,32, declara: “a verdade vos libertará”. A verdade, no sentido evangélico, não serve para alimentar fanatismos; serve para libertar pessoas da mentira, da idolatria e da cegueira coletiva. O problema do Brasil não é apenas um político, um partido ou uma eleição. O problema surge quando a mentira vira método, quando o fanatismo substitui a consciência crítica e quando a identidade política passa a valer mais que a realidade. Nenhuma democracia sobrevive quando os fatos deixam de importar.

A sociedade brasileira está emocionalmente adoecida pela polarização, pela lógica permanente do ódio e pela industrialização da desinformação. Há famílias destruídas, amizades rompidas e comunidades religiosas contaminadas por paranoia ideológica. Muita gente vive em estado constante de medo, raiva e ressentimento alimentado diariamente por redes sociais e lideranças irresponsáveis. Uma sociedade que perde o compromisso com a verdade começa lentamente a perder também sua humanidade. Democracias raramente morrem apenas com tanques nas ruas. Elas também adoecem quando multidões passam a amar mais suas ilusões do que a realidade.

Cuidar da saúde mental hoje também significa reaprender algo que deveria ser básico em qualquer sociedade democrática: nenhum líder político merece devoção absoluta, nenhuma ideologia está acima da verdade e nenhuma paixão partidária pode substituir a realidade. Quando pessoas passam a defender um político como se fosse entidade sagrada, perdem gradualmente a capacidade de autocrítica. A consciência deixa de analisar fatos e passa apenas a proteger emocionalmente uma identidade coletiva. Nesse estágio, a verdade já não importa tanto; importa preservar o grupo, o líder e a narrativa. É aí que a política deixa de ser participação cidadã e começa a se transformar em fanatismo.

O episódio envolvendo a Ypê com a fiscalização  liderada pela prefeitura  local e  pela vigilância  sanitária  do estado  de São Paulo  com apoio da Anvisa,  tornou isso quase grotescamente simbólico onde devolto de uma ideologia simulam  ou bebem o produto. Em meio às guerras ideológicas das redes sociais, surgiram bolsonaristas consumindo produto de limpeza em vídeos e desafios absurdos para demonstrar fidelidade política e atacar supostos “inimigos”. O que deveria causar espanto coletivo passou a ser tratado por alguns como gesto de militância.  Isso revela algo profundamente preocupante: quando a identidade ideológica domina completamente o senso crítico, até o instinto básico de autopreservação pode ser afetado. O absurdo deixa de parecer absurdo dentro da bolha emocional. A pessoa já não reage racionalmente aos fatos, mas emocionalmente aos símbolos do grupo. É exatamente assim que a dissonância cognitiva opera em ambientes radicalizados: a realidade vai sendo lentamente substituída pela necessidade psicológica de pertencimento. O indivíduo passa a acreditar não naquilo que é verdadeiro, mas naquilo que o mantém emocionalmente integrado ao grupo. A mentira conforta; a verdade ameaça. As redes sociais aprofundam isso diariamente. O algoritmo premia indignação, paranoia e fanatismo porque essas emoções geram engajamento. Quanto mais extrema a reação, maior a circulação do conteúdo. Aos poucos, a sociedade vai naturalizando comportamentos irracionais, agressivos e perigosos. O espetáculo substitui a reflexão. O meme substitui o pensamento. O ódio substitui o diálogo.

Por isso, o problema não é apenas político. É humano, psicológico, espiritual e civilizacional. Uma sociedade emocionalmente adoecida perde a capacidade de distinguir convicção de fanatismo, crítica de perseguição, fé de idolatria, patriotismo de manipulação emocional. E quando isso acontece, abre-se espaço para líderes autoritários, propagandas simplificadoras e guerras culturais permanentes que destroem laços sociais, famílias e até comunidades religiosas. O Evangelho aponta noutra direção. nunca pediu devoção cega a poderes terrenos. Ao contrário: denunciou hipocrisias, confrontou manipulações religiosas e colocou a verdade acima do medo coletivo. “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8,32) continua sendo uma afirmação profundamente atual numa época marcada pela mentira industrializada e pelo fanatismo digital. Talvez um dos maiores desafios do nosso tempo seja justamente recuperar a coragem de encarar a realidade sem transformá-la em guerra ideológica. Aprender a mudar de opinião diante dos fatos não é fraqueza; é maturidade intelectual e honestidade moral. Reconhecer erros não destrói a dignidade humana; o fanatismo é que destrói.

Nenhum político salvará a sociedade brasileira sozinho. Nenhum partido substituirá consciência crítica. Nenhuma corrente ideológica pode ocupar o lugar da ética, da verdade e da humanidade. Uma democracia saudável depende de cidadãos capazes de pensar, questionar, dialogar e reconhecer limites, inclusive os próprios. Porque quando multidões passam a amar mais suas narrativas do que a realidade, o risco não é apenas político. É o adoecimento profundo da própria consciência coletiva.

DNonato - Graduado em História.

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