terça-feira, 28 de abril de 2026

Um breve olhar sobre João 10,22-30.

 O trecho de João
10,22-30 é proclamado na liturgia da Igreja Católica Romana durante o Tempo Pascal, mais especificamente na terça-feira da quarta semana da Páscoa, e, no ciclo C, reaparece no quarto domingo da Páscoa, conhecido como o Domingo do Bom Pastor. A pedagogia litúrgica da Igreja articula esses textos dentro do horizonte da Ressurreição, convidando a comunidade a reconhecer o Cristo vivo como aquele que conduz, protege e dá a vida. Nas Igrejas Ortodoxas, leituras análogas emergem no período pascal como expressão da vitória do Ressuscitado que reúne o rebanho disperso. Em tradições da Reforma, o mesmo capítulo integra lecionários que enfatizam a confiança radical no Cristo que guarda seu povo. Assim, o texto não é apenas memória de um discurso, mas atualização permanente de uma presença que interpela a história.

A cena se insere na seção joanina das festas, entre João 7 e 10, onde Jesus se revela progressivamente como cumprimento e superação das instituições centrais de Israel. Após apresentar-se como água viva (Jo 7,37-38) e luz do mundo (Jo 8,12), e após o sinal do cego de nascença (Jo 9), que provoca um conflito direto com as autoridades religiosas, Jesus desenvolve a imagem do pastor. Esse pano de fundo é essencial. O cego curado torna-se paradigma do discípulo que passa da escuridão à luz, enquanto os líderes que o interrogam permanecem na cegueira. A metáfora do pastor emerge, portanto, como crítica concreta a um modelo de liderança que exclui, controla e expulsa.

É nesse contexto que João 10,22 situa a ação durante a festa da Dedicação, Hanucá. Historicamente, essa festa nasce da resistência judaica contra a opressão selêucida no século II antes de Cristo. Antíoco IV Epífanes, ao tentar impor a helenização forçada, profanou o Templo, proibiu práticas da Lei e instaurou um culto estranho à fé de Israel (1Mac 1,41-64). A revolta dos Macabeus, liderada por Judas Macabeu, resultou na reconquista de Jerusalém e na purificação do Templo (1Mac 4,36-59; 2Mac 10,1-8). A dedicação do altar foi celebrada durante oito dias, estabelecendo uma memória litúrgica de resistência, fidelidade e restauração. A tradição judaica posterior associou Hanucá ao símbolo da luz, com a narrativa do azeite que durou oito dias, preservada no Talmude. Mesmo que essa tradição não esteja nos textos deuterocanônicos, ela revela uma leitura espiritual da história: Deus mantém sua luz acesa mesmo quando tudo parece ameaçado. João, profundamente marcado pela teologia da luz e das trevas, insere Jesus nesse cenário. Aquele que se apresenta como luz do mundo caminha no Templo durante a festa das luzes. A geografia e o tempo litúrgico tornam-se teologia narrativa.

O evangelista acrescenta que era inverno. Esse detalhe, aparentemente secundário, carrega densidade simbólica. No horizonte joanino, o frio pode evocar a dureza do coração, a incapacidade de acolher a revelação. Jesus caminha pelo pórtico de Salomão, espaço de ensino e memória da sabedoria antiga, e ali é cercado pelos interlocutores que exigem uma declaração explícita sobre sua identidade messiânica. A pergunta revela mais do que curiosidade. Ela expressa uma expectativa moldada por categorias políticas, marcadas pela memória de libertação nacional e pelo desejo de um líder que restaure o poder de Israel. A resposta de Jesus desloca o eixo da questão. Ele afirma que já disse, mas não é crido. Suas obras testemunham. Aqui se revela uma chave hermenêutica central do Evangelho de João. A revelação não se dá apenas por palavras, mas por sinais concretos que manifestam o agir de Deus (Jo 5,36). A incredulidade não é falta de evidência, mas fechamento existencial. Quando Jesus afirma que não creem porque não são de suas ovelhas, ele não estabelece uma exclusão arbitrária, mas denuncia uma recusa relacional. À luz de João 8,47, quem é de Deus escuta a palavra de Deus. A pertença se define pela escuta.

A análise linguística   aprofunda essa compreensão. 

  • O verbo escutar, não indica apenas ouvir sons, mas acolher, obedecer, deixar-se transformar. 
  • O substantivo voz, carrega a ideia de presença viva que chama. O verbo conhecer, indica relação íntima, experiência compartilhada. Não se trata de conhecimento intelectual, mas de comunhão.
  • O verbo arrebatar /  harpaō em grego, usado em João 10,28-29, significa  tomar à força. A promessa de Jesus de que ninguém arrebatará suas ovelhas da sua mão responde a um contexto de ameaça real, onde forças religiosas, políticas e espirituais disputam o controle das pessoas.

A imagem da mão remete à tradição bíblica da ação poderosa de Deus. Em Isaías 43,13, ninguém pode livrar da mão divina. Em Deuteronômio 32,39, Deus afirma que não há quem escape de sua mão. Ao dizer que suas ovelhas estão em sua mão e na mão do Pai, Jesus afirma uma unidade de ação e proteção. Essa unidade culmina na declaração “Eu e o Pai somos um”. O termo hen, no grego, indica unidade de essência, não mera concordância. Essa afirmação foi central nos debates cristológicos dos primeiros séculos, especialmente no Concílio de Niceia, que afirmou a consubstancialidade do Filho com o Pai..No horizonte do Antigo Testamento, a imagem do pastor é profundamente crítica. Ezequiel 34 denuncia líderes que se alimentam das ovelhas, não cuidam das fracas, não procuram as perdidas. Deus promete intervir pessoalmente como pastor. Jeremias 23 anuncia juízo contra os pastores que dispersam o rebanho. Zacarias 11 apresenta a figura do pastor insensato. Jesus se insere nessa tradição, mas a radicaliza. Ele não apenas guia, mas dá a vida. A cruz se torna o ápice do pastoreio. Aqui ressoa Isaías 53, onde o Servo entrega sua vida pelas ovelhas que estavam desgarradas.

Nos Evangelhos Sinóticos, a imagem do pastor aparece com ênfases complementares. Em Mateus 9,36, Jesus se compadece das multidões abandonadas. Em Lucas 15, o pastor que busca a ovelha perdida revela a lógica da misericórdia. Em Marcos 14,27, a dispersão das ovelhas após a morte do pastor revela a fragilidade humana. João, por sua vez, apresenta uma cristologia mais elevada, onde o pastor está em unidade com Deus e oferece uma vida que transcende a morte. A tradição apostólica amplia essa imagem. Em Hebreus 13,20, Jesus é chamado de grande pastor das ovelhas. Em 1Pedro 5,2-4, os líderes são exortados a apascentar o rebanho não por interesse, mas com dedicação. Em João 21,15-17, Pedro recebe a missão de apascentar, indicando que o pastoreio de Cristo continua na comunidade. Essa dimensão eclesial é fundamental. A Igreja é chamada a ser sinal concreto do cuidado do Bom Pastor, não uma estrutura de dominação.

No entanto, a história mostra como essa vocação pode ser deformada. O clericalismo transforma o serviço em poder. A religião, quando instrumentalizada, torna-se ideologia. A sociologia da religião evidencia como discursos religiosos podem legitimar estruturas de dominação. A teologia da prosperidade reduz a fé a um mecanismo de troca, ignorando textos como Lucas 6,20-26, que denunciam a riqueza acumulada à custa dos pobres. A teologia do domínio busca impor uma hegemonia que contradiz João 18,36, onde Jesus afirma que seu reino não é deste mundo. No contexto latino-americano, documentos como Medellín, Puebla e Aparecida reafirmam a opção preferencial pelos pobres como critério evangélico. O Concílio Vaticano II, em Gaudium et Spes, recorda que a Igreja deve ler os sinais dos tempos e solidarizar-se com as dores da humanidade. A CNBB denuncia estruturas de pecado que geram exclusão. A voz do Bom Pastor, nesse contexto, não pode ser confundida com vozes que promovem violência, intolerância ou projetos autoritários.

Quando essa necessidade é manipulada, surgem formas de dependência e alienação. O verdadeiro pastoreio, à luz de Jesus, promove liberdade e maturidade. Em João 8,32, a verdade liberta. Em João 15,15, os discípulos são chamados amigos, não servos. A relação com o Pastor é de confiança e crescimento. A festa de Hanucá, com sua memória de resistência e sua simbologia da luz, ilumina profundamente essa leitura. Em contextos de opressão, a fé recorda que a luz não se apaga. Jesus não apenas participa dessa memória, mas a cumpre. Ele se torna o novo Templo, o lugar definitivo da presença de Deus (Jo 2,19-21). A purificação não é apenas ritual, mas existencial. O verdadeiro culto se dá em espírito e verdade (Jo 4,23).

A realidade contemporânea, marcada por desigualdade, violência, crise de sentido e manipulação religiosa, exige discernimento. Muitas vozes prometem segurança, identidade, prosperidade. Nem todas conduzem à vida. O critério permanece o mesmo: a coerência com o amor, a justiça e a dignidade humana. Em Mateus 25,31-46, o cuidado com os pequenos revela a autenticidade da fé. Escutar a voz do Pastor, portanto, é um ato profundamente espiritual e político. Implica resistir a vozes que exploram, excluir práticas que desumanizam, construir relações que promovam vida. A promessa de que ninguém arrebatará as ovelhas não elimina o conflito, mas oferece um fundamento sólido. Em Romanos 8, nada pode separar do amor de Deus.

A unidade entre o Pai e o Filho garante que o projeto de Deus permanece. A comunidade cristã é chamada a tornar visível essa unidade na prática concreta da justiça, da misericórdia e da solidariedade. Não se trata de uma fé intimista, mas encarnada na história. O Bom Pastor continua a chamar pelo nome. A resposta a esse chamado define não apenas a espiritualidade, mas a forma de viver, de organizar a sociedade, de exercer liderança. Assim, João 10,22-30 se revela como uma síntese densa da fé cristã. Ele articula cristologia, eclesiologia, ética e espiritualidade. Ele denuncia falsos pastores e revela o verdadeiro. Ele convida à escuta, ao conhecimento e ao seguimento. Ele aponta para uma vida que começa agora e se plenifica na comunhão com Deus. Em meio às sombras do mundo, a luz permanece. E a voz que chama continua a ecoar, exigindo discernimento, coragem e fidelidade.

DNonato - Teólogo  do Cotidiano 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Obrigado pelo seu comentário.