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segunda-feira, 1 de junho de 2026

Um breve olhar sobre Marcos 12,13-17.

A perícope de Marcos 12,13-17 é proclamada na liturgia da Igreja Católica Romana no Tempo Comum, particularmente na terça-feira da nona semana do Tempo Comum no ano par. Seus paralelos em Mateus 22,15-22 proclamado no 29º Domingo do Tempo Comum (Ano A) e Lucas 20,20-26. Nas Igrejas históricas, como as tradições Ortodoxas, Anglicanas, Luteranas e Reformadas, esta passagem integra igualmente os lecionários que percorrem a vida pública de Jesus, sendo reconhecida como um dos textos fundamentais para a compreensão da relação entre fé, poder, consciência e responsabilidade humana diante de Deus e da sociedade.

O episódio ocorre nos últimos dias da vida terrena de Jesus. Jerusalém vive uma tensão crescente. A cidade está cheia de peregrinos por ocasião da Páscoa. O domínio romano pesa sobre o povo. O Templo tornou-se o centro das disputas religiosas, econômicas e políticas. Jesus havia entrado em Jerusalém montado num jumentinho, gesto carregado de significado messiânico, conforme Zacarias 9,9. Em seguida, expulsara os vendedores do Templo, denunciando sua transformação em "covil de ladrões" (Marcos 11,17; Jeremias 7,11). Depois contou a parábola dos vinhateiros homicidas (Marcos 12,1-12), uma crítica severa às lideranças religiosas que haviam transformado a herança de Deus em propriedade privada.

É nesse ambiente de conflito crescente que surgem os fariseus e os herodianos. Marcos registra que eles foram enviados para apanhar Jesus em alguma palavra. O verbo utilizado sugere uma armadilha cuidadosamente preparada. Não se trata de busca sincera da verdade. O objetivo é eliminar Jesus.

A pergunta parece simples: "É lícito pagar imposto a César ou não?" (Marcos 12,14). Contudo, por trás dela existe uma armadilha mortal. Se Jesus respondesse que o imposto deveria ser pago, poderia ser acusado diante do povo de colaborar com a opressão romana. Se respondesse negativamente, poderia ser denunciado às autoridades imperiais como agitador político. O imposto mencionado era o tributo per capita exigido pelo Império Romano. Era símbolo visível da dominação estrangeira. Muitos judeus o consideravam uma afronta à soberania divina. Entre os zelotas, a recusa do imposto era uma forma de resistência nacionalista. Entre as elites colaboracionistas, o pagamento era aceito como necessidade política.

A genialidade da resposta de Jesus não consiste numa fuga diplomática. Consiste em revelar uma dimensão mais profunda da realidade. Ele pede uma moeda. A simples presença daquela moeda já denuncia uma contradição. Os próprios acusadores carregam consigo o símbolo econômico do império que dizem rejeitar. A moeda possuía a imagem do imperador Tibério e uma inscrição que o identificava como filho do divino Augusto. Para muitos judeus, aquilo se aproximava da idolatria. O segundo mandamento proibia imagens utilizadas para fins religiosos (Êxodo 20,4). O imperador reivindicava atributos que pertenciam somente a Deus.

Jesus pergunta: "De quem é esta imagem e inscrição?" Eles respondem: "De César". Então vem a frase que atravessou os séculos: "Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus" (Marcos 12,17).

Frequentemente essa frase foi utilizada para justificar separações simplistas entre religião e vida pública. Entretanto, a profundidade da resposta vai muito além disso. A palavra imagem remete imediatamente ao relato da criação. Em Gênesis 1,26-27, o ser humano é criado à imagem e semelhança de Deus. A moeda traz a imagem de César. Por isso pode ser devolvida a César. Mas o ser humano traz a imagem de Deus. Portanto, pertence inteiramente a Deus.

A pergunta verdadeira não é sobre a moeda. É sobre a pessoa humana. A moeda carrega o rosto do imperador. O pobre, o estrangeiro, a viúva, o órfão, a criança, o doente, o trabalhador explorado carregam a imagem do Criador. O que pertence a César é infinitamente menor do que aquilo que pertence a Deus. Jesus não legitima o absolutismo do Estado. Pelo contrário, relativiza todo poder político. César recebe apenas aquilo que é seu. Nada mais. Sua autoridade encontra limites. Nenhum governante pode reivindicar para si aquilo que pertence exclusivamente a Deus.

Aqui encontramos um dos fundamentos da crítica bíblica a toda forma de idolatria política. Os profetas já haviam denunciado reis que se colocavam acima da justiça divina. Amós condenou os que exploravam os pobres (Amós 5,11-12). Isaías denunciou governantes corruptos (Isaías 1,23). Miqueias criticou líderes que transformavam a justiça em mercadoria (Miqueias 3,11). Daniel descreveu os impérios humanos como feras que devoram povos e nações (Daniel 7). O Evangelho não autoriza a divinização do poder. Não permite que governos, partidos, líderes ou projetos ideológicos ocupem o lugar de Deus.

Ao longo da história, muitas vezes a religião foi instrumentalizada para legitimar sistemas de dominação. Reis foram apresentados como representantes exclusivos da vontade divina. Ditaduras buscaram apoio religioso para justificar perseguições. Movimentos nacionalistas transformaram símbolos religiosos em ferramentas de exclusão e violência. Quando a fé deixa de servir ao Reino de Deus para servir a projetos de poder, ela perde sua dimensão profética.

O próprio Jesus recusou esse caminho. Em João 6,15, rejeitou ser proclamado rei segundo as expectativas políticas da multidão. Em Mateus 4,8-10, recusou a oferta dos reinos do mundo apresentada pelo tentador. Seu Reino não se constrói pela força das armas nem pela imposição ideológica. Vivemos numa época marcada por profundas polarizações. Muitos grupos tentam capturar a linguagem religiosa para fortalecer projetos de poder. A fé transforma-se em bandeira ideológica. O Evangelho é reduzido a slogan político. Textos bíblicos são retirados de seu contexto para legitimar preconceitos, desigualdades e práticas autoritárias.

A tradição latino-americana tem refletido profundamente sobre esse problema. A Conferência de Medellín afirmou que a Igreja deve assumir compromisso concreto com a libertação dos pobres. Puebla aprofundou a noção da opção preferencial pelos pobres. Santo Domingo destacou a dignidade humana diante das novas formas de exclusão. Aparecida recordou que o discipulado missionário exige compromisso com a transformação da realidade social. Esses documentos não identificam o Evangelho com partidos políticos específicos. Porém insistem que a fé possui consequências sociais concretas. Não existe verdadeira espiritualidade cristã indiferente ao sofrimento humano.

O Concílio Vaticano II, especialmente na Constituição Pastoral Gaudium et Spes, ensina que as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias da humanidade são também as alegrias e esperanças, tristezas e angústias dos discípulos de Cristo. A Igreja não pode fechar-se numa espiritualidade desencarnada. Quando Jesus fala sobre César e Deus, ele não separa céu e terra. Ele estabelece uma hierarquia. Deus permanece acima de qualquer poder histórico.

Essa verdade torna-se particularmente importante diante das distorções promovidas por certas formas de teologia da prosperidade. Quando a bênção divina é reduzida ao sucesso econômico, a lógica do mercado ocupa o lugar da lógica do Reino. A cruz desaparece. A solidariedade perde espaço. Os pobres passam a ser vistos como culpados pela própria condição.

Jesus nasceu numa família simples (Lucas 2,24). Viveu entre trabalhadores da Galileia. Aproximou-se dos marginalizados. Declarou bem-aventurados os pobres (Lucas 6,20). Advertiu contra a idolatria das riquezas (Mateus 6,24). Morreu fora das muralhas da cidade, entre condenados. O Reino anunciado por Jesus não é medido pelo acúmulo de bens, mas pela prática da justiça, da misericórdia e da fraternidade. Quando ministros religiosos assumem posições de privilégio, superioridade ou domínio, contradizem diretamente o exemplo de Cristo. Em Marcos 10,42-45, Jesus afirma que os governantes das nações dominam seus povos, mas entre seus discípulos deve ser diferente. Quem deseja ser grande deve tornar-se servo.

A frase de Jesus sobre César e Deus convida a Igreja a permanecer livre diante dos poderes deste mundo:

  •  Livre para dialogar. 
  • Livre para colaborar na construção do bem comum. 
  • Livre para denunciar injustiças.
A missão profética da Igreja não consiste em conquistar o Estado. Consiste em testemunhar o Reino. Sob a perspectiva antropológica, esta passagem revela algo fundamental sobre a condição humana. Todo ser humano vive entre múltiplas pertenças. Pertence a uma família, a uma cultura, a uma nação, a instituições sociais. Contudo, nenhuma dessas pertenças esgota sua identidade.

A  imagem de Deus inscrita em cada pessoa confere dignidade inviolável. Nenhum governo pode conceder essa dignidade. Nenhum governo pode retirá-la. Por isso, toda forma de discriminação racial, econômica, cultural ou religiosa constitui uma afronta ao projeto criador de Deus. O texto também revela a tendência humana de buscar segurança em estruturas de poder. Muitas pessoas projetam em líderes políticos expectativas messiânicas. Esperam deles salvação, redenção ou sentido absoluto. 

Essa dinâmica produz idolatrias modernas. Quando um líder é transformado em objeto de devoção inquestionável, quando críticas tornam-se proibidas, quando a verdade é subordinada à lealdade ideológica, o espaço da fé autêntica é substituído pelo culto ao poder. Ele desloca o centro da confiança humana para Deus. A comparação com Mateus 22,15-22 e Lucas 20,20-26 revela aspectos interessantes. Mateus enfatiza a hipocrisia dos interlocutores. Lucas destaca a tentativa de entregar Jesus à autoridade romana. Marcos, por sua vez, preserva uma narrativa marcada pela admiração diante da sabedoria de Jesus. As diferenças redacionais mostram como cada evangelista ilumina dimensões específicas do mesmo acontecimento. Todos, porém, convergem numa mesma afirmação fundamental: Deus não pode ser instrumentalizado por interesses políticos.

A questão central permanece viva em cada  geração.O que pertence a César?

  • As estruturas administrativas, 
  • os mecanismos legítimos de organização social, 
  • as responsabilidades cívicas, 
  • os deveres da cidadania.

O que pertence a Deus?

  • Pertence a Deus o coração humano. 
  • Pertence a Deus a consciência. 
  • Pertence a Deus a dignidade da pessoa
  •  Pertence a Deus a vida. 
  • Pertence a Deus a história.

  1. Quando César pretende ocupar esse espaço, transforma-se em ídolo.
  2. Quando a religião legitima essa pretensão, transforma-se em idolatria.
  3. Quando a Igreja esquece os pobres para aproximar-se dos poderosos, perde sua credibilidade profética.
  4. Quando comunidades cristãs trocam o Evangelho pela busca de influência política, deixam de anunciar o Reino para administrar interesses.

A América Latina conhece profundamente essa tentação. Nossa história está marcada por desigualdades persistentes, concentração de riqueza, violência estrutural e exclusão social. Em muitos contextos, a linguagem religiosa foi utilizada para justificar privilégios e silenciar questionamentos. Entretanto, a tradição profética continua viva. Ela ecoa nas Comunidades Eclesiais de Base. Ecoa nos mártires da justiça. Ecoa nos agentes pastorais que servem silenciosamente nas periferias. Ecoa nos cristãos que defendem os direitos humanos. Ecoa nas mulheres e homens que recusam transformar a fé em instrumento de dominação.

O Evangelho de Marcos nos convida a reconhecer: 

  • Que a verdadeira soberania pertence somente a Deus.
  • Não ao mercado.
  • Não ao dinheiro.
  • Não ao nacionalismo.
  • Não ao clericalismo.
  • Não aos impérios antigos ou modernos.
  • Somente Deus é absoluto.

A própria imagem da moeda reaparece de maneira surpreendente em outra passagem do Evangelho. Em Lucas 15,8-10, Jesus fala da mulher que perde uma dracma e acende uma lâmpada, varre cuidadosamente a casa e procura até encontrá-la. problemada na quinta-feira da  31ª Semana do Tempo Comum. À primeira vista, trata-se apenas de uma pequena moeda extraviada. Contudo, à luz de Marcos 12,17, emerge um simbolismo mais profundo. Se a moeda do tributo traz a imagem de César e retorna a César, a moeda perdida pode ser vista como figura da humanidade que traz em si a imagem de Deus e que, mesmo perdida nos labirintos do pecado, da injustiça, da idolatria e da alienação, continua sendo preciosa aos olhos do seu Criador. A mulher que procura incansavelmente a moeda torna-se imagem do próprio Deus que não se conforma com a perda de nenhum de seus filhos. Enquanto os impérios procuram arrecadar moedas para sustentar seu poder, Deus procura pessoas para restaurar sua dignidade. Enquanto César reivindica aquilo que carrega sua efígie, Deus busca aquilo que traz sua imagem. A alegria da mulher que encontra a moeda perdida antecipa a alegria divina diante de cada ser humano reencontrado pela graça. Dessa forma, a moeda de Marcos 12 deixa de ser apenas um objeto de tributação e torna-se também um símbolo da identidade humana: fomos criados à imagem de Deus (Gênesis 1,26-27), podemos nos perder entre os poderes deste mundo, mas jamais deixamos de pertencer Àquele que nos procura com amor paciente até nos reencontrar.

Por isso, a resposta de Jesus permanece como uma das palavras mais profundas, libertadoras e revolucionárias de toda a Escritura. Ela impede que o Estado se transforme em divindade. Impede que a religião se torne serva dos impérios. Impede que o ser humano esqueça sua origem, sua vocação e seu destino. Ao mesmo tempo, revela que toda autoridade humana é relativa diante da soberania absoluta de Deus, pois "do Senhor é a terra e tudo o que nela existe" (Salmo 24,1), e "não há autoridade que não venha de Deus" (Romanos 13,1), embora toda autoridade seja continuamente julgada pelos critérios da justiça divina. A moeda retorna a César porque traz sua imagem. Mas o coração humano retorna a Deus porque traz inscrita a sua imagem desde o princípio da criação (Gênesis 1,26-27). O ser humano não é propriedade dos impérios, dos mercados, das ideologias nem dos sistemas religiosos. Pertence Àquele que o criou, o chamou pelo nome e o sustenta na existência. Como recorda o profeta Isaías: "Tu és precioso aos meus olhos, eu te amo" (Isaías 43,4). Por isso, toda vez que uma pessoa é humilhada, explorada ou descartada, é a própria imagem de Deus que está sendo profanada.

Quando o ser humano retorna a Deus, descobre que a verdadeira adoração não consiste apenas em palavras, ritos ou observâncias externas. Os profetas já haviam denunciado o vazio de uma religião separada da justiça. Amós proclamava: "Corra o direito como água e a justiça como um rio perene" (Amós 5,24). Isaías advertia que Deus rejeita cultos que convivem com a opressão dos pobres (Isaías 1,11-17). Miqueias sintetiza a vontade divina afirmando que o Senhor pede apenas que pratiquemos a justiça, amemos a misericórdia e caminhemos humildemente com Ele (Miqueias 6,8). Jesus retoma essa tradição ao afirmar que os mandamentos maiores são amar a Deus de todo o coração e amar o próximo como a si mesmo (Marcos 12,29-31). Ao final da narrativa, os adversários ficam admirados. O espanto nasce porque Jesus rompe as falsas alternativas apresentadas pelos poderes de seu tempo. Ele recusa tanto a submissão idolátrica ao império quanto o nacionalismo religioso que sonhava substituir uma dominação por outra. Seu horizonte é mais amplo. É o horizonte do Reino de Deus. Um Reino que não nasce da violência nem da imposição, mas da conversão do coração. Um Reino que cresce como semente lançada na terra (Marcos 4,26-29), como fermento escondido na massa (Mateus 13,33), como pequena semente de mostarda destinada a tornar-se grande árvore (Marcos 4,30-32).

Marcos 12,13-17 permanece, portanto, como um chamado permanente à conversão:. 

  • Conversão pessoal para que Deus ocupe verdadeiramente o centro de nossa existência. 
  • Conversão eclesial para que a Igreja seja sinal do Reino e não instrumento de interesses econômicos, ideológicos ou partidários. 
  • Conversão social para que as estruturas políticas, econômicas e culturais estejam a serviço da dignidade humana, especialmente dos pobres, dos excluídos e dos crucificados da história, nos quais Cristo continua presente (Mateus 25,31-46). 
Diante da moeda marcada pela imagem de César, Jesus aponta para uma realidade infinitamente maior. Diante do rosto humano marcado pela imagem de Deus, ele revela o valor sagrado de cada pessoa. Diante dos impérios que passam, dos sistemas que se sucedem e dos poderes que reivindicam para si a última palavra, ele anuncia silenciosamente aquilo que os profetas haviam esperado e que o Apocalipse proclamará com força: "O reino do mundo passou para o nosso Senhor e para o seu Cristo, e ele reinará pelos séculos dos séculos" (Apocalipse 11,15). A última palavra da história não pertence aos Césares. Não pertence aos mercados. Não pertence aos exércitos. Não pertence aos impérios religiosos nem aos impérios econômicos. A última palavra pertence ao Deus da vida, que ressuscitou Jesus dentre os mortos (Atos 2,24) e inaugurou uma nova criação (2 Coríntios 5,17). Por isso, a esperança cristã não se apoia na força dos poderosos, mas na fidelidade de Deus. O ser humano encontra sua plenitude não quando se ajoelha diante dos Césares da história, mas quando reconhece no Deus revelado por Jesus Cristo a fonte da justiça que restaura, da verdade que liberta (João 8,32), da misericórdia que cura, da fraternidade que reconcilia e da vida em abundância prometida a toda a humanidade (João 10,10). É nessa pertença radical a Deus que nasce a verdadeira liberdade. É nessa liberdade que floresce a dignidade humana. E é dessa dignidade que brota a coragem profética de viver, anunciar e testemunhar o Reino de Deus no coração da história.

DNonato - Teólogo do Cotidiano, mais  valioso  que uma moeda.

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Dissonância Coletiva: Entre a Fé e a Fake News

Já ouviu falar em dissonância cognitiva?


O conceito foi desenvolvido pelo psicólogo social Leon Festinger (1919–1989) para explicar um fenômeno profundamente humano: o desconforto mental provocado quando a realidade entra em choque com crenças, identidades ou convicções emocionais já consolidadas. Quando os fatos ameaçam aquilo em que alguém acredita, a reação nem sempre é rever a própria posição. Muitas vezes acontece exatamente o contrário. A mente cria mecanismos de defesa para preservar sua coerência interna. Negam-se evidências, reinterpretam-se acontecimentos, atacam-se fontes de informação ou fabricam-se narrativas paralelas capazes de proteger emocionalmente o indivíduo do peso de admitir o erro. A dissonância cognitiva não é simples ignorância, mas um mecanismo psicológico complexo envolvendo medo, orgulho, pertencimento social, identidade coletiva e autopreservação psíquica. Admitir que alguém foi enganado, manipulado ou que depositou esperança excessiva em líderes políticos pode significar enfrentar vergonha, humilhação pública, perda de pertencimento grupal e até crise de identidade. Por isso, frequentemente o cérebro prefere fabricar justificativas em vez de aceitar a realidade.

Festinger percebeu isso ao estudar um grupo religioso apocalíptico nos Estados Unidos nos anos 1950. O grupo acreditava que o mundo acabaria em determinada data. Quando nada aconteceu, o esperado seria o abandono da crença. Mas muitos seguidores ficaram ainda mais fanáticos. Criaram uma racionalização: disseram que sua fé havia salvado o planeta da destruição. A realidade foi reconstruída para preservar a crença. Décadas depois, estudos da psicologia cognitiva, da neurociência e da sociologia política continuam confirmando algo desconfortável: o ser humano não é tão racional quanto imagina.

Daniel Kahneman (1934–2024) demonstrou como nossas decisões frequentemente são guiadas por impulsos emocionais e atalhos mentais inconscientes. Erich Fromm (1900–1980) analisou como sociedades inseguras tendem a buscar líderes autoritários que ofereçam sensação de ordem e proteção. Hannah Arendt (1906–1975) alertou que regimes baseados em propaganda prosperam quando a população perde a capacidade de distinguir verdade objetiva de narrativa ideológica. Já Umberto Eco (1932–2016) observou que movimentos autoritários frequentemente sobrevivem alimentando medo, paranoia social, culto à tradição e fabricação permanente de inimigos.

Tudo isso ajuda a compreender o fenômeno do bolsonarismo no Brasil. O bolsonarismo não se estruturou apenas como corrente política. Tornou-se identidade emocional, comunidade tribal e, em certos setores, quase uma devoção simbólica. Para muitos seguidores, Jair Bolsonaro (presidente do Brasil: 2019–2022) deixou de ser apenas um governante e passou a ocupar o lugar de figura salvadora, representante do “bem” contra forças imaginadas como ameaça absoluta à nação, à família, à religião e à moral. A política deixou de ser, para muitos, espaço de debate racional e passou a funcionar quase como religião ideológica. Quando a política assume contornos religiosos, o pensamento crítico passa a ser tratado como heresia; a crítica vira perseguição; o contraditório transforma-se em conspiração; e o adversário deixa de ser apenas adversário para se tornar inimigo moral ou demonizado.

É nesse ambiente emocional que a dissonância cognitiva floresce. Durante quatro anos, dezenas de deputados, senadores e governadores ligados ao bolsonarismo foram eleitos pelas urnas eletrônicas. O sistema eleitoral era plenamente aceito enquanto produzia vitórias para o grupo. Mas, quando Bolsonaro perdeu a eleição presidencial, a mesma urna passou a ser chamada de fraudulenta. Ou seja: a eleição “vale” quando confirma a crença; quando contraria o líder, transforma-se em conspiração. A lógica racional entra em colapso porque a narrativa precisa ser protegida. Se o líder não venceu, então a realidade deve estar corrompida. Trata-se de um exemplo clássico de dissonância cognitiva e viés de confirmação: a tendência humana de aceitar apenas informações que reforçam crenças prévias e rejeitar evidências contrárias.

O mesmo mecanismo apareceu durante a pandemia de COVID-19 (2019–2023, fase crítica global). Mesmo diante de estudos científicos internacionais, milhões de mortes e evidências médicas robustas, setores radicalizados insistiram na ideia da “cura precoce” com Cloroquina e Ivermectina. A necessidade emocioonal de acreditar num líder “contra o sistema” tornou-se mais forte que a própria realidade científica. Admitir o erro significaria reconhecer que decisões equivocadas poderiam ter contribuído para sofrimento e mortes evitáveis. Para evitar essa dor moral, muitos preferiram desacreditar cientistas, universidades, jornalistas e instituições médicas. Em muitos discursos, criou-se uma inversão simbólica: enfatizavam-se casos isolados de recuperação como prova de eficácia, enquanto os números de mortes, estatísticas epidemiológicas e dados consolidados eram relativizados, contestados ou até demonizados, pedia para ver o numero de curados não de mortos. Esse fenômeno foi reforçado por narrativas emocionais e, em alguns contextos, até por apelos religiosos que interpretavam a doença como “prova espiritual” ou “guerra invisível”, deslocando o debate do campo científico para o campo da fé e da ideologia. O resultado foi uma fragmentação da percepção da realidade, onde dados objetivos passaram a disputar espaço com crenças, medo e identidade política. 

As fake news também revelam esse mecanismo psicológico coletivo. Narrativas absurdas como:

  •  “mamadeira erótica”
  •  “kit gay”
  • comunismo iminente
  • fraude vacinal
  • fechamento de igrejas
  •  globalismo
  • chips em vacinas
  • satanização de adversários políticos 
  • vídeos banais transformados em “provas” conspiratórias 

Tais  fatos  ganham  força porque não apelavam à razão, mas ao medo, ao ressentimento e à indignação emocional. A mentira funcionava não porque era lógica, mas porque reforçava a identidade do grupo. Compartilhar fake news passou a funcionar como demonstração pública de fidelidade ideológica. O grupo já não consumia informações para compreender a realidade, mas para reafirmar pertencimento tribal.

Nesse ambiente, até produtos cotidianos passaram a ser transformados em símbolos ideológicos. O caso da Ypê e até das Havaianas revelam isso de maneira quase caricatural. Detergentes e sandálias tornaram-se objetos de guerra cultural a partir de rumores e campanhas emocionais nas redes sociais. O consumo virou teste de fidelidade política. O absurdo passou a parecer normal dentro das bolhas digitais.

Outro exemplo de dissonância cognitiva apareceu no debate sobre a dosimetria das penas relacionadas aos ataques de 8 de janeiro de 2023. Muitos dos que defendiam endurecimento penal, prisão severa e frases como “bandido bom é bandido morto” passaram a relativizar crimes graves quando praticados por integrantes do próprio grupo político. O critério moral mudou conforme o lado envolvido. A lei deixou de ser princípio universal e passou a funcionar como instrumento de conveniência ideológica. O problema já não era o crime em si, mas quem o cometia. A sociologia política explica que movimentos autoritários frequentemente dependem desse tipo de dinâmica emocional. Fabricam inimigos permanentes, criam sensação contínua de perseguição, estimulam medo coletivo e transformam o líder em figura quase messiânica. A imprensa vira “inimiga”. Universidades tornam-se suspeitas. Professores passam a ser tratados como doutrinadores. A ciência é atacada quando contradiz a narrativa ideológica. O pensamento crítico transforma-se em ameaça.

As redes sociais aprofundaram drasticamente esse processo. Vivemos hoje dentro do capitalismo algorítmico da atenção. Plataformas digitais lucram com engajamento emocional. Medo, raiva, choque e indignação geram compartilhamentos, comentários e tempo de tela. O ódio tornou-se economicamente rentável. O algoritmo funciona como espelho deformado: devolve às pessoas não a realidade, mas aquilo que elas emocionalmente desejam enxergar. Quanto mais agressivo, absurdo ou conspiratório o conteúdo, maior tende a ser seu alcance. Criou-se uma verdadeira indústria da paranoia política. Influenciadores monetizam indignação. Canais lucram espalhando teorias conspiratórias. A mentira circula mais rápido que a verificação jornalística. Como alertava Hannah Arendt (1906–1975), o objetivo final da propaganda totalitária não é apenas convencer as pessoas de uma mentira específica, mas destruir sua confiança na possibilidade de existir verdade objetiva. 

Isso não acontece apenas no Brasil. Nos Estados Unidos, apoiadores de Donald Trump (presidente dos EUA: 2017–2021) continuaram acreditando em fraude eleitoral mesmo após auditorias, investigações e decisões judiciais demonstrarem ausência de provas consistentes. O ataque ao Capitólio dos Estados Unidos em janeiro de 2021 mostrou como narrativas conspiratórias podem gerar violência concreta. Na Europa, movimentos antivacina cresceram utilizando teorias conspiratórias sobre controle populacional, chips eletrônicos e manipulação genética. Durante o Brexit no Reino Unido (processo político principal: 2016–2020), campanhas emocionais baseadas em desinformação mobilizaram medo e ressentimento nacionalista. A história oferece exemplos ainda mais extremos. O fascismo europeu do século XX utilizou mecanismos semelhantes: manipulação do medo, nacionalismo performático, anti-intelectualismo e culto à personalidade. O nazismo na Alemanha (1933–1945) fabricou inimigos internos através de propaganda massiva. Em Ruanda (genocídio de 1994), rádios foram usadas para espalhar desumanização étnica antes do massacre. Na Coreia do Norte (fundada em 1948; regime dinástico até hoje), o culto à personalidade transforma líderes políticos em figuras quase divinas. Os contextos históricos são diferentes, mas os mecanismos psicológicos possuem semelhanças inquietantes: fabricação de inimigos, repetição contínua de propaganda, simplificação da realidade, culto ao líder, paranoia coletiva, manipulação emocional das massas e destruição da confiança nas instituições.

O Brasil possui ainda agravantes históricos próprios. Nossa formação social foi marcada por escravidão, autoritarismo, coronelismo, militarização política e tradição de personalismos messiânicos. O bolsonarismo não surgiu no vazio. Ele dialoga com uma cultura histórica marcada pela busca recorrente por “salvadores da pátria”, soluções autoritárias e desprezo estrutural pela reflexão crítica. Existe ainda um elemento religioso profundamente preocupante nesse processo. Parte do bolsonarismo instrumentalizou a fé cristã como ferramenta de poder político. O nome de Deus passou a ser usado para legitimar intolerância, violência verbal, culto às armas e demonização de adversários. Em muitos casos, a religião deixou de ser caminho de compaixão e justiça para se tornar identidade tribal e mecanismo de manipulação emocional.

Mas o Evangelho mostra Jesus Cristo (aprox. 4 a.C.–30/33 d.C.) fazendo exatamente o contrário. Jesus confrontava hipocrisias, denunciava manipulações religiosas e criticava líderes que usavam a fé para dominar consciências. Em Mateus 7,16, afirma: “pelos frutos os conhecereis”. Em João 8,32, declara: “a verdade vos libertará”. A verdade, no sentido evangélico, não serve para alimentar fanatismos; serve para libertar pessoas da mentira, da idolatria e da cegueira coletiva. O problema do Brasil não é apenas um político, um partido ou uma eleição. O problema surge quando a mentira vira método, quando o fanatismo substitui a consciência crítica e quando a identidade política passa a valer mais que a realidade. Nenhuma democracia sobrevive quando os fatos deixam de importar.

A sociedade brasileira está emocionalmente adoecida pela polarização, pela lógica permanente do ódio e pela industrialização da desinformação. Há famílias destruídas, amizades rompidas e comunidades religiosas contaminadas por paranoia ideológica. Muita gente vive em estado constante de medo, raiva e ressentimento alimentado diariamente por redes sociais e lideranças irresponsáveis. Uma sociedade que perde o compromisso com a verdade começa lentamente a perder também sua humanidade. Democracias raramente morrem apenas com tanques nas ruas. Elas também adoecem quando multidões passam a amar mais suas ilusões do que a realidade.

Cuidar da saúde mental hoje também significa reaprender algo que deveria ser básico em qualquer sociedade democrática: nenhum líder político merece devoção absoluta, nenhuma ideologia está acima da verdade e nenhuma paixão partidária pode substituir a realidade. Quando pessoas passam a defender um político como se fosse entidade sagrada, perdem gradualmente a capacidade de autocrítica. A consciência deixa de analisar fatos e passa apenas a proteger emocionalmente uma identidade coletiva. Nesse estágio, a verdade já não importa tanto; importa preservar o grupo, o líder e a narrativa. É aí que a política deixa de ser participação cidadã e começa a se transformar em fanatismo.

O episódio envolvendo a Ypê com a fiscalização  liderada pela prefeitura  local e  pela vigilância  sanitária  do estado  de São Paulo  com apoio da Anvisa,  tornou isso quase grotescamente simbólico onde devolto de uma ideologia simulam  ou bebem o produto. Em meio às guerras ideológicas das redes sociais, surgiram bolsonaristas consumindo produto de limpeza em vídeos e desafios absurdos para demonstrar fidelidade política e atacar supostos “inimigos”. O que deveria causar espanto coletivo passou a ser tratado por alguns como gesto de militância.  Isso revela algo profundamente preocupante: quando a identidade ideológica domina completamente o senso crítico, até o instinto básico de autopreservação pode ser afetado. O absurdo deixa de parecer absurdo dentro da bolha emocional. A pessoa já não reage racionalmente aos fatos, mas emocionalmente aos símbolos do grupo. É exatamente assim que a dissonância cognitiva opera em ambientes radicalizados: a realidade vai sendo lentamente substituída pela necessidade psicológica de pertencimento. O indivíduo passa a acreditar não naquilo que é verdadeiro, mas naquilo que o mantém emocionalmente integrado ao grupo. A mentira conforta; a verdade ameaça. As redes sociais aprofundam isso diariamente. O algoritmo premia indignação, paranoia e fanatismo porque essas emoções geram engajamento. Quanto mais extrema a reação, maior a circulação do conteúdo. Aos poucos, a sociedade vai naturalizando comportamentos irracionais, agressivos e perigosos. O espetáculo substitui a reflexão. O meme substitui o pensamento. O ódio substitui o diálogo.

Por isso, o problema não é apenas político. É humano, psicológico, espiritual e civilizacional. Uma sociedade emocionalmente adoecida perde a capacidade de distinguir convicção de fanatismo, crítica de perseguição, fé de idolatria, patriotismo de manipulação emocional. E quando isso acontece, abre-se espaço para líderes autoritários, propagandas simplificadoras e guerras culturais permanentes que destroem laços sociais, famílias e até comunidades religiosas. O Evangelho aponta noutra direção. nunca pediu devoção cega a poderes terrenos. Ao contrário: denunciou hipocrisias, confrontou manipulações religiosas e colocou a verdade acima do medo coletivo. “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8,32) continua sendo uma afirmação profundamente atual numa época marcada pela mentira industrializada e pelo fanatismo digital. Talvez um dos maiores desafios do nosso tempo seja justamente recuperar a coragem de encarar a realidade sem transformá-la em guerra ideológica. Aprender a mudar de opinião diante dos fatos não é fraqueza; é maturidade intelectual e honestidade moral. Reconhecer erros não destrói a dignidade humana; o fanatismo é que destrói.

Nenhum político salvará a sociedade brasileira sozinho. Nenhum partido substituirá consciência crítica. Nenhuma corrente ideológica pode ocupar o lugar da ética, da verdade e da humanidade. Uma democracia saudável depende de cidadãos capazes de pensar, questionar, dialogar e reconhecer limites, inclusive os próprios. Porque quando multidões passam a amar mais suas narrativas do que a realidade, o risco não é apenas político. É o adoecimento profundo da própria consciência coletiva.

DNonato - Graduado em História.

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