O episódio ocorre nos últimos dias da vida terrena de Jesus. Jerusalém vive uma tensão crescente. A cidade está cheia de peregrinos por ocasião da Páscoa. O domínio romano pesa sobre o povo. O Templo tornou-se o centro das disputas religiosas, econômicas e políticas. Jesus havia entrado em Jerusalém montado num jumentinho, gesto carregado de significado messiânico, conforme Zacarias 9,9. Em seguida, expulsara os vendedores do Templo, denunciando sua transformação em "covil de ladrões" (Marcos 11,17; Jeremias 7,11). Depois contou a parábola dos vinhateiros homicidas (Marcos 12,1-12), uma crítica severa às lideranças religiosas que haviam transformado a herança de Deus em propriedade privada.
É nesse ambiente de conflito crescente que surgem os fariseus e os herodianos. Marcos registra que eles foram enviados para apanhar Jesus em alguma palavra. O verbo utilizado sugere uma armadilha cuidadosamente preparada. Não se trata de busca sincera da verdade. O objetivo é eliminar Jesus.
A pergunta parece simples: "É lícito pagar imposto a César ou não?" (Marcos 12,14). Contudo, por trás dela existe uma armadilha mortal. Se Jesus respondesse que o imposto deveria ser pago, poderia ser acusado diante do povo de colaborar com a opressão romana. Se respondesse negativamente, poderia ser denunciado às autoridades imperiais como agitador político. O imposto mencionado era o tributo per capita exigido pelo Império Romano. Era símbolo visível da dominação estrangeira. Muitos judeus o consideravam uma afronta à soberania divina. Entre os zelotas, a recusa do imposto era uma forma de resistência nacionalista. Entre as elites colaboracionistas, o pagamento era aceito como necessidade política.
A genialidade da resposta de Jesus não consiste numa fuga diplomática. Consiste em revelar uma dimensão mais profunda da realidade. Ele pede uma moeda. A simples presença daquela moeda já denuncia uma contradição. Os próprios acusadores carregam consigo o símbolo econômico do império que dizem rejeitar. A moeda possuía a imagem do imperador Tibério e uma inscrição que o identificava como filho do divino Augusto. Para muitos judeus, aquilo se aproximava da idolatria. O segundo mandamento proibia imagens utilizadas para fins religiosos (Êxodo 20,4). O imperador reivindicava atributos que pertenciam somente a Deus.
Jesus pergunta: "De quem é esta imagem e inscrição?" Eles respondem: "De César". Então vem a frase que atravessou os séculos: "Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus" (Marcos 12,17).
Frequentemente essa frase foi utilizada para justificar separações simplistas entre religião e vida pública. Entretanto, a profundidade da resposta vai muito além disso. A palavra imagem remete imediatamente ao relato da criação. Em Gênesis 1,26-27, o ser humano é criado à imagem e semelhança de Deus. A moeda traz a imagem de César. Por isso pode ser devolvida a César. Mas o ser humano traz a imagem de Deus. Portanto, pertence inteiramente a Deus.
A pergunta verdadeira não é sobre a moeda. É sobre a pessoa humana. A moeda carrega o rosto do imperador. O pobre, o estrangeiro, a viúva, o órfão, a criança, o doente, o trabalhador explorado carregam a imagem do Criador. O que pertence a César é infinitamente menor do que aquilo que pertence a Deus. Jesus não legitima o absolutismo do Estado. Pelo contrário, relativiza todo poder político. César recebe apenas aquilo que é seu. Nada mais. Sua autoridade encontra limites. Nenhum governante pode reivindicar para si aquilo que pertence exclusivamente a Deus.
Aqui encontramos um dos fundamentos da crítica bíblica a toda forma de idolatria política. Os profetas já haviam denunciado reis que se colocavam acima da justiça divina. Amós condenou os que exploravam os pobres (Amós 5,11-12). Isaías denunciou governantes corruptos (Isaías 1,23). Miqueias criticou líderes que transformavam a justiça em mercadoria (Miqueias 3,11). Daniel descreveu os impérios humanos como feras que devoram povos e nações (Daniel 7). O Evangelho não autoriza a divinização do poder. Não permite que governos, partidos, líderes ou projetos ideológicos ocupem o lugar de Deus.
Ao longo da história, muitas vezes a religião foi instrumentalizada para legitimar sistemas de dominação. Reis foram apresentados como representantes exclusivos da vontade divina. Ditaduras buscaram apoio religioso para justificar perseguições. Movimentos nacionalistas transformaram símbolos religiosos em ferramentas de exclusão e violência. Quando a fé deixa de servir ao Reino de Deus para servir a projetos de poder, ela perde sua dimensão profética.
O próprio Jesus recusou esse caminho. Em João 6,15, rejeitou ser proclamado rei segundo as expectativas políticas da multidão. Em Mateus 4,8-10, recusou a oferta dos reinos do mundo apresentada pelo tentador. Seu Reino não se constrói pela força das armas nem pela imposição ideológica. Vivemos numa época marcada por profundas polarizações. Muitos grupos tentam capturar a linguagem religiosa para fortalecer projetos de poder. A fé transforma-se em bandeira ideológica. O Evangelho é reduzido a slogan político. Textos bíblicos são retirados de seu contexto para legitimar preconceitos, desigualdades e práticas autoritárias.
A tradição latino-americana tem refletido profundamente sobre esse problema. A Conferência de Medellín afirmou que a Igreja deve assumir compromisso concreto com a libertação dos pobres. Puebla aprofundou a noção da opção preferencial pelos pobres. Santo Domingo destacou a dignidade humana diante das novas formas de exclusão. Aparecida recordou que o discipulado missionário exige compromisso com a transformação da realidade social. Esses documentos não identificam o Evangelho com partidos políticos específicos. Porém insistem que a fé possui consequências sociais concretas. Não existe verdadeira espiritualidade cristã indiferente ao sofrimento humano.
O Concílio Vaticano II, especialmente na Constituição Pastoral Gaudium et Spes, ensina que as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias da humanidade são também as alegrias e esperanças, tristezas e angústias dos discípulos de Cristo. A Igreja não pode fechar-se numa espiritualidade desencarnada. Quando Jesus fala sobre César e Deus, ele não separa céu e terra. Ele estabelece uma hierarquia. Deus permanece acima de qualquer poder histórico.
Essa verdade torna-se particularmente importante diante das distorções promovidas por certas formas de teologia da prosperidade. Quando a bênção divina é reduzida ao sucesso econômico, a lógica do mercado ocupa o lugar da lógica do Reino. A cruz desaparece. A solidariedade perde espaço. Os pobres passam a ser vistos como culpados pela própria condição.
Jesus nasceu numa família simples (Lucas 2,24). Viveu entre trabalhadores da Galileia. Aproximou-se dos marginalizados. Declarou bem-aventurados os pobres (Lucas 6,20). Advertiu contra a idolatria das riquezas (Mateus 6,24). Morreu fora das muralhas da cidade, entre condenados. O Reino anunciado por Jesus não é medido pelo acúmulo de bens, mas pela prática da justiça, da misericórdia e da fraternidade. Quando ministros religiosos assumem posições de privilégio, superioridade ou domínio, contradizem diretamente o exemplo de Cristo. Em Marcos 10,42-45, Jesus afirma que os governantes das nações dominam seus povos, mas entre seus discípulos deve ser diferente. Quem deseja ser grande deve tornar-se servo.
A frase de Jesus sobre César e Deus convida a Igreja a permanecer livre diante dos poderes deste mundo:
- Livre para dialogar.
- Livre para colaborar na construção do bem comum.
- Livre para denunciar injustiças.
A imagem de Deus inscrita em cada pessoa confere dignidade inviolável. Nenhum governo pode conceder essa dignidade. Nenhum governo pode retirá-la. Por isso, toda forma de discriminação racial, econômica, cultural ou religiosa constitui uma afronta ao projeto criador de Deus. O texto também revela a tendência humana de buscar segurança em estruturas de poder. Muitas pessoas projetam em líderes políticos expectativas messiânicas. Esperam deles salvação, redenção ou sentido absoluto.
Essa dinâmica produz idolatrias modernas. Quando um líder é transformado em objeto de devoção inquestionável, quando críticas tornam-se proibidas, quando a verdade é subordinada à lealdade ideológica, o espaço da fé autêntica é substituído pelo culto ao poder. Ele desloca o centro da confiança humana para Deus. A comparação com Mateus 22,15-22 e Lucas 20,20-26 revela aspectos interessantes. Mateus enfatiza a hipocrisia dos interlocutores. Lucas destaca a tentativa de entregar Jesus à autoridade romana. Marcos, por sua vez, preserva uma narrativa marcada pela admiração diante da sabedoria de Jesus. As diferenças redacionais mostram como cada evangelista ilumina dimensões específicas do mesmo acontecimento. Todos, porém, convergem numa mesma afirmação fundamental: Deus não pode ser instrumentalizado por interesses políticos.
A questão central permanece viva em cada geração.O que pertence a César?
- As estruturas administrativas,
- os mecanismos legítimos de organização social,
- as responsabilidades cívicas,
- os deveres da cidadania.
O que pertence a Deus?
- Pertence a Deus o coração humano.
- Pertence a Deus a consciência.
- Pertence a Deus a dignidade da pessoa
- Pertence a Deus a vida.
- Pertence a Deus a história.
- Quando César pretende ocupar esse espaço, transforma-se em ídolo.
- Quando a religião legitima essa pretensão, transforma-se em idolatria.
- Quando a Igreja esquece os pobres para aproximar-se dos poderosos, perde sua credibilidade profética.
- Quando comunidades cristãs trocam o Evangelho pela busca de influência política, deixam de anunciar o Reino para administrar interesses.
A América Latina conhece profundamente essa tentação. Nossa história está marcada por desigualdades persistentes, concentração de riqueza, violência estrutural e exclusão social. Em muitos contextos, a linguagem religiosa foi utilizada para justificar privilégios e silenciar questionamentos. Entretanto, a tradição profética continua viva. Ela ecoa nas Comunidades Eclesiais de Base. Ecoa nos mártires da justiça. Ecoa nos agentes pastorais que servem silenciosamente nas periferias. Ecoa nos cristãos que defendem os direitos humanos. Ecoa nas mulheres e homens que recusam transformar a fé em instrumento de dominação.
O Evangelho de Marcos nos convida a reconhecer:
- Que a verdadeira soberania pertence somente a Deus.
- Não ao mercado.
- Não ao dinheiro.
- Não ao nacionalismo.
- Não ao clericalismo.
- Não aos impérios antigos ou modernos.
- Somente Deus é absoluto.
A própria imagem da moeda reaparece de maneira surpreendente em outra passagem do Evangelho. Em Lucas 15,8-10, Jesus fala da mulher que perde uma dracma e acende uma lâmpada, varre cuidadosamente a casa e procura até encontrá-la. problemada na quinta-feira da 31ª Semana do Tempo Comum. À primeira vista, trata-se apenas de uma pequena moeda extraviada. Contudo, à luz de Marcos 12,17, emerge um simbolismo mais profundo. Se a moeda do tributo traz a imagem de César e retorna a César, a moeda perdida pode ser vista como figura da humanidade que traz em si a imagem de Deus e que, mesmo perdida nos labirintos do pecado, da injustiça, da idolatria e da alienação, continua sendo preciosa aos olhos do seu Criador. A mulher que procura incansavelmente a moeda torna-se imagem do próprio Deus que não se conforma com a perda de nenhum de seus filhos. Enquanto os impérios procuram arrecadar moedas para sustentar seu poder, Deus procura pessoas para restaurar sua dignidade. Enquanto César reivindica aquilo que carrega sua efígie, Deus busca aquilo que traz sua imagem. A alegria da mulher que encontra a moeda perdida antecipa a alegria divina diante de cada ser humano reencontrado pela graça. Dessa forma, a moeda de Marcos 12 deixa de ser apenas um objeto de tributação e torna-se também um símbolo da identidade humana: fomos criados à imagem de Deus (Gênesis 1,26-27), podemos nos perder entre os poderes deste mundo, mas jamais deixamos de pertencer Àquele que nos procura com amor paciente até nos reencontrar.
Por isso, a resposta de Jesus permanece como uma das palavras mais profundas, libertadoras e revolucionárias de toda a Escritura. Ela impede que o Estado se transforme em divindade. Impede que a religião se torne serva dos impérios. Impede que o ser humano esqueça sua origem, sua vocação e seu destino. Ao mesmo tempo, revela que toda autoridade humana é relativa diante da soberania absoluta de Deus, pois "do Senhor é a terra e tudo o que nela existe" (Salmo 24,1), e "não há autoridade que não venha de Deus" (Romanos 13,1), embora toda autoridade seja continuamente julgada pelos critérios da justiça divina. A moeda retorna a César porque traz sua imagem. Mas o coração humano retorna a Deus porque traz inscrita a sua imagem desde o princípio da criação (Gênesis 1,26-27). O ser humano não é propriedade dos impérios, dos mercados, das ideologias nem dos sistemas religiosos. Pertence Àquele que o criou, o chamou pelo nome e o sustenta na existência. Como recorda o profeta Isaías: "Tu és precioso aos meus olhos, eu te amo" (Isaías 43,4). Por isso, toda vez que uma pessoa é humilhada, explorada ou descartada, é a própria imagem de Deus que está sendo profanada.
Quando o ser humano retorna a Deus, descobre que a verdadeira adoração não consiste apenas em palavras, ritos ou observâncias externas. Os profetas já haviam denunciado o vazio de uma religião separada da justiça. Amós proclamava: "Corra o direito como água e a justiça como um rio perene" (Amós 5,24). Isaías advertia que Deus rejeita cultos que convivem com a opressão dos pobres (Isaías 1,11-17). Miqueias sintetiza a vontade divina afirmando que o Senhor pede apenas que pratiquemos a justiça, amemos a misericórdia e caminhemos humildemente com Ele (Miqueias 6,8). Jesus retoma essa tradição ao afirmar que os mandamentos maiores são amar a Deus de todo o coração e amar o próximo como a si mesmo (Marcos 12,29-31). Ao final da narrativa, os adversários ficam admirados. O espanto nasce porque Jesus rompe as falsas alternativas apresentadas pelos poderes de seu tempo. Ele recusa tanto a submissão idolátrica ao império quanto o nacionalismo religioso que sonhava substituir uma dominação por outra. Seu horizonte é mais amplo. É o horizonte do Reino de Deus. Um Reino que não nasce da violência nem da imposição, mas da conversão do coração. Um Reino que cresce como semente lançada na terra (Marcos 4,26-29), como fermento escondido na massa (Mateus 13,33), como pequena semente de mostarda destinada a tornar-se grande árvore (Marcos 4,30-32).
Marcos 12,13-17 permanece, portanto, como um chamado permanente à conversão:.
- Conversão pessoal para que Deus ocupe verdadeiramente o centro de nossa existência.
- Conversão eclesial para que a Igreja seja sinal do Reino e não instrumento de interesses econômicos, ideológicos ou partidários.
- Conversão social para que as estruturas políticas, econômicas e culturais estejam a serviço da dignidade humana, especialmente dos pobres, dos excluídos e dos crucificados da história, nos quais Cristo continua presente (Mateus 25,31-46).


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