O 17⁰ Domingo do Tempo Comum, no Ano A, reúne um conjunto de leituras: 1Reis 3,5.7-12; Salmo 118(119),57.72.76-77.127-128.129-130 (R. 97a); Romanos 8,28-30; e Mateus 13,44-52. que convergem para um único horizonte teológico e espiritual. Não se trata de uma simples justaposição de textos escolhidos pela liturgia, mas de uma verdadeira pedagogia da Palavra, na qual o Antigo Testamento, o Salmo, a tradição apostólica e o Evangelho dialogam entre si, revelando progressivamente o mistério do Reino de Deus. Cada leitura ilumina a outra e todas encontram sua plenitude em Jesus Cristo, Sabedoria eterna do Pai, que convida seus discípulos a reconhecerem que o Reino possui um valor absoluto diante do qual todas as demais riquezas, poderes e seguranças perdem sua importância.
- A primeira leitura, 1 Reis 3,5.7-12, narra um dos momentos decisivos da história da monarquia israelita. Salomão acaba de assumir o trono de Davi e encontra-se consciente da enorme responsabilidade de governar um povo numeroso e marcado por profundas tensões políticas, sociais e religiosas. Em Gabaon, antigo centro cultual de Israel, Deus lhe concede a possibilidade de pedir aquilo que desejar. O jovem rei poderia solicitar aquilo que normalmente caracteriza os impérios da história, riqueza, expansão territorial, poder militar, longevidade ou a destruição de seus inimigos. Entretanto, surpreende ao pedir um "coração que sabe ouvir", expressão hebraica, lev shomea', que significa muito mais do que inteligência ou capacidade administrativa. Refere-se a uma consciência moldada pela escuta da Palavra, capaz de discernir entre o bem e o mal, de julgar com justiça e de colocar a vontade de Deus acima dos próprios interesses. A tradição bíblica compreende o coração não como sede exclusiva das emoções, mas como o centro da inteligência, da liberdade, da memória e das decisões humanas. Salomão pede, portanto, uma sabedoria que nasce da escuta obediente e não da acumulação de conhecimentos. Essa oração retoma o núcleo do Shema Israel, "Ouve, Israel" (Dt 6,4), fundamento da espiritualidade veterotestamentária. Antes de falar, governar ou decidir, o discípulo deve aprender a escutar. É precisamente essa disposição interior que permitirá reconhecer o verdadeiro tesouro quando ele se manifestar no campo da história. Sem um coração convertido, o Reino pode estar diante dos olhos e permanecer invisível.
- O Salmo 119(118),57.72.76-77.127-128.129-130 constitui a resposta orante da assembleia. O maior salmo da Bíblia inteira é um hino apaixonado à Torá, não compreendida como um código jurídico opressor, mas como manifestação da vontade amorosa de Deus. O salmista afirma que a Lei vale mais do que milhares de moedas de ouro e prata, porque ela comunica vida, sabedoria, liberdade e alegria. "Como eu amo a tua Lei!" (Sl 119,97) não é o entusiasmo de alguém fascinado por normas, mas a experiência de quem descobriu que a Palavra de Deus ilumina o caminho da existência, conforme o próprio salmo afirma em outro versículo: "Tua Palavra é lâmpada para os meus pés e luz para o meu caminho" (Sl 119,105). Essa profissão de fé prepara diretamente a compreensão das parábolas de Mateus. O tesouro escondido e a pérola preciosa não surgem isoladamente no Evangelho. Eles representam a plenitude daquilo que o Antigo Testamento já anunciava. A Palavra que o salmista ama torna-se carne em Jesus Cristo (Jo 1,14), e a sabedoria procurada por Salomão manifesta-se definitivamente naquele que é "maior do que Salomão" (Mt 12,42). O verdadeiro tesouro não consiste apenas na Lei escrita, mas na presença viva do Reino inaugurado pelo próprio Cristo.
- A segunda leitura, Romanos 8,28-30, amplia ainda mais esse horizonte ao situar o Reino dentro do grande projeto salvífico de Deus para toda a humanidade. Paulo escreve a uma comunidade marcada por dificuldades, perseguições e incertezas, recordando que Deus faz concorrer todas as coisas para o bem daqueles que o amam. Essa afirmação não significa que todo sofrimento seja querido por Deus, mas que nenhuma experiência humana, nem mesmo a dor, o fracasso ou a perseguição, pode impedir a realização de seu desígnio de amor. O apóstolo apresenta uma das sínteses mais profundas da teologia da graça ao afirmar que aqueles que Deus conheceu de antemão foram predestinados a serem conformes à imagem de seu Filho. O centro da vida cristã não consiste na obtenção de privilégios religiosos ou prosperidade material, mas na configuração existencial a Cristo. A finalidade última do Reino é restaurar no ser humano a imagem divina obscurecida pelo pecado, realizando aquilo que Gênesis 1,26-27 anunciava desde o princípio da criação. O Reino não apenas transforma circunstâncias exteriores, mas recria o próprio ser humano. Essa perspectiva paulina ilumina profundamente as parábolas de Mateus 13,44-52. O homem que vende tudo para adquirir o campo e o comerciante que entrega todos os seus bens para comprar a pérola não realizam um investimento econômico vantajoso. Respondem a uma descoberta que reorganiza completamente a existência. O encontro com o Reino redefine prioridades, rompe antigos critérios de sucesso e inaugura uma nova lógica de vida. Do mesmo modo, a rede lançada ao mar recorda que a história caminha para sua plenitude em Deus, quando toda a humanidade será julgada segundo a verdade e a justiça do Reino.
- Salomão ensina que somente um coração que escuta pode discernir o verdadeiro bem.
- O salmista proclama que esse bem encontra-se na Palavra de Deus, superior a toda riqueza terrestre.
- Paulo revela que essa Palavra conduz o ser humano à conformação com Cristo e à participação em seu projeto salvífico.
Mateus situa estas parábolas no encerramento do grande discurso parabólico iniciado em Mateus 13, depois da crescente oposição enfrentada por Jesus desde os capítulos anteriores. A rejeição dos fariseus, a incompreensão das multidões e até mesmo as dúvidas dos próprios discípulos formam o pano de fundo para a opção pedagógica de Jesus por falar em parábolas. Não se trata de esconder arbitrariamente a verdade, mas de revelar que a compreensão do Reino exige conversão interior. As parábolas iluminam aqueles que desejam ouvir e permanecem obscuras para quem endureceu o coração, em consonância com Isaías 6,9-10, citado em Mateus 13,14-15. O capítulo começa com a parábola do semeador, prossegue com o joio e o trigo, o grão de mostarda e o fermento, chegando finalmente ao tesouro escondido, à pérola preciosa, à rede lançada ao mar e ao escriba que se torna discípulo do Reino. Existe um movimento literário cuidadosamente elaborado. O Reino é inicialmente anunciado como semente aparentemente insignificante, cresce silenciosamente na história, enfrenta ambiguidades e resistências, manifesta seu valor absoluto e culmina no discernimento escatológico. Mateus organiza essas imagens para conduzir a comunidade cristã a compreender que o Reino não pode ser reduzido a uma experiência interior nem confundido com qualquer estrutura política ou religiosa.
O ambiente da Galileia do primeiro século, marcada pela dominação do Império Romano, pela exploração econômica, pela concentração fundiária, pela cobrança pesada de tributos e pelo sofrimento cotidiano dos camponeses. A Palestina conhecia profundas desigualdades sociais. Muitos pequenos agricultores perdiam suas terras em razão das dívidas, tornando-se trabalhadores diaristas.
A primeira parábola o tesouro escondido no campo não era uma fantasia distante. Em tempos de guerras, invasões e instabilidade, era prática comum esconder moedas, joias ou objetos valiosos em vasos enterrados na terra, esperando recuperá-los posteriormente. Muitas vezes seus proprietários morriam antes de retornar, tornando tais tesouros desconhecidos. A imagem utilizada por Jesus nasce exatamente dessa realidade histórica. Quando um trabalhador encontra o tesouro, vende tudo para adquirir aquele campo. O centro da parábola não é a legalidade da posse, questão frequentemente debatida pelos comentaristas antigos, mas a descoberta de algo cuja grandeza relativiza todos os demais bens. O Reino modifica radicalmente a escala de valores. Não se trata de acrescentar Deus à lista das prioridades humanas. Trata-se de reconhecer que todas as demais prioridades encontram seu verdadeiro lugar somente à luz do Reino.
A segunda parábola apresenta um comerciante especializado em pérolas. Diferentemente da primeira, aqui não existe surpresa, mas busca consciente. Enquanto um homem encontra inesperadamente o Reino, outro o procura durante toda a vida. Ambas as experiências permanecem atuais. Há quem descubra Deus em acontecimentos inesperados e há quem o procure através de um longo caminho espiritual, intelectual e existencial. Em ambos os casos, o resultado é o mesmo. O encontro verdadeiro exige entrega total. A pérola possuía extraordinário valor no mundo mediterrâneo. Antes do desenvolvimento das grandes rotas oceânicas, pérolas provenientes do Golfo Pérsico, do Mar Vermelho e do Oceano Índico eram consideradas símbolos máximos de riqueza. Jesus utiliza justamente o objeto mais precioso conhecido por seus ouvintes para afirmar que nenhuma riqueza material pode ser comparada ao Reino.
A terceira parábola desloca o olhar da decisão presente para o julgamento futuro. A rede lançada ao mar recolhe peixes de toda espécie. A imagem corresponde perfeitamente ao lago de Genesaré, onde a pesca constituía atividade fundamental da economia regional. Depois da pesca, os peixes eram separados conforme sua utilidade alimentar e conforme as prescrições de Levítico 11,9-12 acerca dos animais puros e impuros. A parábola recorda a do joio e do trigo do domingo anterior Mateus 13,24-43 no 16⁰ Domingo do Tempo Comum e volta com a explicação em Mateus 13,24-30 proclamado no 16º sabado do Tempo Comum explicada em Mateus 13,36-43. Em ambas, a separação definitiva pertence exclusivamente a Deus. Nenhuma comunidade possui autoridade para antecipar o julgamento escatológico. A Igreja anuncia, acolhe, evangeliza e corrige fraternalmente, mas não ocupa o lugar do Juiz da história. Sempre que comunidades religiosas se arrogam o direito de dividir definitivamente a humanidade entre salvos e condenados, traem precisamente o ensinamento que Jesus comunica nesta parábola.
A conclusão apresenta uma imagem singular. O escriba que se torna discípulo do Reino é semelhante ao pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e antigas. Mateus escreve para uma comunidade profundamente ligada ao judaísmo. O Evangelho não elimina o Antigo Testamento. Pelo contrário, realiza-o plenamente, conforme Mateus 5,17. O verdadeiro discípulo não rompe com a tradição, mas também não transforma a tradição em prisão. Conserva a memória enquanto permanece aberto à novidade permanente do Espírito Santo.
Os Evangelhos de Marcos e Lucas não preservam exatamente essas três parábolas.
- Marcos apresenta a semente que cresce sozinha em Marcos 4,26-29 e o grão de mostarda em Marcos 4,30-32
- Lucas conserva o grão de mostarda em Lucas 13,18-19 e o fermento em Lucas 13,20-21.
Nesse ponto emerge uma interpelação profundamente atual. O Reino anunciado por Jesus não pode ser instrumentalizado por projetos partidários, nacionalistas ou autoritários. Sempre que a religião se converte em mecanismo de conquista de poder, perde sua identidade profética. Os profetas denunciaram reis, sacerdotes e comerciantes quando transformavam a aliança em instrumento de exploração. Amós condenou aqueles que vendiam o justo por dinheiro e o pobre por um par de sandálias, conforme Amós 2,6. Isaías denunciou governantes que produziam leis injustas, conforme Isaías 10,1-2. Jeremias proclamou que o Templo não poderia servir como esconderijo de criminosos, conforme Jeremias 7,11. Jesus retomará essa tradição ao purificar o Templo em Mateus 21,12-13. Por isso, causa profunda preocupação quando parcelas do cristianismo identificam o Reino de Deus com projetos de dominação cultural, econômica ou política. A chamada teologia da prosperidade transforma a graça em mercadoria e faz da fé um investimento financeiro. A teologia do domínio pretende substituir o serviço evangélico pela conquista de espaços de poder. Ambas contradizem frontalmente aquele que vende tudo para adquirir o Reino, pois nelas o Reino deixa de ser o tesouro para tornar-se instrumento destinado à obtenção de outros tesouros.
Também o clericalismo representa grave deformação do Evangelho. O Papa Francisco, na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, denuncia uma Igreja autorreferencial incapaz de sair ao encontro das periferias. Em diversos pronunciamentos e especialmente na Carta ao Povo de Deus de 2018, identifica o clericalismo como uma das raízes dos abusos e das distorções da missão eclesial. O Concílio Vaticano II, especialmente em Lumen Gentium e Gaudium et Spes, recorda que toda a Igreja participa da missão de Cristo e que a dignidade batismal antecede qualquer ministério. O Documento de Aparecida reafirma que todos os batizados são discípulos missionários chamados a transformar a realidade segundo os valores do Reino. A Conferência de Medellín denunciou as estruturas de pecado presentes na América Latina, enquanto Puebla aprofundou a opção preferencial pelos pobres como expressão concreta da fidelidade ao Evangelho. A CNBB, em numerosos documentos pastorais, insiste que evangelização e promoção da dignidade humana constituem dimensões inseparáveis da missão da Igreja. O Reino também desafia as formas contemporâneas de manipulação religiosa associadas a discursos de ódio, exclusão e intolerância. Quando símbolos cristãos são utilizados para justificar racismo, xenofobia, misoginia, violência política ou projetos autoritários, ocorre uma inversão dramática da mensagem de Cristo. Jesus nunca legitimou a violência como caminho para instaurar o Reino. Sua autoridade manifesta-se no serviço, conforme Mateus 20,25-28. Sua vitória realiza-se na cruz, conforme Filipenses 2,5-11. Seu poder revela-se na misericórdia e no perdão.
O Evangelho pergunta:
Qual é realmente o tesouro que governa nossa vida?
Para alguns, será o dinheiro, para outros, o prestígio, o consumo, a identidade ideológica, o sucesso profissional ou a aprovação social. A psicologia confirma que o ser humano inevitavelmente constrói sua identidade em torno daquilo que considera absoluto. Quando esse absoluto é frágil, toda a personalidade torna-se vulnerável. Jesus propõe um fundamento que não pode ser destruído pelas crises da história. Vale a pena observa que as comunidades religiosas podem tanto promover libertação quanto legitimar mecanismos de dominação. O Evangelho de Mateus convida permanentemente ao discernimento:
- Nem toda linguagem religiosa corresponde ao Reino.
- Nem toda liderança espiritual conduz à vida.
- Nem todo crescimento institucional representa fidelidade ao Evangelho.
No final da perícope, Jesus pergunta aos discípulos se compreenderam essas coisas. Eles respondem afirmativamente. Entretanto, todo o restante do Evangelho demonstrará que essa compreensão ainda é parcial. Também nós frequentemente afirmamos compreender o Evangelho, mas continuamos organizando nossa vida segundo critérios opostos ao Reino. A verdadeira compreensão não acontece quando acumulamos conhecimento religioso, mas quando nossa existência inteira se torna expressão concreta da lógica das Bem Aventuranças, conforme Mateus 5,1-12. A liturgia deste domingo convida a Igreja a pedir, como Salomão, um coração que saiba escutar. Convida-nos a descobrir, como o agricultor e o comerciante, que existe um bem pelo qual vale a pena entregar tudo. Convida-nos a viver, como Paulo, a confiança de que Deus conduz a história para sua plenitude em Cristo. Convida-nos finalmente a reconhecer que a Igreja existe para anunciar esse Reino e nunca para substituí-lo por interesses institucionais, ideológicos ou econômicos.
Enquanto houver pobres tratados como descartáveis, trabalhadores explorados, povos privados de sua dignidade, mulheres violentadas, crianças privadas de seus direitos, idosos abandonados, migrantes rejeitados, povos originários ameaçados e comunidades reduzidas à condição de massa de manobra por interesses religiosos, econômicos ou político-partidários, continuará ressoando, com toda a sua força, o apelo profético das parábolas do Reino. O tesouro escondido de que fala Jesus não é uma religião triunfalista, fechada sobre si mesma ou seduzida pelos privilégios do poder, mas a presença transformadora de Deus que restaura a dignidade humana e inaugura uma nova forma de viver as relações. A pérola de valor inestimável não é a vitória de uma ideologia, de uma nação, de uma confissão religiosa ou de um grupo sobre os demais, mas a comunhão universal que nasce da cruz e da ressurreição de Cristo, reconciliando todas as coisas com o Pai, como proclama Paulo em Colossenses 1,19-20. A rede lançada ao mar não existe para capturar consciências, alimentar fanatismos ou produzir submissão, mas para anunciar que a misericórdia de Deus permanece aberta a todos os povos e que o julgamento definitivo pertence somente ao Senhor da história. Por isso, a Igreja somente será fiel ao Evangelho se permanecer pobre com os pobres, livre diante de toda sedução do poder, corajosa na denúncia da injustiça, humilde no exercício de sua autoridade, misericordiosa com os pecadores, firme na defesa da vida e inteiramente obediente à Palavra de Deus. Seu maior tesouro jamais será seu prestígio social, sua influência política, seu patrimônio ou suas estruturas, mas o Cristo crucificado e ressuscitado, presente na Palavra, na Eucaristia e, de modo inseparável, na carne sofrida dos pobres, conforme Mateus 25,31-46. É somente permanecendo discípula do Reino que a Igreja continuará sendo, no coração da história, sinal da esperança que não decepciona, sacramento da reconciliação, voz profética diante das estruturas de pecado e testemunha da alegria do Evangelho. Quem encontra esse tesouro já não vive para acumular poder, riquezas ou honrarias, mas para fazer da própria existência um reflexo do Reino de Deus, antecipando, no tempo presente, os sinais da nova criação que encontrará sua plenitude quando Deus for tudo em todos, conforme 1 Coríntios 15,28.
DNonato - Teólogo do Cotidiano

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