domingo, 26 de julho de 2026

Um breve olhar em Mateus 13, 31-35


 Na liturgia da segunda-feira da 17ª semana do  
Tempo Comum temos o texto de Mateus 13, 31-35, que   já  refletimos  outras  vezes  em 2020  e 2023  o texto faz parte do Evangelho  do 16º Domingo do Tempo Comum do Ano A Mateus 13, 24-43  que refletimos  em 20202023   em nosso canal do YouTube,  convidamos você  para assistir  a Reflexão: Boa Nova de Jesus Cristo segundo São Mateus 13,31-35.
A Igreja nos convida a mergulhar nas paráb0ol convoas breves, mas teologicamente vastas, em que Jesus fala do Reino de Deus com imagens de uma simplicidade desconcertante: a semente de mostarda e o fermento na massa (Mt 13,31-35). À primeira vista, são figuras domésticas, retiradas do cotidiano das aldeias agrícolas da Galileia. Contudo, nelas se revela o núcleo da pedagogia divina, a lógica da fé e a crítica radical às estruturas de poder, de religiosidade e de dominação que reduzem o sagrado à aparência ou ao espetáculo. Jesus fala de um Reino que não se impõe por força, mas se oferece por presença. Ele rompe com a lógica dos reinos humanos,  sejam os impérios de César, sejam as idolatrias contemporâneas do mercado e da vaidade espiritual e anuncia um Reino que germina no invisível, cresce em silêncio e transforma o mundo a partir de dentro.

A parábola do grão de mostarda introduz essa pedagogia do pequeno. “O Reino dos Céus é como um grão de mostarda que um homem semeou em seu campo. É a menor de todas as sementes, mas, quando cresce, torna-se a maior das hortaliças e faz-se árvore, de modo que as aves do céu vêm fazer ninhos em seus ramos” (Mt 13,31-32). No contexto agrícola do século I, a mostarda era uma planta de crescimento rápido e imprevisível, frequentemente vista como erva daninha. Jesus inverte a expectativa: aquilo que o senso comum despreza é o que contém o potencial de abrigar vida, acolher os pássaros, dar sombra, a menor semente torna-se abrigo, hospitalidade e espaço de comunhão. No horizonte bíblico, as aves do céu evocam a universalidade das nações (cf. Ez 17,22-24; Dn 4,12), indicando que o Reino acolhe todos, sem discriminação de origem, poder ou mérito.

Essa parábola é uma resposta às expectativas messiânicas nacionalistas. O povo esperava um Messias guerreiro, um libertador político que restaurasse a glória de Israel pela força. Jesus, ao contrário, revela que o Reino não é espetáculo de poder, mas processo de transformação silenciosa. Sua linguagem ressoa em outros textos sinóticos: Marcos 4,30-32 e Lucas 13,18-19 reiteram a mesma imagem, mas com nuances próprias. Marcos sublinha a surpresa — “cresce e se torna maior do que todas as hortaliças”, enquanto Lucas destaca a hospitalidade “as aves do céu habitam nos seus ramos”. A tradição sinótica inteira converge na ideia de que a ação divina opera por meio do mínimo, do vulnerável, do que o mundo despreza. É a inversão teológica do critério humano de grandeza: Deus se revela na fragilidade.

O mesmo princípio é reforçado pela segunda parábola: “O Reino dos Céus é como o fermento que uma mulher tomou e misturou com três medidas de farinha, até que tudo ficasse levedado” (Mt 13,33). O fermento, na cultura judaica, possuía uma ambiguidade simbólica. Era associado, em alguns contextos, à corrupção (cf. Mt 16,6; 1Cor 5,6-8), mas aqui assume sentido positivo: uma força interior que transforma a massa de dentro para fora. O gesto da mulher invisível, cotidiano, silencioso,  torna-se imagem da ação divina no mundo. Ela mistura o fermento até que tudo seja transformado. O verbo usado, “misturar” (gr. enkrypto), tem conotação de esconder, sugerindo que o Reino age de modo oculto, quase imperceptível, mas eficaz. A presença feminina nessa parábola é igualmente significativa: Deus é simbolizado em gestos domésticos, maternos, cuidadosos. A mulher anônima é figura da sabedoria divina que age sem barulho, e sua ação aponta para a dimensão encarnada, artesanal e relacional do Reino.

As  imagens da parábola  nos convida a compreender que Jesus fala não de um projeto ideológico, mas de um processo histórico e espiritual. A semente e o fermento expressam o modo de agir de Deus: discreto, paciente e radicalmente transformador. O Reino não se identifica com impérios, com sistemas de poder religioso, nem com utopias autorreferenciais. Ele cresce no meio do mundo, mas não segundo os critérios do mundo. Santo Agostinho, em seu Sermão 101, observa que “Deus começa pelo que é pequeno para nos ensinar a humildade, e termina na plenitude para nos revelar a glória”. São Gregório Magno, em suas Homilias sobre os Evangelhos, acrescenta que “quem despreza as pequenas virtudes impede que cresçam as grandes”, lembrando que o Reino é tecido de gestos simples,  o perdão, a escuta, o cuidado e não de façanhas espetaculares.  Essa pedagogia do pequeno tem profundas implicações antropológicas e sociais. Em termos psicológicos, a semente e o fermento representam os processos internos de amadurecimento humano. A psique não se transforma por imposição, mas por cultivo paciente. O autoconhecimento, a cura e a santidade exigem o tempo da germinação, o silêncio do crescimento subterrâneo. A fé não é fuga da realidade, mas fermento que a transforma. A maturidade espiritual nasce do enfrentamento das próprias sombras, da integração dos opostos, da reconciliação entre o visível e o invisível. A parábola, assim, também fala da interioridade: o Reino é como um processo psicológico em que o amor e a graça vão transfigurando o interior até que toda a “massa” da vida seja levedada.

A  imagem do fermento sugere uma crítica às estruturas dominantes. O fermento age de baixo, invisivelmente, transformando a totalidade. É o símbolo das revoluções silenciosas, das mudanças que começam nos corações e se espalham pela convivência, pela solidariedade e pela justiça cotidiana. O Reino de Deus, portanto, não se impõe pelas armas, pelo poder econômico ou pela manipulação da fé; ele se propaga na prática concreta do amor. Nesse sentido, a parábola denuncia as formas religiosas e políticas que se apropriam do nome de Deus para controlar, enriquecer ou dominar. A teologia da prosperidade e a teologia do domínio são distorções do Evangelho porque reduzem o Reino à lógica do sucesso e do poder, esquecendo que a força divina se manifesta na fraqueza (cf. 2Cor 12,9). O Reino é fermento que liberta, não estrutura que oprime.

A fé autêntica é sempre comunhão. Paulo, em 1Coríntios 1,27-29, recorda que “Deus escolheu o que é fraco para confundir os fortes, o que é pequeno para confundir os grandes”. É a mesma lógica das parábolas: a força da fraqueza. No contexto contemporâneo, essa mensagem confronta o individualismo religioso que transforma a fé em produto de consumo, em busca de conforto e status espiritual. O Reino, ao contrário, é um projeto coletivo, uma teia de solidariedades, um caminho de comunhão e justiça. Tiago insiste: “A religião pura consiste em cuidar dos órfãos e das viúvas” (Tg 1,27). Essa é a tradução prática da parábola do fermento: uma fé que leveda a sociedade, que humaniza as relações e que transforma estruturas de exclusão.

Na perspectiva filosófica, o fermento e a semente podem ser lidos como metáforas do ethos da esperança. Hannah Arendt falava da “natalidade” como capacidade humana de começar de novo; o Reino é o eterno nascimento de possibilidades novas dentro da história. Paul Ricoeur descreve a esperança como “a força que não nega o mal, mas aposta na fecundidade do bem”. Assim é o Reino: uma aposta paciente na fecundidade da graça, mesmo em meio à injustiça. Ele cresce em silêncio, mas nunca é passivo. A espera evangélica não é resignação; é resistência. É o cultivo do bem em meio ao caos, a insistência no amor em meio à indiferença.Teologicamente, essas parábolas revelam o coração da cristologia de Mateus. Jesus é o Semeador e o próprio grão que cai na terra e morre para dar fruto (cf. Jo 12,24). Ele é o fermento que se mistura na massa da humanidade, assumindo nossa carne, nossa história e nossa dor. O mistério pascal é a expressão máxima dessa pedagogia: da pequenez da cruz brota a plenitude da ressurreição. O Reino é o próprio Cristo atuando na história através da comunidade dos discípulos, que são chamados a ser semente e fermento. Por isso, Mateus conclui dizendo que “Jesus só lhes falava por parábolas, para se cumprir o que fora dito pelo profeta: abrirei a boca em parábolas, proclamarei coisas escondidas desde a criação” (Mt 13,35). O Evangelista cita o Salmo 78,2, interpretando Jesus como aquele que revela os mistérios ocultos do agir divino na história.

O Império Romano no primeiro  século  era o paradigma da grandiosidade e da força, as estruturas religiosas do Templo também se tornaram expressão de poder e segregação. Falar de um Reino que nasce de uma semente ou de um punhado de fermento era um escândalo. Era uma provocação contra o sistema, uma subversão das expectativas sociais e religiosas. O discurso de Jesus é, portanto, político e espiritual ao mesmo tempo. Ele propõe uma revolução da ternura, como diria o Papa Francisco: a mudança começa no detalhe, no gesto, no cuidado. A Evangelii Gaudium (n. 222) ensina que “o tempo é superior ao espaço”, indicando que o Reino cresce no tempo da paciência, não na conquista de territórios. E a Fratelli Tutti (n. 180) lembra que “a caridade política é a forma mais alta da caridade”, pois a fé autêntica tem implicações sociais concretas.

 Orígenes via na semente a Palavra de Deus que deve germinar no coração, São João Crisóstomo ensinava que o fermento representa o Espírito Santo, que transforma a comunidade desde dentro e Santa Teresinha do Menino Jesus viveu radicalmente essa pedagogia do pequeno: “Quero ser o amor no coração da Igreja”, dizia, mostrando que o Reino floresce nos gestos invisíveis, nas orações escondidas, nas fidelidades silenciosas.

Essa espiritualidade do pequeno é o antídoto contra o clericalismo, que transforma o serviço em prestígio e o ministério em poder. O clericalismo mata o fermento, porque cristaliza a fé em hierarquia e vaidade. O Evangelho de Mateus nos convida a uma Igreja fermento, não a uma Igreja monumental. Uma Igreja que se mistura à massa da humanidade, que age com ternura, justiça e proximidade. A Gaudium et Spes (n. 63-66) reforça essa dimensão social da fé, lembrando que a Igreja deve ser sinal e instrumento de unidade do gênero humano, comprometida com a dignidade, o trabalho e a justiça.

O Reino, assim, é um movimento contínuo de encarnação. Ele se manifesta na educação que liberta, na ciência que serve à vida, na arte que desperta, na política que busca o bem comum. É a presença do divino no cotidiano. Ser fermento significa fazer da própria vida um lugar de transformação: nas salas de aula, nos hospitais, nas favelas, nas fábricas, nos lares. Ser semente é confiar que cada gesto de amor, por menor que pareça, tem potencial de eternidade.

O mundo contemporâneo, seduzido pela lógica da velocidade, do espetáculo e da aparência, precisa reaprender a sabedoria da semente e a força silenciosa do fermento. O Reino de Deus não nasce do marketing religioso, nem se sustenta pelo poder, pelo prestígio ou pela imposição. Ele germina no escondimento, cresce na fidelidade e transforma a história a partir do interior. Enquanto os impérios erguem monumentos à própria grandeza e acabam reduzidos às ruínas da memória, a pequena semente continua rompendo a terra e anunciando que a vida é mais forte que o poder. Enquanto multidões se deixam seduzir pelo barulho das ideologias, do consumismo e de uma religiosidade vazia, o fermento do Evangelho continua agindo silenciosamente, levedando a massa da humanidade. Esta é a lógica desconcertante do Reino: Deus prefere os pequenos começos às grandes aparências, a fidelidade escondida aos triunfos passageiros, a cruz aos aplausos. Por isso, permanece atual a exortação do profeta: "Não desprezeis os pequenos começos" (Zc 4,10). E permanece viva a esperança proclamada por Paulo: "Aquele que começou em vós a boa obra há de levá-la à perfeição até o dia de Cristo Jesus" (Fl 1,6).

A parábola de Jesus é também um julgamento sobre o nosso tempo. Ela denuncia toda pretensão de construir o Reino pela força, pelo clericalismo, pelo autoritarismo ou pelo fascínio dos números. O Reino não se mede por estatísticas, mas pela capacidade de gerar vida, justiça, misericórdia e comunhão. Onde um coração se converte, uma ferida é curada, um pobre recupera a dignidade, um excluído encontra acolhida e a verdade vence a mentira, ali o Reino já está crescendo..Que ninguém despreze aquilo que Deus faz no silêncio. A semente lançada por Cristo jamais deixará de produzir fruto, e o fermento do Evangelho jamais perderá sua força. Deus continua misturando sua graça na massa da humanidade e nenhuma potência deste mundo poderá impedir a colheita que Ele mesmo preparou. O Reino cresce, muitas vezes sem alarde, mas com a certeza de que a última palavra da história não será da violência, da injustiça nem da morte. A última palavra pertence ao Deus da Vida, cujo Reino já está entre nós e um dia se manifestará em plenitude.

DNonato – Teólogo do Cotidiano

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