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segunda-feira, 1 de junho de 2026

Um breve olhar sobre Marcos 12,13-17.

A perícope de Marcos 12,13-17 é proclamada na liturgia da Igreja Católica Romana no Tempo Comum, particularmente na terça-feira da nona semana do Tempo Comum no ano par. Seus paralelos em Mateus 22,15-22 proclamado no 29º Domingo do Tempo Comum (Ano A) e Lucas 20,20-26. Nas Igrejas históricas, como as tradições Ortodoxas, Anglicanas, Luteranas e Reformadas, esta passagem integra igualmente os lecionários que percorrem a vida pública de Jesus, sendo reconhecida como um dos textos fundamentais para a compreensão da relação entre fé, poder, consciência e responsabilidade humana diante de Deus e da sociedade.

O episódio ocorre nos últimos dias da vida terrena de Jesus. Jerusalém vive uma tensão crescente. A cidade está cheia de peregrinos por ocasião da Páscoa. O domínio romano pesa sobre o povo. O Templo tornou-se o centro das disputas religiosas, econômicas e políticas. Jesus havia entrado em Jerusalém montado num jumentinho, gesto carregado de significado messiânico, conforme Zacarias 9,9. Em seguida, expulsara os vendedores do Templo, denunciando sua transformação em "covil de ladrões" (Marcos 11,17; Jeremias 7,11). Depois contou a parábola dos vinhateiros homicidas (Marcos 12,1-12), uma crítica severa às lideranças religiosas que haviam transformado a herança de Deus em propriedade privada.

É nesse ambiente de conflito crescente que surgem os fariseus e os herodianos. Marcos registra que eles foram enviados para apanhar Jesus em alguma palavra. O verbo utilizado sugere uma armadilha cuidadosamente preparada. Não se trata de busca sincera da verdade. O objetivo é eliminar Jesus.

A pergunta parece simples: "É lícito pagar imposto a César ou não?" (Marcos 12,14). Contudo, por trás dela existe uma armadilha mortal. Se Jesus respondesse que o imposto deveria ser pago, poderia ser acusado diante do povo de colaborar com a opressão romana. Se respondesse negativamente, poderia ser denunciado às autoridades imperiais como agitador político. O imposto mencionado era o tributo per capita exigido pelo Império Romano. Era símbolo visível da dominação estrangeira. Muitos judeus o consideravam uma afronta à soberania divina. Entre os zelotas, a recusa do imposto era uma forma de resistência nacionalista. Entre as elites colaboracionistas, o pagamento era aceito como necessidade política.

A genialidade da resposta de Jesus não consiste numa fuga diplomática. Consiste em revelar uma dimensão mais profunda da realidade. Ele pede uma moeda. A simples presença daquela moeda já denuncia uma contradição. Os próprios acusadores carregam consigo o símbolo econômico do império que dizem rejeitar. A moeda possuía a imagem do imperador Tibério e uma inscrição que o identificava como filho do divino Augusto. Para muitos judeus, aquilo se aproximava da idolatria. O segundo mandamento proibia imagens utilizadas para fins religiosos (Êxodo 20,4). O imperador reivindicava atributos que pertenciam somente a Deus.

Jesus pergunta: "De quem é esta imagem e inscrição?" Eles respondem: "De César". Então vem a frase que atravessou os séculos: "Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus" (Marcos 12,17).

Frequentemente essa frase foi utilizada para justificar separações simplistas entre religião e vida pública. Entretanto, a profundidade da resposta vai muito além disso. A palavra imagem remete imediatamente ao relato da criação. Em Gênesis 1,26-27, o ser humano é criado à imagem e semelhança de Deus. A moeda traz a imagem de César. Por isso pode ser devolvida a César. Mas o ser humano traz a imagem de Deus. Portanto, pertence inteiramente a Deus.

A pergunta verdadeira não é sobre a moeda. É sobre a pessoa humana. A moeda carrega o rosto do imperador. O pobre, o estrangeiro, a viúva, o órfão, a criança, o doente, o trabalhador explorado carregam a imagem do Criador. O que pertence a César é infinitamente menor do que aquilo que pertence a Deus. Jesus não legitima o absolutismo do Estado. Pelo contrário, relativiza todo poder político. César recebe apenas aquilo que é seu. Nada mais. Sua autoridade encontra limites. Nenhum governante pode reivindicar para si aquilo que pertence exclusivamente a Deus.

Aqui encontramos um dos fundamentos da crítica bíblica a toda forma de idolatria política. Os profetas já haviam denunciado reis que se colocavam acima da justiça divina. Amós condenou os que exploravam os pobres (Amós 5,11-12). Isaías denunciou governantes corruptos (Isaías 1,23). Miqueias criticou líderes que transformavam a justiça em mercadoria (Miqueias 3,11). Daniel descreveu os impérios humanos como feras que devoram povos e nações (Daniel 7). O Evangelho não autoriza a divinização do poder. Não permite que governos, partidos, líderes ou projetos ideológicos ocupem o lugar de Deus.

Ao longo da história, muitas vezes a religião foi instrumentalizada para legitimar sistemas de dominação. Reis foram apresentados como representantes exclusivos da vontade divina. Ditaduras buscaram apoio religioso para justificar perseguições. Movimentos nacionalistas transformaram símbolos religiosos em ferramentas de exclusão e violência. Quando a fé deixa de servir ao Reino de Deus para servir a projetos de poder, ela perde sua dimensão profética.

O próprio Jesus recusou esse caminho. Em João 6,15, rejeitou ser proclamado rei segundo as expectativas políticas da multidão. Em Mateus 4,8-10, recusou a oferta dos reinos do mundo apresentada pelo tentador. Seu Reino não se constrói pela força das armas nem pela imposição ideológica. Vivemos numa época marcada por profundas polarizações. Muitos grupos tentam capturar a linguagem religiosa para fortalecer projetos de poder. A fé transforma-se em bandeira ideológica. O Evangelho é reduzido a slogan político. Textos bíblicos são retirados de seu contexto para legitimar preconceitos, desigualdades e práticas autoritárias.

A tradição latino-americana tem refletido profundamente sobre esse problema. A Conferência de Medellín afirmou que a Igreja deve assumir compromisso concreto com a libertação dos pobres. Puebla aprofundou a noção da opção preferencial pelos pobres. Santo Domingo destacou a dignidade humana diante das novas formas de exclusão. Aparecida recordou que o discipulado missionário exige compromisso com a transformação da realidade social. Esses documentos não identificam o Evangelho com partidos políticos específicos. Porém insistem que a fé possui consequências sociais concretas. Não existe verdadeira espiritualidade cristã indiferente ao sofrimento humano.

O Concílio Vaticano II, especialmente na Constituição Pastoral Gaudium et Spes, ensina que as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias da humanidade são também as alegrias e esperanças, tristezas e angústias dos discípulos de Cristo. A Igreja não pode fechar-se numa espiritualidade desencarnada. Quando Jesus fala sobre César e Deus, ele não separa céu e terra. Ele estabelece uma hierarquia. Deus permanece acima de qualquer poder histórico.

Essa verdade torna-se particularmente importante diante das distorções promovidas por certas formas de teologia da prosperidade. Quando a bênção divina é reduzida ao sucesso econômico, a lógica do mercado ocupa o lugar da lógica do Reino. A cruz desaparece. A solidariedade perde espaço. Os pobres passam a ser vistos como culpados pela própria condição.

Jesus nasceu numa família simples (Lucas 2,24). Viveu entre trabalhadores da Galileia. Aproximou-se dos marginalizados. Declarou bem-aventurados os pobres (Lucas 6,20). Advertiu contra a idolatria das riquezas (Mateus 6,24). Morreu fora das muralhas da cidade, entre condenados. O Reino anunciado por Jesus não é medido pelo acúmulo de bens, mas pela prática da justiça, da misericórdia e da fraternidade. Quando ministros religiosos assumem posições de privilégio, superioridade ou domínio, contradizem diretamente o exemplo de Cristo. Em Marcos 10,42-45, Jesus afirma que os governantes das nações dominam seus povos, mas entre seus discípulos deve ser diferente. Quem deseja ser grande deve tornar-se servo.

A frase de Jesus sobre César e Deus convida a Igreja a permanecer livre diante dos poderes deste mundo:

  •  Livre para dialogar. 
  • Livre para colaborar na construção do bem comum. 
  • Livre para denunciar injustiças.
A missão profética da Igreja não consiste em conquistar o Estado. Consiste em testemunhar o Reino. Sob a perspectiva antropológica, esta passagem revela algo fundamental sobre a condição humana. Todo ser humano vive entre múltiplas pertenças. Pertence a uma família, a uma cultura, a uma nação, a instituições sociais. Contudo, nenhuma dessas pertenças esgota sua identidade.

A  imagem de Deus inscrita em cada pessoa confere dignidade inviolável. Nenhum governo pode conceder essa dignidade. Nenhum governo pode retirá-la. Por isso, toda forma de discriminação racial, econômica, cultural ou religiosa constitui uma afronta ao projeto criador de Deus. O texto também revela a tendência humana de buscar segurança em estruturas de poder. Muitas pessoas projetam em líderes políticos expectativas messiânicas. Esperam deles salvação, redenção ou sentido absoluto. 

Essa dinâmica produz idolatrias modernas. Quando um líder é transformado em objeto de devoção inquestionável, quando críticas tornam-se proibidas, quando a verdade é subordinada à lealdade ideológica, o espaço da fé autêntica é substituído pelo culto ao poder. Ele desloca o centro da confiança humana para Deus. A comparação com Mateus 22,15-22 e Lucas 20,20-26 revela aspectos interessantes. Mateus enfatiza a hipocrisia dos interlocutores. Lucas destaca a tentativa de entregar Jesus à autoridade romana. Marcos, por sua vez, preserva uma narrativa marcada pela admiração diante da sabedoria de Jesus. As diferenças redacionais mostram como cada evangelista ilumina dimensões específicas do mesmo acontecimento. Todos, porém, convergem numa mesma afirmação fundamental: Deus não pode ser instrumentalizado por interesses políticos.

A questão central permanece viva em cada  geração.O que pertence a César?

  • As estruturas administrativas, 
  • os mecanismos legítimos de organização social, 
  • as responsabilidades cívicas, 
  • os deveres da cidadania.

O que pertence a Deus?

  • Pertence a Deus o coração humano. 
  • Pertence a Deus a consciência. 
  • Pertence a Deus a dignidade da pessoa
  •  Pertence a Deus a vida. 
  • Pertence a Deus a história.

  1. Quando César pretende ocupar esse espaço, transforma-se em ídolo.
  2. Quando a religião legitima essa pretensão, transforma-se em idolatria.
  3. Quando a Igreja esquece os pobres para aproximar-se dos poderosos, perde sua credibilidade profética.
  4. Quando comunidades cristãs trocam o Evangelho pela busca de influência política, deixam de anunciar o Reino para administrar interesses.

A América Latina conhece profundamente essa tentação. Nossa história está marcada por desigualdades persistentes, concentração de riqueza, violência estrutural e exclusão social. Em muitos contextos, a linguagem religiosa foi utilizada para justificar privilégios e silenciar questionamentos. Entretanto, a tradição profética continua viva. Ela ecoa nas Comunidades Eclesiais de Base. Ecoa nos mártires da justiça. Ecoa nos agentes pastorais que servem silenciosamente nas periferias. Ecoa nos cristãos que defendem os direitos humanos. Ecoa nas mulheres e homens que recusam transformar a fé em instrumento de dominação.

O Evangelho de Marcos nos convida a reconhecer: 

  • Que a verdadeira soberania pertence somente a Deus.
  • Não ao mercado.
  • Não ao dinheiro.
  • Não ao nacionalismo.
  • Não ao clericalismo.
  • Não aos impérios antigos ou modernos.
  • Somente Deus é absoluto.

A própria imagem da moeda reaparece de maneira surpreendente em outra passagem do Evangelho. Em Lucas 15,8-10, Jesus fala da mulher que perde uma dracma e acende uma lâmpada, varre cuidadosamente a casa e procura até encontrá-la. problemada na quinta-feira da  31ª Semana do Tempo Comum. À primeira vista, trata-se apenas de uma pequena moeda extraviada. Contudo, à luz de Marcos 12,17, emerge um simbolismo mais profundo. Se a moeda do tributo traz a imagem de César e retorna a César, a moeda perdida pode ser vista como figura da humanidade que traz em si a imagem de Deus e que, mesmo perdida nos labirintos do pecado, da injustiça, da idolatria e da alienação, continua sendo preciosa aos olhos do seu Criador. A mulher que procura incansavelmente a moeda torna-se imagem do próprio Deus que não se conforma com a perda de nenhum de seus filhos. Enquanto os impérios procuram arrecadar moedas para sustentar seu poder, Deus procura pessoas para restaurar sua dignidade. Enquanto César reivindica aquilo que carrega sua efígie, Deus busca aquilo que traz sua imagem. A alegria da mulher que encontra a moeda perdida antecipa a alegria divina diante de cada ser humano reencontrado pela graça. Dessa forma, a moeda de Marcos 12 deixa de ser apenas um objeto de tributação e torna-se também um símbolo da identidade humana: fomos criados à imagem de Deus (Gênesis 1,26-27), podemos nos perder entre os poderes deste mundo, mas jamais deixamos de pertencer Àquele que nos procura com amor paciente até nos reencontrar.

Por isso, a resposta de Jesus permanece como uma das palavras mais profundas, libertadoras e revolucionárias de toda a Escritura. Ela impede que o Estado se transforme em divindade. Impede que a religião se torne serva dos impérios. Impede que o ser humano esqueça sua origem, sua vocação e seu destino. Ao mesmo tempo, revela que toda autoridade humana é relativa diante da soberania absoluta de Deus, pois "do Senhor é a terra e tudo o que nela existe" (Salmo 24,1), e "não há autoridade que não venha de Deus" (Romanos 13,1), embora toda autoridade seja continuamente julgada pelos critérios da justiça divina. A moeda retorna a César porque traz sua imagem. Mas o coração humano retorna a Deus porque traz inscrita a sua imagem desde o princípio da criação (Gênesis 1,26-27). O ser humano não é propriedade dos impérios, dos mercados, das ideologias nem dos sistemas religiosos. Pertence Àquele que o criou, o chamou pelo nome e o sustenta na existência. Como recorda o profeta Isaías: "Tu és precioso aos meus olhos, eu te amo" (Isaías 43,4). Por isso, toda vez que uma pessoa é humilhada, explorada ou descartada, é a própria imagem de Deus que está sendo profanada.

Quando o ser humano retorna a Deus, descobre que a verdadeira adoração não consiste apenas em palavras, ritos ou observâncias externas. Os profetas já haviam denunciado o vazio de uma religião separada da justiça. Amós proclamava: "Corra o direito como água e a justiça como um rio perene" (Amós 5,24). Isaías advertia que Deus rejeita cultos que convivem com a opressão dos pobres (Isaías 1,11-17). Miqueias sintetiza a vontade divina afirmando que o Senhor pede apenas que pratiquemos a justiça, amemos a misericórdia e caminhemos humildemente com Ele (Miqueias 6,8). Jesus retoma essa tradição ao afirmar que os mandamentos maiores são amar a Deus de todo o coração e amar o próximo como a si mesmo (Marcos 12,29-31). Ao final da narrativa, os adversários ficam admirados. O espanto nasce porque Jesus rompe as falsas alternativas apresentadas pelos poderes de seu tempo. Ele recusa tanto a submissão idolátrica ao império quanto o nacionalismo religioso que sonhava substituir uma dominação por outra. Seu horizonte é mais amplo. É o horizonte do Reino de Deus. Um Reino que não nasce da violência nem da imposição, mas da conversão do coração. Um Reino que cresce como semente lançada na terra (Marcos 4,26-29), como fermento escondido na massa (Mateus 13,33), como pequena semente de mostarda destinada a tornar-se grande árvore (Marcos 4,30-32).

Marcos 12,13-17 permanece, portanto, como um chamado permanente à conversão:. 

  • Conversão pessoal para que Deus ocupe verdadeiramente o centro de nossa existência. 
  • Conversão eclesial para que a Igreja seja sinal do Reino e não instrumento de interesses econômicos, ideológicos ou partidários. 
  • Conversão social para que as estruturas políticas, econômicas e culturais estejam a serviço da dignidade humana, especialmente dos pobres, dos excluídos e dos crucificados da história, nos quais Cristo continua presente (Mateus 25,31-46). 
Diante da moeda marcada pela imagem de César, Jesus aponta para uma realidade infinitamente maior. Diante do rosto humano marcado pela imagem de Deus, ele revela o valor sagrado de cada pessoa. Diante dos impérios que passam, dos sistemas que se sucedem e dos poderes que reivindicam para si a última palavra, ele anuncia silenciosamente aquilo que os profetas haviam esperado e que o Apocalipse proclamará com força: "O reino do mundo passou para o nosso Senhor e para o seu Cristo, e ele reinará pelos séculos dos séculos" (Apocalipse 11,15). A última palavra da história não pertence aos Césares. Não pertence aos mercados. Não pertence aos exércitos. Não pertence aos impérios religiosos nem aos impérios econômicos. A última palavra pertence ao Deus da vida, que ressuscitou Jesus dentre os mortos (Atos 2,24) e inaugurou uma nova criação (2 Coríntios 5,17). Por isso, a esperança cristã não se apoia na força dos poderosos, mas na fidelidade de Deus. O ser humano encontra sua plenitude não quando se ajoelha diante dos Césares da história, mas quando reconhece no Deus revelado por Jesus Cristo a fonte da justiça que restaura, da verdade que liberta (João 8,32), da misericórdia que cura, da fraternidade que reconcilia e da vida em abundância prometida a toda a humanidade (João 10,10). É nessa pertença radical a Deus que nasce a verdadeira liberdade. É nessa liberdade que floresce a dignidade humana. E é dessa dignidade que brota a coragem profética de viver, anunciar e testemunhar o Reino de Deus no coração da história.

DNonato - Teólogo do Cotidiano, mais  valioso  que uma moeda.

domingo, 21 de setembro de 2025

Quando a Mentira Ataca a Arte: A Lei Rouanet, Trincheira da Democracia

Iniciamos esta reflexão movidos por indignação diante da manipulação política que se abate sobre a cultura brasileira. Durante a semana, circulou a notícia de que artistas como Caetano Veloso, Chico Buarque e Gilberto Gil teriam sido chamados a participar de atos contra a PEC da Blindagem e a proposta de anistia a políticos corruptos. Imediatamente, a extrema-direita começou a repetir seu mantra: “eles só participam porque estão cheios de dinheiro da Lei Rouanet”. O comentário, que circula como se fosse evidência incontestável, não passa de mais um capítulo da velha estratégia de demonização do artista no Brasil. Sob o pretexto de defender a moralidade pública, fabricou-se uma guerra cultural baseada em distorções e mentiras, transformando o ressentimento popular em arma ideológica e desviando a atenção das verdadeiras estruturas de injustiça que corroem o país.

Sociologicamente, vemos a aplicação de um mecanismo de fabricação de inimigos. Em vez de apontar para a concentração absurda de renda, para bilionários que drenam recursos sem prestar contas, ou para subsídios gigantescos dados a bancos e grandes empresas, cria-se um bode expiatório mais fácil de ser atacado: o artista. O discurso segue um roteiro simples: “enquanto você sofre, eles estão ganhando milhões do seu dinheiro”. Não importa que a Lei Rouanet não funcione assim, que exista um rígido processo de aprovação e prestação de contas, ou que a cultura seja um direito constitucional. O que importa é a eficácia simbólica da mentira, que mobiliza raiva e reforça o projeto político autoritário.

A ciência histórica desmonta com clareza essa narrativa. A Lei Rouanet foi criada em 1991 como mecanismo de fomento cultural baseado em renúncia fiscal. Parte do imposto devido por empresas pode ser destinado a projetos culturais previamente aprovados pelo Ministério da Cultura. Esse dinheiro não seria aplicado em saúde ou educação, como a extrema-direita insiste em repetir, mas já estava reservado dentro do orçamento cultural. Mais ainda: cada projeto precisa ser rigorosamente prestado em contas, com notas fiscais, relatórios e fiscalização. A alegação de que artistas recebem “cheques milionários” é uma fraude discursiva. Quando surgem irregularidades, há devolução de recursos e processos administrativos e criminais. A mentira da “mamata” não se sustenta diante do mínimo de honestidade histórica e documental.

Mas o problema não é a ignorância, e sim a manipulação. A extrema-direita sabe que mexer com a ideia de privilégio artístico gera impacto, porque toca em ressentimentos profundos de uma sociedade marcada pela desigualdade. O trabalhador que ganha pouco sente revolta quando lhe dizem que “o ator tal recebeu milhões do governo”. Ainda que seja falso, a revolta já foi ativada. Hannah Arendt alertava sobre o poder dos fatos fabricados: quando a mentira se repete e circula sem contestação suficiente, adquire consistência social. A verdade perde força diante da eficácia emocional da narrativa. O que se constrói não é debate, é guerra cultural.

A antropologia nos ajuda a perceber que, ao atacar a Lei Rouanet, não se ataca apenas artistas individuais, mas a própria ideia de cultura como direito coletivo. Cultura não é adorno supérfluo; é o tecido que sustenta a identidade dos povos. Foi a cultura que permitiu aos escravizados manter dignidade diante da violência, nos batuques, nas rezas, nos cantos. Foi a cultura que manteve povos indígenas resistindo ao genocídio, preservando língua, pintura e memória. Foi a cultura que alimentou o povo brasileiro em tempos de ditadura, com músicas e peças teatrais que desafiavam a censura e mantinham acesa a chama da esperança. Demonizar a cultura é tentar quebrar o espelho que reflete o rosto de um povo, impondo silêncio às vozes que sempre resistiram.

A filosofia crítica aprofunda esse discernimento. Walter Benjamin lembrava que todo fascismo se alimenta da estetização da política: transforma violência em espetáculo, cria narrativas sedutoras que escondem a barbárie. O discurso contra a Lei Rouanet cumpre esse papel: encena cruzada moral contra supostos abusos enquanto esconde a destruição da Amazônia, a entrega do patrimônio público e a concentração indecente de riquezas. É o truque da distração: aponta-se o dedo para o “artista mamateiro” para que não se veja o banqueiro intocado, o latifúndio isento, o político corrupto blindado. A moralidade é invocada para proteger a imoralidade estrutural.

Pierre Bourdieu nos ajuda a compreender outro aspecto central: a luta em torno da Lei Rouanet é luta pelo capital simbólico. A cultura sempre foi um campo disputado. Quando indígenas produzem cinema, quando quilombolas publicam livros, quando a periferia ocupa palcos, rompe-se o monopólio simbólico das elites. A extrema-direita teme essa democratização, porque ela traz consigo democratização política. Um povo que vê sua voz na arte começa a questionar as estruturas de poder. Por isso, a demonização da Rouanet não é apenas contra artistas famosos, mas contra toda forma de empoderamento cultural que ameaça o status quo.Historicamente, vemos esse padrão se repetir. O samba foi criminalizado no início do século XX como prática de vagabundos e desordeiros. Hoje é patrimônio cultural da humanidade. O teatro popular foi censurado em várias épocas, do Estado Novo à ditadura militar. Hoje é celebrado como resistência. O que hoje se tenta criminalizar será, amanhã, reconhecido como tesouro cultural. A história é irônica: os mesmos que hoje atacam a Lei Rouanet certamente se orgulharão, no futuro, de artistas que só puderam existir graças a ela.

É claro que a Lei Rouanet tem limitações. Há concentração regional de recursos, maior facilidade de grandes produtores em captar patrocínios que pequenos coletivos. Mas esses problemas pedem reforma, não destruição. O discurso da extrema-direita, no entanto, não propõe corrigir injustiças, mas aniquilar a política cultural. Isso mostra que não se trata de zelo pelo povo, mas de perseguição ideológica e projeto de poder.

Casos concretos revelam a perversidade. Artistas renomados tiveram nomes difamados em campanhas digitais, acusados de receber valores absurdos sem comprovação. Projetos educativos em comunidades periféricas foram ridicularizados em programas de televisão como se fossem desperdício de dinheiro. O resultado é intimidação de artistas, desmoralização da cultura, silenciamento de vozes críticas. Ao destruir a credibilidade da Rouanet, a extrema-direita mina a possibilidade de jovens pobres acessarem formação artística, de comunidades manterem centros culturais, de tradições populares encontrarem apoio. A mentira mata sonhos concretos.  Do ponto de vista da antropologia política, a demonização da Lei Rouanet revela o projeto de homogeneização cultural. O autoritarismo não tolera diversidade. Prefere uma cultura única, padronizada, que exalte a pátria de forma acrítica e celebre valores tradicionais sem questionamento. É a lógica da propaganda, não da arte. Mas a verdadeira cultura é plural, inquieta, crítica. É por isso que o ataque à Rouanet é também ataque à democracia: cultura viva é sempre espaço de questionamento e liberdade.

A Igreja, em sua tradição, nos lembra que a cultura é parte essencial da dignidade humana. O Concílio Vaticano II afirma na Gaudium et Spes que a cultura é bem comum e deve ser promovida em sua diversidade. A Evangelii Gaudium insiste que a cultura popular é lugar onde Deus se manifesta. A Fratelli Tutti reforça a necessidade de diálogo intercultural como caminho de fraternidade. Quando a extrema-direita demoniza a cultura, vai contra esse horizonte cristão, ainda que use a religião como fachada. O Deus da vida se manifesta nos tambores da periferia, nas pinturas indígenas, nas canções de protesto, nas danças de rua. Atacar a cultura é, de certo modo, atacar também a encarnação do Verbo, que assume nossa carne e nossa história.

A crítica profética precisa ser direta. O ataque à Lei Rouanet não é apenas erro de análise, é pecado social. É tentativa de calar o povo para manter o poder de poucos. É repetir a lógica denunciada pelos profetas bíblicos: “Ai dos que transformam o direito em veneno e a justiça em fel amargo” (Am 6,12). O que vemos hoje é a transformação da mentira em arma, do ódio em combustível, da ignorância em programa político. Contra isso, a profecia deve levantar sua voz: a cultura é vida, e a vida é dom de Deus. Defender a cultura é defender a dignidade do povo brasileiro contra o projeto de morte que a extrema-direita tenta impor.

Assim, a Lei Rouanet, longe de ser “mamata”, é sinal concreto de que o Estado reconhece a cultura como direito. É uma trincheira, ainda que imperfeita, contra a homogeneização autoritária. É um espaço de resistência, diversidade e esperança. E é por isso que ela incomoda tanto os que desejam o povo silenciado. Defender a cultura hoje é mais do que política pública; é ato profético, compromisso com a vida, recusa ao fascismo. A mentira sobre a Lei Rouanet pode circular com força, mas a verdade permanece: sem cultura, não há povo. E sem povo, não há democracia.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 


sexta-feira, 5 de setembro de 2025

Um breve olhar sobre São Lucas 6,1-5

O texto do sábado da 22ª semana do Tempo Comum  nos coloca diante de uma cena aparentemente simples, mas profundamente reveladora do coração da fé. Jesus passa por plantações em dia de sábado, e seus discípulos colhem espigas para comer, sendo criticados pelos fariseus que os observam com olhar rígido, buscando neles a falha. A resposta de Jesus remete a Davi e seus companheiros que comeram os pães da proposição, destinados apenas aos sacerdotes, mostrando que a lei, quando se torna instrumento de exclusão, perde o seu sentido mais profundo. Este episódio, situado no capítulo 6 do Evangelho segundo São Lucas, é proclamado também em paralelo com os relatos de Mateus 12,1-8 e Marcos 2,23-28, e aparece ainda em outro contexto litúrgicos, quando se celebra a centralidade da misericórdia sobre os sacrifícios, ecoando a profecia de Oséias 6,6: “Quero amor, e não sacrifício, conhecimento de Deus, mais que holocaustos.”

Se olharmos bem, Lucas, com seu estilo peculiar, não apenas narra um incidente. Ele introduz um conflito fundamental entre uma leitura legalista da fé e uma abertura para a plenitude da vida que Jesus inaugura. Aqui se encontra o “contexto e o pretexto” da cena. O contexto imediato é o sábado, o dia de descanso, que no judaísmo é sinal da Aliança, recordação da libertação do Egito (cf. Dt 5,15) e do repouso de Deus após a criação (cf. Gn 2,2-3). O pretexto é a denúncia feita contra os discípulos: ao colher espigas e debulhá-las com as mãos, eles estariam violando a lei. Mas o verdadeiro sentido em jogo não é a colheita em si, e sim a visão de Deus que se transmite. Jesus responde com sabedoria profética: não é o sábado que rege o homem, mas o homem que dá sentido ao sábado, porque “o Filho do Homem é senhor também do sábado” (Lc 6,5).

Exegese e hermenêutica caminham juntas aqui. O gesto dos discípulos é um gesto de fome, de necessidade, e a fome não espera o relógio da lei. O sábado, em sua intenção original, era dom de libertação, descanso, justiça social, proteção dos pobres e dos trabalhadores, até mesmo dos animais (cf. Ex 20,8-11). Mas no curso da história, foi sendo recoberto por camadas de interpretações rígidas, transformando-se em peso. Jesus denuncia essa distorção: o que deveria ser sinal de vida e liberdade se tornou instrumento de controle e opressão. O paralelo com Marcos 2,27 é ainda mais explícito: “O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado.” Essa afirmação é revolucionária, porque coloca a dignidade humana acima de qualquer ritualismo que negue a vida. Jeremias já havia advertido contra a falsa compreensão do sábado, recordando que ele não deve ser mero fardo (cf. Jr 17,21-22), e Miqueias 6,8 proclamava: “O que o Senhor te pede é apenas praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com o teu Deus.”

Há aqui uma lição antropológica profunda. O ser humano é mais do que suas práticas exteriores. Somos seres de desejo, de fome, de carência, e também de transcendência. O sábado deveria nutrir esse duplo aspecto — o descanso do corpo e a abertura do espírito — e não reprimir a vida. Mas quantas vezes, ao longo da história, vemos a religião transformada em instrumento de poder? Santo Irineu já advertia no século II: “A glória de Deus é o ser humano vivo, e a vida do ser humano é a visão de Deus” (Adversus Haereses, IV,20,7). Quando se usa o nome de Deus para esmagar vidas, trai-se a própria revelação.

Esse evangelho também nos provoca, o olhar dos fariseus sobre os discípulos é o olhar que julga a partir da aparência, fixo na norma, incapaz de ver a necessidade, a fome, a fragilidade. É o olhar que se alimenta da acusação, do policiamento dos gestos alheios, que Freud chamaria de expressão do superego tirânico, e que a sociologia de Michel Foucault analisaria como dispositivo de controle. É o olhar do poder que vigia, e que se sente seguro não na liberdade do outro, mas na sua submissão. Jesus, ao contrário, educa um olhar diferente: não o olhar que condena, mas o olhar que discerne, que enxerga as motivações, que acolhe a necessidade humana.

Podemos perceber que aqui está em jogo a relação entre lei e vida. Kant falaria do imperativo categórico, mas Jesus vai além: não basta a universalidade da norma; é preciso que a norma esteja a serviço da vida. Hegel diria que o espírito supera a letra, e que a liberdade é a verdade da lei. São Tomás de Aquino já havia afirmado que a lei humana e a lei religiosa devem ser ordenadas ao bem comum, e que quando uma lei não conduz à justiça, perde seu caráter de lei. O que Jesus realiza é o cumprimento dessa intuição filosófica e teológica: a lei do sábado deve ser interpretada a partir da vida, e não o contrário.

 Se fwz necessário  lembrar que o sábado, em tempos de opressão estrangeira, era sinal de resistência identitária do povo judeu. Guardar o sábado significava afirmar: “Nós somos o povo da Aliança, e não servos de César.” Mas com o tempo, essa resistência se cristalizou em rigidez. Jesus não abole o sábado, mas o reconduz à sua raiz libertadora. Isso nos ajuda a compreender que toda instituição corre o risco de se corromper quando perde de vista sua razão de ser. A mesma dinâmica acontece na Igreja: quando o culto se torna espetáculo, quando a liturgia vira performance estética desvinculada da vida, quando a fé é reduzida a mercadoria de consumo, perdemos o sentido original do Evangelho. 

É nesse ponto que a crítica às falsas teologias se faz necessária. A teologia da prosperidade promete bênçãos materiais em troca de sacrifícios financeiros, transformando Deus em banqueiro e a fé em contrato de mercado. A teologia do domínio prega que os cristãos devem conquistar as estruturas de poder para impor sua moral ao mundo, reduzindo o Evangelho a ideologia política. A fé individualista, por sua vez, transforma a relação com Deus em experiência solitária, descompromissada com o próximo e com a justiça. E a fé-mercadoria é aquela que transforma ritos, objetos e experiências religiosas em produtos a serem vendidos, numa lógica de marketing espiritual. Todas essas distorções se assemelham aos fariseus que vigiam os discípulos: preocupam-se com a forma, mas não com a vida.

O clericalismo é outro fruto amargo dessa mesma árvore. Quando o sacerdote se coloca acima do povo, como se fosse dono do sagrado, transforma-se em guardião da lei opressora, e não em ministro da graça. O Papa Francisco, em diversas ocasiões, chamou o clericalismo de “a peste da Igreja”. O Concílio Vaticano II, na Gaudium et Spes (n. 63-66), recorda que a missão da Igreja é ler os sinais dos tempos à luz do Evangelho, e não se fechar em legalismos. Na Evangelii Gaudium (n. 49), Francisco insiste que “prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças.” O Evangelho de hoje ilustra essa opção: Jesus prefere discípulos famintos colhendo espigas a discípulos paralisados pelo medo da lei.

Santo Agostinho, comentando os Salmos, dizia que a lei sem o Espírito mata, mas o Espírito vivifica. Orígenes lembrava que o sábado é figura do repouso em Deus, mas que esse repouso só existe quando o coração está em paz com o próximo. Crisóstomo denunciava os cristãos que, em nome da religião, desprezavam os pobres, chamando-os de “piores que os fariseus”. Ambrósio de Milão afirmava: “Não é o alimento reservado que agrada a Deus, mas o pão repartido.” Basílio de Cesareia pregava que “o pão que tu guardas pertence ao faminto, o manto que escondes no armário pertence ao nu.” A tradição da Igreja nunca foi unânime em torno de rigidez legal, mas sempre buscou interpretar a lei à luz da caridade.

Quando Jesus afirma que o Filho do Homem é senhor do sábado, ele está proclamando que a vida humana, iluminada pelo Espírito, é mais importante que qualquer código fechado. Isso é escandaloso para os legalistas, mas libertador para os que têm fome. E não é apenas fome de pão, mas fome de justiça, fome de dignidade, fome de reconhecimento. O profeta Isaías já havia denunciado um jejum hipócrita, em que se afligia o corpo mas se explorava o trabalhador (cf. Is 58,3-6). Amós criticava os comerciantes que mal esperavam o sábado passar para explorar os pobres (cf. Am 8,4-6). Jesus, ao interpretar o sábado, realiza a mesma denúncia: o descanso verdadeiro é aquele que liberta, não aquele que oprime.

Hoje, quantas vezes não repetimos os erros dos fariseus? 

Quando julgamos a vida alheia a partir das aparências, quando reduzimos a religião a um conjunto de regras externas, quando transformamos Deus em opressor, esquecemos que Ele é Pai amoroso. A psicologia nos lembra que esse tipo de religião gera ansiedade, culpa tóxica, neurose, medo. A sociologia mostra que sistemas religiosos de controle alimentam desigualdades e mantêm privilégios. A antropologia revela que toda sociedade cria ritos, mas quando os ritos se absolutizam, perdem seu poder de gerar vida e se tornam instrumentos de dominação. O Evangelho, porém, insiste: o sábado existe para que todos, inclusive os pobres e marginalizados, possam descansar e viver.

Assim, o texto deste sábado da 22ª semana do Tempo Comum nos recorda que a lei só tem sentido quando promove a vida. Jesus não é contra o sábado; ele é contra o uso do sábado como arma contra os famintos. Ele nos convida a olhar para além da letra, a discernir as motivações, a priorizar o amor. Essa é a Boa Nova: Deus não é um ditador em busca de súditos subservientes, mas Pai amoroso que quer filhos livres e vivos. Seguir Jesus é aprender a ser senhor do sábado, a colocar a vida no centro, a não temer os olhares acusadores, mas a responder com liberdade e misericórdia.



DNonato – Teólogo do Cotidiano


terça-feira, 19 de agosto de 2025

Soberania e Justiça: O Brasil Decide Seu Destino

A decisão do ministro Flávio Dino no STF, ao afirmar que leis e decisões judiciais estrangeiras não têm validade automática no Brasil, recoloca em pauta uma questão central: a soberania nacional diante de pressões externas. Embora o caso recente da Lei Magnitsky, aplicada pelos Estados Unidos contra o ministro Alexandre de Moraes, não tenha sido citado diretamente, a decisão é uma resposta clara a esse tipo de ingerência. Dino reforça que apenas a Justiça brasileira pode dar validade a medidas que impactem pessoas, contratos e bens no território nacional, exigindo que qualquer sentença estrangeira passe pelo crivo do STF ou por mecanismos formais de cooperação internacional. Essa determinação atinge também Estados e municípios, que ficam proibidos de propor ações no exterior sem autorização, e empresas brasileiras, que não podem acatar ordens externas sem chancela nacional.O pano de fundo revela como, em pleno século XXI, ainda convivemos com tentativas de projeção de poder por meio do direito e da economia. A chamada Lei Magnitsky, embora se apresente como instrumento de defesa da democracia, de combate à corrupção e às violações de direitos humanos, é também uma arma de política externa dos Estados Unidos, que escolhem quem sancionar segundo seus próprios interesses estratégicos. É nesse ponto que se evidencia a contradição: uma lei que se apresenta como universal, mas cuja aplicação é seletiva, servindo à lógica de hegemonia. Essa lógica não se restringe ao Brasil: golpes na América Latina, desde o Chile em 1973 até tentativas mais recentes na Venezuela, na Bolívia e na Nicarágua, mostram como a defesa da “democracia” e da soberania muitas vezes serve de pretexto para interferir, controlar recursos e subjugar povos, camuflando interesses geopolíticos sob o véu da moralidade internacional.

O paralelo histórico se amplia quando olhamos para a Europa do século XX. Na França ocupada pelos nazistas, uma parte significativa da extrema-direita local não apenas concordava com a invasão, mas a apoiava ativamente, defendendo a submissão ao nazismo e a colaboração com o ocupante. Essa aliança com forças externas de poder para enfraquecer instituições nacionais lembra, em outro contexto, a atitude de setores da extrema-direita contemporânea brasileira que buscam apoio externo para deslegitimar o Estado e promover agendas autoritárias. A história mostra que a entrega voluntária da soberania, mesmo sob o pretexto de “alinhamento moral” ou “eficiência”, sempre cobra um preço terrível: perda da liberdade, violação de direitos e destruição de laços comunitários.

O debate nos remete também a outros momentos históricos. A Inglaterra, no século XIX, quando se colocou como “protetora” contra o tráfico negreiro, realizava algo moralmente correto ao condenar uma prática abominável, que reduzia seres humanos a mercadoria, violava a dignidade, destruía famílias e culturas, e deixava marcas que atravessam séculos. A escravidão e o tráfico de pessoas foram crimes contra a humanidade, perpetrados com violência extrema, exploração desumana e desrespeito absoluto à vida e à liberdade. Porém, essa atuação abolicionista não significa que a Inglaterra agisse desinteressadamente ou sem contradições. Ela manteve colônias de exploração na África, retirando recursos e impondo trabalho forçado, e mais tarde promoveu políticas segregacionistas que culminaram no apartheid na África do Sul. Ao mesmo tempo, consolidava seus interesses econômicos e geopolíticos, moldando o mundo segundo suas prioridades comerciais. Assim como hoje, quando os Estados Unidos utilizam a Lei Magnitsky em nome da moralidade e dos direitos humanos, é necessário reconhecer que a retórica de “boa ação” pode coexistir com objetivos de poder e hegemonia. Criticar essas intenções estratégicas não significa relativizar ou legitimar crimes, mas analisar o contexto real em que políticas externas se desenvolvem, sem perder de vista a condenação absoluta da injustiça histórica.

Essa decisão se coloca no coração de uma disputa que vai além do direito, pois toca na sobrevivência da democracia. A extrema-direita brasileira, cúmplice de interesses externos e de setores ultraconservadores que financiam a máquina da desinformação global, não hesita em internacionalizar sua narrativa golpista. O que começa como manobra jurídica se revela como estratégia política, e o que se apresenta como defesa da lei se mostra, na verdade, como cruzada autoritária global. O paradoxo é evidente: bradam “Brasil acima de tudo” enquanto se ajoelham diante de potências estrangeiras. Ao tentar legitimar-se em cortes internacionais, procuram enfraquecer as instituições nacionais e abrir caminho para a tutela externa, uma forma sofisticada de neocolonialismo. Dino, ao blindar o sistema jurídico brasileiro contra esse tipo de ingerência, não protege apenas Moraes ou o STF, mas a própria soberania popular que, ainda ferida, resiste aos avanços autoritários. É como se dissesse que nenhum banqueiro, nenhum governo estrangeiro, nenhum tribunal de fora pode decidir sobre contratos, bens ou direitos que pertencem ao povo brasileiro. Essa é a mesma lógica que animou os Macabeus quando defenderam sua identidade contra a imposição helênica: soberania não é luxo, é condição de sobrevivência.

Mas há uma tensão que não pode ser esquecida: se por um lado essa blindagem nos defende de sanções políticas e arbitrárias, por outro ela pode dificultar a busca de justiça quando o próprio Estado brasileiro se mostra incapaz ou cúmplice dos poderosos. As vítimas de Mariana recorreram à Justiça inglesa porque sabiam que aqui enfrentariam manobras infinitas e pactos de silêncio entre corporações e autoridades. É nesse ponto que a decisão de Dino precisa ser completada por um compromisso mais profundo: não basta blindar o país das pressões externas se a justiça doméstica continuar a servir ao dinheiro e ao poder. A soberania só tem sentido quando é posta a serviço do povo, e não quando se torna desculpa para a impunidade dos fortes. Uma pátria sem justiça é como um corpo sem sangue: existe, mas não vive. Soberania que não se põe a serviço dos pequenos é bandeira vazia, tremulando ao vento sem raiz no chão do povo.

No plano internacional, a decisão reafirma uma velha lição: nenhuma potência deve ditar o destino de outra nação. Se leis brasileiras não se impõem nos Estados Unidos, por que leis americanas teriam de valer aqui? A retórica do “direito internacional” só tem valor quando se faz diálogo entre iguais, não quando se impõe pela força econômica ou militar. A história mostra que sanções e golpes quase sempre recaem sobre os mais frágeis, enquanto os poderosos seguem impunes. É preciso construir mecanismos multilaterais de justiça que não sejam reféns de impérios, mas expressão da solidariedade entre povos. Enquanto isso não acontece, a defesa da soberania é um ato de sobrevivência e também um testemunho. Assim como Jesus diante de Pilatos recordou que “nenhum poder terias sobre mim se do alto não te fosse dado” (Jo 19,11), também aqui se proclama que nenhum império tem autoridade última sobre o destino de uma nação. A luta brasileira é parte de uma luta maior, que atravessa toda a América Latina: povos da Bolívia, da Venezuela, do México e de tantos outros países sabem o que significa viver sob a sombra de sanções, bloqueios, ingerências externas e golpes travestidos de “defesa da democracia”. O que Dino decidiu ecoa além das fronteiras: é uma palavra que ressoa em todo o continente.

A decisão de Dino, portanto, é corajosa e necessária. Ela afirma que não somos súditos de nenhum império e que nossas instituições não podem ser usadas como marionetes da extrema-direita global. É uma resposta firme contra o neocolonialismo jurídico que tenta travar a democracia brasileira. Mas também é um chamado à autocrítica: não basta dizer “não” às ingerências externas se não aprendermos a dizer “sim” à justiça para os pobres, aos direitos dos trabalhadores, às vítimas de crimes ambientais, às comunidades esmagadas pela lógica do lucro. Soberania verdadeira não é muralha de pedra, mas raiz que se finca no solo do povo. Soberania sem justiça é bandeira morta; soberania com justiça é profecia viva. Não ao império, não à servidão; sim ao povo, sim à justiça.

A coragem de Flávio Dino é uma afirmação de que o Brasil decide seu próprio destino. Nenhum tribunal estrangeiro, nenhuma lei de fora, nenhum interesse externo tem autoridade sobre nosso solo, nossas instituições ou nosso povo. Defender a soberania é proteger a liberdade, honrar a memória dos oprimidos e garantir que a democracia seja um patrimônio vivo. Nesta luta, Dino se ergue como guardião do Brasil, reafirmando que soberania com justiça é resistência, é dignidade, é vida.

DNonato - Teólogo  do Cotidiano 

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