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sábado, 5 de setembro de 2026

Um breve olhar sobre Lucas 6,6-11

O Evangelho de Lucas 6,6-11 é proclamado na liturgia ferial da Igreja Católica Romana na segunda-feira da 23ª semana do Tempo Comum, (sendo a continuação  da liturgia do 22⁰ Sabado do tempo comum,)  dentro da leitura contínua do Evangelho segundo Lucas. A passagem apresenta Jesus entrando na sinagoga em dia de sábado e encontrando ali um homem cuja mão direita era atrofiada e  em Lucas 14,1-6, encontramos novamente Jesus diante de uma pessoa necessitada de cura em dia de sábado. Desta vez, trata-se de um homem hidrópico, e a cena acontece não na sinagoga, mas na casa de um dos chefes dos fariseus. Também nesse episódio, Jesus é observado pelos religiosos e coloca diante deles a questão sobre a legitimidade de curar no sábado: “A Lei permite curar em dia de sábado, ou não?” (Lc 14,3). A liturgia ferial proclama essa segunda narrativa na sexta-feira da 30ª semana do Tempo Comum. Temos, portanto, duas narrativas lucanas muito próximas, com a mesma controvérsia central sobre a cura no sábado, mas com personagens, ambientes e desenvolvimentos diferentes. 

  1. Em Lucas 6, Jesus está na sinagoga
  2. Em Lucas 14, está à mesa, na casa de um chefe dos fariseus.
  3.  Em Lucas 6, o homem possui a mão direita atrofiada
  4.  Em Lucas 14, há diante de Jesus um homem com hidropisia. ..
  5. No primeiro relato, Jesus pergunta se é permitido no sábado fazer o bem ou o mal, salvar uma vida ou deixá-la perecer
  6.  no segundo, pergunta diretamente se é permitido curar no sábado.
  7. Ao redor dele estão escribas e fariseus, que observam Jesus atentamente, procurando uma ocasião para acusá-lo.
 A cena, portanto, não é apenas o relato de uma cura: Lucas apresenta um confronto entre Jesus e uma determinada compreensão da Lei, colocando diante da comunidade uma questão fundamental sobre a relação entre Lei, religião, misericórdia e vida humanaA repetição do tema dentro do próprio Evangelho de Lucas é teologicamente significativa. Lucas parece querer mostrar que o conflito não se reduz a um episódio isolado: Jesus confronta repetidamente uma interpretação da Lei quando ela se torna incapaz de responder misericordiosamente diante do sofrimento humano. O tema do sábado retorna porque a questão fundamental continua sendo a mesma: o que a religião faz quando encontra uma pessoa necessitada? O episódio possui paralelos nos outros dois Evangelhos sinóticos: Mateus 12,9-13 e Marcos 3,1-6 proclamado  na Quarta-feira da 2ª Semana do Tempo Comum e e também integra uma proclamação dominical particularmente significativa: no 9º Domingo do Tempo Comum, Ano B, o Evangelho é Marcos 2,23–3,6, reunindo o episódio dos discípulos que arrancam espigas no sábado e, em seguida, a cura do homem da mão atrofiada. 

A passagem não é apenas uma memória de algo que aconteceu no passado. Ela se torna uma palavra profética para a Igreja de hoje porque continua colocando diante de nós uma questão fundamental: o que fazemos quando a norma entra em conflito com a vida concreta de uma pessoa? Em Lucas 6,6-11, Jesus está na sinagoga e encontra um homem cuja mão direita era atrofiada. Lucas chama atenção para essa condição concreta porque não estamos diante de uma questão abstrata, mas de uma pessoa marcada por uma limitação e por uma necessidade real. Ao mesmo tempo, alguns observadores estão atentos para verificar se Jesus irá curá-lo naquele dia de sábado. O sofrimento daquele homem corre o risco de desaparecer diante da preocupação com a interpretação da norma. É nesse cenário que Jesus o chama para o centro. Aquele que poderia permanecer invisível é colocado diante de todos, e Jesus não permite que seja reduzido à sua condição física nem transformado em objeto de uma disputa religiosa. Antes de qualquer discussão sobre normas, existe uma pessoa. Então Jesus pergunta: “É permitido, no sábado, fazer o bem ou fazer o mal? Salvar uma vida ou deixá-la perecer?” (Lc 6,9). A pergunta desloca o eixo da discussão. Já não basta perguntar mecanicamente o que é permitido ou proibido; é preciso discernir, diante da realidade concreta, aquilo que produz vida. Jesus não despreza a Lei, mas confronta uma interpretação que perdeu de vista sua finalidade. A norma religiosa não pode ser aplicada de maneira que a vida humana se torne secundária. Essa perspectiva encontra uma formulação particularmente forte no Evangelho de Marcos: “O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado” (Mc 2,27). Embora nossa reflexão esteja centrada em Lucas, essa palavra do Evangelho paralelo ilumina o conflito: a norma não pode tornar-se um fim em si mesma a ponto de sacrificar a pessoa que deveria servir. Marcos acrescenta que Jesus olha para aqueles que o observavam com ira e tristeza diante da dureza de seus corações (Mc 3,5), enquanto Lucas conduz a narrativa até a ordem de Jesus: “Estende a mão.” (Lc 6,10). O homem estende a mão, e ela é restaurada. A cura significa concretamente recuperação de uma capacidade corporal e abertura para novas possibilidades de vida. O Evangelho não afirma que Lucas tenha construído deliberadamente uma alegoria sobre exclusão social, mas sua narrativa permite perceber a dimensão humana da restauração: Jesus encontra uma necessidade concreta e age em favor da vida. É justamente nessa ação que a tradição cristã encontrou também uma dimensão espiritual. Santo Ambrósio, ao comentar o Evangelho de Lucas, relaciona a mão estendida à prática da caridade e à disposição para ajudar o necessitado. Essa leitura não substitui o sentido histórico do texto, mas amplia sua recepção: a relação com Deus precisa produzir uma disposição concreta para o bem do outro. O gesto de Jesus, portanto, não termina naquela sinagoga. Ele continua interpelando a comunidade cristã sempre que regras, costumes e estruturas passam a ocupar o lugar que deveria pertencer à vida humana. Quantas vezes conseguimos enxergar a norma, mas não conseguimos enxergar a pessoa? A questão é especialmente importante porque o problema não está simplesmente na existência de normas. Toda comunidade necessita de princípios, referências e critérios. O problema começa quando a norma deixa de estar a serviço da vida e passa a exigir que a vida seja sacrificada para preservá-la. Uma instituição religiosa pode conservar seus ritos, seus cargos, seus discursos e suas estruturas e, ainda assim, perder o essencial do Evangelho. Pode falar muito sobre Deus e tornar-se incapaz de reconhecer aquilo que Deus está mostrando através da realidade humana. Por isso, a Igreja não existe para proteger sua própria imagem diante daqueles que sofrem, mas para testemunhar o Cristo que se aproxima dos seres humanos, restaura sua dignidade e anuncia a vida. Suas estruturas, seus ministérios e suas normas encontram sua legitimidade quando estão a serviço dessa missão. A dimensão antropológica e pastoral do relato aparece justamente aí: não é necessário transformar artificialmente a mão atrofiada em símbolo de todas as formas de exclusão, porque o texto já apresenta uma realidade humana suficientemente forte — um homem diante de Jesus, uma comunidade religiosa ao seu redor e uma necessidade que exige discernimento. O desafio para a Igreja é não perder a pessoa concreta por trás das categorias religiosas. Essa realidade continua presente em comunidades onde pessoas carregam feridas produzidas não apenas pelas circunstâncias da vida, mas também pela indiferença, pelo julgamento, pelo abuso de autoridade ou pela preocupação excessiva com a reputação institucional. Quando isso acontece, a religião pode preservar sua aparência e, ao mesmo tempo, perder sua finalidade. A crítica não é estranha à tradição bíblica. Os profetas de Israel já denunciavam a separação entre culto e justiça: Isaías questionava uma religião que multiplicava práticas enquanto negligenciava o direito e a justiça (Is 1,10-17); Amós denunciava celebrações religiosas quando a justiça não corria como um rio (Am 5,21-24); Miquéias resumia a vontade de Deus em praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com ele (Mq 6,8). Jesus permanece nessa tradição quando afirma: “Quero misericórdia, e não sacrifício” (Mt 9,13; 12,7). Assim, Lucas 6 não apresenta apenas uma discussão sobre o sábado, mas revela o conflito permanente entre uma religião que pode se fechar sobre seus próprios mecanismos e uma fé que permanece aberta à vida. Uma comunidade pode possuir doutrina, ritos, autoridades e estruturas legítimas e, ainda assim, precisar de conversão quando essas estruturas deixam de servir à missão recebida de Cristo. O profeta não é simplesmente aquele que denuncia os pecados dos outros; é aquele que permite que a Palavra de Deus julgue também a própria comunidade. Por isso, Lucas 6 precisa alcançar nossas práticas, prioridades e estruturas eclesiais, sobretudo quando elas deixam de servir à vida. Estamos usando o Evangelho para libertar pessoas ou a religião para preservar estruturas? A resposta aparece menos nos discursos do que na maneira como uma comunidade acolhe, escuta, corrige, acompanha e restaura aqueles que sofrem. Onde a dignidade é respeitada, a justiça praticada e a misericórdia transformada em ação, o Evangelho deixa de ser apenas proclamado e passa a ser vivido. É nesse horizonte que a palavra de Jesus — “Estende a mão” (Lc 6,10) — adquire uma força que atravessa os séculos. Ela foi dirigida inicialmente a um homem concreto, dentro de uma sinagoga concreta, mas continua ecoando como chamado para uma Igreja que não pode permanecer indiferente diante da dor humana. Estender a mão significa aproximar-se, acolher, restaurar e colocar a vida novamente no centro da missão. A verdadeira fidelidade ao Evangelho não transforma a pessoa em serva da estrutura; coloca a estrutura a serviço da vida, da justiça e da misericórdia. É assim que a Igreja deixa de ser apenas guardiã de normas e se torna testemunha do Cristo que restaura. Não podemos honrar verdadeiramente a Deus enquanto ignoramos aquele que está sofrendo diante de nós.

A sinagoga de Lucas 6 continua sendo uma imagem possível de nossas comunidades. O homem da mão atrofiada continua representando todos aqueles que chegam carregando suas limitações, feridas, fracassos, dores e necessidades. Ao redor dele também continuam existindo os observadores, aqueles que conhecem a norma, sabem apontar o que é permitido ou proibido, mas nem sempre sabem estender a mão para quem sofre. Por isso, antes de perguntarmos simplesmente “o que é permitido?”, o Evangelho nos obriga a fazer perguntas mais profundas: onde está a vida, quem está sofrendo, quem precisa ser restaurado e se a nossa religião está ajudando essa pessoa a recuperar sua dignidade e a estender novamente a mão ou se, ao contrário, está contribuindo para mantê-la paralisada à margem da comunidade. Lucas 6,6-11, portanto, não é apenas uma narrativa sobre uma mão atrofiada. É uma palavra sobre o Deus que deseja restaurar a vida, sobre uma religião chamada à misericórdia e sobre uma comunidade que precisa decidir de que lado ficará quando a interpretação da norma entra em conflito com a necessidade concreta de uma pessoa. Jesus não ignora a Lei, mas confronta uma interpretação religiosa que, em nome da própria norma, pode perder de vista a finalidade maior da vontade de Deus: a vida, a dignidade e o bem do ser humano. O centro da cena não deveria ser a norma isolada do sofrimento, mas a pessoa concreta que está diante de Jesus. Por isso, quando Jesus diz “Estende a mão”, sua palavra atravessa o tempo e chega também às nossas comunidades. Ele não está apenas ordenando um gesto físico; está devolvendo àquele homem a possibilidade de participar novamente, de recuperar sua dignidade e de ocupar seu lugar no meio da comunidade. A mão que estava atrofiada torna-se sinal de uma vida que pode ser reconstruída. Talvez, então, a pergunta mais profunda do Evangelho não seja apenas se a mão daquele homem foi curada naquele sábado, mas se nós ainda somos capazes de estender nossas próprias mãos diante de Deus, diante do próximo e diante daqueles que a sociedade e, algumas vezes, a própria religião deixaram à margem. Afinal, uma comunidade verdadeiramente fiel ao Evangelho não pode ser aquela que simplesmente sabe dizer o que é permitido, mas aquela que, seguindo Jesus, reconhece quem está sofrendo, aproxima-se de quem foi excluído e trabalha para que mãos paralisadas pela dor, pelo abandono, pelo preconceito, pela pobreza, pelo fracasso ou pela própria experiência religiosa possam novamente se abrir para a vida. Lucas conduz o leitor até a cena da cura do homem da mão atrofiada por meio de uma sequência cuidadosamente construída. Jesus já havia chamado os primeiros discípulos, curado enfermos, perdoado pecados, acolhido Levi e provocado controvérsias relacionadas ao jejum e ao sábado. Em Lucas 5,31-32, declara que veio chamar pecadores e, em 5,36-39, apresenta as imagens do remendo novo e do vinho novo, preparando o leitor para compreender que a presença do Reino de Deus não pode ser aprisionada por interpretações incapazes de acolher sua novidade. Em Lucas 6,1-5, os discípulos colhem espigas em dia de sábado, e Jesus recorda o episódio de Davi em 1 Samuel 21,1-6, concluindo que o Filho do Homem é senhor do sábado. Assim, a narrativa prepara uma questão muito mais profunda do que uma simples discussão sobre calendário religioso: trata-se de discernir como a vontade de Deus deve ser interpretada quando uma norma religiosa entra em tensão com uma necessidade humana concreta.  A Torá, entretanto, não deve ser apresentada como inimiga do ser humano. Fazer isso seria historicamente injusto e teologicamente equivocado. Na tradição bíblica, a Lei é expressão da aliança e orientação para um povo que havia experimentado a libertação. O próprio sábado possui uma dimensão profundamente social. Êxodo 20,8-11 estabelece o descanso, enquanto Deuteronômio 5,12-15 relaciona o mandamento à memória da escravidão no Egito: aquele que conheceu a opressão não deveria reproduzi-la sobre os outros. O descanso alcançava trabalhadores, servos, estrangeiros e animais. O mandamento continha, portanto, uma crítica à lógica de uma existência permanentemente submetida à produção. Quando Jesus intervém no sábado, não está simplesmente destruindo essa tradição, mas recuperando seu propósito diante de uma interpretação que corre o risco de colocar o mandamento acima da pessoa. É nesse contexto que a presença de um homem com a mão direita atrofiada adquire força narrativa e teológica. A mão não representa apenas uma parte do corpo; ela está relacionada ao trabalho, à capacidade de produzir, sustentar-se, participar da vida comunitária e exercer autonomia. Sua limitação poderia significar dependência econômica e redução das possibilidades de inserção social. Lucas, porém, não reduz aquele homem à sua deficiência. Ele está na sinagoga, participando do espaço comunitário de oração e escuta, e sua presença recorda que a fragilidade não elimina o direito de pertencer. O corpo marcado pela limitação torna-se precisamente o lugar onde a verdadeira finalidade da Lei será revelada...

Os escribas e fariseus observam Jesus atentamente, procurando saber se ele curaria no sábado para encontrar motivo de acusação. O problema aparece na inversão do olhar: diante de uma pessoa que sofre, a preocupação central passa a ser a possibilidade de incriminar alguém. O sofrimento humano deixa de ocupar o centro e transforma-se em instrumento de disputa religiosa. Esse mecanismo não pertence apenas ao passado. Ele reaparece sempre que uma pessoa concreta desaparece atrás de uma regra, de uma estatística, de um discurso, de uma estrutura ou de uma disputa institucional. O outro deixa de ser alguém diante de nós e passa a ser apenas um caso que precisa ser classificado. Jesus rompe essa lógica ao chamar o homem para o centro. O gesto é mais eloquente do que qualquer discurso: aquele que poderia permanecer invisível torna-se o ponto de referência da assembleia. A pessoa antes observada a partir de sua deficiência é reconhecida como sujeito. Esse movimento está em continuidade com o programa apresentado em Lucas 4,18-19, quando Jesus anuncia boa notícia aos pobres, liberdade aos cativos e libertação aos oprimidos. O Reino modifica a direção do olhar: aquilo que normalmente é empurrado para as margens passa a interpelar o centro. É então que Jesus formula a pergunta decisiva: “É permitido, no sábado, fazer o bem ou fazer o mal, salvar uma vida ou destruí-la?” A questão desloca o debate do campo meramente formal para o discernimento moral. Não basta perguntar se uma determinada ação está tecnicamente autorizada por uma regra; é necessário discernir se aquilo que estamos fazendo corresponde ao caráter de Deus. A misericórdia não aparece como simples concessão sentimental, mas como parte da própria revelação bíblica. Oséias 6,6 coloca a misericórdia acima dos sacrifícios; Miquéias 6,8 resume o caminho desejado por Deus em praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com ele. Jesus, portanto, não inventa uma religião paralela ao judaísmo. Ele participa da própria tradição profética de Israel, que denunciava continuamente uma religiosidade capaz de preservar ritos enquanto negligenciava a justiça. Isaías 1,11-17 rejeita uma abundância de cerimônias acompanhada de injustiça; Amós 5,21-24 denuncia festas, cânticos e celebrações quando a sociedade permanece marcada pela opressão; Isaías 58,6-7 identifica o verdadeiro jejum com a libertação dos oprimidos e a partilha do pão. A crítica de Jesus nasce desse mesmo horizonte: o problema não está na existência da religião, do culto ou da Lei, mas na sua deformação quando a observância perde sua finalidade e se transforma em instrumento de acusação, exclusão ou indiferença.

Jesus manda o homem estender a mão, e ele o faz; sua mão é restaurada. A cura acontece sem espetáculo e sem transformar o homem em objeto de exibição. O sinal está na restituição de uma capacidade concreta. A pessoa recupera uma possibilidade de ação que antes estava comprometida. Essa dimensão é fundamental para compreender a salvação nos Evangelhos: Deus não trabalha apenas no plano das ideias religiosas, mas toca corpos, relações, vínculos, consciências e condições concretas de existência. Por isso, Tiago 2,14-17 questiona uma fé que oferece palavras piedosas a quem não possui alimento ou roupa, enquanto 1 João 3,17-18 pergunta como o amor de Deus pode permanecer em alguém que vê o irmão necessitado e fecha o coração. A fé bíblica não se satisfaz com declarações abstratas de compaixão; ela precisa produzir gestos capazes de devolver dignidade, participação e possibilidade de vida.vOs relatos paralelos de Mateus 12,9-14 e Marcos 3,1-6 aprofundam diferentes aspectos da mesma tradição. Mateus acrescenta o exemplo da ovelha que cai numa cova, reforçando que, se alguém socorre um animal em situação de perigo, quanto mais uma pessoa deve ser socorrida. Marcos apresenta Jesus olhando ao redor com indignação e tristeza diante da dureza dos corações. Lucas, por sua vez, concentra a cena na pergunta sobre fazer o bem, salvar ou destruir. As perspectivas literárias são diferentes, mas convergem num mesmo ponto: a interpretação religiosa não pode ser utilizada para justificar a omissão diante de quem necessita de auxílio. E é importante preservar o contexto histórico para evitar qualquer leitura antissemita. Jesus está dentro do universo judaico do primeiro século e participa de um debate interno de Israel sobre a interpretação da Lei. Ele não está combatendo “os judeus” como povo nem tratando a Torá como uma invenção perversa. O próprio Novo Testamento apresenta personagens e correntes judaicas de maneira complexa: Paulo se identifica como fariseu em Filipenses 3,5; Nicodemos dialoga com Jesus em João 3; Gamaliel aconselha prudência em Atos 5,34-39. A crítica de Jesus dirige-se a uma determinada postura diante da Lei, especialmente quando a observância deixa de servir à vida e passa a funcionar como mecanismo de condenação. Esse discernimento ultrapassa o ambiente da sinagoga porque toda sociedade produz normas, instituições e autoridades. Leis podem proteger direitos, organizar responsabilidades e impedir abusos, mas também podem ser instrumentalizadas para conservar privilégios. Instituições são necessárias, porém podem desenvolver mecanismos destinados mais à própria preservação do que à finalidade para a qual foram criadas. O mesmo pode acontecer nas comunidades religiosas: a tradição pode conservar a memória da fé ou transformar-se em argumento contra toda renovação; a disciplina pode favorecer maturidade ou produzir medo; a autoridade pode servir ou dominar. Marcos 2,27 oferece uma síntese decisiva: “O sábado foi feito por causa do homem, e não o homem por causa do sábado.” A afirmação estabelece uma ordem de prioridades. Leis, costumes e instituições existem para servir à vida humana e à convivência, não para exigir que pessoas sejam sacrificadas à sua manutenção. Esse princípio alcança a economia, a política, a administração pública, o direito e também as comunidades de fé. Quando uma organização se torna incapaz de rever seus procedimentos diante do sofrimento humano, corre o risco de proteger sua própria lógica em vez de cumprir sua missão. É justamente nesse ponto que o Evangelho interpela a Igreja. A comunidade cristã necessita de autoridade, ministérios, normas e organização, mas tudo isso deve permanecer subordinado ao Evangelho. Jesus estabelece em Marcos 10,42-45 uma diferença radical entre o poder que domina e a autoridade que serve, e em João 13,12-15 confirma essa lógica ao lavar os pés dos discípulos. A autoridade cristã não se demonstra pela distância que mantém das pessoas, mas pela capacidade de aproximar-se delas e colocar-se a serviço. O clericalismo aparece quando essa ordem se inverte, quando uma função religiosa passa a conferir privilégios pessoais, quando a instituição se torna mais preocupada com sua imagem do que com as pessoas feridas e quando a voz institucional se torna mais importante do que a dignidade daqueles que deveriam ser acolhidos. Uma Igreja fiel ao Evangelho precisa, por isso, criar espaços reais de escuta, responsabilidade, correção e prestação de contas, sobretudo diante daqueles que possuem menos poder para serem ouvidos.

A mão atrofiada pode também ser compreendida como imagem das muitas formas pelas quais a existência humana é limitada por condições que as pessoas nem sempre escolheram: pobreza, desemprego, precariedade habitacional, deficiência, violência, abandono, falta de oportunidades e exclusão social. Isso não significa reduzir toda dificuldade humana a explicações simplistas, mas reconhecer que a fé não pode permanecer indiferente diante das estruturas que produzem sofrimento. Isaías 10,1-2 denuncia aqueles que utilizam o poder para retirar direitos dos vulneráveis; Provérbios 31,8-9 ordena falar em favor de quem não consegue defender-se; Amós 5,24 exige que a justiça atravesse a vida pública. A fé bíblica, portanto, não pode ser confinada à esfera privada. Ela pergunta como decisões econômicas, políticas, jurídicas e comunitárias afetam pessoas concretas. Fazer o bem inclui reconhecer que determinadas formas de organização social podem produzir sofrimento e que a responsabilidade cristã exige transformar aquilo que desumaniza.  A mão humana pode construir, alimentar, cuidar e abraçar, mas também pode ferir. O Evangelho não transforma a paz em ingenuidade nem a misericórdia em abandono das vítimas. Mateus 5,9 chama felizes os que promovem a paz, enquanto 5,44 radicaliza essa proposta ao falar do amor aos inimigos. Romanos 12,19-21 impede o discípulo de reproduzir o mal como princípio de resposta. Isso não significa eliminar responsabilidade, proteção ou reparação diante de uma injustiça; significa impedir que a vingança seja elevada à condição de virtude. A justiça cristã precisa proteger quem sofreu, responsabilizar quem praticou o mal e buscar reparação sem transformar a violência em fundamento permanente das relações. Eles já se aproximam da cena com uma conclusão praticamente formada e procuram no comportamento dele aquilo que confirme sua suspeita. Esse mecanismo de confirmação permanece presente na vida contemporânea. Muitas vezes julgamos pessoas antes de conhecer suas histórias, interpretamos comportamentos sem compreender suas circunstâncias e transformamos diferenças em ameaças. O Evangelho não pede ausência de discernimento; Jesus denuncia o pecado, confronta a hipocrisia e estabelece limites. O que ele rejeita é o julgamento arrogante e superficial. Mateus 7,1-5 chama a atenção para a necessidade de reconhecer primeiro nossas próprias contradições, enquanto João 7,24 pede que não se julgue pelas aparências, mas segundo a justiça. Discernir é diferente de condenar; corrigir é diferente de humilhar; estabelecer limites é diferente de excluir. A maturidade cristã consiste em sustentar convicções sem perder a humanidade. Esse princípio também alcança os conflitos políticos e culturais do nosso tempo. O farisaísmo não pertence exclusivamente a uma religião, partido ou ideologia. Ele surge sempre que alguém transforma sua própria posição em medida absoluta da humanidade dos outros. Pode aparecer entre conservadores ou progressistas, religiosos ou secularizados, militantes ou críticos da religião. Manifesta-se quando condenamos determinada violência e justificamos outra porque foi praticada por aqueles que consideramos aliados; quando defendemos valores abstratos sem considerar suas consequências concretas; quando transformamos adversários em inimigos absolutos ou usamos princípios morais seletivamente. O Evangelho exige coerência: não podemos pedir misericórdia para nós enquanto desejamos destruição para aqueles que pensam diferente. A misericórdia evangélica não elimina a verdade nem impede a crítica; ela impede que a crítica seja desumanizada.

Jesus não propõe uma sociedade sem critérios nem ensina que tudo é relativo. Ele exige que nossos critérios sejam submetidos à verdade, à justiça, à misericórdia e ao discernimento. A religião vazia constitui uma das maiores advertências dessa passagem porque pode conservar ritos, linguagem sagrada e aparência de fidelidade enquanto perde a capacidade de perceber o sofrimento que acontece diante dos próprios olhos. Em Lucas 11,39-42, Jesus denuncia aqueles que se preocupam com aparências enquanto negligenciam a justiça e o amor de Deus; em Mateus 23,23 coloca entre as coisas mais importantes da Lei a justiça, a misericórdia e a fidelidade. Sua crítica não é contra a espiritualidade, mas contra uma espiritualidade desconectada da realidade. Uma religião que não consegue reconhecer a pessoa ferida que está diante dela pode manter suas estruturas, seus discursos e seus ritos, mas perdeu o centro ético do Evangelho. Por isso, a narrativa exige conversão não apenas individual, mas também comunitária e institucional. Antes de identificar os fariseus nos outros, precisamos reconhecer nossas próprias resistências. Também podemos utilizar normas para evitar responsabilidades, certezas para fugir de perguntas, tradições para proteger privilégios ou argumentos religiosos para justificar indiferença. Podemos transformar a fé em abrigo contra a realidade quando ela deveria abrir nossos olhos para aquilo que acontece nela. O homem da mão atrofiada nos obriga a olhar novamente porque existe alguém diante de nós, existe uma necessidade concreta e existe uma possibilidade de agir. O desfecho da narrativa mostra que essa liberdade tem um preço. Depois da cura, os adversários ficam furiosos e começam a discutir o que poderiam fazer contra Jesus; Marcos 3,6 informa que os fariseus saíram e passaram a tramar com os herodianos contra ele. Aquele que restaurou uma pessoa tornou-se ameaça para aqueles comprometidos com determinada ordem. A reação antecipa o caminho da cruz: Jesus não será perseguido porque deixou de fazer o bem, mas porque sua maneira de revelar Deus confronta certezas, interesses e mecanismos de poder. A cruz revelará de forma extrema o conflito entre a lógica do Reino e aqueles que preferem preservar seus próprios interesses. A Igreja precisa guardar essa memória com temor e humildade, porque nenhuma comunidade está imune à tentação de proteger sua imagem, esconder seus fracassos ou silenciar aqueles que incomodam. Uma comunidade verdadeiramente evangélica precisa ser capaz de ouvir críticas, reconhecer erros, acolher pessoas feridas e permitir que a verdade provoque transformação. Sua segurança não pode estar na suposta perfeição de suas estruturas, mas em Cristo, que morreu e ressuscitou. A mão restaurada permanece, assim, como uma imagem poderosa da dinâmica do Evangelho: Jesus não apenas percebe o sofrimento; ele age. Não apenas denuncia uma interpretação inadequada; oferece outro caminho. Não apenas fala sobre dignidade; coloca uma pessoa vulnerável no centro e devolve-lhe a capacidade de agir. Essa é a dinâmica que o discípulo é chamado a prolongar. A fé precisa tornar-se presença, cuidado, defesa dos vulneráveis, compromisso com a justiça e coragem diante de tudo aquilo que desumaniza

No fim, a pergunta de Jesus permanece diante de cada consciência e de cada comunidade: fazer o bem ou fazer o mal, salvar ou deixar perecer? A resposta não pode ser apenas verbal, porque aparece na maneira como tratamos aqueles que dependem de nós, utilizamos nossa autoridade, interpretamos nossas normas, reagimos diante do sofrimento e acolhemos aqueles que não correspondem às nossas expectativas. O homem que estende a mão diante de Jesus recorda que nenhuma pessoa deve ser sacrificada para que uma regra, uma instituição, uma tradição, uma ideologia ou uma reputação permaneça intacta. O Evangelho nos ensina, portanto, a distinguir fidelidade de rigidez, autoridade de dominação, tradição de imobilismo e discernimento de condenação. Quando uma pessoa ferida estiver diante de nós, não poderemos esconder sua humanidade atrás de procedimentos ou discursos religiosos. O verdadeiro culto não está em preservar uma aparência de fidelidade enquanto alguém continua sofrendo, mas em permitir que a vontade de Deus produza vida. Naquele sábado, Jesus mostrou que a Lei encontra sua plenitude quando serve à vida, que a autoridade encontra sua legitimidade quando serve às pessoas e que a fé encontra sua verdade quando se transforma em misericórdia concreta. A mão restaurada torna-se, assim, um sinal profético: onde o Evangelho chega, aquilo que estava atrofiado deve encontrar possibilidade de movimento, aquilo que estava excluído deve encontrar lugar e aquilo que estava submetido à indiferença deve voltar ao centro da atenção humana e cristã.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Um breve olhar sobre São Lucas 6,1-5

Há textos do Evangelho que parecem pequenos episódios do cotidiano, mas carregam dentro de si uma verdadeira crise de interpretação da fé. Lucas 6,1-5 pertence a esse grupo. A cena é breve, porém coloca frente a frente diferentes maneiras de compreender a relação entre Deus, a tradição religiosa e a existência concreta das pessoas. Esse relato não aparece isolado na tradição dos Evangelhos. Ele possui paralelos nos outros dois Evangelhos Sinóticos: Mateus 12,1-8 e Marcos 2,23-28. Os três relatos apresentam o mesmo episódio fundamental, mas cada evangelista o organiza segundo sua própria narrativa e perspectiva teológica. A própria tradição bíblica identifica explicitamente esses textos como paralelos.

  • Marcos formula de maneira particularmente direta: “O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado” (Mc 2,27). 
  • Mateus acrescenta à discussão a palavra profética de Oséias: “Quero misericórdia e não sacrifício” (Mt 12,7).
  •  Lucas, por sua vez, conduz o episódio para a afirmação: “O Filho do Homem é senhor também do sábado” (Lc 6,5).
 Essas diferenças não são meros detalhes de redação; ajudam a perceber as ênfases próprias de cada narrativa..A liturgia proclama essas três versões em momentos diferentes do Tempo Comum. Marcos 2,23-28 é proclamado na terça-feira da 2ª semana do Tempo Comum; Mateus 12,1-8, na sexta-feira da 15ª semana; e Lucas 6,1-5, no sábado da 22ª semana. O relato está inserido no contexto judaico do século I, no qual o sábado possuía profundo significado religioso e social. Por isso, a controvérsia narrada por Lucas não deve ser reduzida a uma simples discussão sobre uma prática cotidiana. O conflito envolve interpretação da tradição, autoridade religiosa e compreensão daquilo que Deus deseja de seu povo.A liturgia, ao colocar novamente esse texto diante da comunidade, não nos convida apenas a recordar uma discussão antiga. Ela nos coloca diante de uma questão permanente: como uma tradição destinada a aproximar o ser humano de Deus pode ser interpretada sem perder de vista a própria pessoa humana?

Essa pergunta é particularmente importante porque toda comunidade religiosa corre o risco de transformar meios em fins, formas em absolutos e tradições em instrumentos de julgamento. O problema não está necessariamente na existência de normas, ritos ou tradições; está no momento em que aquilo que deveria servir à vida começa a exigir que a vida se submeta cegamente à sua própria estrutura. É nesse ponto que Lucas 6,1-5 começa a ultrapassar os limites de uma controvérsia sobre o sábado. A passagem abre uma discussão muito mais ampla sobre lei, liberdade, consciência, autoridade, tradição, misericórdia e dignidade humana.

E é justamente aí que a Palavra deixa de ser apenas uma história antiga e começa a fazer perguntas desconfortáveis à nossa própria maneira de viver a fé.  Diante da cena aparentemente simples, mas profundamente reveladora do coração da fé. Jesus passa por plantações em dia de sábado, e seus discípulos colhem espigas para comer, sendo criticados pelos fariseus que os observam com olhar rígido, buscando neles a falha. A resposta de Jesus remete a Davi e seus companheiros que comeram os pães da proposição, destinados apenas aos sacerdotes, mostrando que a lei, quando se torna instrumento de exclusão, perde o seu sentido mais profundo. Este episódio, situado no capítulo 6 do Evangelho segundo São Lucas, é proclamado também em paralelo com os relatos de Mateus 12,1-8 e Marcos 2,23-28, e aparece ainda em outro contexto litúrgicos, quando se celebra a centralidade da misericórdia sobre os sacrifícios, ecoando a profecia de Oséias 6,6: “Quero amor, e não sacrifício, conhecimento de Deus, mais que holocaustos.”

Se olharmos bem, Lucas, com seu estilo peculiar, não apenas narra um incidente. Ele introduz um conflito fundamental entre uma leitura legalista da fé e uma abertura para a plenitude da vida que Jesus inaugura. Aqui se encontra o “contexto e o pretexto” da cena. O contexto imediato é o sábado, o dia de descanso, que no judaísmo é sinal da Aliança, recordação da libertação do Egito (cf. Dt 5,15) e do repouso de Deus após a criação (cf. Gn 2,2-3). O pretexto é a denúncia feita contra os discípulos: ao colher espigas e debulhá-las com as mãos, eles estariam violando a lei. Mas o verdadeiro sentido em jogo não é a colheita em si, e sim a visão de Deus que se transmite. Jesus responde com sabedoria profética: não é o sábado que rege o homem, mas o homem que dá sentido ao sábado, porque “o Filho do Homem é senhor também do sábado” (Lc 6,5). O gesto dos discípulos é um gesto de fome, de necessidade, e a fome não espera o relógio da lei. O sábado, em sua intenção original, era dom de libertação, descanso, justiça social, proteção dos pobres e dos trabalhadores, até mesmo dos animais (cf. Ex 20,8-11). Mas no curso da história, foi sendo recoberto por camadas de interpretações rígidas, transformando-se em peso. Jesus denuncia essa distorção: o que deveria ser sinal de vida e liberdade se tornou instrumento de controle e opressão. O paralelo com Marcos 2,27 é ainda mais explícito: “O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado.” Essa afirmação é revolucionária, porque coloca a dignidade humana acima de qualquer ritualismo que negue a vida. Jeremias já havia advertido contra a falsa compreensão do sábado, recordando que ele não deve ser mero fardo (cf. Jr 17,21-22), e Miqueias 6,8 proclamava: “O que o Senhor te pede é apenas praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com o teu Deus.”  

O ser humano é mais do que suas práticas exteriores. Somos seres de desejo, de fome, de carência, e também de transcendência. O sábado deveria nutrir esse duplo aspecto — o descanso do corpo e a abertura do espírito — e não reprimir a vida. Mas quantas vezes, ao longo da história, vemos a religião transformada em instrumento de poder? Santo Irineu já advertia no século II: “A glória de Deus é o ser humano vivo, e a vida do ser humano é a visão de Deus” (Adversus Haereses, IV,20,7). Quando se usa o nome de Deus para esmagar vidas, trai-se a própria revelação. Esse evangelho provoca, o olhar dos fariseus de ontem e hoje  sobre os discípulos é o olhar que julga a partir da aparência, fixo na norma, incapaz de ver a necessidade, a fome, a fragilidade. É o olhar que se alimenta da acusação, do policiamento dos gestos alheios, que Freud chamaria de expressão do superego tirânico, e que a sociologia de Michel Foucault analisaria como dispositivo de controle. É o olhar do poder que vigia, e que se sente seguro não na liberdade do outro, mas na sua submissão. Jesus, ao contrário, educa um olhar diferente: não o olhar que condena, mas o olhar que discerne, que enxerga as motivações, que acolhe a necessidade humana.

Podemos perceber que aqui está em jogo a relação entre lei e vida. Kant falaria do imperativo categórico, mas Jesus vai além: não basta a universalidade da norma; é preciso que a norma esteja a serviço da vida. Hegel diria que o espírito supera a letra, e que a liberdade é a verdade da lei. São Tomás de Aquino já havia afirmado que a lei humana e a lei religiosa devem ser ordenadas ao bem comum, e que quando uma lei não conduz à justiça, perde seu caráter de lei. O que Jesus realiza é o cumprimento dessa intuição filosófica e teológica: a lei do sábado deve ser interpretada a partir da vida, e não o contrário. Se faz necessário  lembrar que o sábado, em tempos de opressão estrangeira, era sinal de resistência identitária do povo judeu. Guardar o sábado significava afirmar: “Nós somos o povo da Aliança, e não servos de César.” Mas com o tempo, essa resistência se cristalizou em rigidez. Jesus não abole o sábado, mas o reconduz à sua raiz libertadora. Isso nos ajuda a compreender que toda instituição corre o risco de se corromper quando perde de vista sua razão de ser. A mesma dinâmica acontece na Igreja: quando o culto se torna espetáculo, quando a liturgia vira performance estética desvinculada da vida, quando a fé é reduzida a mercadoria de consumo, perdemos o sentido original do Evangelho. 

A teologia da prosperidade promete bênçãos materiais em troca de sacrifícios financeiros, transformando Deus em banqueiro e a fé em contrato de mercado. A teologia do domínio prega que os cristãos devem conquistar as estruturas de poder para impor sua moral ao mundo, reduzindo o Evangelho a ideologia política. A fé individualista, por sua vez, transforma a relação com Deus em experiência solitária, descompromissada com o próximo e com a justiça. E a fé-mercadoria é aquela que transforma ritos, objetos e experiências religiosas em produtos a serem vendidos, numa lógica de marketing espiritual. Todas essas distorções se assemelham aos fariseus que vigiam os discípulos: preocupam-se com a forma, mas não com a vida. E o clericalismo é outro fruto amargo dessa mesma árvore. Quando o sacerdote se coloca acima do povo, como se fosse dono do sagrado, transforma-se em guardião da lei opressora, e não em ministro da graça. O Papa Francisco, em diversas ocasiões, chamou o clericalismo de “a peste da Igreja”. O Concílio Vaticano II, na Gaudium et Spes (n. 63-66), recorda que a missão da Igreja é ler os sinais dos tempos à luz do Evangelho, e não se fechar em legalismos. Na Evangelii Gaudium (n. 49), Francisco insiste que “prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças.” O Evangelho de hoje ilustra essa opção: Jesus prefere discípulos famintos colhendo espigas a discípulos paralisados pelo medo da lei.

Santo Agostinho, comentando os Salmos, dizia que a lei sem o Espírito mata, mas o Espírito vivifica. Orígenes lembrava que o sábado é figura do repouso em Deus, mas que esse repouso só existe quando o coração está em paz com o próximo. Crisóstomo denunciava os cristãos que, em nome da religião, desprezavam os pobres, chamando-os de “piores que os fariseus”. Ambrósio de Milão afirmava: “Não é o alimento reservado que agrada a Deus, mas o pão repartido.” Basílio de Cesareia pregava que “o pão que tu guardas pertence ao faminto, o manto que escondes no armário pertence ao nu.” A tradição da Igreja nunca foi unânime em torno de rigidez legal, mas sempre buscou interpretar a lei à luz da caridade.

Quando Jesus afirma que o Filho do Homem é senhor do sábado, ele está proclamando que a vida humana, iluminada pelo Espírito, é mais importante que qualquer código fechado. Isso é escandaloso para os legalistas, mas libertador para os que têm fome. E não é apenas fome de pão, mas fome de justiça, fome de dignidade, fome de reconhecimento. O profeta Isaías já havia denunciado um jejum hipócrita, em que se afligia o corpo mas se explorava o trabalhador (cf. Is 58,3-6). Amós criticava os comerciantes que mal esperavam o sábado passar para explorar os pobres (cf. Am 8,4-6). Jesus, ao interpretar o sábado, realiza a mesma denúncia: o descanso verdadeiro é aquele que liberta, não aquele que oprime.

Hoje, quantas vezes não repetimos os erros dos fariseus? 

Quando julgamos a vida alheia a partir das aparências, quando reduzimos a religião a um conjunto de regras externas, quando transformamos Deus em opressor, esquecemos que Ele é Pai amoroso. A psicologia nos lembra que esse tipo de religião gera ansiedade, culpa tóxica, neurose, medo. A sociologia mostra que sistemas religiosos de controle alimentam desigualdades e mantêm privilégios. A antropologia revela que toda sociedade cria ritos, mas quando os ritos se absolutizam, perdem seu poder de gerar vida e se tornam instrumentos de dominação. O Evangelho, porém, insiste: o sábado existe para que todos, inclusive os pobres e marginalizados, possam descansar e viver.

Assim, o texto deste sábado da 22ª semana do Tempo Comum nos recorda que a lei só tem sentido quando promove a vida. Jesus não é contra o sábado; ele é contra o uso do sábado como arma contra os famintos. Ele nos convida a olhar para além da letra, a discernir as motivações, a priorizar o amor. Essa é a Boa Nova: Deus não é um ditador em busca de súditos subservientes, mas Pai amoroso que quer filhos livres e vivos. Seguir Jesus é aprender a ser senhor do sábado, a colocar a vida no centro, a não temer os olhares acusadores, mas a responder com liberdade e misericórdia.

No fim, fica uma pergunta que talvez incomode mais do que qualquer homilia bem comportada: 

  • Que tipo de religião estamos construindo? 

Uma religião que ajuda as pessoas a viver ou uma religião especializada em fiscalizar a vida dos outros? Porque há quem tenha doutorado em pecado alheio, pós-graduação em escândalo e especialização em apontar o dedo, mas, curiosamente, pouca experiência em misericórdia. Conhece o comportamento de todo mundo, sabe quem pode comungar, quem está “fora dos padrões”, quem está vestido corretamente, quem está orando do jeito certo e até quem Deus deveria aceitar, só esqueceram de combinar tudo isso com Jesus. Há uma espécie de “alfândega espiritual” funcionando em certos ambientes religiosos, onde, para uns, a porta é larga, enquanto para outros exigem documento, carimbo, antecedentes religiosos e até comprovante de santidade. Enquanto isso, o Evangelho fica esperando do lado de fora. O problema é que Jesus nunca pareceu muito interessado em montar um departamento de fiscalização da graça. Pelo contrário, ele frequentemente atravessa as fronteiras religiosas que os homens construíram e vai justamente ao encontro daqueles que os especialistas em pureza preferiam manter à distância. Talvez por isso o Evangelho continue sendo perigoso, porque Jesus não veio ensinar pessoas a ficarem “certinhas” diante dos outros, mas a viverem reconciliadas com Deus, com o próximo e consigo mesmas.

E aqui o clericalismo precisa ouvir uma palavra profética: ministro não é proprietário do sagrado, sacerdote não é gerente de Deus e liderança religiosa não é licença para controlar consciências. Quem transforma o ministério em pedestal já começou a descer do Evangelho, mesmo que continue subindo ao altar. Também precisamos desconfiar daquela religião que fala muito de céu, mas parece ter pouca paciência com quem sofre na terra; daquela que organiza congresso sobre família, mas não sabe acolher uma família em crise; daquela que prega humildade em palco iluminado, com microfone na mão e aplausos garantidos; e daquela que fala de pobreza com uma teologia caríssima e de sacrifício com o cartão de crédito dos outros. Há coisas que só o humor consegue denunciar sem precisar gritar. Jesus desmonta a solenidade dos donos da religião com uma pergunta simples: onde está o ser humano no meio de tanta regra? Talvez seja exatamente aí que nossa conversão precise começar. Antes de perguntar se alguém está cumprindo todas as normas, precisamos perguntar se está conseguindo viver; antes de condenar, precisamos escutar; antes de expulsar, precisamos nos aproximar; e antes de usar Deus para fechar portas, precisamos descobrir se Jesus não está justamente abrindo uma. Porque uma Igreja que precisa diminuir pessoas para parecer santa já perdeu o rumo, uma religião que precisa controlar consciências para manter autoridade já está confessando sua própria fragilidade, e uma fé que se escandaliza mais com uma espiga colhida no sábado do que com uma pessoa esmagada pela vida talvez precise urgentemente voltar a ler o Evangelho. Jesus não precisa de guardas do templo com prancheta na mão, mas de discípulos com coração, consciência e coragem. E, se isso incomodar os profissionais da fiscalização religiosa, que façam uma pausa, respirem fundo e consultem o Evangelho. Só não vale arrancar as páginas que incomodam.

DNonato – Teólogo do Cotidiano


domingo, 30 de agosto de 2026

Um breve olhar sobre Lucas 4,16-30

 
A perícope de Lucas 4,16-21 ocupa um lugar privilegiado na vida litúrgica da Igreja. Ela é proclamada integralmente na segunda-feira da 22ª semana do Tempo Comum, quando a comunidade retoma o caminho ordinário da escuta da Palavra e do discipulado cotidiano, e aparece também em forma condensada no 3º Domingo do Tempo Comum do ano C, dia que, por iniciativa do Papa Francisco, foi instituído como o Domingo da Palavra de Deus, ressaltando a centralidade da Escritura na vida e na missão da Igreja. Além disso, o mesmo núcleo temático ressoa profundamente na Missa do Crisma, celebrada na Quinta-feira Santa, quando o bispo consagra os santos óleos e renova-se o compromisso ministerial, evocando explicitamente a unção do Espírito que configura Cristo como aquele que foi enviado para evangelizar os pobres. Nas tradições das Igrejas históricas, tanto no Oriente quanto no Ocidente, este texto é igualmente reconhecido como uma epifania da identidade messiânica de Jesus e como síntese programática de sua missão. A liturgia, ao situá-lo nesses momentos, não apenas recorda um acontecimento passado, mas atualiza um princípio teológico fundamental: a Palavra de Deus é sempre contemporânea, sempre hoje.
A cena se insere no início do ministério público de Jesus segundo o Evangelho de Lucas. Após o batismo no Jordão, onde o Espírito desce sobre ele em forma corpórea como uma pomba, e após a experiência do deserto, marcada pelo confronto com as tentações que pretendiam desviar sua missão para caminhos de poder, espetáculo e domínio, Jesus retorna à Galileia “no poder do Espírito” (Lc 4,14). Este detalhe não é meramente descritivo, mas profundamente teológico. Ele indica que tudo o que se segue será ação do Espírito na história. O retorno a Nazaré, sua terra de origem, não é apenas um deslocamento geográfico, mas um movimento simbólico de encarnação da missão no espaço concreto da vida cotidiana.
Nazaré, pequena aldeia da Galileia, estava distante dos centros de poder político e religioso como Jerusalém e Cesareia. Era um lugar marginal no mapa do mundo antigo, expressão das periferias históricas onde a vida se desenrola sob condições de invisibilidade social. A Galileia do primeiro século era uma região marcada por tensões econômicas e culturais, com forte presença de camponeses submetidos à exploração tributária do Império Romano e das elites locais. A leitura desse contexto, iluminada pela história do Mediterrâneo antigo, revela que a proclamação de Jesus não ocorre em um vazio neutro, mas em um ambiente de desigualdade estrutural, opressão econômica e expectativa messiânica.
Ao entrar na sinagoga, Jesus se insere na tradição viva de Israel. A sinagoga, surgida no período do exílio e consolidada no pós-exílio, era o espaço da memória coletiva, da leitura da Torá e dos Profetas, da oração comunitária e da formação da identidade do povo. O gesto de levantar-se para ler (Lc 4,16) é carregado de significado. Não se trata apenas de uma função litúrgica, mas de uma tomada de posição diante da tradição. Ele recebe o rolo do profeta Isaías e encontra a passagem que proclama a unção do Espírito sobre o enviado. O texto de Isaías 61,1-2, combinado com elementos de Isaías 58,6, anuncia libertação, cura, restauração e justiça.
Quando Jesus lê “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para anunciar a boa nova aos pobres” (Lc 4,18), ele não está apenas citando uma profecia, mas reinterpretando toda a expectativa messiânica de Israel. A unção, no mundo bíblico, designa a consagração para uma missão específica. Reis, sacerdotes e profetas eram ungidos como sinal de eleição divina. Aqui, porém, a unção não legitima poder político nem status religioso, mas uma missão voltada aos pobres, aos cativos, aos cegos e aos oprimidos. Trata-se de uma inversão radical da lógica dominante.
O termo “pobres” não deve ser reduzido a uma categoria puramente espiritual. No contexto bíblico, especialmente na tradição dos anawim, refere-se aos que são materialmente despossuídos e socialmente vulneráveis, mas também abertos à ação de Deus. A boa nova anunciada a eles é concreta, histórica, libertadora. A libertação dos cativos remete tanto à experiência do exílio quanto às diversas formas de escravidão e opressão presentes na sociedade. A recuperação da vista aos cegos evoca não apenas curas físicas, mas a iluminação interior que permite perceber a realidade à luz de Deus. A libertação dos oprimidos aponta para a ruptura de estruturas injustas.
O anúncio do “ano da graça do Senhor” remete diretamente à tradição jubilar de Levítico 25. O jubileu era um tempo de reconfiguração social, no qual as dívidas eram perdoadas, os escravos libertos e as terras devolvidas. Era uma tentativa concreta de impedir a concentração de riqueza e restaurar a igualdade. Ao assumir esse horizonte, Jesus projeta a fé bíblica para além do ritualismo e a inscreve no campo da justiça social. A teologia se encontra com a sociologia, a espiritualidade com a economia, a liturgia com a vida.
Quando Jesus declara “Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabais de ouvir” (Lc 4,21), ele introduz a categoria do hoje como chave hermenêutica. O hoje não é apenas um tempo cronológico, mas um tempo teológico, o kairos da salvação. Em Lucas, essa categoria aparece em momentos decisivos, como no anúncio aos pastores “Hoje vos nasceu um Salvador” (Lc 2,11) e na conversão de Zaqueu “Hoje entrou a salvação nesta casa” (Lc 19,9). O hoje rompe com a lógica de uma fé projetada apenas para o futuro e convoca à transformação do presente.
A reação dos ouvintes revela a complexidade da experiência humana. Inicialmente, há admiração pelas palavras cheias de graça (Lc 4,22). No entanto, rapidamente emerge a resistência. “Não é este o filho de José?” A pergunta, aparentemente inocente, carrega uma carga de deslegitimação. Trata-se de um mecanismo antropológico e psicológico conhecido: a dificuldade de reconhecer o extraordinário no ordinário, o novo no familiar. A psicologia social aponta que grupos tendem a rejeitar aqueles que rompem expectativas internas, pois isso ameaça a estabilidade simbólica do coletivo.
Jesus responde evocando a tradição profética de Elias e Eliseu (Lc 4,25-27), lembrando que a ação de Deus ultrapassa as fronteiras de Israel. A viúva de Sarepta e Naamã, o sírio, são estrangeiros que experimentam a graça divina. Essa universalização do horizonte é profundamente subversiva. Ela desmonta qualquer pretensão de exclusivismo religioso e aponta para a universalidade da salvação. No entanto, essa abertura é percebida como ameaça, e a admiração se transforma em fúria.
O paralelo com Marcos 6,1-6 e Mateus 13,53-58 confirma o tema do profeta rejeitado em sua terra, mas Lucas radicaliza o sentido ao colocar esse episódio no início da missão. Trata-se de uma chave interpretativa para todo o Evangelho. A missão de Jesus será marcada pela proclamação da libertação, pela abertura aos marginalizados e pela rejeição por parte daqueles que se consideram detentores da verdade e do poder religioso.
A tradição patrística reconheceu nessa passagem um núcleo fundamental da cristologia. A recapitulação em Cristo, como desenvolvida por Irineu, indica que toda a história encontra nele seu sentido. Orígenes enfatiza o caráter sempre atual do hoje da Palavra. Agostinho destaca que a Escritura se cumpre na vida daqueles que a acolhem com fé. Essa leitura patrística reforça a dimensão existencial do texto.
No horizonte do magistério contemporâneo, a Constituição Gaudium et Spes afirma que as alegrias e esperanças dos pobres são também as da Igreja. A Evangelii Gaudium denuncia a economia da exclusão e convoca a uma Igreja em saída. A Fratelli Tutti critica a cultura do descarte e propõe uma fraternidade universal. Os documentos do CELAM, especialmente Medellín e Puebla, aprofundam a opção preferencial pelos pobres como exigência evangélica. A CNBB, em suas diretrizes pastorais, insiste na necessidade de uma Igreja comprometida com a justiça social.
Diante desse quadro, a Palavra de Lucas 4 assume um caráter profético incontornável. Ela denuncia as formas contemporâneas de instrumentalização da religião. Quando a fé é capturada por projetos político-partidários que promovem exclusão, violência e autoritarismo, ela se distancia do Evangelho. A teologia da prosperidade, ao reduzir a bênção divina ao sucesso material, trai a lógica do Reino, que privilegia os pobres. A teologia do domínio, ao buscar poder e controle, contradiz o caminho de serviço de Jesus.
O clericalismo aparece como uma deformação interna da Igreja, quando o ministério se transforma em privilégio e poder, em vez de serviço. Isso sufoca a dimensão profética e impede a participação do povo de Deus. A aliança entre discursos religiosos e ideologias de extrema direita, marcada por nacionalismo excludente e desprezo pelos pobres, esvazia o Evangelho de sua força libertadora.
A atualidade do texto se revela nos desafios contemporâneos. A desigualdade social crescente, a exclusão de milhões, a violência estrutural, a crise de sentido e a manipulação religiosa são sinais de um mundo que precisa urgentemente do anúncio do Reino. A Palavra proclamada em Nazaré continua a ecoar como denúncia e promessa. Ela desinstala, inquieta, convoca à conversão.
A experiência humana diante dessa Palavra é marcada por ambiguidade. Há desejo de mudança, mas também medo. A liberdade proposta pelo Evangelho implica responsabilidade. A psicologia mostra como mecanismos de defesa surgem diante de verdades que exigem transformação. No entanto, é nesse confronto que se abre a possibilidade de uma vida nova.
Jesus passa pelo meio deles e segue seu caminho (Lc 4,30). Este detalhe final é profundamente simbólico. A rejeição não interrompe a missão. O projeto de Deus não é bloqueado pela resistência humana. A história continua aberta. A Palavra continua a ser proclamada. O Espírito continua a agir.
A contemplação dessa cena conduz a uma tomada de posição. Não é possível permanecer neutro diante dela. Ou se acolhe o hoje da salvação, assumindo suas implicações pessoais e sociais, ou se recusa, permanecendo nas estruturas que geram morte. A fé cristã, quando fiel ao Evangelho, não pode ser cúmplice da injustiça. Ela é chamada a ser fermento de transformação, sinal de esperança, voz profética.
Assim, a sinagoga de Nazaré se torna espelho da humanidade. Nela se refletem nossas expectativas, nossas resistências, nossas contradições. E nela ressoa a Palavra que continua a dizer hoje: a libertação é possível, a justiça é necessária, a graça é oferecida. Cabe a cada geração decidir se acolhe ou rejeita esse anúncio. O Evangelho permanece como critério, como luz e como caminho para uma humanidade reconciliada, onde a dignidade de cada pessoa seja reconhecida e a vida, em todas as suas formas, seja plenamente valorizada.
Naquele contexto  os olhares se cruzavam em curiosidade e orgulho local e hoje sonos  chamados a nos perguntar: 

  • Qual é o nosso projeto “hoje”? 
  • Onde precisamos deixar que a Palavra se cumpra? 
  • Onde resistimos, como os nazarenos, porque a mensagem nos incomoda? 
  • E como comunidade, estamos dispostos a abrir espaço para os pobres, os estrangeiros, os diferentes, ou continuamos a reproduzir muros e exclusões? 

A Boa Nova de Jesus não cabe em templos fechados, nem em projetos de poder, mas floresce quando a Palavra é acolhida como fermento de vida nova, reconciliação e justiça.

DNonato – Teólogo do Cotidiano


quinta-feira, 23 de julho de 2026

Um breve olhar sobre Mateus 13,18-23

A explicação da parábola do semeador em Mateus 13,18-23 é proclamada na Liturgia da Igreja Católica Romana na sexta-feira da 16ª Semana do Tempo Comum, continuando o Evangelho do dia anterior Mateus 13, 10-17,  sendo Proclamadp anualmente, variando apenas a primeira leitura, evidenciando que a catequese de Jesus sobre a acolhida da Palavra possui um valor permanente para a formação dos discípulos. Já a parábola completa, unida à sua explicação Mateus 13,1-23, é proclamada no 15º Domingo do Tempo Comum do Ano A, permitindo que toda a comunidade contemple, em uma única celebração, tanto o anúncio da parábola quanto a interpretação oferecida pelo próprio Cristo. Além desses momentos, esse texto também é frequentemente utilizado em retiros, encontros de formação bíblica, celebrações centradas na Palavra de Deus e na Liturgia das Horas, por sua riqueza espiritual, catequética e missionária. Os Evangelhos sinóticos preservam essa mesma tradição com acentos próprios e complementares. Marcos 4,1-20 é proclamado na quarta-feira da 3ª Semana do Tempo Comkum, reunindo a parábola e sua explicação no grande discurso parabólico de Jesus e destacando a força da Palavra que cresce e produz frutos apesar das resistências humanas. Lucas 8,4-15, proclamado no sábado da 24ª Semana do Tempo Comum, enfatiza a perseverança dos que acolhem a Palavra "com coração bom e generoso", conservando-a fielmente até que produza frutos duradouros. Embora cada evangelista apresente nuances próprias, os três convergem ao afirmar que a fecundidade do Reino depende da acolhida concreta da Palavra na existência humana. Essa distribuição ao longo do Ano Litúrgico revela a profunda pedagogia da Igreja. A liturgia não proclama esse Evangelho apenas para recordar um ensinamento de Jesus, mas para conduzir progressivamente os fiéis ao amadurecimento da fé.  Nas demais Igrejas históricas, como as Igrejas Ortodoxas, Anglicanas, Luteranas e diversas tradições reformadas que seguem o Lecionário Comum Revisado, essa perícope ou suas variantes em Marcos 4,13-20 e Lucas 8,11-15 é proclamada durante o Tempo Comum ou após a Epifania, inserida no conjunto das parábolas do Reino, enfatizando a responsabilidade humana diante da Palavra de Deus e a fecundidade da graça na história.  Ao reapresentar essa parábola em diferentes tempos e contextos celebrativos, a Igreja quer  recorda que a escuta da Palavra não é um acontecimento isolado, mas um processo permanente de conversão. A Palavra de Deus continua sendo semeada em cada geração e interpela continuamente pessoas, famílias, comunidades e sociedades inteiras, chamando-as a superar a superficialidade, a resistência e a idolatria para se tornarem terra fecunda, capaz de produzir frutos de santidade, justiça, misericórdia e esperança para a transformação do mundo...

A explicação da parábola do semeador não é apenas um comentário sobre uma imagem agrícola. Ela constitui uma das mais profundas chaves hermenêuticas oferecidas pelo próprio Jesus para compreender toda a sua missão. Depois de narrar a parábola às multidões e explicar aos discípulos por que fala em parábolas, afirmando que "a vós foi dado conhecer os mistérios do Reino dos Céus" (Mt 13,11), Jesus revela agora o significado de cada elemento da narrativa. Não é apenas uma interpretação de uma história. É uma interpretação da própria existência humana diante da ação de Deus. O contexto narrativo é decisivo. Nos capítulos anteriores, Mateus mostra uma crescente oposição contra Jesus. Os fariseus já tramam sua morte (Mt 12,14), sua família é relativizada diante da nova família formada pelos que fazem a vontade do Pai (Mt 12,46-50), e a multidão cresce enquanto também cresce a incompreensão. A parábola nasce exatamente nesse ambiente de acolhida e rejeição. A pergunta implícita é inevitável. Se Jesus anuncia o Reino com autoridade divina, por que tantos não o acolhem? A resposta está na qualidade dos terrenos e não na qualidade da semente.

Jesus identifica a semente como "a Palavra do Reino" (Mt 13,19). Trata-se do anúncio da soberania de Deus que transforma pessoas, relações e estruturas. Não é uma palavra qualquer. É aquela mesma Palavra criadora que, desde Gênesis, faz surgir a vida (Gn 1), que os profetas comparavam à chuva que fecunda a terra e jamais volta sem produzir fruto (Is 55,10-11), e que João identifica com o próprio Verbo eterno feito carne (Jo 1,1-14). A Palavra não comunica apenas informações religiosas. Ela comunica a própria vida de Deus. No mundo agrícola da Palestina do primeiro século, o semeador lançava a semente antes mesmo do preparo completo do terreno. Era natural que parte caísse sobre caminhos endurecidos pelo constante trânsito das pessoas, sobre regiões pedregosas onde uma fina camada de terra escondia grandes rochas calcárias, entre espinhos que rapidamente sufocavam o crescimento das plantas e sobre terras férteis capazes de produzir colheitas extraordinárias. Jesus utiliza imagens familiares aos seus ouvintes para falar da geografia interior do coração humano.

O primeiro terreno representa aqueles que escutam sem compreender (Mt 13,19). A palavra "compreender", no Evangelho de Mateus, vai muito além da inteligência racional. Significa acolher, assimilar, converter-se. O Maligno arrebata a Palavra porque ela nunca chegou a penetrar verdadeiramente na vida. A superficialidade espiritual torna-se uma forma de esterilidade. Em uma sociedade marcada pelo excesso de informações, pela velocidade das redes sociais, pelo consumo contínuo de conteúdos e pela incapacidade crescente de silêncio e contemplação, a Palavra corre o risco de ser apenas mais uma informação entre tantas outras. O coração endurecido pelo individualismo, pelo preconceito, pelo ódio e pela autossuficiência torna-se semelhante ao caminho compactado sobre o qual nenhuma semente consegue penetrar.

O segundo terreno descreve quem acolhe a Palavra com entusiasmo imediato, mas sem raízes (Mt 13,20-21). A imagem das pedras ocultas revela uma religiosidade emocional, incapaz de enfrentar a perseverança exigida pelo discipulado. A fé não se sustenta apenas sobre experiências intensas ou celebrações emocionantes. Ela precisa criar raízes profundas na oração, na comunidade, na escuta constante das Escrituras, na prática da justiça e na fidelidade cotidiana. O próprio Jesus advertirá que quem deseja segui-lo deve tomar diariamente a própria cruz (Lc 9,23). A psicologia contemporânea confirma que personalidades construídas apenas sobre emoções instantâneas dificilmente desenvolvem resiliência diante do sofrimento. O Evangelho propõe justamente o contrário. A maturidade espiritual nasce da permanência, da esperança e da fidelidade.

O terceiro terreno representa aqueles que permitem que os espinhos cresçam juntamente com a Palavra (Mt 13,22). Jesus identifica esses espinhos como as preocupações do mundo e a sedução das riquezas. Aqui está uma das críticas mais contundentes do Evangelho à idolatria econômica. Não é a riqueza em si que é condenada, mas sua capacidade de ocupar o lugar que pertence exclusivamente a Deus. O dinheiro promete segurança absoluta, reconhecimento, felicidade e poder. Entretanto, como recorda Jesus, "não podeis servir a Deus e ao dinheiro" (Mt 6,24). A felicidade verdadeira jamais nasce da acumulação. O texto inicial desta reflexão recorda precisamente essa verdade. Quando Deus deixa de ser o valor absoluto, qualquer outro valor assume características idolátricas e termina produzindo sofrimento. O coração humano foi criado para o infinito. Nenhuma riqueza, nenhum sucesso e nenhuma forma de poder conseguem preencher essa sede. Essa crítica torna-se especialmente atual diante da expansão de certas correntes religiosas que identificam prosperidade econômica com bênção divina. A chamada teologia da prosperidade reduz Deus a instrumento para realização de desejos individuais e transforma a fé em mecanismo de obtenção de sucesso financeiro. O Evangelho segue caminho oposto. Jesus nasceu pobre (Lc 2,7), viveu sem possuir onde reclinar a cabeça (Mt 8,20), proclamou felizes os pobres (Lc 6,20), identificou-se com os famintos, os estrangeiros, os doentes e os presos (Mt 25,31-46) e anunciou um Reino cuja lógica é serviço e partilha.

O quarto terreno representa aqueles que escutam, compreendem e produzem fruto (Mt 13,23). A colheita de trinta, sessenta e cem por um ultrapassa qualquer expectativa agrícola da Palestina antiga. Trata-se de uma linguagem simbólica que manifesta a superabundância da graça divina. Deus nunca economiza sua fecundidade. Onde encontra um coração disponível, produz frutos muito além das capacidades humanas. Paulo desenvolverá essa mesma ideia ao falar do fruto do Espírito, composto por amor, alegria, paz, paciência, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio (Gl 5,22-23). Marcos (Mc 4,13-20) conserva praticamente a mesma estrutura, mas enfatiza ainda mais o dinamismo do crescimento da Palavra. Lucas (Lc 8,11-15), por sua vez, acrescenta que o bom terreno é formado pelos que conservam a Palavra "com coração bom e generoso" e perseveram até produzir fruto. Cada evangelista ilumina um aspecto diferente da mesma realidade. Mateus insiste na compreensão da Palavra. Marcos destaca sua força transformadora. Lucas ressalta a perseverança paciente. Juntas, essas tradições mostram que ouvir, compreender, guardar e perseverar constituem um único caminho de discipulado. A parábola revela que toda sociedade forma determinados tipos de terreno humano. Estruturas sociais profundamente desiguais tendem a endurecer corações pela violência, pelo medo e pela exclusão. A sociologia da religião demonstra que comunidades marcadas apenas pelo consumo religioso produzem frequentemente uma fé superficial, enquanto comunidades comprometidas com a solidariedade, a justiça e a participação tendem a favorecer uma espiritualidade mais madura. A Palavra nunca é recebida em abstrato. Ela encontra pessoas inseridas em culturas, relações econômicas, conflitos políticos e experiências históricas concretas.

Jesus fala de quatro terrenos porque utiliza uma imagem agrícola comum da Palestina do século I, mas também porque esses quatro tipos representam, de forma simbólica, as principais atitudes humanas diante da Palavra de Deus. Não se trata de uma classificação exaustiva da humanidade, mas de uma tipologia pedagógica. Do ponto de vista literário e hermenêutico, o número quatro possui forte simbolismo na Bíblia. Frequentemente representa a universalidade da realidade criada: os quatro pontos cardeais (Is 11,12), os quatro ventos (Ez 37,9; Mt 24,31) e os quatro seres viventes (Ez 1; Ap 4). Assim, os quatro terrenos sugerem que toda a humanidade está diante da mesma Palavra e é chamada a responder a ela e .sob a perspectiva agrícola, Jesus descreve exatamente os quatro tipos de solo que um camponês encontrava ao lançar a semente:

  1. O caminho endurecido, pisado pelos viajante
  2. O  terreno pedregoso, com fina camada de terra sobre rochas calcárias
  3. O  terreno tomado por espinhos
  4. A terra fértil e preparada para a colheita

A parábola parte da experiência cotidiana para revelar uma verdade espiritual, porém, esses quatro terrenos não representam quatro grupos fixos de pessoas. Representam quatro possibilidades que coexistem dentro de cada ser humano. Em certos momentos somos caminho endurecido, fechados à Palavra; em outros, somos pedregosos, acolhendo-a sem profundidade; às vezes permitimos que os espinhos das preocupações, do consumismo, da ambição ou do poder sufoquem a fé; e, pela graça de Deus, também podemos nos tornar terra boa. É significativo que Jesus apresente três terrenos infrutíferos e apenas um fecundo. O objetivo não é transmitir pessimismo, mas mostrar que produzir fruto exige conversão, perseverança e abertura constante à ação de Deus. Ao mesmo tempo, a colheita extraordinária da terra boa trinta, sessenta e cem por um  revela que a fecundidade da graça supera amplamente as resistências humanas.  Os números trinta, sessenta e cem por um (Mt 13,23) têm um significado que vai além de uma medida agrícola. Eles revelam, ao mesmo tempo, a realidade concreta da agricultura palestina e a superabundância da ação de Deus.

  • Primedo ponto de vista histórico, uma colheita na Palestina do século I dificilmente alcançava cem por um. Colheitas entre sete e dez por um já eram consideradas boas. Trinta por um era excelente; sessenta por um, extraordinária; cem por um, quase inacreditável. Jesus usa uma hipérbole para mostrar que, quando a Palavra é acolhida, seus frutos ultrapassam qualquer expectativa humana.
  • O segundo ponto, os três números indicam que Deus não exige que todos produzam a mesma quantidade de frutos. Há discípulos que produzem trinta, outros sessenta e outros cem por um. O que importa não é a comparação, mas a fecundidade. Cada pessoa responde à graça conforme os dons recebidos, sua vocação e sua fidelidade. Essa ideia aparece também na parábola dos talentos (Mt 25,14-30), em que Deus não pede resultados idênticos, mas fidelidade.
  • O terceiro ponto, a sequência crescente 30 → 60 → 100 manifesta que a graça de Deus não apenas vence os obstáculos, mas os supera abundantemente. A parábola começa mostrando três fracassos aparentes: a semente no caminho, nas pedras e entre os espinhos. Humanamente, parece que a semeadura foi um insucesso. Entretanto, o último terreno produz uma colheita tão extraordinária que compensa todas as perdas anteriores. É uma mensagem de esperança: o mal, a rejeição e a resistência não têm a última palavra; a fecundidade do Reino é sempre maior.
  •  Quarto ponto, essa lógica percorre toda a Escritura. José é vendido pelos irmãos, mas salva seu povo (Gn 50,20). O pequeno grupo de discípulos transforma o mundo (At 17,6). A cruz, sinal de derrota, torna-se sinal de vitória na ressurreição. Deus age de tal modo que sua graça é sempre maior do que o pecado e a resistência humana.
Os Padres da Igreja também ofereceram leituras simbólicas. São Jerônimo e Santo Agostinho viram nesses números diferentes graus de santidade e maturidade espiritual. Outros autores antigos relacionaram o trinta à vida cristã fiel, o sessenta à maior renúncia e o cem à plenitude da caridade. Embora essas interpretações sejam espiritualmente ricas, o sentido principal do texto permanece: a Palavra acolhida nunca produz um fruto pequeno; ela gera uma abundância que só pode ser explicada pela ação de Deus.Assim, quando se afirma que "a fecundidade da graça supera amplamente as resistências humanas", significa que Jesus encerra a parábola com uma mensagem de esperança. Embora três terrenos pareçam impedir o sucesso da semeadura, basta que a Palavra encontre um coração verdadeiramente aberto para produzir uma colheita extraordinária. O Reino de Deus não é medido pelas perdas da semeadura, mas pela abundância dos frutos que a graça faz nascer. É por isso que a última imagem da parábola não é a dos espinhos nem das pedras, mas a da colheita transbordante: onde Deus encontra terra boa, sua graça realiza infinitamente mais do que as limitações humanas poderiam imaginar.

Por isso, a pergunta central da parábola não é: "Em qual dos quatro terrenos eu me encaixo?" A pergunta é: "Que partes do meu coração ainda são caminho, pedras ou espinhos, e como posso permitir que Deus as transforme em terra boa?" A parábola é um convite permanente à conversão, mostrando que nenhum terreno está condenado a permanecer estéril quando se deixa trabalhar pelo divino Semeador. Esta parábola também possui uma dimensão profética. Ela denuncia toda tentativa de instrumentalizar a fé para projetos de poder. Sempre que a religião é utilizada para legitimar ideologias autoritárias, nacionalismos excludentes, discursos de ódio ou projetos político-partidários que absolutizam líderes humanos, a Palavra acaba sufocada entre espinhos. Da mesma forma, o clericalismo denunciado repetidamente pelo Magistério recente transforma ministros em donos da Igreja, quando o Evangelho os chama ao serviço humilde (Mc 10,42-45). A comunidade cristã não existe para proteger privilégios religiosos, mas para testemunhar o Reino de Deus na história..O Concílio Vaticano II recorda que "as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo" (Gaudium et Spes, 1). A Constituição Dei Verbum ensina que Deus continua falando ao seu povo mediante as Escrituras, convidando toda a Igreja à escuta obediente da Palavra (DV 21). A exortação apostólica Evangelii Gaudium, especialmente nos números 49 e 53, alerta contra uma economia da exclusão e convoca a Igreja a sair ao encontro das periferias. A encíclica Fratelli Tutti insiste na fraternidade como resposta à cultura da indiferença. Em sintonia com essa tradição, os documentos de Medellín, Puebla, Santo Domingo e Aparecida reafirmam que a evangelização exige compromisso concreto com a justiça, a dignidade humana e a opção preferencial pelos pobres. Também a CNBB, em sucessivos documentos pastorais, recorda que a Palavra proclamada deve gerar compromisso com a transformação da realidade e a defesa da vida em todas as suas dimensões.

A felicidade, portanto, não nasce da satisfação de desejos ilimitados nem da conquista de poder, riqueza ou prestígio religioso. A felicidade bíblica nasce quando o coração se torna terra boa para Deus. Quem coloca no centro da existência qualquer realidade diferente do Senhor inevitavelmente experimentará a fragilidade dos ídolos. O dinheiro passa. O poder termina. A fama desaparece. As ideologias envelhecem. As paixões humanas mudam. Somente Deus permanece eternamente fiel (Sl 146,6). Mateus 13,18-23 convida cada discípulo a abandonar a tentação de perguntar quem são os outros terrenos para perguntar humildemente qual terreno existe hoje dentro de si mesmo. Todos carregamos caminhos endurecidos, pedras escondidas, espinhos persistentes e também espaços férteis onde a graça continua trabalhando silenciosamente. A conversão consiste exatamente em permitir que Deus transforme progressivamente toda a nossa existência em terra boa.

 Palavra de Deus continua sendo lançada com generosidade sobre toda a humanidade. O Senhor não faz distinção entre povos, culturas ou condições sociais; sua graça alcança tanto os que vivem nas periferias do mundo quanto os que ocupam os centros do poder. Contudo, permanece a mesma pergunta que atravessa os séculos: 

  • Que espaço estamos oferecendo para que essa Palavra transforme nossa existência? 

Num tempo em que a verdade é frequentemente substituída pela manipulação, a fé pelo espetáculo, a religião pelo mercado e o Evangelho pelos interesses do poder, Cristo continua chamando sua Igreja à conversão. Não basta proclamar a Palavra; é necessário deixar-se julgar por ela. Não basta defender símbolos religiosos; é preciso viver a justiça, a misericórdia, a fraternidade e a fidelidade ao Reino de Deus. Toda espiritualidade que ignora os pobres, legitima a exclusão, alimenta o ódio, absolutiza ideologias ou transforma a religião em instrumento de dominação revela que os espinhos continuam sufocando a semente. O Evangelho anuncia que Deus é capaz de transformar terrenos áridos em campos fecundos. Nenhum coração está definitivamente condenado à esterilidade quando se abre à ação da graça. Por isso, a esperança cristã não nasce do otimismo ingênuo nem da confiança nas estruturas humanas, mas da certeza de que o Espírito Santo continua renovando a face da terra e suscitando discípulos que fazem da própria vida uma resposta ao chamado de Cristo.

Que a Igreja jamais se conforme com uma fé estéril, acomodada ou cúmplice das injustiças, mas permaneça fiel à missão recebida do Senhor: anunciar a verdade, denunciar tudo o que desfigura a dignidade humana, consolar os que sofrem, defender os pequenos, promover a paz e testemunhar, com coragem profética, que somente o Reino de Deus é absoluto. Então a semente lançada por Cristo produzirá, também em nossa geração, uma colheita abundante de santidade, justiça, solidariedade e esperança, para a glória de Deus e para a vida do mundo.  A semente cai sobre cidades marcadas pela violência, sobre povos feridos pela fome, sobre trabalhadores explorados, sobre migrantes, sobre jovens sem horizonte, sobre famílias fragmentadas, sobre comunidades divididas e também sobre corações sedentos de sentido. O semeador não deixa de semear porque alguns terrenos resistem. Assim também Deus nunca desiste da humanidade. Cada geração é novamente convidada a acolher o Reino com inteligência iluminada pela fé, coração disponível à misericórdia e mãos comprometidas com a justiça. Somente então a felicidade deixará de ser uma ilusão construída pelos falsos deuses deste mundo para tornar-se fruto maduro da presença viva de Deus, produzindo uma colheita abundante de amor, fraternidade e esperança que transforma pessoas, comunidades e a própria história.

DNonato  - Teólogo do Cotidiano 

terça-feira, 2 de junho de 2026

Um breve olhar sobre Marcos 12,18-27

Marcos 12,18-27 é proclamado na liturgia da Igreja Católica Romana na quarta-feira da nona semana do Tempo Comum sendo uma continuidade do texto da terça-feira da nona semana. O mesmo episódio encontra seus paralelos em Mateus 22,23-33 e Lucas 20,27-40, sendo igualmente proclamado em diferentes momentos do Ano Litúrgico. Nas Igrejas Ortodoxas, nas tradições bizantinas, anglicanas, luteranas e em outras Igrejas históricas, esta passagem ocupa lugar de destaque entre os textos que narram os últimos debates de Jesus em Jerusalém antes de sua paixão. Situado no coração dos acontecimentos que antecedem a cruz, este Evangelho revela não apenas uma controvérsia doutrinal sobre a ressurreição, mas um confronto entre duas maneiras de compreender Deus, a Escritura, a história humana e o destino da criação. Há pessoas que encontram prazer em discutir religião. Nem sempre essas discussões nascem da busca sincera pela verdade ou do desejo de viver mais profundamente o Evangelho. Muitas vezes transformam-se em disputas de poder, em afirmações rígidas de posições previamente definidas, em tentativas de vencer debates e humilhar adversários. O resultado costuma ser o aprofundamento das divisões, a multiplicação dos preconceitos e o enfraquecimento da capacidade de escuta. O episódio de Marcos 12,18-27 apresenta exatamente esse cenário. Os saduceus não se aproximam de Jesus para aprender. Aproximam-se para testá-lo. Não desejam ampliar sua compreensão de Deus. Desejam defender uma visão religiosa fechada em seus próprios limites.

O contexto da narrativa é decisivo para compreender sua profundidade. Desde sua entrada em Jerusalém, montado num jumentinho, cumprindo a antiga profecia de Zacarias sobre o rei humilde que viria trazer a paz (Zc 9,9; Mc 11,1-11), Jesus tornou-se alvo de sucessivos questionamentos. Os chefes dos sacerdotes e os escribas colocaram em dúvida sua autoridade (Mc 11,27-33). Os fariseus e herodianos tentaram comprometê-lo politicamente através da questão do tributo a César (Mc 12,13-17). Agora entram em cena os saduceus. Historicamente, os saduceus constituíam a aristocracia sacerdotal de Jerusalém. Eram poucos em número, mas possuíam enorme influência religiosa, econômica e política. Estavam fortemente ligados ao funcionamento do Templo e frequentemente mantinham relações de acomodação com o poder romano. Diferentemente dos fariseus, aceitavam principalmente a autoridade da Torá escrita e rejeitavam muitas tradições desenvolvidas posteriormente no judaísmo. Segundo Atos 23,8, não acreditavam na ressurreição dos mortos, nem em anjos, nem em espíritos. Sua visão religiosa encontrava-se profundamente vinculada à preservação da ordem estabelecida.

Também não é irrelevante que o debate aconteça no Templo de Jerusalém. O Templo era muito mais do que um lugar de oração. Era o centro da vida nacional, religiosa, econômica e simbólica de Israel. Ali convergiam peregrinações, sacrifícios, tributos e decisões que afetavam toda a sociedade. O fato de Jesus confrontar os saduceus nesse espaço revela uma dimensão profética profunda. O lugar destinado a manifestar a presença de Deus havia se tornado, em muitos aspectos, um ambiente de disputas, interesses e mecanismos de controle. A controvérsia não ocorre à margem da religião institucional. Ela acontece em seu próprio coração. Os saduceus apresentam a Jesus uma questão baseada na lei do levirato, estabelecida em Deuteronômio 25,5-10. Essa legislação possuía importante função social. Numa sociedade agrária e patriarcal, a viúva sem filhos encontrava-se em situação extremamente vulnerável. O casamento com o irmão do falecido procurava garantir proteção à mulher e preservar a continuidade da família. Entretanto, aquilo que fora criado para proteger a vida é transformado pelos saduceus em instrumento de polêmica.

Há um detalhe frequentemente esquecido. No centro da narrativa encontra-se uma mulher sem nome. Os saduceus não demonstram qualquer interesse por sua história, seus sentimentos ou sua dignidade. Ela aparece apenas como objeto de um debate teológico. Sua existência concreta desaparece atrás de uma construção argumentativa. O fato possui enorme relevância para uma leitura contemporânea. Quantas vezes pessoas reais são transformadas em objetos de discussão? Quantas vezes mulheres, pobres, migrantes, povos indígenas, negros, moradores das periferias e outros grupos vulneráveis são reduzidos a temas abstratos em disputas ideológicas ou religiosas? Jesus sempre recoloca a pessoa humana no centro. O Reino de Deus não trabalha com categorias abstratas. Trabalha com rostos, histórias e vidas concretas..A pergunta apresentada pelos saduceus é conhecida. Sete irmãos casam-se sucessivamente com a mesma mulher. Todos morrem sem deixar descendência. Finalmente morre também a mulher. Então perguntam: “Na ressurreição, quando ressuscitarem, de qual deles ela será esposa?” (Mc 12,23).

A questão parece sofisticada, mas revela uma profunda limitação espiritual. Os saduceus imaginam a eternidade como mera continuação da realidade presente. Projetam sobre Deus as estruturas sociais do seu tempo. Não conseguem imaginar que a ação divina possa transcender os limites da experiência humana. Seu erro não está apenas numa conclusão equivocada. Está numa compreensão reduzida do próprio Deus.

A resposta de Jesus é direta: “Não estais enganados por não conhecerdes as Escrituras nem o poder de Deus?” (Mc 12,24). Essas palavras atingem o centro do problema. Os saduceus conhecem os textos, mas não compreendem seu significado profundo. Possuem informação religiosa, mas não sabedoria espiritual. Sabem citar a Escritura, mas não percebem a direção para a qual ela aponta.

A crítica de Jesus ecoa toda a tradição profética. Isaías denunciava um povo que honrava Deus com os lábios enquanto mantinha o coração distante (Is 29,13). Jeremias combatia a falsa segurança daqueles que acreditavam que a simples existência do Templo garantia a proteção divina (Jr 7,1-15). Amós proclamava que Deus rejeita cultos que convivem com a exploração dos pobres e exige que a justiça corra como um rio e a retidão como uma torrente perene (Am 5,21-24). Miqueias sintetizava a vontade divina em três atitudes fundamentais: praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com Deus (Mq 6,8). O problema dos saduceus não é apenas exegético. É espiritual. Eles desconhecem o poder de Deus. Toda a Escritura testemunha justamente esse poder que abre caminhos onde ninguém os vê. É o Deus que chama Abraão quando tudo parece impossível (Gn 12,1-4). É o Deus que promete descendência a Sara apesar da esterilidade (Gn 18,9-15). É o Deus que ouve o clamor dos escravos no Egito (Ex 3,7-10), abre o mar diante deles (Ex 14,21-31) e os alimenta no deserto (Ex 16,1-36). É o Deus que sustenta Elias durante a seca (1Rs 17,1-16), fortalece Jeremias diante das perseguições (Jr 1,4-10) e faz reviver os ossos secos da visão de Ezequiel (Ez 37,1-14).

Os saduceus não pertencem apenas ao passado. Sua mentalidade reaparece sempre que a religião perde a capacidade de deixar-se surpreender por Deus. Reaparece quando a Escritura é utilizada para justificar preconceitos. Reaparece quando a fé é instrumentalizada para legitimar projetos de poder. Reaparece quando lideranças religiosas confundem fidelidade ao Evangelho com defesa de ideologias. Reaparece quando se conhece a letra, mas se ignora o Espírito. Jesus prossegue afirmando que, na ressurreição, homens e mulheres não se casam nem são dados em casamento, mas vivem como os anjos diante de Deus (Mc 12,25). Não se trata de desprezo pelo matrimônio. Desde Gênesis 2,24, a união entre homem e mulher é apresentada como dom divino. O que Jesus revela é que a plenitude futura ultrapassa as estruturas históricas da existência presente. A vida ressuscitada não é mera repetição da vida terrena. É uma realidade nova, transformada pela comunhão plena com Deus.

A esperança da ressurreição amadureceu lentamente na história de Israel. Os textos mais antigos do Antigo Testamento apresentam uma compreensão ainda limitada da vida após a morte. Contudo, progressivamente, a fé do povo vai descobrindo que a fidelidade de Deus não pode ser vencida pela morte. O salmista proclama: “Não abandonarás minha vida na mansão dos mortos” (Sl 16,10). Em outro momento afirma: “Depois me receberás na glória” (Sl 73,24). Jó, em meio ao sofrimento, confessa sua esperança no Deus vivo (Jó 19,25-27). Isaías anuncia que Deus destruirá a morte para sempre e enxugará toda lágrima dos rostos (Is 25,8). Também proclama que os mortos tornarão a viver (Is 26,19). Daniel fala do despertar daqueles que dormem no pó da terra (Dn 12,2). Os mártires de Israel enfrentam a perseguição sustentados pela certeza de que Deus lhes devolverá a vida (2Mc 7,9.14.23). Jesus assume toda essa tradição e a conduz à sua plenitude. Utilizando precisamente a Torá reconhecida pelos saduceus, cita Êxodo 3,6. Diante da sarça ardente, Deus apresenta-se a Moisés como o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó. Então Jesus conclui: “Ele não é Deus dos mortos, mas dos vivos” (Mc 12,27).

A profundidade desse argumento é extraordinária. Séculos depois da morte dos patriarcas, Deus continua ligado a eles por sua aliança. A morte não rompe aquilo que Deus estabelece em seu amor. O fundamento da esperança bíblica não está numa suposta imortalidade natural da alma, mas na fidelidade inquebrantável de Deus..Há uma ironia profunda nesta cena. Os saduceus discutem teoricamente a possibilidade da ressurreição diante daquele que, poucos dias depois, será preso, condenado, crucificado e colocado num sepulcro. Sem perceber, interrogam justamente aquele que oferecerá à humanidade a resposta definitiva para sua pergunta. A resposta final de Jesus não será um argumento intelectual. Será o túmulo vazio da manhã de Páscoa (Mc 16,1-8).

Toda a fé cristã repousa sobre esse acontecimento. Por isso Paulo afirma: “Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa fé” (1Cor 15,17). Em 1 Coríntios 15, Paulo desenvolve uma das mais profundas reflexões sobre a ressurreição. O que é semeado na fraqueza ressuscita na força. O que é semeado corruptível ressuscita incorruptível. O último inimigo a ser vencido é a morte (1Cor 15,26)..A mesma esperança aparece em João 11,25, quando Jesus declara diante do túmulo de Lázaro: “Eu sou a ressurreição e a vida”. Não diz apenas que haverá ressurreição. Afirma que a própria vida definitiva de Deus já está presente nele.

Essa visão possui profundas consequências antropológicas. A cultura contemporânea frequentemente mede o valor humano pelo desempenho, pelo sucesso econômico, pela visibilidade social ou pela capacidade de consumo. Nesse contexto, a morte aparece como fracasso absoluto. O Evangelho apresenta uma alternativa radical. O valor da vida não depende daquilo que possuímos, produzimos ou controlamos. O valor da vida nasce do amor de Deus.  O Evangelho não elimina esse medo através de explicações abstratas. Ele o atravessa mediante uma promessa. A promessa de que a vida está segura nas mãos daquele que criou o universo e conduz a história para sua plenitude.

Essa esperança possui também profundas consequências sociais. Os saduceus representam uma religião acomodada à ordem estabelecida. Seu horizonte termina nos limites do presente. A fé bíblica, ao contrário, alimenta a esperança dos pobres, dos perseguidos e dos marginalizados. O cântico de Maria proclama que Deus derruba os poderosos de seus tronos e exalta os humildes (Lc 1,52-53). Jesus inicia sua missão anunciando boa notícia aos pobres, libertação aos cativos e esperança aos oprimidos (Lc 4,18-19). No julgamento final descrito em Mateus 25,31-46, a autenticidade da fé é medida pelo cuidado com os famintos, os doentes, os estrangeiros e os encarcerados.

Por isso a esperança da ressurreição não conduz à fuga da história. Conduz ao compromisso com a transformação da história. Quem acredita no Deus dos vivos não pode permanecer indiferente diante da fome, da miséria, da violência, do racismo, da destruição ambiental, da exploração econômica e das múltiplas formas de exclusão presentes no mundo. No Brasil contemporâneo, a proclamação de que Deus é Deus dos vivos assume um caráter profundamente profético. Ela confronta as desigualdades persistentes, a banalização da violência, a cultura do descarte e a naturalização do sofrimento de milhões de pessoas. Cada criança que passa fome, cada jovem vítima da violência, cada família privada de dignidade desafia a consciência cristã a tornar concreto o anúncio do Reino. É nesse horizonte que devem ser lidos os grandes documentos da Igreja latino-americana. Medellín denunciou as estruturas de pecado que produzem injustiça. Puebla reafirmou a opção preferencial pelos pobres. Santo Domingo insistiu na nova evangelização. Aparecida convocou a Igreja a formar discípulos missionários comprometidos com a transformação da realidade. Todos esses documentos recordam que a fé cristã não pode ser reduzida a devoções privadas nem a espiritualidades desencarnadas.

O Concílio Vaticano II, especialmente em Gaudium et Spes, afirma que as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias da humanidade são também as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias dos discípulos de Cristo. A Igreja existe para servir ao Reino de Deus. Por essa razão, o clericalismo constitui uma grave deformação da missão cristã. Sempre que o ministério se transforma em privilégio, a autoridade em domínio e a religião em instrumento de controle, afasta-se do caminho de Jesus. O Senhor foi explícito ao afirmar que quem deseja ser o primeiro deve fazer-se servo de todos (Mc 10,42-45). O gesto do lava-pés permanece como critério permanente para toda liderança eclesial (Jo 13,1-17).

Também merece discernimento crítico toda forma de teologia que identifica a bênção divina com prosperidade econômica. Jesus jamais estabeleceu tal equivalência. Pelo contrário, advertiu repetidamente sobre os perigos espirituais da riqueza (Mc 10,17-31). Em Lucas 6,20-26, proclama felizes os pobres e dirige severas advertências aos ricos satisfeitos. O Reino de Deus não se fundamenta na acumulação, mas na partilha.Da mesma forma, toda tentativa de instrumentalizar a fé para projetos de dominação política contradiz o Evangelho. Sempre que símbolos religiosos são utilizados para justificar intolerâncias, exclusões ou discursos de ódio, repete-se o erro dos grupos religiosos enfrentados por Jesus. O Evangelho não foi dado para legitimar poderes humanos, mas para anunciar a misericórdia, a justiça e a dignidade de toda pessoa.

Marcos 12,18-27 continua extraordinariamente atual porque apresenta um Deus maior do que todas as nossas construções religiosas. Deus é maior que nossas categorias teológicas. Maior que nossas disputas ideológicas. Maior que nossas instituições. Maior que nossos medos. Maior que a própria morte. O Deus revelado por Jesus é o Deus que chama Abraão para partir rumo ao desconhecido (Gn 12,1), que escuta o clamor dos escravos (Ex 3,7), que sustenta os profetas perseguidos (Jr 20,11), que consola os exilados (Is 40,1), que ressuscita seu Filho dentre os mortos (Mc 16,6) e que conduz toda a criação para os novos céus e a nova terra anunciados pelo Apocalipse (Ap 21,1-5).

O Evangelho termina, mas sua pergunta continua ecoando através dos séculos: 

  • Quem é o Deus em quem acreditamos? 
  • O Deus aprisionado por nossos esquemas ou o Deus das surpresas?
  •  O Deus das certezas fechadas ou o Deus que continuamente faz novas todas as coisas? 
Diante das cruzes erguidas ao longo da história, diante das lágrimas dos pobres, diante das guerras, das injustiças e das inúmeras formas de sofrimento humano, a Igreja continua proclamando a mesma esperança. O túmulo não é o destino final da humanidade. O último capítulo da história não pertence à violência, nem à opressão, nem à morte. Pertence ao Deus que faz novas todas as coisas (Ap 21,5). Por isso os discípulos continuam caminhando. Por isso os mártires continuaram testemunhando. Por isso os pobres continuam esperando. Por isso a Igreja continua anunciando que o amor é mais forte que a morte (Ct 8,6), que Cristo ressuscitou dentre os mortos como primícias dos que adormeceram (1Cor 15,20) e que aquele que ressuscitou Jesus também dará vida aos nossos corpos mortais por meio de seu Espírito (Rm 8,11).

Porque Deus não é Deus dos mortos, mas dos vivos. E diante dele todos vivem (Lc 20,38). Essas palavras não encerram apenas uma discussão teológica ocorrida nos pátios do Templo de Jerusalém. Elas anunciam o futuro da criação, iluminam o presente da história e sustentam a esperança daqueles que continuam acreditando que nenhuma noite é eterna, que nenhuma injustiça terá a última palavra e que nada poderá separar a humanidade do amor de Deus manifestado em Cristo Jesus, nosso Senhor (Rm 8,38-39).



DNonato -  Teólogo  do Cotidiano