domingo, 29 de março de 2026

Um breve olhar sobre João 12,1-11


Evangelho de João 12,1-11 é proclamado, na liturgia da Igreja Católica Romana, na segunda-feira da semana santa, às portas da Semana Santa, logo  após  o domingo de Ramos e da Paixão  quando a Igreja se aproxima do mistério pascal e contempla, com maior densidade, a tensão entre vida e morte, entrega e rejeição. Em alguns ciclos litúrgico. Nas tradições das Igrejas históricas, tanto no Ocidente quanto no Oriente, a unção em Betânia é reconhecida como gesto profético que prepara o corpo de Cristo para a sepultura e revela, de forma antecipada, a lógica do Reino que se manifesta na entrega. Este texto, portanto, não é apenas memória, mas chave hermenêutica para compreender a cruz como lugar de glória, conforme João 12,23. A narrativa se insere imediatamente após a ressurreição de Lázaro em João 11,1-44, sinal decisivo que desencadeia a decisão das autoridades de eliminar Jesus, conforme João 11,53. O contexto é de crise, de ameaça, de conflito entre o projeto de Deus e as estruturas religiosas que se sentem desestabilizadas. Betânia, pequena aldeia próxima a Jerusalém, torna-se espaço teológico onde a vida ressuscitada confronta a lógica da morte institucionalizada. Como nos tempos de Jeremias em Jeremias 26,8-11, o profeta que anuncia a verdade torna-se alvo de perseguição. A mesa em Betânia, portanto, não é apenas lugar de refeição, mas espaço de resistência e revelação.

No mundo mediterrâneo do século I, a mesa é lugar de aliança, identidade e comunhão. Em Êxodo 24,9-11, os líderes de Israel comem diante de Deus como sinal de pacto. Jesus retoma e subverte esse simbolismo ao comer com pecadores em Lucas 5,29-32 e ao propor o banquete do Reino em Lucas 14,15-24. Em João 12,2, Marta serve, Lázaro está à mesa e Maria realiza um gesto que rompe qualquer expectativa comum. A casa torna-se espaço litúrgico, onde o invisível se torna sensível, onde o Reino se manifesta em sinais concretos.

Maria toma uma libra de perfume de nardo puro, de grande valor, e unge os pés de Jesus, enxugando-os com seus cabelos. O gesto é excessivo, desproporcional à lógica econômica, e por isso profundamente revelador. O perfume, na tradição bíblica, está ligado à intimidade e ao amor, como em Cântico dos Cânticos 1,12 e 4,10, mas também à oração que sobe a Deus, conforme Salmos 141,2, e à oferta agradável, como em Filipenses 4,18. Ao derramar o perfume, Maria transforma a casa inteira em espaço de presença divina. O evangelista afirma que a casa se encheu com o aroma, sugerindo que o amor verdadeiro não permanece restrito, mas se difunde, alcança, envolve.

Ao mesmo tempo, o gesto possui conotação funerária. Em 2 Crônicas 16,14 e João 19,39-40, os perfumes são usados para preparar o corpo para a sepultura. Maria, sem talvez compreender plenamente, antecipa o destino de Jesus. Em João, a morte não é derrota, mas revelação da glória. O perfume, então, torna-se sinal antecipado dessa glória que se manifestará na cruz. O que parece desperdício torna-se revelação. O que parece excesso torna-se profecia.

O detalhe de enxugar os pés com os cabelos carrega uma densidade simbólica ainda maior. No contexto cultural, o cabelo feminino era expressão de dignidade e honra, conforme 1 Coríntios 11,15. Ao utilizá-lo nesse gesto, Maria oferece a si mesma, sua identidade, sua dignidade. Trata-se de uma entrega total, que ecoa o mandamento de Deuteronômio 6,5, amar a Deus com todo o ser. Ao mesmo tempo, há uma antecipação do gesto de Jesus em João 13,1-15, quando Ele lava os pés dos discípulos. Aqui, a lógica se inverte. Antes que o Senhor sirva, Ele se deixa servir. Antes que Ele se abaixe, Ele acolhe o amor que se abaixa. Isso rompe paradigmas religiosos marcados por hierarquia e distância.

Neste ponto, a narrativa revela uma dimensão de gênero profundamente significativa. Em uma sociedade patriarcal, onde o corpo feminino era frequentemente controlado e silenciado, Maria emerge como sujeito teológico. Ela compreende o momento, discerne o tempo, age com liberdade. Sua ação dialoga com outras mulheres no Evangelho de João, como a samaritana em João 4,1-30, que se torna anunciadora, e Maria Madalena em João 20,11-18, primeira testemunha da ressurreição. O Evangelho revela que Deus não se submete às estruturas que marginalizam, mas se manifesta justamente através daqueles que são colocados à margem.

A casa cheia de perfume torna-se, assim, imagem da glória de Deus que se manifesta no amor que se entrega. Em João 1,14, a glória é vista na encarnação. Em João 12,23, ela será revelada na cruz. O perfume liga esses dois momentos. Ele é sinal sensível de uma realidade invisível, o amor que se doa até o fim. Esse amor contrasta com a lógica representada por Judas.

Judas Iscariotes questiona o gesto, evocando a preocupação com os pobres em João 12,5. À primeira vista, sua fala parece justa, alinhada com textos como Deuteronômio 15,11 e Provérbios 19,17. No entanto, o evangelista revela sua intenção em João 12,6. Aqui se desvela uma das críticas mais profundas do texto. Não se trata apenas de hipocrisia individual, mas de uma lógica estrutural que instrumentaliza o discurso religioso. Como em Isaías 29,13 e Jeremias 7,9-11, onde o culto é denunciado por encobrir injustiças, Judas representa a religião que usa a linguagem da caridade para mascarar interesses.

O discurso de Judas encontra ressonância inquietante na realidade contemporânea. Sua fala não é apenas uma crítica ao gesto de Maria, mas a expressão de uma mentalidade que reduz tudo ao valor de mercado, que mede o sentido das coisas a partir de sua utilidade econômica. Trata-se de uma visão materialista que infiltra-se nas práticas religiosas, transformando a fé em moeda de troca, em cálculo, em investimento. Igrejas que operam sob essa lógica deixam de ser espaço de gratuidade e se tornam ambientes de negociação simbólica, onde tudo precisa gerar retorno, visibilidade ou lucro.

Essa mentalidade se manifesta quando a generosidade é condicionada à recompensa, quando o culto se torna espetáculo e o sagrado é submetido à lógica do consumo. A crítica de Judas ecoa, por exemplo, em contextos onde a preocupação com os pobres é utilizada como discurso, mas não como prática transformadora. Como denuncia Amós 8,4-6, há aqueles que falam de Deus enquanto exploram o necessitado. A religião, nesse cenário, torna-se instrumento ideológico, legitimando desigualdades e naturalizando a exclusão. O que está em jogo não é apenas moralidade individual, mas uma estrutura que distorce o Evangelho.

Mais ainda, a fala de Judas revela uma espiritualidade profundamente egoísta. Ele não está preocupado com os pobres, mas com o controle dos recursos. Isso se aproxima de práticas contemporâneas em que lideranças religiosas acumulam poder e riqueza, enquanto utilizam o discurso da fé para manter influência. Como em Miquéias 3,11, onde os líderes ensinam por interesse e profetizam por dinheiro, a fé é capturada por uma lógica de dominação. Jesus desmascara essa estrutura ao defender o gesto de Maria, afirmando que há algo que não pode ser reduzido a cálculo, o amor que se entrega.

Ao mesmo tempo, essa crítica se articula com a questão da misoginia, que atravessa tanto o contexto bíblico quanto a realidade atual. O incômodo de Judas não é apenas econômico, mas também simbólico. Uma mulher ocupa o centro da cena, interpreta o momento, realiza um gesto teológico profundo. Em uma cultura que marginalizava a mulher, isso é subversivo. Ainda hoje, muitas comunidades religiosas resistem à plena participação das mulheres, limitando sua voz, sua liderança e sua presença. A atitude de Maria confronta diretamente essas estruturas. Ela não pede autorização, não se submete ao controle, não se cala. Seu gesto é livre, consciente, profético. Em contraste, a reação de Judas pode ser lida também como expressão de uma mentalidade que deslegitima o protagonismo feminino. Essa tensão permanece viva quando mulheres são silenciadas, quando sua experiência de fé é desvalorizada, quando sua presença é tolerada, mas não reconhecida.

A Escritura, no entanto, aponta em outra direção. Em Joel 3,1, Deus promete derramar seu Espírito sobre filhos e filhas. Em Atos 2,17, essa promessa se realiza. Em Gálatas 3,28, afirma-se que não há homem nem mulher em Cristo. O gesto de Maria antecipa essa realidade, onde a dignidade não é definida por estruturas sociais, mas pela relação com Deus. Ignorar isso é trair o dinamismo do Evangelho.

A resposta de Jesus em João 12,8 não relativiza os pobres, mas denuncia a falsidade de um discurso que não se traduz em compromisso. Em Mateus 25,31-46, o cuidado com os pobres é critério de salvação. Em Isaías 58,6-7, o verdadeiro jejum é libertar os oprimidos. A fala de Jesus, à luz de Deuteronômio 15,11, reafirma que a presença dos pobres exige compromisso permanente, não retórica oportunista.

A presença de Lázaro à mesa intensifica o conflito. Ele é sinal vivo da vida que vence a morte, ecoando Ezequiel 37,1-14. Por isso, torna-se alvo de perseguição em João 12,10-11. Sistemas que se sustentam na morte não toleram sinais de vida. O mesmo ocorre em Atos 4,16-18, quando o anúncio da ressurreição é reprimido. Lázaro é testemunha incômoda, como tantos que, ao viverem a verdade, desestabilizam estruturas injustas. A comparação com os Evangelhos Sinóticos amplia o horizonte. Em Mateus 26,6-13 e Marcos 14,3-9, a unção enfatiza a preparação para o sepultamento. Em Lucas 7,36-50, destaca-se o perdão. João integra essas dimensões, mas acrescenta a teologia da vida que vence a morte. Essa pluralidade revela a riqueza da tradição e a liberdade das comunidades na transmissão do Evangelho.

À luz do Concílio Vaticano II, especialmente Gaudium et Spes 1, a Igreja é chamada a partilhar as alegrias e angústias da humanidade. A cena de Betânia interpela a Igreja a ser espaço onde o amor gratuito é reconhecido, onde os pobres não são instrumentalizados, onde a dignidade humana é afirmada. O Documento de Aparecida, especialmente no número 391, reafirma a opção preferencial pelos pobres como exigência do seguimento de Cristo. A CNBB insiste na construção de uma Igreja samaritana, em sintonia com Lucas 10,25-37. Não educar  podemos   reduzir Deus a garantidor de riqueza, contradiz Lucas 9,23 e Filipenses 2,5-8. O clericalismo, que transforma serviço em poder, é desmentido por João 13,14-15. A instrumentalização política da fé, que se alia a projetos autoritários, trai o Evangelho que proclama liberdade em Lucas 4,18-19. Habacuque 1,2-4 expressa o clamor diante da injustiça que ainda ecoa em nosso tempo.

Na realidade contemporânea, marcada por desigualdade, violência e crise de sentido, o texto de Betânia ressoa como denúncia e anúncio. Denúncia de uma fé capturada por interesses, anúncio de uma espiritualidade que se faz entrega. O perfume torna-se metáfora central. Ele atravessa a narrativa como sinal do amor que não se mede, que não se calcula, que não se negocia. Em 2 Coríntios 2,15, os discípulos são chamados a ser esse perfume no mundo. Maria encarna essa possibilidade. Sua ação é contemplativa e profética ao mesmo tempo. Ela discerne o tempo, age com liberdade, ama com radicalidade. Judas, por sua vez, encarna a tentação de reduzir a fé a instrumento. Entre ambos, desenha-se o drama da existência humana diante de Deus.

A proximidade da Páscoa intensifica o chamado. Jesus caminha para a cruz, conforme João 12,27, e cada gesto adquire sentido pleno. A unção é antecipação da vitória da vida sobre a morte, conforme 1 Coríntios 15,54-57. O perfume que enche a casa torna-se sinal da presença de Deus que transforma, que invade, que desinstala. No horizonte final, a cena retorna como um todo integrado. A casa, o perfume, Maria, Judas, Lázaro, a mesa. Tudo converge para uma revelação. Onde há amor que se entrega, Deus se manifesta. Onde a fé é usada para dominar, ela se corrompe. Onde a vida é defendida, o Reino se faz presente. Onde o perfume do amor se espalha, a morte perde seu poder.

Para entender  e meditar a leitura  de João 12,1-11 e preciso entender  os simbologia prese:

  • 1. Maria e o perfume: Maria de Betânia representa o amor que não calcula. O perfume caro simboliza uma entrega total, gratuita, sem lógica de troca. É a fé como doação, não como investimento.
  • 2. Ungir os pés de Jesus:  Não é honra de rei, é caminho de morte, revela que Jesus é um Messias que se entrega, não que domina. Maria entende a cruz antes dos discípulos.
  • 3. Judas e o dinheiro: Judas Iscariotes simboliza a fé corrompida pelo interesse. Ele fala dos pobres, mas pensa no dinheiro.  É a religião que usa discurso bonito para esconder egoísmo.
  • 4.  Os “trezentos denários” (cerca de R$ 15.000,00) Símbolo da lógica econômica que tenta medir tudo. Conflito entre valor espiritual e preço de mercado.
  • 5.  Lázaro vivo:  Lázaro é a prova de que a vida venceu. Por isso querem matá-lo: a vida incomoda quem lucra com a morte.
  • 6. A casa cheia de perfume:  O amor verdadeiro não fica escondido. Quando é real, transforma o ambiente, denuncia o vazio e se espalha.
  • 7. “Sempre tereis os pobres” Ligado a Deuteronômio.  Não é desculpa para ignorar os pobres, é denúncia: se eles continuam existindo, o sistema falhou.

A Palavra não apenas ilumina, ela confronta, desinstala e exige resposta concreta. Em Evangelho de João não há neutralidade possível. O texto revela duas racionalidades em choque. De um lado, Maria de Betânia, cuja ação nasce da escuta, da sensibilidade espiritual e de uma entrega que não se submete ao cálculo. Do outro, Judas Iscariotes, que instrumentaliza até o discurso sobre os pobres, revelando como a fé pode ser capturada por interesses, pela lógica do controle e por uma economia que reduz tudo a valor.

Tornar-se perfume de Cristo é assumir uma existência que se derrama. Não se trata de linguagem devocional, mas de uma prática encarnada que rompe com a lógica utilitarista e com a religião transformada em mecanismo de troca. O gesto de Maria denuncia toda espiritualidade que negocia com Deus, que mede a entrega ou que submete o amor à aprovação social. Amar, neste texto, é ato concreto, é decisão que envolve o corpo, a história e o risco. É um amor que parece excesso aos olhos do sistema, mas que, na verdade, revela a única medida possível do Reino. A casa cheia de perfume indica que o amor verdadeiro não permanece no âmbito privado. Ele se torna ambiente, invade estruturas, altera relações e expõe aquilo que estava oculto. Onde não há esse perfume, o que se percebe é o odor de uma religiosidade vazia, muitas vezes alinhada a práticas que mantêm desigualdades e silenciam diante da dor. A fala de Jesus, em ressonância com Deuteronômio, não legitima a permanência dos pobres, mas denuncia uma sociedade que não se converteu à justiça. A presença contínua dos pobres é evidência de pecado estrutural, não de vontade divina. Há também uma inversão decisiva. Quem discerne o momento e compreende o caminho de Jesus não são os que ocupam posições de autoridade religiosa, mas uma mulher que age fora dos padrões estabelecidos. Isso desestabiliza o clericalismo e revela que a verdadeira compreensão de Deus não está garantida por cargos, títulos ou estruturas, mas pela abertura ao Espírito e pela capacidade de amar de forma concreta.

Além disso, a presença de Lázaro como testemunho vivo evidencia que a fé autêntica gera vida visível e histórica. E justamente por isso se torna alvo. Sistemas religiosos e políticos que se alimentam de controle não toleram a vida que liberta, pois ela desmonta narrativas, rompe dependências e expõe a inutilidade de estruturas que não servem ao povo. Ser perfume, portanto, é aceitar o deslocamento. É recusar a fé que se acomoda, que se protege e que se adapta às conveniências do poder. É assumir o caminho do serviço, da justiça e da entrega radical, mesmo quando isso confronta interesses estabelecidos. É permitir que a própria vida se torne sinal, não de sucesso religioso, mas de fidelidade ao Deus que se revela no amor que se doa.

A conclusão que emerge não é confortável. A Palavra exige discernimento e decisão. Ou a fé se torna fragrância que transforma o ambiente humano, social e espiritual, ou ela se reduz a discurso que encobre a permanência da morte. O texto não permite meio termo. Ele chama a uma fé que se derrama, que incomoda e que, justamente por isso, carrega em si o cheiro da vida que vem de Deus.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

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