segunda-feira, 9 de março de 2026

Um breve olhar sobre Mateus18,21-35

 

Em algum momento da vida todos se encontram diante de uma pergunta que toca profundamente a experiência humana. Até onde vai o perdão? Quantas vezes é possível recomeçar uma relação ferida, reconstruir vínculos quebrados ou libertar o coração do peso das mágoas acumuladas ao longo da história pessoal e coletiva? A pergunta atravessa culturas, religiões e gerações. Ela surge quando a vida nos confronta com o erro, a falha, a traição e a fragilidade humana. É nesse horizonte existencial que o Evangelho segundo Mateus18,21-35 apresenta o diálogo entre Pedro e Jesus: “Senhor, quantas vezes devo perdoar meu irmão quando ele pecar contra mim? Até sete vezes?” (Mateus 18,21).

Essa passagem ocupa um lugar significativo na vida litúrgica da Igreja. Na tradição da Igreja Católica Romana ela é proclamada integralmente no 24º Domingo do Tempo Comum do ciclo A do Lecionário dominical. Nesse domingo a comunidade cristã escuta e medita sobre o perdão sem limites como expressão concreta da vida do Reino de Deus. O mesmo texto também aparece na liturgia ferial, especialmente na terça-feira da 3ª semana da Quaresma e  sua variantes de  Mateus 18,21–19,1, proclamado na quinta-feira da 19ª semana do Tempo Comum no Ano Ímpar,  período no qual a Igreja convida os fiéis a um caminho profundo de conversão e reconciliação. Nas tradições das Igrejas históricas que utilizam o Lecionário Comum Revisado, como muitas comunidades luteranas, anglicanas e reformadas, essa mesma passagem aparece igualmente no ciclo dominical próximo desse período do ano litúrgico. Assim, diferentes tradições cristãs convergem ao reconhecer que o perdão é uma das colunas centrais da ética do Evangelho.

A pergunta de Pedro não surge isoladamente. Ela está inserida no grande discurso comunitário de Jesus presente no capítulo 18 do Evangelho de Mateus. Esse capítulo constitui uma verdadeira pedagogia da vida comunitária. Ele começa com a pergunta sobre quem é o maior no Reino dos Céus (Mateus 18,1). Jesus responde colocando uma criança no centro e afirmando que quem quiser entrar no Reino precisa tornar-se pequeno (Mateus 18,3-4). Em seguida aparece a advertência contra o escândalo dos pequenos (Mateus 18,6-9), a parábola da ovelha perdida (Mateus 18,10-14) e o ensinamento sobre a correção fraterna (Mateus 18,15-20). Somente depois desse caminho pedagógico aparece a pergunta de Pedro sobre o perdão.

No judaísmo do primeiro século o perdão era considerado uma virtude importante, mas possuía limites práticos. Alguns mestres rabínicos ensinavam que seria razoável perdoar até três vezes. Depois disso a pessoa poderia considerar encerrada a relação. Pedro, ao propor sete vezes, acredita estar oferecendo um gesto de generosidade espiritual acima do esperado. O número sete possui grande importância simbólica na Bíblia. Ele remete à plenitude e à perfeição divina. Em Gênesis 2,2-3 Deus conclui a criação no sétimo dia e consagra esse tempo como descanso sagrado. O sete, portanto, representa o tempo de Deus, a plenitude da obra criadora.

A resposta de Jesus, porém, rompe completamente com a lógica da contabilidade moral. “Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete” (Mateus 18,22). Alguns manuscritos traduzem setenta e sete vezes, mas o sentido permanece o mesmo. Trata-se de uma expressão semítica que indica algo ilimitado. O perdão no Reino de Deus não pode ser medido por cálculos matemáticos. Essa resposta também ecoa uma antiga tradição do livro do Gênesis. Em Gênesis 4,24 Lamec, descendente de Caim, proclama uma vingança multiplicada ao afirmar que seria vingado setenta e sete vezes. Jesus inverte completamente essa lógica da violência acumulada. Onde a tradição humana multiplicava a vingança, Jesus multiplica a misericórdia.

A partir dessa resposta Jesus apresenta a parábola do servo impiedoso. A narrativa começa com uma imagem conhecida no mundo antigo. “O Reino dos Céus é comparado a um rei que quis ajustar contas com seus servos” (Mateus 18,23). No contexto do antigo Oriente e do mundo mediterrâneo era comum que governadores e administradores regionais prestassem contas ao soberano. Esses administradores frequentemente controlavam impostos, tributos e recursos econômicos.

Um desses servos aparece devendo ao rei dez mil talentos (Mateus 18,24). Para compreender o impacto dessa cifra é necessário entender o sistema monetário do mundo bíblico:

  • Um denário correspondia aproximadamente ao salário de um dia de trabalho de um trabalhador comum. Essa informação aparece claramente na parábola dos trabalhadores da vinha em Mateus 20,2.Um talento correspondia aproximadamente a seis mil denários. Isso significa que um talento representava cerca de seis mil dias de trabalho. Considerando que um trabalhador trabalhava aproximadamente trezentos dias por ano, um talento equivaleria a cerca de vinte anos de trabalho. A dívida mencionada na parábola é de dez mil talentos. Dez mil talentos correspondem, portanto, a sessenta milhões de denários. Em termos de dias de trabalho isso significa sessenta milhões de dias. 

Se fizermos uma comparação aproximada com a realidade atual e imaginarmos um salário diário equivalente a cerca de cem reais, um denário hoje poderia corresponder aproximadamente a esse valor diário.

Assim, cem denários equivaleriam a cerca de dez mil reais. Já sessenta milhões de denários corresponderiam aproximadamente a seis bilhões de reais. Trata-se de uma soma absolutamente impensável para qualquer pessoa comum. Jesus utiliza deliberadamente esse exagero para provocar impacto narrativo e revelar a dimensão simbólica da história.

Nesse ponto aparece um detalhe que merece atenção. A estrutura numérica da dívida envolve o número seis. Um talento corresponde a seis mil denários. A dívida gigantesca é construída a partir da multiplicação desse número. Na simbologia bíblica o número seis possui um significado particular. Ele representa o tempo humano da história ainda incompleta.

Em Gênesis 1,26-31 o ser humano é criado no sexto dia da criação. O sexto dia representa o tempo do trabalho, da construção histórica e da realidade humana que ainda caminha rumo à plenitude do sétimo dia. O sete representa o descanso de Deus e a plenitude da criação. O livro do Êxodo reforça essa dinâmica ao estabelecer o ritmo do trabalho e do descanso. “Seis dias trabalharás e farás todas as tuas obras, mas o sétimo dia é o sábado consagrado ao Senhor teu Deus” (Êxodo 20,9-10). O sábado surge como limite ético ao trabalho humano. Ele lembra que a vida humana não pode ser reduzida a produção e lucro.

Na tradição apocalíptica o número seis aparece também associado às estruturas humanas que pretendem ocupar o lugar de Deus. Em Apocalipse 13,18 surge a famosa referência ao número 666, símbolo de sistemas políticos e econômicos que se absolutizam e transformam poder humano em idolatria.

Quando a parábola menciona uma dívida construída sobre seis mil denários multiplicados milhares de vezes, ela toca simbolicamente nesse universo do trabalho humano, da economia e das estruturas sociais que muitas vezes produzem desigualdade e opressão. Essa simbologia permite também um diálogo com realidades contemporâneas do mundo do trabalho. Em muitas sociedades existe a chamada escala seis por um, na qual trabalhadores trabalham seis dias consecutivos e descansam apenas um. Embora essa escala seja juridicamente reconhecida em muitos contextos, ela frequentemente se torna instrumento de desgaste humano quando associada a salários baixos, jornadas intensas e ausência de condições dignas.

A tradição bíblica, no entanto, sempre defendeu limites éticos ao trabalho. O mandamento do sábado foi uma revolução social no mundo antigo. Ele afirmava que nem o patrão, nem o servo, nem o estrangeiro poderiam trabalhar sem descanso (Êxodo 23,12). O descanso semanal lembrava que o ser humano não é propriedade do sistema econômico. O livro do Deuteronômio reforça esse princípio ao recordar que o descanso sabático está ligado à memória da libertação da escravidão no Egito (Deuteronômio 5,15). Descansar é reconhecer que a dignidade humana é maior que qualquer sistema de produção.

Quando observamos situações contemporâneas nas quais trabalhadores vivem presos a jornadas exaustivas ou a dívidas impagáveis, percebemos como estruturas econômicas modernas continuam reproduzindo lógicas antigas de opressão. Pessoas trabalham para sobreviver dentro de sistemas que acumulam riquezas gigantescas enquanto mantêm multidões na precariedade.

Nesse sentido a parábola de Jesus também dialoga com a antiga tradição do Jubileu bíblico descrita em Levítico 25. No ano jubilar as dívidas eram canceladas, escravos eram libertados e terras devolvidas às famílias originais. O Jubileu lembrava que nenhuma estrutura econômica poderia se tornar absoluta. A terra pertence a Deus e a dignidade humana deve sempre prevalecer. A Doutrina Social da Igreja retoma esse princípio ao afirmar que a economia deve estar a serviço da vida humana. Documentos como Laborem Exercens insistem que o trabalho é para a pessoa e não a pessoa para o trabalho.

Voltando à parábola, o servo incapaz de pagar a dívida cai de joelhos diante do rei e suplica paciência (Mateus 18,26). O texto afirma que o senhor teve compaixão dele, perdoou a dívida e o deixou partir (Mateus 18,27). O verbo utilizado no texto grego indica uma compaixão profunda que nasce das entranhas. Essa misericórdia revela o coração da revelação bíblica. O Salmo 130,3 pergunta: “Se observas as culpas, Senhor, quem poderá subsistir?” O Salmo 103,8 proclama: “O Senhor é misericordioso e compassivo, lento para a ira e rico em amor.”

É exatamente nesse ponto que a parábola se conecta profundamente com a oração que Jesus ensinou aos seus discípulos. No coração do Pai Nosso encontramos uma súplica que expressa essa mesma lógica espiritual: “Perdoa-nos as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido” (Mateus 6,12). A oração cristã por excelência coloca o perdão no centro da relação com Deus e com o próximo. Quando a comunidade reza o Pai Nosso, ela reconhece que todos são devedores da misericórdia divina e que ninguém pode pedir perdão a Deus enquanto se recusa a oferecê-lo aos irmãos. A parábola do servo impiedoso funciona quase como uma explicação narrativa dessa petição da oração. Jesus transforma em história aquilo que no Pai Nosso aparece como súplica. Pedir perdão a Deus implica assumir a responsabilidade de construir relações reconciliadas na história. O servo perdoado, no entanto, encontra um companheiro que lhe devia cem denários (Mateus 18,28). Embora cem denários representem um valor significativo, trata-se de uma dívida pequena quando comparada à dívida gigantesca que ele próprio recebeu perdão.

Mesmo assim ele agarra o companheiro pelo pescoço e exige pagamento imediato. Aqui aparece uma dimensão profunda da condição humana. O ser humano frequentemente deseja misericórdia para si e justiça implacável para os outros. O apóstolo Paulo reconhece essa contradição ao escrever: “Tu que julgas o outro, condenas a ti mesmo” (Romanos 2,1).

Os outros servos ficam profundamente entristecidos ao presenciar a injustiça (Mateus 18,31). Isso revela que o pecado nunca é apenas individual. Ele fere o tecido da comunidade. Quando o rei toma conhecimento da situação ele chama o servo e denuncia sua incoerência: “Não devias também tu ter compaixão do teu companheiro?” (Mateus 18,33).

Outros textos do Novo Testamento confirmam essa mesma perspectiva. “Suportai-vos uns aos outros e perdoai-vos mutuamente” (Colossenses 3,13). “Sede bondosos e compassivos uns para com os outros” (Efésios 4,32). O próprio Jesus na cruz proclama: “Pai, perdoa-lhes, eles não sabem o que fazem” (Lucas 23,34). A tradição da Igreja sempre reconheceu que o perdão é parte essencial da vida cristã. O Concílio Vaticano II recorda que a Igreja é chamada a ser sinal de reconciliação para o mundo (Lumen Gentium 1). A constituição Gaudium et Spes afirma que as divisões humanas contradizem o projeto de Deus para a humanidade.

Na América Latina os documentos de Medellín e Puebla recordam que o perdão cristão não pode ser separado da justiça. Perdoar não significa legitimar a opressão, mas romper o ciclo da violência e abrir caminhos de reconciliação. A parábola também denuncia distorções religiosas que transformam a fé em instrumento de poder. Quando líderes religiosos utilizam o discurso moral para controlar pessoas ou legitimar projetos políticos autoritários, o Evangelho é esvaziado de sua força libertadora. O clericalismo denunciado pelo Papa Francisco representa exatamente essa deformação.

Os profetas bíblicos já denunciavam religiões vazias que ignoravam a justiça social. Isaías proclamava: “Aprendei a fazer o bem, buscai a justiça, socorrei o oprimido” (Isaías 1,17). Amós denunciava cultos que ignoravam a justiça (Amós 5,24). Em um mundo marcado por polarizações, discursos de ódio e manipulação religiosa, a mensagem de Mateus 18 permanece profundamente atual. O Reino de Deus começa a aparecer quando pessoas e comunidades escolhem a misericórdia em vez da vingança e a justiça em vez da opressão.

O perdão não é apenas um gesto oferecido ao outro. Ele é também libertação interior. A carta aos Hebreus adverte para que nenhuma raiz de amargura brote no coração humano (Hebreus 12,15). O ressentimento prolongado aprisiona a pessoa ao passado. O perdão abre espaço para um futuro novo.

Perdoar exige coragem. Exige reconhecer a própria fragilidade e confiar que a misericórdia é mais forte que o mal.

No final das contas a parábola coloca cada pessoa diante de uma escolha espiritual profunda. Existe a economia da cobrança infinita, na qual dívidas são acumuladas, erros são lembrados eternamente e relações permanecem aprisionadas ao passado. E existe a economia da misericórdia, na qual o perdão abre caminhos de reconciliação e esperança. O Evangelho de Jesus convida a humanidade a escolher essa segunda economia. Onde o perdão floresce, a história deixa de ser repetição de violência e começa a tornar-se espaço de vida nova.

Assim a pergunta de Pedro continua ecoando através dos séculos. Quantas vezes devemos perdoar? A resposta de Jesus permanece desafiadora e libertadora.

  • O perdão não tem limite porque o amor de Deus não tem limite.

Quando essa lógica começa a transformar o coração humano, algo novo acontece na história. Relações são restauradas, comunidades são curadas e a esperança volta a florescer.

Todos somos devedores perdoados. E o futuro da humanidade depende da capacidade de transformar essa misericórdia recebida em misericórdia compartilhada. Somente quando o perdão deixa de ser teoria e se torna prática cotidiana é que o Reino de Deus começa verdadeiramente a aparecer no meio da história humana. Nesse caminho exigente e libertador a justiça encontra a misericórdia e a dignidade humana reencontra seu lugar diante do Deus que é amor.

DNonato, Teólogo  do cotidiano

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