Mateus situa o início do ministério público de Jesus após a prisão de João Batista. Esse detalhe, longe de ser apenas cronológico, carrega um peso simbólico decisivo. A prisão do profeta marca o fechamento de um ciclo e o início de outro. João, a voz que clamava no deserto, é silenciado pelo poder político-religioso; Jesus, a Palavra feita carne, começa a falar no espaço público. Aqui se desenha uma teologia da continuidade e da ruptura: continuidade, porque Jesus retoma o núcleo do anúncio de João: “Convertei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo” e ruptura, porque esse anúncio agora ganha corpo, gestos, encontros, curas, conflitos e multidões. O Reino deixa de ser apenas proclamação futura e passa a ser experiência histórica. Não é mais só promessa; é presença que desestabiliza.
Esse dado ilumina também o presente. Em nosso tempo, quantas vozes proféticas continuam sendo silenciadas quando denunciam a injustiça, a violência estrutural, o racismo, o desprezo pelos pobres, a destruição ambiental ou a instrumentalização religiosa do poder? A prisão de João ecoa hoje no descrédito lançado sobre lideranças comunitárias, defensores de direitos humanos, agentes pastorais e teólogos rotulados como “ideológicos” por se recusarem a transformar a fé em adereço do sistema. A Palavra, porém, não se cala. Quando uma voz é reprimida, outra se levanta. O Reino não depende de autorização institucional para continuar sendo anunciado.
O deslocamento de Jesus para a Galileia é decisivo e profundamente provocador. Não se trata de uma escolha neutra ou estratégica no sentido convencional. A Galileia era uma região marginalizada, vista com suspeita por Jerusalém, marcada pela mistura cultural, pela presença de gentios, por rotas comerciais, tensões políticas e frequentes levantes populares. Era chamada de “Galileia das nações”, expressão que carrega tanto uma constatação geográfica quanto um juízo teológico negativo aos olhos das elites religiosas. Mateus, fiel à sua leitura teológica da história, interpreta esse deslocamento à luz de Isaías: “O povo que estava nas trevas viu uma grande luz” (Is 9,1-2). A citação não é decorativa; ela é hermenêutica. Jesus não apenas cumpre uma profecia, mas redefine o lugar da revelação. A luz não nasce no centro do poder, mas na periferia; não se impõe pelo domínio, mas se oferece como presença.
Essa Galileia encontra paralelos evidentes em nosso tempo. Ela se manifesta nas periferias urbanas esquecidas pelo poder público, nas favelas marcadas pela ausência de políticas sociais, nos campos de refugiados, nas populações indígenas e quilombolas ameaçadas, nos corpos descartados pela lógica econômica. A decisão de Jesus de iniciar ali sua missão questiona frontalmente uma Igreja tentada a investir mais energia em visibilidade, influência política ou aceitação social do que na presença real junto aos que vivem na precariedade. A Galileia continua sendo critério teológico incômodo.
O símbolo da luz atravessa todo o texto. Na tradição bíblica, a luz está associada à criação, à revelação e à salvação. “Deus disse: faça-se a luz” (Gn 1,3), inaugurando a ordem contra o caos. O Salmo 27 proclama: “O Senhor é minha luz e salvação”. Isaías associa a luz à justiça restauradora. No Evangelho de João, Jesus afirmará: “Eu sou a luz do mundo” (Jo 8,12). Em Mateus, porém, essa luz não paira acima da realidade nem compete com outras luzes; ela caminha pelas aldeias, entra nas sinagogas, toca corpos feridos e mentes adoecidas. Em contraste com as luzes artificiais do nosso tempo — holofotes, likes, algoritmos, visibilidade digital —, a luz do Reino não busca palco, não se mede por audiência e não depende de aplauso. Ela ilumina feridas antes de vitrines.
O anúncio do Reino dos Céus exige conversão, e a conversão, no horizonte bíblico, não se reduz a uma mudança moral individual. Metanoia significa mudança de mentalidade, de horizonte, de direção existencial. Trata-se de um deslocamento profundo que atinge tanto as estruturas pessoais quanto as sociais. Converter-se implica questionar valores assimilados, lógicas naturalizadas e sistemas que produzem exclusão. Por isso, a pregação de Jesus não pode ser reduzida a um convite intimista ou espiritualista. Ela confronta sistemas de desigualdade, modelos religiosos de controle e uma espiritualidade moldada pelo mercado. Nesse sentido, o Reino anunciado por Jesus entra em choque direto com a teologia da prosperidade, que associa bênção à riqueza; com a teologia do domínio, que legitima o poder como sinal de eleição; e com o individualismo religioso, que separa salvação de responsabilidade comunitária. Em um mundo marcado pela lógica neoliberal do desempenho, a metanoia evangélica desmonta a ideia de que cada um se salva sozinho.
Mateus resume a atividade de Jesus em três verbos: ensinar, proclamar e curar. Esse tripé revela uma pedagogia integral.
- Ensinar nas sinagogas indica diálogo com a tradição
- Proclamar o Reino aponta para a novidade; curar os doentes manifesta a compaixão concreta. Palavra e ação não se opõem.
- Cura não é espetáculo, mas sinal do Reino; não é mercadoria, mas graça.
Esse dado desmonta qualquer tentativa de transformar a fé em produto ou a dor humana em palco de autopromoção religiosa. As doenças mencionadas — físicas, psíquicas e espirituais — revelam uma compreensão ampla do sofrimento humano. Em um tempo marcado por ansiedade, depressão, burnout e solidão crônica, as curas de Jesus denunciam uma sociedade que adoece pessoas enquanto promete felicidade instantânea.
As multidões que seguem Jesus vêm da Galileia, da Decápole, de Jerusalém, da Judeia e da Transjordânia. Esse detalhe geográfico revela a força de atração do Reino, que responde a uma fome real de sentido, dignidade e esperança. Mas revela também a ambiguidade das multidões, tema recorrente nos Sinóticos. Elas buscam libertação, mas nem sempre estão dispostas a assumir o caminho da cruz. O dado dialoga com o presente: seguidores digitais se multiplicam enquanto há benefício imediato, mas se dispersam quando a fé exige coerência, compromisso e enfrentamento do conflito.
O ministério de Jesus na Galileia revela não apenas uma opção pelos vulneráveis, mas uma denúncia dos mecanismos que produzem vulnerabilidade. Do ponto de vista antropológico, afirma a dignidade integral da pessoa humana. Do ponto de vista histórico, sua prática o coloca em rota de colisão com as autoridades. Do ponto de vista filosófico, sua mensagem questiona concepções fatalistas da existência e propõe uma ética da responsabilidade e da alteridade.
Jesus ensina nas sinagogas, mas não se submete ao monopólio religioso, não era do clero daquele tempo e certamente não seria Diácono, Padre ou Bispo. Ele devolveria a Palavra ao povo ele não seria da hierarquia institucional ou uma lideranças carismáticas midiáticas, influenciadores religiosos e especialistas da fé que falam em nome de Deus sem escutar o clamor dos pobres, que vivem fe likes e de seguidores virtual.
O Concílio Vaticano II, especialmente na Gaudium et Spes, recorda que as alegrias e angústias da humanidade são também as da Igreja. A Evangelii Gaudium denuncia estruturas autorreferenciais, e a Fratelli Tutti desmonta espiritualidades que legitimam exclusões. A luz da Galileia desautoriza qualquer Igreja que prefira o conforto do centro ao risco das periferias. A luz da Galileia desautoriza qualquer Igreja que prefira o conforto do centro ao risco das periferias, pois, como lembrava Dom Oscar Romero, ‘uma Igreja que não se une aos pobres para denunciar, a partir deles, as injustiças cometidas contra eles, não é a verdadeira Igreja de Jesus Cristo’.
Orígenes via na Galileia o espaço da travessia interior; João Crisóstomo destacava que Jesus começa onde a miséria é maior; Agostinho via na luz que brilha nas trevas a graça que antecede qualquer mérito. Esses Padres recordam que leitura simbólica e crítica da Escritura não é ameaça à fé, mas parte de sua tradição mais antiga.
A escolha da Galileia exige ainda um aprofundamento político sob o domínio romano. Governada por Herodes Antipas, a região vivia sob exploração econômica, impostos pesados e repressão constante. Anunciar um “Reino” nesse contexto era linguagem carregada de implicações históricas. Jesus não propõe substituir César por outro dominador, mas revela uma soberania fundada no serviço e na justiça. Por isso, sua mensagem é percebida como ameaça. O Império tolerava religiões que não interferissem na ordem; o Reino, porém, desestabiliza.
A prisão de João torna-se chave hermenêutica. Ele não é preso por abstrações religiosas, mas por denunciar a injustiça do poder. Sua prisão antecipa a lógica pascal: a fidelidade ao Reino tem custo. Esse dado desmonta espiritualidades que prometem sucesso como sinal de bênção. A fé madura não promete imunidade ao sofrimento, mas sentido no meio dele.
Os documentos conciliares aprofundam essa leitura. A Dei Verbum recorda que Deus se revela na história concreta; a Gaudium et Spes afirma que não há realidade humana alheia ao Evangelho; a Lumen Gentium apresenta a Igreja como Povo de Deus; a Ad Gentes recorda que evangelizar não é impor, mas discernir a ação de Deus nos contextos reais. Tudo isso converge para a Galileia como lugar teológico permanente.
Mateus 4,12-17.23-25 revela, enfim, que a Epifania não é espetáculo, mas compromisso. A luz não anestesia; desperta. Não legitima o poder; questiona. Não se vende; se doa. Proclamado nesta liturgia, o texto confronta a Igreja de todos os tempos com uma escolha decisiva: o conforto dos palácios ou o risco da Galileia. E recorda, com força profética, que toda vez que a fé se alia ao domínio, ao mercado ou ao individualismo, ela se afasta da luz que um dia decidiu nascer nas margens.
DNonato – Teólogo do Cotidiano


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