Celebrar o Batismo do Senhor, nesse horizonte litúrgico, não significa marcar apenas o início cronológico da vida pública de Jesus, mas reconhecer uma cena-fonte, uma nascente hermenêutica decisiva da qual brota todo o sentido do messianismo cristão e do discipulado. Em Isaías, ouvimos o canto do Servo escolhido que não grita nem oprime, mas estabelece o direito com mansidão; no Salmo, a voz do Senhor ressoa sobre as águas, revelando um Deus cuja glória não se impõe pela força, mas gera vida; em Atos, Pedro proclama um Deus que não faz acepção de pessoas e unge Jesus com o Espírito para passar fazendo o bem; em Mateus, finalmente, somos conduzidos às margens do Jordão, onde o céu se abre sobre um corpo molhado e humano. É ali, naquela travessia, que a identidade de Jesus é revelada e, inseparavelmente, a identidade da Igreja é forjada, não a partir do prestígio ou do poder, mas da descida, da solidariedade e da justiça que nasce do Reino.
Mateus nos faz ver Jesus que vem da Galileia ao Jordão, e esse movimento carrega densidade geográfica, sociológica e teológica. A geografia, no primeiro Evangelho, nunca é neutra. Jesus não surge do Templo de Jerusalém, não desce do Monte Sião, não aparece legitimado por títulos sacerdotais nem por alianças políticas. Ele vem da Galileia das nações, região periférica, misturada, desprezada pelas elites religiosas, marcada pela ambiguidade cultural. Ao narrar assim, Mateus afirma que Deus escolhe iniciar sua ação salvadora a partir das margens. A encarnação, longe de ser apenas um dado dogmático abstrato, torna-se critério hermenêutico: Deus se revela no chão comum da vida, fora dos centros de prestígio.
O Jordão para onde Jesus se dirige é um rio saturado de memória histórica e simbólica. Ele é fronteira e passagem, ruptura e promessa. Foi ali que Israel precisou molhar os pés para atravessar do deserto para a terra (Js 3–4), aprendendo que a promessa exige risco e confiança. Foi ali que Naamã, o sírio, precisou despir-se de seu orgulho para mergulhar sete vezes e ser curado (2Rs 5). Ao entrar nessas águas, Jesus não inaugura um rito privado, mas se insere na travessia coletiva do povo. Ele assume a história por dentro. Sabemos que o movimento de João Batista já era, em si, profundamente subversivo: um rito de conversão fora do Templo, sem sacrifícios, sem taxas, sem mediação sacerdotal. Ao entrar na fila, Jesus legitima uma experiência religiosa que escapa ao controle institucional e se coloca ao lado dos marginalizados que buscavam esperança.
A resistência de João — “Sou eu que preciso ser batizado por ti” — ecoa como espelho de nossas próprias teologias. Trata-se da dificuldade humana de acolher um Deus que rompe hierarquias, desmonta escalas de mérito e desestabiliza nossas noções de dignidade religiosa. João, herdeiro de uma tradição sacerdotal, ainda opera com a lógica da separação entre puro e impuro, maior e menor. Jesus não entra em disputa teórica. Ele responde com uma afirmação densa: “Convém que cumpramos toda a justiça”. A exegese mateana revela que justiça não significa legalismo nem moralismo, mas fidelidade integral ao projeto de Deus. É a mesma justiça que atravessa o Sermão da Montanha, que supera a dos escribas e fariseus (Mt 5,20), que tem fome e sede do Reino (Mt 5,6) e que é perseguida por causa do Evangelho (Mt 5,10). Cumprir a justiça é escolher a solidariedade radical com a humanidade ferida, mesmo quando isso frustra expectativas de um messias triunfalista.
Jesus entra nas águas e, nesse gesto silencioso, começam a naufragar as teologias da prosperidade, do domínio e da autoexaltação espiritual. Não há espetáculo, não há privilégios, não há exceções. O Filho se mistura. Assume o lugar dos que buscam conversão, não por necessidade de purificação, mas por opção de solidariedade. A kenosis cantada por Paulo em Filipenses 2,6-8 encontra aqui sua expressão concreta: Ele não se apegou à sua condição divina, mas esvaziou-se, fazendo-se servo. O Jordão confronta nossa cultura individualista e religiosa, na qual a fé muitas vezes se reduz ao “meu milagre” e à “minha bênção”. A antropologia bíblica que emerge desse texto afirma que ninguém se salva sozinho e que o Messias salva assumindo o peso do povo, como o Servo Sofredor de Isaías.
Ao sair da água, os céus se abrem. Não somos nós que subimos até Deus; é Deus que rasga o céu e desce. A súplica de Isaías — “Ah, se rasgasses os céus e descesses” (Is 63,19) — encontra aqui sua resposta. O céu se abre sobre um corpo molhado, vulnerável, orante. Essa imagem desmonta qualquer eclesiologia baseada em muros, castas ou pedágios espirituais. O Concílio Vaticano II, especialmente na Lumen Gentium, recorda que antes de qualquer ministério existe a dignidade comum do batismo e que a Igreja é, antes de tudo, Povo de Deus. O clericalismo, entendido como lógica de poder e não apenas como desvio individual, é uma negação prática do Batismo do Senhor, pois tenta fechar o céu que Cristo abriu.
O Espírito desce como pomba. A simbologia atravessa toda a Escritura: o Espírito que pairava sobre as águas da criação (Gn 1), a pomba que anuncia o recomeço após o dilúvio (Gn 8). No Jordão, criação e redenção se encontram. O Espírito não vem como fogo destruidor nem como tempestade ameaçadora, mas como mansidão e recomeço. Jesus inaugura o Reino não pela violência, mas pela fidelidade paciente. Ele é o Servo de Isaías 42 que não quebra a cana rachada nem apaga o pavio que fumega. Essa imagem confronta diretamente as teologias do domínio que buscam impor a fé pela força política, cultural ou moral. O Espírito de Jesus convence, não coage; atrai, não domina.
A voz que se faz ouvir — “Este é o meu Filho amado, em quem ponho o meu agrado” — une o Salmo 2 e Isaías 42, revelando um messianismo inseparavelmente real e servil. Mateus nos impede de dissociar glória e cruz. Não há Filho sem Servo, nem realeza sem entrega. Toda fé que promete sucesso sem conversão, bênção sem compromisso e glória sem serviço transforma o Evangelho em mercadoria. Deus não se oferece como produto religioso, mas como Pai que envia seus filhos à missão.
Os paralelos sinóticos aprofundam essa cena. Marcos enfatiza o céu que se rasga (Mc 1,9-11), Lucas destaca que Jesus estava em oração (Lc 3,21-22), e João testemunha o Espírito que permanece (Jo 1,32-34). Cada tradição amplia o horizonte, mas todas convergem: a missão nasce da comunhão com o Pai e da solidariedade com os últimos. Atos dos Apóstolos relê o Jordão à luz da Páscoa quando Pedro proclama que Deus não faz acepção de pessoas e resume a vida de Jesus como alguém ungido pelo Espírito que passou fazendo o bem (At 10,34-38). O poder de Jesus não oprime; liberta. Não acumula; restaura.
Liturgicamente, Mateus 3,13-17 é proclamado na Festa do Batismo do Senhor, sobretudo no Ano A, mas sua teologia atravessa outras celebrações fundamentais. Ela sustenta a Vigília Pascal, quando a água volta ao centro e a travessia se torna memória viva. Ressurge na Transfiguração (Mt 17), quando a voz do Pai se repete, e fundamenta a Grande Comissão (Mt 28,19), onde o batismo se torna envio missionário. Mesmo quando o texto não é lido literalmente, o Jordão continua correndo por dentro da liturgia e da vida da Igreja.
A Gaudium et Spes recorda que a Igreja é chamada a ler os sinais dos tempos e a caminhar solidária com as alegrias e angústias da humanidade. Os documentos da CNBB insistem que o batismo não é rito social nem amuleto religioso, mas compromisso com o Reino, com os pobres e com a transformação das estruturas injustas. O Jordão desautoriza uma fé confortável, burguesa e alienada.
No horizonte pascal, percebemos que o Jordão já aponta para a cruz. O céu que se abre sobre Jesus nas águas parecerá fechado no Gólgota, quando o Filho experimentará até o fim o silêncio da dor e do abandono. Mas esse aparente fechamento não é negação da filiação; é sua radicalização. O mesmo Pai que declara seu amor no Jordão sustentará o Filho no caminho da entrega, até que o céu se abra definitivamente na ressurreição. A filiação, portanto, não nos poupa do sofrimento nem nos isenta das contradições da história, mas impede que a dor seja vazia, absurda ou estéril. Ela inscreve a cruz dentro de uma história de amor que não termina no fracasso.
Celebrar o Batismo do Senhor é, assim, renovar o próprio contrato existencial da fé cristã. É recordar que fomos mergulhados na mesma água que levou Jesus da Galileia ao Jordão, do Jordão ao deserto, do deserto à Galileia ferida, da Galileia à cruz. O batismo não nos autoriza a uma religião confortável, intimista ou triunfalista; ele nos compromete com uma fé que atravessa a história, assume conflitos e se deixa ferir pela realidade dos pobres, dos descartados e dos invisibilizados. Não fomos batizados para ocupar lugares de privilégio, mas para partilhar destinos humanos e testemunhar, com a própria vida, que o céu permanece aberto sobre os corpos feridos da história.
O Jordão continua correndo no interior da Igreja, mesmo quando tentamos represá-lo com clericalismo, autorreferencialidade e fé transformada em mercadoria. Ele segue questionando nossas estruturas, nossos discursos e nossas alianças. A água não perdeu sua força simbólica nem seu caráter subversivo. Ela continua nos chamando à conversão, à descida, ao serviço, à justiça que nasce do Reino e se concretiza na história.
Por isso, a escolha permanece a mesma, ontem como hoje: permanecer na margem seca da autossuficiência religiosa, da fé sem risco e do discurso sem compromisso, ou descer com Ele às águas turvas do mundo real, onde Deus decidiu habitar, agir e salvar. O Batismo do Senhor não é apenas uma festa do calendário litúrgico; é um critério permanente de discernimento. Quem desce com Cristo ao Jordão já não pode viver para si mesmo. Passa, como Ele, a existir para que a vida seja possível, abundante e digna para todos.
DNonato – Teólogo do Cotidiano


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