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segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Olhando novamente Lucas 10,38-42.

O Evangelho de Lucas 10,38-42, proclamado no 16º Domingo do Tempo Comum do Ano C, retorna nesta terça-feira da 27ª semana do Tempo Comum. Talvez a liturgia nos ofereça novamente essa passagem justamente porque há textos que não terminamos de compreender de uma vez. A cada encontro com a Palavra, a vida muda, nossas preocupações mudam e aquilo que antes parecia apenas uma história sobre duas irmãs começa a falar diretamente de nós. Lucas apresenta Jesus entrando numa aldeia e sendo recebido por uma mulher chamada Marta. O texto não identifica o lugar como Betânia; essa associação aparece no Evangelho de João, que apresenta Marta, Maria e Lázaro vivendo em Betânia e mantendo uma relação de amizade com Jesus (Jo 11–12). O mais importante, porém, é aquilo que acontece naquela casa. Jesus entra como hóspede, e sua presença revela algo que muitas vezes também acontece conosco quando alguém entra em nossa casa, quando uma visita inesperada chega, quando uma conversa interrompe nossa rotina ou quando a vida nos obriga a parar: descobrimos que, por trás daquilo que fazemos, existem preocupações, expectativas, cansaços e necessidades que nem sempre reconhecemos.

Marta está ocupada com os muitos afazeres da casa. É fácil compreendê-la, porque sua situação é muito próxima da nossa. Quantas pessoas começam o dia pensando em tudo aquilo que precisam resolver e terminam a noite com a sensação de que não fizeram nem metade? Há quem acorde já respondendo mensagens, organize filhos, trabalho, contas, compromissos, transporte, estudos, cuidados com familiares e problemas que não podem esperar. Há quem cuide de uma casa enquanto trabalha fora, quem carregue responsabilidades que ninguém percebe e quem tenha aprendido a demonstrar amor fazendo coisas pelos outros. Marta poderia estar justamente nessa situação: alguém que acolheu Jesus e deseja que tudo esteja bem, mas que, no meio do serviço, começa a ficar sobrecarregada. O problema não é que ela esteja trabalhando. O problema é que o trabalho começa a ocupar todo o seu interior.

Isso também acontece conosco. Às vezes não estamos apenas cansados; estamos interiormente ocupados demais. Mesmo quando sentamos, continuamos trabalhando mentalmente. Mesmo quando estamos em casa, pensamos no que ficou pendente. Mesmo quando alguém conversa conosco, uma parte da nossa atenção está no telefone. Estamos fisicamente presentes, mas interiormente ausentes. Há uma diferença enorme entre estar ocupado e estar presente. Maria, ao sentar-se aos pés de Jesus, faz justamente aquilo que nossa cultura tem cada vez mais dificuldade de fazer: ela interrompe a urgência. Ela não está simplesmente "sem fazer nada". Está escutando. No contexto do século I, sentar-se aos pés de um mestre significava assumir a posição de discípulo. Em Atos 22,3, Paulo utiliza a mesma linguagem para falar de sua formação aos pés de Gamaliel. Lucas, portanto, apresenta Maria como alguém que aprende, e Jesus reconhece nela essa condição.

As  mulheres  do contexto  Viviam  em uma sociedade na qual a formação religiosa formal estava predominantemente reservada aos homens, Maria ocupa o lugar de discípula. Jesus não a manda voltar ao trabalho para cumprir aquilo que socialmente se esperava dela. Ele legitima sua presença aos seus pés. O Evangelho abre, assim, espaço para uma mulher escutar, aprender e participar da experiência do discipulado. Mas Marta também precisa ser compreendida com justiça. Ela representa uma dimensão necessária da existência: cuidar, preparar, organizar, alimentar, acolher, resolver problemas. A própria Bíblia valoriza profundamente a hospitalidade. Abraão acolhe os visitantes em Mambré (Gn 18,1-10), e a tradição de Israel ordena que o estrangeiro seja amado como alguém da própria comunidade (Lv 19,34). O serviço de Marta, portanto, não é desprezível. O problema começa quando o serviço deixa de ser expressão de amor e se transforma em fonte de ansiedade e cobrança.

Marta olha para Maria e pensa: "Eu estou fazendo tudo, enquanto ela está aqui sentada." Essa frase poderia ser pronunciada hoje em muitas casas. "Eu faço tudo nesta família e ninguém reconhece." "Eu estou sempre disponível e os outros não se importam." "Se eu não fizer, ninguém faz." "Eu trabalho, cuido, resolvo e ainda esperam que eu faça mais." Às vezes, por trás dessas frases existe uma dor verdadeira. Muitas pessoas estão realmente sobrecarregadas e precisam de ajuda. O Evangelho não manda ninguém aceitar exploração ou carregar sozinho aquilo que deveria ser responsabilidade de todos. Mas Jesus nos convida a perceber algo além da distribuição das tarefas: aquilo que o excesso de responsabilidades está fazendo dentro de nós.

Porque existe um momento em que o cansaço deixa de ser apenas físico e começa a transformar nossa maneira de olhar para os outros. Já não vemos a pessoa, vemos aquilo que ela não fez. Já não percebemos sua presença, percebemos sua ausência no trabalho. O cuidado pode transformar-se em ressentimento, e o serviço pode tornar-se uma contabilidade silenciosa de méritos e dívidas. É nesse ponto que Jesus diz: "Marta, Marta! Tu te preocupas e andas agitada por muitas coisas. Porém, uma só coisa é necessária" (Lc 10,41-42). Jesus não está dizendo que as muitas coisas não importam. Algumas delas são absolutamente necessárias. Há contas para pagar, pessoas para cuidar, alimentos para preparar, responsabilidades profissionais, problemas familiares e decisões que não podem ser adiadas. A vida não é uma sala de retiro permanente. O Evangelho não nos tira da realidade.

O que Jesus questiona é a nossa incapacidade de distinguir o urgente do essencial. Essa distinção é extremamente necessária hoje. Vivemos numa época em que tudo parece urgente. O telefone toca, uma mensagem chega, uma notícia aparece, alguém exige resposta, uma tarefa se acumula e imediatamente sentimos que precisamos reagir. A tecnologia facilitou inúmeras coisas, mas também criou a sensação de disponibilidade permanente. Há pessoas que nunca conseguem desligar porque sempre existe alguém esperando uma resposta. E não se trata apenas de escutar Deus. Temos dificuldade de escutar as pessoas que vivem conosco. Um casal pode passar horas na mesma casa sem realmente conversar. Pais e filhos podem estar juntos, mas cada um preso à própria tela. Amigos podem se encontrar e continuar respondendo mensagens enquanto o outro fala. Uma pessoa pode contar uma dor e receber imediatamente um conselho, quando talvez precisasse primeiro ser simplesmente ouvida. Muitas vezes fazemos com as pessoas aquilo que fazemos com Deus: não escutamos; apenas esperamos nossa vez de falar.

Por isso, o Evangelho de Marta e Maria possui uma dimensão profundamente cotidiana. Jesus está dizendo que a presença vale mais do que a eficiência. Uma pessoa não é apenas aquilo que produz. Uma relação não se sustenta apenas pela quantidade de coisas que fazemos pelo outro. Há momentos em que amar significa simplesmente permanecer. Isso vale também para a vida familiar. Talvez alguém não precise que façamos mais uma coisa, mas que estejamos verdadeiramente presentes. Talvez um filho precise menos de uma solução imediata e mais de um pai ou de uma mãe que consiga ouvi-lo. Talvez um companheiro ou uma companheira não esteja pedindo uma resposta, mas a experiência de ser levado a sério. Talvez um idoso da família esteja repetindo a mesma história porque sua maior necessidade naquele momento seja perceber que ainda existe alguém disposto a ouvi-lo. O mesmo princípio vale para a comunidade cristã. Quantas vezes nossas paróquias sabem organizar atividades, mas não sabem escutar as pessoas? Sabem anunciar, mas não sabem acolher? Sabem responder às perguntas que imaginam que as pessoas têm, mas não escutam as perguntas reais que surgem de suas vidas?

Uma Igreja excessivamente ocupada pode acabar não percebendo aqueles que estão silenciosamente se afastando. Pode oferecer programas para todos, mas não perceber a solidão de alguém que se senta sozinho no fundo da igreja. Pode falar sobre família e não perceber famílias feridas. Pode falar sobre juventude e não escutar os jovens. Pode falar sobre os pobres sem permitir que os pobres sejam protagonistas de sua própria voz. É nesse ponto que o episódio de Marta e Maria se conecta com o Bom Samaritano, narrado imediatamente antes. O Samaritano não passa indiferente pelo homem ferido. Ele vê. Mas não basta olhar; é necessário deixar-se afetar pelo que se viu. Ele se aproxima, cuida e assume responsabilidade. Maria, por sua vez, escuta Jesus. Em ambos os casos existe uma abertura ao outro.

O problema do nosso tempo não é apenas a falta de ação. Muitas vezes é a ação sem escuta. Fazemos muito, mas nem sempre sabemos para quem estamos fazendo. Falamos em nome dos outros sem ouvi-los. Organizamos projetos para comunidades que não foram consultadas. Criamos respostas antes de compreender as perguntas. Isso também explica por que a tradição bíblica começa o Shemá com a palavra "Escuta": "Escuta, Israel: o Senhor nosso Deus é o único Senhor" (Dt 6,4). Antes de amar, Israel precisa ouvir. Isaías apresenta o discípulo como aquele cujo ouvido é despertado para escutar como discípulo (Is 50,4). E na Transfiguração, a voz do Pai diz: "Este é o meu Filho amado. Escutai-o!" (Mt 17,5). A fé nasce quando permitimos que uma palavra que não controlamos nos alcance. Talvez por isso nossa época tenha tanta dificuldade com o silêncio. O silêncio nos devolve a nós mesmos. Quando paramos de produzir, publicar e responder, começamos a perceber o que realmente estamos sentindo. A psicologia nos ajuda a compreender que a hiperatividade pode, em alguns casos, esconder ansiedade, medo ou necessidade de controle. Permanecer em silêncio exige aceitar que não podemos resolver tudo imediatamente.

  • Podemos estar tão envolvidos com a Igreja que já não conseguimos estar com Cristo.
  •  Podemos participar de inúmeras atividades e não reservar alguns minutos para uma oração silenciosa
  •  Podemos consumir conteúdos religiosos durante todo o dia e não abrir espaço interior para que a Palavra nos confronte. 
  • Podemos discutir teologia nas redes sociais e, ao mesmo tempo, não conseguir reconhecer o sofrimento de alguém que está ao nosso lado.

Quando isso acontece, a religião pode tornar-se apenas mais uma forma de ruído. Uma fé submetida à lógica da prosperidade pode transformar Deus em instrumento de enriquecimento. Uma fé submetida à lógica do domínio pode transformar o Evangelho em justificativa para poder político, controle social e intolerância. Uma fé submetida à lógica do mercado pode transformar o templo em espaço de consumo religioso e a experiência espiritual em produto.

O clericalismo também nasce dessa deformação quando a autoridade deixa de ser serviço e se transforma em controle. E não se trata apenas de ministros ordenados. Sempre que alguém acredita possuir o direito de controlar a consciência do outro em nome de Deus, a lógica do Evangelho é substituída pela lógica do poder. Jesus faz exatamente o contrário com Marta. Ele não a humilha. Chama-a pelo nome: "Marta, Marta". Existe ternura nessa repetição. Ele reconhece sua pessoa antes de tocar em sua inquietação. Sua palavra não é uma condenação do trabalho, mas um convite para recuperar o centro.

Porque há momentos em que não precisamos de mais uma tarefa, mas de discernimento. Não precisamos necessariamente fazer mais, mas compreender o que realmente merece nossa energia. Não precisamos responder a todas as mensagens, entrar em todas as discussões ou participar de todas as atividades. Algumas coisas podem esperar. Algumas disputas não merecem nossa paz. Algumas urgências são apenas barulho.

Gênesis 18 ajuda a aprofundar essa perspectiva. Abraão acolhe os visitantes e, naquele encontro aparentemente comum, recebe uma promessa. O cotidiano torna-se lugar de revelação. Deus não precisa necessariamente aparecer em acontecimentos extraordinários; pode visitar a vida através de uma pessoa que chega, de uma conversa, de uma dor, de uma responsabilidade, de uma oportunidade de acolher. Essa talvez seja uma das grandes perdas da vida contemporânea: estamos em muitos lugares ao mesmo tempo e, frequentemente, não estamos inteiramente em lugar algum. O corpo está numa casa e a atenção está no celular. Estamos numa celebração e pensando no trabalho. Estamos conversando com alguém e acompanhando outra conversa virtual. Estamos diante de Deus e nossa mente está percorrendo dezenas de preocupações.

Maria nos recorda que existe uma forma diferente de estar no mundo: permanecer. Permanecer não significa abandonar a responsabilidade. Significa recuperar a capacidade de estar inteiro diante daquilo que estamos vivendo.

Por isso, na terça-feira da 27ª semana do Tempo Comum, o Evangelho talvez nos convide a uma mudança muito concreta. Talvez seja necessário sentar à mesa sem o telefone, ouvir alguém sem preparar imediatamente uma resposta, fazer uma oração sem pressa, caminhar sem transformar cada minuto em produtividade, visitar alguém sem olhar continuamente para o relógio, participar da celebração sem tratá-la como mais um compromisso da agenda. A santidade também se constrói nesses lugares comuns onde aprendemos a estar presentes.

  • Marta nos lembra que a vida exige cuidado e responsabilidade. 
  • Maria nos lembra que ninguém consegue cuidar verdadeiramente da vida se nunca para para escutá-la. 
  • O Bom Samaritano nos mostra que aquilo que escutamos precisa transformar-se em misericórdia leitura de ontem.
  •  Abraão nos recorda que uma visita inesperada pode trazer uma palavra de Deus. 
  • E Jesus nos ensina que, no meio das muitas coisas que disputam nossa atenção, precisamos discernir aquilo que não pode ser perdido.

A "melhor parte" não é abandonar a vida, mas recebê-la com outra qualidade de presença. É descobrir que o essencial nem sempre é aquilo que grita mais alto. Às vezes, o essencial está justamente naquela pessoa que espera nossa escuta, naquela relação que pede nossa presença, naquela dor que evitamos, naquele silêncio que sempre adiamos e naquela Palavra que continua tentando alcançar nosso coração.

A pergunta para hoje não seja simplesmente: "O que ainda preciso fazer?" Talvez seja: "Quem ou o que está diante de mim e eu ainda não consegui verdadeiramente escutar?" Porque é possível fazer muitas coisas e perder o essencial. Mas também é possível parar, escutar e descobrir que, naquele instante aparentemente comum, Deus já estava ali. E talvez seja essa a grande conversão proposta por Jesus a Marta e a nós: não abandonar o serviço, mas libertá-lo da ansiedade; não fugir da realidade, mas aprender a habitá-la com presença; não fazer menos por indiferença, mas fazer aquilo que realmente importa, com um coração que primeiro aprendeu a escutar.

No meio da casa, das tarefas, do trabalho, das relações, das preocupações e das pequenas coisas que compõem nossos dias, Jesus continua sendo hóspede. A questão é saber se estamos tão ocupados preparando a casa para recebê-lo que já não percebemos que ele está sentado diante de nós, esperando apenas que paremos um pouco para escutá-lo.



DNonato - Teólogo do Cotidiano 

sábado, 10 de janeiro de 2026

Um olhar sobre Mateus 3,13-17 - Domingo dobBatismo do Senhor

 
No domingo do Batismo  do Senhor   somos  convidados  a descemos com Ele ao Jordão não como curiosos de uma cena antiga nem como leitores distantes de um texto bíblico isolado, mas como Igreja reunida no Domingo do Batismo do Senhor, quando a liturgia nos convida a escutar, em diálogo profundo, Isaías 42,1-4.6-7, o Salmo 28(29), Atos dos Apóstolos 10,34-38 e Mateus 3,13-17. Ao acolher esse conjunto de textos, não participamos apenas de uma recordação ritual, mas somos envolvidos por uma verdadeira sinfonia teológica que atravessa criação, eleição, missão e compromisso histórico. A Palavra proclamada neste domingo não nos permite permanecer espectadores: ela nos insere na cena, faz-nos descer às águas e reler a própria existência à luz do modo como Deus escolhe agir no mundo.

Celebrar o Batismo do Senhor, nesse horizonte litúrgico, não significa marcar apenas o início cronológico da vida pública de Jesus, mas reconhecer uma cena-fonte, uma nascente hermenêutica decisiva da qual brota todo o sentido do messianismo cristão e do discipulado. Em Isaías, ouvimos o canto do Servo escolhido que não grita nem oprime, mas estabelece o direito com mansidão; no Salmo, a voz do Senhor ressoa sobre as águas, revelando um Deus cuja glória não se impõe pela força, mas gera vida; em Atos, Pedro proclama um Deus que não faz acepção de pessoas e unge Jesus com o Espírito para passar fazendo o bem; em Mateus, finalmente, somos conduzidos às margens do Jordão, onde o céu se abre sobre um corpo molhado e humano. É ali, naquela travessia, que a identidade de Jesus é revelada e, inseparavelmente, a identidade da Igreja é forjada, não a partir do prestígio ou do poder, mas da descida, da solidariedade e da justiça que nasce do Reino.

Mateus nos faz ver Jesus que vem da Galileia ao Jordão, e esse movimento carrega densidade geográfica, sociológica e teológica. A geografia, no primeiro Evangelho, nunca é neutra. Jesus não surge do Templo de Jerusalém, não desce do Monte Sião, não aparece legitimado por títulos sacerdotais nem por alianças políticas. Ele vem da Galileia das nações, região periférica, misturada, desprezada pelas elites religiosas, marcada pela ambiguidade cultural. Ao narrar assim, Mateus afirma que Deus escolhe iniciar sua ação salvadora a partir das margens. A encarnação, longe de ser apenas um dado dogmático abstrato, torna-se critério hermenêutico: Deus se revela no chão comum da vida, fora dos centros de prestígio.

O Jordão para onde Jesus se dirige é um rio saturado de memória histórica e simbólica. Ele é fronteira e passagem, ruptura e promessa. Foi ali que Israel precisou molhar os pés para atravessar do deserto para a terra (Js 3–4), aprendendo que a promessa exige risco e confiança. Foi ali que Naamã, o sírio, precisou despir-se de seu orgulho para mergulhar sete vezes e ser curado (2Rs 5). Ao entrar nessas águas, Jesus não inaugura um rito privado, mas se insere na travessia coletiva do povo. Ele assume a história por dentro. Sabemos  que o movimento de João Batista já era, em si, profundamente subversivo: um rito de conversão fora do Templo, sem sacrifícios, sem taxas, sem mediação sacerdotal. Ao entrar na fila, Jesus legitima uma experiência religiosa que escapa ao controle institucional e se coloca ao lado dos marginalizados que buscavam esperança.

A resistência de João — “Sou eu que preciso ser batizado por ti” — ecoa como espelho de nossas próprias teologias. Trata-se da dificuldade humana de acolher um Deus que rompe hierarquias, desmonta escalas de mérito e desestabiliza nossas noções de dignidade religiosa. João, herdeiro de uma tradição sacerdotal, ainda opera com a lógica da separação entre puro e impuro, maior e menor. Jesus não entra em disputa teórica. Ele responde com uma afirmação densa: “Convém que cumpramos toda a justiça”. A exegese mateana revela que justiça  não significa legalismo nem moralismo, mas fidelidade integral ao projeto de Deus. É a mesma justiça que atravessa o Sermão da Montanha, que supera a dos escribas e fariseus (Mt 5,20), que tem fome e sede do Reino (Mt 5,6) e que é perseguida por causa do Evangelho (Mt 5,10). Cumprir a justiça é escolher a solidariedade radical com a humanidade ferida, mesmo quando isso frustra expectativas de um messias triunfalista.

Jesus entra nas águas e, nesse gesto silencioso, começam a naufragar as teologias da prosperidade, do domínio e da autoexaltação espiritual. Não há espetáculo, não há privilégios, não há exceções. O Filho se mistura. Assume o lugar dos que buscam conversão, não por necessidade de purificação, mas por opção de solidariedade. A kenosis cantada por Paulo em Filipenses 2,6-8 encontra aqui sua expressão concreta: Ele não se apegou à sua condição divina, mas esvaziou-se, fazendo-se servo. O Jordão confronta nossa cultura individualista e religiosa, na qual a fé muitas vezes se reduz ao “meu milagre” e à “minha bênção”. A antropologia bíblica que emerge desse texto afirma que ninguém se salva sozinho e que o Messias salva assumindo o peso do povo, como o Servo Sofredor de Isaías.

Ao sair da água, os céus se abrem. Não somos nós que subimos até Deus; é Deus que rasga o céu e desce. A súplica de Isaías — “Ah, se rasgasses os céus e descesses” (Is 63,19) — encontra aqui sua resposta. O céu se abre sobre um corpo molhado, vulnerável, orante. Essa imagem desmonta qualquer eclesiologia baseada em muros, castas ou pedágios espirituais. O Concílio Vaticano II, especialmente na Lumen Gentium, recorda que antes de qualquer ministério existe a dignidade comum do batismo e que a Igreja é, antes de tudo, Povo de Deus. O clericalismo, entendido como lógica de poder e não apenas como desvio individual, é uma negação prática do Batismo do Senhor, pois tenta fechar o céu que Cristo abriu.

O Espírito desce como pomba. A simbologia atravessa toda a Escritura: o Espírito que pairava sobre as águas da criação (Gn 1), a pomba que anuncia o recomeço após o dilúvio (Gn 8). No Jordão, criação e redenção se encontram. O Espírito não vem como fogo destruidor nem como tempestade ameaçadora, mas como mansidão e recomeço. Jesus inaugura o Reino não pela violência, mas pela fidelidade paciente. Ele é o Servo de Isaías 42 que não quebra a cana rachada nem apaga o pavio que fumega. Essa imagem confronta diretamente as teologias do domínio que buscam impor a fé pela força política, cultural ou moral. O Espírito de Jesus convence, não coage; atrai, não domina.

A voz que se faz ouvir — “Este é o meu Filho amado, em quem ponho o meu agrado” — une o Salmo 2 e Isaías 42, revelando um messianismo inseparavelmente real e servil. Mateus nos impede de dissociar glória e cruz. Não há Filho sem Servo, nem realeza sem entrega. Toda fé que promete sucesso sem conversão, bênção sem compromisso e glória sem serviço transforma o Evangelho em mercadoria. Deus não se oferece como produto religioso, mas como Pai que envia seus filhos à missão.

Os paralelos sinóticos aprofundam essa cena. Marcos enfatiza o céu que se rasga (Mc 1,9-11), Lucas destaca que Jesus estava em oração (Lc 3,21-22), e João testemunha o Espírito que permanece (Jo 1,32-34). Cada tradição amplia o horizonte, mas todas convergem: a missão nasce da comunhão com o Pai e da solidariedade com os últimos. Atos dos Apóstolos relê o Jordão à luz da Páscoa quando Pedro proclama que Deus não faz acepção de pessoas e resume a vida de Jesus como alguém ungido pelo Espírito que passou fazendo o bem (At 10,34-38). O poder de Jesus não oprime; liberta. Não acumula; restaura.

Liturgicamente, Mateus 3,13-17 é proclamado na Festa do Batismo do Senhor, sobretudo no Ano A, mas sua teologia atravessa outras celebrações fundamentais. Ela sustenta a Vigília Pascal, quando a água volta ao centro e a travessia se torna memória viva. Ressurge na Transfiguração (Mt 17), quando a voz do Pai se repete, e fundamenta a Grande Comissão (Mt 28,19), onde o batismo se torna envio missionário. Mesmo quando o texto não é lido literalmente, o Jordão continua correndo por dentro da liturgia e da vida da Igreja.

A Gaudium et Spes recorda que a Igreja é chamada a ler os sinais dos tempos e a caminhar solidária com as alegrias e angústias da humanidade. Os documentos da CNBB insistem que o batismo não é rito social nem amuleto religioso, mas compromisso com o Reino, com os pobres e com a transformação das estruturas injustas. O Jordão desautoriza uma fé confortável, burguesa e alienada.

No horizonte pascal, percebemos que o Jordão já aponta para a cruz. O céu que se abre sobre Jesus nas águas parecerá fechado no Gólgota, quando o Filho experimentará até o fim o silêncio da dor e do abandono. Mas esse aparente fechamento não é negação da filiação; é sua radicalização. O mesmo Pai que declara seu amor no Jordão sustentará o Filho no caminho da entrega, até que o céu se abra definitivamente na ressurreição. A filiação, portanto, não nos poupa do sofrimento nem nos isenta das contradições da história, mas impede que a dor seja vazia, absurda ou estéril. Ela inscreve a cruz dentro de uma história de amor que não termina no fracasso.

Celebrar o Batismo do Senhor é, assim, renovar o próprio contrato existencial da fé cristã. É recordar que fomos mergulhados na mesma água que levou Jesus da Galileia ao Jordão, do Jordão ao deserto, do deserto à Galileia ferida, da Galileia à cruz. O batismo não nos autoriza a uma religião confortável, intimista ou triunfalista; ele nos compromete com uma fé que atravessa a história, assume conflitos e se deixa ferir pela realidade dos pobres, dos descartados e dos invisibilizados. Não fomos batizados para ocupar lugares de privilégio, mas para partilhar destinos humanos e testemunhar, com a própria vida, que o céu permanece aberto sobre os corpos feridos da história.

O Jordão continua correndo no interior da Igreja, mesmo quando tentamos represá-lo com clericalismo, autorreferencialidade e fé transformada em mercadoria. Ele segue questionando nossas estruturas, nossos discursos e nossas alianças. A água não perdeu sua força simbólica nem seu caráter subversivo. Ela continua nos chamando à conversão, à descida, ao serviço, à justiça que nasce do Reino e se concretiza na história.

Por isso, a escolha permanece a mesma, ontem como hoje: permanecer na margem seca da autossuficiência religiosa, da fé sem risco e do discurso sem compromisso, ou descer com Ele às águas turvas do mundo real, onde Deus decidiu habitar, agir e salvar. O Batismo do Senhor não é apenas uma festa do calendário litúrgico; é um critério permanente de discernimento. Quem desce com Cristo ao Jordão já não pode viver para si mesmo. Passa, como Ele, a existir para que a vida seja possível, abundante e digna para todos.



DNonato – Teólogo do Cotidiano

sábado, 19 de julho de 2025

Um outro olhar sobre Lucas 10,38-42. - 16º Domingo do Tempo Comum

O Senhor, porém, lhe respondeu: "Marta, Marta! Tu te preocupas e andas agitada por muitas coisas. (Lc 10, 41)

Já fizemos a reflexão  do 16º Domingo do Tempo Comum neste blog em   2022 em nosso canal do YouTube 2024,  2022, 2021 e 2020 . A  liturgia de hoje nos convida à hospitalidade, ecoando nas palavras das Escrituras. 
  • A primeira leitura, de Gênesis 18,1-10, nos apresenta Abraão e sua generosa acolhida aos três visitantes misteriosos, que se revelam a própria presença divina.
  •  O Salmo de resposta 14(15), com seu refrão “Quem habitará, Senhor, no vosso santuário?”, nos convida à reflexão sobre a pureza de coração necessária para a verdadeira comunhão com Deus. 
  • Segunda leitura aColossenses 1,24-28, a segunda leitura, Paulo nos revela o mistério de Cristo em nós, a esperança da glória. Evangelho segundo Lucas 10,38-42 proclamado no 16º Domingo do Tempo  Comum do ano "C" e  na  terça-feira  da 27ª semana  do tempo comum,  nos situa na casa de Marta e Maria, em Betânia, onde a tensão entre a ação e a escuta se manifesta de forma marcante. Em todas essas passagens, percorre-se o fio invisível da escuta, do acolhimento e da revelação do mistério de Deus no ordinário da vida.  
A liturgia  de hoje nos alerta  que .mão se trata apenas de hospitalidade doméstica ou de práticas religiosas, mas da abertura existencial à presença divina que se revela quando nos dispomos a sair de nós mesmos e criar espaço para o outro – inclusive para o Outro com maiúscula, que é o próprio Deus que se faz hóspede em nossa história. E o Evangelho de Lucas situa Jesus na casa de Marta e Maria, em Betânia, um território de amizade e confiança. Essa casa não é um lugar qualquer; ela se configura como um espaço de refúgio e intimidade, já referida em João 11 e 12 como a morada de Lázaro, amigo do Senhor. Betânia representava um ponto de apoio no caminho de Jesus rumo a Jerusalém, onde sua Páscoa se consumaria. Ali, Jesus não é apenas mestre ou profeta; é um amigo que visita, compartilha da vida e entra no espaço feminino de duas irmãs com quem mantém uma relação próxima e verdadeira. E justamente neste ambiente de intimidade, surge um conflito que, à primeira vista, parece meramente doméstico, mas que transcende para tocar em uma tensão espiritual, social e até política, revelando nuances profundas da condição humana: Marta corre para garantir a hospitalidade prática, enquanto Maria se coloca aos pés do Mestre para escutá-lo.

É crucial recordar que o encontro de Jesus com Marta e Maria acontece imediatamente após a parábola do Bom Samaritano, compondo uma sequência narrativa intencional que Lucas constrói com maestria teológica e pedagógica. O samaritano, estrangeiro e marginalizado, torna-se exemplo de amor concreto, de ação compassiva, mostrando que o verdadeiro culto a Deus passa pelo cuidado com o próximo ferido na estrada da vida (Lc 10,25-37). Mas o Evangelho não termina aí: a ação precisa ser sustentada por uma escuta profunda, como a de Maria, que se senta aos pés de Jesus. Esse encadeamento evangélico recorda Deuteronômio 6,4-5 — o “Shema Israel”: “Escuta, Israel! O Senhor nosso Deus é o único Senhor. Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e com todas as tuas forças.” O amor ao próximo nasce da escuta do Deus único. A hospitalidade, nesse horizonte, não é mera gentileza cultural, mas uma das obrigações centrais da Torá, repetidamente enfatizada em textos como Levítico 19,33-34: “Se um estrangeiro habitar convosco, no vosso país, não o oprimireis. O estrangeiro será para vós como o natural dentre vós; tu o amarás como a ti mesmo, pois fostes estrangeiros na terra do Egito.” A tradição judaica entendia o acolhimento como expressão da santidade (Lv 19,2), um gesto que atualiza a memória da libertação e expressa a fidelidade à Aliança. Não por acaso, Abraão corre ao encontro dos três visitantes em Mambré (Gn 18,1-10), Maria de Betânia oferece sua escuta, e o samaritano para para cuidar do caído. Esse mesmo princípio aparece na ordem de Jesus em Marcos 12,29-31, ao unir o mandamento do amor a Deus com o amor ao próximo. Não há serviço verdadeiro sem contemplação, nem contemplação autêntica que não se traduza em serviço. Isaías 50,4 já anunciava essa espiritualidade integral ao declarar: “Cada manhã ele desperta o meu ouvido para que eu escute como um discípulo.” E é essa escuta que antecede o envio. Como Elias no Horeb (1Rs 19,11-13), que reencontra a voz de Deus não no terremoto ou no fogo, mas no “sopro suave”, também nós somos chamados a reencontrar no silêncio orante e na escuta humilde a fonte da ação profética. Marta e Maria, o Samaritano e Abraão, Maria de Nazaré e Paulo: todos se movem por esse dinamismo do encontro, onde escutar e servir não se opõem, mas se iluminam mutuamente, revelando que a hospitalidade verdadeira começa na escuta do coração. E o gesto de Maria não é irrelevante, mas profundamente revolucionário para sua época. Na cultura judaica do século I, as mulheres não podiam sentar-se aos pés de um rabino para aprender. Essa era uma prerrogativa exclusiva dos homens, dos discípulos formais. Maria rompe corajosamente com essa barreira cultural, e Jesus, em um ato de profunda subversão às normas sociais vigentes, legitima sua escolha. A expressão “sentar-se aos pés” é técnica, indicando a posição de um discípulo ávido por aprender, como vemos em Atos 22,3, onde Paulo afirma ter sido instruído “aos pés de Gamaliel”. Maria, portanto, assume, diante de todos e de si mesma, a postura de quem quer aprender, de quem deseja não apenas servir a Jesus com tarefas práticas, mas compreender a Palavra em sua essência. Essa postura, contraintuitiva para a época, causa desconforto à irmã Marta, que ainda está presa a um modelo de espiritualidade baseado no fazer incessante, no ativismo que, ironicamente, muitas vezes nos afasta da escuta silenciosa e atenta ao mistério.

Jesus, no entanto, não desvaloriza Marta nem exalta Maria como se houvesse um antagonismo entre elas. Sua intervenção é um convite à introspecção, um apontamento para a desordem interior de Marta: “Anda inquieta e agitada com muitas coisas” (v. 41). O problema não reside no serviço em si, que é nobre e necessário, mas no serviço que se transforma em angústia, em cobrança, em comparação, em uma tentativa, muitas vezes inconsciente, de impor ao outro a própria forma de viver a fé. Não por acaso, muitos líderes religiosos hoje agem como uma “Marta desfigurada”: exigem dos outros adesão ao seu próprio ritmo frenético, confundem discipulado com desempenho e medem a espiritualidade pela quantidade de atividades desenvolvidas, e não pela qualidade do encontro transformador com o Senhor. Aqui ressoa com força a crítica profética do Papa Francisco, que nos recorda em Evangelii Gaudium, n. 14: “A Igreja não cresce por proselitismo, mas por atração”. E essa atração só ocorre quando deixamos de lado o ativismo vazio e cultivamos uma escuta autêntica, contemplativa e comprometida, capaz de gerar vida e sentido.

A crítica de Jesus não é apenas dirigida a Marta, mas a uma lógica, uma mentalidade, que persiste vigorosamente em nossos dias: o delírio da produtividade espiritual, da fé transformada em tarefa, da missão esvaziada de seu sentido mais profundo e convertida em um empreendimento, muitas vezes motivado por interesses próprios. A teologia da prosperidade, que distorce a mensagem evangélica ao prometer bênçãos materiais em troca de sacrifícios pessoais e ofertas financeiras, instrumentalizando a fé para fins de ganho; a teologia do domínio, que usa o Evangelho para legitimar poder político e autoritário, subjugando consciências em vez de libertá-las; a fé-mercadoria, onde o templo se converte em um mercado de bens e serviços religiosos e o sacramento em uma performance vazia de significado, todas essas distorções nascem da incapacidade de parar, escutar, discernir e deixar que a Palavra de Deus nos interpele em nossa interioridade. Como Marta, muitos hoje querem obrigar os outros a viver a fé segundo seus próprios moldes, confundem o zelo pela casa de Deus com imposição de regras rígidas, e o cuidado com o outro se torna uma cobrança moral asfixiante ou um controle institucional que mina a liberdade do Espírito. Esse clericalismo, que incha o ego e esvazia a alma, é uma das maiores chagas da Igreja contemporânea, sufocando a profecia e a alegria do Evangelho.

Marta é, então, a imagem pungente da espiritualidade agitada que corre o risco de perder o centro, de desviar-se da fonte da verdadeira vida. Maria, por sua vez, representa a escuta radical, o discipulado contracultural, a abertura à Palavra que desinstala, que desafia as convenções e os paradigmas estabelecidos. Mas é crucial entender que ambas são necessárias para uma fé plena e autêntica. A tradição cristã nunca as separou, mas, ao contrário, as integrou em uma tensão criativa. São Gregório Magno, em sua Homilia 33 sobre os Evangelhos, afirmou com sabedoria que “Marta e Maria representam as duas dimensões da vida cristã: a ação e a contemplação. Ambas são necessárias, mas a contemplação é superior, pois é ela que alimenta a ação e lhe dá sentido”. O problema de Marta não reside em seu serviço, que é uma expressão de amor e cuidado, mas em sua tentativa de silenciar a escuta do outro, de sufocar a necessidade de parar e se nutrir da Palavra. Essa dinâmica pode ser analisada sob a ótica da psicologia, onde o ativismo incessante muitas vezes encobre ansiedades e a necessidade de controle, enquanto a capacidade de escuta e contemplação está ligada à inteligência emocional e à paz interior. Sociologicamente, o conflito reflete a tensão entre o pragmatismo e o misticismo, entre a organização social e a busca individual por significado.

Se voltarmos ao Gênesis, na primeira leitura, vemos Abraão acolhendo três visitantes misteriosos com uma hospitalidade generosa e incondicional. Ele não sabia, mas estava diante do próprio Deus, que se manifestava sob a forma humana (Gn 18,1-10). É na escuta atenta, no acolhimento sem reservas, que a promessa divina se revela: "No próximo ano, tua esposa Sara terá um filho". O que parecia apenas um gesto de hospitalidade transforma-se em um encontro com o sagrado, em uma ruptura com a lógica da esterilidade e da impossibilidade. Em Lucas, Maria, como Sara, ouve a promessa da Palavra. A escuta gera vida. A escuta é fecunda. A escuta abre espaço para o novo, para o inusitado, para a graça que irrompe na história.

Infelizmente, muitos hoje preferem gritar do que escutar. Preferem uma fé ruidosa, cheia de eventos, luzes, programações intensas, mas vazia de interioridade, de silêncio, de Palavra que ecoa na alma. As missas, por vezes, se transformam em shows, o altar em palco, e os pregadores em artistas da performance religiosa, buscando aplausos e reconhecimento, em vez de conduzirem à humildade do encontro com o transcendente. E os que ainda buscam silêncio e contemplação são frequentemente tidos como frios, pouco fervorosos ou desengajados. O grito de Marta ecoa nessas práticas: "Senhor, não te importas que minha irmã me deixe sozinha no serviço?" (v. 40). E Jesus, com sua sabedoria divina, responde a todos nós, desafiando nossas prioridades e apegos: “Maria escolheu a melhor parte, e esta não lhe será tirada” (v. 42).

A “melhor parte” não é o ócio ou a inatividade irresponsável. É a escuta que precede a ação. É o discipulado antes da missão. É o saber antes do fazer. É a sabedoria antes do ativismo desmedido. Sem essa base sólida, o agir cristão se torna um ativismo secular com um rótulo religioso, vazio de propósito e de graça. E isso vale para todas as estruturas da Igreja, desde a paróquia mais humilde até as mais altas instâncias: quando a pastoral se torna uma máquina burocrática, a liturgia um espetáculo sem profundidade, a caridade um mero assistencialismo sem empatia, a missão um marketing empresarial e a evangelização um algoritmo frio, perdemos o essencial. A espiritualidade cristã só é autêntica e verdadeiramente libertadora quando integra Marta e Maria em uma tensão criativa, com a escuta como fonte inesgotável de vida e o serviço como sua consequência natural e generosa. Como ressalta a patrística, a união dessas duas dimensões é a chave para a santidade.

Lucas, ao narrar esse episódio logo após a parábola do Bom Samaritano (Lc 10,25-37), nos convida a um equilíbrio dinâmico entre ação e contemplação. O samaritano agiu com misericórdia e eficácia, mas agiu porque viu a necessidade, e viu porque teve compaixão. E a compaixão, em sua essência, nasce de um coração que escuta: escuta o clamor dos caídos, escuta a Palavra de Deus, escuta a voz do Espírito Santo que move à ação. Do mesmo modo, em Marcos 3,31-35, Jesus redefine a família espiritual, afirmando: “Quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe.” A vontade de Deus, no entanto, só pode ser feita quando é escutada e compreendida em profundidade. Em Mateus 17,5, na Transfiguração, o Pai declara de forma inequívoca: “Este é o meu Filho amado. Escutai-o!” A escuta é, portanto, sempre a primeira e mais fundamental resposta da fé.

Na Carta aos Colossenses, Paulo fala de seu sofrimento como expressão do mistério de Cristo, “Cristo em vós, a esperança da glória” (Cl 1,27). Esse Cristo que sofre e salva é também o que visita nossas casas, nossas feridas mais profundas, nossos silêncios. Precisamos reaprender a receber o Senhor não como um produto litúrgico ou uma peça de um ritual vazio, mas como hóspede sagrado. Como presença viva, e não como ideologia a ser imposta. Como Palavra que interpela e transforma, e não como um slogan religioso vazio. Como rosto dos pobres e marginalizados, e não como símbolo de poder e opulência. A filosofia existencial nos lembra que a verdadeira presença se dá na relação autêntica, não na objetificação.

Neste mundo fragmentado e ruidoso, onde tantos líderes religiosos se tornam administradores de empresas e caçadores de curtidas em redes sociais, confundindo a espiritualidade com a autopromoção, precisamos redescobrir a escuta como ato revolucionário. Escutar a Palavra de Deus que nos nutre. Escutar os clamores dos pobres e oprimidos que nos desafiam. Escutar o silêncio do nosso próprio coração, onde Deus habita. Escutar a voz do Espírito Santo que ainda hoje sussurra em nossas casas, em nossas caminhadas, em nossos desertos. A antropologia cultural nos mostra como o ritmo acelerado da vida moderna, impulsionado pela tecnologia, dificulta essa escuta profunda. Marta e Maria nos ensinam que é possível, sim, servir e escutar, agir e contemplar, viver a fé de forma integrada, coerente e libertadora, abraçando a tensão criativa entre o fazer e o ser, entre a ação e a contemplação.

Qual das duas dimensões, a ação ou a escuta, você sente que precisa cultivar mais em sua vida hoje?



DNonato - Teólogo do Cotidiano 



sábado, 12 de julho de 2025

Um outro olhar sobre Lucas 10,25-37 - 15º Domingo do Tempo Comum

 

Quando a compaixão escandaliza: a fé que desce do altar à estrada.  A religião de muitos quer subir ao céu. A fé de quem segue o  Cristo desce à estrada. 

Neste 15º Domingo do Tempo Comum, a Palavra nos tira do conforto doutrinal e nos lança à estrada onde o amor se torna critério de verdade. Diante da pergunta sobre a vida eterna (Lc 10,25), Jesus não entrega um manual, mas conta uma história que desmonta sistemas e revela: o Reino não se constrói no templo, mas na estrada onde alguém sangra.

As leituras deste domingo — Deuteronômio 30,10-14; Salmo 68(69); Colossenses 1,15-20; e Lucas 10,25-37 que  fizemos uma. Reflexão  tanto no YouTube em 2020, 2022 e 2024 e em  nosso blog em 2022 escrevemos  um olhar  sobre  o texto  que vai  nos  orientar no caminho da nossa reflexão de  hoje, apontando para a centralidade da escuta, da compaixão e da proximidade. 

Na primeira  leitura  Moisés recorda ao povo às portas da Terra Prometida que a Palavra de Deus não está distante, mas ao alcance da boca e do coração, acessível a todos que desejam viver segundo a aliança. O salmo expressa o grito dos pobres perseguidos, cuja esperança está em Deus: “Procurem os humildes o Senhor, e reviverá o seu coração.” Na segunda leitura, somos tomados por um hino que proclama Cristo como imagem do Deus invisível, primogênito da criação e cabeça do corpo, a Igreja. Nele, a proximidade de Deus alcança sua plenitude. A transcendência se faz toque. O Criador se curva, como o samaritano, diante da criatura ferida.

O Evangelho de hoje, que vamos aprofundar, é proclamado na segunda-feira da 27ª semana do Tempo Comum do ciclo ferial par, e no 15⁰ domingo do Tempo Comum do ciclo dominical "C". O texto do evangelista Lucas de hoje não é uma lição moral, mas uma ruptura profética. Jesus, a caminho de Jerusalém — onde derramará o próprio sangue — é interpelado por um doutor da Lei que deseja saber o que fazer para herdar a vida eterna (Lc 10,25-37). A pergunta, embora legítima, não é pura: carrega a intenção de pôr Jesus à prova. Mas o Mestre devolve a pergunta com outra pergunta, remetendo ao coração da Torá, em Levítico 19,18, que ordena amar a Deus e ao próximo como a si mesmo. Então vem a questão que move toda a cena: “E quem é o meu próximo?”

 Jesus não responde com doutrina, mas com narrativa. Um homem desce de Jerusalém a Jericó, caminho íngreme, traiçoeiro, repleto de sombras e emboscadas, e é deixado quase morto. Passam por ele um sacerdote e um levita. Têm pressa de chegar ao culto. A religião oficial fecha os olhos à dor que sangra na estrada. O templo se isola da ferida. A liturgia se torna escudo. A ortodoxia, sem amor, vira arma.

Eles não negam Deus com palavras, mas com ausência. A indiferença é a heresia mais aceita em nome da ordem. Ela mascara-se de piedade, mas perpetua a exclusão. Suas mãos estão limpas, mas não santas. Seus passos são certos, mas não justos. A estrada de Jericó é ferida aberta na carne da humanidade. Liga o sagrado ao marginal, o culto ao abandono. Toda cidade tem sua Jericó: onde o Estado não chega, onde a Igreja não se ajoelha, onde a esperança sangra sobre o asfalto quente.

Então aparece o escandaloso da parábola: um samaritano. Marginalizado, considerado herege, impuro, inimigo histórico. Mas é ele quem se aproxima, se comove e age. O verbo grego splagchnizomai exprime uma comoção visceral, entranhada, que move não só o corpo, mas a alma inteira. Ele derrama azeite e vinho — símbolos de cuidado, sacramento e consolo. Usa o próprio animal. Gasta do próprio dinheiro. Compromete-se com o retorno. O que o templo não fez, ele faz. O que os consagrados negaram, ele assume. O samaritano é o verdadeiro sacerdote da nova aliança. Faz da compaixão um altar. Entende que Deus não habita o templo, mas a carne dilacerada do outro. Ele não faz perguntas. Ele toca. Ele não exige ficha moral. Ele ajoelha-se.

A parábola é uma releitura profunda da espiritualidade bíblica. Deus jamais aceitou sacrifícios vazios. Os profetas já gritavam contra a religião que ignora o órfão, a viúva, o estrangeiro. A compaixão é mais antiga que o altar. A justiça, mais sagrada que o incenso. Em Jesus, essa denúncia se faz carne. Ele é o samaritano de Deus: que se aproxima, que cura com a própria presença, que toca os intocáveis, que transforma a estrada em espaço litúrgico. Jesus curava no sábado. Tocava os impuros. Comia com pecadores. Rompia com a religião que usava Deus para justificar a exclusão. Sua fé era escândalo porque sua ternura era liturgia. Seu altar era a mesa. Sua oração, o toque. Sua teologia, o gesto.

Hoje, os novos sacerdotes e levitas vestem túnicas caras e ternos bem cortados. Seus altares são palcos. Seus incensos, luzes. A fé virou espetáculo. A cruz, um símbolo decorativo. O púlpito, empresa. A espiritualidade foi capturada pelo mercado. Falam de Deus, mas prestam culto ao lucro. Medem a unção por métricas de engajamento. O sucesso virou gráfico. A conversão, KPI (Chave de Desempenho).  O Espírito, algoritmo. Mas o Reino de Deus não se mede em likes, e sim em lágrimas enxugadas. Não em números, mas em mesas partilhadas. Pregam vitória, mas evitam os vencidos. Cantam bênção, mas ignoram os corpos feridos. Passam ao largo dos favelados, dos imigrantes, dos LGBTQIAPN+ silenciados, dos indígenas assassinados, dos jovens   negros  chacinados,  das mulheres violentadas. Suas mãos estão limpas, mas suas almas estão ausentes. A fé que não se curva ao sofrimento é idolatria do ego. A religião que não se suja com a estrada de Jericó é encenação litúrgica.

A pedagogia de Jesus não pergunta quem é o próximo. Ela inverte a lógica: quem se fez próximo? A proximidade não é um dado, mas uma decisão. Não é localização geográfica, mas posicionamento existencial. O Evangelho exige deslocamento. Quem permanece fixo, não entendeu. Fé é travessia. Proximidade é conversão. Não adianta falar de Jesus em púlpitos climatizados, se ignoramos sua presença nos que têm fome e sede. De que serve nosso ministério, se é blindado contra a dor? Há violências que não gritam, mas se insinuam em homilias que omitem, em catequeses que excluem, em bênçãos que se negam. O silêncio também fere. Quando a Igreja cala, sua doutrina vira pedra de tropeço. Só a compaixão devolve frescor à Palavra.

No juízo final, não nos perguntarão quantos cultos / missas  frequentamos, mas quantos corpos levantamos. A balança de Deus não mede discursos, mas feridas tocadas. O critério não será a ortodoxia, mas a misericórdia. O samaritano será justificado. O sacerdote ausente, desmascarado.

Vivemos um tempo em que a religião se tornou instrumento de dominação, e a neutralidade favorece os opressores. A verdadeira fé desce do altar à estrada. Não há outro caminho. Quando a Igreja se divorcia da dor dos pobres, trai sua missão. A teologia que não toca a ferida é ruído vazio. A Eucaristia que não gera compaixão, é autotraição. O pão consagrado exige mãos que também partilham o pão cotidiano.

A estrada de Jericó continua. Ainda há corpos caídos. Ainda há os que racionalizam e justificam a distância. Mas também há os que se curvam. Que se deixam ferir. Que entendem que a fé não é conforto, mas cruz. Que a salvação não está no culto perfeito, mas na presença imperfeita que acolhe e cura.

A pergunta não é mais “Quem é o meu próximo?”

As  perguntas  que precisam de respostas hoje:

  • “Quem eu me torno diante dos caídos no caminho da vida?”
  • Sou aquele que passa ao largo?
  • Sou aquele que terceiriza a responsabilidade?
  • Sou aquele que desce da estrada litúrgica para tocar a realidade ferida?

DNonato – Teólogo do Cotidiano