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segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Olhando novamente Lucas 10,38-42.

O Evangelho de Lucas 10,38-42, proclamado no 16º Domingo do Tempo Comum do Ano C, retorna nesta terça-feira da 27ª semana do Tempo Comum. Talvez a liturgia nos ofereça novamente essa passagem justamente porque há textos que não terminamos de compreender de uma vez. A cada encontro com a Palavra, a vida muda, nossas preocupações mudam e aquilo que antes parecia apenas uma história sobre duas irmãs começa a falar diretamente de nós. Lucas apresenta Jesus entrando numa aldeia e sendo recebido por uma mulher chamada Marta. O texto não identifica o lugar como Betânia; essa associação aparece no Evangelho de João, que apresenta Marta, Maria e Lázaro vivendo em Betânia e mantendo uma relação de amizade com Jesus (Jo 11–12). O mais importante, porém, é aquilo que acontece naquela casa. Jesus entra como hóspede, e sua presença revela algo que muitas vezes também acontece conosco quando alguém entra em nossa casa, quando uma visita inesperada chega, quando uma conversa interrompe nossa rotina ou quando a vida nos obriga a parar: descobrimos que, por trás daquilo que fazemos, existem preocupações, expectativas, cansaços e necessidades que nem sempre reconhecemos.

Marta está ocupada com os muitos afazeres da casa. É fácil compreendê-la, porque sua situação é muito próxima da nossa. Quantas pessoas começam o dia pensando em tudo aquilo que precisam resolver e terminam a noite com a sensação de que não fizeram nem metade? Há quem acorde já respondendo mensagens, organize filhos, trabalho, contas, compromissos, transporte, estudos, cuidados com familiares e problemas que não podem esperar. Há quem cuide de uma casa enquanto trabalha fora, quem carregue responsabilidades que ninguém percebe e quem tenha aprendido a demonstrar amor fazendo coisas pelos outros. Marta poderia estar justamente nessa situação: alguém que acolheu Jesus e deseja que tudo esteja bem, mas que, no meio do serviço, começa a ficar sobrecarregada. O problema não é que ela esteja trabalhando. O problema é que o trabalho começa a ocupar todo o seu interior.

Isso também acontece conosco. Às vezes não estamos apenas cansados; estamos interiormente ocupados demais. Mesmo quando sentamos, continuamos trabalhando mentalmente. Mesmo quando estamos em casa, pensamos no que ficou pendente. Mesmo quando alguém conversa conosco, uma parte da nossa atenção está no telefone. Estamos fisicamente presentes, mas interiormente ausentes. Há uma diferença enorme entre estar ocupado e estar presente. Maria, ao sentar-se aos pés de Jesus, faz justamente aquilo que nossa cultura tem cada vez mais dificuldade de fazer: ela interrompe a urgência. Ela não está simplesmente "sem fazer nada". Está escutando. No contexto do século I, sentar-se aos pés de um mestre significava assumir a posição de discípulo. Em Atos 22,3, Paulo utiliza a mesma linguagem para falar de sua formação aos pés de Gamaliel. Lucas, portanto, apresenta Maria como alguém que aprende, e Jesus reconhece nela essa condição.

As  mulheres  do contexto  Viviam  em uma sociedade na qual a formação religiosa formal estava predominantemente reservada aos homens, Maria ocupa o lugar de discípula. Jesus não a manda voltar ao trabalho para cumprir aquilo que socialmente se esperava dela. Ele legitima sua presença aos seus pés. O Evangelho abre, assim, espaço para uma mulher escutar, aprender e participar da experiência do discipulado. Mas Marta também precisa ser compreendida com justiça. Ela representa uma dimensão necessária da existência: cuidar, preparar, organizar, alimentar, acolher, resolver problemas. A própria Bíblia valoriza profundamente a hospitalidade. Abraão acolhe os visitantes em Mambré (Gn 18,1-10), e a tradição de Israel ordena que o estrangeiro seja amado como alguém da própria comunidade (Lv 19,34). O serviço de Marta, portanto, não é desprezível. O problema começa quando o serviço deixa de ser expressão de amor e se transforma em fonte de ansiedade e cobrança.

Marta olha para Maria e pensa: "Eu estou fazendo tudo, enquanto ela está aqui sentada." Essa frase poderia ser pronunciada hoje em muitas casas. "Eu faço tudo nesta família e ninguém reconhece." "Eu estou sempre disponível e os outros não se importam." "Se eu não fizer, ninguém faz." "Eu trabalho, cuido, resolvo e ainda esperam que eu faça mais." Às vezes, por trás dessas frases existe uma dor verdadeira. Muitas pessoas estão realmente sobrecarregadas e precisam de ajuda. O Evangelho não manda ninguém aceitar exploração ou carregar sozinho aquilo que deveria ser responsabilidade de todos. Mas Jesus nos convida a perceber algo além da distribuição das tarefas: aquilo que o excesso de responsabilidades está fazendo dentro de nós.

Porque existe um momento em que o cansaço deixa de ser apenas físico e começa a transformar nossa maneira de olhar para os outros. Já não vemos a pessoa, vemos aquilo que ela não fez. Já não percebemos sua presença, percebemos sua ausência no trabalho. O cuidado pode transformar-se em ressentimento, e o serviço pode tornar-se uma contabilidade silenciosa de méritos e dívidas. É nesse ponto que Jesus diz: "Marta, Marta! Tu te preocupas e andas agitada por muitas coisas. Porém, uma só coisa é necessária" (Lc 10,41-42). Jesus não está dizendo que as muitas coisas não importam. Algumas delas são absolutamente necessárias. Há contas para pagar, pessoas para cuidar, alimentos para preparar, responsabilidades profissionais, problemas familiares e decisões que não podem ser adiadas. A vida não é uma sala de retiro permanente. O Evangelho não nos tira da realidade.

O que Jesus questiona é a nossa incapacidade de distinguir o urgente do essencial. Essa distinção é extremamente necessária hoje. Vivemos numa época em que tudo parece urgente. O telefone toca, uma mensagem chega, uma notícia aparece, alguém exige resposta, uma tarefa se acumula e imediatamente sentimos que precisamos reagir. A tecnologia facilitou inúmeras coisas, mas também criou a sensação de disponibilidade permanente. Há pessoas que nunca conseguem desligar porque sempre existe alguém esperando uma resposta. E não se trata apenas de escutar Deus. Temos dificuldade de escutar as pessoas que vivem conosco. Um casal pode passar horas na mesma casa sem realmente conversar. Pais e filhos podem estar juntos, mas cada um preso à própria tela. Amigos podem se encontrar e continuar respondendo mensagens enquanto o outro fala. Uma pessoa pode contar uma dor e receber imediatamente um conselho, quando talvez precisasse primeiro ser simplesmente ouvida. Muitas vezes fazemos com as pessoas aquilo que fazemos com Deus: não escutamos; apenas esperamos nossa vez de falar.

Por isso, o Evangelho de Marta e Maria possui uma dimensão profundamente cotidiana. Jesus está dizendo que a presença vale mais do que a eficiência. Uma pessoa não é apenas aquilo que produz. Uma relação não se sustenta apenas pela quantidade de coisas que fazemos pelo outro. Há momentos em que amar significa simplesmente permanecer. Isso vale também para a vida familiar. Talvez alguém não precise que façamos mais uma coisa, mas que estejamos verdadeiramente presentes. Talvez um filho precise menos de uma solução imediata e mais de um pai ou de uma mãe que consiga ouvi-lo. Talvez um companheiro ou uma companheira não esteja pedindo uma resposta, mas a experiência de ser levado a sério. Talvez um idoso da família esteja repetindo a mesma história porque sua maior necessidade naquele momento seja perceber que ainda existe alguém disposto a ouvi-lo. O mesmo princípio vale para a comunidade cristã. Quantas vezes nossas paróquias sabem organizar atividades, mas não sabem escutar as pessoas? Sabem anunciar, mas não sabem acolher? Sabem responder às perguntas que imaginam que as pessoas têm, mas não escutam as perguntas reais que surgem de suas vidas?

Uma Igreja excessivamente ocupada pode acabar não percebendo aqueles que estão silenciosamente se afastando. Pode oferecer programas para todos, mas não perceber a solidão de alguém que se senta sozinho no fundo da igreja. Pode falar sobre família e não perceber famílias feridas. Pode falar sobre juventude e não escutar os jovens. Pode falar sobre os pobres sem permitir que os pobres sejam protagonistas de sua própria voz. É nesse ponto que o episódio de Marta e Maria se conecta com o Bom Samaritano, narrado imediatamente antes. O Samaritano não passa indiferente pelo homem ferido. Ele vê. Mas não basta olhar; é necessário deixar-se afetar pelo que se viu. Ele se aproxima, cuida e assume responsabilidade. Maria, por sua vez, escuta Jesus. Em ambos os casos existe uma abertura ao outro.

O problema do nosso tempo não é apenas a falta de ação. Muitas vezes é a ação sem escuta. Fazemos muito, mas nem sempre sabemos para quem estamos fazendo. Falamos em nome dos outros sem ouvi-los. Organizamos projetos para comunidades que não foram consultadas. Criamos respostas antes de compreender as perguntas. Isso também explica por que a tradição bíblica começa o Shemá com a palavra "Escuta": "Escuta, Israel: o Senhor nosso Deus é o único Senhor" (Dt 6,4). Antes de amar, Israel precisa ouvir. Isaías apresenta o discípulo como aquele cujo ouvido é despertado para escutar como discípulo (Is 50,4). E na Transfiguração, a voz do Pai diz: "Este é o meu Filho amado. Escutai-o!" (Mt 17,5). A fé nasce quando permitimos que uma palavra que não controlamos nos alcance. Talvez por isso nossa época tenha tanta dificuldade com o silêncio. O silêncio nos devolve a nós mesmos. Quando paramos de produzir, publicar e responder, começamos a perceber o que realmente estamos sentindo. A psicologia nos ajuda a compreender que a hiperatividade pode, em alguns casos, esconder ansiedade, medo ou necessidade de controle. Permanecer em silêncio exige aceitar que não podemos resolver tudo imediatamente.

  • Podemos estar tão envolvidos com a Igreja que já não conseguimos estar com Cristo.
  •  Podemos participar de inúmeras atividades e não reservar alguns minutos para uma oração silenciosa
  •  Podemos consumir conteúdos religiosos durante todo o dia e não abrir espaço interior para que a Palavra nos confronte. 
  • Podemos discutir teologia nas redes sociais e, ao mesmo tempo, não conseguir reconhecer o sofrimento de alguém que está ao nosso lado.

Quando isso acontece, a religião pode tornar-se apenas mais uma forma de ruído. Uma fé submetida à lógica da prosperidade pode transformar Deus em instrumento de enriquecimento. Uma fé submetida à lógica do domínio pode transformar o Evangelho em justificativa para poder político, controle social e intolerância. Uma fé submetida à lógica do mercado pode transformar o templo em espaço de consumo religioso e a experiência espiritual em produto.

O clericalismo também nasce dessa deformação quando a autoridade deixa de ser serviço e se transforma em controle. E não se trata apenas de ministros ordenados. Sempre que alguém acredita possuir o direito de controlar a consciência do outro em nome de Deus, a lógica do Evangelho é substituída pela lógica do poder. Jesus faz exatamente o contrário com Marta. Ele não a humilha. Chama-a pelo nome: "Marta, Marta". Existe ternura nessa repetição. Ele reconhece sua pessoa antes de tocar em sua inquietação. Sua palavra não é uma condenação do trabalho, mas um convite para recuperar o centro.

Porque há momentos em que não precisamos de mais uma tarefa, mas de discernimento. Não precisamos necessariamente fazer mais, mas compreender o que realmente merece nossa energia. Não precisamos responder a todas as mensagens, entrar em todas as discussões ou participar de todas as atividades. Algumas coisas podem esperar. Algumas disputas não merecem nossa paz. Algumas urgências são apenas barulho.

Gênesis 18 ajuda a aprofundar essa perspectiva. Abraão acolhe os visitantes e, naquele encontro aparentemente comum, recebe uma promessa. O cotidiano torna-se lugar de revelação. Deus não precisa necessariamente aparecer em acontecimentos extraordinários; pode visitar a vida através de uma pessoa que chega, de uma conversa, de uma dor, de uma responsabilidade, de uma oportunidade de acolher. Essa talvez seja uma das grandes perdas da vida contemporânea: estamos em muitos lugares ao mesmo tempo e, frequentemente, não estamos inteiramente em lugar algum. O corpo está numa casa e a atenção está no celular. Estamos numa celebração e pensando no trabalho. Estamos conversando com alguém e acompanhando outra conversa virtual. Estamos diante de Deus e nossa mente está percorrendo dezenas de preocupações.

Maria nos recorda que existe uma forma diferente de estar no mundo: permanecer. Permanecer não significa abandonar a responsabilidade. Significa recuperar a capacidade de estar inteiro diante daquilo que estamos vivendo.

Por isso, na terça-feira da 27ª semana do Tempo Comum, o Evangelho talvez nos convide a uma mudança muito concreta. Talvez seja necessário sentar à mesa sem o telefone, ouvir alguém sem preparar imediatamente uma resposta, fazer uma oração sem pressa, caminhar sem transformar cada minuto em produtividade, visitar alguém sem olhar continuamente para o relógio, participar da celebração sem tratá-la como mais um compromisso da agenda. A santidade também se constrói nesses lugares comuns onde aprendemos a estar presentes.

  • Marta nos lembra que a vida exige cuidado e responsabilidade. 
  • Maria nos lembra que ninguém consegue cuidar verdadeiramente da vida se nunca para para escutá-la. 
  • O Bom Samaritano nos mostra que aquilo que escutamos precisa transformar-se em misericórdia leitura de ontem.
  •  Abraão nos recorda que uma visita inesperada pode trazer uma palavra de Deus. 
  • E Jesus nos ensina que, no meio das muitas coisas que disputam nossa atenção, precisamos discernir aquilo que não pode ser perdido.

A "melhor parte" não é abandonar a vida, mas recebê-la com outra qualidade de presença. É descobrir que o essencial nem sempre é aquilo que grita mais alto. Às vezes, o essencial está justamente naquela pessoa que espera nossa escuta, naquela relação que pede nossa presença, naquela dor que evitamos, naquele silêncio que sempre adiamos e naquela Palavra que continua tentando alcançar nosso coração.

A pergunta para hoje não seja simplesmente: "O que ainda preciso fazer?" Talvez seja: "Quem ou o que está diante de mim e eu ainda não consegui verdadeiramente escutar?" Porque é possível fazer muitas coisas e perder o essencial. Mas também é possível parar, escutar e descobrir que, naquele instante aparentemente comum, Deus já estava ali. E talvez seja essa a grande conversão proposta por Jesus a Marta e a nós: não abandonar o serviço, mas libertá-lo da ansiedade; não fugir da realidade, mas aprender a habitá-la com presença; não fazer menos por indiferença, mas fazer aquilo que realmente importa, com um coração que primeiro aprendeu a escutar.

No meio da casa, das tarefas, do trabalho, das relações, das preocupações e das pequenas coisas que compõem nossos dias, Jesus continua sendo hóspede. A questão é saber se estamos tão ocupados preparando a casa para recebê-lo que já não percebemos que ele está sentado diante de nós, esperando apenas que paremos um pouco para escutá-lo.



DNonato - Teólogo do Cotidiano 

sábado, 19 de julho de 2025

Um outro olhar sobre Lucas 10,38-42. - 16º Domingo do Tempo Comum

O Senhor, porém, lhe respondeu: "Marta, Marta! Tu te preocupas e andas agitada por muitas coisas. (Lc 10, 41)

Já fizemos a reflexão  do 16º Domingo do Tempo Comum neste blog em   2022 em nosso canal do YouTube 2024,  2022, 2021 e 2020 . A  liturgia de hoje nos convida à hospitalidade, ecoando nas palavras das Escrituras. 
  • A primeira leitura, de Gênesis 18,1-10, nos apresenta Abraão e sua generosa acolhida aos três visitantes misteriosos, que se revelam a própria presença divina.
  •  O Salmo de resposta 14(15), com seu refrão “Quem habitará, Senhor, no vosso santuário?”, nos convida à reflexão sobre a pureza de coração necessária para a verdadeira comunhão com Deus. 
  • Segunda leitura aColossenses 1,24-28, a segunda leitura, Paulo nos revela o mistério de Cristo em nós, a esperança da glória. Evangelho segundo Lucas 10,38-42 proclamado no 16º Domingo do Tempo  Comum do ano "C" e  na  terça-feira  da 27ª semana  do tempo comum,  nos situa na casa de Marta e Maria, em Betânia, onde a tensão entre a ação e a escuta se manifesta de forma marcante. Em todas essas passagens, percorre-se o fio invisível da escuta, do acolhimento e da revelação do mistério de Deus no ordinário da vida.  
A liturgia  de hoje nos alerta  que .mão se trata apenas de hospitalidade doméstica ou de práticas religiosas, mas da abertura existencial à presença divina que se revela quando nos dispomos a sair de nós mesmos e criar espaço para o outro – inclusive para o Outro com maiúscula, que é o próprio Deus que se faz hóspede em nossa história. E o Evangelho de Lucas situa Jesus na casa de Marta e Maria, em Betânia, um território de amizade e confiança. Essa casa não é um lugar qualquer; ela se configura como um espaço de refúgio e intimidade, já referida em João 11 e 12 como a morada de Lázaro, amigo do Senhor. Betânia representava um ponto de apoio no caminho de Jesus rumo a Jerusalém, onde sua Páscoa se consumaria. Ali, Jesus não é apenas mestre ou profeta; é um amigo que visita, compartilha da vida e entra no espaço feminino de duas irmãs com quem mantém uma relação próxima e verdadeira. E justamente neste ambiente de intimidade, surge um conflito que, à primeira vista, parece meramente doméstico, mas que transcende para tocar em uma tensão espiritual, social e até política, revelando nuances profundas da condição humana: Marta corre para garantir a hospitalidade prática, enquanto Maria se coloca aos pés do Mestre para escutá-lo.

É crucial recordar que o encontro de Jesus com Marta e Maria acontece imediatamente após a parábola do Bom Samaritano, compondo uma sequência narrativa intencional que Lucas constrói com maestria teológica e pedagógica. O samaritano, estrangeiro e marginalizado, torna-se exemplo de amor concreto, de ação compassiva, mostrando que o verdadeiro culto a Deus passa pelo cuidado com o próximo ferido na estrada da vida (Lc 10,25-37). Mas o Evangelho não termina aí: a ação precisa ser sustentada por uma escuta profunda, como a de Maria, que se senta aos pés de Jesus. Esse encadeamento evangélico recorda Deuteronômio 6,4-5 — o “Shema Israel”: “Escuta, Israel! O Senhor nosso Deus é o único Senhor. Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e com todas as tuas forças.” O amor ao próximo nasce da escuta do Deus único. A hospitalidade, nesse horizonte, não é mera gentileza cultural, mas uma das obrigações centrais da Torá, repetidamente enfatizada em textos como Levítico 19,33-34: “Se um estrangeiro habitar convosco, no vosso país, não o oprimireis. O estrangeiro será para vós como o natural dentre vós; tu o amarás como a ti mesmo, pois fostes estrangeiros na terra do Egito.” A tradição judaica entendia o acolhimento como expressão da santidade (Lv 19,2), um gesto que atualiza a memória da libertação e expressa a fidelidade à Aliança. Não por acaso, Abraão corre ao encontro dos três visitantes em Mambré (Gn 18,1-10), Maria de Betânia oferece sua escuta, e o samaritano para para cuidar do caído. Esse mesmo princípio aparece na ordem de Jesus em Marcos 12,29-31, ao unir o mandamento do amor a Deus com o amor ao próximo. Não há serviço verdadeiro sem contemplação, nem contemplação autêntica que não se traduza em serviço. Isaías 50,4 já anunciava essa espiritualidade integral ao declarar: “Cada manhã ele desperta o meu ouvido para que eu escute como um discípulo.” E é essa escuta que antecede o envio. Como Elias no Horeb (1Rs 19,11-13), que reencontra a voz de Deus não no terremoto ou no fogo, mas no “sopro suave”, também nós somos chamados a reencontrar no silêncio orante e na escuta humilde a fonte da ação profética. Marta e Maria, o Samaritano e Abraão, Maria de Nazaré e Paulo: todos se movem por esse dinamismo do encontro, onde escutar e servir não se opõem, mas se iluminam mutuamente, revelando que a hospitalidade verdadeira começa na escuta do coração. E o gesto de Maria não é irrelevante, mas profundamente revolucionário para sua época. Na cultura judaica do século I, as mulheres não podiam sentar-se aos pés de um rabino para aprender. Essa era uma prerrogativa exclusiva dos homens, dos discípulos formais. Maria rompe corajosamente com essa barreira cultural, e Jesus, em um ato de profunda subversão às normas sociais vigentes, legitima sua escolha. A expressão “sentar-se aos pés” é técnica, indicando a posição de um discípulo ávido por aprender, como vemos em Atos 22,3, onde Paulo afirma ter sido instruído “aos pés de Gamaliel”. Maria, portanto, assume, diante de todos e de si mesma, a postura de quem quer aprender, de quem deseja não apenas servir a Jesus com tarefas práticas, mas compreender a Palavra em sua essência. Essa postura, contraintuitiva para a época, causa desconforto à irmã Marta, que ainda está presa a um modelo de espiritualidade baseado no fazer incessante, no ativismo que, ironicamente, muitas vezes nos afasta da escuta silenciosa e atenta ao mistério.

Jesus, no entanto, não desvaloriza Marta nem exalta Maria como se houvesse um antagonismo entre elas. Sua intervenção é um convite à introspecção, um apontamento para a desordem interior de Marta: “Anda inquieta e agitada com muitas coisas” (v. 41). O problema não reside no serviço em si, que é nobre e necessário, mas no serviço que se transforma em angústia, em cobrança, em comparação, em uma tentativa, muitas vezes inconsciente, de impor ao outro a própria forma de viver a fé. Não por acaso, muitos líderes religiosos hoje agem como uma “Marta desfigurada”: exigem dos outros adesão ao seu próprio ritmo frenético, confundem discipulado com desempenho e medem a espiritualidade pela quantidade de atividades desenvolvidas, e não pela qualidade do encontro transformador com o Senhor. Aqui ressoa com força a crítica profética do Papa Francisco, que nos recorda em Evangelii Gaudium, n. 14: “A Igreja não cresce por proselitismo, mas por atração”. E essa atração só ocorre quando deixamos de lado o ativismo vazio e cultivamos uma escuta autêntica, contemplativa e comprometida, capaz de gerar vida e sentido.

A crítica de Jesus não é apenas dirigida a Marta, mas a uma lógica, uma mentalidade, que persiste vigorosamente em nossos dias: o delírio da produtividade espiritual, da fé transformada em tarefa, da missão esvaziada de seu sentido mais profundo e convertida em um empreendimento, muitas vezes motivado por interesses próprios. A teologia da prosperidade, que distorce a mensagem evangélica ao prometer bênçãos materiais em troca de sacrifícios pessoais e ofertas financeiras, instrumentalizando a fé para fins de ganho; a teologia do domínio, que usa o Evangelho para legitimar poder político e autoritário, subjugando consciências em vez de libertá-las; a fé-mercadoria, onde o templo se converte em um mercado de bens e serviços religiosos e o sacramento em uma performance vazia de significado, todas essas distorções nascem da incapacidade de parar, escutar, discernir e deixar que a Palavra de Deus nos interpele em nossa interioridade. Como Marta, muitos hoje querem obrigar os outros a viver a fé segundo seus próprios moldes, confundem o zelo pela casa de Deus com imposição de regras rígidas, e o cuidado com o outro se torna uma cobrança moral asfixiante ou um controle institucional que mina a liberdade do Espírito. Esse clericalismo, que incha o ego e esvazia a alma, é uma das maiores chagas da Igreja contemporânea, sufocando a profecia e a alegria do Evangelho.

Marta é, então, a imagem pungente da espiritualidade agitada que corre o risco de perder o centro, de desviar-se da fonte da verdadeira vida. Maria, por sua vez, representa a escuta radical, o discipulado contracultural, a abertura à Palavra que desinstala, que desafia as convenções e os paradigmas estabelecidos. Mas é crucial entender que ambas são necessárias para uma fé plena e autêntica. A tradição cristã nunca as separou, mas, ao contrário, as integrou em uma tensão criativa. São Gregório Magno, em sua Homilia 33 sobre os Evangelhos, afirmou com sabedoria que “Marta e Maria representam as duas dimensões da vida cristã: a ação e a contemplação. Ambas são necessárias, mas a contemplação é superior, pois é ela que alimenta a ação e lhe dá sentido”. O problema de Marta não reside em seu serviço, que é uma expressão de amor e cuidado, mas em sua tentativa de silenciar a escuta do outro, de sufocar a necessidade de parar e se nutrir da Palavra. Essa dinâmica pode ser analisada sob a ótica da psicologia, onde o ativismo incessante muitas vezes encobre ansiedades e a necessidade de controle, enquanto a capacidade de escuta e contemplação está ligada à inteligência emocional e à paz interior. Sociologicamente, o conflito reflete a tensão entre o pragmatismo e o misticismo, entre a organização social e a busca individual por significado.

Se voltarmos ao Gênesis, na primeira leitura, vemos Abraão acolhendo três visitantes misteriosos com uma hospitalidade generosa e incondicional. Ele não sabia, mas estava diante do próprio Deus, que se manifestava sob a forma humana (Gn 18,1-10). É na escuta atenta, no acolhimento sem reservas, que a promessa divina se revela: "No próximo ano, tua esposa Sara terá um filho". O que parecia apenas um gesto de hospitalidade transforma-se em um encontro com o sagrado, em uma ruptura com a lógica da esterilidade e da impossibilidade. Em Lucas, Maria, como Sara, ouve a promessa da Palavra. A escuta gera vida. A escuta é fecunda. A escuta abre espaço para o novo, para o inusitado, para a graça que irrompe na história.

Infelizmente, muitos hoje preferem gritar do que escutar. Preferem uma fé ruidosa, cheia de eventos, luzes, programações intensas, mas vazia de interioridade, de silêncio, de Palavra que ecoa na alma. As missas, por vezes, se transformam em shows, o altar em palco, e os pregadores em artistas da performance religiosa, buscando aplausos e reconhecimento, em vez de conduzirem à humildade do encontro com o transcendente. E os que ainda buscam silêncio e contemplação são frequentemente tidos como frios, pouco fervorosos ou desengajados. O grito de Marta ecoa nessas práticas: "Senhor, não te importas que minha irmã me deixe sozinha no serviço?" (v. 40). E Jesus, com sua sabedoria divina, responde a todos nós, desafiando nossas prioridades e apegos: “Maria escolheu a melhor parte, e esta não lhe será tirada” (v. 42).

A “melhor parte” não é o ócio ou a inatividade irresponsável. É a escuta que precede a ação. É o discipulado antes da missão. É o saber antes do fazer. É a sabedoria antes do ativismo desmedido. Sem essa base sólida, o agir cristão se torna um ativismo secular com um rótulo religioso, vazio de propósito e de graça. E isso vale para todas as estruturas da Igreja, desde a paróquia mais humilde até as mais altas instâncias: quando a pastoral se torna uma máquina burocrática, a liturgia um espetáculo sem profundidade, a caridade um mero assistencialismo sem empatia, a missão um marketing empresarial e a evangelização um algoritmo frio, perdemos o essencial. A espiritualidade cristã só é autêntica e verdadeiramente libertadora quando integra Marta e Maria em uma tensão criativa, com a escuta como fonte inesgotável de vida e o serviço como sua consequência natural e generosa. Como ressalta a patrística, a união dessas duas dimensões é a chave para a santidade.

Lucas, ao narrar esse episódio logo após a parábola do Bom Samaritano (Lc 10,25-37), nos convida a um equilíbrio dinâmico entre ação e contemplação. O samaritano agiu com misericórdia e eficácia, mas agiu porque viu a necessidade, e viu porque teve compaixão. E a compaixão, em sua essência, nasce de um coração que escuta: escuta o clamor dos caídos, escuta a Palavra de Deus, escuta a voz do Espírito Santo que move à ação. Do mesmo modo, em Marcos 3,31-35, Jesus redefine a família espiritual, afirmando: “Quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe.” A vontade de Deus, no entanto, só pode ser feita quando é escutada e compreendida em profundidade. Em Mateus 17,5, na Transfiguração, o Pai declara de forma inequívoca: “Este é o meu Filho amado. Escutai-o!” A escuta é, portanto, sempre a primeira e mais fundamental resposta da fé.

Na Carta aos Colossenses, Paulo fala de seu sofrimento como expressão do mistério de Cristo, “Cristo em vós, a esperança da glória” (Cl 1,27). Esse Cristo que sofre e salva é também o que visita nossas casas, nossas feridas mais profundas, nossos silêncios. Precisamos reaprender a receber o Senhor não como um produto litúrgico ou uma peça de um ritual vazio, mas como hóspede sagrado. Como presença viva, e não como ideologia a ser imposta. Como Palavra que interpela e transforma, e não como um slogan religioso vazio. Como rosto dos pobres e marginalizados, e não como símbolo de poder e opulência. A filosofia existencial nos lembra que a verdadeira presença se dá na relação autêntica, não na objetificação.

Neste mundo fragmentado e ruidoso, onde tantos líderes religiosos se tornam administradores de empresas e caçadores de curtidas em redes sociais, confundindo a espiritualidade com a autopromoção, precisamos redescobrir a escuta como ato revolucionário. Escutar a Palavra de Deus que nos nutre. Escutar os clamores dos pobres e oprimidos que nos desafiam. Escutar o silêncio do nosso próprio coração, onde Deus habita. Escutar a voz do Espírito Santo que ainda hoje sussurra em nossas casas, em nossas caminhadas, em nossos desertos. A antropologia cultural nos mostra como o ritmo acelerado da vida moderna, impulsionado pela tecnologia, dificulta essa escuta profunda. Marta e Maria nos ensinam que é possível, sim, servir e escutar, agir e contemplar, viver a fé de forma integrada, coerente e libertadora, abraçando a tensão criativa entre o fazer e o ser, entre a ação e a contemplação.

Qual das duas dimensões, a ação ou a escuta, você sente que precisa cultivar mais em sua vida hoje?



DNonato - Teólogo do Cotidiano