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domingo, 25 de janeiro de 2026

Um outro olhar sobre Lucas 10, 1-9

A Palavra proclamada em Lucas 10,1-9 retorna ciclicamente à vida da Igreja não como uma lembrança piedosa de um episódio remoto, mas como um espelho incômodo e, ao mesmo tempo, libertador, no qual a comunidade cristã é chamada a se reconhecer e a se julgar. Trata-se de um texto que não envelhece nem se deixa domesticar pela repetição litúrgica, porque carrega em si um critério permanente de discernimento da identidade cristã: quem somos, como caminhamos e a serviço de que Reino dizemos estar. Cada vez que é proclamado, esse Evangelho recoloca a Igreja diante da pergunta decisiva sobre a autenticidade de sua missão, desmascarando tanto os triunfalismos religiosos quanto as formas sutis de acomodação ao sistema.

Por isso, Lucas 10,1-9 não é um texto genérico sobre “missão” no sentido abstrato ou romantizado. A liturgia o escolhe com precisão teológica e pastoral para iluminar a memória de santos, mártires e discípulos missionários que não apenas falaram do Evangelho, mas o encarnaram em carne ferida, em territórios de conflito, em contextos marcados por exclusão, violência e resistência. É um texto que se deixa ler à luz da história concreta da Igreja, revelando que o envio de Jesus não produz heróis isolados nem gestores do sagrado, mas testemunhas vulneráveis, despojadas de garantias, capazes de atravessar casas, cidades e estruturas levando a paz como gesto subversivo e o Reino como horizonte crítico.

Nesse sentido, a Palavra não retorna apenas como consolo espiritual, mas como convocação exigente. Ela recorda que a missão nasce do envio e não da autopromoção; da escuta e não do domínio; da proximidade e não do espetáculo religioso. Ao ecoar na liturgia, Lucas 10,1-9 reinscreve a Igreja no dinamismo pascal do sair de si, do arriscar-se e do confiar, lembrando que toda fidelidade ao Evangelho passa, inevitavelmente, pelo confronto com as lógicas de poder, segurança e sucesso que seduzem tanto o mundo quanto as instituições religiosas. Este Evangelho é proclamado no 14º Domingo do Tempo Comum, no Ano C, quando a assembleia é convidada a reconhecer-se como povo enviado, e também na celebração conjunta de:

  • São Timóteo e São Tito, em 26 de janeiro, colaboradores diretos de Paulo na organização das primeiras comunidades, bem como na memória de 
  • São Cirilo e São Metódio, em 14 de fevereiro, apóstolos dos povos eslavos.
  • Sao Lucas evangelista  em 18 de outubro que  refletimos em 2025

 Em diversas celebrações do Comum dos Santos Missionários e Evangelizadores, este texto volta a ressoar como fundamento bíblico da missão eclesial. A escolha litúrgica não é acidental: ela afirma que a vida desses santos é comentário vivo do Evangelho, prolongamento histórico da Palavra que continua a interpelar a Igreja.

O texto se abre com um gesto decisivo: o Senhor designa outros discípulos e os envia à sua frente, dois a dois, a toda cidade e lugar para onde Ele próprio devia ir. Esse movimento do envio atravessa toda a Escritura. Abraão é chamado a deixar sua terra (Gn 12,1), Moisés é enviado a enfrentar o faraó (Ex 3,10), os profetas são lançados para fora de si mesmos para falar em nome do Senhor (Is 6,8; Jr 1,7). No Novo Testamento, essa lógica se aprofunda quando Jesus chama os Doze para estarem com Ele e para serem enviados (Mc 3,14), quando os envia em missão (Mt 10,1-16; Mc 6,7-13) e quando confia à comunidade discípula o anúncio até os confins da terra (Mt 28,18-20; At 1,8). O envio nunca é confortável: ele desloca, expõe, desinstala. A fé bíblica não é posse, é caminho.

O envio em dupla revela uma verdade antropológica, teológica e eclesial profunda. A Escritura afirma desde o princípio que “não é bom que o ser humano esteja só” (Gn 2,18), e a missão reflete essa verdade original. Eclesiastes recorda que “melhor é serem dois do que um só” (Ecl 4,9), pois a vida se sustenta na reciprocidade. No Novo Testamento, a missão raramente é solitária: Paulo caminha com Barnabé, depois com Silas; Priscila e Áquila evangelizam juntos; Timóteo e Tito são enviados para cuidar de comunidades frágeis. A liturgia de São Timóteo e São Tito, celebrada com este Evangelho, recorda dois homens jovens, marcados por limites e responsabilidades enormes. Timóteo, exortado a não se envergonhar do Evangelho nem se intimidar (2Tm 1,8), enfrenta a própria fragilidade; Tito lida com conflitos, abusos e desordens comunitárias (Tt 1,10-16). Ambos são enviados sem garantias, sustentados não pelo prestígio, mas pela fidelidade. Em chave sociológica, o envio em dupla confronta o individualismo religioso e o culto à liderança carismática isolada. Em chave eclesial, denuncia o clericalismo que absolutiza funções e concentra poder, esquecendo que a missão nasce da comunhão.

“A messe é grande, mas os operários são poucos.” Esta constatação atravessa gerações. Os profetas já haviam denunciado pastores que se apascentam a si mesmos (Ez 34), e Jesus retoma essa imagem ao olhar para um povo cansado e abatido (Mt 9,36). A resposta não é eficiência técnica nem marketing religioso, mas a oração: “pedi ao dono da messe”. Na tradição bíblica, pedir é alinhar-se à vontade de Deus. “Se o Senhor não construir a casa, em vão trabalham os construtores” (Sl 127,1). A oração não substitui a missão; ela a funda. Cirilo e Metódio, celebrados com este Evangelho em 14 de fevereiro, não foram apenas intelectuais e tradutores, mas homens profundamente enraizados na oração, capazes de discernir os sinais de Deus no meio de disputas culturais e eclesiais. A fecundidade missionária não nasce do poder, mas da escuta.

“Eis que vos envio como cordeiros no meio de lobos.” A imagem do cordeiro atravessa toda a Escritura. O cordeiro pascal marca a libertação do Êxodo (Ex 12), o Servo sofredor de Isaías é conduzido como cordeiro ao matadouro (Is 53,7), e no Apocalipse é o Cordeiro imolado quem vence a história (Ap 5,6). A missão cristã se inscreve nessa lógica paradoxal: a força do Reino não é a da violência, mas a da entrega. Em termos filosóficos, isso subverte a noção clássica de poder como dominação; em termos antropológicos, revela uma compreensão do humano que se realiza na relação, não na imposição. As vidas de Timóteo, Tito, Cirilo e Metódio confirmam isso: todos enfrentaram resistências, perseguições e incompreensões, inclusive dentro da própria Igreja. Nenhum venceu pela força; todos permaneceram pela fidelidade.

A ordem de não levar bolsa, sacola ou sandálias aprofunda essa lógica do despojamento. O povo sai do Egito sem tempo de acumular (Ex 12,11); os profetas denunciam a falsa segurança das riquezas (Am 6,1-7); Jesus adverte que a vida não consiste na abundância de bens (Lc 12,15). O despojamento evangélico não é desprezo pelo corpo, mas libertação da idolatria da segurança. Em diálogo com a psicologia, pode-se reconhecer que o apego excessivo gera ansiedade; em chave teológica, revela desconfiança na providência. A fé transformada em mercadoria, típica das teologias da prosperidade, contradiz frontalmente esse mandato: quem anuncia o Reino carregado de garantias já não testemunha o Deus que caminha com seu povo.

Ao entrar numa casa, o discípulo deve dizer: “A paz esteja nesta casa.” A paz, shalom, é síntese de justiça, reconciliação e vida plena. Os profetas denunciaram uma paz falsa que encobre a injustiça (Jr 6,14), e Jesus oferece uma paz que o mundo não pode dar (Jo 14,27). A paz precede a doutrina e a moral; ela é o primeiro anúncio. Em termos sociológicos, trata-se de um gesto profundamente político, pois desafia estruturas de violência e exclusão. Onde a paz não é acolhida, o discípulo não impõe: sacode o pó dos pés, gesto profético que entrega o juízo a Deus (Mt 10,14; Ez 2,5). O Reino não se impõe, se propõe.

“Permanecei na mesma casa.” Permanecer é verbo da fidelidade bíblica. Deus promete permanecer com seu povo (Ex 33,14), Rute permanece com Noemi (Rt 1,16), o Ressuscitado promete estar com os seus até o fim dos tempos (Mt 28,20). A missão não se faz na superficialidade, mas na convivência. Permanecer é criar laços, acompanhar processos, resistir à tentação do sucesso rápido. A crítica à fé-espetáculo e ao culto como entretenimento emerge aqui com força: quem vive de aplausos não permanece, apenas circula. Timóteo, chamado a perseverar apesar da juventude e da fragilidade (1Tm 4,12), é testemunho dessa permanência paciente.

“Curai os doentes.” Desde o Antigo Testamento, Deus se revela como aquele que cura (Ex 15,26; Sl 103,3). As curas são sinais do Reino anunciado pelos profetas (Is 35,5-6) e confirmados por Jesus (Mt 11,5). Curar é restaurar a dignidade e reintegrar à comunidade. Em diálogo com a psicologia e a sociologia, pode-se afirmar que a cura envolve escuta, acolhida e reconstrução de sentido. A missão que ignora o sofrimento concreto trai o Evangelho. As teologias que culpabilizam o doente ou prometem prosperidade em troca de fé transformam a Boa-Nova em barganha. O Evangelho, ao contrário, se aproxima do ferido sem condições nem espetacularização.

“Dizei-lhes: o Reino de Deus está próximo.” O Reino não é ideologia nem promessa distante; é presença transformadora. Onde há paz, cuidado, partilha e justiça, o Reino se torna visível. Os paralelos sinóticos confirmam isso: Mateus e Marcos unem anúncio e cura; o livro dos Atos mostra a missão se expandindo entre conflitos, discernimentos e decisões comunitárias. A tradição patrística reconheceu nesse movimento a norma da Igreja: Irineu afirmou que a glória de Deus é o ser humano vivo; Gregório Magno lembrou que o pastor deve conhecer as feridas do povo; Agostinho advertiu contra a soberba espiritual que transforma a fé em posse.

Os documentos da Igreja retomam essa herança profética. A Gaudium et Spes afirma que as alegrias e esperanças dos pobres são as da Igreja; a Evangelii Gaudium denuncia uma Igreja autorreferencial e chama à conversão missionária; a Fratelli Tutti propõe a fraternidade como resposta evangélica a um mundo fragmentado. Tudo isso converge para Lucas 10,1-9 como texto-fonte, proclamado nas liturgias dos santos missionários como critério permanente de autenticidade.

Este Evangelho não se encerra com resultados ou estatísticas. A missão não é medida pelo sucesso, mas pela fidelidade. Timóteo, Tito, Cirilo, Metódio e tantos outros não foram “vencedores” segundo os critérios do mundo, mas permaneceram. E permanecer, no Evangelho, é já vencer. Em tempos de clericalismo, de fé mercantilizada, de discursos religiosos usados para dominação política e cultural, este texto continua sendo denúncia e esperança.

No fim, o missionário aprende — quase sempre depois de muito cansaço e algumas quedas — que não carrega o Reino nos bolsos, nem o administra com discursos bem ensaiados, nem o assegura por estruturas, cargos ou estratégias. O Reino não se possui, não se controla, não se privatiza. Ele se acolhe. O enviado apenas


caminha, e ao caminhar descobre, com surpresa e humildade, que o Cristo não vem atrás dele, mas o precede: já está nas casas visitadas, nos rostos feridos que o recebem, nos doentes cuidados, nos pobres acolhidos, nos vínculos que lentamente se reconstroem onde tudo parecia perdido.

É nesse deslocamento interior que a missão se purifica. O missionário percebe que a mensagem é sempre maior que o mensageiro, que o Evangelho não depende de sua eloquência, de sua performance espiritual ou de sua autoridade simbólica. Ele é sinal, não fonte; servo, não centro; testemunha, não proprietário da Boa-Nova. Quando isso se torna claro, a missão deixa de ser conquista e passa a ser encontro; deixa de ser propaganda e se torna presença; deixa de buscar aplauso e aprende a fecundar o silêncio.

A missão recomeça, então, toda vez que alguém ousa dizer com a própria vida — e não apenas com palavras —: “A paz esteja contigo”. Uma paz que não ignora conflitos, mas os atravessa; que não mascara feridas, mas as toca; que não se impõe, mas se oferece. Enquanto o mundo insiste na lógica da força, da visibilidade e do domínio, o Evangelho segue avançando de modo quase imperceptível, nas sandálias gastas dos enviados, no cuidado cotidiano, na fidelidade discreta, na esperança teimosa que se recusa a morrer.

E assim, sem barulho e sem slogans, o Reino continua a se aproximar. Não como produto religioso, nem como bandeira ideológica, mas como realidade viva que brota onde alguém se dispõe a amar, servir e permanecer. O missionário passa, a Palavra fica. O mensageiro é frágil, a mensagem é eterna. E quando finalmente uma casa, um coração ou uma comunidade podem experimentar isso — não como discurso, mas como vida transformada — torna-se evidente: não foi o missionário que levou Deus até ali; foi Deus quem, mais uma vez, o convidou a caminhar com Ele.


DNonato – Teólogo do Cotidiano

sábado, 19 de julho de 2025

Um outro olhar sobre Lucas 10, 38-42 - 16º Domingo do Tempo Comum

O Senhor, porém, lhe respondeu: "Marta, Marta! Tu te preocupas e andas agitada por muitas coisas. (Lc 10, 41)

Já fizemos a reflexão  do 16º Domingo do Tempo Comum neste blog em   2022 em nosso canal do YouTube 2024,  2022, 2021 e 2020 . A  liturgia de hoje nos convida à hospitalidade, ecoando nas palavras das Escrituras. A primeira leitura, de Gênesis 18,1-10, nos apresenta Abraão e sua generosa acolhida aos três visitantes misteriosos, que se revelam a própria presença divina. O Salmo de resposta 14(15), com seu refrão “Quem habitará, Senhor, no vosso santuário?”, nos convida à reflexão sobre a pureza de coração necessária para a verdadeira comunhão com Deus. Em Colossenses 1,24-28, a segunda leitura, Paulo nos revela o mistério de Cristo em nós, a esperança da glória. E o Evangelho segundo Lucas 10,38-42 proclamado no 16º Domingo do Tempo  Comum do ano "C" e  na  terça-feira  da 27ª semana  do tempo comum do ano par,  nos situa na casa de Marta e Maria, em Betânia, onde a tensão entre a ação e a escuta se manifesta de forma marcante. Em todas essas passagens, percorre-se o fio invisível da escuta, do acolhimento e da revelação do mistério de Deus no ordinário da vida. Não se trata apenas de hospitalidade doméstica ou de práticas religiosas, mas da abertura existencial à presença divina que se revela quando nos dispomos a sair de nós mesmos e criar espaço para o outro – inclusive para o Outro com maiúscula, que é o próprio Deus que se faz hóspede em nossa história.

O Evangelho de Lucas situa Jesus na casa de Marta e Maria, em Betânia, um território de amizade e confiança. Essa casa não é um lugar qualquer; ela se configura como um espaço de refúgio e intimidade, já referida em João 11 e 12 como a morada de Lázaro, amigo do Senhor. Betânia representava um ponto de apoio no caminho de Jesus rumo a Jerusalém, onde sua Páscoa se consumaria. Ali, Jesus não é apenas mestre ou profeta; é um amigo que visita, compartilha da vida e entra no espaço feminino de duas irmãs com quem mantém uma relação próxima e verdadeira. E justamente neste ambiente de intimidade, surge um conflito que, à primeira vista, parece meramente doméstico, mas que transcende para tocar em uma tensão espiritual, social e até política, revelando nuances profundas da condição humana: Marta corre para garantir a hospitalidade prática, enquanto Maria se coloca aos pés do Mestre para escutá-lo.

É crucial recordar que o encontro de Jesus com Marta e Maria acontece imediatamente após a parábola do Bom Samaritano, compondo uma sequência narrativa intencional que Lucas constrói com maestria teológica e pedagógica. O samaritano, estrangeiro e marginalizado, torna-se exemplo de amor concreto, de ação compassiva, mostrando que o verdadeiro culto a Deus passa pelo cuidado com o próximo ferido na estrada da vida (Lc 10,25-37). Mas o Evangelho não termina aí: a ação precisa ser sustentada por uma escuta profunda, como a de Maria, que se senta aos pés de Jesus. Esse encadeamento evangélico recorda Deuteronômio 6,4-5 — o “Shema Israel”: “Escuta, Israel! O Senhor nosso Deus é o único Senhor. Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e com todas as tuas forças.” O amor ao próximo nasce da escuta do Deus único. A hospitalidade, nesse horizonte, não é mera gentileza cultural, mas uma das obrigações centrais da Torá, repetidamente enfatizada em textos como Levítico 19,33-34: “Se um estrangeiro habitar convosco, no vosso país, não o oprimireis. O estrangeiro será para vós como o natural dentre vós; tu o amarás como a ti mesmo, pois fostes estrangeiros na terra do Egito.” A tradição judaica entendia o acolhimento como expressão da santidade (Lv 19,2), um gesto que atualiza a memória da libertação e expressa a fidelidade à Aliança. Não por acaso, Abraão corre ao encontro dos três visitantes em Mambré (Gn 18,1-10), Maria de Betânia oferece sua escuta, e o samaritano para para cuidar do caído. Esse mesmo princípio aparece na ordem de Jesus em Marcos 12,29-31, ao unir o mandamento do amor a Deus com o amor ao próximo. Não há serviço verdadeiro sem contemplação, nem contemplação autêntica que não se traduza em serviço. Isaías 50,4 já anunciava essa espiritualidade integral ao declarar: “Cada manhã ele desperta o meu ouvido para que eu escute como um discípulo.” E é essa escuta que antecede o envio. Como Elias no Horeb (1Rs 19,11-13), que reencontra a voz de Deus não no terremoto ou no fogo, mas no “sopro suave”, também nós somos chamados a reencontrar no silêncio orante e na escuta humilde a fonte da ação profética. Marta e Maria, o Samaritano e Abraão, Maria de Nazaré e Paulo: todos se movem por esse dinamismo do encontro, onde escutar e servir não se opõem, mas se iluminam mutuamente, revelando que a hospitalidade verdadeira começa na escuta do coração. E o gesto de Maria não é irrelevante, mas profundamente revolucionário para sua época. Na cultura judaica do século I, as mulheres não podiam sentar-se aos pés de um rabino para aprender. Essa era uma prerrogativa exclusiva dos homens, dos discípulos formais. Maria rompe corajosamente com essa barreira cultural, e Jesus, em um ato de profunda subversão às normas sociais vigentes, legitima sua escolha. A expressão “sentar-se aos pés” é técnica, indicando a posição de um discípulo ávido por aprender, como vemos em Atos 22,3, onde Paulo afirma ter sido instruído “aos pés de Gamaliel”. Maria, portanto, assume, diante de todos e de si mesma, a postura de quem quer aprender, de quem deseja não apenas servir a Jesus com tarefas práticas, mas compreender a Palavra em sua essência. Essa postura, contraintuitiva para a época, causa desconforto à irmã Marta, que ainda está presa a um modelo de espiritualidade baseado no fazer incessante, no ativismo que, ironicamente, muitas vezes nos afasta da escuta silenciosa e atenta ao mistério.

Jesus, no entanto, não desvaloriza Marta nem exalta Maria como se houvesse um antagonismo entre elas. Sua intervenção é um convite à introspecção, um apontamento para a desordem interior de Marta: “Anda inquieta e agitada com muitas coisas” (v. 41). O problema não reside no serviço em si, que é nobre e necessário, mas no serviço que se transforma em angústia, em cobrança, em comparação, em uma tentativa, muitas vezes inconsciente, de impor ao outro a própria forma de viver a fé. Não por acaso, muitos líderes religiosos hoje agem como uma “Marta desfigurada”: exigem dos outros adesão ao seu próprio ritmo frenético, confundem discipulado com desempenho e medem a espiritualidade pela quantidade de atividades desenvolvidas, e não pela qualidade do encontro transformador com o Senhor. Aqui ressoa com força a crítica profética do Papa Francisco, que nos recorda em Evangelii Gaudium, n. 14: “A Igreja não cresce por proselitismo, mas por atração”. E essa atração só ocorre quando deixamos de lado o ativismo vazio e cultivamos uma escuta autêntica, contemplativa e comprometida, capaz de gerar vida e sentido.

A crítica de Jesus não é apenas dirigida a Marta, mas a uma lógica, uma mentalidade, que persiste vigorosamente em nossos dias: o delírio da produtividade espiritual, da fé transformada em tarefa, da missão esvaziada de seu sentido mais profundo e convertida em um empreendimento, muitas vezes motivado por interesses próprios. A teologia da prosperidade, que distorce a mensagem evangélica ao prometer bênçãos materiais em troca de sacrifícios pessoais e ofertas financeiras, instrumentalizando a fé para fins de ganho; a teologia do domínio, que usa o Evangelho para legitimar poder político e autoritário, subjugando consciências em vez de libertá-las; a fé-mercadoria, onde o templo se converte em um mercado de bens e serviços religiosos e o sacramento em uma performance vazia de significado, todas essas distorções nascem da incapacidade de parar, escutar, discernir e deixar que a Palavra de Deus nos interpele em nossa interioridade. Como Marta, muitos hoje querem obrigar os outros a viver a fé segundo seus próprios moldes, confundem o zelo pela casa de Deus com imposição de regras rígidas, e o cuidado com o outro se torna uma cobrança moral asfixiante ou um controle institucional que mina a liberdade do Espírito. Esse clericalismo, que incha o ego e esvazia a alma, é uma das maiores chagas da Igreja contemporânea, sufocando a profecia e a alegria do Evangelho.

Marta é, então, a imagem pungente da espiritualidade agitada que corre o risco de perder o centro, de desviar-se da fonte da verdadeira vida. Maria, por sua vez, representa a escuta radical, o discipulado contracultural, a abertura à Palavra que desinstala, que desafia as convenções e os paradigmas estabelecidos. Mas é crucial entender que ambas são necessárias para uma fé plena e autêntica. A tradição cristã nunca as separou, mas, ao contrário, as integrou em uma tensão criativa. São Gregório Magno, em sua Homilia 33 sobre os Evangelhos, afirmou com sabedoria que “Marta e Maria representam as duas dimensões da vida cristã: a ação e a contemplação. Ambas são necessárias, mas a contemplação é superior, pois é ela que alimenta a ação e lhe dá sentido”. O problema de Marta não reside em seu serviço, que é uma expressão de amor e cuidado, mas em sua tentativa de silenciar a escuta do outro, de sufocar a necessidade de parar e se nutrir da Palavra. Essa dinâmica pode ser analisada sob a ótica da psicologia, onde o ativismo incessante muitas vezes encobre ansiedades e a necessidade de controle, enquanto a capacidade de escuta e contemplação está ligada à inteligência emocional e à paz interior. Sociologicamente, o conflito reflete a tensão entre o pragmatismo e o misticismo, entre a organização social e a busca individual por significado.

Se voltarmos ao Gênesis, na primeira leitura, vemos Abraão acolhendo três visitantes misteriosos com uma hospitalidade generosa e incondicional. Ele não sabia, mas estava diante do próprio Deus, que se manifestava sob a forma humana (Gn 18,1-10). É na escuta atenta, no acolhimento sem reservas, que a promessa divina se revela: "No próximo ano, tua esposa Sara terá um filho". O que parecia apenas um gesto de hospitalidade transforma-se em um encontro com o sagrado, em uma ruptura com a lógica da esterilidade e da impossibilidade. Em Lucas, Maria, como Sara, ouve a promessa da Palavra. A escuta gera vida. A escuta é fecunda. A escuta abre espaço para o novo, para o inusitado, para a graça que irrompe na história.

Infelizmente, muitos hoje preferem gritar do que escutar. Preferem uma fé ruidosa, cheia de eventos, luzes, programações intensas, mas vazia de interioridade, de silêncio, de Palavra que ecoa na alma. As missas, por vezes, se transformam em shows, o altar em palco, e os pregadores em artistas da performance religiosa, buscando aplausos e reconhecimento, em vez de conduzirem à humildade do encontro com o transcendente. E os que ainda buscam silêncio e contemplação são frequentemente tidos como frios, pouco fervorosos ou desengajados. O grito de Marta ecoa nessas práticas: "Senhor, não te importas que minha irmã me deixe sozinha no serviço?" (v. 40). E Jesus, com sua sabedoria divina, responde a todos nós, desafiando nossas prioridades e apegos: “Maria escolheu a melhor parte, e esta não lhe será tirada” (v. 42).

A “melhor parte” não é o ócio ou a inatividade irresponsável. É a escuta que precede a ação. É o discipulado antes da missão. É o saber antes do fazer. É a sabedoria antes do ativismo desmedido. Sem essa base sólida, o agir cristão se torna um ativismo secular com um rótulo religioso, vazio de propósito e de graça. E isso vale para todas as estruturas da Igreja, desde a paróquia mais humilde até as mais altas instâncias: quando a pastoral se torna uma máquina burocrática, a liturgia um espetáculo sem profundidade, a caridade um mero assistencialismo sem empatia, a missão um marketing empresarial e a evangelização um algoritmo frio, perdemos o essencial. A espiritualidade cristã só é autêntica e verdadeiramente libertadora quando integra Marta e Maria em uma tensão criativa, com a escuta como fonte inesgotável de vida e o serviço como sua consequência natural e generosa. Como ressalta a patrística, a união dessas duas dimensões é a chave para a santidade.

Lucas, ao narrar esse episódio logo após a parábola do Bom Samaritano (Lc 10,25-37), nos convida a um equilíbrio dinâmico entre ação e contemplação. O samaritano agiu com misericórdia e eficácia, mas agiu porque viu a necessidade, e viu porque teve compaixão. E a compaixão, em sua essência, nasce de um coração que escuta: escuta o clamor dos caídos, escuta a Palavra de Deus, escuta a voz do Espírito Santo que move à ação. Do mesmo modo, em Marcos 3,31-35, Jesus redefine a família espiritual, afirmando: “Quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe.” A vontade de Deus, no entanto, só pode ser feita quando é escutada e compreendida em profundidade. Em Mateus 17,5, na Transfiguração, o Pai declara de forma inequívoca: “Este é o meu Filho amado. Escutai-o!” A escuta é, portanto, sempre a primeira e mais fundamental resposta da fé.

Na Carta aos Colossenses, Paulo fala de seu sofrimento como expressão do mistério de Cristo, “Cristo em vós, a esperança da glória” (Cl 1,27). Esse Cristo que sofre e salva é também o que visita nossas casas, nossas feridas mais profundas, nossos silêncios. Precisamos reaprender a receber o Senhor não como um produto litúrgico ou uma peça de um ritual vazio, mas como hóspede sagrado. Como presença viva, e não como ideologia a ser imposta. Como Palavra que interpela e transforma, e não como um slogan religioso vazio. Como rosto dos pobres e marginalizados, e não como símbolo de poder e opulência. A filosofia existencial nos lembra que a verdadeira presença se dá na relação autêntica, não na objetificação.

Neste mundo fragmentado e ruidoso, onde tantos líderes religiosos se tornam administradores de empresas e caçadores de curtidas em redes sociais, confundindo a espiritualidade com a autopromoção, precisamos redescobrir a escuta como ato revolucionário. Escutar a Palavra de Deus que nos nutre. Escutar os clamores dos pobres e oprimidos que nos desafiam. Escutar o silêncio do nosso próprio coração, onde Deus habita. Escutar a voz do Espírito Santo que ainda hoje sussurra em nossas casas, em nossas caminhadas, em nossos desertos. A antropologia cultural nos mostra como o ritmo acelerado da vida moderna, impulsionado pela tecnologia, dificulta essa escuta profunda. Marta e Maria nos ensinam que é possível, sim, servir e escutar, agir e contemplar, viver a fé de forma integrada, coerente e libertadora, abraçando a tensão criativa entre o fazer e o ser, entre a ação e a contemplação.

Qual das duas dimensões, a ação ou a escuta, você sente que precisa cultivar mais em sua vida hoje?



DNonato - Teólogo do Cotidiano 



sábado, 12 de julho de 2025

Um outro olhar sobre Lucas 10,25-37 - 15º Domingo do Tempo Comum

 

Quando a compaixão escandaliza: a fé que desce do altar à estrada.  A religião de muitos quer subir ao céu. A fé de quem segue o  Cristo desce à estrada. 

Neste 15º Domingo do Tempo Comum, a Palavra nos tira do conforto doutrinal e nos lança à estrada onde o amor se torna critério de verdade. Diante da pergunta sobre a vida eterna (Lc 10,25), Jesus não entrega um manual, mas conta uma história que desmonta sistemas e revela: o Reino não se constrói no templo, mas na estrada onde alguém sangra.

As leituras deste domingo — Deuteronômio 30,10-14; Salmo 68(69); Colossenses 1,15-20; e Lucas 10,25-37 que  fizemos uma. Reflexão  tanto no YouTube em 2020, 2022 e 2024 e em  nosso blog em 2022 escrevemos  um olhar  sobre  o texto  que vai  nos  orientar no caminho da nossa reflexão de  hoje, apontando para a centralidade da escuta, da compaixão e da proximidade. 

Na primeira  leitura  Moisés recorda ao povo às portas da Terra Prometida que a Palavra de Deus não está distante, mas ao alcance da boca e do coração, acessível a todos que desejam viver segundo a aliança. O salmo expressa o grito dos pobres perseguidos, cuja esperança está em Deus: “Procurem os humildes o Senhor, e reviverá o seu coração.” Na segunda leitura, somos tomados por um hino que proclama Cristo como imagem do Deus invisível, primogênito da criação e cabeça do corpo, a Igreja. Nele, a proximidade de Deus alcança sua plenitude. A transcendência se faz toque. O Criador se curva, como o samaritano, diante da criatura ferida.

O Evangelho de hoje, que vamos aprofundar, é proclamado na segunda-feira da 27ª semana do Tempo Comum do ciclo ferial par, e no 15⁰ domingo do Tempo Comum do ciclo dominical "C". O texto do evangelista Lucas de hoje não é uma lição moral, mas uma ruptura profética. Jesus, a caminho de Jerusalém — onde derramará o próprio sangue — é interpelado por um doutor da Lei que deseja saber o que fazer para herdar a vida eterna (Lc 10,25-37). A pergunta, embora legítima, não é pura: carrega a intenção de pôr Jesus à prova. Mas o Mestre devolve a pergunta com outra pergunta, remetendo ao coração da Torá, em Levítico 19,18, que ordena amar a Deus e ao próximo como a si mesmo. Então vem a questão que move toda a cena: “E quem é o meu próximo?”

 Jesus não responde com doutrina, mas com narrativa. Um homem desce de Jerusalém a Jericó, caminho íngreme, traiçoeiro, repleto de sombras e emboscadas, e é deixado quase morto. Passam por ele um sacerdote e um levita. Têm pressa de chegar ao culto. A religião oficial fecha os olhos à dor que sangra na estrada. O templo se isola da ferida. A liturgia se torna escudo. A ortodoxia, sem amor, vira arma.

Eles não negam Deus com palavras, mas com ausência. A indiferença é a heresia mais aceita em nome da ordem. Ela mascara-se de piedade, mas perpetua a exclusão. Suas mãos estão limpas, mas não santas. Seus passos são certos, mas não justos. A estrada de Jericó é ferida aberta na carne da humanidade. Liga o sagrado ao marginal, o culto ao abandono. Toda cidade tem sua Jericó: onde o Estado não chega, onde a Igreja não se ajoelha, onde a esperança sangra sobre o asfalto quente.

Então aparece o escandaloso da parábola: um samaritano. Marginalizado, considerado herege, impuro, inimigo histórico. Mas é ele quem se aproxima, se comove e age. O verbo grego splagchnizomai exprime uma comoção visceral, entranhada, que move não só o corpo, mas a alma inteira. Ele derrama azeite e vinho — símbolos de cuidado, sacramento e consolo. Usa o próprio animal. Gasta do próprio dinheiro. Compromete-se com o retorno. O que o templo não fez, ele faz. O que os consagrados negaram, ele assume. O samaritano é o verdadeiro sacerdote da nova aliança. Faz da compaixão um altar. Entende que Deus não habita o templo, mas a carne dilacerada do outro. Ele não faz perguntas. Ele toca. Ele não exige ficha moral. Ele ajoelha-se.

A parábola é uma releitura profunda da espiritualidade bíblica. Deus jamais aceitou sacrifícios vazios. Os profetas já gritavam contra a religião que ignora o órfão, a viúva, o estrangeiro. A compaixão é mais antiga que o altar. A justiça, mais sagrada que o incenso. Em Jesus, essa denúncia se faz carne. Ele é o samaritano de Deus: que se aproxima, que cura com a própria presença, que toca os intocáveis, que transforma a estrada em espaço litúrgico. Jesus curava no sábado. Tocava os impuros. Comia com pecadores. Rompia com a religião que usava Deus para justificar a exclusão. Sua fé era escândalo porque sua ternura era liturgia. Seu altar era a mesa. Sua oração, o toque. Sua teologia, o gesto.

Hoje, os novos sacerdotes e levitas vestem túnicas caras e ternos bem cortados. Seus altares são palcos. Seus incensos, luzes. A fé virou espetáculo. A cruz, um símbolo decorativo. O púlpito, empresa. A espiritualidade foi capturada pelo mercado. Falam de Deus, mas prestam culto ao lucro. Medem a unção por métricas de engajamento. O sucesso virou gráfico. A conversão, KPI (Chave de Desempenho).  O Espírito, algoritmo. Mas o Reino de Deus não se mede em likes, e sim em lágrimas enxugadas. Não em números, mas em mesas partilhadas. Pregam vitória, mas evitam os vencidos. Cantam bênção, mas ignoram os corpos feridos. Passam ao largo dos favelados, dos imigrantes, dos LGBTQIAPN+ silenciados, dos indígenas assassinados, dos jovens   negros  chacinados,  das mulheres violentadas. Suas mãos estão limpas, mas suas almas estão ausentes. A fé que não se curva ao sofrimento é idolatria do ego. A religião que não se suja com a estrada de Jericó é encenação litúrgica.

A pedagogia de Jesus não pergunta quem é o próximo. Ela inverte a lógica: quem se fez próximo? A proximidade não é um dado, mas uma decisão. Não é localização geográfica, mas posicionamento existencial. O Evangelho exige deslocamento. Quem permanece fixo, não entendeu. Fé é travessia. Proximidade é conversão. Não adianta falar de Jesus em púlpitos climatizados, se ignoramos sua presença nos que têm fome e sede. De que serve nosso ministério, se é blindado contra a dor? Há violências que não gritam, mas se insinuam em homilias que omitem, em catequeses que excluem, em bênçãos que se negam. O silêncio também fere. Quando a Igreja cala, sua doutrina vira pedra de tropeço. Só a compaixão devolve frescor à Palavra.

No juízo final, não nos perguntarão quantos cultos / missas  frequentamos, mas quantos corpos levantamos. A balança de Deus não mede discursos, mas feridas tocadas. O critério não será a ortodoxia, mas a misericórdia. O samaritano será justificado. O sacerdote ausente, desmascarado.

Vivemos um tempo em que a religião se tornou instrumento de dominação, e a neutralidade favorece os opressores. A verdadeira fé desce do altar à estrada. Não há outro caminho. Quando a Igreja se divorcia da dor dos pobres, trai sua missão. A teologia que não toca a ferida é ruído vazio. A Eucaristia que não gera compaixão, é autotraição. O pão consagrado exige mãos que também partilham o pão cotidiano.

A estrada de Jericó continua. Ainda há corpos caídos. Ainda há os que racionalizam e justificam a distância. Mas também há os que se curvam. Que se deixam ferir. Que entendem que a fé não é conforto, mas cruz. Que a salvação não está no culto perfeito, mas na presença imperfeita que acolhe e cura.

A pergunta não é mais “Quem é o meu próximo?”

As  perguntas  que precisam de respostas hoje:

  • Quem eu me torno diante dos caídos no caminho da vida?”
  • Sou aquele que passa ao largo?
  • Sou aquele que terceiriza a responsabilidade?
  • Sou aquele que desce da estrada litúrgica para tocar a realidade ferida?

DNonato – Teólogo do Cotidiano