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domingo, 5 de outubro de 2025

Olhando de novo Lucas 10,25-37

 

Na segunda-feira da 27ª semana do tempo comum  voltamos  a parábola do Bom Samaritano é uma das mais revolucionárias da tradição Lucana que ja refletimos  esse ano no 15⁰ domingo do tempo comum . Em sua aparente simplicidade, ela contém uma das maiores inversões éticas e teológicas do Evangelho. Não é apenas uma história moral, mas uma desconstrução do modo como o ser humano define quem merece amor. Ela inaugura uma espiritualidade de fronteira, onde o encontro substitui o dogma, e o rosto do outro se torna o verdadeiro altar. Vamos ao evangelho  atualizado; 
Um advogado famoso,  gostava  frequenta  a  Igreja , vestido com seu terno caro e sempre atento à opinião pública, gosta de  grita que era contra o aborto, mas defendia  a tortura  e a pena de morte se aproximou de Jesus para testar seu saber e perguntou:
— Mestre, o que devo fazer para herdar a vida eterna?
Jesus respondeu com sua calma habitual:
— O que está escrito na Lei? Como você a interpreta?
O advogado respondeu, com firmeza:
— Amar a Deus de todo o coração, de toda a alma, de toda a força e de toda a mente; e amar o próximo como a si mesmo.
Jesus disse:
— Certo! Faça isso, e você viverá.
O advogado, querendo se justificar e talvez reduzir sua responsabilidade, perguntou:
— E quem é o meu próximo?
Então Jesus contou:
Um homem descia de Brasília para o sertão nordestino. Tinha perdido o emprego e voltava para casa com o pouco que restava de suas economias. No meio da estrada, foi assaltado, espancado e deixado caído à beira da pista, sob o sol quente, sem forças nem esperança.
Por aquela estrada passou um padre apressado, indo celebrar uma missa televisionada. Viu o homem caído, pensou em parar, mas disse a si mesmo: “Alguém vai ajudar, não posso me atrasar”. E seguiu viagem.
Logo depois passou uma pastor  religiosa neopentecostal, dirigindo um carro importado com o logotipo da igreja estampado. Olhou o homem,  citou  versículo  bíblico  e  completou que aquilo era obra de um demônio e no fim  disse ao homem  “Deus te abençoe, irmão, vou orar por você”, e acelerou seu carro importado.
Em seguida passou um  homem   conhecido  como ateu e  cachaceiro seguia a pé em busca de trabalho. Suas roupas estavam rasgadas e o rosto marcado pela poeira da estrada. Ao ver o homem ferido, parou, ajoelhou-se, deu-lhe água da garrafa que trazia, limpou suas feridas com o pano da própria camisa e o levou até um posto de saúde da cidade mais próxima. Ali, ficou com ele até que os enfermeiros o acolhessem. No dia seguinte, deixou o pouco dinheiro que tinha e disse: “Cuidem dele, e quando eu conseguir trabalho, volto para ver se precisa de mais alguma coisa.”
Então Jesus perguntou:
— Na sua opinião, quem foi o próximo daquele homem ferido na estrada?
E o especialista em leis respondeu:
— Aquele que teve compaixão dele.
E Jesus concluiu:
— Vá, e faça o mesmo.
O relato se inicia com um mestre da Lei, que se aproxima “para pôr Jesus à prova” (Lc 10,25). Sua indagação — “Mestre, que devo fazer para herdar a vida eterna?” — revela não uma busca autêntica, mas uma tentativa de autojustificação. Ele quer saber qual preceito, qual rito o credencia à salvação. Jesus, em vez de oferecer uma resposta direta, o conduz ao terreno da própria consciência: “Que está escrito na Lei? Como lês?” (Lc 10,26).
A pergunta é dupla: envolve o que se lê e como se lê — distinção hermenêutica decisiva. Saber citar a Escritura não é o mesmo que compreendê-la no espírito do Reino. O homem responde com precisão, unindo o Shema Israel (Dt 6,5) e o mandamento do Levítico (Lv 19,18): “Amarás o Senhor teu Deus de todo o coração… e o teu próximo como a ti mesmo.” Jesus confirma: “Faze isso e viverás.” Mas ele, querendo justificar-se, insiste: “E quem é o meu próximo?” (Lc 10,29).
A questão é nuclear. Na tradição judaica, re‘a — “próximo” — designava aquele pertencente à mesma comunidade de fé, ao mesmo pacto. Jesus rompe essa fronteira. A parábola não responde “quem é o próximo”, mas “quem se faz próximo”. Há aqui uma inversão de olhar: não se trata de definir quem merece ser amado, mas de discernir a quem decido me aproximar.
“Um homem descia de Jerusalém a Jericó” (Lc 10,30). Jerusalém está cerca de mil metros acima do nível do mar; Jericó, a duzentos e cinquenta abaixo — a descida é geográfica e simbólica. O trajeto da cidade santa ao vale do Jordão é também o percurso da santidade à vulnerabilidade. O homem, anônimo, representa toda a humanidade ferida. Sua ausência de nome é teológica: ele é o ser humano universal. A estrada sinuosa, cheia de cavernas e emboscadas, era conhecida por sua periculosidade — metáfora da travessia humana, onde a fé é testada na carne e no cotidiano.
O texto diz que “caiu nas mãos de salteadores, que o espancaram e o deixaram semimorto”. O termo grego hēmithanēs — “meio morto” — exprime uma existência suspensa: entre a vida e a morte, entre o olhar que socorre e o que desvia. Esse homem é o ícone dos feridos de todas as épocas: os pobres, os migrantes, os famintos, os negros assassinados, os povos indígenas silenciados, as mulheres violentadas, os LGBTQIAPN+ rejeitados, os jovens periféricos abatidos. Ele encarna a humanidade dilacerada pela violência e pela indiferença.
Passam o sacerdote e o levita. O evangelista utiliza o verbo antiparēlthen (“passar pelo outro lado”) para descrever o gesto de evasão. Ambos viram, mas escolheram não ver. Sua omissão não é cegueira, é anestesia espiritual. Representam a religião que teme mais a impureza do que a injustiça. Talvez temessem contaminar-se ritualmente com um possível cadáver, conforme Números 19,11; porém, o medo da impureza venceu o amor à vida. Isaías já advertia: “Que me importa a multidão de vossos sacrifícios?... Aprendei a fazer o bem, buscai a justiça, socorrei o oprimido” (Is 1,11–17). E Amós clamava: “Corra a justiça como um rio” (Am 5,24). O Deus bíblico jamais aceitou ritos sem coração. A religião que passa ao largo da dor trai sua vocação profética.
Então “chegou um samaritano” (Lc 10,33). Para o ouvinte judeu, essa frase soava como provocação. Os samaritanos eram tidos como heréticos (cf. Jo 4,9). No entanto, é esse estrangeiro quem “viu e se encheu de compaixão”. O verbo grego esplagchnisthē designa uma compaixão visceral, que nasce das entranhas — o mesmo usado para Jesus diante da viúva de Naim (Lc 7,13) e para o pai do filho pródigo (Lc 15,20). É a compaixão de Deus em ação.
Ele “aproximou-se”, tocou, derramou óleo e vinho sobre as feridas. O óleo, sinal de unção e consolo; o vinho, símbolo do sangue da Aliança. A estrada torna-se espaço sacramental: a compaixão se faz liturgia do corpo. O samaritano transforma a poeira em altar e seu gesto em eucaristia viva. Coloca o homem em seu próprio animal, leva-o à hospedaria e cuida dele. O texto grego acrescenta: epemelēthē autou, “cuidou com atenção contínua”. Não é um ato isolado, mas um compromisso duradouro. Ele ainda paga dois denários — o equivalente a dois dias de salário — e promete retornar. Há, nessa promessa, um eco escatológico: o retorno do samaritano antecipa o retorno de Cristo, que virá completar o cuidado iniciado.
Desde os Padres da Igreja, a parábola foi lida também sob chave simbólica. Santo Ambrósio escreveu: “O homem que descia é Adão; Jerusalém, o paraíso; Jericó, o mundo; os salteadores, as forças do mal; o sacerdote e o levita, a Lei e os profetas; o samaritano, Cristo; a hospedaria, a Igreja.” (Expositio Evangelii secundum Lucam, VII,84). O Evangelho revela, assim, a pedagogia divina: Deus se faz estrangeiro para nos curar. Cristo é o Samaritano de Deus, o forasteiro celeste que se aproxima da humanidade ferida.
No plano psicológico, a parábola desnuda nossos mecanismos de defesa. O sacerdote e o levita não são monstros — são versões de nós mesmos quando racionalizamos a omissão. Freud chamaria isso de racionalização: usar a lógica para disfarçar a covardia afetiva. A estrada de Jericó é o território da sombra, onde o medo da dor alheia revela nossa própria fragilidade. A verdadeira compaixão exige vulnerabilidade. Emmanuel Lévinas, filósofo judeu, dirá que “o rosto do outro me convoca e me obriga” — não por dever jurídico, mas pela epifania da presença. A ética começa no rosto ferido que nos interpela.
Sociologicamente, o texto é denúncia das estruturas que naturalizam a exclusão. O homem ferido é vítima da violência sistêmica; o samaritano, o marginalizado que subverte o sistema pela solidariedade. A parábola propõe uma reorganização social fundada na misericórdia. A Gaudium et Spes (n. 27) ensina: “Tudo quanto se opõe à vida… tudo quanto degrada a dignidade humana… são infâmias que maculam a civilização.” Jesus, ao fazer do cuidado o núcleo da fé, coloca a vida acima da lei e a compaixão acima da pureza.
A dimensão teológica da parábola é igualmente cristológica. O samaritano prefigura o próprio Cristo, que “não passou ao largo” da humanidade ferida pelo pecado, mas “se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14). O gesto de “aproximar-se” é o verbo da encarnação. A Evangelii Gaudium (n. 179) recorda: “O verdadeiro amor é sempre contemplativo; sabe reconhecer o outro como dom de Deus.” Já a Fratelli Tutti (n. 68) evoca diretamente esta parábola como ícone da fraternidade universal: “Jesus propõe esta história para nos perguntar com quem nos identificamos… Ele nos convida a deixar de lado toda diferença e a fazer-nos próximos de qualquer pessoa.” O Evangelho é, portanto, um chamado constante a descer da teoria à estrada.
Mas a estrada contemporânea é dominada por novas idolatrias. A teologia da prosperidade converte a cruz em espetáculo, o Evangelho em produto e o púlpito em palco. A teologia do domínio troca o Reino de Deus por impérios religiosos que controlam consciências e manipulam votos. A fé individualista privatiza a graça e despreza a comunidade. E o clericalismo — tantas vezes denunciado pelo Papa Francisco — reencena o antigo farisaísmo, blindando ministros em bolhas de prestígio e poder simbólico. Os novos sacerdotes e levitas vestem ternos elegantes, falam de unção, mas temem o pó do caminho. Medem a fé por engajamento digital, confundem o Espírito com algoritmo. O sucesso tornou-se KPI espiritual, e a compaixão, perda de tempo. O Reino de Deus, porém, não se avalia em likes, mas em lágrimas enxugadas; não em números, mas em vidas restauradas.
A antropologia evangélica de Lucas revela que ser humano é ser capaz de compaixão. “Fazer-se próximo” é ato de liberdade: ninguém nasce solidário — torna-se. Viktor Frankl dizia que “o homem se realiza quando se esquece de si e se entrega a uma causa ou a alguém.” O samaritano é o antídoto contra o narcisismo espiritual. Ele não calcula, não delega, não consulta normas. 
No horizonte escatológico, o desfecho é imperativo: “Vai e faze tu o mesmo” (Lc 10,37). O verbo poreuou indica movimento contínuo: a fé é travessia, não doutrina imóvel. O mesmo verbo aparece em Lucas 17,14 (“Ide e mostrai-vos aos sacerdotes”) e em Mateus 28,19 (“Ide e fazei discípulos”). A fé se reconhece em caminho, em cuidado, em presença. No juízo final, Jesus dirá: “Eu estava ferido e cuidaste de mim” (Mt 25,36). A vida eterna que o mestre da Lei buscava está exatamente nesse gesto.
A estrada de Jericó não terminou. Ela continua nas periferias, nos hospitais, nas escolas carentes, nos campos de refugiados, nos becos das favelas e nas calçadas onde dormem os descartados. Por ela passam muitos que ainda justificam sua pressa, sua indiferença, sua neutralidade. Mas também nela transitam samaritanos anônimos — enfermeiras, professores, mães solo, voluntários, artistas, catadores, agentes de pastoral — que fazem da ternura sua forma de resistência. São os sacramentos vivos da presença de Deus.
A eternidade começa quando paramos diante da dor e permitimos que ela nos converta. A fé que não se suja com o pó da estrada é infecunda. A liturgia que não toca a carne ferida é teatro. A caridade que calcula é impostura. Como recorda a Primeira Carta de João: “Se alguém disser: ‘Amo a Deus’, mas odeia seu irmão, é mentiroso” (1Jo 4,20). O critério do Reino é a misericórdia, não a ortodoxia. O samaritano será justificado; o sacerdote indiferente, desmascarado.

A pergunta, portanto, já não é “Quem é o meu próximo?”, mas “De quem eu me torno próximo?”

E, ainda mais profundamente: “Quem eu me torno diante dos caídos da estrada?”A resposta não está na teoria, mas na travessia. O Reino começa quando descemos do cavalo da indiferença e tocamos o corpo da dor. Ali, no pó e no sangue da estrada, Deus se revela.

DNonato – Teólogo do Cotidiano




sábado, 12 de julho de 2025

Um outro olhar sobre Lucas 10,25-37 - 15º Domingo do Tempo Comum

 

Quando a compaixão escandaliza: a fé que desce do altar à estrada.  A religião de muitos quer subir ao céu. A fé de quem segue o  Cristo desce à estrada. 

Neste 15º Domingo do Tempo Comum, a Palavra nos tira do conforto doutrinal e nos lança à estrada onde o amor se torna critério de verdade. Diante da pergunta sobre a vida eterna (Lc 10,25), Jesus não entrega um manual, mas conta uma história que desmonta sistemas e revela: o Reino não se constrói no templo, mas na estrada onde alguém sangra.

As leituras deste domingo — Deuteronômio 30,10-14; Salmo 68(69); Colossenses 1,15-20; e Lucas 10,25-37 que  fizemos uma. Reflexão  tanto no YouTube em 2020, 2022 e 2024 e em  nosso blog em 2022 escrevemos  um olhar  sobre  o texto  que vai  nos  orientar no caminho da nossa reflexão de  hoje, apontando para a centralidade da escuta, da compaixão e da proximidade. 

Na primeira  leitura  Moisés recorda ao povo às portas da Terra Prometida que a Palavra de Deus não está distante, mas ao alcance da boca e do coração, acessível a todos que desejam viver segundo a aliança. O salmo expressa o grito dos pobres perseguidos, cuja esperança está em Deus: “Procurem os humildes o Senhor, e reviverá o seu coração.” Na segunda leitura, somos tomados por um hino que proclama Cristo como imagem do Deus invisível, primogênito da criação e cabeça do corpo, a Igreja. Nele, a proximidade de Deus alcança sua plenitude. A transcendência se faz toque. O Criador se curva, como o samaritano, diante da criatura ferida.

O Evangelho de hoje, que vamos aprofundar, é proclamado na segunda-feira da 27ª semana do Tempo Comum do ciclo ferial par, e no 15⁰ domingo do Tempo Comum do ciclo dominical "C". O texto do evangelista Lucas de hoje não é uma lição moral, mas uma ruptura profética. Jesus, a caminho de Jerusalém — onde derramará o próprio sangue — é interpelado por um doutor da Lei que deseja saber o que fazer para herdar a vida eterna (Lc 10,25-37). A pergunta, embora legítima, não é pura: carrega a intenção de pôr Jesus à prova. Mas o Mestre devolve a pergunta com outra pergunta, remetendo ao coração da Torá, em Levítico 19,18, que ordena amar a Deus e ao próximo como a si mesmo. Então vem a questão que move toda a cena: “E quem é o meu próximo?”

 Jesus não responde com doutrina, mas com narrativa. Um homem desce de Jerusalém a Jericó, caminho íngreme, traiçoeiro, repleto de sombras e emboscadas, e é deixado quase morto. Passam por ele um sacerdote e um levita. Têm pressa de chegar ao culto. A religião oficial fecha os olhos à dor que sangra na estrada. O templo se isola da ferida. A liturgia se torna escudo. A ortodoxia, sem amor, vira arma.

Eles não negam Deus com palavras, mas com ausência. A indiferença é a heresia mais aceita em nome da ordem. Ela mascara-se de piedade, mas perpetua a exclusão. Suas mãos estão limpas, mas não santas. Seus passos são certos, mas não justos. A estrada de Jericó é ferida aberta na carne da humanidade. Liga o sagrado ao marginal, o culto ao abandono. Toda cidade tem sua Jericó: onde o Estado não chega, onde a Igreja não se ajoelha, onde a esperança sangra sobre o asfalto quente.

Então aparece o escandaloso da parábola: um samaritano. Marginalizado, considerado herege, impuro, inimigo histórico. Mas é ele quem se aproxima, se comove e age. O verbo grego splagchnizomai exprime uma comoção visceral, entranhada, que move não só o corpo, mas a alma inteira. Ele derrama azeite e vinho — símbolos de cuidado, sacramento e consolo. Usa o próprio animal. Gasta do próprio dinheiro. Compromete-se com o retorno. O que o templo não fez, ele faz. O que os consagrados negaram, ele assume. O samaritano é o verdadeiro sacerdote da nova aliança. Faz da compaixão um altar. Entende que Deus não habita o templo, mas a carne dilacerada do outro. Ele não faz perguntas. Ele toca. Ele não exige ficha moral. Ele ajoelha-se.

A parábola é uma releitura profunda da espiritualidade bíblica. Deus jamais aceitou sacrifícios vazios. Os profetas já gritavam contra a religião que ignora o órfão, a viúva, o estrangeiro. A compaixão é mais antiga que o altar. A justiça, mais sagrada que o incenso. Em Jesus, essa denúncia se faz carne. Ele é o samaritano de Deus: que se aproxima, que cura com a própria presença, que toca os intocáveis, que transforma a estrada em espaço litúrgico. Jesus curava no sábado. Tocava os impuros. Comia com pecadores. Rompia com a religião que usava Deus para justificar a exclusão. Sua fé era escândalo porque sua ternura era liturgia. Seu altar era a mesa. Sua oração, o toque. Sua teologia, o gesto.

Hoje, os novos sacerdotes e levitas vestem túnicas caras e ternos bem cortados. Seus altares são palcos. Seus incensos, luzes. A fé virou espetáculo. A cruz, um símbolo decorativo. O púlpito, empresa. A espiritualidade foi capturada pelo mercado. Falam de Deus, mas prestam culto ao lucro. Medem a unção por métricas de engajamento. O sucesso virou gráfico. A conversão, KPI (Chave de Desempenho).  O Espírito, algoritmo. Mas o Reino de Deus não se mede em likes, e sim em lágrimas enxugadas. Não em números, mas em mesas partilhadas. Pregam vitória, mas evitam os vencidos. Cantam bênção, mas ignoram os corpos feridos. Passam ao largo dos favelados, dos imigrantes, dos LGBTQIAPN+ silenciados, dos indígenas assassinados, dos jovens   negros  chacinados,  das mulheres violentadas. Suas mãos estão limpas, mas suas almas estão ausentes. A fé que não se curva ao sofrimento é idolatria do ego. A religião que não se suja com a estrada de Jericó é encenação litúrgica.

A pedagogia de Jesus não pergunta quem é o próximo. Ela inverte a lógica: quem se fez próximo? A proximidade não é um dado, mas uma decisão. Não é localização geográfica, mas posicionamento existencial. O Evangelho exige deslocamento. Quem permanece fixo, não entendeu. Fé é travessia. Proximidade é conversão. Não adianta falar de Jesus em púlpitos climatizados, se ignoramos sua presença nos que têm fome e sede. De que serve nosso ministério, se é blindado contra a dor? Há violências que não gritam, mas se insinuam em homilias que omitem, em catequeses que excluem, em bênçãos que se negam. O silêncio também fere. Quando a Igreja cala, sua doutrina vira pedra de tropeço. Só a compaixão devolve frescor à Palavra.

No juízo final, não nos perguntarão quantos cultos / missas  frequentamos, mas quantos corpos levantamos. A balança de Deus não mede discursos, mas feridas tocadas. O critério não será a ortodoxia, mas a misericórdia. O samaritano será justificado. O sacerdote ausente, desmascarado.

Vivemos um tempo em que a religião se tornou instrumento de dominação, e a neutralidade favorece os opressores. A verdadeira fé desce do altar à estrada. Não há outro caminho. Quando a Igreja se divorcia da dor dos pobres, trai sua missão. A teologia que não toca a ferida é ruído vazio. A Eucaristia que não gera compaixão, é autotraição. O pão consagrado exige mãos que também partilham o pão cotidiano.

A estrada de Jericó continua. Ainda há corpos caídos. Ainda há os que racionalizam e justificam a distância. Mas também há os que se curvam. Que se deixam ferir. Que entendem que a fé não é conforto, mas cruz. Que a salvação não está no culto perfeito, mas na presença imperfeita que acolhe e cura.

A pergunta não é mais “Quem é o meu próximo?”

As  perguntas  que precisam de respostas hoje:

  • Quem eu me torno diante dos caídos no caminho da vida?”
  • Sou aquele que passa ao largo?
  • Sou aquele que terceiriza a responsabilidade?
  • Sou aquele que desce da estrada litúrgica para tocar a realidade ferida?

DNonato – Teólogo do Cotidiano