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segunda-feira, 22 de junho de 2026

Um breve olhar sobre Mateus 7,6.12-14

A perícope de Mateus 7,6.12-14 é proclamada na liturgia da Igreja Católica Romana na quarta-feira da 12ª Semana do Tempo Comum. Trata-se de uma passagem situada na conclusão do Sermão da Montanha, um dos textos mais importantes de todo o Novo Testamento. O Sermão da Montanha ocupa os capítulos 5 a 7 do Evangelho segundo Mateus e constitui a primeira grande instrução de Jesus aos seus discípulos. Nas Igrejas Ortodoxas, nas antigas Igrejas Orientais e em diversas comunidades históricas oriundas da Reforma, os ensinamentos do Sermão da Montanha também ocupam lugar central na formação espiritual e moral dos fiéis. Não por acaso, muitos Padres da Igreja consideravam esses capítulos como a síntese mais completa da vida cristã. Ao chegarmos a Mateus 7,6.12-14, estamos diante da conclusão de um longo itinerário espiritual. Desde as Bem-aventuranças (Mt 5,1-12), Jesus vem formando uma nova consciência humana e religiosa. Os pobres em espírito são proclamados felizes, os    mansos recebem a promessa da terra, os misericordiosos alcançam misericórdia, os promotores da paz são chamados filhos de Deus. Em seguida, Jesus apresenta seus discípulos como sal da terra e luz do mundo (Mt 5,13-16), interpreta a Lei à luz do amor (Mt 5,17-48), ensina a oração do Pai-Nosso (Mt 6,9-13), denuncia a hipocrisia religiosa (Mt 6,1-18), critica a idolatria das riquezas (Mt 6,19-24), convida à confiança na providência divina (Mt 6,25-34) e adverte contra o julgamento hipócrita do próximo (Mt 7,1-5). A porta estreita, portanto, não é um ensinamento isolado. Ela representa a consequência prática de tudo aquilo que foi ensinado anteriormente.

O primeiro versículo da perícope afirma: “Não deis aos cães o que é santo, nem lanceis vossas pérolas aos porcos” (Mt 7,6). Para compreender essa afirmação é necessário situá-la em seu contexto histórico. No mundo judaico do século I, cães e porcos eram frequentemente associados à impureza ritual. O porco era considerado animal impuro segundo Levítico 11,7. O cão, diferentemente da imagem afetuosa comum em muitas culturas atuais, era geralmente visto como animal errante e agressivo. Jesus utiliza essas imagens não para desumanizar pessoas, mas para ensinar discernimento. O tema do discernimento atravessa toda a Escritura. O livro dos Provérbios afirma: “Não repreendas o zombador para que ele não te odeie; repreende o sábio e ele te amará” (Pr 9,8). Também lemos: “Não fales aos ouvidos do insensato, porque desprezará a sabedoria de tuas palavras” (Pr 23,9). A literatura sapiencial reconhece que nem todos estão igualmente abertos à verdade. O próprio Jesus experimentou essa realidade quando foi rejeitado em Nazaré (Lc 4,16-30). Paulo e Barnabé viveram situação semelhante quando parte de seus ouvintes recusou a mensagem do Evangelho (At 13,44-46).

As pérolas simbolizam aquilo que possui valor inestimável. Em Mateus 13,45-46, o Reino dos Céus é comparado a uma pérola preciosa pela qual vale a pena vender tudo. A advertência de Mateus 7,6 recorda que o sagrado não pode ser banalizado. Em uma cultura marcada pela espetacularização da religião, pela transformação da fé em mercadoria e pelo uso da espiritualidade como instrumento de autopromoção, esse ensinamento torna-se extraordinariamente atual. Vivemos uma época em que muitos transformam o Evangelho em produto de consumo. A lógica do mercado invade o espaço da fé. Multiplicam-se promessas de prosperidade financeira, fórmulas mágicas de sucesso espiritual e discursos religiosos moldados pelas exigências do marketing. Jesus recorda que as pérolas do Reino não são mercadorias. A graça não pode ser comprada. A fé não pode ser comercializada. A salvação não se encontra à venda. Depois dessa advertência, o Evangelho apresenta uma das maiores sínteses éticas de toda a Bíblia: “Tudo quanto quereis que os outros vos façam, fazei também a eles, pois nisso consistem a Lei e os Profetas” (Mt 7,12). Essa afirmação é conhecida como Regra de Ouro. Embora existam formulações semelhantes em outras tradições religiosas antigas, Jesus oferece uma formulação positiva e ativa. Não basta evitar fazer o mal. É necessário praticar o bem.

A Regra de Ouro possui raízes profundas no Antigo Testamento. Em Levítico 19,18 encontramos: “Amarás teu próximo como a ti mesmo”. Poucos versículos depois, o mesmo capítulo afirma: “Amarás o estrangeiro como a ti mesmo” (Lv 19,34). Em Deuteronômio 10,18-19, Deus é apresentado como aquele que ama o estrangeiro, o órfão e a viúva. O amor ao próximo não é uma invenção do Novo Testamento. Trata-se do coração da revelação bíblica. Os profetas aprofundaram essa compreensão. Isaías denuncia uma religião incapaz de produzir justiça social: “Aprendei a fazer o bem; procurai o direito; socorrei o oprimido” (Is 1,17). Jeremias condena aqueles que enriquecem à custa da exploração dos pobres (Jr 22,13-17). Amós proclama uma das críticas mais contundentes de toda a Escritura: “Corra o direito como água e a justiça como um rio caudaloso” (Am 5,24). Miqueias resume a vontade de Deus em três atitudes fundamentais: “Praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com teu Deus” (Mq 6,8). Quando Jesus afirma que a Regra de Ouro resume “a Lei e os Profetas”, ele está dizendo que toda a Escritura converge para a prática do amor. O mesmo ensinamento reaparece em Mateus 22,37-40, quando o amor a Deus e ao próximo são apresentados como fundamento de toda a Lei. Paulo desenvolve essa perspectiva ao afirmar que “o amor é o pleno cumprimento da Lei” (Rm 13,10). Tiago fala da “lei régia” (Tg 2,8). João declara que quem não ama seu irmão não pode amar a Deus a quem não vê (1Jo 4,20).

 O ser humano é essencialmente relacional. Ninguém constrói sua identidade sozinho. Somos formados por vínculos, encontros e reciprocidades. Quando a sociedade rompe esses laços, surgem o isolamento, a violência e a desumanização. A Regra de Ouro questiona frontalmente a cultura do individualismo. Em uma sociedade organizada pela competição, pelo consumismo e pela busca incessante de vantagens pessoais, Jesus propõe uma lógica alternativa: 

  • O outro não é concorrente. 
  • O outro é irmão. 
  • O próximo não é obstáculo. 
  • O próximo é lugar de manifestação da presença divina.ssa compreensão alcança seu ponto máximo na parábola do Bom Samaritano (Lc 10,25-37). 
Enquanto representantes da religião oficial passam ao largo do homem ferido, um estrangeiro considerado impuro torna-se exemplo de humanidade. Jesus redefine o conceito de próximo. O próximo não é apenas aquele que pertence ao meu grupo. O próximo é qualquer pessoa cuja dor eu sou capaz de reconhecer. O mesmo princípio reaparece em Ma teus 25,31-46. No Juízo Final, Cristo identifica-se com os famintos, os sedentos, os migrantes, os doentes e os encarcerados. A espiritualidade cristã deixa de ser mera prática ritual para tornar-se compromisso concreto com a dignidade humana..Nesse ponto, torna-se impossível ignorar as enormes contradições de nosso tempo. A desigualdade social continua produzindo sofrimento em escala global. Milhões de pessoas vivem sem acesso adequado à alimentação, à saúde, à educação e à moradia. Ao mesmo tempo, pequenas parcelas da população concentram riquezas sem precedentes. A tradição profética da Bíblia não permite neutralidade diante dessa realidade. O Deus que ouviu o clamor dos escravos no Egito (Ex 3,7-10) continua ouvindo o clamor das vítimas da exclusão contemporânea. O Deus que instituiu o Jubileu para impedir a concentração absoluta de riqueza (Lv 25) continua chamando a humanidade à justiça distributiva e à solidariedade.

A Igreja latino-americana desenvolveu a reflexão sobre a opção preferencial pelos pobres:

  •  Medellín denunciou as estruturas injustas que produzem miséria. 
  • Puebla reconheceu nos pobres o rosto sofredor de Cristo. 
  • Santo Domingo reafirmou a dignidade humana como fundamento da ação evangelizadora. 
  • Aparecida insistiu que os discípulos missionários devem promover vida plena para todos..

A Igreja como Mãe  vem nos falar 

  • Na Constituição Gaudium et Spes ensina que as alegrias e esperanças dos pobres são também as alegrias e esperanças da Igreja,  
  • Na Evangelii Nuntiandi recorda que evangelização e promoção humana estão profundamente ligadas. 
  • Na Evangelii Gaudium denuncia uma economia da exclusão que mata. 
  • Na Fratelli Tutti convida à construção de uma fraternidade universal capaz de superar as divisões do mundo contemporâneo.

É precisamente nesse contexto que a advertência sobre a porta estreita adquire significado especial. Jesus afirma: “Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçoso o caminho que conduz à perdição” (Mt 7,13). A imagem dos dois caminhos remonta às tradições mais antigas de Israel. Moisés declara ao povo: 

  • Hoje coloco diante de ti a vida e a morte, a bênção e a maldição. Escolhe, pois, a vida” (Dt 30,19).

O Salmo 1 apresenta o caminho dos justos e o caminho dos ímpios. Jeremias distingue entre aquele que confia em Deus e aquele que deposita sua confiança apenas em si mesmo (Jr 17,5-8). Provérbios adverte: “Há caminho que parece reto ao homem, mas seu fim conduz à morte” (Pr 14,12). Jesus retoma essa tradição para mostrar que toda existência humana implica escolhas. Não existe neutralidade diante do Reino de Deus. A porta larga representa o caminho da acomodação. É a rota da indiferença diante do sofrimento alheio. É a lógica da acumulação sem partilha. É o caminho da busca desenfreada pelo poder. É a religião utilizada como instrumento de dominação.

A porta estreita, por sua vez, representa o caminho das Bem-aventuranças. É a escolha da misericórdia em vez da vingança. É a escolha da justiça em vez da opressão. É a escolha da verdade em vez da manipulação. É a escolha da fraternidade em vez da exclusão. Essa imagem pode ser lida também à luz do Êxodo. O povo de Israel precisou abandonar o Egito para alcançar a liberdade. A travessia do deserto foi longa e difícil. O caminho da escravidão era mais confortável porque era conhecido. O caminho da liberdade exigia confiança. O mesmo acontece com o discípulo de Jesus. A porta estreita é uma travessia permanente. Significa abandonar os velhos mecanismos de egoísmo e abrir-se à novidade do Reino..No mundo contemporâneo, a porta larga assume múltiplas formas. Ela aparece na idolatria do mercado,  na cultura da indiferença, manifesta-se no racismo, na xenofobia, no machismo, no desprezo pelos pobres e na banalização da violência. Aparece também quando a religião é instrumentalizada para sustentar projetos de poder. 

  •  Isaías condenou governantes que criavam leis injustas (Is 10,1-2). 
  • Jeremias denunciou aqueles que transformavam a religião em cobertura para a opressão (Jr 7,1-15). 
  • Ezequiel criticou pastores que cuidavam de si mesmos e abandonavam o rebanho (Ez 34,1-16).

Jesus segue essa mesma tradição profética. Em Mateus 23, ele dirige suas palavras mais severas aos líderes religiosos que utilizavam a fé para obter prestígio e poder. Não critica a religião em si, mas sua deformação. Por isso, qualquer forma de teologia que transforme Deus em instrumento de enriquecimento contradiz o Evangelho. A teologia da prosperidade entra em conflito direto com as Bem-aventuranças, com a vida de Jesus e com a tradição profética. Da mesma forma, toda tentativa de identificar o Reino de Deus com projetos nacionalistas, autoritários ou ideológicos esvazia a radicalidade do Evangelho. Quando a fé deixa de servir aos pobres para servir aos poderosos, ela perde sua dimensão profética. Quando a religião se torna mecanismo de controle social, abandona o caminho de Jesus. Quando líderes religiosos se colocam acima do povo, surge aquilo que o magistério contemporâneo chama de clericalismo. Jesus propõe outra lógica. “Quem quiser ser o primeiro, seja o servo de todos” (Mc 10,44). No lava-pés (Jo 13,1-15), o Mestre transforma o serviço em critério de autoridade. Em Filipenses 2,5-11, Paulo apresenta Cristo que se esvazia de si mesmo e assume a condição de servo. A verdadeira grandeza não consiste em dominar, mas em servir.

A porta estreita conduz inevitavelmente ao mistério da cruz. “Quem quiser seguir-me, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e siga-me” (Mt 16,24). A cruz não significa busca do sofrimento. Significa fidelidade ao amor em um mundo frequentemente estruturado pelo egoísmo. 

  • É o caminho dos profetas.
  •  É o caminho dos apóstolos. 
  • É o caminho dos mártires. 
Mas a cruz não é o destino final. O caminho estreito desemboca na ressurreição, o Deus que libertou Israel da escravidão, que ressuscitou Jesus dentre os mortos e que sustenta a esperança dos pobres continua conduzindo a história. Isaías contempla novos céus e nova terra (Is 65,17-25),  Paulo afirma que toda a criação geme aguardando sua libertação (Rm 8,18-25) e o Apocalipse anuncia o dia em que Deus enxugará toda lágrima dos olhos humanos e não haverá mais morte, luto ou dor (Ap 21,1-5). É para essa esperança que aponta a porta estreita, 

  • Ela não conduz ao isolamento, mas à comunhão. 
  • Não conduz à opressão, mas à liberdade. 
  • Não conduz ao medo, mas à confiança. 
  • Não conduz à morte, mas  à vida.

Mateus 7,6.12-14 revela, portanto, uma síntese admirável de toda a mensagem bíblica. O discernimento diante do sagrado, a prática concreta do amor ao próximo e a escolha do caminho do Reino constituem o coração da existência cristã. Na atualidade  marcada pela desigualdade, pela manipulação religiosa, pela violência e pela crise de sentido, essas palavras continuam ecoando com extraordinária atualidade. Elas chamam cada discípulo a escolher a vida, a justiça e a misericórdia; a rejeitar a idolatria do poder e a assumir a lógica do serviço; a abandonar a indiferença e a tornar-se sinal do Reino de Deus no meio da história. É esse o caminho percorrido por Jesus de Nazaré,. é esse o caminho proposto à Igreja e é esse o caminho que continua aberto diante de toda pessoa que deseja transformar o mundo à luz do Evangelho.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

segunda-feira, 6 de abril de 2026

Um breve olhar sobre João 20,11-18

 
O relato de João 20,11-18 proclamado  na terça-feira  da oitava  de Páscoa  após  a proclamação: 
  • Do domingo: anúncio da ressurreição (João  20,1-9)
  • Da Segunda: anúncio às mulheres (Mateus  28,8-15)
A experiências de João 20, 11-18  é  mais densas e transformadoras de toda a Escritura, e sua força não se esgota quando ampliamos ainda mais o diálogo com a realidade contemporânea. Ele continua sendo proclamado no coração da liturgia pascal para lembrar que a Ressurreição não é apenas um evento do passado, mas uma irrupção contínua de Deus na história humana. A cena de Maria Madalena diante do túmulo vazio não é apenas memória, mas espelho da condição humana em todos os tempos.

Maria está chorando. Esse dado simples carrega um universo de significados. O choro, na tradição bíblica, é linguagem teológica. Em Lamentações 1,2, Jerusalém chora na noite por causa de sua devastação. Em Lucas 19,41, o próprio Jesus chora sobre a cidade que não reconheceu o tempo da visita de Deus. O choro de Maria, portanto, não é apenas individual, é expressão de uma humanidade ferida, que experimenta perdas, frustrações e ausência de sentido. Hoje, esse choro ressoa nas mães que perdem filhos para a violência, nos trabalhadores esmagados pela desigualdade, nas populações invisibilizadas por sistemas econômicos excludentes, nos que vivem a angústia da fome e da precariedade.

Quando Jesus pergunta “Mulher, por que choras?” em João 20,15, não se trata de uma ignorância divina, mas de uma pedagogia que convida à consciência. Deus não ignora o sofrimento humano, mas o ilumina. Essa pergunta ecoa hoje em meio a uma sociedade que muitas vezes anestesia a dor ou a instrumentaliza. Em contextos onde a religião é usada para justificar desigualdades ou legitimar discursos de ódio, a pergunta de Jesus desinstala. Por que choramos? Choramos apenas por nossas perdas individuais ou também pela injustiça estrutural que crucifica tantos?

A dificuldade de Maria em reconhecer Jesus revela algo profundamente atual. Ela vê, mas não reconhece. Em Lucas 24,16, os discípulos de Emaús também não reconhecem o Ressuscitado. Isso indica que a cegueira espiritual não é falta de evidência, mas incapacidade de interpretar a realidade. Hoje, essa cegueira se manifesta quando não reconhecemos a presença de Cristo nos pobres, conforme Mateus 25,40, ou quando confundimos o Evangelho com ideologias que promovem exclusão. A confusão de Maria ao pensar que Jesus é o jardineiro abre um campo simbólico poderoso. O jardineiro cuida da vida, cultiva, protege o crescimento. Em Gênesis 2,15, o ser humano é colocado no jardim para cultivar e guardar. O Ressuscitado aparece como aquele que restaura essa vocação. No entanto, a sociedade contemporânea frequentemente destrói o jardim. A crise ecológica, denunciada na Laudato Si’, revela uma ruptura profunda com a criação. O Cristo jardineiro continua presente, mas é ignorado em meio à lógica predatória do lucro e do consumo. O momento decisivo acontece quando Jesus chama Maria pelo nome, em João 20,16. Aqui se revela uma verdade central da fé bíblica. Deus não se relaciona com massas anônimas, mas com pessoas concretas. Em Isaías 49,16, Deus afirma “Eis que te gravei nas palmas das minhas mãos”. Em um mundo que transforma pessoas em números, estatísticas e descartáveis, a Ressurreição afirma a singularidade de cada vida. Esse chamado pelo nome é profundamente subversivo.

No entanto, essa experiência pessoal não se fecha em si mesma. Maria é imediatamente enviada. “Vai aos meus irmãos” em João 20,17. A fé autêntica gera missão. Aqui se estabelece um contraste com formas de religiosidade que se fecham no individualismo ou na busca de benefícios pessoais. A teologia da prosperidade, por exemplo, transforma a fé em instrumento de ascensão individual, desconectando-a da justiça e da solidariedade. Isso contradiz frontalmente o Evangelho. A  Ressurreição também confronta o uso político da religião. Em João 11,53, as autoridades decidem matar Jesus para preservar seus interesses. Essa lógica permanece atual quando a fé é instrumentalizada para sustentar projetos de poder, especialmente aqueles que se alinham com ideologias autoritárias e excludentes. Em Mateus 23, Jesus denuncia líderes religiosos que oprimem o povo em nome de Deus. O Cristo Ressuscitado não legitima sistemas de dominação, ele os desmascara. O testemunho de Maria Madalena adquire, nesse contexto, uma força profética. Ela, mulher em uma sociedade patriarcal, torna-se a primeira anunciadora da Ressurreição. Isso revela que Deus rompe com estruturas de exclusão. Em Juízes 4, Débora já aparece como líder e profetisa. Em Atos 2,17, a promessa se cumpre de que filhos e filhas profetizarão. No entanto, ainda hoje, muitas comunidades resistem a essa igualdade, mantendo estruturas que silenciam os marginalizados, assim se  inaugura uma nova forma de comunidade. Em Atos 4,32-35, ninguém considerava suas coisas como próprias, mas tudo era partilhado. Essa experiência contrasta com o individualismo contemporâneo, que valoriza o acúmulo e a competição. A fé pascal chama à construção de relações baseadas na solidariedade.

A  experiência de Maria também ilumina o presente. Ela passa do luto à missão. Esse processo não é instantâneo, mas marcado por um encontro transformador. Em Salmo 126,5, lê-se “Os que semeiam com lágrimas colherão com alegria”. A Ressurreição não nega a dor, mas a ressignifica. Em uma sociedade marcada por crises de sentido, depressão e ansiedade, essa mensagem é profundamente atual.

A ordem “Não me retenhas” em João 20,17 também tem implicações contemporâneas. Muitas vezes, tentamos aprisionar Deus em nossas categorias, doutrinas ou interesses. Criamos imagens de Deus que justificam nossas posições e excluem os outros. A Ressurreição rompe essas tentativas de controle. Deus é sempre maior, sempre livre, sempre além. O  texto exige uma leitura crítica da realidade. Em Isaías 58,6-7, o verdadeiro jejum é libertar os oprimidos e partilhar o pão com o faminto. Não há Ressurreição autêntica sem compromisso com a vida concreta. Documentos como Medellín denunciam a injustiça estrutural como pecado social. Puebla reafirma a dignidade dos pobres. Aparecida chama a uma conversão pastoral que coloque a Igreja em saída.

A presença do Ressuscitado fora da cidade, no jardim, continua a desafiar a Igreja. Em Hebreus 13,13, somos chamados a sair ao seu encontro fora do acampamento. Isso significa abandonar zonas de conforto e ir ao encontro dos que estão à margem. A fé que se fecha em templos e não se compromete com a realidade perde sua credibilidade.

A pergunta “A quem procuras?” continua ecoando. Em uma cultura marcada pelo consumo, pela busca de poder e reconhecimento, essa pergunta desinstala. O que buscamos realmente? Em Mateus 6,33, Jesus convida a buscar primeiro o Reino de Deus e sua justiça. A Ressurreição redefine prioridades. O anúncio final de Maria, “Eu vi o Senhor” em João 20,18, é o núcleo da fé cristã. Não se trata de uma teoria, mas de uma experiência. E essa experiência se torna missão. Em Romanos 10,14, Paulo pergunta como crerão se ninguém anunciar. A Igreja existe para anunciar a vida que venceu a morte.

No contexto atual, esse anúncio se torna urgente. Diante de um mundo marcado por desigualdade crescente, violência, crise ecológica e manipulação da verdade, proclamar a Ressurreição é um ato de resistência. É afirmar que a morte não tem a última palavra, que a injustiça não é destino, que a vida pode florescer. Mas esse anúncio precisa ser coerente. Não basta proclamar com palavras, é necessário testemunhar com a vida. Em Tiago 2,17, a fé sem obras é morta. A Ressurreição se torna visível quando comunidades se organizam para defender a vida, quando estruturas injustas são questionadas, quando a dignidade humana é promovida.

Assim, olhando  João 20,11-18 e a realidade atual não é apenas possível, é necessário. Maria representa cada pessoa que busca sentido em meio à dor. O túmulo representa todas as situações de morte que nos cercam. O chamado pelo nome representa a possibilidade de um encontro transformador. A missão representa o compromisso com a vida. A Ressurreição não é fuga do mundo, mas envio ao mundo. Ela não aliena, mas compromete. Ela não justifica a passividade, mas convoca à ação. E cada vez que alguém escuta seu nome, reconhece o Ressuscitado e se levanta para anunciar a vida, o Evangelho se torna novamente história viva. O jardim continua aberto. A voz continua chamando. E a decisão de responder permanece sendo o centro da existência humana.

DNonato -  Teólogo do Cotidiano 

domingo, 5 de abril de 2026

Um breve olhar sobre Mateus 28,8-15

O relato de Mateus 28,8-15 ressoa na liturgia da Igreja como um eco vivo do amanhecer pascal, o texto é proclamado  no sábado  santo do versículos  1ao 10   e volta a ser proclamado na segunda-feira da Oitava da Páscoa, quando o tempo parece suspenso para que a comunidade cristã permaneça mergulhada no mistério da Ressurreição. Esse mesmo horizonte se abre também nas tradições das Igrejas históricas, especialmente nas liturgias orientais, onde o tempo pascal é celebrado como um único e contínuo dia de luz, e nas comunidades reformadas que, embora com menor formalidade litúrgica, conservam a centralidade do anúncio da vitória da vida sobre a morte. Não se trata apenas de uma recordação ritual, mas de uma atualização existencial de um evento que rompeu as categorias da história e instaurou um novo horizonte de sentido. A Igreja, ao proclamar esse texto no início do Tempo Pascal, convida os fiéis a entrar no dinamismo do anúncio, mas também a reconhecer que, desde o início, a Ressurreição foi cercada por tensões, resistências e tentativas de negação.

O texto se insere numa sequência narrativa que começa com a paixão e morte de Jesus, atravessa o silêncio do sepulcro e explode na aurora da Ressurreição. Em Mateus 27,62-66, vemos as autoridades religiosas solicitando a Pilatos a guarda do túmulo, temendo que os discípulos roubassem o corpo e disseminassem uma falsa esperança. Esse detalhe revela uma consciência prévia do impacto que a mensagem de Jesus já provocava. A ressurreição, portanto, não surge num vazio, mas num campo de disputa simbólica e política. O túmulo selado, guardado e vigiado representa o esforço humano de controlar o imprevisível, de fechar a história em seus próprios limites. Contudo, como afirma Isaías 55,8-9, os caminhos de Deus não são os caminhos humanos, e aquilo que parece definitivo aos olhos do poder torna-se, nas mãos de Deus, o início de algo absolutamente novo.

Ao amanhecer, as mulheres se dirigem ao sepulcro, conforme Mateus 28,1, carregando não apenas perfumes, mas uma fidelidade silenciosa que atravessou a noite da dor. Elas representam, no horizonte antropológico, a memória viva, a resistência afetiva, a permanência junto ao sofrimento quando todos os outros se afastam. O texto diz que elas partiram com temor e grande alegria, uma combinação paradoxal que revela a experiência do sagrado. O temor não é pavor, mas reverência diante do mistério, como em Êxodo 3,6, quando Moisés cobre o rosto diante da sarça ardente. A alegria, por sua vez, é a irrupção da vida que supera a morte, antecipando aquilo que o Salmo 30,5 proclama, que o choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã.

O gesto de correr para anunciar aos discípulos carrega um simbolismo profundo. Não se trata de uma comunicação burocrática, mas de uma urgência existencial. A experiência do Ressuscitado não pode ser retida, ela transborda. Essa dinâmica encontra eco em Jeremias 20,9, onde o profeta afirma que a palavra de Deus é como fogo ardente que não pode ser contido. Nesse sentido, as mulheres tornam-se as primeiras missionárias da Páscoa, rompendo as estruturas patriarcais de sua época, nas quais o testemunho feminino era frequentemente desconsiderado. Deus escolhe aquilo que o mundo despreza, como lembra 1 Coríntios 1,27, para confundir os fortes.

No caminho, elas encontram o próprio Jesus, que as saúda com simplicidade e proximidade. O Ressuscitado não aparece em glória distante, mas se deixa encontrar no caminho, no movimento, na missão. O gesto de abraçar seus pés e prostrar-se diante dele expressa reconhecimento e adoração, como em Mateus 14,33, quando os discípulos o reconhecem após acalmar a tempestade. Os pés, na tradição bíblica, simbolizam a encarnação concreta, o caminhar na história. Abraçar os pés do Ressuscitado é afirmar que aquele que morreu continua sendo o mesmo que caminhou com eles, que tocou os leprosos, que sentou à mesa com pecadores.

Em contraste com esse movimento de fé e encontro, o texto apresenta a reação dos guardas e das autoridades religiosas. Os soldados, testemunhas involuntárias do evento, vão relatar o ocorrido. Aqui se revela um elemento?, o  testemunho deles não nasce da fé, mas da experiência direta de algo que ultrapassa sua compreensão. Ainda assim, ao chegarem às autoridades, sua narrativa é absorvida por um sistema que não está disposto a acolher a verdade. Os sumos sacerdotes e anciãos, ao ouvirem o relato, deliberam e decidem subornar os soldados, oferecendo dinheiro para que difundam uma versão alternativa dos fatos.

O dinheiro, nesse contexto, torna-se símbolo de corrupção e de inversão de valores. Aquilo que deveria ser instrumento de vida torna-se meio de ocultação da verdade. Essa dinâmica ecoa outras passagens bíblicas, como Amós 8,6, onde se denuncia a compra dos pobres por dinheiro, ou ainda Mateus 26,15, quando Judas trai Jesus por trinta moedas de prata. O mesmo mecanismo que levou à morte do justo agora tenta silenciar sua vitória sobre a morte. A mentira construída, de que os discípulos roubaram o corpo enquanto os guardas dormiam, revela uma contradição interna, pois admitir o sono implicaria falha grave no dever militar. Ainda assim, a narrativa é aceita e difundida, mostrando que a verdade nem sempre prevalece quando confronta interesses estabelecidos.

A análise desse trecho à luz dos outros Evangelhos revela uma riqueza de perspectivas. Em Marcos 16,8, o silêncio inicial das mulheres destaca o impacto do acontecimento. Em Lucas 24,11, o testemunho delas é considerado delírio, evidenciando a dificuldade de acreditar. Em João 20,14-16, o encontro de Maria Madalena com Jesus mostra uma dimensão profundamente pessoal, onde o reconhecimento acontece quando ele a chama pelo nome. Mateus, ao incluir a história do suborno, explicita a dimensão conflitiva da recepção da Ressurreição, mostrando que desde o início houve uma tentativa organizada de negar o evento.

O contexto histórico do século I ajuda a compreender essa reação. A Palestina vivia sob domínio romano, com uma estrutura social marcada por desigualdades e tensões. O templo de Jerusalém era não apenas centro religioso, mas também político e econômico. As elites sacerdotais tinham interesse em manter a ordem estabelecida, pois sua posição dependia da estabilidade do sistema. A ressurreição de um condenado pelo poder romano e rejeitado pelas autoridades religiosas representava uma subversão radical dessa ordem. Como afirma Atos 4,1-2, os líderes se incomodavam com o anúncio da ressurreição porque ele desestabilizava seu controle.

A hermenêutica do texto nos conduz a perceber que a Ressurreição não é apenas um fato a ser aceito ou negado, mas um evento que exige posicionamento. Ela revela o coração humano, como já anunciava Simeão em Lucas 2,34-35, ao dizer que Jesus seria sinal de contradição. A divisão não é provocada pela Ressurreição em si, mas pela resposta que cada um dá a ela. Alguns acolhem e se deixam transformar, outros resistem e tentam neutralizar seu impacto.

Os símbolos presentes na narrativa continuam a falar à realidade contemporânea;

  •  O túmulo vazio aponta para a superação das estruturas de morte que parecem definitivas. 
  • A pedra removida, mencionada em Mateus 28,2, simboliza aquilo que Deus remove para abrir caminhos onde não havia saída, como em Ezequiel 37,12, quando Deus promete abrir os túmulos do seu povo. 
  • O anúncio do anjo, “não tenhais medo” (Mateus 28,5), ressoa como palavra constante na Escritura, desde Gênesis 15,1 até Apocalipse 1,17, indicando que o encontro com Deus liberta do medo paralisante.

A partir da teologia bíblica, a Ressurreição é a confirmação de que o projeto de Deus é vida em plenitude. Como afirma Romanos 6,9, Cristo ressuscitado não morre mais, e a morte já não tem poder sobre ele. Esse evento inaugura uma nova criação, como em 2 Coríntios 5,17, onde aquele que está em Cristo é nova criatura. A dimensão escatológica se une à dimensão histórica, pois a vida nova começa já agora, na transformação das relações humanas.

Os documentos da Igreja aprofundam essa compreensão. A Dei Verbum recorda que a revelação se dá na história e exige resposta de fé. A Gaudium et Spes afirma que o mistério do homem só se esclarece plenamente no mistério do Verbo encarnado. Na América Latina, Medellín e Puebla interpretam a Ressurreição como força libertadora que impulsiona a luta contra as injustiças. A opção preferencial pelos pobres não é uma ideologia, mas uma consequência da fé no Ressuscitado, que se identifica com os pequenos, como em Mateus 25,40.

Nesse sentido, a denúncia presente no texto de Mateus se atualiza quando observamos o uso da religião para legitimar estruturas de poder. A manipulação da fé para fins político-partidários, a instrumentalização do discurso religioso para sustentar projetos autoritários, e a difusão de teologias que prometem prosperidade sem compromisso com a justiça são formas contemporâneas de negar a Ressurreição. Elas transformam o Evangelho em ferramenta de dominação, esvaziando sua força libertadora.

O clericalismo, ao concentrar poder e silenciar a participação dos leigos, também se torna uma forma de resistência à lógica pascal uma pedra que insiste em manter o sepulcro fechado, impedido  a espiritualidade  inclusiva e comunitária. Como lembra 1 Pedro 2,9, todo o povo de Deus é chamado a ser sacerdócio real. A centralização excessiva contradiz o dinamismo do Espírito, que distribui dons a todos para o bem comum, conforme 1 Coríntios 12,7. O Evangelho, coloca no centro os pobres, os marginalizados e os excluídos. Quando a fé se alia a projetos que promovem exclusão, violência ou indiferença, ela se afasta do Cristo Ressuscitado. A Ressurreição é anúncio de vida para todos, especialmente para aqueles que vivem sob o peso da injustiça.

Na realidade atual, marcada por desigualdade, violência e crise de sentido, o anúncio pascal continua sendo profundamente necessário. Ele não oferece respostas simplistas, mas aponta para um caminho de transformação que passa pela solidariedade, pela justiça e pela esperança ativa. A psicologia da espiritualidade mostra que a experiência da Ressurreição gera resiliência, capacidade de enfrentar o sofrimento sem sucumbir ao desespero. A narrativa de Mateus 28,8-15, portanto, não é apenas um relato do passado, mas um espelho da condição humana. Ela revela a tensão entre verdade e mentira, entre fé e manipulação, entre vida e morte. Diante dela, cada pessoa e cada comunidade são chamadas a discernir seu lugar.

A conclusão que emerge dessa contemplação é que a Ressurreição continua sendo um chamado à conversão integral. Ela convida a abandonar as seguranças ilusórias, a romper com as estruturas de pecado e a assumir um compromisso concreto com a vida. Não basta proclamar que Cristo ressuscitou, é necessário viver como ressuscitados, como afirma Colossenses 3,1-2, buscando as coisas do alto, mas com os pés firmes na realidade, transformando-a à luz do Evangelho. Assim, a comunidade cristã é enviada, como as mulheres naquele amanhecer, a anunciar com coragem e alegria que a vida venceu a morte. Esse anúncio não se faz apenas com palavras, mas com gestos concretos de amor, justiça e solidariedade. Em um mundo marcado por tantas formas de negação da vida, a fé na Ressurreição se torna um ato profundamente político e espiritual, um testemunho de que Deus continua agindo na história, abrindo caminhos onde parecia haver apenas morte, e chamando a humanidade a participar de sua obra de redenção.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

quarta-feira, 4 de março de 2026

Um breve olhar sobre Mateus 20,17-28.

 
O Evangelho de Mateus 20,17-28  proclamado na quarta-feira da segunda semana da Quaresma no rito romano, tempo forte de conversão, quando a Igreja, pedagoga da fé, coloca diante dos fiéis o contraste entre ambição e serviço, entre poder e cruz e também é proclamado no dia de SãoTiago em 25 de julho de forma reduzida Mateus 20,20-28 ,. Não se trata de uma escolha casual do lecionário. A Quaresma é itinerário para Jerusalém. E este texto é literalmente o caminho de Jesus para Jerusalém. Ele sobe consciente, livre, determinado. A geografia aqui é teologia. Jerusalém está no alto. Subir significa enfrentar o centro do poder religioso e político. O Templo, o Sinédrio, a aristocracia sacerdotal, o sistema sacrificial, a presença romana com sua violência institucionalizada. Nada é neutro no cenário.

O texto começa com o terceiro anúncio da paixão. Jesus toma os Doze à parte. Há intimidade e gravidade. A repetição do anúncio mostra a pedagogia paciente do Mestre diante da dureza de compreensão dos discípulos. Ele descreve a cadeia dos acontecimentos com precisão histórica. Será entregue aos chefes dos sacerdotes e escribas, condenado à morte, entregue aos pagãos, escarnecido, flagelado e crucificado. Aqui aparece a colaboração entre elite religiosa local e poder imperial romano. Historicamente, a crucifixão era pena reservada a insurgentes e escravos. Era espetáculo público de humilhação. O Império governava pelo medo. A cruz era propaganda política. Ao anunciar sua morte nesses termos, Jesus revela que sua missão confronta estruturas. Ele não morre de forma abstrata, mas como vítima de um sistema que mistura religião e poder.

O contexto anterior ilumina ainda mais. Em Mateus 19, o jovem rico se afasta triste porque tinha muitos bens. A promessa de vida eterna se choca com o apego à riqueza. Em seguida, Pedro pergunta o que receberão aqueles que deixaram tudo. A lógica da recompensa ainda está viva. Então vem a parábola dos trabalhadores da vinha, onde o dono paga igualmente aos que trabalharam uma hora e aos que trabalharam o dia inteiro. Ali já se questiona a mentalidade meritocrática. A graça rompe a contabilidade humana. Mateus 20,17-28 é continuação dessa ruptura. O Reino não funciona como mercado nem como carreira eclesiástica.

Logo após o anúncio da paixão, surge o pedido da mãe dos filhos de Zebedeu. Curiosamente, o Evangelho de Marcos atribui o pedido diretamente a Tiago e João, mas Mateus introduz a figura materna. Isso pode refletir a importância da família na cultura judaica e a prática de intercessão familiar nas redes de patronagem mediterrâneas. Antropologicamente, honra e status eram valores centrais. Sentar à direita e à esquerda significava proximidade com o soberano, participação na autoridade e visibilidade pública. A mãe pede segurança para os filhos num cenário incerto, o medo da perda e da invisibilidade gera ambição disfarçada de fé.

  • Tiago e João eram pescadores da Galileia. Chamados por Jesus à beira do lago, deixaram redes e pai. A tradição os chama de filhos do trovão, conforme o relato de Evangelho de Marcos 3,17. Essa alcunha sugere temperamento impetuoso, talvez explosivo. Em Evangelho de Lucas 9,54, querem fazer descer fogo do céu sobre uma aldeia samaritana que não acolheu Jesus. São zelosos, intensos, apaixonados, mas ainda marcados por lógica de vingança e exclusão. 
O pedido de lugares de honra combina com esse perfil forte. João, que mais tarde escreverá sobre amor e permanência, começa a jornada aprendendo a atravessar o próprio desejo de supremacia. Tiago será o primeiro dos Doze a derramar sangue, segundo Atos dos Apóstolos 12,2. O cálice que afirmaram poder beber não era metáfora leve.

Jesus responde com uma pergunta decisiva. Podeis beber o cálice que eu vou beber. O cálice, na tradição bíblica, é símbolo de destino, juízo e também de bênção. Em Livro dos Salmos 23, o cálice transborda como sinal de cuidado. Em Livro de Isaías 51, é cálice de ira. Em Evangelho de Mateus 26,39, torna-se cálice da paixão que Jesus pede, se possível, que seja afastado. O símbolo carrega ambivalência. Beber o cálice é aceitar a vontade do Pai mesmo quando ela passa pelo sofrimento. Não é masoquismo religioso, mas fidelidade à missão. Quando os discípulos respondem que podem, revelam disposição, mas ainda não compreendem profundidade. A espiritualidade que responde rápido demais pode esconder imaturidade.

Jesus afirma que de fato beberão seu cálice. A tradição confirma. Tiago será martirizado. João enfrentará perseguições e exílio. O discipulado não é trilha de privilégios, mas caminho de testemunho. Contudo, sentar à direita e à esquerda não lhe compete conceder. O Reino não é moeda de troca. Aqui se desmascara a teologia que transforma fé em contrato. A chamada teologia da prosperidade promete sucesso material como sinal de favor divino. Mateus 20 desmonta essa narrativa. O Filho do Homem caminha para a cruz, não para o trono imperial. A lógica do Reino é paradoxal. Em Carta aos Coríntios I 1,18, Paulo dirá que a palavra da cruz é loucura para os que se perdem, mas força de Deus para os que creem.

A indignação dos outros dez mostra que a ambição é contagiosa. Não se indignam por causa da cruz anunciada, mas pelo pedido de privilégios. A comunidade entra em disputa interna. Isso é profundamente humano. Em grupos religiosos contemporâneos, não é raro ver conflitos por cargos, visibilidade e controle. O texto revela que desde o início a Igreja carrega essa tentação e aqui destacamos: 

  • Pedro, por exemplo, impulsivo e líder natural, já havia sido chamado de pedra e também de satanás no mesmo capítulo 16 de Mateus. Ele representa a tensão entre inspiração e resistência à cruz. 
  • Tomé, mais tarde, lutará com a dúvida. 
  • Mateus, o publicano, traz a memória de colaboração com Roma e a necessidade de conversão profunda.
  •  Simão, o zelota, possivelmente ligado a movimentos nacionalistas, precisa aprender que o Reino não se impõe pela espada. 
Cada apóstolo carrega traços psicológicos e sociológicos que Jesus não elimina, mas purifica e também é  assim conosco  temos traços  e personalidades distintas. 

Jesus então reúne todos e apresenta o contraste. Sabeis que os chefes das nações as dominam. O verbo dominar aqui evoca exercício opressivo de autoridade. O Império Romano mantinha ordem por meio de tributos pesados, exploração econômica e repressão militar. A Pax Romana era paz de cemitério para os rebeldes. Ao afirmar que entre vós não deverá ser assim, Jesus funda uma ética comunitária alternativa. A autoridade cristã nasce do serviço. Quem quiser ser grande seja servo. Quem quiser ser primeiro seja escravo. No mundo antigo, escravo era propriedade. Não tinha direitos. A imagem é radical. O maior no Reino assume a posição mais vulnerável.

Esse ensinamento dialoga profundamente com o Evangelho proclamado no dia anterior, Evangelho de Mateus 23,1-12. Ali Jesus critica escribas e fariseus que se assentam na cátedra de Moisés, atam fardos pesados sobre os outros e buscam primeiros lugares nos banquetes e saudações nas praças. Gostam de ser chamados de mestre, pai, guia. O problema não é o título em si, mas a incoerência entre palavra e prática e a busca de honra. Mateus 23 denuncia a religião exibicionista. Mateus 20 propõe a religião do serviço oculto. Um texto revela a patologia do poder religioso. O outro oferece terapia evangélica. Ontem Jesus desmascarou a hipocrisia que transforma fé em espetáculo. Hoje ele convida os discípulos a uma conversão estrutural do exercício de liderança.

A hermenêutica da cruz atravessa ambos os textos. Em Mateus 23, Jesus afirma que quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado. Em Mateus 20, ele encarna essa verdade dizendo que o Filho do Homem veio para servir e dar a vida em resgate por muitos. A expressão resgate remete à libertação de escravos e prisioneiros. No Antigo Testamento, Deus é aquele que resgata Israel do Egito, como narrado no Livro do Êxodo 6. O novo êxodo acontece na cruz. A libertação agora não é apenas política, mas integral. Liberta da idolatria do poder, do pecado que gera morte, da lógica de violência.

O Concílio Vaticano II, na Gaudium et Spes, recorda que as alegrias e esperanças, tristezas e angústias da humanidade são também as da Igreja. Isso impede espiritualidade alienada. Não é possível proclamar Mateus 20 e fechar os olhos para desigualdades gritantes, para lideranças religiosas que se aliam a projetos autoritários, para discursos que usam o nome de Deus para legitimar exclusão. O clericalismo, denunciado reiteradamente pelo magistério contemporâneo, é forma moderna da busca por primeiros lugares. Ele cria castas sagradas, distancia o povo e transforma ministério em privilégio.

A proposta de Jesus desafia o narcisismo religioso. O desejo de reconhecimento é humano. Contudo, quando se torna centro da identidade, gera ansiedade, competição e violência simbólica. O serviço, ao contrário, liberta da tirania da imagem. Em João 13, ao lavar os pés, Jesus assume tarefa de escravo doméstico. A água, a bacia e a toalha tornam-se sacramentos do Reino. Não há glória ali segundo critérios mundanos. Mas há revelação plena de Deus.

As comunidades que vivem Mateus 20 tornam-se sinal contracultural. Em vez de reproduzir hierarquias rígidas, promovem corresponsabilidade. Em vez de acumular riquezas em nome de promessas de prosperidade, partilham bens como em Atos dos Apóstolos 2,44-45. A crítica à teologia da prosperidade não é ataque a pessoas, mas denúncia de distorção do Evangelho. Quando a cruz é substituída por promessa de ascensão social garantida, perde-se o núcleo da fé cristã. O próprio Jesus afirma em Evangelho de Mateus 16,24 que quem quiser segui-lo deve tomar a própria cruz.

Mateus 20,17-28 termina antes da cura dos cegos em Jericó. A sequência narrativa sugere metáfora espiritual. É preciso enxergar corretamente o Reino. A cegueira maior é interpretar serviço como fraqueza e dominação como força. A ressurreição, anunciada ao final do anúncio da paixão, não é prêmio para ambiciosos, mas confirmação de que o amor que se entrega é mais forte que a morte.

Hoje, em contexto marcado por polarizações, culto à personalidade e instrumentalização da fé para projetos de poder, a Palavra ressoa como juízo e esperança. Juízo porque denuncia toda forma de liderança que busca primeiros lugares e títulos honoríficos enquanto ignora o sofrimento do povo. Esperança porque mostra que existe outra maneira de organizar a vida comunitária. O Filho do Homem continua subindo a Jerusalém em cada periferia esquecida, em cada comunidade que decide servir sem aplauso, em cada cristão que escolhe coerência em vez de prestígio.

O texto começa com um anúncio de morte e termina com promessa implícita de vida que brota do serviço. O princípio é a revelação da cruz. O meio é a purificação das ambições. O fim é a redefinição de grandeza. A Quaresma coloca essa Palavra diante da Igreja como espelho. Entre a cátedra orgulhosa de Mateus 23 e a bacia humilde do serviço de Mateus 20, somos chamados a escolher. O cálice permanece diante de nós. Não é cálice de prosperidade fácil, mas de fidelidade transformadora. Quem o bebe descobre que a verdadeira autoridade nasce quando o poder se converte em amor que se entrega até o fim.



DNonato - Teólogo do Cotidiano 

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Um breve olhar sobre Marcos 7,31-37

 
A perícope de Marcos 7,31-37, proclamada na 6ª-feira da 5ª semana do Tempo Comum do Ano Ímpar e no 23º Domingo do Tempo Comum do Ano B, não pode ser reduzida a um simples episódio de cura entre tantos outros. Trata-se de um momento-chave na pedagogia do Evangelho segundo Marcos, em que a identidade de Jesus e o alcance de sua missão se tornam cada vez mais claros. Após a forte controvérsia sobre a pureza ritual (Mc 7,1-23), na qual Jesus desloca o centro da santidade das práticas exteriores para a interioridade do coração  antecipando o que já denunciavam os profetas (cf. Is 29,13) —, e depois do encontro com a mulher siro-fen9ícia (Mc 7,24-30), onde a fé de uma estrangeira desmonta fronteiras étnicas e religiosas, o Senhor se dirige à região da Decápole. Esse itinerário não é mero dado geográfico: é gesto teológico, é anúncio encarnado.

A Decápole era um conjunto de cidades de forte influência helenista, majoritariamente gentílicas, marcadas por cultura greco-romana. Ao atravessar esse território, Jesus rompe simbolicamente os muros que separavam judeus e pagãos. O Messias de Israel não permanece confinado a um nacionalismo religioso. Ele age fora das fronteiras cultuais, antecipando concretamente o que Isaías proclamara: “Eu te estabeleci como luz das nações” (Is 49,6).  Assim, a cura do surdo com dificuldade de falar não é apenas um ato de compaixão individual; é sinal escatológico. Em Isaías 35,5-6, a abertura dos ouvidos dos surdos e a soltura da língua dos mudos são marcas da chegada do tempo messiânico. Marcos, atento a essa tradição profética, apresenta Jesus como aquele em quem as promessas se cumprem. O “Effatá” (Mc 7,34) ecoa como palavra criadora, semelhante ao “haja” do Gênesis (Gn 1), inaugurando uma nova possibilidade de escuta e de comunicação.

Do ponto de vista antropológico e pastoral, o texto também interpela a condição humana: surdez e mudez não são apenas limitações físicas; simbolizam a incapacidade de ouvir a Palavra e de proclamá-la. Em uma sociedade saturada de discursos, mas pobre de escuta profunda, o Evangelho denuncia a surdez espiritual que nasce do fechamento do coração. A crítica implícita não é apenas dirigida aos pagãos, mas também ao religioso que cumpre ritos e permanece impermeável à conversão interior.

Portanto, essa perícope deve ser lida como revelação progressiva da identidade de Cristo e como manifestação da universalidade do Reino. Jesus atravessa fronteiras geográficas para desinstalar fronteiras interiores. Ele toca, aproxima-se, suspira, fala  e restaura a dignidade humana. A pergunta que emerge para a assembleia não é apenas sobre o que Jesus fez, mas sobre o que ainda precisa ser aberto em nós: quais ouvidos permanecem fechados? Que vozes continuam silenciadas por estruturas religiosas, sociais ou ideológicas que preferem manter o controle a permitir que a Palavra liberte? A introdução dessa reflexão, portanto, nos coloca diante de um Cristo que não se deixa aprisionar por fronteiras culturais nem por sistemas religiosos autorreferenciais. Seu gesto na Decápole anuncia que o Reino é dom oferecido a todos  e que a verdadeira pureza começa quando o coração se deixa abrir.

Esse cenário histórico ilumina a força do gesto. Ao inserir a cura nesse contexto, Marcos sugere que a salvação não está confinada a um espaço sagrado delimitado, mas atravessa territórios considerados impuros. A mesma lógica já aparecera na libertação do geraseno (Mc 5,1-20). Agora, porém, não se trata de expulsar demônios, mas de restaurar a capacidade de ouvir e falar. A comunicação, fundamento da vida social e religiosa, é reconstituída justamente onde a alteridade é mais evidente.

O homem apresentado é surdo e tinha dificuldade de falar. A condição física, no imaginário antigo, frequentemente era associada a culpa ou maldição, como revela a pergunta em João 9,2. Jesus rompe com essa leitura automática. Mais ainda: em Marcos, a surdez adquire dimensão simbólica. Pouco depois, os discípulos serão interpelados: “Tendes ouvidos e não ouvis?” (Mc 8,18). A incapacidade auditiva torna-se metáfora da incompreensão diante do mistério do Reino. Assim, a cura física antecipa a necessidade de abertura espiritual que culminará na confissão de Pedro (Mc 8,29) e que só será plenamente purificada à luz da cruz (Mc 15,39).

Essa simbologia encontra raízes profundas na tradição bíblica. A fé de Israel nasce da escuta: “Ouve, Israel” (Dt 6,4). Isaías denuncia o endurecimento dos ouvidos (Is 6,10), e o Salmo 115 descreve ídolos que têm ouvidos, mas não ouvem. A idolatria produz surdez espiritual. Quando estruturas de poder, riqueza ou ideologia ocupam o lugar de Deus, a capacidade de discernir a verdade se atrofia. Por isso Jeremias 5,21 lamenta um povo que tem olhos e não vê, ouvidos e não ouve. A cura narrada por Marcos revela, então, mais que compaixão individual: denuncia a condição humana fechada à revelação.

É nesse contexto que o gesto de Jesus ganha densidade. Ele conduz o homem à parte, longe da multidão (Mc 7,33). A ação divina não se constrói no espetáculo, mas no encontro pessoal. A pedagogia do silêncio percorre toda a Escritura: Elias reconhece o Senhor na brisa suave (1Rs 19,12), e Oseias fala do deserto como lugar de reconquista do coração (Os 2,16). Em contraste com a cultura contemporânea do ruído constante e da exposição permanente, esse detalhe revela que a escuta profunda exige recolhimento. A sociedade hiperconectada corre o risco de tornar-se espiritualmente dispersa, incapaz de atenção interior. O toque nos ouvidos e na língua, acompanhado do suspiro elevado ao céu, revela a corporeidade da salvação. O Verbo se fez carne (Jo 1,14); Deus age na materialidade da história. A saliva, também presente em João 9,6, integrava práticas terapêuticas antigas. Marcos não elimina o elemento cultural, mas o assume, indicando que a graça não destrói a realidade humana, antes a eleva. O suspiro recorda o gemido do Espírito (Rm 8,26) e o clamor do povo no Êxodo (Ex 2,23). O milagre é resposta compassiva, não demonstração de poder.

A palavra aramaica “Efatá” preserva a força do momento. Como “Talitá kum” (Mc 5,41), ela ecoa o imperativo criador de Gênesis 1. Isaías 35,5-6 já anunciara que os ouvidos dos surdos se abririam e a língua do mudo cantaria. Em Mateus 15,29-31, multidões testemunham sinais semelhantes em território gentílico, reforçando o cumprimento messiânico. O Reino se manifesta não por supremacia política, mas por restauração da dignidade humana. Aqui emerge contraste decisivo com espiritualidades que prometem prosperidade material como critério de bênção. O homem curado recebe voz e integração, não riqueza. Jesus já advertira: “Não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (Mt 6,24). A ordem de silêncio (Mc 7,36) aprofunda essa lógica. A identidade de Cristo não pode ser reduzida a taumaturgo popular. O segredo messiânico preserva o mistério que só se revela plenamente na cruz. Quando o centurião proclama a filiação divina de Jesus (Mc 15,39), compreende-se que o verdadeiro poder se manifesta na vulnerabilidade. A teologia do domínio, que instrumentaliza a fé para legitimar supremacias, é desmentida pelo Crucificado. “Quando sou fraco, então é que sou forte” (2Cor 12,10).

Esse dinamismo repercute no plano social. No mundo antigo, limitações físicas podiam gerar restrições cultuais (Lv 21,18-20). Jesus rompe a associação entre integridade corporal e dignidade espiritual. Paulo desenvolve essa intuição ao afirmar que os membros mais frágeis são indispensáveis (1Cor 12,22). Em sociedades que ainda marginalizam pessoas com deficiência ou minorias, o texto convoca à inclusão concreta. A Igreja não pode reproduzir exclusões que o Evangelho supera. A abertura dos ouvidos conduz à abertura comunitária. Em Atos 15, a Igreja nascente discerne em diálogo: “Pareceu bem ao Espírito Santo e a nós” (At 15,28). A escuta mútua torna-se critério eclesial. O sacerdócio comum proclamado em 1Pedro 2,9 impede a concentração absoluta da voz num único segmento. Quando práticas clericalistas sufocam a participação do povo, o “Efatá” torna-se chamado à conversão estrutural.

A surdez contemporânea assume novas formas. Polarizações ideológicas, consumo religioso e manipulação midiática produzem ambientes em que a verdade é fragmentada. A advertência de Hebreus 3,15 — “não endureçais o vosso coração” — mantém-se atual. Provérbios 21,13 lembra que quem fecha o ouvido ao pobre não será ouvido. O Evangelho confronta estruturas que ignoram injustiças sociais. Lucas 4,18-19 apresenta o programa messiânico centrado na libertação e na restauração. A cura do surdo-mudo participa dessa mesma dinâmica libertadora. No desfecho, a multidão exclama: “Tudo fez bem” (Mc 7,37), eco de Gênesis 1,31. A nova criação manifesta-se no território da alteridade. O itinerário começa com isolamento e culmina em comunhão. Essa progressão oferece chave hermenêutica para a atualidade: onde Cristo é acolhido, o silêncio imposto pela exclusão transforma-se em palavra de louvor. A esperança cristã, expressa em Apocalipse 21,5 — “Eis que faço novas todas as coisas” — impede que a surdez social seja considerada destino inevitável.

À luz de Marcos 7,31-37, compreendemos que não estamos diante de uma lembrança piedosa de um milagre distante, mas de um apelo que atravessa a história e alcança a Igreja de hoje. A cura do surdo e gago na região da Decápole revela que o agir de Cristo continua sendo abertura: abertura do corpo, da consciência e da comunidade. Se o gesto de Jesus cumpre as promessas messiânicas anunciadas em Isaías 35,5-6, ele também desvela nossa própria condição espiritual. “Efatá” não é apenas palavra dirigida àquele homem; é imperativo dirigido a todos nós. Abrir os ouvidos significa deixar que a Palavra viva e eficaz (Hb 4,12) atravesse nossas resistências, cure nossas distorções e confronte nossas falsas seguranças religiosas. Abrir a boca significa abandonar a cumplicidade com a mentira e testemunhar a verdade na justiça (Ef 4,25), mesmo quando isso desinstala privilégios e estruturas cristalizadas.

Num contexto em que o sagrado pode ser instrumentalizado por ideologias, nacionalismos religiosos ou projetos de poder, o Evangelho recorda que a fé não é mercadoria nem espetáculo. Ela é encontro transformador. A comunidade que acolhe o “Efatá” deixa de ser círculo fechado e torna-se espaço de integração dos marginalizados, ecoando a prática de Jesus que atravessa fronteiras culturais e religiosas. Assim, esta perícope nos conduz a um exame profundo: que surdez ainda carregamos diante do clamor dos pobres? Que mudez nos impede de denunciar injustiças e anunciar esperança? Onde o “Efatá” é acolhido, o poder se converte em serviço (cf. Mc 10,45), a religião deixa de ser aparência e torna-se vida concreta, e a comunhão vence o isolamento. Só então será possível repetir com verdade e responsabilidade a confissão admirada da multidão: “Tudo Ele fez bem.”



DNonato - Teólogo do Cotidiano


quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Conectados, Mas Convertidos?

  • Entre Algoritmos e Evangelho
A cidade acorda antes do sol. Não porque os galos cantem, mas porque os celulares vibram. A luz que primeiro ilumina muitos rostos não vem da janela, mas da tela. Antes do café, antes do silêncio, antes mesmo da oração, há uma rolagem. Notícias, afetos, revoltas, memes, tragédias e, entre tudo isso, também versículos, pregações, transmissões ao vivo. O mundo mudou, e com ele mudaram os caminhos por onde a alma caminha. A fé, que um dia percorreu estradas poeirentas da Galileia, hoje atravessa cabos de fibra óptica e ondas invisíveis. O Verbo que se fez carne (João 1,14) continua querendo se fazer presença, inclusive no território dos códigos e algoritmos.

Essa constatação incomoda alguns. Há quem declare que o sagrado perdeu reverência, que transcendência não combina com notificações. No entanto, a própria história bíblica é história de mediações. Deus falou por meio de um arbusto em chamas (Êxodo 3,2), de tábuas de pedra, de profetas que gritavam nas praças (Jeremias 7,2), de cartas que cruzaram mares para orientar comunidades em crise (1Coríntios 1,10-13). Paulo utilizou as estruturas do Império Romano para espalhar uma mensagem que, paradoxalmente, subvertia a lógica imperial. Sempre houve mediação. Sempre houve cultura. Sempre houve linguagem encarnada.

Se ontem eram pergaminhos e estradas romanas, hoje são plataformas digitais. O problema não é o meio. O problema é o coração que o habita.

Quando Jesus ensinava às margens do lago, falava de sementes, redes, moedas, figueiras (Mateus 13; Lucas 15; Marcos 11,12-14). Ele partia do cotidiano para revelar o Reino. Se caminhasse hoje entre prédios, comunidades periféricas e timelines agitadas, talvez falasse de algoritmos que moldam percepções e criam bolhas que reforçam certezas. Paulo já advertia: “Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da mente” (Romanos 12,2). Em termos contemporâneos, não deixem que o fluxo determine sua consciência.

O Reino não funciona pela lógica da viralização. Ele não cresce pelo medo nem pelo escândalo. Cresce como fermento escondido na massa (Mateus 13,33). Silencioso. Persistente. Transformador por dentro. A crise não está na tecnologia, mas na interioridade. Jesus foi claro: é do coração que procedem as más intenções (Marcos 7,21-23). A pureza que Ele propõe não é ritual, é ética.

E aqui surge a tensão do nosso tempo. Estar conectado não é estar em comunhão. A cultura digital recompensa o espetáculo, a indignação rápida, o julgamento sumário. A imagem precede a verdade. A reação vale mais que a reflexão. O próprio Evangelho já alertava contra a religiosidade performática: “Guardai-vos de praticar a vossa justiça diante dos homens para serdes vistos por eles” (Mateus 6,1). A fé transformada em performance perde sua substância.

Hoje vemos versículos recortados para legitimar ódios, discursos religiosos usados como capital político, espiritualidade convertida em produto. A cruz vira logotipo. A Bíblia vira slogan. O púlpito se digitaliza e, em alguns casos, o discipulado se transforma em branding. Quando isso acontece, o Cristo servo de Mateus 20,25-28 é substituído por um messianismo de poder. E o Reino, que começa com bem-aventurados os pobres (Mateus 5,3), passa a ser confundido com prosperidade e dominação cultural.

A tradição profética sempre se levantou contra essa distorção. Amós denuncia cultos exuberantes que ignoram a justiça (Amós 5,21-24). Isaías afirma que o jejum agradável a Deus rompe correntes de opressão (Isaías 58,6-7). Jesus radicaliza em Mateus 25,31-46 ao identificar-se com os famintos, estrangeiros e presos. O critério do juízo não é visibilidade religiosa. É misericórdia concreta.

Não é o engajamento que salva. É o amor.

A tecnologia, portanto, é instrumento. Pode ser ponte que conecta solidariedade em tempos de enchentes e pandemias. Pode ser voz para os invisíveis. Mas também pode ser fábrica de desinformação, campo fértil para radicalizações e manipulações emocionais. Gênesis 11,1-9 narra a torre de Babel como projeto técnico que se transforma em arrogância coletiva. A técnica sem ética produz dispersão.

Por isso, discernimento é virtude urgente. “Não acrediteis em qualquer espírito, mas examinai” (1João 4,1). Nem toda mensagem que cita Deus revela Deus. Nem todo discurso inflamado é profético. Às vezes é apenas barulho revestido de versículo.

Há uma diferença decisiva entre anunciar o Evangelho e usar o Evangelho. Anunciar é servir à verdade que nos transcende (João 14,6). Usar é instrumentalizar o sagrado para ampliar influência. Jesus criticou líderes que impunham fardos pesados enquanto protegiam seus próprios privilégios (Mateus 23,4). O clericalismo não precisa mais apenas de templos; ele pode florescer em perfis verificados e canais monetizados. Quando fé e poder se confundem, o Evangelho é reduzido a ferramenta ideológica.


Mas o Magnificat continua ecoando: Deus derruba poderosos de seus tronos e exalta os humildes (Lucas 1,52-53). As bem-aventuranças continuam contrariando a lógica dominante. O Reino não é nacionalismo religioso. Não é projeto de hegemonia cultural. “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Mateus 22,21) permanece como fronteira ética contra toda fusão indevida entre fé e idolatria política.

Enquanto isso, a psicologia contemporânea descreve uma geração exausta, fragmentada pela avalanche de estímulos. A atenção tornou-se campo de disputa. O silêncio tornou-se raro. Contudo, Jesus retirava-se para rezar (Lucas 5,16). O Salmo 131 fala de uma alma aquietada. A espiritualidade cristã não nasce do excesso, mas da escuta. Talvez a conversão digital inclua aprender a desligar. Aprender a esperar. Aprender a não reagir imediatamente. “Há tempo para falar e tempo para calar” (Eclesiastes 3,7).

Nas periferias sociais, a internet é muitas vezes a principal porta de acesso à informação e pertencimento. Jovens constroem identidade nas redes. Também ali são capturados por discursos de ódio e extremismos simplificadores que oferecem respostas fáceis para angústias complexas. Ignorar esse território é abandonar missão. “Sereis minhas testemunhas até os confins da terra” (Atos 1,8). Hoje, esses confins incluem o ambiente virtual. Mas a presença cristã ali não pode ser ingênua. É preciso reconhecer desigualdades digitais, exploração econômica das plataformas e a transformação de dados em mercadoria.

Ser presença real não significa exposição constante. Significa coerência. Tiago é direto: fé sem obras é morta (Tiago 2,17). No mundo digital, isso significa que palavras edificantes precisam encontrar eco em práticas concretas. Uma campanha solidária organizada por redes pode alimentar famílias. Uma mensagem privada pode salvar alguém da desesperança. O Pai que vê o oculto (Mateus 6,4) não depende de métricas.

No fundo, a pergunta de Lucas 10,29 continua ecoando: quem é o próximo? No ambiente digital, o ferido pode ser alguém alvo de difamação coletiva. O sacerdote e o levita podem ser aqueles que apenas deslizam a tela. O samaritano é quem decide interromper o fluxo, escutar e agir. A compaixão não depende do meio. Depende do coração revestido de misericórdia (Colossenses 3,12).

O Evangelho permanece o mesmo. Ele não se submete a ideologias estreitas nem a extremismos que absolutizam identidades. Ele chama à conversão pessoal e à transformação social (Atos 2,42-47). A comunidade primitiva partilhava bens, quebrava o pão, cuidava dos necessitados. Isso confronta tanto o individualismo digital quanto a espiritualidade privatizada. Amar não é clicar. Amar é comprometer-se (1João 3,18).

Talvez, quando a tela iluminar novamente o rosto pela manhã, possamos lembrar que antes da conexão existe vocação. Somos chamados a ser sal e luz (Mateus 5,13-16). O sal preserva da corrupção. A luz revela o que estava oculto. Isso vale também para o ambiente digital. Não para alimentar vaidades, mas para iluminar consciências. Não para acumular seguidores, mas para construir comunhão (Hebreus 10,24-25).

A verdadeira inovação não nasce de códigos sofisticados. Nasce de um coração renovado (Ezequiel 36,26). Um coração convertido ao amor e comprometido com a justiça atravessa qualquer fronteira, inclusive a digital. Porque, no fim, não é o algoritmo que transforma o mundo.

É o Evangelho vivido.

E a pergunta permanece aberta, silenciosa e urgente: que tipo de presença você escolhe ser quando ninguém está olhando, mas todos estão conectados?



DNonato

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Um breve olhar sobre Lucas 2,22-40

 
A proclamação de Lucas 2,22-40 nos introduz num tempo litúrgico de extraordinária densidade simbólica e teológica. Celebrado em 2 de fevereiro, quarenta dias após o Natal, este Evangelho estrutura a Festa da Apresentação do Senhor, conhecida desde os primeiros séculos como Festa da Luz. No Oriente, recebeu o nome de Hypapante, o Encontro; no Ocidente, tornou-se a Candelária, marcada pelas procissões com velas que confessam Cristo como Luz destinada a todos os povos. A memória dessa celebração já aparece no século IV em Jerusalém, como testemunha a peregrina Egéria, e é incorporada progressivamente à liturgia romana entre os séculos VI e VII, quando assume também um caráter catequético e penitencial, cristianizando antigos ritos de purificação e de passagem do inverno para a luz.

Nesse mesmo horizonte nasce a memória mariana de Nossa Senhora da Luz, não como acréscimo devocional, mas como consequência teológica do próprio mistério celebrado. Maria é aquela que gera a Luz, caminha com a Luz e, sobretudo, entrega a Luz. Seu gesto no templo não é possessivo, mas oblativo. Ao apresentar o Filho, ela reconhece que Ele não lhe pertence, mas é dom para o mundo. Assim, a festa se revela simultaneamente cristológica, mariana e eclesial: Cristo é a Luz; Maria é a portadora obediente dessa Luz; e a Igreja é chamada a refleti-la nas zonas sombrias da história.

Não por acaso, este Evangelho retorna também na Festa da Sagrada Família e no 5º dia da Oitava do Natal. A liturgia insiste porque deseja educar o olhar da fé: o Menino do presépio não é apenas promessa doce, mas sinal de contradição. A apresentação no templo inaugura publicamente uma vida que será marcada por confronto, discernimento e entrega. O lugar escolhido não é neutro. O templo simboliza o coração religioso de Israel, mas também concentra poder, economia e controle simbólico. Ao levar Jesus a esse espaço, Lucas antecipa a tensão que atravessará todo o Evangelho: o Filho apresentado como oferta será o mesmo que denunciará o templo quando este se converter em mercado. A apresentação já contém, em germe, a purificação.

Maria e José cumprem tudo “conforme a Lei do Senhor” (Lc 2,23.39). O Messias não nasce à margem da tradição, mas dentro dela. A Lei não é negada, mas atravessada. Aqui ecoa a afirmação paulina de que Deus enviou seu Filho “nascido de mulher, nascido sob a Lei” (Gl 4,4). O símbolo da Lei cumprida revela que a fé bíblica não é ruptura irresponsável, mas transformação a partir de dentro. Ao mesmo tempo, a presença do Menino denuncia qualquer absolutização legalista que transforme a Lei em instrumento de exclusão, controle ou opressão.

O rito do primogênito apresentado, segundo Êxodo 13, carrega o símbolo da libertação. Todo primogênito pertence a Deus como memória viva do êxodo. Ao apresentar Jesus, Maria e José proclamam silenciosamente que este Menino é libertação encarnada. Mas a libertação que Ele traz não se dá pela força, nem pelo domínio, nem pela imposição religiosa. O primogênito apresentado será, mais tarde, o Filho entregue. Aqui se desfaz toda teologia do domínio que instrumentaliza Deus para legitimar projetos de poder.

O sacrifício oferecido — duas rolas ou dois pombinhos — revela a condição social da família e se torna símbolo teológico decisivo. É a oferta permitida aos pobres. O Salvador entra no templo não cercado de glória, mas pela via da precariedade. A salvação não se manifesta no excesso, mas na fidelidade humilde. Como recorda João Crisóstomo, Cristo não se cerca de esplendor para que ninguém confunda Deus com interesse. Este gesto desmonta, desde a origem, qualquer teologia da prosperidade que associe bênção a acúmulo, sucesso ou privilégio religioso.

Simeão encarna a espera amadurecida. Ele representa Israel fiel que não desistiu da promessa, mesmo quando a história parecia negá-la. “Esperava a consolação de Israel” — expressão profundamente enraizada nos cânticos do Segundo Isaías. A consolação, porém, não chega como restauração política imediata, mas como presença frágil de Deus nos braços de um idoso. Ao tomar o Menino, Simeão proclama que a salvação não é ideia abstrata, mas relação concreta. Seu cântico confessa que essa salvação é preparada “diante de todos os povos”, como luz que ilumina e revela. A luz não pertence a grupos, não legitima exclusões, não se deixa capturar por ideologias religiosas. Ela julga, desvela e liberta.

O símbolo da luz atravessa toda a Escritura: da criação à nova criação em Cristo. Luz é revelação, mas também confronto. Psicologicamente, integra e desvela as sombras; sociologicamente, denuncia estruturas injustas; teologicamente, desmascara espiritualidades que preferem a penumbra confortável da alienação. Por isso, Jesus será rejeitado: a luz incomoda quem se beneficia da escuridão.

Ana completa o quadro simbólico. Mulher, idosa, viúva, sem função institucional, ela representa a profecia que resiste à margem. Sua presença desmonta o clericalismo que monopoliza a voz de Deus e reduz a profecia à hierarquia. O Espírito fala onde quer. Ana é imagem de uma Igreja que persevera sem holofotes, que jejua não para barganhar, mas para manter o coração livre, e que anuncia porque não pode silenciar.

A palavra dirigida a Maria — a espada que atravessa a alma — revela que a luz não elimina a dor, mas a atravessa. Trata-se de uma espada de discernimento, que separa ilusões, purifica expectativas e impede uma fé infantilizada. Maria torna-se figura da Igreja que caminha na história sem negar o conflito, sem fugir da cruz, sem negociar a verdade.

Os paralelos bíblicos confirmam essa dinâmica: Mateus sublinha o cumprimento das promessas; João aprofunda o simbolismo da luz; Hebreus recorda que Cristo se fez semelhante aos irmãos em tudo. Não há redenção sem encarnação radical, sem assumir a condição humana concreta.

O Magistério da Igreja retoma essa intuição ao afirmar que o mistério do ser humano só se compreende à luz do Verbo encarnado (Gaudium et Spes, 22) e ao denunciar uma Igreja autorreferencial, mais preocupada com poder do que com o Evangelho (Evangelii Gaudium). Fratelli Tutti amplia o horizonte, lembrando que não existe luz espiritual autêntica sem compromisso com a fraternidade real e a dignidade dos últimos.

Celebrar a Apresentação do Senhor, Festa da Luz, é permitir que essa claridade atravesse nossas falsas seguranças religiosas, nossas teologias de mercado, nossas espiritualidades desencarnadas. É reconhecer que não somos donos da luz, mas seus servidores.Como Simeão, só encontramos paz quando reconhecemos a salvação fora dos privilégios. Como Maria, somos chamados a oferecer Cristo sem domesticá-lo. Como Ana, somos convidados a perseverar quando a profecia incomoda.

Que a luz que entrou no templo continue entrando em nossas casas, comunidades e estruturas. Não para nos confirmar, mas para nos converter. Não para nos tranquilizar, mas para nos comprometer. Porque a verdadeira luz não adormece consciências: ela as desperta.



DNonato – Teólogo do Cotidiano

sábado, 31 de janeiro de 2026

Um breve olhar sobre Marcos 4,35-41

 
A Boa Nova de Jesus Cristo segundo São Marcos 4,35-41 ocupa um lugar estratégico na vida litúrgica da Igreja, sendo proclamada no sábado da 3ª semana do Tempo Comum no Ano Par e no 12º Domingo do Tempo Comum no Ano B. Essa escolha não é neutra nem meramente cronológica. O Tempo Comum não é o espaço da banalidade espiritual, mas o chão concreto onde a fé é testada pela rotina, pelo cansaço, pelas noites que chegam sem aviso e pelas tempestades que irrompem justamente quando acreditamos estar obedecendo à vontade de Deus. Ao colocar este Evangelho no coração do Tempo Comum, a liturgia recorda que o seguimento de Jesus acontece dentro da história, com todas as suas ambiguidades, riscos e medos. Marcos escreve para uma comunidade frágil, ameaçada, marcada pela perseguição e pela experiência do silêncio de Deus. O Evangelho nasce como resposta pastoral e teológica a uma pergunta concreta: onde está Deus quando a barca parece afundar? Por isso, este texto não é apenas a memória de um milagre do passado, mas uma catequese viva dirigida a comunidades que atravessam noites longas, individuais e coletivas. A travessia do lago torna-se metáfora da travessia da fé.

“Naquele dia, ao cair da tarde” (Mc 4,35). O detalhe temporal não é decorativo. A tarde que cai anuncia a noite, e na Escritura a noite é o tempo do medo, da insegurança, da aparente ausência de Deus. Foi à noite que Israel murmurou no deserto (Ex 16); foi à noite que o povo tremeu diante do mar e do exército do faraó (Ex 14,10); é na noite que os salmistas clamam: “Até quando, Senhor?” (Sl 13). A travessia proposta por Jesus começa quando a visibilidade diminui e o controle humano se enfraquece. A fé bíblica não começa onde tudo está claro, mas onde as garantias se esgotam. 

O cenário reforça essa experiência. O chamado Mar da Galileia, na verdade um lago cercado por montanhas, era conhecido por tempestades repentinas provocadas pelo choque entre massas de ar quente e frio. Marcos conhece esse dado histórico, mas o transcende teologicamente. Na Bíblia, o mar é símbolo do caos primordial (Gn 1,2), das forças da morte (Sl 69,2), do espaço onde habitam monstros simbólicos como Leviatã e Raab (Jó 41; Sl 89,11). O mar representa tudo aquilo que ameaça a vida e escapa ao controle humano. Não é apenas geografia; é linguagem teológica.

Enquanto a tempestade cresce, Jesus dorme. Marcos não suaviza esse detalhe. Jesus está exausto, dorme sobre um travesseiro, experimenta o limite do corpo. Contra qualquer espiritualidade desencarnada ou cristologia docetista, o Evangelho afirma a plena humanidade de Cristo. Ele não finge ser humano; Ele o é. Esse sono, porém, escandaliza os discípulos, que o acordam com uma pergunta dura e atravessada de dor: “Mestre, não te importas que pereçamos?” (Mc 4,38). Esse grito percorre toda a Escritura. É o clamor do povo oprimido, o lamento de Jó, a súplica dos salmos, o protesto das vítimas da história. Não é ausência de fé, mas fé ferida, exposta, vulnerável.

Jesus se levanta, repreende o vento e ordena ao mar: “Silêncio! Cala-te!” (Mc 4,39). Os verbos usados por Marcos são os mesmos empregados nos relatos de exorcismo. O evangelista deixa claro que não se trata apenas de um fenômeno natural, mas de um confronto simbólico com forças que ameaçam a vida. A calma que se segue é descrita como “grande calmaria”, em contraste com a “grande tempestade”. Onde a palavra de Jesus ressoa, o caos não tem a última palavra.

Esse gesto insere Jesus no coração da fé bíblica de Israel. Os Salmos proclamam que somente o Senhor domina o orgulho do mar e acalma suas ondas (Sl 65,8; Sl 107,29). Jó reconhece que apenas Deus pode impor limites às águas caóticas (Jó 38,8-11). Ao atribuir a Jesus esse poder, Marcos afirma sua identidade divina de forma narrativa e existencial, sem recorrer a discursos abstratos. A cristologia aqui nasce da experiência vivida, não de definições conceituais.

No entanto, o centro do texto não está no milagre, mas na palavra dirigida aos discípulos: “Por que sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?” (Mc 4,40). O problema não é a tempestade, mas o medo que paralisa. A fé bíblica não é ausência de medo, mas confiança que resiste apesar dele. Trata-se de uma fé que atravessa a noite sem exigir garantias imediatas. Marcos denuncia uma fé imatura, dependente de sinais constantes, incapaz de sustentar-se quando Deus silencia.

A reação final dos discípulos é paradoxal. Eles não ficam serenos, mas tomados de grande temor. O medo da morte dá lugar ao temor diante do Mistério. Este é o verdadeiro temor bíblico: não pânico, mas reconhecimento da alteridade divina. A pergunta “Quem é este?” (Mc 4,41) percorre todo o Evangelho e só encontrará resposta plena na cruz, quando um centurião romano, representante do poder opressor, proclamará: “Verdadeiramente este homem era Filho de Deus” (Mc 15,39). A travessia do mar já aponta para a Páscoa.

O horizonte bíblico amplia ainda mais essa leitura. A cena dialoga profundamente com o Êxodo, narrativa fundante da fé de Israel. O povo atravessa o Mar Vermelho cercado por águas ameaçadoras e por um exército opressor (Ex 14). A libertação não nasce da força do povo, mas da ação gratuita de Deus. Marcos reinscreve essa memória: o Deus que domina as águas continua agindo na história, agora revelado em Jesus. A travessia do lago torna-se uma releitura pascal do Êxodo, aplicada à comunidade cristã.

Os paralelos sinóticos reforçam essa teologia. Mateus destaca a autoridade de Jesus sobre a criação (Mt 8,23-27). Lucas sublinha o caráter de confronto ao afirmar que Jesus “ameaçou” o vento (Lc 8,24). João, ao narrar outra travessia noturna, coloca nos lábios de Jesus a expressão “Sou eu” (Jo 6,20), evocando o Nome divino revelado a Moisés (Ex 3,14). Em todos os casos, a noite, o medo e a presença fiel de Deus caminham juntos.

O contraste com Jonas é igualmente revelador. Jonas dorme no porão do navio enquanto a tempestade ameaça a todos (Jn 1), mas seu sono é fuga da missão. O sono de Jesus é confiança radical no Pai. Ambos dormem, mas por razões opostas. Marcos propõe, assim, uma catequese profunda sobre obediência e fidelidade.

Desde os primeiros séculos, a barca foi lida como símbolo da Igreja. Orígenes via nela a comunidade ameaçada pelas perseguições; Tertuliano falava da Igreja sacudida pelos ventos da história; João Crisóstomo afirmava que Cristo permite a tempestade para educar a fé. Agostinho ofereceu uma leitura pastoral duradoura: o mar são as paixões, os ventos são as tentações, a barca é o coração humano. Quando Cristo dorme, é porque a fé adormeceu; acordá-lo é orar.  

O medo é constitutivo da condição humana. A fé não elimina a ansiedade, mas oferece horizonte de sentido. Filosoficamente, o texto desmonta a ilusão da autossuficiência moderna. O ser humano não controla tudo. A tempestade revela o limite, e é nesse limite que a fé se purifica.

O Evangelho também confronta diretamente as teologias da prosperidade e do domínio. Se essas teologias fossem verdadeiras, a obediência a Jesus garantiria uma travessia tranquila. No entanto, a tempestade surge justamente porque os discípulos obedecem à ordem: “Passemos para a outra margem”. A fidelidade não livra do conflito; frequentemente o provoca. A fé mercantilizada transforma Deus em produto e o Evangelho em promessa de conforto. Marcos revela um Cristo que não anestesia a realidade, mas a atravessa.

A “outra margem” não é apenas geográfica. Em Marcos, ela aponta para o território do estrangeiro, do pagão, do excluído, como se verá no encontro com o endemoninhado geraseno (Mc 5,1-20). A tempestade surge no caminho da missão. Uma Igreja autocentrada pode evitar tempestades, mas trai o Evangelho. A Evangelii Gaudium denuncia a tentação de uma fé autorreferencial (EG 95), e a Fratelli Tutti recorda que estamos todos na mesma barca da humanidade (FT 32).

 Os discípulos, futuros líderes, entram em pânico. Se eles  tiveram medo, porque  hoje não  podemos  sentir.  Não há elite espiritual imune ao medo. A autoridade na Igreja não nasce da ausência de fragilidade, mas da confiança em meio a ela. O Concílio Vaticano II afirma que todos os batizados participam da mesma dignidade e missão (Lumen Gentium, 10). Não há barcas privilegiadas no Reino.

Marcos escreve para uma comunidade ameaçada pelo martírio. A pergunta “não te importas?” ecoa no sangue dos perseguidos. A resposta não vem como explicação racional, mas como presença fiel. O Cristo que dorme na barca é o mesmo que parece silencioso diante das cruzes da história. A ressurreição revelará que o silêncio não é abandono.

Por isso, este Evangelho educa para uma espiritualidade adulta, pascal e profética. Não uma fé mágica, mas comprometida com a vida. Não uma religião de mercado, mas um seguimento que atravessa noites. A tempestade não é sinal da ausência de Deus, mas lugar de revelação. Esse dinamismo atravessa a história da Igreja e se impõe com força renovada na realidade contemporânea. A comunidade de Marcos vivia sob perseguição, insegurança política, violência estrutural e medo do futuro; nossa época, embora com outras linguagens e tecnologias, experimenta tempestades semelhantes: desigualdade crescente, autoritarismos travestidos de moral religiosa, mercantilização da fé, banalização do sofrimento humano e uso do Nome de Deus como instrumento de poder. Ontem como hoje, a barca é sacudida não apenas por forças externas, mas por crises internas: clericalismo, autorreferencialidade e perda da centralidade do Evangelho. A pergunta “não te importas?” continua ecoando nas periferias, nas vítimas da violência, nos que se sentem descartados por sistemas econômicos, políticos e religiosos. A resposta, porém, permanece a mesma: não vem como explicação fácil, mas como presença fiel que atravessa a noite. A Igreja, em cada tempo histórico, é chamada a não abandonar a travessia nem negociar sua missão em troca de calmarias artificiais. A fidelidade ao Cristo da barca implica aceitar o risco da tempestade e a responsabilidade pela outra margem.

Enquanto as ondas batem e o medo insiste, a barca segue. Não porque somos fortes, mas porque Ele está presente. Dormindo ou acordado, o Senhor da criação permanece fiel. Essa é a Boa Nova que sustenta a Igreja ontem, hoje e sempre. 

Este Evangelho proclamado tanto  no 3º sábado do Tempo Comum  e no  12⁰ domingo  do tempo comum  ddo ano B destrói a ilusão de uma espiritualidade a ilusão de uma espiritualidade asséptica. Ele nos lança no meio das ondas da história, onde as tempestades atuais — da injustiça social à manipulação do nome de Deus — ameaçam naufragar a esperança. A lição é clara: o Cristo que acalma o mar não é um amuleto de prosperidade, nem uma garantia de conforto; Ele é o Senhor que nos acompanha na dor e no desafio.

​A resposta ao silêncio de Deus diante das perseguições e angústias não é o abandono, mas uma maturidade espiritual que integra medo e confiança. Como nos lembra a sabedoria de Lévinas, a tempestade nos confronta com o que escapa ao nosso controle, exigindo de nós uma resposta ética, e não apenas mágica.

​Deixemos, pois, a religião do controle para abraçar a espiritualidade da entrega. A barca segue não pela ausência de ventos contrários, mas pela Presença que habita seu interior. Mesmo no silêncio que precede a ressurreição, o Senhor permanece fiel. É nessa confiança pascal que a Igreja encontra força para continuar sua travessia, ontem, hoje e sempre.

DNonato – Teólogo do Cotidiano