sexta-feira, 28 de novembro de 2025

Um breve olhar sobre Lucas 21,29-33

 

O Evangelho de Lucas 21,29-33 é proclamado de modo literal e integral pela liturgia da Igreja Católica na sexta-feira da 34ª Semana do Tempo Comum. Esse é o único momento em que o trecho aparece de maneira completa no Lecionário. Partes do mesmo capítulo, ainda que não incluam especificamente estes versículos, são proclamadas também no 1º Domingo do Advento do Ano C, quando ouvimos Lucas 21,25-28.34-36, criando uma moldura teológica que liga o fim e o começo do Ano Litúrgico. Assim, a Igreja coloca o ensinamento da figueira exatamente na transição entre o crepúsculo e a aurora, entre o fim e o início, ensinando que a história caminha sob o olhar de Deus e que8, mesmo quando tudo parece ruir, a Palavra permanece e recomeça.

Quando Jesus convida os discípulos a contemplarem a figueira e as demais árvores, Ele apela à linguagem mais antiga da humanidade — a linguagem simbólica da criação, inscrita na experiência comum do tempo e da mudança. Nada ali é abstrato. Fala-se de ramos que brotam, de folhas que se renovam, de sinais percebidos por qualquer pessoa, do agricultor mais simples ao filósofo mais refinado. Lucas insere essa pequena parábola dentro do grande discurso escatológico, que se estende do versículo 5 ao 38. É o momento em que o Senhor, às vésperas da Paixão, revela aos seus que a história é atravessada por crises, rupturas, decepções, medos e destruições, mas que, apesar de tudo, o Reino se aproxima. A parábola funciona, portanto, como chave hermenêutica do próprio Evangelho: a esperança não nasce da negação do drama, mas da leitura espiritual dos sinais. E aqui já se anuncia o eco profundo de Lucas 12,54-56, quando Jesus acusa os contemporâneos de saberem ler o tempo meteorológico, mas não os “kairós” da intervenção divina.

A figueira, na tradição bíblica, é símbolo ambíguo. Representa tanto a bênção quanto o juízo. O profeta Jeremias via na figueira sem frutos a imagem do povo que se afastara da Aliança (Jr 8,13), enquanto Miqueias também descrevia a crise ética de Israel pela ausência de figos maduros (Mq 7,1). Por outro lado, o brotar da figueira era sinal de tempo novo, de restauração, de fertilidade (Ct 2,13; Jl 2,22). Assim, quando Jesus aponta a árvore, Ele evoca toda essa memória profética: a história humana, como a figueira, tem invernos e primaveras. O mal existe, mas não tem a última palavra; o sofrimento é real, mas não durará para sempre; as estruturas opressoras dominam, mas não permanecerão. A figueira anuncia que Deus age mesmo quando parece demorar, e que a vida ressurge quando parecia impossível. Como ensinou Orígenes, “a Palavra lê o mundo e nos ensina a ler o mundo” — e é isso que Jesus faz: Ele educa o olhar.

A aproximação do Reino não deve ser interpretada por categorias de catástrofe cinematográfica. Os paralelos sinóticos expandem essa percepção. Marcos 13,28-31 — provavelmente a forma mais primitiva do dito — insere a figueira como resposta à pergunta dos discípulos sobre “quando acontecerão essas coisas” (Mc 13,4). Mateus 24,32-35 retoma praticamente o mesmo texto, mas insere a figura do “Filho do Homem vindo sobre as nuvens” (Mt 24,30), em clara referência a Daniel 7,13-14. Lucas, diferentemente, desloca o foco, preferindo sublinhar a proximidade do Reino e sua irrupção no cotidiano. Isto revela


a linha teológica de Lucas: não enfatiza o medo, mas a esperança perseverante; não apresenta catástrofes como castigos, mas como contexto para discernir a fidelidade divina. Por isso Lucas acrescenta algo que os outros não trazem: “Observai a figueira e todas as árvores” (21,29). É o único sinótico a incluir as demais árvores, universalizando o sinal. O Reino não é um evento isolado para Israel, mas uma transformação para todos os povos — sintonia profunda com a teologia lucana das nações (cf. Lc 2,30-32; At 1,8).

Os evangelhos sinóticos também convergem em outro ponto decisivo: todos os três encerram a parábola com a solene afirmação: “O céu e a terra passarão, mas minhas palavras não passarão” (Mc 13,31; Mt 24,35; Lc 21,33). É uma tripla garantia sinótica da autoridade de Jesus. Trata-se de uma das poucas frases que atravessam os três Evangelhos em forma idêntica, o que lhe confere peso histórico e teológico particular. A expressão ecoa Isaías 40,8 — “seca-se a erva, cai a flor, mas a Palavra do nosso Deus permanece para sempre” — e também aponta para a Palavra criadora do Gênesis, a Palavra que estabelece ordem no caos primordial. Se a Palavra de Jesus não passa, é porque ela participa da eternidade divina. Aqui, a cristologia sinótica se encontra com a alta cristologia joanina: João 1,1-3.14 descreve a Palavra eterna que se fez carne. Mesmo sem adotar linguagem metafísica explícita, os sinóticos afirmam o mesmo mistério pela via da escatologia.

A figueira aparece em outros contextos que iluminam Lucas 21. Temos, por exemplo, a figueira estéril de Lucas 13,6-9, na qual Jesus revela a paciência de Deus diante da esterilidade humana, mas também a urgência da conversão. Marcos 11,12-14.20-25 mostra a figueira amaldiçoada — símbolo do julgamento sobre um culto estéril, representado pelo Templo transformado em mercado. Estes textos dialogam silenciosamente com Lucas 21: a figueira que brota anuncia o tempo novo; a figueira estéril denuncia a recusa em produzir frutos; e a figueira seca mostra que sistemas religiosos podem morrer quando deixam de acolher a justiça. O fio teológico é claro: Deus não deseja esterilidade espiritual, mas renovação; não deseja culto vazio, mas frutos de justiça (Is 5,1-7).

A antropologia bíblica também vê na figueira uma árvore da intimidade humana. Em 1Reis 4,25, “cada um vivia em paz debaixo de sua videira e de sua figueira”, símbolo de segurança e prosperidade justa, não exploratória.  O Reino que se aproxima devolve ao povo a paz perdida, a dignidade ferida, a justiça social corroída. Diferente da teologia da prosperidade, que transforma prosperidade em idolatria e exclusão, aqui a prosperidade é fruto da justiça, não da barganha espiritual. A figueira é símbolo de um modo de vida harmonioso, não opressor.

O Apocalipse também ecoa este tema da proximidade: “Eis que faço novas todas as coisas” (Ap 21,5); “o tempo está próximo” (Ap 1,3; 22,10); “não tenhas medo” (Ap 1,17). A leitura apocalíptica cristã nunca é fuga da história, mas enfrentamento da história com coragem. As estrelas caem, os céus se enrolam, as estruturas ruem — e nisso tudo o Cordeiro permanece. É novamente a Palavra que não passa.

O ser humano moderno sofre de hipervigilância para ameaças, mas cegueira para processos lentos. Jesus, ao ensinar a olhar a figueira, nos treina para perceber o que nasce discretamente. Aqui ecoa a parábola do grão que cresce por si mesmo (Mc 4,26-29), exclusiva de Marcos, mas teologicamente convergente com Lucas: o Reino não depende do controle humano, mas da fidelidade divina. Psicologicamente, esta perspectiva combate o narcisismo espiritual de quem deseja controlar Deus, prever datas, manipular o futuro ou interpretar o Evangelho como ferramenta de controle emocional.  A parábola é ainda mais provocativa. Ela denuncia a lógica da sociedade do consumo, que valoriza o imediato. A figueira exige tempo. O Reino exige processo. A cultura da prosperidade exige resultados rápidos; a cultura bíblica exige discernimento. Isso se opõe frontalmente à teologia do domínio, que busca transformar a fé em arma política para “tomar as estruturas” e impor um suposto Reino por coerção cultural. Em Lucas, o Reino nunca é conquista de poder, mas transformação interior que se derrama sobre as estruturas sociais.

Jesus coloca a humanidade diante da tensão entre o que passa e o que permanece. Platão via o mundo sensível como instável; Heráclito falava do fluxo; Aristóteles da substância; os estoicos da ordem racional. Jesus vai além: apenas a Palavra divina é fundamento último. A estabilidade não está no cosmos, mas em Deus. Assim, a fé se torna ato de liberdade interior diante de um mundo instável — eco também de Hebreus 12,26-29: “remover-se-ão as coisas abaláveis, para que permaneçam as inabaláveis”.

O  discurso escatológico de Jesus demole a fé-mercadoria, o culto-show, o clericalismo e os pregadores digitais centrados em si mesmos. A figueira não é espetáculo, não é propaganda, não é promessa de sucesso. É o oposto da espiritualidade performática alimentada por redes sociais e líderes que confundem Evangelho com autopromoção. Jesus devolve o olhar para o essencial: “minhas palavras não passarão”. A fé não se sustenta em modas, mas em fundamentos.

Na Gaudium et Spes (nn. 4, 44) lembra que “os sinais dos tempos” devem ser lidos à luz do Evangelho. Evangelii Gaudium denuncia a mundanidade espiritual, a idolatria do dinheiro, a redução da fé a consumo e espetáculo. Fratelli Tutti afirma que a verdadeira esperança cristã se abre ao mundo e cria vínculos: toda leitura escatológica que isola, elitiza ou produz medo contraria o Evangelho. A Palavra que não passa reconstrói a fraternidade humana. Quando a Igreja lê Lucas 21 no fim do Ano Litúrgico e lê Lucas 21 no começo do Advento C, ela declara que Deus está sempre fazendo novas todas as coisas, não por meio de violência, mas de fidelidade e esperança.

Santo Agostinho via nesta frase o alicerce da estabilidade humana, afirmando que tudo o que nasce passa, mas a Palavra permanece porque é Deus que fala. Crisóstomo insistia que vigilância não significa ansiedade, mas prática de justiça; para ele, ler os sinais dos tempos é cuidar dos pobres, dos feridos, dos que sofrem. Orígenes via na figueira o símbolo da alma que floresce pela conversão contínua — não por moralismo, mas por abertura ao Espírito. Gregório de Nissa dizia que a proximidade do Reino é, na verdade, a proximidade da própria humanidade com seu destino último, que é Deus.

Tudo isso nos leva a compreender que Lucas 21,29-33 é uma denúncia e um anúncio. Denúncia de todas as tentativas de manipular o sagrado, de transformar o Evangelho em arma política, em barganha de prosperidade, em espetáculo religioso, em culto ao poder clerical. Anúncio de que, apesar dos invernos da história, há um florescimento inevitável. A figueira brota, mesmo quando parece seca. A Palavra permanece, mesmo quando tudo parece ruir. A fé amadurece, mesmo quando o mundo zomba de quem espera.

A figueira anuncia: Deus está fazendo algo novo. O Reino se aproxima na sutileza. A conversão nasce nos silêncios. A esperança floresce na paciência. E a Palavra, que não passa, sustenta os que atravessam as noites da história. Impérios passam, ideologias passam, governos passam, manipulações religiosas passam, clericalismos passam, extremismos passam. Somente Cristo permanece — e permanece para gerar vida.

DNonato – Teólogo do Cotidiano

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