- Entre Algoritmos e Evangelho
Essa constatação incomoda alguns. Há quem declare que o sagrado perdeu reverência, que transcendência não combina com notificações. No entanto, a própria história bíblica é história de mediações. Deus falou por meio de um arbusto em chamas (Êxodo 3,2), de tábuas de pedra, de profetas que gritavam nas praças (Jeremias 7,2), de cartas que cruzaram mares para orientar comunidades em crise (1Coríntios 1,10-13). Paulo utilizou as estruturas do Império Romano para espalhar uma mensagem que, paradoxalmente, subvertia a lógica imperial. Sempre houve mediação. Sempre houve cultura. Sempre houve linguagem encarnada.
Se ontem eram pergaminhos e estradas romanas, hoje são plataformas digitais. O problema não é o meio. O problema é o coração que o habita.
Quando Jesus ensinava às margens do lago, falava de sementes, redes, moedas, figueiras (Mateus 13; Lucas 15; Marcos 11,12-14). Ele partia do cotidiano para revelar o Reino. Se caminhasse hoje entre prédios, comunidades periféricas e timelines agitadas, talvez falasse de algoritmos que moldam percepções e criam bolhas que reforçam certezas. Paulo já advertia: “Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da mente” (Romanos 12,2). Em termos contemporâneos, não deixem que o fluxo determine sua consciência.
O Reino não funciona pela lógica da viralização. Ele não cresce pelo medo nem pelo escândalo. Cresce como fermento escondido na massa (Mateus 13,33). Silencioso. Persistente. Transformador por dentro. A crise não está na tecnologia, mas na interioridade. Jesus foi claro: é do coração que procedem as más intenções (Marcos 7,21-23). A pureza que Ele propõe não é ritual, é ética.
E aqui surge a tensão do nosso tempo. Estar conectado não é estar em comunhão. A cultura digital recompensa o espetáculo, a indignação rápida, o julgamento sumário. A imagem precede a verdade. A reação vale mais que a reflexão. O próprio Evangelho já alertava contra a religiosidade performática: “Guardai-vos de praticar a vossa justiça diante dos homens para serdes vistos por eles” (Mateus 6,1). A fé transformada em performance perde sua substância.
Hoje vemos versículos recortados para legitimar ódios, discursos religiosos usados como capital político, espiritualidade convertida em produto. A cruz vira logotipo. A Bíblia vira slogan. O púlpito se digitaliza e, em alguns casos, o discipulado se transforma em branding. Quando isso acontece, o Cristo servo de Mateus 20,25-28 é substituído por um messianismo de poder. E o Reino, que começa com bem-aventurados os pobres (Mateus 5,3), passa a ser confundido com prosperidade e dominação cultural.
A tradição profética sempre se levantou contra essa distorção. Amós denuncia cultos exuberantes que ignoram a justiça (Amós 5,21-24). Isaías afirma que o jejum agradável a Deus rompe correntes de opressão (Isaías 58,6-7). Jesus radicaliza em Mateus 25,31-46 ao identificar-se com os famintos, estrangeiros e presos. O critério do juízo não é visibilidade religiosa. É misericórdia concreta.
Não é o engajamento que salva. É o amor.
A tecnologia, portanto, é instrumento. Pode ser ponte que conecta solidariedade em tempos de enchentes e pandemias. Pode ser voz para os invisíveis. Mas também pode ser fábrica de desinformação, campo fértil para radicalizações e manipulações emocionais. Gênesis 11,1-9 narra a torre de Babel como projeto técnico que se transforma em arrogância coletiva. A técnica sem ética produz dispersão.
Por isso, discernimento é virtude urgente. “Não acrediteis em qualquer espírito, mas examinai” (1João 4,1). Nem toda mensagem que cita Deus revela Deus. Nem todo discurso inflamado é profético. Às vezes é apenas barulho revestido de versículo.
Há uma diferença decisiva entre anunciar o Evangelho e usar o Evangelho. Anunciar é servir à verdade que nos transcende (João 14,6). Usar é instrumentalizar o sagrado para ampliar influência. Jesus criticou líderes que impunham fardos pesados enquanto protegiam seus próprios privilégios (Mateus 23,4). O clericalismo não precisa mais apenas de templos; ele pode florescer em perfis verificados e canais monetizados. Quando fé e poder se confundem, o Evangelho é reduzido a ferramenta ideológica.
Mas o Magnificat continua ecoando: Deus derruba poderosos de seus tronos e exalta os humildes (Lucas 1,52-53). As bem-aventuranças continuam contrariando a lógica dominante. O Reino não é nacionalismo religioso. Não é projeto de hegemonia cultural. “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Mateus 22,21) permanece como fronteira ética contra toda fusão indevida entre fé e idolatria política.
Enquanto isso, a psicologia contemporânea descreve uma geração exausta, fragmentada pela avalanche de estímulos. A atenção tornou-se campo de disputa. O silêncio tornou-se raro. Contudo, Jesus retirava-se para rezar (Lucas 5,16). O Salmo 131 fala de uma alma aquietada. A espiritualidade cristã não nasce do excesso, mas da escuta. Talvez a conversão digital inclua aprender a desligar. Aprender a esperar. Aprender a não reagir imediatamente. “Há tempo para falar e tempo para calar” (Eclesiastes 3,7).
Nas periferias sociais, a internet é muitas vezes a principal porta de acesso à informação e pertencimento. Jovens constroem identidade nas redes. Também ali são capturados por discursos de ódio e extremismos simplificadores que oferecem respostas fáceis para angústias complexas. Ignorar esse território é abandonar missão. “Sereis minhas testemunhas até os confins da terra” (Atos 1,8). Hoje, esses confins incluem o ambiente virtual. Mas a presença cristã ali não pode ser ingênua. É preciso reconhecer desigualdades digitais, exploração econômica das plataformas e a transformação de dados em mercadoria.
Ser presença real não significa exposição constante. Significa coerência. Tiago é direto: fé sem obras é morta (Tiago 2,17). No mundo digital, isso significa que palavras edificantes precisam encontrar eco em práticas concretas. Uma campanha solidária organizada por redes pode alimentar famílias. Uma mensagem privada pode salvar alguém da desesperança. O Pai que vê o oculto (Mateus 6,4) não depende de métricas.
No fundo, a pergunta de Lucas 10,29 continua ecoando: quem é o próximo? No ambiente digital, o ferido pode ser alguém alvo de difamação coletiva. O sacerdote e o levita podem ser aqueles que apenas deslizam a tela. O samaritano é quem decide interromper o fluxo, escutar e agir. A compaixão não depende do meio. Depende do coração revestido de misericórdia (Colossenses 3,12).
O Evangelho permanece o mesmo. Ele não se submete a ideologias estreitas nem a extremismos que absolutizam identidades. Ele chama à conversão pessoal e à transformação social (Atos 2,42-47). A comunidade primitiva partilhava bens, quebrava o pão, cuidava dos necessitados. Isso confronta tanto o individualismo digital quanto a espiritualidade privatizada. Amar não é clicar. Amar é comprometer-se (1João 3,18).
Talvez, quando a tela iluminar novamente o rosto pela manhã, possamos lembrar que antes da conexão existe vocação. Somos chamados a ser sal e luz (Mateus 5,13-16). O sal preserva da corrupção. A luz revela o que estava oculto. Isso vale também para o ambiente digital. Não para alimentar vaidades, mas para iluminar consciências. Não para acumular seguidores, mas para construir comunhão (Hebreus 10,24-25).
A verdadeira inovação não nasce de códigos sofisticados. Nasce de um coração renovado (Ezequiel 36,26). Um coração convertido ao amor e comprometido com a justiça atravessa qualquer fronteira, inclusive a digital. Porque, no fim, não é o algoritmo que transforma o mundo.
É o Evangelho vivido.
E a pergunta permanece aberta, silenciosa e urgente: que tipo de presença você escolhe ser quando ninguém está olhando, mas todos estão conectados?
DNonato


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