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quinta-feira, 12 de março de 2026

Um breve olhar sobre Lucas 11,14‑23

O Evangelho de Lucas 11,14‑23 é proclamado na liturgia da Igreja Católica Romana como leitura do Evangelho na Quinta‑feira da Terceira Semana da Quaresma, marcando um tempo litúrgico em que somos convidados a discernir as forças que se opõem à vida e à dignidade humana e a reconhecer o poder libertador de Deus. A Igreja quando proclama essa passagem   proporciona aos fiéis uma oportunidade de meditar sobre a presença do Reino de Deus em meio às trevas e às estruturas de dominação. Nas tradições litúrgicas de outras Igrejas históricas, como Anglicana e Luterana, esta narrativa também é inserida em ciclos de preparação à Páscoa ou em leituras sobre a autoridade e o ministério libertador de Jesus, ressaltando a unidade do testemunho sinótico e a centralidade do Evangelho em confrontar o mal.

Ao contemplarmos a passagem, encontramos Jesus realizando um gesto de profunda libertação. Um homem, possuído por um demônio que o tornava mudo, é trazido a Ele, e Jesus, pelo poder de Deus, devolve-lhe a voz, restaurando sua participação plena na vida comunitária. Este gesto ecoa o poder libertador de Deus manifestado desde o Antigo Testamento, como na libertação de Israel do Egito, onde o Senhor liberta seu povo e restabelece sua identidade e dignidade (Êxodo 3,7‑8; Êxodo 14,21‑22). A incapacidade de falar simboliza não apenas uma limitação física, mas a exclusão, a marginalização e a impossibilidade de comunicar-se plenamente com Deus e com a comunidade, lembrando o chamado do profeta Isaías: “Abrirei a boca em parábolas, proclamarei o que estava oculto desde a criação” (Is 42,7; cf. Is 61,1‑2). A ação de Jesus, portanto, é restauradora, libertadora e inclusiva.

No entanto, a narrativa também mostra a incompreensão humana. Alguns acusam Jesus de expulsar demônios pelo poder de Belzebu, príncipe dos demônios. Esta reação nos alerta para a cegueira espiritual e a dificuldade humana de reconhecer a ação de Deus quando ela desafia nossas categorias de poder ou nossas expectativas. O mesmo alerta encontramos nos profetas do Antigo Testamento: Jeremias denuncia a obstinação do povo que recusa ouvir a voz de Deus e mantém práticas que destroem a vida (Jr 7,23‑25), e Isaías denuncia a idolatria e a injustiça (Is 1,16‑17). A incompreensão de Jesus é um convite à vigilância espiritual e à humildade diante da obra de Deus que liberta e não se submete às lógicas humanas.

A resposta de Jesus à acusação é profundamente teológica. Ele afirma que “um reino dividido contra si mesmo não pode subsistir” (Lc 11,17), mostrando a impossibilidade de atribuir ao mal aquilo que é obra do bem divino. A expressão “pelo dedo de Deus” remete ao poder libertador de Deus no Êxodo e ecoa o agir divino que rompe o mal e salva seu povo (Êxodo 8,19; Salmo 8,4). O milagre não é apenas um ato isolado, mas a manifestação do Reino de Deus que chegou e confronta as forças que escravizam. Jesus continua o discurso com a figura do homem forte e armado que guarda sua casa, símbolo das estruturas de poder que se fecham contra a justiça, riqueza e exclusão. Quando Ele afirma que “aquele que é mais forte vem e o vence” (Lc 11,22), revela que o Reino de Deus desarma toda força opressora, restaurando dignidade, vida e liberdade. Esta linguagem ressoa com a promessa de Deus de restaurar justiça e quebrar a opressão, como profetizou Jeremias (Jr 23,5‑6), Isaías (Is 9,6‑7) e Amós (Am 5,24).

Ao compararmos com Marcos 3,22‑27 e Mateus 12,22‑30, percebemos nuances importantes.

  • Marcos enfatiza a autoridade messiânica de Jesus.
  • Mateus amplia a discussão sobre a blasfêmia contra o Espírito Santo. 
  • Lucas destaca a ação libertadora de Jesus, especialmente voltada aos marginalizados, refletindo sua preocupação pastoral com os excluídos. 

Este contraste nos ajuda a compreender que a narrativa não é apenas histórica, mas teológica, espiritual e social, mostrando que a presença do Reino de Deus implica transformação integral da pessoa e da comunidade. O Império Romano impunha tributos, controle e violência, enquanto elites judaicas frequentemente se alinhavam ao poder para manter privilégios, em detrimento dos pobres. O silêncio imposto pelo demônio remete simbolicamente à marginalização e à exclusão social. Jesus liberta, denuncia e convoca à conversão, lembrando o que o profeta Sofonias proclamou: “Buscai o Senhor, todos os humildes da terra” (Sf 2,3). Esta libertação não é abstrata; envolve o corpo, a mente, a consciência e a participação comunitária, ressoando com a obra profética de Deus ao longo da história de Israel.

 O demônio que torna o homem  mudo  simboliza as forças internas que nos impedem de viver plenamente: medo, culpa, ressentimento, desejo de poder e dominação. Jesus, ao expulsar o demônio, nos convida à vigilância interior, à transformação pessoal e à liberdade de viver segundo a verdade de Deus, em consonância com Paulo: “Não se conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente” (Rm 12,2) e “onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade” (2Cor 3,17).

Não podemos  esquecer  a dimensão comunitária da libertação. O homem que recupera a voz é reintegrado à vida social e religiosa, lembrando o que Paulo ensina: “Procurai o que contribui para a paz e para a edificação mútua” (Rm 14,19). A liberdade operada por Jesus é inseparável da justiça, da solidariedade e da promoção da dignidade humana, e exige que cada cristão participe da obra libertadora em seu contexto.

Documentos da Igreja iluminam essa interpretação. Gaudium et Spes afirma que a Igreja não pode separar evangelização e promoção humana integral, e a CNBB reforça que a fé exige ação em favor dos pobres, da justiça e da paz (Documento 100). O CELAM, nos documentos de Puebla e Aparecida, exorta a Igreja da América Latina a ser sinal de reconciliação, a denunciar estruturas de opressão e a promover a dignidade humana, reforçando que a libertação de Lucas 11 não é simbólica, mas integral e comunitária.

O desafio contemporâneo é evidente. Muitas formas de religião são instrumentalizadas para fins político‑partidários, ideologias autoritárias, manipulação da fé, teologia da prosperidade e clericalismo. Lucas 11,14‑23 nos chama à fidelidade profética ao Evangelho, denunciando injustiças, restaurando vozes silenciadas e promovendo a vida em sua totalidade. A passagem desafia a sociedade a escolher entre o poder que oprime e o poder que liberta, lembrando o ensinamento de Jesus: “Quem não está comigo está contra mim, e quem não recolhe comigo, espalha” (Lc 11,23), uma advertência que convoca à coerência e ao compromisso ético.

A leitura integrada com outros textos bíblicos reforça a coerência teológica: a libertação do homem mudo se conecta com: 

  1.  a promessa de Isaías 61,1‑2, 
  2.  a vitória sobre o mal de Salmo 18,15‑17, 
  3.  a libertação dos cativos de Lucas 4,18‑19, 
  4.  a vitória da luz sobre as trevas em João 1,4‑5, 
  5.  a afirmação paulina de que Cristo nos liberta para vivermos em liberdade e serviço aos outros (Gál 5,1). 

Estes textos criam uma teia de significados que sublinha a radicalidade do Reino de Deus, a profecia do Evangelho e a urgência da conversão pessoal e social.

Assim, a narrativa de Lucas 11,14‑23 permanece viva e desafiadora. Ela nos convida a discernir o Reino de Deus, a combater as forças que nos aprisionam, a restaurar dignidade e a trabalhar pela justiça e paz na sociedade. Cada ação de Jesus é profética, libertadora e inclusiva, e nos lembra que a fé exige coragem, coerência e compromisso ético. Que possamos ouvir a voz do Evangelho, recuperar nossa própria voz e ser instrumentos da presença libertadora de Deus em nosso tempo, restaurando vidas, denunciando injustiças e proclamando o amor que transforma, cura e redime.



DNonato - Teólogo do cotidiano  em processo de libertação 



quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Um breve olhar sobre Marcos 7,31-37

 
A perícope de Marcos 7,31-37, proclamada na 6ª-feira da 5ª semana do Tempo Comum do Ano Ímpar e no 23º Domingo do Tempo Comum do Ano B, não pode ser reduzida a um simples episódio de cura entre tantos outros. Trata-se de um momento-chave na pedagogia do Evangelho segundo Marcos, em que a identidade de Jesus e o alcance de sua missão se tornam cada vez mais claros. Após a forte controvérsia sobre a pureza ritual (Mc 7,1-23), na qual Jesus desloca o centro da santidade das práticas exteriores para a interioridade do coração  antecipando o que já denunciavam os profetas (cf. Is 29,13) —, e depois do encontro com a mulher siro-fen9ícia (Mc 7,24-30), onde a fé de uma estrangeira desmonta fronteiras étnicas e religiosas, o Senhor se dirige à região da Decápole. Esse itinerário não é mero dado geográfico: é gesto teológico, é anúncio encarnado.

A Decápole era um conjunto de cidades de forte influência helenista, majoritariamente gentílicas, marcadas por cultura greco-romana. Ao atravessar esse território, Jesus rompe simbolicamente os muros que separavam judeus e pagãos. O Messias de Israel não permanece confinado a um nacionalismo religioso. Ele age fora das fronteiras cultuais, antecipando concretamente o que Isaías proclamara: “Eu te estabeleci como luz das nações” (Is 49,6).  Assim, a cura do surdo com dificuldade de falar não é apenas um ato de compaixão individual; é sinal escatológico. Em Isaías 35,5-6, a abertura dos ouvidos dos surdos e a soltura da língua dos mudos são marcas da chegada do tempo messiânico. Marcos, atento a essa tradição profética, apresenta Jesus como aquele em quem as promessas se cumprem. O “Effatá” (Mc 7,34) ecoa como palavra criadora, semelhante ao “haja” do Gênesis (Gn 1), inaugurando uma nova possibilidade de escuta e de comunicação.

Do ponto de vista antropológico e pastoral, o texto também interpela a condição humana: surdez e mudez não são apenas limitações físicas; simbolizam a incapacidade de ouvir a Palavra e de proclamá-la. Em uma sociedade saturada de discursos, mas pobre de escuta profunda, o Evangelho denuncia a surdez espiritual que nasce do fechamento do coração. A crítica implícita não é apenas dirigida aos pagãos, mas também ao religioso que cumpre ritos e permanece impermeável à conversão interior.

Portanto, essa perícope deve ser lida como revelação progressiva da identidade de Cristo e como manifestação da universalidade do Reino. Jesus atravessa fronteiras geográficas para desinstalar fronteiras interiores. Ele toca, aproxima-se, suspira, fala  e restaura a dignidade humana. A pergunta que emerge para a assembleia não é apenas sobre o que Jesus fez, mas sobre o que ainda precisa ser aberto em nós: quais ouvidos permanecem fechados? Que vozes continuam silenciadas por estruturas religiosas, sociais ou ideológicas que preferem manter o controle a permitir que a Palavra liberte? A introdução dessa reflexão, portanto, nos coloca diante de um Cristo que não se deixa aprisionar por fronteiras culturais nem por sistemas religiosos autorreferenciais. Seu gesto na Decápole anuncia que o Reino é dom oferecido a todos  e que a verdadeira pureza começa quando o coração se deixa abrir.

Esse cenário histórico ilumina a força do gesto. Ao inserir a cura nesse contexto, Marcos sugere que a salvação não está confinada a um espaço sagrado delimitado, mas atravessa territórios considerados impuros. A mesma lógica já aparecera na libertação do geraseno (Mc 5,1-20). Agora, porém, não se trata de expulsar demônios, mas de restaurar a capacidade de ouvir e falar. A comunicação, fundamento da vida social e religiosa, é reconstituída justamente onde a alteridade é mais evidente.

O homem apresentado é surdo e tinha dificuldade de falar. A condição física, no imaginário antigo, frequentemente era associada a culpa ou maldição, como revela a pergunta em João 9,2. Jesus rompe com essa leitura automática. Mais ainda: em Marcos, a surdez adquire dimensão simbólica. Pouco depois, os discípulos serão interpelados: “Tendes ouvidos e não ouvis?” (Mc 8,18). A incapacidade auditiva torna-se metáfora da incompreensão diante do mistério do Reino. Assim, a cura física antecipa a necessidade de abertura espiritual que culminará na confissão de Pedro (Mc 8,29) e que só será plenamente purificada à luz da cruz (Mc 15,39).

Essa simbologia encontra raízes profundas na tradição bíblica. A fé de Israel nasce da escuta: “Ouve, Israel” (Dt 6,4). Isaías denuncia o endurecimento dos ouvidos (Is 6,10), e o Salmo 115 descreve ídolos que têm ouvidos, mas não ouvem. A idolatria produz surdez espiritual. Quando estruturas de poder, riqueza ou ideologia ocupam o lugar de Deus, a capacidade de discernir a verdade se atrofia. Por isso Jeremias 5,21 lamenta um povo que tem olhos e não vê, ouvidos e não ouve. A cura narrada por Marcos revela, então, mais que compaixão individual: denuncia a condição humana fechada à revelação.

É nesse contexto que o gesto de Jesus ganha densidade. Ele conduz o homem à parte, longe da multidão (Mc 7,33). A ação divina não se constrói no espetáculo, mas no encontro pessoal. A pedagogia do silêncio percorre toda a Escritura: Elias reconhece o Senhor na brisa suave (1Rs 19,12), e Oseias fala do deserto como lugar de reconquista do coração (Os 2,16). Em contraste com a cultura contemporânea do ruído constante e da exposição permanente, esse detalhe revela que a escuta profunda exige recolhimento. A sociedade hiperconectada corre o risco de tornar-se espiritualmente dispersa, incapaz de atenção interior. O toque nos ouvidos e na língua, acompanhado do suspiro elevado ao céu, revela a corporeidade da salvação. O Verbo se fez carne (Jo 1,14); Deus age na materialidade da história. A saliva, também presente em João 9,6, integrava práticas terapêuticas antigas. Marcos não elimina o elemento cultural, mas o assume, indicando que a graça não destrói a realidade humana, antes a eleva. O suspiro recorda o gemido do Espírito (Rm 8,26) e o clamor do povo no Êxodo (Ex 2,23). O milagre é resposta compassiva, não demonstração de poder.

A palavra aramaica “Efatá” preserva a força do momento. Como “Talitá kum” (Mc 5,41), ela ecoa o imperativo criador de Gênesis 1. Isaías 35,5-6 já anunciara que os ouvidos dos surdos se abririam e a língua do mudo cantaria. Em Mateus 15,29-31, multidões testemunham sinais semelhantes em território gentílico, reforçando o cumprimento messiânico. O Reino se manifesta não por supremacia política, mas por restauração da dignidade humana. Aqui emerge contraste decisivo com espiritualidades que prometem prosperidade material como critério de bênção. O homem curado recebe voz e integração, não riqueza. Jesus já advertira: “Não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (Mt 6,24). A ordem de silêncio (Mc 7,36) aprofunda essa lógica. A identidade de Cristo não pode ser reduzida a taumaturgo popular. O segredo messiânico preserva o mistério que só se revela plenamente na cruz. Quando o centurião proclama a filiação divina de Jesus (Mc 15,39), compreende-se que o verdadeiro poder se manifesta na vulnerabilidade. A teologia do domínio, que instrumentaliza a fé para legitimar supremacias, é desmentida pelo Crucificado. “Quando sou fraco, então é que sou forte” (2Cor 12,10).

Esse dinamismo repercute no plano social. No mundo antigo, limitações físicas podiam gerar restrições cultuais (Lv 21,18-20). Jesus rompe a associação entre integridade corporal e dignidade espiritual. Paulo desenvolve essa intuição ao afirmar que os membros mais frágeis são indispensáveis (1Cor 12,22). Em sociedades que ainda marginalizam pessoas com deficiência ou minorias, o texto convoca à inclusão concreta. A Igreja não pode reproduzir exclusões que o Evangelho supera. A abertura dos ouvidos conduz à abertura comunitária. Em Atos 15, a Igreja nascente discerne em diálogo: “Pareceu bem ao Espírito Santo e a nós” (At 15,28). A escuta mútua torna-se critério eclesial. O sacerdócio comum proclamado em 1Pedro 2,9 impede a concentração absoluta da voz num único segmento. Quando práticas clericalistas sufocam a participação do povo, o “Efatá” torna-se chamado à conversão estrutural.

A surdez contemporânea assume novas formas. Polarizações ideológicas, consumo religioso e manipulação midiática produzem ambientes em que a verdade é fragmentada. A advertência de Hebreus 3,15 — “não endureçais o vosso coração” — mantém-se atual. Provérbios 21,13 lembra que quem fecha o ouvido ao pobre não será ouvido. O Evangelho confronta estruturas que ignoram injustiças sociais. Lucas 4,18-19 apresenta o programa messiânico centrado na libertação e na restauração. A cura do surdo-mudo participa dessa mesma dinâmica libertadora. No desfecho, a multidão exclama: “Tudo fez bem” (Mc 7,37), eco de Gênesis 1,31. A nova criação manifesta-se no território da alteridade. O itinerário começa com isolamento e culmina em comunhão. Essa progressão oferece chave hermenêutica para a atualidade: onde Cristo é acolhido, o silêncio imposto pela exclusão transforma-se em palavra de louvor. A esperança cristã, expressa em Apocalipse 21,5 — “Eis que faço novas todas as coisas” — impede que a surdez social seja considerada destino inevitável.

À luz de Marcos 7,31-37, compreendemos que não estamos diante de uma lembrança piedosa de um milagre distante, mas de um apelo que atravessa a história e alcança a Igreja de hoje. A cura do surdo e gago na região da Decápole revela que o agir de Cristo continua sendo abertura: abertura do corpo, da consciência e da comunidade. Se o gesto de Jesus cumpre as promessas messiânicas anunciadas em Isaías 35,5-6, ele também desvela nossa própria condição espiritual. “Efatá” não é apenas palavra dirigida àquele homem; é imperativo dirigido a todos nós. Abrir os ouvidos significa deixar que a Palavra viva e eficaz (Hb 4,12) atravesse nossas resistências, cure nossas distorções e confronte nossas falsas seguranças religiosas. Abrir a boca significa abandonar a cumplicidade com a mentira e testemunhar a verdade na justiça (Ef 4,25), mesmo quando isso desinstala privilégios e estruturas cristalizadas.

Num contexto em que o sagrado pode ser instrumentalizado por ideologias, nacionalismos religiosos ou projetos de poder, o Evangelho recorda que a fé não é mercadoria nem espetáculo. Ela é encontro transformador. A comunidade que acolhe o “Efatá” deixa de ser círculo fechado e torna-se espaço de integração dos marginalizados, ecoando a prática de Jesus que atravessa fronteiras culturais e religiosas. Assim, esta perícope nos conduz a um exame profundo: que surdez ainda carregamos diante do clamor dos pobres? Que mudez nos impede de denunciar injustiças e anunciar esperança? Onde o “Efatá” é acolhido, o poder se converte em serviço (cf. Mc 10,45), a religião deixa de ser aparência e torna-se vida concreta, e a comunhão vence o isolamento. Só então será possível repetir com verdade e responsabilidade a confissão admirada da multidão: “Tudo Ele fez bem.”



DNonato - Teólogo do Cotidiano


segunda-feira, 25 de agosto de 2025

Um breve olhar sobre Mateus 23,23-26


O Evangelho  da terça-feira da 21ª semana do Tempo Comum,  e a continuação  da leitura  de  Segunda-feira  da 21⁰ da Semana  do Tempo  Comum e Jesus coloca-nos diante de uma das palavras mais duras de Jesus contra os escribas e fariseus, denunciando a hipocrisia religiosa que se esconde atrás de práticas exteriores enquanto despreza o coração da Lei. O Senhor não recua diante da necessidade de apontar a contradição daqueles que defendem a minúcia dos rituais, mas negligenciam a justiça, a misericórdia e a fidelidade. O texto é atualíssimo e nos obriga a olhar para nós, nossas comunidades e a Igreja em seu todo, perguntando: em que medida também hoje continuamos a repetir as mesmas práticas que Jesus condenou? 
Jesus afirma: “Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, porque pagais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho, e deixais de lado o que há de mais importante na Lei: a justiça, a misericórdia e a fidelidade” (Mt 23,23). Aqui ressoa o eco dos profetas do Antigo Testamento. Amós, por exemplo, já denunciava o culto vazio de Israel: “Eu odeio e desprezo as vossas festas, não encontro prazer em vossas assembleias. Se me oferecerdes holocaustos, não me agradarei… antes, corra o direito como as águas, e a justiça como um rio perene” (Am 5,21-24). O profeta Miquéias também sintetiza a verdadeira religião: “O que o Senhor te pede é que pratiques a justiça, ames a misericórdia e andes humildemente com teu Deus” (Mq 6,8).

Jesus, portanto, não inova isoladamente, mas se coloca na esteira da tradição profética de Israel, que denuncia a religião de aparências e afirma a centralidade da vida em fidelidade ao Deus da justiça. O contraste entre o zelo por pagar o dízimo das ervas mínimas e o descuido com a justiça e a misericórdia mostra o quanto a religião pode se tornar caricatura de si mesma. É a tentação de absolutizar ritos e normas para encobrir a falta de conversão interior. Isaías já gritava: “Este povo me honra com os lábios, mas o seu coração está longe de mim” (Is 29,13). No versículo seguinte, Jesus utiliza uma imagem carregada de ironia: “Guias cegos, que coais um mosquito e engolis um camelo!” (Mt 23,24). É a denúncia contra os que fazem da religião um microscópio para vigiar pecados mínimos dos outros, enquanto se tornam cúmplices dos grandes pecados estruturais, sociais e políticos. Essa metáfora continua válida em nossos dias. Quantos líderes religiosos fazem escândalo por detalhes morais, mas permanecem silenciosos ou coniventes diante da corrupção, da violência contra os pobres, do racismo, da exploração da terra e da instrumentalização política da fé!

O Senhor prossegue: “Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, porque limpais o exterior do copo e do prato, mas o interior está cheio de ganância e intemperança” (Mt 23,25). Mais uma vez, Jesus desmascara o legalismo que se preocupa apenas com a aparência. Aqui podemos recordar o Salmo 51: “Criai em mim, ó Deus, um coração puro, e renovai dentro de mim um espírito firme” (Sl 51,12). O coração humano, na tradição bíblica, é o centro da pessoa; se o coração não é purificado, todos os ritos externos se tornam falsos. Essa crítica de Jesus tem implicações profundas também em nossa realidade. Hoje, vemos a proliferação de templos luxuosos, de líderes religiosos que ostentam riqueza, de liturgias transformadas em espetáculo, de uma teologia da prosperidade que promete bênçãos materiais em troca de ofertas e dízimos, enquanto a justiça e a misericórdia ficam esquecidas. É a mesma lógica denunciada por Jesus: limpar o exterior do cálice, enquanto por dentro reina a ganância. O Papa Francisco, em Evangelii Gaudium, recorda que “a adoração do antigo bezerro de ouro encontrou uma nova e cruel versão no fetichismo do dinheiro e na ditadura de uma economia sem rosto e sem objetivo verdadeiramente humano” (EG, 55).

O clericalismo, por sua vez, é uma das formas mais atuais de viver esse farisaísmo. Padres e líderes que se colocam como donos da comunidade, que exploram a fé do povo simples, que transformam o altar em palco e o Evangelho em mercadoria. São guias cegos que se ocupam com minúcias litúrgicas enquanto fecham os olhos ao sofrimento real do povo. A Constituição Gaudium et Spes denuncia que a Igreja não pode estar surda ao clamor dos pobres e às dores do mundo (GS, 1). No entanto, quantas vezes o clamor do povo é abafado por discursos moralistas e legalistas, que reforçam privilégios em vez de curar feridas! Podemos  dizer que a religião reduzida a formalismo é também mecanismo de defesa: ao exagerar nos ritos e nos detalhes, a pessoa evita confrontar-se com a própria sombra interior, com suas feridas e incoerências. É mais fácil julgar os outros do que reconhecer a própria necessidade de conversão. Aqui se aplica a palavra de Jesus: “Por que reparas no cisco que está no olho do teu irmão, e não percebes a trave que está no teu próprio olho?” (Mt 7,3).

Toda cultura e religião tende a criar ritos de purificação externa. Mas o Evangelho ultrapassa esse limite e exige a conversão do coração. Jesus não despreza os ritos, mas os coloca no lugar correto: eles devem ser expressão de uma vida transformada pela justiça e pela misericórdia, e não disfarce para ocultar a hipocrisia. Por isso, a conclusão de Jesus é lapidar: “Fariseu cego, limpa primeiro o interior do copo, para que também o exterior fique limpo” (Mt 23,26). A verdadeira pureza começa de dentro. Não se trata de desprezar os sinais externos, mas de resgatá-los como reflexo de uma vida coerente. O mesmo princípio ecoa em Tiago: “A religião pura e sem mancha diante de Deus é esta: visitar os órfãos e as viúvas em suas tribulações e guardar-se da corrupção do mundo” (Tg 1,27).

Hoje, como profetas em nosso tempo, precisamos repetir essa denúncia. Não basta lotar templos, multiplicar cultos, organizar procissões ou debates sobre normas. Se a Igreja não for sinal de justiça, se não for refúgio para os pobres, se não denunciar a idolatria do dinheiro, do poder e das armas, estará limpando apenas o exterior do cálice. Muitos líderes cristãos se levantam para condenar artistas, festas populares ou tradições culturais, mas calam diante do genocídio da juventude negra, do extermínio dos povos indígenas, da devastação da Amazônia, da exploração do trabalho precário. Isso é engolir o camelo e coar o mosquito. É tempo de resgatar a centralidade do Evangelho: justiça, misericórdia e fidelidade. Sem isso, qualquer religiosidade se torna máscara. São Romero da América nos recorda: “Uma religião de missa dominical, mas de semanas injustas, não agrada ao Senhor”. A Igreja deve ser lugar de conversão, e não palco de vaidade; deve ser voz dos sem voz, e não cúmplice dos poderosos. Portanto, com a advertência profética de Jesus: ou deixamos que Ele purifique primeiro o interior, ou continuaremos sendo guias cegos, levando outros ao abismo. Que esta Palavra proclamada na liturgia não se perca em nossas comunidades. É preciso olhar para dentro, permitir que Deus nos converta, e então, sim, viver uma religião que seja fonte de vida, justiça e misericórdia para todos.

DNonato – Teólogo do Cotidiano