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quinta-feira, 12 de março de 2026

Um breve olhar sobre Lucas 11,14‑23

O Evangelho de Lucas 11,14‑23 é proclamado na liturgia da Igreja Católica Romana como leitura do Evangelho na Quinta‑feira da Terceira Semana da Quaresma, marcando um tempo litúrgico em que somos convidados a discernir as forças que se opõem à vida e à dignidade humana e a reconhecer o poder libertador de Deus. A Igreja quando proclama essa passagem   proporciona aos fiéis uma oportunidade de meditar sobre a presença do Reino de Deus em meio às trevas e às estruturas de dominação. Nas tradições litúrgicas de outras Igrejas históricas, como Anglicana e Luterana, esta narrativa também é inserida em ciclos de preparação à Páscoa ou em leituras sobre a autoridade e o ministério libertador de Jesus, ressaltando a unidade do testemunho sinótico e a centralidade do Evangelho em confrontar o mal.

Ao contemplarmos a passagem, encontramos Jesus realizando um gesto de profunda libertação. Um homem, possuído por um demônio que o tornava mudo, é trazido a Ele, e Jesus, pelo poder de Deus, devolve-lhe a voz, restaurando sua participação plena na vida comunitária. Este gesto ecoa o poder libertador de Deus manifestado desde o Antigo Testamento, como na libertação de Israel do Egito, onde o Senhor liberta seu povo e restabelece sua identidade e dignidade (Êxodo 3,7‑8; Êxodo 14,21‑22). A incapacidade de falar simboliza não apenas uma limitação física, mas a exclusão, a marginalização e a impossibilidade de comunicar-se plenamente com Deus e com a comunidade, lembrando o chamado do profeta Isaías: “Abrirei a boca em parábolas, proclamarei o que estava oculto desde a criação” (Is 42,7; cf. Is 61,1‑2). A ação de Jesus, portanto, é restauradora, libertadora e inclusiva.

No entanto, a narrativa também mostra a incompreensão humana. Alguns acusam Jesus de expulsar demônios pelo poder de Belzebu, príncipe dos demônios. Esta reação nos alerta para a cegueira espiritual e a dificuldade humana de reconhecer a ação de Deus quando ela desafia nossas categorias de poder ou nossas expectativas. O mesmo alerta encontramos nos profetas do Antigo Testamento: Jeremias denuncia a obstinação do povo que recusa ouvir a voz de Deus e mantém práticas que destroem a vida (Jr 7,23‑25), e Isaías denuncia a idolatria e a injustiça (Is 1,16‑17). A incompreensão de Jesus é um convite à vigilância espiritual e à humildade diante da obra de Deus que liberta e não se submete às lógicas humanas.

A resposta de Jesus à acusação é profundamente teológica. Ele afirma que “um reino dividido contra si mesmo não pode subsistir” (Lc 11,17), mostrando a impossibilidade de atribuir ao mal aquilo que é obra do bem divino. A expressão “pelo dedo de Deus” remete ao poder libertador de Deus no Êxodo e ecoa o agir divino que rompe o mal e salva seu povo (Êxodo 8,19; Salmo 8,4). O milagre não é apenas um ato isolado, mas a manifestação do Reino de Deus que chegou e confronta as forças que escravizam. Jesus continua o discurso com a figura do homem forte e armado que guarda sua casa, símbolo das estruturas de poder que se fecham contra a justiça, riqueza e exclusão. Quando Ele afirma que “aquele que é mais forte vem e o vence” (Lc 11,22), revela que o Reino de Deus desarma toda força opressora, restaurando dignidade, vida e liberdade. Esta linguagem ressoa com a promessa de Deus de restaurar justiça e quebrar a opressão, como profetizou Jeremias (Jr 23,5‑6), Isaías (Is 9,6‑7) e Amós (Am 5,24).

Ao compararmos com Marcos 3,22‑27 e Mateus 12,22‑30, percebemos nuances importantes.

  • Marcos enfatiza a autoridade messiânica de Jesus.
  • Mateus amplia a discussão sobre a blasfêmia contra o Espírito Santo. 
  • Lucas destaca a ação libertadora de Jesus, especialmente voltada aos marginalizados, refletindo sua preocupação pastoral com os excluídos. 

Este contraste nos ajuda a compreender que a narrativa não é apenas histórica, mas teológica, espiritual e social, mostrando que a presença do Reino de Deus implica transformação integral da pessoa e da comunidade. O Império Romano impunha tributos, controle e violência, enquanto elites judaicas frequentemente se alinhavam ao poder para manter privilégios, em detrimento dos pobres. O silêncio imposto pelo demônio remete simbolicamente à marginalização e à exclusão social. Jesus liberta, denuncia e convoca à conversão, lembrando o que o profeta Sofonias proclamou: “Buscai o Senhor, todos os humildes da terra” (Sf 2,3). Esta libertação não é abstrata; envolve o corpo, a mente, a consciência e a participação comunitária, ressoando com a obra profética de Deus ao longo da história de Israel.

 O demônio que torna o homem  mudo  simboliza as forças internas que nos impedem de viver plenamente: medo, culpa, ressentimento, desejo de poder e dominação. Jesus, ao expulsar o demônio, nos convida à vigilância interior, à transformação pessoal e à liberdade de viver segundo a verdade de Deus, em consonância com Paulo: “Não se conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente” (Rm 12,2) e “onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade” (2Cor 3,17).

Não podemos  esquecer  a dimensão comunitária da libertação. O homem que recupera a voz é reintegrado à vida social e religiosa, lembrando o que Paulo ensina: “Procurai o que contribui para a paz e para a edificação mútua” (Rm 14,19). A liberdade operada por Jesus é inseparável da justiça, da solidariedade e da promoção da dignidade humana, e exige que cada cristão participe da obra libertadora em seu contexto.

Documentos da Igreja iluminam essa interpretação. Gaudium et Spes afirma que a Igreja não pode separar evangelização e promoção humana integral, e a CNBB reforça que a fé exige ação em favor dos pobres, da justiça e da paz (Documento 100). O CELAM, nos documentos de Puebla e Aparecida, exorta a Igreja da América Latina a ser sinal de reconciliação, a denunciar estruturas de opressão e a promover a dignidade humana, reforçando que a libertação de Lucas 11 não é simbólica, mas integral e comunitária.

O desafio contemporâneo é evidente. Muitas formas de religião são instrumentalizadas para fins político‑partidários, ideologias autoritárias, manipulação da fé, teologia da prosperidade e clericalismo. Lucas 11,14‑23 nos chama à fidelidade profética ao Evangelho, denunciando injustiças, restaurando vozes silenciadas e promovendo a vida em sua totalidade. A passagem desafia a sociedade a escolher entre o poder que oprime e o poder que liberta, lembrando o ensinamento de Jesus: “Quem não está comigo está contra mim, e quem não recolhe comigo, espalha” (Lc 11,23), uma advertência que convoca à coerência e ao compromisso ético.

A leitura integrada com outros textos bíblicos reforça a coerência teológica: a libertação do homem mudo se conecta com: 

  1.  a promessa de Isaías 61,1‑2, 
  2.  a vitória sobre o mal de Salmo 18,15‑17, 
  3.  a libertação dos cativos de Lucas 4,18‑19, 
  4.  a vitória da luz sobre as trevas em João 1,4‑5, 
  5.  a afirmação paulina de que Cristo nos liberta para vivermos em liberdade e serviço aos outros (Gál 5,1). 

Estes textos criam uma teia de significados que sublinha a radicalidade do Reino de Deus, a profecia do Evangelho e a urgência da conversão pessoal e social.

Assim, a narrativa de Lucas 11,14‑23 permanece viva e desafiadora. Ela nos convida a discernir o Reino de Deus, a combater as forças que nos aprisionam, a restaurar dignidade e a trabalhar pela justiça e paz na sociedade. Cada ação de Jesus é profética, libertadora e inclusiva, e nos lembra que a fé exige coragem, coerência e compromisso ético. Que possamos ouvir a voz do Evangelho, recuperar nossa própria voz e ser instrumentos da presença libertadora de Deus em nosso tempo, restaurando vidas, denunciando injustiças e proclamando o amor que transforma, cura e redime.



DNonato - Teólogo do cotidiano  em processo de libertação 



quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

MENSAGEM DO SANTO PADRE LEÃO XIV PARA O LIX DIA MUNDIAL DA PAZ - 1 DE JANEIRO DE 2026


A paz esteja com todos vós. Rumo a uma paz desarmada e desarmante, é o titulo da mensagem do Santo Padre  em 2026 que  reafirma que a paz cristã não é utopia nem discurso abstrato, mas a presença viva do Cristo ressuscitado no mundo. Ao propor uma paz desarmada e desarmante, o Papa denuncia a lógica do medo, do rearmamento e da guerra permanente, recordando que a verdadeira segurança nasce do desarmamento do coração, da confiança e do diálogo. O texto une espiritualidade e responsabilidade política, critica a instrumentalização da fé e convoca pessoas, comunidades e nações a escolherem a paz como caminho concreto, ético e possível para a humanidade de hoje.

DNonato

A paz esteja com todos vós. Rumo a uma paz desarmada e desarmante

“A paz esteja contigo!”.

Esta antiga saudação, presente ainda hoje em muitas culturas, ganhou novo vigor nos lábios de Jesus ressuscitado na noite de Páscoa. «A paz esteja convosco!» ( Jo 20, 19.21) é a sua Palavra que não só deseja, mas realiza uma mudança definitiva naqueles que a acolhem e, consequentemente, em toda a realidade. Por isso, os sucessores dos Apóstolos exprimem todos os dias e em todo o mundo a revolução mais silenciosa: “A paz esteja convosco!”. Desde a noite da minha eleição como Bispo de Roma, quis inserir a minha saudação neste anúncio coral. E desejo reiterá-lo: esta é a paz do Cristo ressuscitado, uma paz desarmada e desarmante, humilde e perseverante. Ela provém de Deus, o Deus que nos ama a todos incondicionalmente. [1]

A paz de Cristo ressuscitado

Quem venceu a morte e derrubou as barreiras que separavam os seres humanos (cf. Ef 2, 14) foi o Bom Pastor que dá a vida pelo rebanho e tem muitas ovelhas que estão fora do seu redil (cf. Jo 10, 11.16): Cristo, nossa paz. A sua presença, o seu dom e a sua vitória reverberam na perseverança de muitas testemunhas, por meio das quais a obra de Deus continua no mundo, tornando-se ainda mais perceptível e luminosa na escuridão dos tempos.

Na verdade, o contraste entre as trevas e a luz não é apenas uma imagem bíblica para descrever o sofrimento do qual está a nascer um mundo novo: é uma experiência que nos atravessa e nos surpreende diante das provações que encontramos nas circunstâncias históricas em que vivemos. Ora, para não afundarmos na escuridão, é necessário ver a luz e acreditar nela. Trata-se de uma exigência que os discípulos de Jesus são chamados a viver de maneira única e privilegiada, mas que, de muitas maneiras, sabe abrir caminho no coração de cada ser humano. A paz existe, deseja habitar-nos, tem o poder suave de iluminar e alargar a inteligência, resiste à violência e a vence. A paz tem o sopro da eternidade: enquanto ao mal se ordena “basta!”, à paz se suplica “para sempre”. O Ressuscitado introduziu-nos neste horizonte. É neste sentir que vivem os promotores da paz que, no drama daquilo que o Papa Francisco definiu como “terceira guerra mundial em pedaços”, ainda resistem à contaminação das trevas, como sentinelas na noite.

Infelizmente, o contrário é possível, ou seja, esquecer a luz: assim, perde-se o realismo e se cede a uma representação parcial e distorcida do mundo, sob o sinal das trevas e do medo. Atualmente, não são poucos aqueles que chamam de realistas as narrativas privas de esperança, cegas à beleza dos outros e esquecidas da graça de Deus que sempre age nos corações humanos, por mais feridos que estejam pelo pecado. Santo Agostinho exortava os cristãos a estabelecerem uma amizade indissolúvel com a paz, para que, guardando-a no íntimo do próprio espírito, pudessem irradiar o calor luminoso ao seu redor. Dirigindo-se à sua comunidade, ele escreveu: «Se quereis atrair os outros para a paz, tende-a vós primeiro; sede vós, antes de tudo, firmes na paz. Para inflamar os outros, deveis ter dentro de vós a luz acesa». [2]

Queridos irmãos e irmãs, quer tenhamos o dom da fé, quer pareça que não o temos, abramo-nos à paz! Acolhamo-la e reconheçamo-la, em vez de a considerarmos distante e impossível. Antes de ser um objetivo, a paz é uma presença e um caminho. Mesmo que seja contestada dentro e fora de nós, como uma pequena chama ameaçada pela tempestade, guardemo-la sem esquecer os nomes e as histórias daqueles que a testemunharam. É um princípio que orienta e determina as nossas escolhas. Também nos lugares onde só restam escombros e onde o desespero parece inevitável, ainda hoje encontramos quem não esqueceu a paz. Do mesmo modo que, na noite de Páscoa, Jesus entrou no lugar onde se encontravam os discípulos assustados e desanimados, assim a paz de Cristo ressuscitado continua a atravessar portas e barreiras com as vozes e os rostos das suas testemunhas. É o dom que permite não esquecer o bem, reconhecê-lo como vencedor, escolhê-lo novamente e juntos.

Uma paz desarmada

Pouco antes de ser capturado, num momento de intensa confidência, Jesus disse aos que estavam com Ele: «Deixo-vos a paz; dou-vos a minha paz. Não é como a dá o mundo, que Eu vo-la dou». E imediatamente acrescentou: «Não se perturbe o vosso coração nem se acobarde» (Jo 14, 27). A perturbação e o medo podiam, certamente, referir-se à violência que em breve se abateria sobre Ele. De modo ainda mais profundo, os Evangelhos não escondem que o que desconcertou os discípulos foi a sua resposta não violenta: um caminho que todos, Pedro em primeiro lugar, contestaram, mas que o Mestre pediu que seguissem até ao fim. O caminho de Jesus continua a ser motivo de perturbação e medo. E Ele repete com firmeza àqueles que gostariam de defendê-lo: «Mete a espada na bainha» (Jo 18, 11; cf. Mt 26, 52). A paz de Jesus ressuscitado é desarmada, porque desarmada foi a sua luta, dentro de precisas circunstâncias históricas, políticas e sociais. Os cristãos devem tornar-se, juntos, testemunhas proféticas desta novidade, conscientes das tragédias das quais muitas vezes foram cúmplices. A grande parábola do juízo universal convida todos os cristãos a, conscientemente, agir com misericórdia (cf. Mt 25, 31-46). E, ao fazê-lo, encontrarão ao seu lado irmãos e irmãs que, por caminhos diferentes, souberam ouvir a dor dos outros e se libertaram interiormente do engano da violência.

Embora hoje não sejam poucas as pessoas com o coração pronto para a paz, um grande sentimento de impotência as invade diante do curso cada vez mais incerto dos acontecimentos. Já Santo Agostinho, com efeito, assinalava um paradoxo particular: «Não é difícil possuir a paz. É mais difícil, quando muito, louvá-la. Se quisermos louvá-la, precisamos de ter capacidades que talvez nos faltem; devemos procurar as ideias certas, ponderar as frases. Se, em vez disso, quisermos tê-la, ela está lá, ao nosso alcance, e podemos possuí-la sem qualquer esforço». [3]

Quando tratamos a paz como um ideal distante, acabamos por não considerar escandaloso que ela possa ser negada e que até mesmo se faça guerra para alcançá-la. Parecem faltar as ideias certas, as frases ponderadas, a capacidade de dizer que a paz está ao nosso alcance. Se a paz não for uma realidade experimentada, guardada e cultivada, a agressividade espalha-se, tanto na vida doméstica, quanto na vida pública. Na relação entre cidadãos e governantes, chega-se a considerar uma culpa o não estar suficientemente preparado para a guerra, para reagir aos ataques e para responder à violência. No plano político, essa lógica de oposição, muito além do princípio da legítima defesa, é o dado mais atual numa desestabilização planetária que a cada dia se torna mais dramática e imprevisível. Não por acaso, os repetidos apelos para aumentar as despesas militares – e as escolhas que disso decorrem – são apresentados por muitos governantes com a justificativa da periculosidade alheia. Na verdade, a força dissuasiva do poder e, em particular, a dissuasão nuclear, encarnam a irracionalidade de uma relação entre os povos baseada não no direito, na justiça e na confiança, mas no medo e no domínio da força. Como já escrevia São João XXIII na sua época: «O resultado é que os povos vivem em terror permanente, como sob a ameaça de uma tempestade que pode rebentar a cada momento em avassaladora destruição. Já que as armas existem e, se parece difícil que haja pessoas capazes de assumir a responsabilidade das mortes e incomensuráveis destruições que a guerra provocaria, não é impossível que um fato imprevisível e incontrolável possa inesperadamente atear esse incêndio». [4]

Pois bem, ao longo de 2024, as despesas militares a nível mundial aumentaram 9,4% em relação ao ano anterior, confirmando a tendência ininterrupta dos últimos dez anos e atingindo o valor de 2,72 biliões de dólares, ou seja, 2,5% do PIB mundial. [5] Mais ainda, parece que os novos desafios devem ser enfrentados atualmente não só com um enorme esforço económico para o rearmamento, mas também com um realinhamento das políticas educativas: em vez de uma cultura da memória, que preserve a consciência adquirida no século XX e não esqueça os milhões de vítimas, promovem-se campanhas de comunicação e programas educativos em escolas e universidades, bem como nos meios de comunicação social, que difundem a percepção de que se vive continuamente sob ameaça e transmitem uma noção de defesa e segurança meramente armada.

Todavia, «quem ama verdadeiramente a paz ama também os inimigos da paz». [6] Assim, Santo Agostinho recomendava não destruir pontes e não insistir com repreensões, preferindo a via da escuta e, na medida do possível, do encontro com as razões dos outros. Sessenta anos atrás, o Concílio Vaticano II chegava à sua conclusão com a consciência da urgência de um diálogo entre a Igreja e o mundo contemporâneo. Em particular, a Constituição Gaudium et spes chamava a atenção para a evolução da prática bélica: «O perigo peculiar da guerra hodierna está em que ela fornece, por assim dizer, a oportunidade de cometer tais crimes àqueles que estão de posse das modernas armas científicas; e, por uma consequência quase fatal, pode impelir as vontades dos homens às mais atrozes decisões. Para que tal nunca venha a suceder, os Bispos de todo o mundo, reunidos, imploram a todos, sobretudo aos governantes e chefes militares, que ponderem sem cessar a sua tão grande responsabilidade perante Deus e a humanidade». [7]

Ao reiterar o apelo dos Padres conciliares e considerando o diálogo como a via mais eficaz em todos os níveis, constatamos que os recentes avanços tecnológicos e a aplicação das inteligências artificiais no âmbito militar radicalizaram a tragédia dos conflitos armados. Está-se a delinear até mesmo um processo de desresponsabilização dos líderes políticos e militares devido ao crescente “delegar” às máquinas as decisões relativas à vida e à morte das pessoas. É uma espiral de destruição sem precedentes, que compromete o humanismo jurídico e filosófico do qual qualquer civilização depende e pelo qual é protegida. É preciso denunciar as enormes concentrações de interesses económicos e financeiros privados que estão a empurrar os Estados nessa direção; mas isso não é suficiente, se ao mesmo tempo não for promovido o despertar das consciências e do pensamento crítico. A Encíclica Fratelli tutti apresenta São Francisco de Assis como exemplo desse despertar: «Naquele mundo cheio de torreões de vigia e muralhas defensivas, as cidades viviam guerras sangrentas entre famílias poderosas, ao mesmo tempo que cresciam as áreas miseráveis das periferias excluídas. Lá, Francisco recebeu no seu íntimo a verdadeira paz, libertou-se de todo o desejo de domínio sobre os outros, fez-se um dos últimos e procurou viver em harmonia com todos». [8] É uma história que quer continuar em nós e que exige unir esforços para contribuir mutuamente para uma paz desarmante, uma paz que nasce da abertura e da humildade evangélica.

Uma paz desarmante

A bondade é desarmante. Talvez por isso Deus se tenha feito criança. O mistério da Encarnação, que tem o seu ponto mais extremo de esvaziamento na descida aos infernos, começa no ventre de uma jovem mãe e manifesta-se na manjedoura de Belém. «Paz na terra», cantam os anjos, anunciando a presença de um Deus indefeso, pelo qual a humanidade só pode descobrir-se amada cuidando d’Ele (cf. Lc 2, 13-14). Nada tem a capacidade de mudar-nos mais do que um filho. E talvez seja justamente o pensamento nos nossos filhos, nas crianças e também naqueles que são frágeis como elas, que nos traspassa o coração (cf. Act 2, 37). A este respeito, o meu venerado Predecessor escrevia que «a fragilidade humana tem o poder de tornar-nos mais lúcidos em relação ao que dura e ao que passa, ao que faz viver e ao que mata. Talvez por isso tendamos tão frequentemente a negar os limites e a fugir das pessoas frágeis e feridas: elas têm o poder de questionar a direção que escolhemos, como indivíduos e como comunidade». [9]

São João XXIII foi o primeiro a introduzir a perspectiva de um desarmamento integral, alcançado somente através da renovação do coração e da inteligência. Assim escreveu ele na Carta encíclica Pacem in terris: «Todos devem estar convencidos de que nem a renúncia à competição militar, nem a redução dos armamentos, nem a sua completa eliminação, que seria o principal, de modo nenhum se pode levar a efeito tudo isto, se não se proceder a um desarmamento integral, que atinja o próprio espírito, isto é, se não trabalharem todos em concórdia e sinceridade, para afastar o medo e a psicose de uma possível guerra. Mas isto requer que, em vez do critério de equilíbrio em armamentos que hoje mantém a paz, se abrace o princípio segundo o qual a verdadeira paz entre os povos não se baseia em tal equilíbrio, mas sim e exclusivamente na confiança mútua. Nós pensamos que se trata de objetivo possível, por tratar-se de causa que não só se impõe pelos princípios da reta razão, mas que é sumamente desejável e fecunda de preciosos resultados». [10]

Este é um serviço fundamental que as religiões devem prestar à humanidade sofredora, vigiando sobre a crescente tentativa de transformar em armas até mesmo pensamentos e palavras. As grandes tradições espirituais, assim como o reto uso da razão, fazem-nos ir além dos laços de sangue e étnicos, ou daquelas fraternidades que reconhecem apenas quem é semelhante e rejeitam quem é diferente. Hoje vemos como isso não é óbvio. Infelizmente, faz parte do panorama contemporâneo, cada vez mais, arrastar as palavras da fé para o embate político, abençoar o nacionalismo e justificar religiosamente a violência e a luta armada. Os fiéis devem refutar ativamente, antes de tudo com a sua vida, estas formas de blasfémia que obscurecem o Santo Nome de Deus. Por isso, juntamente com a ação, é mais do que nunca necessário cultivar a oração, a espiritualidade, o diálogo ecuménico e inter-religioso como caminhos de paz e linguagens de encontro entre tradições e culturas. Em todo o mundo, é desejável que «cada comunidade se torne uma “casa de paz”, onde se aprende a neutralizar a hostilidade através do diálogo, onde se pratica a justiça e se conserva o perdão». [11] Hoje, mais do que nunca, é preciso mostrar que a paz não é uma utopia, através de uma criatividade pastoral atenta e generativa.

Por outro lado, isso não deve desviar a atenção de todos da importância da dimensão política. Aqueles que são chamados a assumir responsabilidades públicas, nos mais altos e qualificados cargos, investiguem «a fundo qual a melhor maneira de se chegar à maior harmonia das comunidades políticas no plano mundial; harmonia, repetimos, que se baseia na confiança mútua, na sinceridade dos tratados e na fidelidade aos compromissos assumidos. Examinem de tal maneira todos os aspectos do problema para encontrarem no nó da questão, a partir do qual possam abrir caminho a um entendimento leal, duradouro e fecundo». [12] É o caminho desarmante da diplomacia, da mediação, do direito internacional, infelizmente contrariado por violações cada vez mais frequentes de acordos alcançados com grande esforço, num contexto que exigiria não a deslegitimação, mas sim o fortalecimento das instituições supranacionais.

Hoje, a justiça e a dignidade humana estão, mais do que nunca, expostas aos desequilíbrios de poder entre os mais fortes. Então, como viver num tempo de desestabilização e conflitos, libertando-se do mal? É necessário motivar e apoiar todas as iniciativas espirituais, culturais e políticas que mantenham viva a esperança, combatendo a difusão de «atitudes fatalistas a respeito da globalização, como se as dinâmicas em ato fossem produzidas por forças impessoais anónimas e por estruturas independentes da vontade humana». [13] Se, efetivamente, «a melhor maneira de dominar e avançar sem entraves é semear o desânimo e despertar uma desconfiança constante, mesmo disfarçada por detrás da defesa de alguns valores», [14] deve se contrapor a tal estratégia o desenvolvimento de sociedades civis conscientes, de formas de associativismo responsável, de experiências de participação não violenta, de práticas de justiça restaurativa em pequena e grande escala. Leão XIII já o salientava claramente na Encíclica Rerum novarum: «A experiência que o homem adquire todos os dias da exiguidade das suas forças, obriga-o e impele-o a agregar-se a uma cooperação estranha. É nas Sagradas Letras que se lê esta máxima: “Mais valem dois juntos que um só, pois tiram vantagem da sua associação. Se um cai, o outro sustenta-o. Desgraçado do homem só, pois; quando cair, não terá ninguém que o levante” ( Ecl 4, 9-10). E esta outra: “O irmão que é ajudado por seu irmão, é como uma cidade forte”» ( Pr 18, 19). [15]

Que isso seja um fruto do Jubileu da Esperança, que levou milhões de seres humanos a redescobrirem-se peregrinos e a iniciarem em si mesmos aquele desarmamento do coração, da mente e da vida, ao qual Deus não tardará em responder, cumprindo as suas promessas: «Ele julgará as nações, e dará as suas leis a muitos povos, os quais transformarão as suas espadas em relhas de arados, e as suas lanças, em foices. Uma nação não levantará a espada contra outra, e não se adestrarão mais para a guerra. Vinde, Casa de Jacob! Caminhemos à luz do Senhor» (Is 2, 4-5).

Vaticano, 8 de dezembro de 2025

LEÃO PP. XIV

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[1] Cf. Bênção “Urbi et Orbi”, Loggia central da Basílica de São Pedro (8 de maio de 2025).

[2] Agostinho de Hipona, Sermo 357, 3.

[3] Ibid., 1.

[4] João XXIII, Carta enc. Pacem in terris (11 de abril de 1963), 111.

[5] Cf. SIPRI Yearbook: Armaments, Disarmament and International Security (2025).

[6] Agostinho de Hipona, Sermo 357, 1.

[7] Conc. Ecum. Vat. II, Cost. past. Gaudium et spes, 80.

[8] Francisco, Carta enc. Fratelli tutti (3 de outubro de 2020), 4.

[9] Id., Carta ao Diretor do jornal italiano “Corriere della Sera” (14 de março de 2025).

[10] João XXIII, Carta enc. Pacem in terris (11 de abril de 1963), 113.

[11] Discurso aos Bispos da Conferência Episcopal Italiana (17 de junho de 2025).

[12] João XXIII, Carta enc. Pacem in terris (11 de abril de 1963), 118.

[13] Bento XVI, Carta enc. Caritas in veritate (29 de junho de 2009), 42.

[14] Francisco, Carta enc. Fratelli tutti (3 de outubro de 2020), 15.

[15] Leão XIII, Carta enc. Rerum novarum (15 de maio de 1891), 37.