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quarta-feira, 11 de março de 2026

Um breve olhar sobre Mateus 5,17-19

 
Na liturgia da Igreja, o trecho de Mateus 5,17-19 aparece em momentos particularmente significativos da vida espiritual da comunidade cristã. Um deles ocorre na Quarta-feira da terceira semana da Quaresma, quando a Igreja, já avançada no caminho penitencial rumo à Páscoa, convida os fiéis a refletirem sobre a fidelidade à vontade de Deus e sobre o sentido profundo da Lei divina. O outro momento ocorre no 6º Domingo do Tempo Comum do Ano A, quando a liturgia proclama Mateus 5,17-37 ou, na forma breve, Mateus 5,17-20. Nesse contexto dominical, o texto funciona como porta de entrada para as antíteses do Sermão da Montanha, nas quais Jesus aprofunda o sentido dos mandamentos. Também nas tradições das Igrejas históricas, como as Igrejas Ortodoxas, Anglicanas e Luteranas, essa passagem aparece no contexto da leitura contínua do Evangelho de Mateus e nas catequeses sobre a ética do Reino de Deus. Assim, trata-se de uma palavra que atravessa a tradição cristã e permanece viva na memória litúrgica da Igreja.

O evangelista Mateus coloca essa afirmação de Jesus dentro do grande discurso conhecido como Sermão da Montanha, narrado nos capítulos 5 a 7. O cenário da narrativa não é casual. Jesus sobe à montanha, senta-se e começa a ensinar. No mundo bíblico, a montanha é lugar de revelação, espaço onde Deus se manifesta e onde a história humana encontra uma abertura para o mistério divino. Foi numa montanha que:  

  •  Moisés encontrou Deus e recebeu a Lei da aliança (Ex 19,3; Ex 24,12).
  • Elias experimentou a presença divina no murmúrio suave do vento (1Rs 19,11-13).
 A montanha torna-se, assim, símbolo da proximidade entre céu e terra, lugar onde a Palavra de Deus se revela e orienta a vida do povo. Ao colocar Jesus ensinando sobre uma montanha, Mateus sugere que estamos diante de um novo momento da revelação, não como ruptura com o passado, mas como sua plenitude. Essa imagem será retomada mais tarde quando o próprio Jesus sobe outra montanha para revelar sua glória na transfiguração diante de Pedro, Tiago e João (Mt 17,1-5). A montanha aparece novamente no final do Evangelho, quando o Ressuscitado envia seus discípulos em missão universal (Mt 28,16-20). A geografia do Evangelho, portanto, torna-se uma narrativa teológica. Em cada montanha encontramos um momento decisivo da revelação.

A comunidade para a qual Mateus escreve vive provavelmente nas últimas décadas do primeiro século, em um ambiente profundamente marcado pelas tensões entre cristãos de origem judaica e o judaísmo rabínico que se reorganizava após a destruição de Jerusalém no ano 70. Nesse contexto, surgia uma questão central: qual era a relação entre Jesus e a Lei de Moisés? Alguns poderiam pensar que seguir Jesus significava abandonar a tradição de Israel. Outros poderiam imaginar que a observância da Lei bastava sem necessidade de acolher a novidade do Evangelho. É nesse cenário que Jesus declara com clareza: “Não penseis que vim abolir a Lei ou os Profetas. Não vim abolir, mas dar pleno cumprimento” (Mt 5,17). A expressão “Lei e Profetas” era uma maneira tradicional de designar toda a Escritura de Israel. Jesus afirma, portanto, que sua missão não destrói a revelação anterior. Ao contrário, ele a leva à sua plenitude. O verbo grego utilizado por Mateus, plēroō, significa completar, preencher, levar ao sentido pleno aquilo que estava em processo. A história da salvação não é um conjunto de fragmentos desconectados. Ela é uma caminhada na qual Deus conduz seu povo gradualmente para uma compreensão mais profunda de sua vontade.

Para compreender a força dessa afirmação é necessário recordar o papel da Lei na vida do povo de Israel. A Torá não era vista como um peso, mas como dom de Deus. O livro do Deuteronômio recorda que os mandamentos foram dados para que o povo tivesse vida e prosperasse (Dt 30,15-16). O salmista proclama que a Lei do Senhor é perfeita e revigora a alma (Sl 19,8). O Salmo 119 celebra a Palavra divina como lâmpada que ilumina o caminho humano (Sl 119,105). A Lei expressava a aliança entre Deus e seu povo, indicando o caminho da justiça, da solidariedade e da fidelidade. Entretanto, ao longo da história, a observância da Lei podia ser reduzida a um formalismo religioso que esquecia a justiça. Por isso os profetas levantaram sua voz contra o culto vazio. Isaías denuncia aqueles que multiplicam sacrifícios enquanto ignoram o sofrimento dos pobres (Is 1,13-17). Amós proclama que Deus rejeita festas religiosas quando o direito é pisoteado e a justiça é vendida por dinheiro (Am 5,21-24). Miquéias pergunta o que o Senhor exige do ser humano e responde de maneira simples e profunda: praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com Deus (Mq 6,8). Oseias afirma que Deus quer misericórdia e não sacrifícios (Os 6,6), palavra que Jesus retomará explicitamente em seu ministério (Mt 9,13; Mt 12,7).

Jesus se insere nessa tradição profética e a leva ao seu ponto culminante. Ele afirma que nem um iota, nem um pequeno traço da Lei passará até que tudo se cumpra (Mt 5,18). O iota representa a menor letra do alfabeto grego, equivalente ao yod hebraico. O traço refere-se às pequenas marcas gráficas que distinguem letras semelhantes. A imagem revela a seriedade da revelação divina. Nada da vontade de Deus é insignificante. Contudo, Jesus também mostra que a verdadeira fidelidade à Lei não se reduz à observância exterior. Nos versículos seguintes do Sermão da Montanha ele apresenta uma série de ensinamentos que aprofundam radicalmente o sentido dos mandamentos. Não basta evitar o homicídio; é necessário reconciliar-se com o irmão (Mt 5,21-24). Não basta evitar o adultério; é preciso purificar o olhar e a intenção (Mt 5,27-28). Não basta jurar em nome de Deus; a palavra do discípulo deve ser verdadeira por si mesma (Mt 5,33-37). Em outras palavras, Jesus desloca o centro da moralidade do exterior para o interior.

Essa transformação interior já havia sido anunciada pelos profetas. Jeremias fala de uma nova aliança na qual a Lei será escrita no coração das pessoas (Jr 31,31-33). Ezequiel anuncia que Deus dará um coração novo e colocará um espírito novo dentro do povo (Ez 36,26-27). A fidelidade à vontade divina não será mais apenas uma questão de normas externas, mas de uma vida interior renovada pela ação de Deus. Os evangelhos sinóticos convergem nessa compreensão. Em Marcos 12,29-31, Jesus resume toda a Lei no mandamento do amor a Deus e ao próximo. Em Lucas 10,25-28, um doutor da Lei reconhece que esse é o caminho da vida eterna. A parábola do bom samaritano (Lc 10,29-37) revela que a verdadeira observância da Lei se manifesta na compaixão concreta que ultrapassa barreiras religiosas e culturais.

A reflexão da Igreja primitiva aprofundou essa compreensão. O apóstolo Paulo afirma que quem ama o próximo cumpriu a Lei (Rm 13,8-10). Em outra passagem ele escreve que toda a Lei se resume neste mandamento: amarás o teu próximo como a ti mesmo (Gl 5,14). Para Paulo, Cristo é o fim da Lei no sentido de sua plenitude (Rm 10,4). A Lei não desaparece, mas encontra seu sentido último na vida nova inaugurada por Jesus. As leis possuem um papel essencial na organização da vida humana. Elas regulam relações, protegem direitos e oferecem parâmetros para a convivência. Entretanto, a história demonstra que sistemas legais podem ser manipulados para manter privilégios ou justificar injustiças. A Bíblia apresenta uma crítica permanente a essa distorção. A Lei de Deus não existe para proteger poderosos, mas para defender a vida, especialmente a vida dos mais vulneráveis.

Por isso a legislação de Israel inclui normas claras em favor do estrangeiro, do órfão e da viúva (Dt 10,18-19). O livro do Levítico ordena que o estrangeiro seja tratado como cidadão, pois o próprio povo de Israel foi estrangeiro na terra do Egito (Lv 19,33-34). A memória da libertação torna-se fundamento da ética social. Essa sensibilidade atravessa toda a Escritura. O Salmo 146 proclama que Deus faz justiça aos oprimidos e dá pão aos famintos. O cântico de Maria anuncia que Deus derruba poderosos de seus tronos e eleva os humildes (Lc 1,52-53). Jesus proclama felizes os pobres, os mansos e os que têm fome de justiça (Mt 5,3-6). No julgamento final descrito em Mateus 25,31-46, o critério decisivo será o cuidado com os pequenos, os famintos, os estrangeiros e os prisioneiros.

O Concílio Vaticano II retomou essa dimensão ao afirmar que as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias da humanidade são também as alegrias e esperanças dos discípulos de Cristo (Gaudium et Spes 1). Cristo revela plenamente o ser humano ao próprio ser humano e manifesta sua vocação mais profunda (GS 22). A fé cristã não pode ser separada do compromisso com a dignidade humana. Na América Latina, documentos pastorais como Medellín, Puebla e Aparecida aprofundaram essa visão. Eles recordam que a opção preferencial pelos pobres nasce da própria lógica do Evangelho e da prática de Jesus. A fé cristã não pode ser reduzida a uma experiência privada. Ela possui consequências sociais e históricas.

Quando a religião se distancia desse horizonte, corre o risco de ser instrumentalizada por projetos de poder. Ao longo da história, discursos religiosos foram utilizados para justificar dominação política, exclusão social e violência. Jesus denunciou com vigor essas distorções. Ele criticou líderes religiosos que colocavam fardos pesados sobre o povo enquanto buscavam prestígio e reconhecimento (Mt 23,4-7). Também denunciou aqueles que honram a Deus com os lábios enquanto o coração está distante (Mt 15,8). Em muitos contextos contemporâneos, a manipulação religiosa continua sendo um problema grave. Discursos que usam símbolos cristãos para legitimar projetos autoritários ou ideologias de exclusão contradizem profundamente o Evangelho. Jesus ensinou que quem quiser ser grande deve tornar-se servo (Mc 10,42-45) e afirmou que seu Reino não se constrói pela lógica do poder deste mundo (Jo 18,36).

Outro desafio recorrente é o clericalismo, quando a autoridade religiosa se transforma em privilégio ou dominação. Jesus advertiu seus discípulos a não buscarem títulos de poder, pois todos são irmãos (Mt 23,8-11). A verdadeira liderança cristã reflete o serviço humilde daquele que lava os pés de seus discípulos (Jo 13,12-15). A teologia da prosperidade também representa uma distorção da mensagem bíblica ao reduzir a fé a promessa de sucesso material. O Evangelho apresenta um caminho diferente. Jesus adverte contra a idolatria do dinheiro (Mt 6,24) e ensina que a vida não depende da abundância de bens (Lc 12,15). A comunidade cristã primitiva vivia a partilha de seus bens como expressão concreta da fraternidade (At 2,44-45).

A palavra de Mateus 5,17-19 continua profundamente atual diante das crises do mundo contemporâneo. Vivemos em uma sociedade marcada por desigualdades profundas, violência estrutural e busca intensa por sentido. Muitas pessoas procuram na religião respostas para suas inquietações, torna a bíblia um livro moralista e  manual de  comportamento um livro de proibição. O Evangelho oferece uma visão integrada da vida humana, mostrando que a fidelidade a Deus se manifesta em escolhas concretas que promovem justiça, solidariedade e misericórdia. A Quaresma, contexto litúrgico em que este Evangelho é proclamado, convida a uma conversão que alcança as profundezas do coração. O profeta Joel exorta o povo a rasgar o coração e não apenas as vestes (Jl 2,13), recordando que Deus não se contenta com aparências religiosas, mas deseja uma transformação verdadeira da vida. Essa conversão se manifesta em atitudes concretas de justiça, misericórdia, reconciliação e solidariedade.

Quando Jesus declara que não veio abolir a Lei, mas levá-la à sua plenitude, revela que toda a vontade de Deus converge para o amor. A Lei encontra seu sentido mais profundo quando promove a vida, restaura a dignidade humana e fortalece a comunhão entre as pessoas. Por isso, a fidelidade ao Evangelho não se reduz ao cumprimento de normas, mas se expressa no compromisso cotidiano com o Reino de Deus. Em um mundo marcado por desigualdades, violências e indiferenças, os discípulos de Cristo são chamados a ser sinais vivos da esperança. Cada gesto de compaixão, cada defesa da verdade, cada esforço pela paz e pela dignidade dos mais vulneráveis torna visível a presença de Deus na história. A Palavra de Deus permanece viva e eficaz (Hb 4,12), iluminando os caminhos da humanidade e renovando os corações. Quem a acolhe descobre que os mandamentos não são pesos que escravizam, mas caminhos de liberdade, porque conduzem ao amor que vem de Deus, transforma a vida e faz florescer, já neste mundo, os sinais do seu Reino.

 

DNonato  - Teólogo do cotidiano 

quarta-feira, 26 de novembro de 2025

Um breve olhar sobre Lucas 21,20-28.

Nesta quinta-feira da 34ª Semana do Tempo Comum, a liturgia nos conduz a Lucas 21,20-28, um trecho em que Jesus nos oferece uma leitura profunda e dolorosa  porém necessária,  sobre a queda de Jerusalém. Não se trata apenas de um fato histórico ou de um anúncio sombrio, mas de um discernimento espiritual sobre o destino das cidades humanas quando se afastam da vontade de Deus e absolutizam suas próprias seguranças. É a partir desse cenário tenso, de desolação e revelação, que somos chamados a compreender também as nossas próprias quedas, os colapsos que atravessam nossa história e a esperança que nasce justamente quando tudo parece desabar.

Precisamos saber que    Jesus começa o discurso em Lucas 21 mostrando que o Templo — orgulho religioso e nacional — ruirá (v. 5-11). Logo após a cena da oferta da viuva ( v. 1-4) Depois anuncia que os discípulos também sofrerão perseguições (v. 12-19). E, finalmente, atinge o ponto máximo:  (v.20-28) onde Jerusalém inteira entrará em colapso que se divide em duas partes (v. 20-24) e ( v. 25-28). Sendo que (v 20-24) anunciando que toda a cidade humana construída sobre poder, violência e autoengano é instável. O desmoronar do Templo, a perseguição aos cristãos e a queda de Jerusalém não são três temas diferentes, mas um único movimento: a revelação progressiva de que tudo o que não é Reino desaba. Nos versículos 25-28, Jesus eleva o olhar para além da História, mostrando que, no meio do caos das nações e do estremecer das estruturas, o Filho do Homem vem com poder e glória — não para destruir, mas para libertar. Por isso, enquanto o mundo se desespera, os discípulos erguem a cabeça: no colapso da falsa segurança nasce a verdadeira esperança.

Quando Jesus anuncia a destruição de Jerusalém, ele toca no ponto mais sensível da identidade de seu povo. A cidade santa era mais que um lugar: era memória, promessa, encontro, templo vivo da esperança. Mas o aviso de Jesus não vem como um anúncio de fatalismo ou terror apocalíptico, e sim como a denúncia de uma realidade que Israel já conhecia bem desde os profetas: quando a justiça é traída, quando a fé vira espetáculo, quando a religião se alia ao poder opressor e ao conforto dos poderosos, o templo deixa de ser casa de oração para todos os povos e se converte em pedra sem alma. A advertência de Jesus ecoa Ezequiel, ecoa Jeremias, ecoa Miqueias — todos aqueles que denunciaram a tentação de transformar a fé em garantia mágica ou escudo para legitimar injustiças. O discurso de Jesus em Lucas 21 não é, portanto, um filme de desastre, mas a revelação de um conflito espiritual profundo: quando a cidade escolhida abandona a justiça, sua ruína se torna consequência natural, não castigo arbitrário. Quando Jesus diz “quando virdes Jerusalém cercada por exércitos, sabei que a sua devastação está próxima”, ele está interpretando a história à luz de Deus e mostrando que a fé não imuniza ninguém contra os frutos de suas escolhas.

A profecia se cumpre no ano 70, quando Tito cerca Jerusalém, e o templo é destruído. Mas Lucas escreve décadas depois, reinterpretando esse trauma à luz do Cristo ressuscitado. Seu objetivo não é manter o trauma, mas purificá-lo. A destruição do templo, que para muitos significou o fim do mundo, é interpretada pela comunidade cristã como passagem, como parto doloroso que abre novas possibilidades. Lucas liga esse evento ao conjunto das “dores de parto” de que falam Isaías e Jesus, dores que antecedem a manifestação plena de Deus. O apocalipse bíblico nunca é destruição pelo prazer de destruir; é revelação — apokálypsis — retirada do véu, desnudamento do que realmente está escondido. Por isso Lucas escreve que, diante desses fatos, “levantai-vos e erguei vossas cabeças, porque a vossa libertação está próxima”. O apocalipse cristão não é convite ao medo, mas à vigilância. Não é convite ao pânico, mas à esperança ativa.

Nesse discurso, Jesus revela que a história não é neutra. As escolhas humanas abrem caminhos que podem conduzir à vida ou à morte. É o eco de Deuteronômio: “Escolhe, pois, a vida” (Dt 30,19). A destruição de Jerusalém não é o fim do mundo, mas o fim de um mundo que recusou o caminho de Deus. E aqui podemos ouvir também a lógica dos profetas: quando o povo prefere aliança com impérios, quando se curva ao poder dominador, quando transformam o templo em mercado e o culto em espetáculo, a ruína é inevitável. Isaías denunciou os que “fazem do direito uma amargura” (Is 5,20). Jeremias denunciou os que repetem “Templo do Senhor, Templo do Senhor”, como se a repetição de fórmulas religiosas dispensasse a justiça. Jesus, herdeiro dessa tradição, denuncia o mesmo: a fé que se torna ideologia, arma ou álibi morre por dentro.

Há aqui também um elemento profundamente sociológico. A Jerusalém do primeiro século estava tensionada por fanatismos, milícias religiosas, líderes sedentos por poder, grupos que queriam impor a fé pela violência, e uma elite sacerdotal aliada aos interesses romanos. A cidade estava polarizada, fragmentada, tomada por discursos inflamados e por uma religiosidade que, muitas vezes, servia mais para manter privilégios do que para conduzir o povo à justiça. Qualquer semelhança com nosso tempo não é coincidência: o texto é espelho. Vivemos um tempo em que a extrema-direita se apropria da linguagem religiosa para instaurar medo, ódio e idolatria política. Repetem o nome de Deus enquanto defendem armas, violência, desprezo aos pobres e autoritarismos. Usam a Bíblia como escudo para seus projetos de poder, tal como os grupos zelotes usavam a Lei como pretexto para violência. Lucas 21, então, soa como denúncia a esses que instrumentalizam a fé para legitimar domínios, sejam eles políticos, econômicos ou religiosos. O anúncio da destruição de Jerusalém é, também, denúncia da destruição que acontece quando a fé se prostitui ao poder.

A teologia lucana, sempre marcada pela misericórdia e pelo acolhimento aos pobres, vê nesse discurso uma pedagogia de Deus. A história se move entre tensões, e o cristão não pode se assustar com isso. As guerras, terremotos, perseguições, sistemas injustos e crises não são sinais de que Deus abandonou o mundo, mas de que o mundo resiste ao projeto de Deus. Cristo não convida seus discípulos a fugir do mundo, mas a discerni-lo. Por isso, no mesmo capítulo, Jesus diz que serão perseguidos, entregues às autoridades, julgados diante de reis. A fé madura não busca conforto, busca verdade; não procura palcos, procura fidelidade; não vive de likes, vive de coerência. A Igreja que se alinha à lógica do espetáculo, da prosperidade, do domínio e da autopromoção perde sua alma. A crítica profética aqui é direta: Jesus não veio oferecer religião como entretenimento, mas como cruz, caminho e libertação. A teologia da prosperidade, que reduz Deus a gerente de bênçãos e o Evangelho a plano de sucesso pessoal, está tão distante de Lucas 21 quanto os sacerdotes corruptos estavam distantes dos profetas.

O magistério da Igreja também ilumina este texto. Gaudium et Spes 63–66 denuncia os sistemas econômicos que colocam o lucro acima da pessoa, que transformam o ser humano em instrumento e não fim. Quando Jesus fala da desordem do mundo, ele não está descrevendo apenas catástrofes naturais, mas catástrofes sociais: desigualdade, desumanização, opressão estrutural. Evangelii Gaudium rejeita a economia que mata, a política que manipula, a religião que anestesia. Fratelli Tutti denuncia a cultura da indiferença e dos muros. Tudo isso converge para a mesma visão: o apocalipse não é espetáculo, é diagnóstico. Apocalipse é aquilo que vemos quando deixamos de ser ingênuos. O discípulo não teme a verdade, porque a verdade liberta.

Santo Agostinho via na queda de Jerusalém o símbolo da queda de todo coração que se fecha à graça. Orígenes afirmava que o verdadeiro templo é o coração convertido e que a devastação começa quando esse templo interior se corrompe. Crisóstomo alertava contra o uso político da religião, dizendo que “não há nada mais terrível do que um lobo vestido de pastor”. E Basílio denunciava os ricos acumuladores que, como os líderes do templo antes de sua queda, guardam para si aquilo que pertence aos pobres. Os Padres nos lembram que Lucas 21 é também um espelho pessoal: cada um de nós carrega uma Jerusalém interior que precisa ser purificada.

No âmbito psicológico e antropológico, o discurso de Jesus nos ajuda a entender como funcionam os ciclos de ansiedade coletiva. Períodos de crise — política, moral, econômica — geram medo e, com o medo, surgem discursos de salvação rápida. As pessoas buscam líderes fortes, messias políticos, salvadores da pátria. Buscam respostas simplistas para problemas complexos. Muitos caem no fanatismo porque o fanatismo oferece a ilusão da certeza total. Mas Jesus diz: não sigam esses que dizem “o tempo está próximo”, porque eles instrumentalizam o medo. O discípulo verdadeiro não se deixa manipular por terrorismo religioso, nem por apelos de desespero. Fé madura é fé que não confunde discernimento com paranoia.

Quando Jesus diz “haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas”, ele usa a linguagem simbólica típica dos profetas. No AT, essas imagens expressam mudanças radicais na ordem política e social. Não significam necessariamente o colapso literal do universo, mas o colapso de sistemas injustos. Isaías usa essa linguagem quando fala da queda da Babilônia (Is 13). Ezequiel usa quando fala da queda do Egito (Ez 32). Joel usa quando fala da purificação de Israel (Jl 2). Jesus, portanto, está anunciando que o mundo velho — injusto, opressor, violento — será desmascarado. O céu que treme é o sistema que cai. A natureza que estremece é o poder que se abala. Quando Lucas diz que “as potências do céu serão abaladas”, ele ecoa Daniel 7 e o Filho do Homem que recebe o reino não pela força, mas pela fidelidade. O Filho do Homem vem não para destruir, mas para restaurar.

Por isso, o ápice do discurso é finalmente a esperança: “Então verão o Filho do Homem vindo numa nuvem com poder e grande glória”. Aqui está o coração do apocalipse cristão. O Cristo que vem é o mesmo que perdoou, que acolheu, que curou, que derrubou muros, que enfrentou hipocrisias. A glória de Cristo não é a glória dos exércitos, mas a glória do amor invencível. Ele vem para restaurar a justiça, não para punir arbitrariamente. Ele vem para revelar o que sempre esteve escondido. O discípulo, então, não abaixa a cabeça: levanta. Não se esconde: ergue-se. O termo grego anakypsate expressa postura de dignidade, não de medo. É a postura de quem sabe que a história não está entregue ao caos, mas a Deus.

Diante disso, a crítica contemporânea se impõe. Vivemos nosso próprio Lucas 21. Um mundo onde democracias se fragilizam, onde líderes autoritários usam a religião como arma, onde discursos de ódio substituem a compaixão, onde as redes sociais alimentam paranoia e falsos profetas digitais. Muitos cristãos repetem slogans religiosos enquanto apoiam candidatos que defendem armas, violência, tortura, racismo, exclusão dos pobres. É inútil dizer “Senhor, Senhor” se o voto e a prática negam o Evangelho. É inútil clamar por Jerusalém se no cotidiano aceitamos Babilônia. Uma fé que se alia à extrema-direita perde sua alma. Uma fé que se curva ao neoliberalismo desumano trai Cristo. Uma fé que negocia com o autoritarismo trai o Sermão da Montanha. A destruição de Jerusalém é advertência: não se brinca com o nome de Deus.

Mas Jesus não termina no julgamento. Termina na esperança. A libertação está próxima. Ela não virá de políticos-messias, nem de líderes religiosos autorreferenciais, mas da fidelidade cotidiana ao Evangelho. Libertação é conversão, é justiça, é comunidade, é cuidado mútuo. Libertação é ver o Filho do Homem no rosto dos pobres, dos migrantes, dos excluídos, dos feridos da história. Libertação é romper com o sistema de opressão, é escolher a vida, é resistir ao ódio. Libertação é levantar a cabeça quando o mundo tenta nos esmagar. Libertação é caminhar com Cristo mesmo quando tudo parece ruir.

E assim entendemos: Lucas 21 não descreve apenas o que aconteceu, mas o que sempre acontece. Jerusaléns caem quando se afastam da justiça. Templos ruem quando se idolatra o poder. Civilizações tremem quando abandonam os pobres. Mas o Filho do Homem permanece. Seu reino não passa. Seu amor não fracassa. Sua justiça não se atrasa. E por isso, mesmo quando o mundo estremece, o discípulo se ergue. Não porque é forte, mas porque Cristo é fiel.



DNonato – Teólogo do Cotidiano

domingo, 16 de novembro de 2025

Um brece olhar sobre Lucas 18,35-43

O caminho para Jericó se abria como uma poeira espessa diante dos passos de Jesus. O sol da tarde, já inclinado, projetava sombras longas sobre a estrada, onde viajantes, comerciantes e peregrinos seguiam seu trajeto cotidiano. À beira do caminho, onde a vida costumava empilhar os esquecidos, estava um homem cego. Não era apenas um corpo imóvel; era um símbolo vivo daquilo que o mundo não quer ver: pessoas reduzidas a resto, a ruído, a obstáculo. Ele conhecia o ritmo dos passos pelo som, distinguia a intenção das pessoas pela respiração, reconhecia desperoços de humanidade nas vozes que por vezes se curvavam para deixar-lhe uma esmola. Dentro dele, porém, ardia algo maior que a dor: ardia um desejo antigo de não apenas sobreviver, mas existir plenamente.
Quando o movimento da multidão mudou — como se um vento novo passasse sobre a estrada — o cego percebeu antes de todos. No rumor do povo, no choque das sandálias contra o chão, havia uma vibração diferente. Ele pergunta, alguém responde apressado: “É Jesus de Nazaré que está passando!” Nesse instante, a escuridão que envolvia seus olhos não conseguiu apagar a chama que acendeu no fundo de sua alma. Ele começa a gritar — não um pedido educado, mas um grito que vem das entranhas: “Jesus, Filho de Davi, tem piedade de mim!” Era o clamor de quem reconhece aquilo que muitos, com os olhos saudáveis, não conseguiam perceber: ali não passava um simples mestre, mas o Messias esperado.
Os que caminhavam à frente tentam silenciá-lo, porque todo sistema — religioso, político ou social — teme o clamor dos que foram empurrados para a margem. O barulho dos pobres incomoda. Mas quanto mais tentam calá-lo, mais ele grita, como se soubesse que aquele momento era o único fio de esperança que ligava sua noite à possibilidade de um amanhecer. Jesus então para. O silêncio súbito da multidão se mistura ao som do próprio coração do cego, que talvez já soubesse que, quando o Nazareno interrompe seu caminho, é porque Deus ouviu o choro de alguém.
Mandam que o tragam. Os mesmos que o mandavam calar agora dizem: “Coragem, levanta-te, Ele te chama.” É sempre assim: quem antes desprezava, quando vê a ternura de Jesus, muda o tom. O cego se levanta com pressa, talvez tropeçando, talvez guiado pela fé mais do que pelas mãos dos outros. Diante de Jesus, a pergunta parece estranha: “Que queres que Eu te faça?” Mas Jesus não pergunta por ignorância; pergunta porque ninguém é curado sem assumir sua própria voz, sua própria história. O homem responde com a simplicidade dos que sabem o essencial: “Senhor, que eu veja!”
E então, como um novo Gênesis, a palavra de Jesus atravessa as trevas: “Vê! A tua fé te salvou.” Não é apenas uma cura; é uma recriação. A luz que se abre diante dos olhos do cego é a mesma luz que, desde o primeiro dia da criação, separa a vida do caos. Ele não apenas recupera a visão; recupera também a dignidade de caminhar, de escolher, de seguir. E ele segue Jesus, glorificando a Deus, enquanto todo o povo, ao ver aquilo, rompe num louvor espontâneo. No pó da estrada de Jericó, naquele encontro intenso entre o clamor humano e a compaixão divina, a luz venceu novamente a sombra, e Deus foi revelado não em discursos, mas em gesto, corpo, toque e misericórdia.
A narrativa de Lucas 18,35-43 já ressoa liturgicamente na segunda-feira da 33ª semana do Tempo Comum, quase no limiar do fim do ano litúrgico, quando a Igreja, guiada pela Palavra, faz memória da proximidade do Reino e do clamor das periferias que imploram não apenas uma cura biológica, mas uma reconfiguração profunda da existência. Este texto, no entanto, aparece também no ciclo litúrgico dominical no Ano C, quando se proclamam as últimas etapas da subida de Jesus para Jerusalém, caminho que não é apenas geográfico, mas teológico, antropológico e escatológico. O cego de Jericó, portanto, é sempre lembrado na pedagogia da Igreja como figura daquele que passa das trevas para a luz, da margem para o caminho, do silêncio imposto para o brado que se torna oração, da exclusão para a comunhão. É neste ponto que a liturgia, com sua sabedoria secular, nos coloca diante de uma pergunta essencial: quem realmente vê? E quem insiste em permanecer cego?
Jesus passou toda a sua vida fazendo o bem para manifestar o amor de Deus para conosco. Mas essa afirmação, que à primeira vista parece óbvia, ganha grande densidade quando a aproximamos da hermenêutica lucana. O evangelista, médico por formação segundo a tradição patrística (cf. Cl 4,14), sabe que curar não significa apenas restaurar órgãos, mas reintegrar a pessoa na vida, na dignidade, na história. Assim, quando Jesus realiza curas, não demonstra apenas compaixão individual — Ele desmonta sistemas de exclusão. Ele revela que o amor de Deus não permite que pessoas fiquem à margem do caminho pedindo esmolas — e isso, teologicamente, é uma denúncia contra sociedades que naturalizam a pobreza como destino e não como construção histórica. Lucas, que é o evangelista dos pobres, dos esquecidos e dos periféricos, faz do cego que grita uma espécie de ícone da humanidade marginalizada, aquela que o sistema tenta silenciar, mas que Jesus escuta antes de todos.

A cena lucana ecoa muitas outras páginas da Escritura em que a cegueira física simboliza, ao mesmo tempo, a cegueira espiritual, ética, política e religiosa. No Antigo Testamento, recordamos Tobias, cuja cegueira (Tb 2,10-15) é curada por Rafael como sinal da restauração da justiça na família. Lembramos também Eliseu, que devolve a visão aos soldados arameus (2Rs 6,17-20), revelando que ver é entrar na lógica de Deus e não na lógica da guerra. No Novo Testamento, o paralelo mais direto é Marcos 10,46-52, onde Bartimeu tem nome — e isso é teologicamente muito relevante, pois Marcos quer mostrar que o Reino devolve identidade aos que foram reduzidos à condição de estatística social. Em Mateus 20,29-34, aparece a cura de dois cegos, sublinhando a dimensão comunitária do sofrimento e da libertação. Lucas, por sua vez, mantém o anônimo — e isso não diminui o personagem, mas o universaliza: ele representa todos os que foram despersonalizados pela sociedade.

A cegueira, dentro da tradição bíblica, nunca é apenas ausência de visão ocular. Muitas vezes ela é denunciada como consequência da injustiça estrutural (cf. Is 59,10), da idolatria (cf. Sl 135,16), da arrogância espiritual (cf. Is 6,10), da violência que obscurece o coração (cf. Sb 2,21). Por isso, quando Jesus cura o cego de Jericó, realiza um gesto que tece múltiplos sentidos: cura o corpo, restaura a dignidade, reintegra socialmente, denuncia estruturas excludentes e manifesta a chegada do Reino. Lucas, que inicia o evangelho com a promessa de que Jesus veio iluminar os que jazem nas sombras da morte (Lc 1,79), fecha o ministério galileu com a cena de alguém que literalmente sai das sombras e segue Jesus pela estrada iluminada da missão.

A psicologia contemporânea nos ajuda a perceber que a marginalização prolongada produz um tipo de cegueira existencial: a pessoa perde o horizonte de futuro, perde a referência de pertença, perde até mesmo a capacidade de pedir ajuda. O grito do cego — “Jesus, Filho de Davi, tem compaixão de mim!” — é, portanto, um ato de resistência psíquica e espiritual. É o grito de quem se recusa a ser silenciado pelos discursos do “aceite seu lugar”, do “não incomode”, do “não atrapalhe a passagem dos importantes”. É um grito que já nasce como oração, ecoando o clamor dos Salmos, a súplica dos anawim, os pequenos de Javé (cf. Sl 34,7.18; 51,19; 72,12-13). Do ponto de vista antropológico, esse grito revela que o humano, por mais oprimido, nunca perde completamente o desejo de transcendência — e por isso mesmo o Reino começa ali, naquele grito.

Mas o texto apresenta também um outro grupo: os que mandam o cego calar. Esses representam a lógica da teologia da prosperidade, da teologia do domínio, da fé como mercadoria e da religião convertida em espetáculo. São aqueles que querem um Jesus controlado, previsível, útil para manter privilégios. Lembram líderes religiosos que, nos profetas, eram acusados de fechar os olhos (Is 56,10) e de pastorear-se a si mesmos (Ez 34). Lembram também a crítica de Jesus aos fariseus que se consideravam guias de cegos, mas eram cegos guiando cegos (Mt 15,14). Esses personagens, tão presentes no evangelho quanto em nossa sociedade, representam a cegueira mais perigosa: a cegueira moral e espiritual, aquela que se mascara de luz, mas mantém os pobres na escuridão.

Há ainda uma cegueira mais profunda e mais perigosa, que não atinge os olhos, mas o coração: a cegueira ideológica, aquela que transforma projetos políticos em religiões absolutas, que sequestram consciências e impedem qualquer forma de discernimento. Essa cegueira não nasce da falta de informação, mas da recusa deliberada de acolher a verdade. Por isso, o ditado popular ecoa com força profética: “o pior cego é aquele que não quer ver, e pior ainda quando também não quer ouvir.” É a cegueira voluntária de quem fecha os olhos diante dos pobres para não questionar seus privilégios; de quem tapa os ouvidos para não escutar o clamor das vítimas, dos negros, dos indígenas, das mulheres, dos famintos; de quem prefere seguir líderes violentos, autoritários ou mentirosos porque eles confirmam suas próprias sombras interiores. Essa cegueira ideológica, denunciada pelos profetas (cf. Is 6,9-10; Jr 5,21) e retomada por Jesus ao falar dos “cegos guiando cegos” (Mt 15,14), é sempre mortal para a democracia e para o Evangelho, porque transforma a fé em arma, a religião em palanque e o nome de Deus em justificativa para o ódio. Contra essa cegueira, a cura do cego de Jericó se levanta como contracultura luminosa: ver e ouvir a verdade é sempre o primeiro passo para seguir Jesus e para romper com todo projeto que tente instrumentalizar a fé e desumanizar o outro.

Sociologicamente, o cego à beira do caminho é símbolo de todos os que, hoje, são empurrados para as margens pelo neoliberalismo, pelo capitalismo que sacrifica vidas para manter lucros, pela política do ódio, pela violência estrutural e pelo desprezo aos vulneráveis. Ele é o trabalhador precarizado, a mãe solo, o idoso abandonado, o jovem negro criminalizado, o morador de rua invisibilizado, os povos indígenas expulsos de suas terras, os migrantes rejeitados, todos os que a sociedade de consumo transforma em descartáveis — como denuncia Francisco na Fratelli Tutti (n. 18-22). A cura de Jesus é, portanto, um ato profundamente político: devolve o pobre ao centro, interrompe a marcha dos importantes para ouvir quem não era para ser ouvido.

A ciência histórica nos lembra que Jericó era uma cidade que vivia de pedágios e impostos, rota de comércio e circulação de riqueza, mas também de exploração e desigualdade. O cego, sentado à beira da estrada, não é alguém que escolheu a marginalidade — ele é produto de um sistema econômico que desumaniza. Portanto, quando Jesus o chama, está invertendo a lógica social: do centro para a margem, Ele desloca o valor; da estrada para a pessoa, Ele desloca a prioridade; do fluxo econômico para o fluxo da compaixão, Ele desloca o sentido da história.

O gesto de Jesus — “O que queres que eu te faça?” — ecoa não apenas como pergunta terapêutica, mas como gesto de restituição da autonomia. Jesus não impõe uma cura. Ele pergunta. Respeita a liberdade. Reconhece a subjetividade. É o contrário da lógica autoritária da teologia do domínio, que trata Deus como um tirano e os fiéis como massa manipulável. É também o contrário da fé mercantilizada, que transforma a oração em contrato, a bênção em transação e a cura em propaganda religiosa. Jesus, ao contrário, restabelece a dignidade do sujeito: “Senhor, que eu veja de novo”. E ver de novo, na linguagem bíblica, é recuperar a criação original, é voltar ao projeto de Deus, é reentrar na luz que foi separada das trevas no primeiro dia (Gn 1,3).


A Patrística interpreta esta cena como símbolo da iluminação batismal. Santo Agostinho vê no cego o gênero humano ferido pelo pecado e pela soberba, que só recobra a visão quando reconhece em Cristo o “Filho de Davi”, isto é, o Messias misericordioso. Orígenes lê o caminho como símbolo da vida espiritual, e a visão recuperada como discernimento. São Beda chama o cego de “figura de todo catecúmeno que clama na escuridão até encontrar a luz da fé”. A Tradição, portanto, entende que o milagre não é apenas físico, mas eclesial: a Igreja é o lugar onde os cegos recobram a vista porque ali se experimenta a luz da Palavra, da caridade e da justiça.

Mas há ainda um outro elemento: após ser curado, o cego segue Jesus glorificando a Deus. É significativo que Jesus não lhe imponha seguir, nem ofereça um prêmio por gratidão. Quando Jesus cura, Ele não tira a liberdade da pessoa. Aqueles que, depois de curados, resolvem segui-lo, o fazem de livre e espontânea vontade. E isso revela que a verdadeira evangelização é libertadora, nunca coercitiva. É o contrário do clericalismo, que tenta domesticar consciências, infantilizar fiéis e sequestrar a liberdade espiritual do povo. O cego, agora caminhante, se torna testemunho vivo, e sua nova vida faz com que todos glorifiquem a Deus — e não a instituição, não o pregador, não o milagreiro.

A filosofia ilumina ainda mais esse processo. O ato de ver está ligado ao conhecimento de si, do mundo e do outro. Aristóteles dizia que o ser humano deseja naturalmente conhecer; Platão via na luz o símbolo da verdade; Paulo, ecoando ambos, afirma que Deus “nos chamou das trevas para a sua luz admirável” (1Pd 2,9). A cura, portanto, é revelação. É epifania. É transcendência encarnada na história. A verdadeira cura liberta de toda alienação, inclusive a religiosa, que muitas vezes prefere manter o povo cego para que não questionem as estruturas de poder.

O contexto imediato de Lucas também é decisivo. Antes da cura, Jesus acaba de anunciar pela terceira vez sua paixão (Lc 18,31-34). Os discípulos, porém, não compreendem; permanecem cegos. O cego de Jericó vê mais do que eles. Isso revela a inversão típica de Lucas: os de dentro nem sempre entendem; os de fora frequentemente percebem mais. Esse contraste denuncia as lideranças religiosas que, ainda hoje, conhecem a doutrina, mas perderam o coração; que estudam teologia, mas abandonaram a misericórdia; que falam de Deus, mas impedem o povo de encontrá-lo. É o clericalismo denunciado por Francisco como “uma perversão eclesial” (Evangelii Gaudium, n. 102-104).

No campo da sociologia, podemos dizer que a cura do cego é uma ruptura do ciclo de marginalização. Ao recobrar a vista, ele pode trabalhar, caminhar, relacionar-se, sonhar. Ele se reintegra à cidade. E a cidade muda com a presença dele. Toda cura verdadeira tem impacto social. A comunidade que glorifica a Deus ao ver o milagre é convidada a transformar suas estruturas. Não basta aplaudir a cura — é preciso curar a sociedade que produz cegos. Como diz Gaudium et Spes (63–66), o desenvolvimento humano integral exige justiça, solidariedade e dignidade para todos. A cura é sinal escatológico, mas também desafio político.

O texto, quando lido no fim do ano litúrgico, nos faz pensar na cegueira apocalíptica daqueles que, guiados por ideologias violentas, tentam transformar a fé em arma, a religião em instrumento de poder e o evangelho em manual de ódio. São os que se alinham à extrema direita, transformando Jesus em mascote ideológico, negando sua opção pelos pobres e sua mensagem de inclusão. A cura do cego se torna, então, uma denúncia profética: não há cristianismo verdadeiro onde os pobres continuam invisíveis e onde a religião serve ao poder e não ao Reino.

O cego que grita é o oposto da fé individualista. Ele clama publicamente, envolve a comunidade, recebe a cura diante de todos e, ao seguir Jesus, se torna sinal comunitário de transformação. A fé individualista, ao contrário, é cega para o sofrimento alheio, cega para a injustiça, cega para o compromisso social. O evangelho lucano desmonta essa lógica: a salvação é pessoal, mas nunca isolada; é sempre relacional e comunitária.

Assim, a cena se encerra com três movimentos: o cego vê; o cego segue; o povo glorifica. É a síntese da missão cristã: ver a realidade com os olhos de Deus, caminhar na direção de Deus e transformar a sociedade para que Deus seja glorificado. Ver, seguir, transformar — eis o processo da conversão.

Por isso, quando a liturgia nos entrega este evangelho no final do ano, ela nos provoca a perguntar: onde estão hoje os cegos que clamam? Onde estão os que mandam calá-los? Onde estamos nós: à beira do caminho ou no caminho com Jesus? E mais: que tipo de cegueira ainda nos aprisiona — cegueira de medo, de ideologia, de indiferença, de culto vazio, de religiosidade mercantil, de fé reduzida a performance?.

Ao final, como o cego cu


rado, somos chamados a caminhar com Jesus, não porque Ele exige, mas porque a vida nova nos convida. Seguir Jesus é sempre um ato de liberdade. E é somente na liberdade que a verdadeira fé floresce.


DNonato – Teólogo do Cotidiano

sexta-feira, 14 de novembro de 2025

Um novo olhar sobre Lucas 18,1-8

A parábola da viúva persistente, em Lucas 18,1-8, é proclamada pela liturgia da Igreja no 29º Domingo do Tempo Comum e novamente no 32º sábado do Tempo Comum, como se o Espírito insistisse conosco na mesma insistência da personagem central: “rezar sempre, sem jamais desanimar”. Quando a liturgia repete um texto, ela não o repete por acaso; repete porque há camadas que ainda não escutamos, feridas que ainda não tocamos, cegueiras que ainda não reconhecemos. A parábola retorna como a própria viúva, batendo à porta do nosso coração e da nossa comunidade, exigindo que a justiça adiada deixe de ser promessa e se torne carne. Esse retorno litúrgico já é, por si, uma hermenêutica viva: Deus insiste, não para nos vencer pela insistência, mas para nos despertar do cinismo, do cansaço, da desistência que a história produz, especialmente quando a injustiça se torna tão cotidiana que parece normal.

Lucas introduz a parábola dizendo que Jesus a contou “para mostrar-lhes a necessidade de orar sempre e nunca esmorecer”. O verbo usado evoca resistência, perseverança, mas também uma forma de combate espiritual que não é alienação, mas que se enraíza no real. Jesus não está falando de rezar para fugir do mundo, mas de rezar para transformá-lo. No Evangelho de Lucas, oração não é fuga; é fôlego. É o que permite que os pobres resistam, que os discípulos não desistam, que a comunidade não perca o coração diante do peso das estruturas injustas. A oração aqui é quase sinônimo de resistência histórica. Não por acaso, o vocabulário lucano dialoga com o clamor do Êxodo (Êx 2,23-25), com o grito da terra e do sangue que sobe até Deus (Gn 4,10), e com a súplica dos justos nos Salmos, como no Salmo 43: “Faze-me justiça, ó Deus”. A viúva de Lucas carrega o eco de todas essas vozes.

A figura da viúva é central na Escritura. No mundo bíblico, a viúva não é apenas alguém que perdeu o marido; é alguém que perdeu, junto com ele, quase todos os seus direitos sociais. Era símbolo da vulnerabilidade radical. Por isso, quando Isaías denuncia que os governantes “não fazem justiça ao órfão e a causa da viúva não chega até eles” (Is 1,23), não está falando apenas de negligência, mas de estruturas que esmagam o indefeso. A viúva é o rosto humano da injustiça institucionalizada. E é por isso que Lucas é tão insistente com essa figura em seu Evangelho: a viúva pobre que oferece tudo em 21,1-4; a viúva de Naim, cujo filho morto Jesus devolve à vida em 7,11-17; a viúva persistente de hoje. Para Lucas, a verdade de Deus se revela ali onde a vida está mais frágil. E a mentira do poder se revela ali onde a vida frágil é ignorada.

Mas, curiosamente, Jesus opõe à viúva não um inimigo poderoso, mas um juiz injusto. Um homem que “não temia a Deus nem respeitava pessoa alguma”. Aqui há uma ironia fina: o juiz deveria ser símbolo da ordem, da equidade, da proteção dos vulneráveis. Mas se converteu exatamente no contrário. A função é traída pela postura. A instituição perde sua alma. A parábola, então, não apenas fala de uma viúva; fala de um sistema. O juiz é o símbolo de todo poder que se autoproclama justo, mas que na prática opera a favor dos fortes, dos ricos, dos influentes. É um poder que não teme Deus porque se considera absoluto; não respeita ninguém porque só responde a si mesmo. Aqui surge um eco forte da denúncia dos profetas contra magistrados corruptos, como em Miquéias 3,9-11, onde se fala de juízes que “julgam por suborno”, ou Isaías 10,1-2, onde se condena os que “fazem leis injustas”. Jesus conhece essa tradição profética e a retoma com vigor.

A ciência histórica nos ajuda a perceber que as viúvas, no contexto do Mediterrâneo do século I, eram particularmente vulneráveis às decisões de magistrados locais, que frequentemente atuavam movidos por interesses pessoais e por clientelismo. A antropologia nos mostra que sociedades fortemente patriarcais, como a palestina daquele tempo, tendiam a marginalizar ainda mais mulheres sem proteção masculina. A sociologia confirma que a ausência de redes de solidariedade comunitária expunha essas mulheres a abusos sistemáticos. O drama da viúva é real, concreto, estrutural. E é nesse cenário que Jesus insere a oração: não como uma alienação espiritual, mas como clamor por justiça — a mesma justiça que o juiz deveria ter feito, mas não quis.

A parábola se torna ainda mais poderosa quando percebemos que a viúva não pede nada extraordinário. Ela apenas diz: “Faz-me justiça contra o meu adversário”. O pedido é simples, direto, legítimo. Mas é negado repetidamente. Aqui está o drama humano que se repete em tantos tempos e culturas: quando o pedido justo é adiado indefinidamente, a alma humana se esgota. A demora da justiça é uma forma de violência. Nesse sentido, Jesus ecoa Habacuque — profeta que, diante da demora divina, grita: “Até quando, Senhor, clamarei sem que respondas?” (Hab 1,2). E Deus responde ao profeta: “A visão ainda virá em seu tempo, se tarda, espera, porque ela virá e não tardará” (Hab 2,3). Lucas 18 é quase uma releitura dessa tensão entre o clamor humano e o silêncio do poder.

A parábola entra então em sua virada: o juiz, cansado da insistência da viúva, decide atendê-la “para não ser importunado”. A palavra grega usada aqui — hypōpiazō — significa literalmente “dar um soco no rosto”, “causar desgaste físico”, ou, figuradamente, “molestar”, “cansar até o limite”. É impressionante que Jesus coloque na boca do juiz essa expressão: a insistência da viúva não é apenas uma súplica; é um golpe contra a apatia institucional. É resistência ativa. É uma oração que luta. Uma teologia da vida que se safou do fatalismo. Uma espiritualidade que não se contenta com discursos bonitos, mas confronta estruturas injustas. A viúva nos ensina que rezar é bater na porta do mundo e do próprio Deus, não com arrogância, mas com a força dos que sabem que a justiça é vontade divina.

E é aqui que emerge o grande desafio hermenêutico: Deus não é como o juiz injusto. É o contrário. Se até o injusto cedeu diante da insistência, quanto mais Deus fará justiça aos seus escolhidos. Mas Jesus termina a parábola com uma pergunta dura, profética, inquietante: “Quando o Filho do Homem vier, encontrará fé sobre a terra?” A fé aqui não é sentimentalismo; é perseverança na esperança ativa. É fidelidade à justiça mesmo quando tudo parece indicar que ela não virá. É a recusa de capitular. É a espiritualidade da resistência. É o oposto da religião show, da fé-espetáculo, da fé-mercadoria que transforma Deus em produto e a oração em investimento para retorno financeiro. A viúva é uma afronta direta à teologia da prosperidade, porque reza não para enriquecer, mas para que o justo seja reconhecido. Sua oração não busca privilégios, mas dignidade. Por isso ela é perigosa para sistemas religiosos corruptos e economias que lucram com a opressão.

E também é ameaça ao clericalismo, que prefere comunidades obedientes e silenciosas, não comunidades que batem à porta e exigem conversão pastoral. A viúva é profeta contra o padre que vira gerente, contra o bispo que se comporta como príncipe, contra ministros que confundem autoridade com poder. Ela lembra que a verdadeira espiritualidade se realiza na luta por justiça, não na manutenção confortável das estruturas. Em Evangelii Gaudium, Francisco diz que “a desigualdade é a raiz dos males sociais” (EG 202) e que uma Igreja confortável demais perde a profecia. A viúva é o rosto dessa profecia.

Do ponto de vista psicológico, a parábola mostra que insistir, mesmo quando tudo indica fracasso, exige uma força interior rara. A resiliência dessa mulher não é fruto de autoajuda; é fruto de uma certeza: a de que sua causa é justa. A psicologia social indica que grupos oprimidos desenvolvem estratégias de resistência simbólica e prática para não serem esmagados pela apatia do sistema. A viúva ilustra isso: pequena, pobre, invisível, mas persistente. Sua resistência é existencial. Sua oração é sobrevivência. Sua insistência é dignidade.

A parábola dialoga com a ideia de justiça em Aristóteles e com a crítica profética de justiça em Levinas, onde o rosto do pobre exige resposta ética. Não é Deus que se esconde; é a justiça humana que falha. A pergunta final de Jesus — “encontrará fé?” — poderia ser traduzida como: haverá quem continue acreditando que vale lutar pela justiça? Ou o mundo terá se entregue ao cinismo neoliberal, ao individualismo predador, à lógica do “cada um por si”, ao culto do sucesso privado que abandona os pobres à própria sorte? Em Fratelli Tutti, Francisco denuncia claramente essa lógica, dizendo que vivemos tempos onde não há espaço para o pobre, e onde a indiferença se torna globalizada (FT 9-12). A viúva, pequena, teimosa, frágil, desinstala essa indiferença.

Sinoticamente, não há paralelo direto desta parábola em Marcos ou Mateus, mas há cenas que dialogam com ela, como a mulher siro-fenícia que insiste pelo milagre da filha (Mc 7,24-30; Mt 15,21-28) — outra mulher vulnerável que ousa confrontar a indiferença. Há também o paralelo simbólico com a parábola do amigo importuno em Lucas 11,5-13, onde a persistência é novamente chave da compreensão. No Antigo Testamento, encontramos ecos dessa cena na figura de Ana, que insistiu no templo até receber resposta (1Sm 1–2); na sabedoria de Tobias, que fala da oração que sobe aos céus (Tb 12,8-10); no clamor dos oprimidos em Eclesiástico 35,14-20 (Sirácida), onde se afirma que “a súplica da viúva não ficará sem resposta”. Lucas certamente conhecia esse texto, pois a estrutura é surpreendentemente semelhante.

A patrística também leu esta parábola como denúncia. Orígenes vê na viúva a imagem da alma que clama diante do mal do mundo. Agostinho diz que ela representa a Igreja perseguida, que nunca abandona o clamor pela justiça. Tertuliano interpreta a insistência como disciplina espiritual. E Crisóstomo vê no juiz a caricatura dos poderosos de seu tempo, que se curvam apenas quando seu conforto é ameaçado. Todos reconhecem na viúva uma força divina disfarçada de fragilidade humana.

E então, quando o Filho do Homem vier — e aqui entramos no mistério escatológico que a liturgia ressalta ao proclamar esse texto no final do ano litúrgico — ele não virá como juiz distante, mas como aquele que tomou a causa da viúva como sua. Ele virá como defensor dos pobres (Sl 72), como aquele que escuta o clamor dos injustiçados (Êx 22,21-23), como aquele cuja justiça não se compra com ofertas nem com espetáculos religiosos. Ele virá perguntar se ainda há pessoas capazes de sustentar a esperança quando tudo parece perdido. Se ainda há quem reza sem fugir do mundo. Se ainda há quem luta sem ceder ao ódio. Se ainda há quem insiste, não por teimosia, mas por fé.

Porque, no fundo, a pergunta final de Jesus é um espelho escatológico que se inclina sobre nós. A liturgia repete esse texto duas vezes por ano para que nós, como comunidade, respondamos: sim, haverá fé. Haverá resistência. Haverá esperança. Haverá viúvas que continuam batendo. Haverá discípulos que não trocam a justiça pela comodidade. Haverá Igreja que não se vende às estruturas do poder econômico ou político. Haverá comunidade que não reduz o Evangelho a mercadoria religiosa. Haverá profecia. Haverá justiça.

E enquanto houver pelo menos uma viúva batendo à porta da história, haverá fé sobre a terra..



DNonato – Teólogo do Cotidiano

quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Um outro olhar sobre Lucas 17,11–19

Vivemos tão preocupados com a nossa realização neste mundo que, quando somos agraciados por Deus, reagimos com indiferença. O Evangelho de Lucas 17,11–19, proclamado no 28º Domingo do Tempo Comum e também na Quarta-feira da 32ª Semana, nos recorda que a gratidão é o caminho da fé madura. Dos dez leprosos curados, apenas um — o estrangeiro — voltou para agradecer. Muitos buscam a Deus enquanto precisam de um favor, mas poucos permanecem após o dom recebido. A fé que não se torna louvor, reconhecimento e compromisso é fé incompleta.

Hoje, Jesus continua em sua viagem para Jerusalém. Ao passar pela região entre a Galileia e a Samaria, rompe fronteiras religiosas e culturais. Lucas, atento à dimensão universal da missão, mostra que o Reino não se limita a territórios ou tradições. Em Mateus 10,5, Jesus havia proibido seus discípulos de entrar em território samaritano; aqui, Ele mesmo o atravessa, mostrando que o amor de Deus supera as barreiras humanas. Lucas é o único evangelista que narra a cura dos dez leprosos, revelando o rosto de um Deus que se deixa encontrar nas margens.

A lepra, ou hanseníase, no tempo de Jesus, era vista como maldição divina, castigo, pecado. Quem sofria dela era excluído da vida social e religiosa, conforme a Lei do Levítico (13,45): “O leproso andará com roupas rasgadas, cabelos desgrenhados e gritará: impuro, impuro!”. Ser leproso significava ser condenado à solidão. Essa exclusão, porém, não vinha de Deus, mas de uma leitura moralista e ritualista da fé. No Segundo Livro dos Reis (5,14–17), Naamã, o general estrangeiro curado por Eliseu, reconhece a ação de Deus e volta para agradecer. É como se Lucas fizesse eco a essa antiga história: a verdadeira cura não é apenas física, mas espiritual, e passa pelo reconhecimento do dom.

O texto nos convida a perceber que o primeiro movimento da fé é o clamor, e o segundo é a gratidão. Os dez gritam de longe: “Jesus, Mestre, tem compaixão de nós!”. É um grito humano, coletivo, que nasce da dor e do desejo de reinserção. Jesus não toca neles — apenas diz: “Ide e mostrai-vos aos sacerdotes”. E, enquanto iam, ficaram curados. A obediência à palavra antecede a experiência da graça. Mas apenas um deles “cai em si” e volta.

Aqui se revela um detalhe teológico e simbólico de enorme profundidade: os nove que seguiram caminho eram judeus e, portanto, podiam apresentar-se aos sacerdotes e ser reintegrados no templo, recuperando sua posição religiosa e social. Já o samaritano, sendo considerado herege e impuro pelos judeus, jamais seria acolhido naquele mesmo templo. Ele não tinha a quem se mostrar. Sua única possibilidade de adoração era voltar-se para Jesus. E é justamente isso que ele faz: prostra-se diante do Mestre, reconhecendo n’Ele o verdadeiro Templo, a morada da presença divina. Enquanto os nove voltam à instituição, o estrangeiro volta à Fonte. O gesto revela que o culto autêntico não depende de espaços sagrados, mas de corações agradecidos. O que não podia entrar no templo torna-se ele mesmo o novo templo da fé.

A antropologia que emerge aqui é profundamente relacional. O ser humano se define não pelo que possui, mas por como responde ao dom. Os nove seguem seu caminho — imagem da humanidade indiferente, que busca o benefício e não o encontro. O samaritano volta, rompe o ciclo da indiferença e se reconhece agraciado. Ele representa o estrangeiro, o marginalizado, o “outro” que descobre no rosto de Jesus o rosto de Deusa hermenêutica lucana, a viagem de Jesus a Jerusalém é símbolo de sua Páscoa: é a travessia da humanidade rumo à libertação. Cada encontro no caminho é antecipação da Ressurreição. Quando Jesus diz ao samaritano: “Levanta-te e vai! Tua fé te salvou!”, Ele usa o verbo grego anástēthi, o mesmo empregado para indicar a ressurreição. A fé agradecida é já uma forma de ressurgir.

Os Padres da Igreja viam nesta passagem uma chave cristológica. São João Crisóstomo dizia, em suas homilias sobre Lucas, que os dez leprosos simbolizam toda a humanidade: nove representam Israel, e o décimo, o mundo pagão que, ao reconhecer Cristo, encontra a salvação. Já Orígenes afirmava, em seu Comentário sobre Lucas, que a distância dos leprosos é a condição da alma ferida, que clama de longe até que o Logos — o Verbo — venha purificá-la e conduzi-la ao verdadeiro culto. A gratidão do samaritano é, portanto, o início de uma nova liturgia, não centrada no templo de pedra, mas na comunhão viva entre Deus e o ser humano restaurado.

Essa leitura patrística dialoga com o sentido teológico mais profundo do texto: a crítica à religião que busca o milagre, mas esquece o milagreiro. A teologia da prosperidade, ao transformar a fé em contrato de recompensas, repete o erro dos nove. Não é o dom que salva, mas o encontro com o Doador. Quando a religião é usada como meio de ascensão social ou sucesso material, ela perde sua essência evangélica. Jesus não promete riqueza, mas comunhão; não oferece isenção da dor, mas sentido para o sofriment

Da mesma forma, a teologia do domínio tenta sequestrar o Evangelho para legitimar o poder. Quando líderes religiosos transformam o nome de Deus em bandeira política, reduzindo a fé a slogan partidário, o Evangelho é traído. O silêncio cúmplice de tantos clérigos e leigos diante da injustiça e da idolatria do mercado revela a lepra moral de nossa época. Como lembrava Martin Luther King Jr., o que mais preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons. O Papa Francisco, na Evangelii Gaudium (n. 183), reforça: “Uma fé autêntica — que nunca é cômoda nem individualista — sempre implica um profundo desejo de mudar o O clericalismo é outra forma de lepra espiritual. É o fechamento dos que se julgam puros, a arrogância de quem transforma o serviço em poder. O Papa Francisco alerta que o clericalismo é uma tentação constante dos ministros que veem o ministério como privilégio, e não como serviço. O samaritano, leigo e estrangeiro, torna-se o verdadeiro adorador, mostrando que a salvação não é monopólio dos que ocupam funções religiosas, mas dom gratuito oferecido a quem ama.

A filosofia ajuda-nos a ler esse encontro como experiência do reconhecimento. Emmanuel Lévinas ensina que o rosto do outro é a primeira revelação de Deus: o samaritano, ao voltar, reconhece o rosto que o reconheceu primeiro. Martin Buber diria que o “Eu” torna-se pleno apenas no encontro com o “Tu”. A fé é sempre relacional, nunca autorreferencial. Aquele que agradece entra na lógica do dom; o que se fecha na autopreservação espiritual torna-se idólatra de si mesmo.

A sociologia nos convida a perceber que Jesus não cura apenas indivíduos, mas denuncia o sistema que produz leprosos. A lepra é também metáfora das estruturas que marginalizam. Em uma sociedade neoliberal, os novos leprosos são os descartáveis: os pobres, os corpos negros, os migrantes, as mulheres violentadas, os povos indígenas esquecidos. A Igreja que se cala diante dessa lepra moderna torna-se cúmplice do sistema que crucifica. A Gaudium et Spes recorda que as alegrias e esperanças dos homens, sobretudo dos pobres, são também as alegrias e esperanças dos discípulos de Cristo.

O episódio dos dez leprosos é, assim, uma parábola política e espiritual. Jesus age nas fronteiras, fora dos centros de poder. O samaritano, figura do excluído, é o protagonista da fé. Sua gratidão pública é um ato de resistência: ele rompe o silêncio imposto aos impuros e proclama que a graça é universal. Em tempos em que se tenta transformar Deus em instrumento ideológico, o gesto desse homem é profundamente subversivo. Ele nos lembra que o Espírito sopra onde quer e que a verdadeira fé se mede não pela pureza do rito, mas pela pureza do coração.

A psicologia também ilumina esse caminho. Os dez representam a massa que busca milagres; o samaritano é o sujeito desperto. À luz de Carl Jung, poderíamos dizer que o retorno dele é o momento da individuação espiritual — a passagem da fé coletiva e inconsciente para a consciência pessoal do dom. A gratidão é consciência desperta da graça. O ingrato permanece na sombra; o agradecido ascende à luz.

No fim, o “Levanta-te e vai!” é mais do que despedida: é envio. Aquele que voltou é agora enviado a viver a fé em movimento, como testemunha do Reino. Jesus não apenas cura corpos, mas restaura consciências, e nos ensina que a salvação é comunhão e missão.

Diante disso, cada um de nós é convidado a se perguntar: sou dos nove que seguem sem olhar para trás ou sou do único que volta para agradecer? A verdadeira fé não termina no milagre, mas começa na gratidão. E quem volta, quem reconhece o dom, torna-se ele mesmo um sinal da graça para o mundo.

A liturgia nos recorda, ano após ano, que ser curado é menos importante do que ser convertido, e que o agradecimento é o primeiro passo da vida nova. A fé que não se expressa em louvor, justiça e solidariedade é estéril. E a Igreja que não volta às periferias, como o samaritano, perde o rosto do Cristo que caminha com os impuros.

“Levanta-te e vai!” — esta palavra é dirigida hoje à comunidade que ainda vive entre fronteiras, marcada por divisões, ideologias e medos. É o convite a renascer, a sair da paralisia do medo, a ser grato, livre e servidor. Só quem reconhece que foi amado é capaz de amar. E só quem volta, de coração agradecido, descobre que o caminho para Jerusalém continua, agora dentro de si.

DNonato – Teólogo do Cotidiano


quarta-feira, 15 de outubro de 2025

Um breve olhar sobre Lucas 11,47-54

O Evangelho de Lucas 11,47-54 é proclamado na quinta-feira da 28ª semana do Tempo Comum, em meio a um ciclo de leituras que revelam a tensão entre o desígnio amoroso de Deus e a recusa humana em acolhê-lo. Nesse mesmo dia, a liturgia propõe a carta aos Efésios (1,1-10), na qual Paulo anuncia o projeto divino de recapitular todas as coisas em Cristo. É belo e provocante perceber o contraste: enquanto o Apóstolo contempla a unidade de todas as criaturas no amor, Jesus denuncia o fechamento religioso que mata os profetas. A Igreja reza, portanto, entre dois mundos — o do plano de Deus, que reconcilia, e o do coração humano, que ainda resiste.

jesus pronuncia palavras cortantes: “Ai de vós, que construís os túmulos dos profetas, mas vossos pais os mataram! Assim sois testemunhas e aprovais as obras de vossos pais” (Lc 11,47-48). O termo “ai” não é maldição, mas lamento. É a dor de Deus diante da cegueira humana. O grego ouai exprime compaixão indignada, como um suspiro de quem ama e sofre com o endurecimento do outro. Jesus não fala como juiz, mas como amante ferido: lamenta o destino de um povo que se acostumou a calar as vozes que o chamavam à conversão.O contexto é tenso: os fariseus e doutores da Lei se consideravam guardiões da tradição, mas haviam transformado a Lei em muralha. Construíam túmulos para os profetas não por veneração verdadeira, mas para controlar sua memória. Ao sepultar os profetas, sepultavam a exigência de conversão que vinha com eles. É mais fácil homenagear o mártir do passado do que escutar o profeta do presente. Assim, a hipocrisia religiosa se perpetua sob o disfarce da piedade.

A ironia de Jesus é amarga: aqueles que honram os profetas mortos são os mesmos que perseguem os vivos. O profetismo é sempre incômodo, porque desinstala, desmascara e denuncia. Do Gênesis ao Apocalipse, o fio da história bíblica é o mesmo: Deus fala, e o homem resiste. Desde o sangue de Abel até o de Zacarias, a Escritura narra uma longa genealogia da violência contra a verdade. O Evangelho de Lucas retoma essa linha para mostrar que Jesus é o ponto culminante dessa história — o último e definitivo Profeta, o Verbo que encarna a Palavra que o mundo tenta silenciar.

Mas a sabedoria de Deus é paciente. “Eu lhes enviarei profetas e apóstolos”, diz o texto, “a uns matarão e perseguirão” (Lc 11,49). Essa Sabedoria, personificada no Antigo Testamento, é expressão do Espírito que sopra onde quer. Negar o profeta é apagar o Espírito. E apagar o Espírito é sufocar o sopro mesmo da vida. Onde o Espírito é livre, há profecia; onde o Espírito é controlado, há túmulos.

O “ai” de Jesus, portanto, é também um grito pneumatológico: é o Espírito que chora dentro dele, lamentando o endurecimento humano. A profecia nasce sempre do Espírito, não da vaidade. Ela é sopro, não discurso. É fogo que aquece e queima. Por isso os profetas nunca são neutros: eles trazem o oxigênio da verdade, e o mundo os asfixia.

Sabemos que o  profeta é o mediador entre o divino e o humano. Vive a tensão entre o céu e a terra, entre a transcendência e o chão da história. Em toda cultura, ele representa a voz da alteridade — o Outro que nos convoca a sair de nós mesmos. O fariseu, ao contrário, teme a alteridade: quer um Deus espelho, não um Deus outro. Quer um Deus que confirme suas certezas, não um Deus que o desinstale. Por isso, o fariseu não suporta o profeta. A profecia é a pedagogia da alteridade: nela aprendemos que o rosto do outro é a primeira página do Evangelho.

O texto denuncia uma religião que espiritualiza a injustiça. Aqueles que matam os profetas o fazem em nome da ordem, da tradição, da pureza doutrinal. São defensores da moral, mas traidores da vida. Transformam a fé em instrumento de poder e o sagrado em moeda. É o mesmo mecanismo que sustenta, hoje, as teologias da prosperidade e do domínio. A religião-mercado vende milagres como produtos e transforma Deus em patrocinador de sucesso. É a nova idolatria: dourada, triunfalista, espetacular. Uma espiritualidade líquida, na expressão de Zygmunt Bauman, em que o sagrado se consome e se descarta conforme o humor do mercado.

O profeta, no entanto, não se curva a essa lógica. Ele não vende conforto, oferece conversão. E por isso é sempre perseguido. Quando o púlpito vira palco, o altar se torna vitrine e o Evangelho se reduz a marketing, os profetas se tornam subversivos perigosos. Mas são eles que mantêm acesa a chama da autenticidade espiritual..Do ponto de vista psicológico, o fariseísmo é o mecanismo de defesa da alma religiosa. Freud chamaria de recalque da verdade; Jung, de sombra espiritual. O ser humano teme o profeta porque ele obriga a olhar para dentro. O profeta é o espelho que revela o que escondemos sob nossas certezas. Carl Rogers diria que a autenticidade é a base da maturidade. O fariseu, então, é o imaturo espiritual — aquele que vive de máscaras, com medo da transparência. A religião, quando se torna disfarce do ego, mata o Evangelho.

Nietzsche denunciava  a religião que reprime a vida, e Jesus denunciava  exatamente isso: a fé usada para dominar. Hannah Arendt alertou que o mal se banaliza quando o coração se acostuma à injustiça. E é disso que fala o Evangelho: a banalização do mal em nome do bem. Quando a fé se torna rotina, o Evangelho morre no hábito. A palavra “ai” é o choque necessário para despertar a consciência..A patrística reconheceu a atualidade desse perigo. Santo Agostinho advertia: “Ai daqueles que amam mais a honra dos homens do que a glória de Deus, pois constroem monumentos aos santos e matam a verdade que os santos pregaram.” João Crisóstomo denunciava que os ministros da Igreja podem tornar-se cúmplices da morte espiritual do povo quando buscam prestígio em vez de serviço. Orígenes acrescentava que o profeta vive já no tempo de Deus, e por isso é sempre estrangeiro entre os homens — a história tenta domesticá-lo, mas ele fala com acento do céu.

Essa denúncia se dirige também a nós, Igreja do século XXI. O clericalismo, que o Papa Francisco tantas vezes denunciou, é a forma moderna de trancar a porta do Reino. “Ai de vós, doutores da Lei, que tomastes a chave da ciência: vós mesmos não entrastes e impedistes os que queriam entrar!” (Lc 11,52). A imagem da chave é símbolo poderoso: representa o acesso ao mistério. Quando o ministro se coloca como dono da chave, transforma a mediação em barreira. O Evangelho não precisa de guardiões, mas de testemunhas.

A Gaudium et Spes recorda que o homem só se realiza no dom sincero de si. A Evangelii Gaudium denuncia o clericalismo como desfiguração da missão. E a Fratelli Tutti amplia o horizonte: a fé só é verdadeira quando gera fraternidade. O profeta, portanto, é o guardião da comunhão. Ele reconecta o humano ao divino, o pobre ao rico, o centro à periferia. É a ponte viva entre mundos que o medo separa.

A exegese nos mostra que, após essas palavras, “os escribas e fariseus começaram a pressioná-lo fortemente e a armar-lhe ciladas” (Lc 11,53). É o início da perseguição. A luz provoca a escuridão. O mesmo Espírito que o impulsiona à verdade desperta a ira dos que preferem as trevas. Assim também na história: quanto mais o Evangelho é fiel, mais ele incomoda os poderes deste mundo. O sangue dos profetas continua a clamar da terra (Ap 6,9).

Mas mesmo entre os escombros da religião morta, o Espírito sopra. O mesmo vento que ergueu Ezequiel diante do vale de ossos secos continua a percorrer a história. Há sempre um resto fiel, um pequeno grupo que, entre feridas e esperança, resiste ao império da morte e prepara o caminho da vida. A profecia é o suspiro de Deus que insiste.

Hoje, a perseguição aos profetas se dá por meios sutis. Não se apedreja mais, mas se cancela. O martírio acontece em pixels e algoritmos. As redes sociais se tornaram tribunais públicos onde a superficialidade julga a profundidade. O Evangelho da vida é abafado pelo ruído do espetáculo. Mas o profeta continua a falar, mesmo que sua voz pareça frágil. É no sussurro do vento, e não no trovão, que Deus se revela (1Rs 19,11-13).

Há, portanto, uma dimensão espiritual que atravessa o texto: a vitória silenciosa da vida. O Reino de Deus não triunfa pela força, mas pela fidelidade. A cruz é o túmulo e o berço da profecia. No corpo transpassado de Cristo, o sangue de todos os profetas encontra sentido. O profetismo não termina no Gólgota; ressuscita com o Ressuscitado.

O cristão autêntico, portanto, é aquele que assume o risco do profeta. Ser discípulo é viver na contramão da cultura da morte. É preferir a verdade à conveniência, a compaixão ao poder, o serviço ao prestígio. É enfrentar o sistema com o poder desarmado do amor. A fé autêntica é sempre subversiva, porque nasce da liberdade interior do Espírito.

Assim, o texto de Lucas não é apenas denúncia — é também promessa. Promessa de que o Espírito continua a suscitar profetas em cada geração. Talvez não usem batina, talvez não falem em templos, talvez cantem nas ruas ou escrevam nas redes; mas sua voz é a mesma: a da Sabedoria que clama nas praças, convidando à vida. Felizes os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus.

E quando o último túmulo for aberto, quando o último profeta silenciado for reabilitado pela verdade, compreenderemos que o Reino de Deus não é o império dos poderosos, mas a comunhão dos que amam. Porque os túmulos dos profetas se tornarão berços da esperança. Toda vez que o amor renasce em meio à perseguição, o Reino da Vida rompe o silêncio da pedra e faz do sepulcro um altar de ressurreição

DNonato – Teólogo do Cotidiano

sexta-feira, 29 de agosto de 2025

Um breve olhar sobre Mateus 25, 14-30

 
O Evangelho de Mateus 25,14-30, proclamado no 21º sabado do Tempo Comum, ano  impares, e no domingo da 33ª semana do Tempo Comum no ano "A", situa-nos no cerne da escatologia cristã e na pedagogia cotidiana de Jesus. A liturgia que o coloca às portas da festa de Cristo Rei enfatiza o horizonte escatológico: somos chamados à vigilância e à responsabilidade sobre o que recebemos do Senhor. Já a leitura ferial, no sábado, insiste na aplicação prática: o Evangelho não se limita ao futuro distante, mas transforma o cotidiano, mostrando que cada instante da vida carrega a dimensão eterna. Como nos recorda a carta aos Hebreus, a Palavra de Deus é “viva e eficaz, mais cortante que qualquer espada de dois gumes” (Hb 4,12), capaz de discernir o íntimo de cada coração e de iluminar nossas escolhas diárias.

A parábola nos apresenta um homem que, ao partir em viagem, confia bens a servos, distribuindo-os “a cada um conforme sua capacidade” (Mt 25,15). A hermenêutica nos revela que não se trata apenas de valores econômicos, mas de dons existenciais, da missão confiada a cada ser humano. O talento, unidade monetária de altíssimo valor — cerca de 34 quilos de prata —, representava riqueza suficiente para sustentar uma família por anos. Jesus usa essa imagem econômica não para glorificar o capital, mas para subverter a lógica humana de acumulação: aquilo que Deus confia não deve ser enterrado, mas multiplicado em serviço, amor e generosidade. A interpretação reducionista, típica da teologia da prosperidade ou do domínio, transforma a parábola em elogio ao sucesso e à performance, reduzindo a graça a cálculo e retorno. Mas o Evangelho nos recorda que o talento simboliza tempo de vida, dom divino, Palavra do Reino, confiança de Deus; a sua multiplicação é fidelidade criativa, engajamento concreto na história da salvação.

Mateus 25,14-30 insere-se no discurso escatológico (Mt 24–25), evidenciando que a fidelidade no presente prepara o encontro final com o Senhor. A distribuição dos talentos remete a figuras do Antigo Testamento, como Noé, que, advertido sobre a inundação, precisou agir no presente (Gn 6–9; cf. Mt 24,37-39). Enterrar o talento é viver alienado, fechado, indiferente ao chamado divino. O tempo de espera é também lembrança das dez virgens (Mt 25,1-13): não basta a vigilância passiva; é necessário produzir frutos concretos. A parábola encontra paralelo ainda na narrativa dos trabalhadores da vinha (Mt 20,1-16), em que operários chamados em horários distintos recebem a mesma recompensa, subvertendo a lógica meritocrática: não é a quantidade de dons recebidos que importa, mas a fidelidade e generosidade no uso deles. O talento multiplicado, portanto, não é questão de acumulação, mas de entrega responsável. Deus distribui dons diversos, mas oferece a todos a mesma vida em plenitude. Psicologicamente, as parábolas denunciam como medo, inveja e comodismo podem bloquear a criatividade; sociologicamente, criticam a meritocracia e o individualismo; teologicamente, recordam que a fidelidade ao dom supera toda contabilidade humana. Santo Agostinho afirma: “a glória de Deus é o ser humano vivo” (Adversus Haereses IV,20,7), lembrando que a vida se realiza quando os talentos se multiplicam em gestos concretos de serviço e partilha.

O servo que enterra o talento revela uma fé marcada pelo medo. A realidade existencial mostra que o temor paralisa a ação, gera procrastinação e projeta a culpa nos outros. Ele acusa o Senhor de severidade, quando, na verdade, sua própria insegurança o paralisou. O medo espiritual é uma das maiores tentações, levando-nos a enterrar dons e a desconfiar da misericórdia divina. Irineu de Lião já dizia: “a glória de Deus é o ser humano vivo”, destacando que Deus deseja ousadia, criatividade e entrega. A não-ação é escolha e condenação silenciosa ao vazio. O Evangelho não exalta o lucro econômico; denuncia a esterilidade da vida autocentrada. Enterrar talentos é fechar-se à graça, impedir a vida de florescer. A parábola, portanto, é convite à ousadia, à multiplicação de dons, à transformação do mundo pelo serviço, pelo amor e pela fé ativa.

A parábola denuncia leituras que a transformaram em legitimação do capitalismo. Jesus não louva grandes investidores; denuncia os servos que não se implicam na construção do Reino. O Concílio Vaticano II enfatiza que “a ordem social e seu progresso devem subordinar-se ao bem da pessoa, pois a ordem das coisas deve estar subordinada à ordem das pessoas e não o contrário” (Gaudium et Spes, n. 26). Reduzir o talento a capital financeiro trai o Evangelho. O que Deus julga é a fidelidade ao dom recebido, não a quantidade acumulada. Multiplicar talentos é multiplicar justiça, partilha e solidariedade, resistindo à indiferença e à omissão, não exaltando o sucesso humano. A teologia da prosperidade, a lógica do domínio, o individualismo e a fé como mercadoria são frontalmente confrontados: a fé verdadeira se traduz em serviço, entrega e comunhão, nunca em cálculo de retorno.

A crítica ao clericalismo emerge com força. Quantos dons e carismas são enterrados pelo medo de perder poder ou pelo controle centralizado de estruturas eclesiais? O servo infiel revela uma Igreja que sufoca os leigos, desconfia das mulheres e monopoliza os carismas comunitários. O Papa Francisco adverte que “o clericalismo anula a personalidade dos cristãos, destrói a iniciativa e mata a coragem” (Discurso aos leigos da Ação Católica, 27/4/2017). O talento enterrado é criatividade contida; o talento multiplicado é a Igreja que ousa, doa-se, produz frutos concretos na história da salvação.

A patrística interpreta a parábola em chave escatológica. São João Crisóstomo via nos talentos a palavra de Deus e a graça, alertando para a necessidade de frutificar, de não permitir que a pregação se perca. Santo Agostinho aponta o servo preguiçoso como imagem daqueles que, por medo ou comodismo, calam-se diante da missão de evangelizar. Enterrar talentos é esconder a Palavra, silenciar o Evangelho. Multiplicar talentos é assumir protagonismo, sem desculpas, sem medo, com entrega total à missão de Deus. Irineu reforça: “a glória de Deus é o ser humano vivo”, indicando que a fidelidade se manifesta na ousadia criativa de viver e agir em comunhão, sendo agentes do Reino.

A parábola também revela que a liberdade humana e o sentido da existência. O talento é a vida confiada; a vida só se realiza quando se entrega. Heidegger fala do “ser-para-a-morte”, mas o Evangelho nos mostra o “ser-para-o-dom”: a existência se completa na entrega, não na preservação. O talento enterrado é vida não vivida; o talento multiplicado é vida aberta, fecunda e arriscada. A filosofia da esperança, em Ernst Bloch, ecoa aqui: o futuro se transforma quando nos engajamos, apostando na ação responsável. Esperar passivamente é morrer antes da hora; agir é transformar o mundo pelo amor e pela fidelidade.

Mateus 25,14-30 encontra ecos nos sinóticos. Lucas apresenta parábolas semelhantes sobre o uso fiel do que é confiado (Lc 19,11-27) e sobre a administração das riquezas para o Reino (Lc 16,1-13), mostrando que a lógica divina subverte a humana: não importa o tamanho do talento, mas a fidelidade ao que se recebeu. Marcos, embora menos detalhista, reforça a vigilância e a diligência (Mc 13,34-37), indicando que a fidelidade cotidiana molda o destino eterno. O paralelo com os trabalhadores chamados em horários diversos (Mt 20,1-16) lembra que não se mede generosidade ou fidelidade pelo tamanho do dom, mas pela resposta amorosa e responsável ao chamado.

A parábola questiona o individualismo e a meritocracia: não se trata de medir sucesso ou prestígio, mas de transformar dons em frutos para a comunidade. A fé não é mercadoria; é serviço, entrega e multiplicação do bem comum. Cada talento multiplicado é testemunho de justiça, solidariedade e criatividade da graça, resistindo à lógica do poder e da acumulação.

Sabemos que o talento, equivalente a 34 quilos de prata, representava riqueza considerável; porém, Jesus desloca o foco da economia para a ética e a responsabilidade moral. A antropologia confirma: o ser humano é chamado a corresponder ao dom recebido, viver em comunidade e agir com coragem. Psicologia e filosofia convergem aqui: superar medo e passividade é condição para realização pessoal e comunitária. A parábola é, portanto, pedagogia integral: viver de forma responsável, ativa e frutífera é a resposta ao chamado divino.

Esse  evangelho  nos recorda que a cada um de nós o Senhor confiou talentos, dons e virtudes que se multiplicam na medida em que os colocamos a serviço da comunidade. O Senhor rico é Jesus, que nos deixou seus bens — ensinamentos, Palavra, graça — para que façamos deles sementes de transformação. O tempo de espera é nossa vida no mundo; cada gesto de fidelidade, cada ato de serviço, cada multiplicação do talento é um passo na construção do Reino. No dia final, seremos chamados a prestar contas, não pela quantidade, mas pela fidelidade, coragem e amor com que usamos o dom recebido. Pouco ou muito, tudo que se doa pelo bem do próximo se multiplica e ecoa na eternidade.

A vida, como nos ensina a parábola, é oportunidade de ousar, servir, multiplicar e amar, até que o Senhor volte e nos receba como servos bons e fiéis, multiplicadores de Sua graça. Cada talento transformado em ação concreta é testemunho de uma fé que se encarna, se entrega e se arrisca, construindo justiça, comunhão e esperança. O Evangelho nos desafia: não é a quantidade que mede a fidelidade, mas a generosidade com que acolhemos a graça, a coragem de agir com amor e a ousadia de viver cada dia como multiplicadores dos dons recebidos. Que sejamos servos bons e fiéis, que não enterrem talentos, mas façam da vida um contínuo dom para Deus e para a humanidade, manifestando na prática o Reino que já começou e que um dia se consumará em plenitude.

DNonato - Teólogo do Cotidiano