quarta-feira, 11 de março de 2026

Um breve olhar sobre Mateus 5,17-19

 
Na liturgia da Igreja, o trecho de Mateus 5,17-19 aparece em momentos particularmente significativos da vida espiritual da comunidade cristã. Um deles ocorre na Quarta-feira da terceira semana da Quaresma, quando a Igreja, já avançada no caminho penitencial rumo à Páscoa, convida os fiéis a refletirem sobre a fidelidade à vontade de Deus e sobre o sentido profundo da Lei divina. O outro momento ocorre no 6º Domingo do Tempo Comum do Ano A, quando a liturgia proclama Mateus 5,17-37 ou, na forma breve, Mateus 5,17-20. Nesse contexto dominical, o texto funciona como porta de entrada para as antíteses do Sermão da Montanha, nas quais Jesus aprofunda o sentido dos mandamentos. Também nas tradições das Igrejas históricas, como as Igrejas Ortodoxas, Anglicanas e Luteranas, essa passagem aparece no contexto da leitura contínua do Evangelho de Mateus e nas catequeses sobre a ética do Reino de Deus. Assim, trata-se de uma palavra que atravessa a tradição cristã e permanece viva na memória litúrgica da Igreja.

O evangelista Mateus coloca essa afirmação de Jesus dentro do grande discurso conhecido como Sermão da Montanha, narrado nos capítulos 5 a 7. O cenário da narrativa não é casual. Jesus sobe à montanha, senta-se e começa a ensinar. No mundo bíblico, a montanha é lugar de revelação, espaço onde Deus se manifesta e onde a história humana encontra uma abertura para o mistério divino. Foi numa montanha que:  

  •  Moisés encontrou Deus e recebeu a Lei da aliança (Ex 19,3; Ex 24,12).
  • Elias experimentou a presença divina no murmúrio suave do vento (1Rs 19,11-13).
 A montanha torna-se, assim, símbolo da proximidade entre céu e terra, lugar onde a Palavra de Deus se revela e orienta a vida do povo. Ao colocar Jesus ensinando sobre uma montanha, Mateus sugere que estamos diante de um novo momento da revelação, não como ruptura com o passado, mas como sua plenitude. Essa imagem será retomada mais tarde quando o próprio Jesus sobe outra montanha para revelar sua glória na transfiguração diante de Pedro, Tiago e João (Mt 17,1-5). A montanha aparece novamente no final do Evangelho, quando o Ressuscitado envia seus discípulos em missão universal (Mt 28,16-20). A geografia do Evangelho, portanto, torna-se uma narrativa teológica. Em cada montanha encontramos um momento decisivo da revelação.

A comunidade para a qual Mateus escreve vive provavelmente nas últimas décadas do primeiro século, em um ambiente profundamente marcado pelas tensões entre cristãos de origem judaica e o judaísmo rabínico que se reorganizava após a destruição de Jerusalém no ano 70. Nesse contexto, surgia uma questão central: qual era a relação entre Jesus e a Lei de Moisés? Alguns poderiam pensar que seguir Jesus significava abandonar a tradição de Israel. Outros poderiam imaginar que a observância da Lei bastava sem necessidade de acolher a novidade do Evangelho. É nesse cenário que Jesus declara com clareza: “Não penseis que vim abolir a Lei ou os Profetas. Não vim abolir, mas dar pleno cumprimento” (Mt 5,17). A expressão “Lei e Profetas” era uma maneira tradicional de designar toda a Escritura de Israel. Jesus afirma, portanto, que sua missão não destrói a revelação anterior. Ao contrário, ele a leva à sua plenitude. O verbo grego utilizado por Mateus, plēroō, significa completar, preencher, levar ao sentido pleno aquilo que estava em processo. A história da salvação não é um conjunto de fragmentos desconectados. Ela é uma caminhada na qual Deus conduz seu povo gradualmente para uma compreensão mais profunda de sua vontade.

Para compreender a força dessa afirmação é necessário recordar o papel da Lei na vida do povo de Israel. A Torá não era vista como um peso, mas como dom de Deus. O livro do Deuteronômio recorda que os mandamentos foram dados para que o povo tivesse vida e prosperasse (Dt 30,15-16). O salmista proclama que a Lei do Senhor é perfeita e revigora a alma (Sl 19,8). O Salmo 119 celebra a Palavra divina como lâmpada que ilumina o caminho humano (Sl 119,105). A Lei expressava a aliança entre Deus e seu povo, indicando o caminho da justiça, da solidariedade e da fidelidade. Entretanto, ao longo da história, a observância da Lei podia ser reduzida a um formalismo religioso que esquecia a justiça. Por isso os profetas levantaram sua voz contra o culto vazio. Isaías denuncia aqueles que multiplicam sacrifícios enquanto ignoram o sofrimento dos pobres (Is 1,13-17). Amós proclama que Deus rejeita festas religiosas quando o direito é pisoteado e a justiça é vendida por dinheiro (Am 5,21-24). Miquéias pergunta o que o Senhor exige do ser humano e responde de maneira simples e profunda: praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com Deus (Mq 6,8). Oseias afirma que Deus quer misericórdia e não sacrifícios (Os 6,6), palavra que Jesus retomará explicitamente em seu ministério (Mt 9,13; Mt 12,7).

Jesus se insere nessa tradição profética e a leva ao seu ponto culminante. Ele afirma que nem um iota, nem um pequeno traço da Lei passará até que tudo se cumpra (Mt 5,18). O iota representa a menor letra do alfabeto grego, equivalente ao yod hebraico. O traço refere-se às pequenas marcas gráficas que distinguem letras semelhantes. A imagem revela a seriedade da revelação divina. Nada da vontade de Deus é insignificante. Contudo, Jesus também mostra que a verdadeira fidelidade à Lei não se reduz à observância exterior. Nos versículos seguintes do Sermão da Montanha ele apresenta uma série de ensinamentos que aprofundam radicalmente o sentido dos mandamentos. Não basta evitar o homicídio; é necessário reconciliar-se com o irmão (Mt 5,21-24). Não basta evitar o adultério; é preciso purificar o olhar e a intenção (Mt 5,27-28). Não basta jurar em nome de Deus; a palavra do discípulo deve ser verdadeira por si mesma (Mt 5,33-37). Em outras palavras, Jesus desloca o centro da moralidade do exterior para o interior.

Essa transformação interior já havia sido anunciada pelos profetas. Jeremias fala de uma nova aliança na qual a Lei será escrita no coração das pessoas (Jr 31,31-33). Ezequiel anuncia que Deus dará um coração novo e colocará um espírito novo dentro do povo (Ez 36,26-27). A fidelidade à vontade divina não será mais apenas uma questão de normas externas, mas de uma vida interior renovada pela ação de Deus. Os evangelhos sinóticos convergem nessa compreensão. Em Marcos 12,29-31, Jesus resume toda a Lei no mandamento do amor a Deus e ao próximo. Em Lucas 10,25-28, um doutor da Lei reconhece que esse é o caminho da vida eterna. A parábola do bom samaritano (Lc 10,29-37) revela que a verdadeira observância da Lei se manifesta na compaixão concreta que ultrapassa barreiras religiosas e culturais.

A reflexão da Igreja primitiva aprofundou essa compreensão. O apóstolo Paulo afirma que quem ama o próximo cumpriu a Lei (Rm 13,8-10). Em outra passagem ele escreve que toda a Lei se resume neste mandamento: amarás o teu próximo como a ti mesmo (Gl 5,14). Para Paulo, Cristo é o fim da Lei no sentido de sua plenitude (Rm 10,4). A Lei não desaparece, mas encontra seu sentido último na vida nova inaugurada por Jesus. As leis possuem um papel essencial na organização da vida humana. Elas regulam relações, protegem direitos e oferecem parâmetros para a convivência. Entretanto, a história demonstra que sistemas legais podem ser manipulados para manter privilégios ou justificar injustiças. A Bíblia apresenta uma crítica permanente a essa distorção. A Lei de Deus não existe para proteger poderosos, mas para defender a vida, especialmente a vida dos mais vulneráveis.

Por isso a legislação de Israel inclui normas claras em favor do estrangeiro, do órfão e da viúva (Dt 10,18-19). O livro do Levítico ordena que o estrangeiro seja tratado como cidadão, pois o próprio povo de Israel foi estrangeiro na terra do Egito (Lv 19,33-34). A memória da libertação torna-se fundamento da ética social. Essa sensibilidade atravessa toda a Escritura. O Salmo 146 proclama que Deus faz justiça aos oprimidos e dá pão aos famintos. O cântico de Maria anuncia que Deus derruba poderosos de seus tronos e eleva os humildes (Lc 1,52-53). Jesus proclama felizes os pobres, os mansos e os que têm fome de justiça (Mt 5,3-6). No julgamento final descrito em Mateus 25,31-46, o critério decisivo será o cuidado com os pequenos, os famintos, os estrangeiros e os prisioneiros.

O Concílio Vaticano II retomou essa dimensão ao afirmar que as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias da humanidade são também as alegrias e esperanças dos discípulos de Cristo (Gaudium et Spes 1). Cristo revela plenamente o ser humano ao próprio ser humano e manifesta sua vocação mais profunda (GS 22). A fé cristã não pode ser separada do compromisso com a dignidade humana. Na América Latina, documentos pastorais como Medellín, Puebla e Aparecida aprofundaram essa visão. Eles recordam que a opção preferencial pelos pobres nasce da própria lógica do Evangelho e da prática de Jesus. A fé cristã não pode ser reduzida a uma experiência privada. Ela possui consequências sociais e históricas.

Quando a religião se distancia desse horizonte, corre o risco de ser instrumentalizada por projetos de poder. Ao longo da história, discursos religiosos foram utilizados para justificar dominação política, exclusão social e violência. Jesus denunciou com vigor essas distorções. Ele criticou líderes religiosos que colocavam fardos pesados sobre o povo enquanto buscavam prestígio e reconhecimento (Mt 23,4-7). Também denunciou aqueles que honram a Deus com os lábios enquanto o coração está distante (Mt 15,8). Em muitos contextos contemporâneos, a manipulação religiosa continua sendo um problema grave. Discursos que usam símbolos cristãos para legitimar projetos autoritários ou ideologias de exclusão contradizem profundamente o Evangelho. Jesus ensinou que quem quiser ser grande deve tornar-se servo (Mc 10,42-45) e afirmou que seu Reino não se constrói pela lógica do poder deste mundo (Jo 18,36).

Outro desafio recorrente é o clericalismo, quando a autoridade religiosa se transforma em privilégio ou dominação. Jesus advertiu seus discípulos a não buscarem títulos de poder, pois todos são irmãos (Mt 23,8-11). A verdadeira liderança cristã reflete o serviço humilde daquele que lava os pés de seus discípulos (Jo 13,12-15). A teologia da prosperidade também representa uma distorção da mensagem bíblica ao reduzir a fé a promessa de sucesso material. O Evangelho apresenta um caminho diferente. Jesus adverte contra a idolatria do dinheiro (Mt 6,24) e ensina que a vida não depende da abundância de bens (Lc 12,15). A comunidade cristã primitiva vivia a partilha de seus bens como expressão concreta da fraternidade (At 2,44-45).

A palavra de Mateus 5,17-19 continua profundamente atual diante das crises do mundo contemporâneo. Vivemos em uma sociedade marcada por desigualdades profundas, violência estrutural e busca intensa por sentido. Muitas pessoas procuram na religião respostas para suas inquietações, torna a bíblia um livro moralista e  manual de  comportamento um livro de proibição. O Evangelho oferece uma visão integrada da vida humana, mostrando que a fidelidade a Deus se manifesta em escolhas concretas que promovem justiça, solidariedade e misericórdia. A Quaresma, contexto litúrgico em que este Evangelho é proclamado, convida a uma conversão que alcança as profundezas do coração. O profeta Joel exorta o povo a rasgar o coração e não apenas as vestes (Jl 2,13), recordando que Deus não se contenta com aparências religiosas, mas deseja uma transformação verdadeira da vida. Essa conversão se manifesta em atitudes concretas de justiça, misericórdia, reconciliação e solidariedade.

Quando Jesus declara que não veio abolir a Lei, mas levá-la à sua plenitude, revela que toda a vontade de Deus converge para o amor. A Lei encontra seu sentido mais profundo quando promove a vida, restaura a dignidade humana e fortalece a comunhão entre as pessoas. Por isso, a fidelidade ao Evangelho não se reduz ao cumprimento de normas, mas se expressa no compromisso cotidiano com o Reino de Deus. Em um mundo marcado por desigualdades, violências e indiferenças, os discípulos de Cristo são chamados a ser sinais vivos da esperança. Cada gesto de compaixão, cada defesa da verdade, cada esforço pela paz e pela dignidade dos mais vulneráveis torna visível a presença de Deus na história. A Palavra de Deus permanece viva e eficaz (Hb 4,12), iluminando os caminhos da humanidade e renovando os corações. Quem a acolhe descobre que os mandamentos não são pesos que escravizam, mas caminhos de liberdade, porque conduzem ao amor que vem de Deus, transforma a vida e faz florescer, já neste mundo, os sinais do seu Reino.

 

DNonato  - Teólogo do cotidiano 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Obrigado pelo seu comentário.