domingo, 23 de novembro de 2025

Um breve olhar sobre Lucas 21,1-4

O Evangelho  da segunda-feira  da 34ª Semana.do tempo comum  nos  trás o   horizonte silencioso da última semana do Ano Litúrgico, quando a Igreja nos conduz ao limiar escatológico em que tudo é avaliado à luz do definitivo, o Evangelho de Lucas apresenta uma cena aparentemente discreta, quase mínima, mas que contém uma das maiores explosões teológicas da Escritura. Jesus se senta diante do tesouro do Templo e observa. Não age, não discursa, não performa, não chama a atenção. Apenas observa. Como se toda a história da salvação estivesse condensada na direção do seu olhar. Como se o juízo final começasse ali, naquele instante em que Deus, feito carne, contempla o que os seres humanos oferecem diante do sagrado.

Os ricos passam e depositam suas moedas com barulho. A sonoridade metálica das ofertas reverbera nas trombetas do gazofilácio, e o Templo, acostumado a transformar religião em espetáculo, parece celebrar aquele som. Mas Jesus não se deixa seduzir pelo ruído. Ele enxerga o que não faz barulho. Ele escuta o que não produz som. Ele percebe o que ninguém nota. E então vem a viúva — símbolo bíblico da vulnerabilidade absoluta — e deposita duas pequenas moedas. Nada que faça diferença no sistema. Nada que sustente o Templo. Nada que cause impacto econômico. Nada que transforme a instituição. Mas tudo que ela tem. Toda a sua vida. Todo o seu coração.

A tensão entre o olhar de Jesus e o olhar da religião institucional atravessa todo o Evangelho. O Templo, construído para ser o lugar da presença de Deus, havia se transformado em lugar de sacralização da desigualdade, legitimação da riqueza e invisibilização dos pobres. Os profetas antigos haviam denunciado isso exaustivamente: Isaías 1, com seu grito contra o culto vazio; Amós 5, com o terremoto que desmonta a liturgia hipócrita; Jeremias 7, com o famoso “Templo do Senhor” que se torna covil de ladrões. O gesto da viúva encarna exatamente esse conflito. Sua oferta é profecia silenciosa contra o Templo que deveria sustentá-la e, no entanto, consome até o que ela tem para viver.

A antropologia bíblica reconhece na viúva uma figura-chave: aquela que não tem quem a defenda, cuja vida depende da justiça dos outros, cuja sobrevivência está ligada à fidelidade da comunidade. Javé, no Antigo Testamento, se apresenta como protetor de viúvas e órfãos. Negligenciar uma viúva não é apenas negligenciar um ser humano; é desprezar o próprio Deus. Por isso, quando Jesus observa aquela mulher, Ele não está fazendo louvor à miséria nem incentivando que pessoas vulneráveis se desfaçam de seus últimos recursos. Ele está denunciando um sistema que exibe abundância e religiosidade, mas que produz pobreza. Ele está revelando a perversidade de uma estrutura que, ao invés de socorrer, suga. Ao invés de levantar, pesa. Ao invés de proteger, expõe. Ao invés de devolver dignidade, a recolhe para si.

No universo bíblico, a figura da viúva ocupa um lugar teológico central, não por sentimentalismo, mas porque nela se revela a tensão entre a promessa de Deus e a dureza das estruturas humanas. A viúva é símbolo da vulnerabilidade extrema, daquela que perdeu proteção jurídica, social e econômica, e cuja vida depende totalmente da justiça da comunidade — e, por isso mesmo, se torna lugar privilegiado da ação divina. A Escritura está repleta de viúvas que encarnam essa dinâmica: a viúva de Sarepta, que reparte o último pão com Elias e vê o milagre brotar justamente no limite da carência; a viúva de Naím, que chora o filho morto e experimenta em Jesus o Deus que devolve a vida onde já não havia esperança; a viúva insistente da parábola, que enfrenta o juiz injusto e revela que a fé é uma perseverança que desarma estruturas corruptas; a viúva que hospeda Eliseu e, na sua generosidade, recebe a visita do impossível; Judite, viúva que se levanta como defensora do povo e vence poderes militares com a coragem de quem confia radicalmente no Senhor; e até mesmo a figura coletiva das viúvas do Antigo Testamento, constantemente mencionadas como critério de fidelidade à aliança — porque proteger uma viúva era entrar em sintonia com o coração de Javé, enquanto oprimi-la era violar o próprio Deus. Nesse horizonte, a viúva do Evangelho não está sozinha: ela é parte dessa linhagem silenciosa e profética de mulheres que, na sua fragilidade, se tornam sacramento vivo da justiça divina e revelam que a verdadeira fé nasce sempre da confiança absoluta no Deus que sustenta aqueles que o mundo insiste em descartar.

O contraste entre os ricos e a viúva não é simplesmente econômico; é existencial. Os ricos dão do que sobra; a viúva dá do que falta. Os ricos doam sem tocar na própria segurança; ela entrega aquilo de que depende para continuar viva. A generosidade dos ricos é cálculo. A generosidade da viúva é confiança. O gesto dos ricos é sustentado pela necessidade de reconhecimento — um culto autocentrado que sempre necessita de plateia. O gesto da viúva é sustentado por uma liberdade interior que dispensa testemunhas. Seu ato não é performance. É entrega integra. É o contrário do narcisismo religioso que busca ser visto, aplaudido, fotografado, curtido.

A psicologia profunda ajuda a compreender essa liberdade. O gesto dos ricos nasce do falso self, para usar a linguagem de Winnicott — uma imagem construída, protegida, blindada, que vive para evitar desconfortos e se proteger da verdade. A viúva age a partir do verdadeiro self, que não precisa da aprovação do outro para existir. Ela doa não para ser vista, mas porque é inteira. Não para ser reconhecida, mas porque ama. Não para merecer, mas porque confia. Seu gesto rompe as defesas que mantêm a maioria dos religiosos presos à segurança e à ilusão. Ela abandona a necessidade de controle. Entrega-se ao mistério.

A filosofia do dom ilumina ainda mais este episódio. Marcel Mauss ensinou que o dom, em sociedades humanas, funciona pela lógica da reciprocidade: dar, receber, retribuir. O gesto da viúva rompe esse ciclo. Ela dá sem poder receber. Ela oferece sem esperar retorno. Sua ação transgride a economia religiosa do “do ut des”, que movimenta tantos templos, tantas teologias, tantas campanhas de prosperidade que exigem retorno imediato. Derrida ensina que o dom só é dom se for impossível de ser devolvido. A viúva oferece exatamente isso: o impossível. E Lévinas diria que ela encarna o rosto do outro em sua pureza ética, porque sua oferta nasce da responsabilidade infinita, não da busca de benefício.

A patrística ecoa com força esta cena. Crisóstomo dizia que quem não vê Cristo nos pobres não O verá no altar. Basílio afirmava que o acúmulo é roubo quando há necessitados à porta. Agostinho lembrava que Deus pesa corações, não bolsas. Orígenes ensinava que a leitura espiritual da Escritura só acontece quando abandonamos a tentação de acumular méritos. A viúva se encontra na confluência desses Padres: ela transforma o pouco em tudo, o quase nada em epifania, a fragilidade em lugar da revelação divina.

A sociologia do Templo também precisa ser aprofundada para compreender o impacto do gesto. O Templo não era apenas lugar de culto; era centro econômico, político e financeiro. Funcionava como banco central da Judeia, arrecadando tributos pesados, movimentando fortunas, sustentando o luxo da aristocracia sacerdotal. O sistema empurrava os pobres à margem e, ao mesmo tempo, os obrigava a manter o mesmo sistema que os oprimia. As caixas em forma de trombeta amplificavam o som das moedas, transformando caridade em espetáculo. Nesse cenário, o gesto da viúva é profundamente subversivo. Ela não oferece valor econômico; oferece desestabilização simbólica. Seu gesto não reforça o sistema; denuncia sua perversidade. Não contribui para o poder; revela sua inconsistência. E Jesus, ao elogiar a viúva, sela o veredicto contra o Templo, preparando o anúncio de sua queda em Lucas 21,6.

A  crítica ao nosso tempo é inevitável. A teologia da prosperidade transforma fé em investimento, Deus em serviço financeiro, igreja em empresa e o pobre em fracasso pessoal. A extrema-direita religiosa sequestra símbolos cristãos para sustentar projetos de poder, militarização da fé, idolatria política e violência cultural. O clericalismo transfigura pastores, padres e líderes religiosos em celebridades, transformando o Evangelho em palco. A religião espetáculo prefere luzes, efeitos, gritaria, marketing e curtidas ao silêncio da viúva, que só Deus vê. A fé convertida em produto exige devotos consumidores e líderes empreendedores — uma lógica diametralmente oposta ao gesto da mulher que entrega tudo sem esperar nada.

A viúva nos devolve ao essencial: a fé que se faz vulnerabilidade, não garantia; dom, não barganha; verdade, não aparência. Em sua fragilidade a Palavra encontra morada. No seu risco, o Reino se revela. No seu silêncio, Deus fala. A Escritura inteira parece convergir para ela. Ela é parente espiritual da viúva de Sarepta que reparte o último punhado de farinha com Elias; ecoa a viúva que bate à porta do juiz injusto até conquistar justiça; se aproxima da viúva que chora o filho morto e recebe de Jesus a restituição da vida; dialoga com Ana, que entrega Samuel ao Senhor sem nada guardar para si. Ela é parte dos pobres de Javé, o pequeno resto que permanece quando tudo parece ruir — os anawim que confiam totalmente em Deus porque não têm mais em que se apoiar.

A espiritualidade da entrega total que ela encarna se torna ainda mais potente quando percebemos seu paralelo com o mistério pascal. Assim como ela entrega toda sua vida, Jesus também entregará toda a Sua. A expressão “deu tudo o que tinha para viver” ressoa como antecipação da hora em que o Filho entregará o espírito. A viúva é sombra da cruz. A cruz é plenitude da viúva. A entrega dela antecipa a entrega d’Ele; a entrega d’Ele consuma a entrega dela. Ela é igreja em miniatura: pobre, vulnerável, fiel, inteira, entregue.

O olhar de Jesus é um fio condutor para uma meditação mais profunda. Ele se senta diante do tesouro do Templo como quem se senta diante do coração humano. Ele observa o que depositamos em segredo — aquilo que oferecemos e aquilo que escondemos. Ele vê nossas moedas barulhentas, nossas performances religiosas, nossas máscaras bem polidas, nossos rituais impecáveis, nossas virtudes calculadas. Mas Seu olhar repousa mesmo é no pequeno gesto que brota da verdade, no ato que nasce do amor, na entrega que não busca retorno. Ele vê quando damos muito, mas também vê quando damos pouco fingindo que é muito, e vê, sobretudo, quando damos tudo em silêncio.

No final do Ano Litúrgico, esse Evangelho se torna espelho escatológico. Ele nos convida a encerrar o ciclo não com grandes resoluções, mas com fidelidade concreta. Não com promessas vazias, mas com entrega real. Não com religiosidade barulhenta, mas com silêncio verdadeiro. Ele nos chama a ser como a viúva: inteiros, vulneráveis, verdadeiros, confiantes. Ele nos convoca a colocar no tesouro da vida aquilo que realmente nos custa, aquilo que nos desinstala, aquilo que tocamos com receio, aquilo que evitamos entregar porque revela quem somos.

O Gesto da viúva nos interpela profundamente: o que estamos oferecendo a Deus? Não em quantidade, mas em verdade. Não em moeda, mas em vida. Não em aparência, mas em confiança. Não em palavras, mas em entrega. Não em planos, mas em vulnerabilidade.

A viúva nos chama a abandonar aquilo que sobra — porque o Reino nunca se construiu com sobras. Nos convida a permitir que Deus toque no lugar onde somos frágeis — porque é justamente aí que a graça se derrama. Nos lembra que a fé verdadeira acontece quando deixamos de controlar tudo — porque só assim podemos receber o dom que não se compra.

A viúva rasga tudo isso. Ela é a anti-propaganda. A anti-mídia. A anti-ostentação. Ela aparece no fim do ano litúrgico para nos ensinar que a fé não é aquilo que exibimos, mas aquilo que entregamos. Não é aquilo que sobra, mas aquilo que sustenta. Não é brilho, é verdade.

Ao final, este Evangelho não nos pergunta quanto damos, mas o que resta depois que damos. Pergunta se nossa entrega toca o coração ou apenas o bolso. Se nossa fé toca nossa vida ou apenas nossa agenda. Se damos sem nos dar ou se damos a vida inteira. A viúva, discípula perfeita sem saber que era, entrega tudo — e por isso antecipa Cristo. O pouco dela é muito porque nasce do amor. O nada dela é tudo porque nasce da totalidade. Ela é pobre, mas é rica do único tesouro que não passa: a confiança em Deus.

No fim, ela nos ensina que o Evangelho não exige muito; exige tudo. E esse tudo, na maior parte das vezes, cabe em duas pequenas moedas

Que esta mulher nos ensine a medir nossa vida não pelo que temos, mas pelo que oferecemos; não pelo que mostramos, mas pelo que somos; não pelo barulho que fazemos, mas pelo silêncio que deixamos Deus habitar.

E que nossa vida, como a dela, seja dom.

DNonato – Teólogo do Cotidiano

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