Precisamos saber que Jesus começa o discurso em Lucas 21 mostrando que o Templo — orgulho religioso e nacional — ruirá (v. 5-11). Logo após a cena da oferta da viuva ( v. 1-4) Depois anuncia que os discípulos também sofrerão perseguições (v. 12-19). E, finalmente, atinge o ponto máximo: (v.20-28) onde Jerusalém inteira entrará em colapso que se divide em duas partes (v. 20-24) e ( v. 25-28). Sendo que (v 20-24) anunciando que toda a cidade humana construída sobre poder, violência e autoengano é instável. O desmoronar do Templo, a perseguição aos cristãos e a queda de Jerusalém não são três temas diferentes, mas um único movimento: a revelação progressiva de que tudo o que não é Reino desaba. Nos versículos 25-28, Jesus eleva o olhar para além da História, mostrando que, no meio do caos das nações e do estremecer das estruturas, o Filho do Homem vem com poder e glória — não para destruir, mas para libertar. Por isso, enquanto o mundo se desespera, os discípulos erguem a cabeça: no colapso da falsa segurança nasce a verdadeira esperança.
Quando Jesus anuncia a destruição de Jerusalém, ele toca no ponto mais sensível da identidade de seu povo. A cidade santa era mais que um lugar: era memória, promessa, encontro, templo vivo da esperança. Mas o aviso de Jesus não vem como um anúncio de fatalismo ou terror apocalíptico, e sim como a denúncia de uma realidade que Israel já conhecia bem desde os profetas: quando a justiça é traída, quando a fé vira espetáculo, quando a religião se alia ao poder opressor e ao conforto dos poderosos, o templo deixa de ser casa de oração para todos os povos e se converte em pedra sem alma. A advertência de Jesus ecoa Ezequiel, ecoa Jeremias, ecoa Miqueias — todos aqueles que denunciaram a tentação de transformar a fé em garantia mágica ou escudo para legitimar injustiças. O discurso de Jesus em Lucas 21 não é, portanto, um filme de desastre, mas a revelação de um conflito espiritual profundo: quando a cidade escolhida abandona a justiça, sua ruína se torna consequência natural, não castigo arbitrário. Quando Jesus diz “quando virdes Jerusalém cercada por exércitos, sabei que a sua devastação está próxima”, ele está interpretando a história à luz de Deus e mostrando que a fé não imuniza ninguém contra os frutos de suas escolhas.
A profecia se cumpre no ano 70, quando Tito cerca Jerusalém, e o templo é destruído. Mas Lucas escreve décadas depois, reinterpretando esse trauma à luz do Cristo ressuscitado. Seu objetivo não é manter o trauma, mas purificá-lo. A destruição do templo, que para muitos significou o fim do mundo, é interpretada pela comunidade cristã como passagem, como parto doloroso que abre novas possibilidades. Lucas liga esse evento ao conjunto das “dores de parto” de que falam Isaías e Jesus, dores que antecedem a manifestação plena de Deus. O apocalipse bíblico nunca é destruição pelo prazer de destruir; é revelação — apokálypsis — retirada do véu, desnudamento do que realmente está escondido. Por isso Lucas escreve que, diante desses fatos, “levantai-vos e erguei vossas cabeças, porque a vossa libertação está próxima”. O apocalipse cristão não é convite ao medo, mas à vigilância. Não é convite ao pânico, mas à esperança ativa.
Nesse discurso, Jesus revela que a história não é neutra. As escolhas humanas abrem caminhos que podem conduzir à vida ou à morte. É o eco de Deuteronômio: “Escolhe, pois, a vida” (Dt 30,19). A destruição de Jerusalém não é o fim do mundo, mas o fim de um mundo que recusou o caminho de Deus. E aqui podemos ouvir também a lógica dos profetas: quando o povo prefere aliança com impérios, quando se curva ao poder dominador, quando transformam o templo em mercado e o culto em espetáculo, a ruína é inevitável. Isaías denunciou os que “fazem do direito uma amargura” (Is 5,20). Jeremias denunciou os que repetem “Templo do Senhor, Templo do Senhor”, como se a repetição de fórmulas religiosas dispensasse a justiça. Jesus, herdeiro dessa tradição, denuncia o mesmo: a fé que se torna ideologia, arma ou álibi morre por dentro.
Há aqui também um elemento profundamente sociológico. A Jerusalém do primeiro século estava tensionada por fanatismos, milícias religiosas, líderes sedentos por poder, grupos que queriam impor a fé pela violência, e uma elite sacerdotal aliada aos interesses romanos. A cidade estava polarizada, fragmentada, tomada por discursos inflamados e por uma religiosidade que, muitas vezes, servia mais para manter privilégios do que para conduzir o povo à justiça. Qualquer semelhança com nosso tempo não é coincidência: o texto é espelho. Vivemos um tempo em que a extrema-direita se apropria da linguagem religiosa para instaurar medo, ódio e idolatria política. Repetem o nome de Deus enquanto defendem armas, violência, desprezo aos pobres e autoritarismos. Usam a Bíblia como escudo para seus projetos de poder, tal como os grupos zelotes usavam a Lei como pretexto para violência. Lucas 21, então, soa como denúncia a esses que instrumentalizam a fé para legitimar domínios, sejam eles políticos, econômicos ou religiosos. O anúncio da destruição de Jerusalém é, também, denúncia da destruição que acontece quando a fé se prostitui ao poder.
A teologia lucana, sempre marcada pela misericórdia e pelo acolhimento aos pobres, vê nesse discurso uma pedagogia de Deus. A história se move entre tensões, e o cristão não pode se assustar com isso. As guerras, terremotos, perseguições, sistemas injustos e crises não são sinais de que Deus abandonou o mundo, mas de que o mundo resiste ao projeto de Deus. Cristo não convida seus discípulos a fugir do mundo, mas a discerni-lo. Por isso, no mesmo capítulo, Jesus diz que serão perseguidos, entregues às autoridades, julgados diante de reis. A fé madura não busca conforto, busca verdade; não procura palcos, procura fidelidade; não vive de likes, vive de coerência. A Igreja que se alinha à lógica do espetáculo, da prosperidade, do domínio e da autopromoção perde sua alma. A crítica profética aqui é direta: Jesus não veio oferecer religião como entretenimento, mas como cruz, caminho e libertação. A teologia da prosperidade, que reduz Deus a gerente de bênçãos e o Evangelho a plano de sucesso pessoal, está tão distante de Lucas 21 quanto os sacerdotes corruptos estavam distantes dos profetas.
O magistério da Igreja também ilumina este texto. Gaudium et Spes 63–66 denuncia os sistemas econômicos que colocam o lucro acima da pessoa, que transformam o ser humano em instrumento e não fim. Quando Jesus fala da desordem do mundo, ele não está descrevendo apenas catástrofes naturais, mas catástrofes sociais: desigualdade, desumanização, opressão estrutural. Evangelii Gaudium rejeita a economia que mata, a política que manipula, a religião que anestesia. Fratelli Tutti denuncia a cultura da indiferença e dos muros. Tudo isso converge para a mesma visão: o apocalipse não é espetáculo, é diagnóstico. Apocalipse é aquilo que vemos quando deixamos de ser ingênuos. O discípulo não teme a verdade, porque a verdade liberta.
Santo Agostinho via na queda de Jerusalém o símbolo da queda de todo coração que se fecha à graça. Orígenes afirmava que o verdadeiro templo é o coração convertido e que a devastação começa quando esse templo interior se corrompe. Crisóstomo alertava contra o uso político da religião, dizendo que “não há nada mais terrível do que um lobo vestido de pastor”. E Basílio denunciava os ricos acumuladores que, como os líderes do templo antes de sua queda, guardam para si aquilo que pertence aos pobres. Os Padres nos lembram que Lucas 21 é também um espelho pessoal: cada um de nós carrega uma Jerusalém interior que precisa ser purificada.
No âmbito psicológico e antropológico, o discurso de Jesus nos ajuda a entender como funcionam os ciclos de ansiedade coletiva. Períodos de crise — política, moral, econômica — geram medo e, com o medo, surgem discursos de salvação rápida. As pessoas buscam líderes fortes, messias políticos, salvadores da pátria. Buscam respostas simplistas para problemas complexos. Muitos caem no fanatismo porque o fanatismo oferece a ilusão da certeza total. Mas Jesus diz: não sigam esses que dizem “o tempo está próximo”, porque eles instrumentalizam o medo. O discípulo verdadeiro não se deixa manipular por terrorismo religioso, nem por apelos de desespero. Fé madura é fé que não confunde discernimento com paranoia.
Quando Jesus diz “haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas”, ele usa a linguagem simbólica típica dos profetas. No AT, essas imagens expressam mudanças radicais na ordem política e social. Não significam necessariamente o colapso literal do universo, mas o colapso de sistemas injustos. Isaías usa essa linguagem quando fala da queda da Babilônia (Is 13). Ezequiel usa quando fala da queda do Egito (Ez 32). Joel usa quando fala da purificação de Israel (Jl 2). Jesus, portanto, está anunciando que o mundo velho — injusto, opressor, violento — será desmascarado. O céu que treme é o sistema que cai. A natureza que estremece é o poder que se abala. Quando Lucas diz que “as potências do céu serão abaladas”, ele ecoa Daniel 7 e o Filho do Homem que recebe o reino não pela força, mas pela fidelidade. O Filho do Homem vem não para destruir, mas para restaurar.
Por isso, o ápice do discurso é finalmente a esperança: “Então verão o Filho do Homem vindo numa nuvem com poder e grande glória”. Aqui está o coração do apocalipse cristão. O Cristo que vem é o mesmo que perdoou, que acolheu, que curou, que derrubou muros, que enfrentou hipocrisias. A glória de Cristo não é a glória dos exércitos, mas a glória do amor invencível. Ele vem para restaurar a justiça, não para punir arbitrariamente. Ele vem para revelar o que sempre esteve escondido. O discípulo, então, não abaixa a cabeça: levanta. Não se esconde: ergue-se. O termo grego anakypsate expressa postura de dignidade, não de medo. É a postura de quem sabe que a história não está entregue ao caos, mas a Deus.
Diante disso, a crítica contemporânea se impõe. Vivemos nosso próprio Lucas 21. Um mundo onde democracias se fragilizam, onde líderes autoritários usam a religião como arma, onde discursos de ódio substituem a compaixão, onde as redes sociais alimentam paranoia e falsos profetas digitais. Muitos cristãos repetem slogans religiosos enquanto apoiam candidatos que defendem armas, violência, tortura, racismo, exclusão dos pobres. É inútil dizer “Senhor, Senhor” se o voto e a prática negam o Evangelho. É inútil clamar por Jerusalém se no cotidiano aceitamos Babilônia. Uma fé que se alia à extrema-direita perde sua alma. Uma fé que se curva ao neoliberalismo desumano trai Cristo. Uma fé que negocia com o autoritarismo trai o Sermão da Montanha. A destruição de Jerusalém é advertência: não se brinca com o nome de Deus.
Mas Jesus não termina no julgamento. Termina na esperança. A libertação está próxima. Ela não virá de políticos-messias, nem de líderes religiosos autorreferenciais, mas da fidelidade cotidiana ao Evangelho. Libertação é conversão, é justiça, é comunidade, é cuidado mútuo. Libertação é ver o Filho do Homem no rosto dos pobres, dos migrantes, dos excluídos, dos feridos da história. Libertação é romper com o sistema de opressão, é escolher a vida, é resistir ao ódio. Libertação é levantar a cabeça quando o mundo tenta nos esmagar. Libertação é caminhar com Cristo mesmo quando tudo parece ruir.
E assim entendemos: Lucas 21 não descreve apenas o que aconteceu, mas o que sempre acontece. Jerusaléns caem quando se afastam da justiça. Templos ruem quando se idolatra o poder. Civilizações tremem quando abandonam os pobres. Mas o Filho do Homem permanece. Seu reino não passa. Seu amor não fracassa. Sua justiça não se atrasa. E por isso, mesmo quando o mundo estremece, o discípulo se ergue. Não porque é forte, mas porque Cristo é fiel.
DNonato – Teólogo do Cotidiano


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