Após o batismo no Jordão e a experiência do deserto, Jesus retorna à Galileia “no poder do Espírito” (Lc 4,14). Lucas sublinha essa expressão para afirmar que o Espírito Santo é o verdadeiro protagonista da missão. O mesmo Espírito que pairava sobre o caos primordial (Gn 1,2), que ungiu Moisés para libertar o povo (Nm 11,25), que impulsionou os profetas (Is 61,1; Ez 2,2), agora conduz Jesus. A missão não nasce da vontade individual nem de um projeto pessoal de ascensão, mas da obediência ao Espírito que age na história. Esse dado desautoriza qualquer leitura voluntarista ou triunfalista da missão cristã.
O retorno de Jesus a Nazaré possui densidade histórica, antropológica e simbólica. Nazaré é uma aldeia insignificante aos olhos do império, situada na Galileia dos gentios, região marcada por tensões culturais, exploração econômica e marginalização religiosa. Do ponto de vista sociológico, trata‑se de um espaço periférico, distante do Templo e do poder político. Do ponto de vista antropológico, é o lugar da identidade construída nas relações primárias: família, trabalho, vizinhança. Jesus não rejeita esse espaço; ao contrário, assume‑o como ponto de partida de sua missão. Isso revela um Deus que não age a partir do centro, mas das margens, antecipando o que Paulo mais tarde formulará como escândalo e loucura (1Cor 1,23‑28).
Lucas afirma que Jesus tinha o costume de frequentar a sinagoga aos sábados. O hábito revela pertença, fidelidade e inserção comunitária. A fé de Jesus não nasce fora da tradição de Israel, mas dentro dela. Ele reza os salmos, escuta a Torá, participa da vida litúrgica. Aqui se desmonta a ideia de uma espiritualidade desvinculada da comunidade. A Escritura é sempre proclamada em assembleia, porque a revelação é relacional. A psicologia da religião confirma que a experiência de fé se estrutura no vínculo; quando a fé se torna puramente individual, tende a perder seu caráter ético e social.
O gesto de levantar‑se para ler é carregado de significado. Jesus assume publicamente a Palavra, não como quem a domina, mas como quem se coloca a serviço dela. O rolo do profeta Isaías lhe é entregue, sinal de confiança da comunidade. A escolha do texto não é aleatória. Isaías 61, com ecos de Isaías 58, pertence à tradição profética pós‑exílica, marcada pela denúncia de um culto separado da justiça. “O Espírito do Senhor está sobre mim” indica unção, envio e responsabilidade. Na Bíblia, a unção nunca é privilégio, mas missão que implica risco.
Os destinatários da ação messiânica são explicitados: pobres, cativos, cegos, oprimidos. Esses termos não podem ser reduzidos a metáforas espirituais sem trair o texto. No contexto histórico, os pobres são os explorados pelo sistema tributário romano; os cativos incluem endividados e prisioneiros políticos; os cegos representam tanto a deficiência física quanto a alienação social; os oprimidos são aqueles esmagados por estruturas injustas. A sociologia bíblica mostra que esses grupos constituíam a maioria da população palestina do século I. Jesus não fala a partir deles apenas como destinatários da caridade, mas como sujeitos do Reino.
O “ano da graça do Senhor” remete diretamente à legislação jubilar de Levítico 25 e Deuteronômio 15. Trata‑se de um projeto de reorganização social baseado na memória da libertação do Egito. Dívidas perdoadas, terras devolvidas e escravos libertos constituem uma ruptura com a lógica acumuladora. Ao proclamar esse texto, Jesus confronta não apenas indivíduos, mas um sistema econômico e religioso. Aqui se evidencia a dimensão política do Evangelho, não no sentido partidário, mas no sentido ético e estrutural.
O gesto de fechar o livro, devolvê‑lo ao assistente e sentar‑se carrega forte simbolismo. Fechar o rolo não significa encerrar a Palavra, mas indicar que ela agora deve ser interpretada. Sentar‑se é a postura do mestre autorizado. Os olhos de todos fixos em Jesus revelam expectativa, mas também vigilância. A assembleia observa para julgar. A Palavra provoca fascínio e ameaça ao mesmo tempo. Do ponto de vista psicológico, trata‑se do conflito entre admiração e medo da mudança.
A afirmação “Hoje se cumpriu esta Escritura” é o centro teológico do texto. O advérbio “hoje” aparece repetidas vezes em Lucas para indicar o tempo da salvação (Lc 2,11; 19,9; 23,43). Não se trata de cronologia, mas de kairos. A Palavra deixa de ser promessa futura para tornar‑se critério presente. Isso exige decisão. A fé, aqui, não é adesão intelectual, mas resposta existencial.
A reação inicial é de admiração pelas palavras cheias de graça, mas logo surge a pergunta redutora: “Não é este o filho de José?” Essa pergunta revela um mecanismo social de controle. Reduzir Jesus à sua origem é uma forma de neutralizar sua autoridade. A filosofia hermenêutica ajuda a compreender esse movimento: aquilo que rompe horizontes pré‑estabelecidos é frequentemente rejeitado por ameaçar certezas. O escândalo não está no conteúdo da Palavra, mas em quem a proclama.
O relato ampliado de Lucas 4,16‑30 mostrará que a rejeição se intensifica quando Jesus recorda Elias e Eliseu, profetas que atuaram fora de Israel em favor de estrangeiros (1Rs 17; 2Rs 5). Aqui o nacionalismo religioso é desmascarado. O Reino de Deus não pertence a um grupo exclusivo. Esse dado possui enorme atualidade diante de discursos religiosos que absolutizam fronteiras, identidades e privilégios.
O paralelo com os demais sinóticos confirma a intenção teológica de Lucas. Marcos 6 e Mateus 13 relatam a rejeição, mas sem o discurso programático. Lucas quer que o leitor compreenda desde o início que todo o ministério de Jesus será interpretação viva dessa Palavra. As curas (Lc 5,17‑26), os exorcismos (Lc 8,26‑39), a atenção às mulheres (Lc 7,36‑50; 8,1‑3), o cuidado com os pobres (Lc 12,15; 16,19‑31) são concretizações do programa de Nazaré.
O fato de Jesus, um leigo, proclamar a Palavra, assim como Isaías, também leigo, possui enorme peso eclesiológico. A Palavra não pertence a uma elite clerical. O clericalismo, denunciado repetidamente pelo Papa Francisco, nasce quando a Palavra é usada como instrumento de poder. Jesus devolve a Palavra ao povo e a coloca como critério de discernimento comunitário. Atos dos Apóstolos preservará essa lógica, mostrando comunidades onde todos participam, discernem e anunciam (At 2,42‑47; 4,32‑35).
Orígenes afirmava que a Escritura cresce com quem a lê e se fecha para quem a instrumentaliza. Ambrósio insistia que a Palavra de Deus se renova em cada geração. João Crisóstomo denunciava com veemência a incoerência entre culto e justiça, afirmando que não se pode honrar o Corpo de Cristo no altar e desprezá‑lo nos pobres. Agostinho lembrava que a Palavra é espelho no qual a Igreja deve reconhecer‑se.
A Dei Verbum afirma que Deus fala aos seres humanos como amigos (DV 2). A Gaudium et Spes recorda que as alegrias e esperanças dos pobres são também as da Igreja (GS 1). A Evangelii Gaudium denuncia uma economia que mata e uma fé transformada em mercadoria. A Fratelli Tutti insiste que a fraternidade é critério de autenticidade cristã. Tudo isso encontra sua raiz em Lucas 4.
Atualizar esse texto hoje implica denunciar as teologias da prosperidade e do domínio, que legitimam desigualdades e espiritualizam a injustiça; implica questionar o individualismo religioso que ignora o sofrimento coletivo; implica resistir à transformação da fé em produto. Implica também confrontar o clericalismo que silencia o povo e domestica a Palavra.
Lucas 4,14-22a permanece como um espelho incômodo, daqueles que não permitem retoques nem ângulos favoráveis. A pergunta continua ecoando em cada assembleia, atravessando liturgias bem organizadas, discursos eloquentes e piedades confortáveis: Essa Escritura se cumpre hoje em nós?
Não se trata de uma interrogação devocional, mas de um juízo histórico, ético e espiritual. A resposta não se dá em palavras bem construídas nem em aplausos à beleza do texto, mas em práticas concretas que desestabilizam a ordem injusta. Onde os pobres deixam de ser objeto de assistência e passam a ser sujeitos de dignidade; onde os cativos — de sistemas econômicos, ideológicos, religiosos e afetivos — experimentam libertação real; onde os oprimidos são erguidos e não apenas consolados; onde a Boa-Nova se traduz em justiça, cuidado, partilha e denúncia profética, ali o Reino acontece, ali a Escritura se cumpre hoje. Fora disso, a Palavra permanece admirada, comentada, citada e até defendida — mas não encarnada.
Talvez seja justamente aí que resida o maior escândalo do texto: não na reação violenta que virá depois, mas no risco que Deus assume ao confiar sua Palavra à fragilidade humana. Deus continua acreditando que sua promessa pode ganhar carne, voz e gesto na história por meio de nós. Continua apostando que comunidades marcadas por contradições podem tornar-se espaço de libertação; que pessoas comuns podem ser lugar de cumprimento da Escritura; que o “hoje” proclamado por Jesus não é um passado litúrgico nem um futuro adiado, mas um tempo aberto à responsabilidade.
Lucas 4 não autoriza neutralidades nem espiritualizações evasivas. Ele nos coloca diante de uma escolha: ou permitimos que a Palavra nos desinstale, reorganize nossas prioridades e nos comprometa com os crucificados da história, ou a transformamos em objeto de admiração estéril. A Escritura só se cumpre quando encontra corpos disponíveis, mãos abertas e estruturas convertidas. Caso contrário, ela continuará sendo bela e silenciosamente traída.


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