terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Um outro olhar sobre João 1, 1-18


A liturgia da Igreja, quando nos conduz ao Prólogo de João no sétimo dia da Oitava de Natal, não o faz como quem apenas recorda um nascimento ocorrido no passado, mas como quem oferece uma chave hermenêutica para interpretar toda a realidade. Não é por acaso que este texto é proclamado na Missa do Dia de Natal, no Segundo Domingo do Tempo do Natal e novamente neste momento limiar do calendário, quando o ano civil se encerra e outro se inicia. A Igreja sabe que João 1,1-18 não é um relato devocional, mas uma declaração de sentido. Diante dele, não celebramos apenas o que Deus fez, mas somos confrontados com quem Deus é e, consequentemente, com quem nós somos chamados a ser no interior da história.

“No princípio” (En archē). João nos arranca do chão conhecido e nos lança ao fundamento de tudo. Não é o princípio das coisas visíveis, mas o princípio do ser. Aqui, o evangelista dialoga conscientemente com Gênesis 1,1, mas também o ultrapassa. Se no Gênesis a Palavra de Deus cria por separação — luz e trevas, céu e terra, mar e continente — em João, essa mesma Palavra caminha para a comunhão. O Logos não é apenas palavra dita, mas relação vivida. “O Verbo estava voltado para Deus” (pros ton Theón). A identidade do Logos é relacional desde sempre. Antes de qualquer dogma, moral ou estrutura eclesial, existe relação.

Essa afirmação tem implicações filosóficas profundas. Ela desmonta o mito moderno do indivíduo autossuficiente, herdeiro tanto do racionalismo iluminista quanto do neoliberalismo contemporâneo. O ser humano bíblico não existe em isolamento. “Não é bom que o ser humano esteja só” (Gn 2,18) não é apenas uma afirmação sobre casamento, mas sobre ontologia. O “eu” nasce do “tu”. Martin Buber intuiu isso ao falar da relação Eu-Tu; João o proclama teologicamente. Por isso, qualquer teologia que absolutize o sucesso individual, a salvação privada ou a fé como conquista pessoal já nasce em contradição com o Prólogo.

Ao afirmar que “o Verbo era Deus”, João entra em confronto direto com o imaginário religioso e político do seu tempo. No mundo helenista, o Logos era a razão cósmica impessoal. No Império Romano, o César era proclamado kyrios, senhor da história, e celebrado como portador da paz. A ciência histórica nos recorda que o título “evangelho” era usado para anunciar decretos imperiais. João subverte essa linguagem. O verdadeiro Evangelho não nasce do palácio, mas da carne. O verdadeiro Senhor não domina pela espada, mas se expõe na fragilidade.

Essa afirmação ecoa de forma silenciosa, mas contundente, nos sinóticos. Mateus mostra Herodes aterrorizado diante do nascimento de uma criança (Mt 2,3). Lucas situa Jesus sob o peso de um recenseamento opressor (Lc 2,1). Marcos inicia seu Evangelho com um profeta no deserto, fora do centro do poder (Mc 1,2-4). João, por sua vez, revela o sentido último dessas narrativas: Deus não legitima o império; Deus o desestabiliza desde dentro.

“A vida estava nele, e a vida era a luz dos homens.” A luz, em João, não é mero símbolo moral. Ela é vida comunicada. Essa luz remete ao primeiro ato criador (Gn 1,3), mas também à esperança profética: “O povo que andava nas trevas viu uma grande luz” (Is 9,1). Em Mateus, essa luz se manifesta no início do ministério público de Jesus (Mt 4,16). Em Lucas, ela ilumina os que jazem nas sombras da morte (Lc 1,79). Em João, ela é inseparável da vida concreta.

Do ponto de vista psicológico, essa luz não nega a sombra. Ela não promete uma existência sem dor, conflito ou ambiguidade. “A luz brilha nas trevas, e as trevas não a venceram.” Não se afirma que as trevas desapareceram, mas que não têm a última palavra. Isso é um golpe direto contra o triunfalismo religioso contemporâneo, que transforma o Evangelho em promessa de sucesso contínuo. A teologia da prosperidade, ao negar a fragilidade, acaba negando a Encarnação.

João é igualmente realista ao afirmar que o mundo não reconheceu o Logos. O “mundo” (kósmos), em João, não é a criação amada por Deus, mas o sistema fechado em si mesmo, autossuficiente, idolátrico. É o mundo que transforma pessoas em coisas, relações em mercadoria e fé em produto. É o mesmo mundo denunciado pelos profetas, quando Isaías clama contra uma religiosidade que ignora a justiça (Is 1,11-17), e por Amós, ao denunciar cultos vazios divorciados da vida concreta (Am 5,21-24).

“A todos, porém, que o receberam, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus.” Aqui João desmonta qualquer teologia meritocrática. Esse “poder” (exousía) não é hierárquico, mas ontológico. Não nasce “do sangue”, desmontando o privilégio hereditário; nem “da vontade da carne”, criticando o voluntarismo religioso; nem “da vontade do homem”, negando o controle clerical da graça. Paulo ecoará isso ao afirmar que todos receberam o Espírito de adoção (Rm 8,15) e que não há mais distinções absolutizadas (Gl 3,28).

O Concílio Vaticano II recupera essa visão ao afirmar que a Igreja é, antes de tudo, Povo de Deus (Lumen Gentium), e que todos participam do sacerdócio comum. O clericalismo, portanto, não é um problema administrativo, mas uma heresia prática: ele transforma a graça em propriedade e a tenda em palácio. O Papa Francisco insiste que o clericalismo mata a profecia porque substitui o serviço pelo poder.

O centro do Prólogo explode em Jo 1,14: “E o Verbo se fez carne.” Sarx não é carne idealizada, mas vulnerável. Deus não assume um corpo glorioso, mas um corpo exposto. Isso ecoa Filipenses 2, onde Cristo se esvazia (kenosis) e assume a condição de servo. A antropologia bíblica afirma aqui que o corpo não é obstáculo para Deus, mas lugar da sua manifestação. Toda espiritualidade que despreza o corpo, a história ou a matéria flerta com o gnosticismo.

O verbo eskēnōsen — “armou sua tenda” — remete diretamente ao Êxodo. Deus caminhava com o povo no deserto, sem templo fixo, sem segurança institucional (Ex 40,34-38). Agora, essa tenda é a carne humana. A Carta aos Hebreus afirma que Jesus se torna solidário com todas as fragilidades humanas (Hb 2,14-18). A patrística percebeu nisso o coração do cristianismo. Santo Ireneu proclamava que a glória de Deus é o ser humano plenamente vivo. Atanásio falava da divinização como comunhão, não como privilégio.

É nesse ponto que a tradição profética contemporânea dialoga com João. Desmond Tutu, arcebispo anglicano, afirmava que um Deus encarnado jamais poderia ser neutro diante da injustiça. Sua luta contra o apartheid não era ideológica, mas evangélica. Para ele, a reconciliação só é verdadeira quando passa pela verdade — eco direto do “graça e verdade” joanino.

Martin Luther King Jr., pastor batista, compreendeu que proclamar a Encarnação exigia enfrentar o racismo estrutural e a violência sistêmica. Sua teologia do amor radical não era ingênua, mas profundamente joanina: a luz que expõe as trevas incomoda antes de libertar.

Pedro Casaldáliga, bispo profeta da Amazônia, leu o Prólogo com os pés fincados na terra. Para ele, o Verbo continuava se fazendo carne nos povos indígenas, nos camponeses, nos corpos feridos pela exploração. Sua vida foi uma recusa explícita da fé como mercadoria e do clericalismo aliado ao poder. Casaldáliga encarnou a Igreja-tenda, itinerante, despojada.

João conclui afirmando que ninguém jamais viu Deus, mas o Filho o revelou. O verbo exēgēsato indica que Jesus é a interpretação viva do Pai. Toda imagem de Deus que contradiz sua prática — acolhida dos pobres, denúncia da hipocrisia, misericórdia restauradora — é idolatria. Mateus traduz isso no critério do juízo final (Mt 25,31-46). Lucas o expressa na missão libertadora (Lc 4,18). João o afirma ontologicamente.

Celebrar esse texto no sétimo dia da Oitava de Natal, às portas de um novo ano, é um ato profético. Ele nos obriga a reler nossa história pessoal, social e eclesial. O Verbo continua querendo se fazer carne nas periferias, nas lutas por dignidade, nas mãos que cuidam e resistem. Como afirma a Gaudium et Spes, as alegrias e angústias da humanidade são também as da Igreja. E como exorta a Evangelii Gaudium, não podemos permitir que nos roubem a alegria do Evangelho com uma religiosidade de fachada.

Se nossa vida não se torna narrativa viva desse Deus que arma sua tenda no meio da história, então celebramos o Natal sem acolher o Verbo. O Prólogo de João não pede aplausos, mas conversão. Ele não busca devotos, mas testemunhas. A luz continua brilhando nas trevas — e a pergunta permanece: nós a acolhemos ou tentamos domesticá-la?



DNonato - Teólogo do Cotidiano 

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