As leituras propostas pela liturgia — Números 6,22-27; o Salmo 66(67); Gálatas 4,4-7 e o Evangelho de Lucas 2,16-21 — formam um conjunto profundamente coerente e revelador. Proclamadas na Oitava do Natal, no coração da liturgia romana, elas oferecem uma verdadeira chave hermenêutica para interpretar o tempo, a história e a própria existência. Não se trata apenas de recordar um nascimento ocorrido no passado, mas de confessar que o tempo é agora um espaço habitado pela bênção, pela filiação e pela presença de Deus.
Celebrar Maria neste dia é afirmar que o tempo não é um ciclo vazio, nem uma sucessão indiferente de datas que se repetem mecanicamente. O tempo, a partir da encarnação, torna-se lugar teológico, espaço de revelação, história visitada e atravessada por Deus. O ano começa, portanto, não com estatísticas, metas ou promessas fáceis de prosperidade, mas com um corpo concreto, uma mulher real, um menino envolto em panos e um nome pronunciado com reverência e esperança: Jesus. Nesse nome, o tempo é redimido, a história é reorientada e a humanidade é novamente abençoada.
O Evangelho de Lucas 2,16-21 é proclamado nesta liturgia como culminância narrativa do nascimento do Messias. O evangelista não descreve apenas um episódio passado, mas constrói uma teologia do cotidiano, onde o extraordinário se revela no ordinário. Os pastores vão
“apressadamente” e encontram Maria, José e o recém-nascido deitado na manjedoura. A pressa lucana não é ansiedade, mas obediência ao anúncio. Diferente das elites religiosas de Jerusalém, que sabem citar as Escrituras mas não se movem, os pastores — figuras socialmente marginalizadas, impuras segundo os códigos cultuais — são os primeiros intérpretes do Evangelho encarnado. Aqui já se estabelece uma crítica radical a toda teologia do domínio e da prosperidade: Deus não se revela no centro do poder, mas nas periferias da existência.
A cena encontra paralelos nos sinóticos, ainda que com tonalidades próprias. Mateus, ao narrar a visita dos magos, desloca o foco para estrangeiros, sábios de fora do sistema religioso de Israel, enquanto Lucas insiste nos pobres da terra, os ‘anawim’, que aguardam a salvação. Ambos convergem na mesma afirmação teológica: o acesso a Deus não passa pelo privilégio, mas pela escuta. A manjedoura, símbolo de pobreza e precariedade, ecoa textos veterotestamentários como Isaías 1,3 — “o boi conhece seu dono e o jumento a manjedoura de seu senhor” — sugerindo que a criação reconhece o Messias antes dos poderosos.
Maria ocupa o centro silencioso da narrativa. Lucas afirma que ela “guardava todas estas coisas, meditando-as em seu coração”. O verbo grego symbállō indica um movimento interior de reunir, confrontar, interpretar. Maria não é passiva, mas profundamente hermenêutica. Ela é, antes de qualquer definição dogmática, uma mulher que lê a realidade à luz de Deus e Deus à luz da realidade. Neste gesto interior se funda sua maternidade espiritual, reconhecida pela Igreja desde os Padres. Irineu de Lyon já afirmava que Maria, ao obedecer, desata o nó da desobediência de Eva. Agostinho a chamará de mais feliz por ter concebido Cristo no coração antes do ventre.
A maternidade divina proclamada nesta solenidade não é uma exaltação biológica, mas cristológica. Maria é Theotokos porque aquele que ela gera é verdadeiro Deus e verdadeiro homem. O Concílio de Éfeso (431) não defendeu Maria contra Nestório por piedade, mas para proteger o núcleo da fé: Deus entrou realmente na história. Gálatas 4,4-7 ecoa essa verdade ao afirmar que Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, para que recebêssemos a adoção filial. O tempo atinge sua plenitude não quando o ser humano domina, mas quando se deixa gerar por Deus.
A primeira leitura, Números 6,22-27, insere essa cena num horizonte mais amplo: a bênção. “O Senhor te abençoe e te guarde”. Não se trata de prosperidade acumulativa, mas de relação. A bênção bíblica é sempre vinculada ao rosto de Deus que se volta para o seu povo. O Salmo 66 reforça essa dimensão universal: “Que as nações vos glorifiquem, ó Senhor”. Desde o início do ano, a liturgia rompe com qualquer fé individualista ou nacionalista. A salvação não pertence a um grupo, uma ideologia ou um projeto de poder.
Historicamente, o contexto lucano revela uma Palestina marcada por opressão econômica, controle imperial e desigualdade estrutural. A opção narrativa por pastores, uma manjedoura e um ritual simples de circuncisão no oitavo dia desmonta qualquer sacralização da violência ou do sucesso. A circuncisão, sinal da Aliança, lembra que Jesus nasce dentro de um povo concreto, com leis, dores e esperanças. Não há espiritualismo desencarnado. A fé cristã nasce dentro da carne da história, o que desautoriza toda teologia que transforma Deus em produto ou instrumento de ascensão social.
Do ponto de vista antropológico e psicológico, Maria representa a capacidade humana de acolher o mistério sem reduzi-lo. Em uma cultura marcada pelo imediatismo e pela necessidade de controle, seu silêncio é profundamente subversivo. Ela não fala, não explica, não capitaliza a experiência. Apenas guarda. Isso confronta a lógica religiosa do espetáculo, do culto-show e da fé convertida em mercadoria. O clericalismo, ao se colocar como mediador exclusivo da graça, rompe com essa dinâmica evangélica e transforma o mistério em posse.
Os Padres da Igreja insistiram que Maria é figura da Igreja. Orígenes afirmava que todo cristão é chamado a gerar Cristo em si. Ambrósio dirá que Maria é modelo de escuta e fecundidade espiritual. À luz dos documentos do Magistério, especialmente a Lumen Gentium e a Evangelii Gaudium, compreende-se que a Igreja só é fiel quando, como Maria, gera Cristo para o mundo sem se colocar no centro. O Papa Francisco insiste que uma Igreja autorreferencial adoece, enquanto uma Igreja em saída participa da lógica da encarnação.
Temos Padres e pastores com uma teologia da prosperidade que nega a manjedoura e a teologia do domínio que ignora os pastores do Evangelho de hoje; o individualismo não reconhece a adoção filial; a fé-mercadoria transforma a bênção em contrato. Lucas 2,16-21 permanece como denúncia e anúncio. Denúncia de uma religião que perdeu o cheiro do estábulo. Anúncio de um Deus que começa o ano deitado, vulnerável, confiado aos braços de uma mulher pobre.
Celebrar esta liturgia no primeiro dia do ano é um ato político, espiritual e existencial. É afirmar que o tempo pertence a Deus, que a história pode ser habitada pela graça e que o futuro não nasce do acúmulo, mas da escuta. Maria, Mãe de Deus e mãe da humanidade redimida, não aponta para si, mas para o Filho, cujo nome é pronunciado após a circuncisão: Jesus, “Deus salva”. Começar o ano com esse nome é recusar o medo, o cinismo e a indiferença. É escolher, como Maria, guardar, meditar e gerar vida no meio de um mundo que insiste em produzir morte.
À medida que se aprofunda o horizonte veterotestamentário, percebe-se que Lucas constrói sua narrativa como um grande tecido de memórias de Israel. A ida apressada dos pastores evoca o movimento do povo no Êxodo, que parte às pressas porque Deus visitou sua história (Ex 12,11). O anúncio recebido na noite remete às teofanias noturnas do Antigo Testamento, quando Deus se revela no silêncio e na vulnerabilidade, como a Samuel ainda menino (1Sm 3) ou a Jacó em Betel (Gn 28,10-17). A manjedoura, lugar de alimento para animais, dialoga com a crítica profética de Amós contra um culto que se afasta da justiça (Am 5,21-24): o verdadeiro alimento que Deus oferece não está nos palácios nem nos templos opulentos, mas onde a vida é ameaçada.
Maria, que guarda e medita no coração, se aproxima da figura da Filha de Sião, cantada pelos profetas como aquela que acolhe a visita de Deus no meio da fragilidade histórica (Sf 3,14-17; Zc 2,14). Ela encarna a esperança de Israel que não se rendeu ao cinismo do poder. Seu silêncio ativo ecoa o Salmo 131, onde a alma repousa como criança nos braços da mãe, e dialoga com Provérbios 4,23: “Guarda teu coração, porque dele brota a vida”. Maria é o lugar onde a memória de Israel encontra seu cumprimento sem ser anulada.
A leitura sociopolítica do contexto romano aprofunda ainda mais o alcance profético do texto. O Império se sustentava sobre três pilares:
- Tributação pesada
- controle militar
- Legitimação religiosa do poder.
No contexto César era chamado de salvador, portador da paz (pax romana), e o nascimento de herdeiros imperiais era celebrado como boa-nova. Lucas subverte essa linguagem ao anunciar um outro Salvador, cuja paz não nasce da espada nem da imposição, mas da vulnerabilidade. O nascimento de Jesus fora dos centros administrativos, longe de Roma e de Jerusalém, desmonta a lógica imperial que associa grandeza a visibilidade e força.
Os pastores daquela epoca excluídos (ao contrário dos ditos pastores de hoje), frequentemente explorados economicamente e desprezados religiosamente, representam os corpos descartáveis do sistema. A boa-nova anunciada a eles é uma denúncia silenciosa de toda estrutura que normaliza a exclusão. Aqui se estabelece um choque direto com qualquer teologia que sacraliza o sucesso, a vitória e o domínio. O Deus de Lucas nasce sob ocupação estrangeira, não como líder armado, mas como criança circuncidada, submetida à Lei. Isso revela uma teologia da resistência que passa pela fidelidade cotidiana e não pelo messianismo violento.
Os documentos do Concílio Vaticano II ajudam a aprofundar essa leitura. A Lumen Gentium, ao tratar de Maria no mistério de Cristo e da Igreja, afirma que ela “avançou na peregrinação da fé” (LG 58), recusando qualquer idealização triunfalista. Maria é apresentada como mulher inserida no drama da história, solidária com os pobres e peregrina como o povo. A Gaudium et Spes recorda que as alegrias e esperanças dos pobres são também as da Igreja (GS 1), e Maria, ao gerar Cristo na precariedade, torna-se ícone dessa solidariedade radical.
O Concílio de Éfeso, ao proclamar Maria como Theotokos, não apenas defendeu uma verdade cristológica, mas confrontou visões dualistas que separavam Deus da carne e da história. Afirmar que Deus nasce de mulher foi, em seu tempo, um gesto profundamente contracultural. Os Padres conciliares compreenderam que, se Maria não é Mãe de Deus, então a salvação não toca plenamente a condição humana. Essa definição ressoa hoje como crítica às espiritualidades desencarnadas e às teologias que prometem céu enquanto legitimam a miséria na terra.
Os documentos do CELAM, especialmente Medellín e Puebla, ajudam a atualizar essa intuição. Maria aparece como mulher do povo, sinal de uma Igreja que faz opção preferencial pelos pobres. Medellín denuncia estruturas de pecado que geram desigualdade e exclusão, e o nascimento de Jesus em Lucas confirma essa denúncia ao revelar um Deus que se coloca do lado dos que não contam. Puebla reconhece Maria como modelo de discipulado e libertação, não como figura alienante, mas como mulher que canta a derrubada dos poderosos e a exaltação dos humildes (Lc 1,52-53).
Em todos os formatos, permanece a mesma convicção: Maria, Mãe de Deus, não nos afasta da história, mas nos devolve a ela com outro olhar. Celebrá-la no primeiro dia do ano é um ato de resistência contra o Império de ontem e de hoje, contra o mercado que mercantiliza a fé e contra uma religião que esqueceu a manjedoura. É escolher começar o tempo novo com os pobres, com a memória de Israel, com a coragem conciliar e com a esperança profética de que Deus continua nascendo onde menos se espera.
A ampliação simbólica do texto de Lucas 2,16-21 exige que cada personagem e cada elemento narrativo seja lido não como detalhe decorativo, mas como linguagem teológica carregada de memória, conflito e promessa. Os pastores não são apenas figurantes piedosos; eles representam uma classe social marginalizada, associada à impureza ritual e à instabilidade econômica. Na tradição bíblica, o pastor é ambíguo: pode ser imagem de cuidado e liderança, como em Davi (1Sm 16,11) e no Salmo 23, mas também símbolo de exploração quando os líderes se servem do rebanho, como denuncia Ezequiel 34. Ao escolher pastores concretos, pobres e noturnos, Lucas reconcilia essas imagens e anuncia que Deus confia sua revelação não aos pastores infiéis do poder, mas aos pequenos que ainda vigiam na noite da história.
A noite, aliás, não é simples cenário temporal. Biblicamente, a noite é o espaço da travessia, do medo e da revelação. Foi de noite que o anjo passou pelo Egito (Ex 12), que Jacó lutou com Deus (Gn 32,23-33) e que o clamor do povo subiu aos céus. Lucas situa o nascimento do Salvador nesse tempo ambíguo para afirmar que a luz não nega a escuridão, mas a atravessa. Psicologicamente, a noite representa os momentos de crise, incerteza e vulnerabilidade existencial. O Evangelho nasce exatamente aí, desmentindo toda espiritualidade que promete salvação sem atravessar o conflito.
A manjedoura é talvez o símbolo mais escandaloso do texto. Lugar de alimento animal, improvisado, instável, ela nega qualquer sacralização da miséria, mas denuncia um sistema que não oferece lugar à vida. Historicamente, a falta de hospedagem não é mero acaso, mas reflexo de uma estrutura social marcada por exclusão. A manjedoura se torna, assim, um anti-altar: não concentra poder, não separa puro e impuro, não exige mediações clericais. Nela, Deus se oferece como alimento, antecipando a teologia eucarística que Lucas desenvolverá mais tarde na mesa partilhada e no caminho de Emaús.
O menino é apresentado de forma paradoxal: não fala, não age, não ensina, mas é o centro da narrativa. Essa centralidade silenciosa confronta as lógicas de produtividade e eficiência. Antropologicamente, a criança simboliza dependência radical e abertura ao futuro. Teologicamente, revela um Deus que renuncia à força para instaurar a comunhão. Esse Deus-criança desmonta toda teologia do domínio e questiona as imagens messiânicas violentas que atravessaram a história de Israel e continuam a reaparecer nas leituras fundamentalistas contemporâneas.
Maria, já apresentada como mulher que guarda e medita, ganha aqui contornos ainda mais profundos. Ela não interpreta os fatos a partir de categorias prontas, mas permite que os acontecimentos a transformem. Seu coração torna-se lugar de síntese entre memória e esperança, entre promessa antiga e novidade radical. Na tradição patrística, Maria é comparada ao útero da Escritura, onde a Palavra se faz inteligível sem perder o mistério. Ela representa uma epistemologia da fé que não domina o sentido, mas o acolhe. Em tempos de polarização religiosa e ideológica, sua atitude é profundamente profética.
José, embora silencioso no texto, não é ausente. Sua presença discreta indica uma masculinidade não dominadora, que protege sem possuir e acompanha sem controlar. Em contraste com figuras patriarcais autoritárias, José encarna uma ética do cuidado e da responsabilidade. Sociologicamente, sua figura questiona modelos de poder masculino associados à força e à imposição. Ele participa do mistério não pela palavra, mas pela fidelidade cotidiana.
O ato de contar o que foi visto e ouvido transforma os pastores em primeiros evangelizadores. Eles não elaboram discursos sofisticados, apenas narram a experiência. A reação do povo — admiração — indica que o Evangelho provoca deslocamento, mas não imediata conversão. Lucas é realista: a Palavra semeada precisa de tempo para frutificar. Aqui se desmonta a lógica imediatista de certas práticas religiosas que confundem impacto emocional com transformação profunda.
A circuncisão e a imposição do nome no oitavo dia encerram o texto com forte densidade simbólica. O oitavo dia, na tradição bíblica, aponta para a plenitude escatológica, para além do ciclo fechado do tempo. Ao ser circuncidado, Jesus se insere plenamente na história de Israel, assumindo a Lei e a Aliança. O nome Jesus, “Deus salva”, não é título honorífico, mas programa de vida. Ele salva não pela violência, mas pela fidelidade até o fim. Esse gesto final impede qualquer leitura docética ou espiritualista do nascimento.
À luz da antropologia histórica, todo o texto revela um Deus que se deixa inscrever em ritos, tempos e corpos concretos. À luz da sociologia, denuncia sistemas que produzem exclusão e naturalizam a pobreza. À luz da filosofia, propõe uma lógica do dom em oposição à lógica da acumulação. À luz da teologia, reafirma que a revelação acontece na história e não fora dela. À luz da psicologia, legitima os processos lentos de amadurecimento da fé, marcados pela memória, pela escuta e pela travessia.
Assim, o conjunto narrativo de Lucas 2,16-21, proclamado na Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus, alcança densidade suficiente para atravessar o ano inteiro como critério de discernimento. Ele questiona uma Igreja tentada pelo poder, uma fé capturada pelo mercado e uma espiritualidade anestesiada pela pressa. Começar o ano com essa liturgia é aceitar que o sentido não nasce do controle, mas da acolhida; não da força, mas da vulnerabilidade; não do domínio, mas da comunhão.
Maria permanece como ícone dessa travessia. Sua figura não encerra o texto, mas o mantém aberto, como a própria história da salvação. Ela não oferece respostas prontas nem soluções mágicas para os impasses humanos; oferece um caminho espiritual e existencial: guardar, meditar, gerar. Nesse movimento interior, que atravessa o silêncio, a espera e a fidelidade cotidiana, Maria continua desafiando impérios antigos e contemporâneos, ideologias travestidas de fé e religiões esvaziadas de compaixão. É por isso que a Igreja, ao colocá-la no início do ano litúrgico e civil, proclama de forma clara e profética que ainda é possível recomeçar a história a partir da manjedoura, do cuidado e da escuta...
DNonato – Teólogo do Cotidiano


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