Para compreender a passagem, é preciso evitar uma leitura superficial e também uma caricatura do judaísmo do tempo de Jesus. A discussão sobre a centralidade dos mandamentos fazia parte da rica tradição interpretativa judaica. A Torá possuía muitos preceitos, e refletir sobre sua hierarquia ou sobre os princípios capazes de resumir a vontade de Deus era uma questão legítima no interior do debate religioso. Portanto, o problema não está simplesmente no fato de um doutor da Lei perguntar a Jesus qual é o maior mandamento. No próprio Evangelho de Marcos, o escriba aparece de modo relativamente favorável e dialoga com Jesus até receber dele a afirmação: «Não estás longe do Reino de Deus» (Mc 12,34). Mateus, entretanto, situa a pergunta num contexto narrativo mais tenso. Jesus está em Jerusalém, nos últimos dias de seu ministério público, e diversas autoridades procuram confrontá-lo e testar sua autoridade. Pouco antes, ele entrou na cidade, dirigiu-se ao Templo e denunciou sua transformação em espaço de exploração, evocando Isaías 56,7 e Jeremias 7,11: «Minha casa será chamada casa de oração», mas «vós a transformais em covil de ladrões» (Mt 21,12-13). Seguem-se as parábolas dos dois filhos, dos vinhateiros homicidas e do banquete nupcial, todas carregadas de conflito e julgamento sobre a recusa da ação de Deus (Mt 21,28-22,14). Depois, fariseus e herodianos perguntam sobre o imposto a César (Mt 22,15-22), os saduceus discutem a ressurreição (Mt 22,23-33), e então surge a pergunta sobre o maior mandamento. .O cenário é Jerusalém, cidade santa, centro do Templo e da identidade religiosa de Israel, mas também cidade profundamente marcada por tensões sociais e políticas. Naquele período, a Judeia estava sob domínio romano. O poder imperial estava presente, os impostos pesavam sobre a população, havia desigualdades econômicas, concentração de terras e diferentes grupos religiosos disputando interpretações sobre a identidade de Israel e o futuro do povo. Jerusalém tornava-se particularmente movimentada durante as grandes peregrinações, e a proximidade da Páscoa aumentava a tensão. A memória da libertação do Egito era celebrada justamente numa terra submetida ao domínio estrangeiro. O Templo era o coração religioso da nação, mas estava inserido numa complexa realidade econômica e institucional. É nesse ambiente que Jesus fala do amor. E isso impede que reduzamos sua resposta a uma frase espiritualizada. A pergunta sobre Deus é feita no meio de conflitos reais. A resposta de Jesus toca diretamente a maneira como o poder é exercido, como a riqueza é distribuída, como os vulneráveis são tratados e como a religião interpreta a própria história. Jesus responde citando Deuteronômio 6,5: «Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento» (Mt 22,37). A passagem está ligada ao Shemá: «Ouve, Israel: o Senhor nosso Deus é o único Senhor» (Dt 6,4). Marcos conserva expressamente essa introdução: «Ouve, Israel» (Mc 12,29). A fé bíblica começa pela escuta. Antes de falar em nome de Deus, é preciso escutar Deus. Antes de usar a religião para confirmar nossas certezas, é preciso deixar-se questionar pela Palavra. Antes de transformar a Bíblia em arma contra os outros, é necessário permitir que ela julgue nossas próprias escolhas. O verbo «ouvir», no horizonte bíblico, não significa apenas captar sons. Significa acolher, obedecer, responder, permitir que a palavra recebida transforme a vida. Deus não é propriedade de uma instituição, de um líder, de uma nação ou de uma ideologia. Ele não pertence ao grupo que grita mais alto seu nome. Amar a Deus, nesse contexto, também não significa apenas experimentar uma emoção religiosa. O coração, na antropologia bíblica, é o centro da pessoa, lugar da memória, da inteligência, da vontade e da decisão. A alma, ou a vida, indica a existência concreta. O entendimento, destacado na formulação de Mateus, chama atenção para a dimensão do discernimento. Amar a Deus envolve pensar. Uma fé que despreza a inteligência, demoniza perguntas e exige submissão cega pode produzir obediência exterior, mas não necessariamente fidelidade a Deus. Esta dimensão possui enorme importância no mundo contemporâneo, marcado pela circulação de mentiras, fake news, teorias conspiratórias e manipulações emocionais. Quantas pessoas são levadas a acreditar que toda informação recebida de uma autoridade religiosa deve ser aceita sem exame? Quantas vezes o medo é usado para impedir o pensamento? Quantas falsidades são apresentadas como revelação divina apenas porque confirmam aquilo que determinado grupo já deseja acreditar? Paulo recomenda: «Examinai tudo e ficai com o que é bom» (1Ts 5,21). Romanos 12,2 fala da transformação pela renovação da mente para discernir a vontade de Deus. Amar a Deus com o entendimento é recusar uma fé preguiçosa, manipulável e inimiga da verdade.
Mas Jesus não para no primeiro mandamento. «O segundo é semelhante a este: Amarás o teu próximo como a ti mesmo» (Mt 22,39). A palavra «semelhante» é decisiva. Jesus não apresenta o amor ao próximo como um simples complemento moral ou uma consequência opcional da experiência religiosa. Ele aproxima os dois mandamentos de tal forma que um se torna inseparável do outro. O amor ao próximo é semelhante ao amor a Deus porque é na relação com o outro que a fidelidade a Deus se torna visível na história. Aquele que afirma amar o invisível, mas despreza o visível, precisa ser confrontado pela Palavra. Por isso João afirma: «Se alguém disser: Amo a Deus, mas odeia o seu irmão, é mentiroso» (1Jo 4,20). Não há aqui uma redução de Deus ao ser humano, mas uma afirmação radical da encarnação. O Deus bíblico escolheu relacionar-se com a humanidade. O Deus de Jesus Cristo fez-se carne (Jo 1,14). Não se pode, portanto, adorar corretamente o Deus encarnado enquanto se despreza a carne ferida do outro.
- A passagem citada por Jesus, Levítico 19,18, encontra-se num contexto social concreto. «Não furtareis, não mentireis, nem usareis de falsidade uns com os outros» (Lv 19,11). «Não oprimirás o teu próximo nem o explorarás» (Lv 19,13). «Não cometerás injustiça no julgamento» (Lv 19,15). «Não odiarás o teu irmão em teu coração» (Lv 19,17). E o mesmo capítulo amplia a questão ao afirmar: «Quando um estrangeiro residir convosco em vossa terra, não o oprimireis. O estrangeiro que reside convosco será para vós como um natural da terra, e tu o amarás como a ti mesmo» (Lv 19,33-34). Esta é uma das dimensões mais proféticas do texto. O próximo não é apenas quem pertence ao nosso grupo. O próximo não é apenas quem compartilha nossa religião, nossa nacionalidade, nossa classe social ou nossas opiniões políticas. O estrangeiro também deve ser amado. O diferente também possui dignidade. Aquele que chega de fora não pode ser transformado em inimigo apenas por ser diferente. A Bíblia impede que o amor seja aprisionado por fronteiras identitárias. É precisamente isso que a primeira leitura do 30º Domingo do Tempo Comum aprofunda: «Não maltratarás nem oprimirás o estrangeiro» (Ex 22,20). «Não prejudicareis a viúva nem o órfão» (Ex 22,21). Se clamarem, Deus afirma: «Eu ouvirei o seu clamor» (Ex 22,22). A viúva, o órfão e o estrangeiro representam, no universo social do antigo Israel, pessoas particularmente vulneráveis à exploração e à exclusão. Não se trata de uma categoria sentimental, mas de uma realidade social. Quem não possuía proteção familiar, propriedade, herança ou pertencimento pleno à comunidade estava mais exposto à violência. O Deus do Êxodo toma posição diante dessa vulnerabilidade. «Eu vi a aflição do meu povo que está no Egito e ouvi o seu clamor» (Ex 3,7). Esta imagem atravessa toda a Bíblia. Deus vê. Deus ouve. Deus não é indiferente ao sofrimento humano.
A segunda leitura do 30⁰ domingo do Tempo comum, 1Tessalonicenses 1,5c-10, introduz a questão da conversão dos ídolos para servir ao Deus vivo e verdadeiro. Esta palavra é indispensável para nosso tempo. Idolatria não é apenas ajoelhar-se diante de uma estátua. Idolatria é absolutizar aquilo que não é Deus. O dinheiro pode tornar-se ídolo. O poder pode tornar-se ídolo. Um líder religioso ou político pode tornar-se ídolo. Uma ideologia pode tornar-se ídolo. Mas também o Estado, a pátria, a bandeira, a ordem e a segurança podem ser transformados em absolutos. Amar a própria nação é uma coisa. Transformar a nação em realidade sagrada, superior à dignidade de outros povos e pessoas, é outra. O patriotismo pode expressar cuidado e responsabilidade pela comunidade. O nacionalismo autoritário, porém, pode transformar a pátria em ídolo e dividir o mundo entre os que merecem proteção e os que podem ser sacrificados. Quando símbolos nacionais ocupam o lugar do discernimento moral, quando a bandeira se torna mais importante que os pobres, quando a segurança é usada para justificar toda forma de violência, já não estamos diante do amor a Deus, mas diante de uma idolatria política.
Marcos, Mateus e Lucas conservam o mesmo núcleo, mas cada Evangelho o desenvolve segundo sua própria perspectiva.
- Em Marcos 12,28-34, proclamada em dois momentos específicos do calendário litúrgico. O primeiro acontece na sexta-feira da terceira semana da Quaresma, quando o caminho penitencial que conduz à Páscoa coloca diante dos fiéis o chamado à conversão profunda do coração e o segundo momento no 31º Domingo do Tempo Comum do Ano B, quando o escriba reconhece que amar a Deus e ao próximo «vale mais do que todos os holocaustos e sacrifícios» (Mc 12,33). Jesus lhe diz: «Não estás longe do Reino de Deus» (Mc 12,34). A oposição entre amor e sacrifício não significa desprezo pela tradição cultual de Israel, mas recusa de um culto separado da vida. Nenhuma celebração substitui a misericórdia.
- Mateus, por sua vez, apresenta a resposta no interior de uma sequência de conflitos que culminará nas denúncias contra aqueles que negligenciam «a justiça, a misericórdia e a fidelidade» (Mt 23,23).
- Lucas modifica a pergunta e pergunta pelo caminho da vida eterna (Lc 10,25-37) Proclamasi no 15⁰ Domingo do Tempo Comum do Ano C. Depois, responde à tentativa de limitar o significado de próximo mediante a parábola do samaritano O homem ferido está caído à margem do caminho. O sacerdote passa. O levita passa. O samaritano, membro de um grupo desprezado por muitos judeus, vê, sente compaixão, aproxima-se, toca as feridas, cuida e paga. Lucas transforma uma discussão teórica numa cena concreta. Não basta saber quem deve ser amado. É preciso tornar-se próximo.
A cultura da punição também precisa ser confrontada a partir desse horizonte. Existe uma religiosidade que parece confiar mais no castigo do que na conversão, mais na humilhação do culpado do que na possibilidade de transformação. Jesus, entretanto, cita o profeta Oseias: «Quero misericórdia e não sacrifício» (Mt 9,13; 12,7; cf. Os 6,6). Misericórdia não significa negar a gravidade do mal ou eliminar a responsabilidade. Significa recusar que a punição seja nossa última palavra. Em Mateus 18,21-35, Jesus conduz Pedro para além do cálculo da vingança e apresenta o perdão como experiência inseparável da consciência de ter sido perdoado. Uma sociedade que só sabe encarcerar, eliminar, humilhar e vingar precisa perguntar se ainda acredita na conversão humana. A justiça é necessária, mas uma justiça sem humanidade pode tornar-se outra forma de violência. A misericórdia não é impunidade. É a recusa de abandonar definitivamente o ser humano àquilo de pior que ele fez. Jesus não apenas ensina o amor. Ele o encarna. «Amai-vos uns aos outros como eu vos amei» (Jo 13,34). O modo como ele ama culmina na entrega. «Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos» (Jo 15,13). Filipenses 2,5-8 apresenta Cristo que não se apega ao privilégio, mas assume a condição de servo e desce até a morte de cruz. A cruz, portanto, não pode ser transformada em símbolo de dominação. É profundamente contraditório utilizar o sinal daquele que foi executado pelo poder imperial como instrumento para glorificar a violência, a superioridade e o autoritarismo. Jesus é Senhor, mas seu senhorio não se manifesta como tirania. Diante de Pilatos, ele declara: «Meu Reino não é deste mundo» (Jo 18,36), isto é, sua origem e sua lógica não procedem dos mecanismos de violência que organizam os impérios. Quando os discípulos discutem grandeza, Jesus afirma: «Os chefes das nações as dominam e os grandes fazem sentir seu poder. Entre vós não deverá ser assim» (Mt 20,25-26). Entre vós não deverá ser assim. Esta frase deveria permanecer diante de todo governante, líder religioso e instituição cristã.
Por isso a teologia do domínio deve ser discernida criticamente quando se transforma na pretensão de conquistar o Estado, controlar a cultura, impor crenças e submeter consciências em nome de Deus. A fé cristã possui consequências públicas e não deve ser confinada à esfera privada, mas uma coisa é testemunhar valores e trabalhar democraticamente pelo bem comum, outra é imaginar que a sociedade deve ser dominada por uma elite religiosa. Cristo não precisa de coerção para ser Senhor. O Evangelho não avança pela violência. A Igreja que esquece isso pode conquistar espaços e perder a alma. A mesma crítica deve ser dirigida ao clericalismo, que transforma serviço em privilégio, ministério em status e autoridade em controle. Jesus denuncia aqueles que «amarram fardos pesados e os colocam sobre os ombros dos outros» (Mt 23,4), enquanto «o maior entre vós será aquele que vos serve» (Mt 23,11). Onde há medo de perguntas, silenciamento das consciências, desprezo pelos leigos e leigas ou proteção institucional acima da dignidade das pessoas, o Evangelho do amor precisa ser novamente proclamado. A teologia da prosperidade também precisa ser criticada quando apresenta Deus como mecanismo de enriquecimento individual e sugere que a pobreza é consequência de falta de fé. Jesus não anuncia um Evangelho de enriquecimento automático. «Não podeis servir a Deus e ao dinheiro» (Mt 6,24). Ele reconhece o perigo das riquezas que aprisionam o coração (Mt 19,23-24) e chama seus discípulos a buscar primeiro o Reino e sua justiça (Mt 6,33). A questão não é demonizar o trabalho, os bens ou a prosperidade, mas denunciar uma teologia que transforma a vítima da desigualdade em culpada por sua própria miséria. O pobre não precisa ser convencido de que sua fome é fracasso espiritual. Precisa de pão, justiça, trabalho digno, moradia, saúde e respeito. O samaritano não fez um discurso motivacional ao homem ferido. Ele aproximou-se e cuidou.
Essa dimensão social do Evangelho encontra profunda continuidade na tradição da Igreja. Gaudium et Spes 1 declara que as alegrias e esperanças, tristezas e angústias dos seres humanos, especialmente dos pobres e de todos os que sofrem, são também as alegrias, esperanças, tristezas e angústias dos discípulos de Cristo. Gaudium et Spes 27 condena tudo aquilo que atenta contra a dignidade humana. A tradição latino-americana, particularmente Medellín, Puebla e Aparecida, aprofundou a opção preferencial pelos pobres, compreendendo-a como consequência da fé no Deus do Êxodo, dos Profetas e de Jesus. O pobre não é um objeto de caridade ocasional. É sujeito de dignidade e de direitos. Uma Igreja comprometida com o Evangelho não romantiza a pobreza. Ela pergunta por suas causas. Não basta alimentar quem tem fome se continuamos aceitando um sistema que produz multidões famintas. A crise ecológica também entra nesse horizonte. Amar o próximo significa amar também aqueles que ainda nascerão. A destruição das florestas, das águas e das condições básicas de vida não atinge todos igualmente. Os pobres são geralmente os primeiros a sofrer com enchentes, secas, calor extremo, falta de saneamento e deslocamentos forçados. O lucro imediato de alguns pode transformar-se em sofrimento prolongado para milhões. A criação não é simples depósito de recursos destinados à exploração sem limites. Gênesis apresenta a humanidade como parte da criação e responsável por cultivá-la e guardá-la (Gn 2,15). Quando a ganância destrói as condições de vida do planeta, o próximo de amanhã já está sendo ferido pelas escolhas de hoje.
Também precisamos olhar para a cultura digital, onde a religião pode ser convertida em espetáculo de agressividade. É possível publicar uma oração pela manhã e passar o dia insultando pessoas. É possível citar Jesus e alimentar redes de difamação. É possível defender a família enquanto se desprezam famílias pobres, mães abandonadas, crianças sem proteção e pessoas submetidas à violência. A psicologia ajuda a compreender parte desse fenômeno. O medo, a insegurança e a necessidade de pertencimento tornam as pessoas vulneráveis a discursos que prometem certezas absolutas. Líderes autoritários oferecem segurança em troca de submissão, identidade em troca de hostilidade e pertencimento em troca da fabricação de inimigos. A religião manipulada torna-se terreno fértil para esse processo. A fé madura, ao contrário, não exige a destruição da inteligência. Ela pode conviver com perguntas, reconhecer a complexidade da realidade e recusar soluções que dependam do ódio.
É nesse ponto que a crítica às expressões religiosas associadas a projetos autoritários e à extrema direita precisa ser feita com precisão evangélica. Não se trata de afirmar que toda pessoa politicamente situada à direita seja inimiga do Evangelho, nem de transformar o cristianismo em propriedade da esquerda. O Evangelho não pertence a nenhuma ideologia. Mas toda ideologia deve ser julgada pelo Evangelho. Quando movimentos de extrema direita glorificam a violência, transformam minorias em inimigos, difundem medo, exaltam soluções autoritárias, desprezam pobres ou utilizam símbolos religiosos para blindar seus líderes contra qualquer crítica, a consciência cristã não pode permanecer neutra. A cruz não pode ser usada para santificar a crueldade. Jesus não autoriza seus discípulos a construir a unidade por meio do ódio. Ele não pergunta qual grupo possui mais poder. Ele pergunta pelo amor.
Amar, contudo, não é sentimentalismo e não significa passividade diante da injustiça. Os profetas amaram seu povo e, por isso, denunciaram seus pecados. Jesus amou o Templo e, por isso, confrontou sua corrupção. Amou os pobres e, por isso, denunciou quem os explorava. Amou a verdade e, por isso, não se submeteu às armadilhas do poder. A denúncia profética é uma forma de amor quando seu objetivo é interromper a destruição e abrir caminho para a conversão. A conversão, por sua vez, não é apenas sentimento de culpa. Na linguagem bíblica, converter-se é mudar de caminho. É abandonar os ídolos, reorganizar a vida e retornar ao Deus que chama para a justiça. Essa conversão possui uma dimensão pessoal, comunitária e social. Pessoalmente, precisamos perguntar qual Deus estamos realmente amando. Talvez tenhamos construído um Deus que concorda com nossos preconceitos e protege nossos privilégios. Comunitariamente, as paróquias, comunidades, movimentos e instituições eclesiais precisam perguntar se são lugares de serviço, escuta e participação ou espaços de concentração de poder e medo. Os ministros ordenados precisam perguntar se sua autoridade se parece com o serviço de Cristo. Os leigos e leigas precisam reconhecer sua responsabilidade e não entregar sua consciência a ninguém. Socialmente, a fé precisa perguntar por que tantos vivem sem o necessário enquanto outros acumulam em excesso; por que a violência atinge de maneira desigual; por que o estrangeiro é tratado como ameaça; por que tantas pessoas sofrem sozinhas. «Se alguém possuir bens deste mundo e, vendo seu irmão em necessidade, fechar-lhe o coração, como pode permanecer nele o amor de Deus?» (1Jo 3,17).
No fim, Jesus oferece um centro, e esse centro é radical. Amar a Deus e amar o próximo não são duas metades separadas da vida cristã. São um único movimento que sobe a Deus e se torna visível na história. Quem ama a Deus não pode permanecer indiferente ao ser humano. Quem ama verdadeiramente o ser humano é conduzido para além do próprio egoísmo, em direção ao mistério de Deus. A oração que sobe ao céu precisa modificar nossas mãos na terra. O culto precisa produzir justiça. A fé precisa produzir misericórdia. A Igreja precisa produzir serviço.
A pergunta decisiva deste Evangelho seja simplesmente esta: Amas ou não amas?
- Amas quando o pobre te incomoda?
- Amas quando o estrangeiro desperta teu medo?
- Amas quando o outro pensa diferente?
- Amas a verdade quando ela ameaça a reputação da instituição à qual pertences?
- Amas a justiça quando ela exige renunciar a privilégios?
- Amas a misericórdia quando seria mais fácil pedir punição?
- Amas a paz quando o ódio te oferece pertencimento e aplausos?
Mateus 22,34-40 permanece como um critério de discernimento para a religião, para a Igreja e para a sociedade. Toda doutrina deve ser interrogada pelos seus frutos. Toda interpretação bíblica deve ser confrontada com a justiça e a misericórdia. Todo projeto político deve ser examinado a partir da dignidade humana. Toda autoridade religiosa deve ser medida pelo serviço. Quando a religião deixa de produzir misericórdia, Deus pode continuar sendo pronunciado pelos lábios, mas já não está sendo obedecido pela vida. E, talvez, seja necessário terminar onde a própria liturgia nos colocou: diante do estrangeiro, da viúva e do órfão; diante do ferido à margem do caminho; diante do faminto, do sedento, do nu, do enfermo e do preso. É ali que a pergunta sobre o amor deixa de ser teoria. É ali que Deus espera ser amado. Não apenas no templo, não apenas na celebração, não apenas nas palavras corretas, mas no rosto concreto daquele cuja dor interpela nossa humanidade. A comunidade cristã que compreende isso não poderá ser indiferente. Seus ministros deverão servir, seus leigos deverão participar, suas paróquias deverão acolher, suas comunidades deverão partilhar e sua fé deverá tornar-se presença concreta no mundo.
Porque toda vez que uma pessoa ferida permanece caída à margem do caminho, o Evangelho de Mateus 22 volta a ser proclamado diante de nós como uma pergunta que não permite neutralidade: onde está o teu amor? Toda vez que o estrangeiro é transformado em ameaça, que o pobre é tratado como culpado pela própria pobreza, que a viúva e o órfão são esquecidos, Êxodo 22 continua ecoando como a voz do Deus que vê a aflição, escuta o clamor e não aceita que a dignidade humana seja negociada. Toda vez que o dinheiro, o poder, a pátria, a ideologia, o líder político ou religioso ocupa o lugar que pertence somente a Deus, a palavra de 1Tessalonicenses 1,9 volta a nos chamar à conversão: abandonar os ídolos para servir ao Deus vivo e verdadeiro e toda vez que a Igreja prefere prestígio ao serviço, autoridade ao cuidado, silêncio à verdade ou preservação institucional à defesa dos vulneráveis, a voz de Jesus atravessa os corredores do poder religioso e continua dizendo: «Entre vós não deverá ser assim» (Mt 20,26). O Evangelho, portanto, não termina quando a liturgia termina. Ele continua na rua, na periferia, no hospital, na escola, no local de trabalho, na casa onde alguém chora em silêncio, na mesa onde falta alimento, na família marcada pela violência, no coração de quem perdeu o sentido da vida e na existência daquele que aprendeu a esconder sua dor porque ninguém parecia disposto a escutá-la. É ali que o mandamento do amor precisa ganhar carne. Porque o próximo não é uma abstração teológica. O próximo possui nome, rosto, história, feridas, sonhos, contradições e necessidades. O próximo pode estar diante de nós justamente quando preferiríamos não vê-lo.
Por isso, a pergunta mais importante deste Evangelho não seja «qual é o maior mandamento?», porque Jesus já respondeu.
- A pergunta que permanece é outra: O que estamos fazendo com aquilo que já sabemos?
Podemos: conhecer a Escritura e continuar indiferentes, participar da liturgia e permanecer incapazes de misericórdia, defender a ortodoxia e abandonar a justiça, falar de Deus e construir muros contra o irmão, carregar símbolos religiosos e ao mesmo tempo, colaborar com estruturas que humilham, exploram e descartam pessoas.
Conhecer o mandamento não basta:
- O escriba de Marcos sabia responder corretamente.
- O samaritano de Lucas soube transformar a resposta em gesto.
- quantas pessoas participam de suas celebrações,
- quantos projetos possui,
- quantas atividades realiza
- quanta influência consegue exercer na sociedade
- Quem está sendo amado?
- Quem está sendo escutado?
- Quem continua ficando do lado de fora?
- Quem tem medo de falar?
- Quem foi ferido pela própria comunidade religiosa?
- Quem procura a Igreja e encontra uma porta aberta?
- Quem procura Deus e encontra apenas burocracia, julgamento ou indiferença?
No fim, tudo retorna àquele homem caído à margem da estrada. Ele não sabia quem passaria por ali, não podia controlar quem o encontraria e não podia oferecer nada em troca. Estava simplesmente ferido. E o samaritano não perguntou primeiro se aquele homem merecia ajuda, qual era sua religião, sua origem, sua posição política ou sua história pessoal. Ele viu e porque viu, deixou-se afetar. Porque se deixou afetar, aproximou-se. Porque se aproximou, tocou a ferida. Porque tocou a ferida, cuidou. Porque cuidou, assumiu responsabilidade. Talvez seja esta a gramática mais simples do Evangelho: ver, deixar-se tocar, aproximar-se, cuidar e permanecer responsável.
É por isso que Mateus 22 não pode ser reduzido a uma bonita frase sobre amor. Ele é uma sentença contra toda religião que tenta separar Deus do ser humano. Ele desmonta o culto que não produz misericórdia, a espiritualidade que não produz responsabilidade, a autoridade que não produz serviço e a fé que não produz justiça. Ele coloca diante de nós o Deus de Deuteronômio, o Deus do Êxodo, o Deus dos Profetas e o Deus revelado em Jesus Cristo. Um Deus que não permanece indiferente diante do grito dos vulneráveis. Um Deus que não se deixa capturar pelos palácios do poder. Um Deus que não precisa de violência para ser Deus. Um Deus que se revela no amor e chama seu povo a tornar esse amor visível na história. Essa é a grande conversão de que precisamos: sair de uma religião que pergunta apenas «o que devo acreditar?» e entrar numa fé que também pergunta «como devo viver?, sair de uma religião preocupada apenas em defender fronteiras e entrar numa espiritualidade capaz de construir pontes., sair da necessidade de vencer todas as discussões e recuperar a capacidade de escutar, sair do culto ao poder e redescobrir o serviço, sair da fé utilizada como arma política e reencontrar o Evangelho como Boa-Nova para os pobres, os feridos, os esquecidos e todos aqueles que o mundo considera descartáveis.
Porque o Evangelho continua sendo proclamado não somente quando a assembleia se reúne diante do altar, mas cada vez que a vida humana nos coloca diante de uma escolha. Entre passar adiante ou parar. . É nessa hora que a fé deixa de ser discurso e se transforma em testemunho e a liturgia ultrapassa as paredes do templo, que a Bíblia deixa de ser apenas um livro que lemos e começa a ser uma Palavra que nos lê e a oração deixa de ser apenas voz e se transforma em compromisso e a Igreja deixa de ser apenas instituição e se torna comunidade de discípulos.
Amar a Deus. Amar o próximo. Não como palavras para decorar, mas como uma existência para assumir e não como slogan religioso, mas como prática cotidiana. E quando isso acontece, a palavra de Jesus deixa de ser apenas proclamada e começa a ser vivida. Então o Evangelho deixa de ser somente uma religião que fala sobre Deus e se torna uma Boa-Nova que revela Deus na história. Porque Deus é amor (1Jo 4,8), e onde o amor se torna justiça, misericórdia, serviço, reconciliação e defesa da vida, ali o Reino de Deus começa novamente a nascer entre nós. Que a nossa fé tenha coragem de chegar até esse lugar. Que nossas Igrejas tenham coragem de chegar até esse lugar. Que nossas consciências tenham coragem de chegar até esse lugar. Porque, no fim, diante de Deus, talvez permaneça apenas aquilo que conseguimos transformar em amor. E a pergunta que atravessa a Lei, os Profetas, o Evangelho, a cruz e a história continua sendo a mesma: diante de Deus e diante do próximo, o que fizemos com o amor que recebemos?
DNonato -Teólogo do Cotidiano


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