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sábado, 20 de junho de 2026

Um outro olhar sobre Mateus 10,26-33 / 12⁰ Domingo do Tempo Comum.

 

As leituras proclamada na liturgia da Igreja Católica Romana no 12º Domingo do Tempo Comum do Ano A  são  as seguintes  Jeremias 20,10-13; Salmo  68(69),8-10.14.17.33-35 (R. 14c); Romanos 5,12-15 e a perícope de Mateus 10,26-33 que  constitui uma continuação indireta do Evangelho proclamado no domingo anterior Mateus 9,36-10,8 sem esquecer que ja refletimos essa passagem outras  vezes.. Esta observação é fundamental para uma leitura exegética consistente, pois Jesus não começa um novo ensinamento, mas dá continuidade ao discurso missionário iniciado quando, ao contemplar as multidões cansadas e abatidas como ovelhas sem pastor, sentiu profunda compaixão por elas (Mt 9,36). Dessa compaixão nasce o chamado dos Doze (Mt 10,1-4), o envio missionário (Mt 10,5-15), as advertências sobre perseguições e rejeições (Mt 10,16-25) e, finalmente, a exortação à coragem proclamada neste domingo. A sequência é teologicamente significativa. A compaixão conduz à missão; a missão conduz ao conflito; o conflito exige coragem; e a coragem nasce da confiança em Deus. A mesma passagem, em formas paralelas, aparece em Lucas 12,2-9 e Marcos 4,21-25 na quarta-feira da 3ª semana do Tempo Comum e  encontra ecos outros  momentos do calendário litúrgico das Igrejas Ortodoxas, Anglicanas, Luteranas e demais Igrejas históricas que preservam a leitura contínua dos Evangelhos. Em todas elas, este texto é reconhecido como uma das mais importantes catequeses de Jesus sobre o discipulado, a perseverança e a confiança na providência divina.

A unidade das leituras deste domingo é extraordinária. Jeremias 20,10-13, o Salmo 68(69), Romanos 5,12-15 e Mateus 10,26-33 convergem para uma mesma realidade espiritual e histórica: a experiência do justo que sofre, do discípulo que enfrenta oposição e da confiança que resiste mesmo quando as circunstâncias parecem apontar para o fracasso. 

  • A primeira leitura Jeremias 20,10-13:  apresenta um dos momentos mais dramáticos da vida de Jeremias. O profeta vive nos últimos anos do Reino de Judá, num período marcado por profundas tensões políticas, religiosas e sociais. O Império Babilônico avança sobre a região, enquanto dirigentes políticos e religiosos alimentam falsas expectativas de segurança. Jeremias, porém, anuncia uma mensagem diferente. Denuncia a corrupção, a injustiça social, a falsa religiosidade e a confiança ilusória em instituições que já haviam abandonado a fidelidade à aliança. Por isso torna-se alvo de perseguições. Em Jeremias 1,4-10, seu chamado já continha o anúncio do conflito. Deus o havia constituído para arrancar e destruir, para construir e plantar. Também lhe havia advertido: “Eles combaterão contra ti, mas não prevalecerão, porque eu estou contigo para te salvar” (Jr 1,19). Em Jeremias 20 vemos essa promessa sendo posta à prova. O profeta encontra-se cercado por acusações, calúnias e hostilidade. Seus próprios amigos esperam sua queda. A expressão “Terror por todos os lados” (Jr 20,10) revela uma atmosfera de medo e ameaça constante. Entretanto, o texto culmina numa extraordinária profissão de fé: “O Senhor está comigo como poderoso guerreiro” (Jr 20,11). Jeremias não nega a realidade do sofrimento. Sua esperança não nasce da negação do conflito, mas da certeza da presença divina.
  • O Salmo 68(69) prolonga essa experiência. Trata-se da oração de um inocente perseguido, alguém que sofre precisamente por permanecer fiel a Deus. A tradição cristã reconheceu nesse salmo uma antecipação da paixão de Cristo. Quando o salmista afirma: “O zelo por tua casa me consome” (Sl 69,10), João aplica essas palavras a Jesus na purificação do Templo (Jo 2,17). Quando diz: “Deram-me vinagre para beber” (Sl 69,22), a tradição vê uma referência à crucifixão (Mt 27,48; Jo 19,29). O refrão litúrgico, “Pela vossa grande misericórdia, atendei-me, Senhor”, sintetiza uma das convicções mais profundas da espiritualidade bíblica: a esperança do fiel repousa não em sua própria força, mas na misericórdia de Deus. A palavra hebraica hesed expressa esse amor fiel, constante e irrevogável com que Deus permanece unido ao seu povo apesar de suas fragilidades.
  • A segunda leitura Romanos 5,12-15:  amplia ainda mais o horizonte ao situar a experiência humana dentro do drama universal da salvação. Paulo estabelece um contraste entre Adão e Cristo. Sua reflexão remete a Gênesis 2–3, onde a ruptura da comunhão com Deus introduz o pecado e a morte na história humana. O apóstolo não procura explicar cientificamente a origem do mal, mas interpretar teologicamente a condição humana. Sua constatação é que todos participam de uma realidade marcada pelo pecado. Essa percepção aparece em diversas passagens bíblicas, como Salmo 14,1-3, Eclesiastes 7,20 e Romanos 3,23. Contudo, Paulo não permanece no diagnóstico da queda. Sua atenção concentra-se na superabundância da graça. Se por um homem entrou o pecado, por um homem veio a redenção. Se Adão representa a humanidade ferida, Cristo inaugura uma nova criação. A mesma ideia reaparece em 1Coríntios 15,22: “Assim como em Adão todos morrem, em Cristo todos receberão a vida”. Essa perspectiva é essencial para compreender o Evangelho. O medo humano está profundamente ligado à consciência da fragilidade, da limitação e da mortalidade. Jesus falará justamente a homens e mulheres que conhecem essa condição.

Podemos   perceber que Jeremias, o salmista, Paulo e Jesus apontam para uma mesma direção. 

  • O justo pode ser perseguido, mas não abandonado. 
  • O pobre pode ser desprezado pelo mundo, mas jamais é esquecido por Deus. 
  • A verdade pode ser silenciada por um tempo, mas não permanecerá escondida para sempre.
  •  O mal pode ferir profundamente a história, mas não possui força para destruir a promessa divina. 
  • A cruz não é o fim do caminho e a ressurreição revela que Deus continua agindo mesmo quando tudo parece perdido.

E quando chegamos na liturgia  em  Mateus 10,26-33, encontramos Jesus dirigindo-se aos discípulos que acabaram de ser enviados em missão. Antes desta passagem, ele já havia dito: “Eis que vos envio como ovelhas no meio de lobos” (Mt 10,16), “Sereis odiados por todos por causa do meu nome” (Mt 10,22) e “O discípulo não está acima do mestre” (Mt 10,24). A advertência é clara. A missão do Reino não se desenvolve num ambiente neutro. O Evangelho confronta estruturas de poder, sistemas de exclusão e formas de religiosidade que perderam sua capacidade de servir à vida. Por isso encontra resistência. É nesse contexto que Jesus repete três vezes a mesma exortação: “Não tenhais medo”. A repetição não é acidental. Na Escritura, a insistência revela importância. Desde Gênesis 3,10, quando Adão diz “tive medo”, o medo aparece como uma das marcas da condição humana ferida. A psicologia contemporânea confirma que grande parte das decisões humanas é influenciada por mecanismos de proteção diante de ameaças reais ou imaginárias. Medo da rejeição, da pobreza, da violência, do fracasso, da solidão e da morte moldam comportamentos individuais e coletivos. Jesus reconhece essa realidade, mas se recusa a permitir que ela determine a vida dos discípulos.

A primeira razão apresentada para não ter medo é a certeza de que a verdade será revelada. “Nada há de encoberto que não venha a ser descoberto” (Mt 10,26). Trata-se de uma afirmação profundamente escatológica. Deus fará justiça. As mentiras que sustentam sistemas de dominação não permanecerão para sempre. A mesma esperança aparece em Daniel 12,2-3, Isaías 25,8, Lucas 8,17 e Apocalipse 21,4-5. O Reino de Deus caminha na direção da revelação da verdade. Essa palavra possui enorme atualidade numa época marcada pela manipulação da informação, pela fabricação de narrativas falsas, pela disseminação de discursos de ódio e pela instrumentalização da comunicação para proteger interesses econômicos e políticos. Muitas vezes a mentira parece triunfar. Jesus, porém, recorda que a verdade possui uma força própria porque está enraizada no próprio Deus.

A segunda razão para não ter medo encontra-se na imagem dos pardais. “Não se vendem dois pardais por algumas moedas?” (Mt 10,29). No mundo mediterrâneo do século I, os pardais estavam entre as aves mais baratas comercializadas nos mercados populares. Representavam aquilo que era considerado insignificante. Jesus escolhe deliberadamente essa imagem para revelar algo fundamental sobre Deus. Nenhum pardal cai por terra sem que o Pai o saiba. A mesma visão aparece em Jó 38–39, no Salmo 104, em Mateus 6,26 e em Lucas 12,6. O Deus revelado por Jesus não governa apenas os grandes acontecimentos da história. Ele conhece também aquilo que parece pequeno, invisível e irrelevante aos olhos humanos. Trata-se de uma crítica radical aos critérios de importância estabelecidos pelos impérios. Enquanto os sistemas de poder valorizam riqueza, prestígio e influência, Deus volta seu olhar para os pobres, os esquecidos e os marginalizados. É a mesma lógica presente em Êxodo 3,7-8, quando Deus escuta o clamor dos escravos no Egito; em 1Samuel 16,11-13, quando escolhe Davi, o menor dos filhos de Jessé; e no Magnificat de Maria, quando proclama que Deus derruba os poderosos de seus tronos e exalta os humildes (Lc 1,52-53).

A terceira razão para não ter medo é expressa numa das imagens mais belas do Evangelho: “Até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados” (Mt 10,30). Evidentemente, não se trata de uma descrição matemática da ação divina, mas de uma linguagem simbólica destinada a expressar a profundidade do cuidado de Deus. A mesma convicção aparece no Salmo 139, em Isaías 49,15-16 e em Jeremias 1,5. Deus conhece cada pessoa em sua singularidade. Numa sociedade que frequentemente reduz seres humanos a números, estatísticas ou instrumentos econômicos, o Evangelho proclama a dignidade infinita de cada vida.

O ponto culminante da passagem encontra-se nos versículos finais: “Todo aquele que se declarar a meu favor diante dos homens, também eu me declararei em favor dele diante de meu Pai” (Mt 10,32). No contexto das primeiras comunidades cristãs, essa afirmação possuía enorme peso. Confessar Jesus não era apenas uma profissão verbal de fé. Podia significar exclusão social, perseguição religiosa, perda de privilégios e até mesmo martírio. O mesmo ensinamento aparece em Marcos 8,38, Lucas 12,8-9, João 15,18-21 e Apocalipse 3,5. Contudo, é importante compreender o significado bíblico dessa confissão. Em Mateus, confessar Jesus não consiste simplesmente em repetir fórmulas religiosas. Significa praticar a vontade do Pai (Mt 7,21), buscar primeiro o Reino e sua justiça (Mt 6,33), acolher os pequenos (Mt 25,31-46), amar os inimigos (Mt 5,44) e carregar a própria cruz (Mt 16,24)..Essa compreensão conduz inevitavelmente à dimensão profética do Evangelho. Jeremias enfrentou falsos profetas que anunciavam paz quando não havia paz (Jr 6,14). Amós denunciou um culto que ignorava a justiça social (Am 5,21-24). Isaías rejeitou práticas religiosas desvinculadas da defesa dos pobres (Is 58,1-12). Jesus insere-se plenamente nessa tradição profética. Por isso, qualquer tentativa de instrumentalizar a religião para fins de dominação política, econômica ou ideológica contradiz a lógica do Reino. Sempre que a fé é utilizada para legitimar desigualdades, exclusões ou projetos autoritários, afasta-se do Evangelho. A crítica profética da Escritura dirige-se contra toda forma de idolatria do poder. O Reino anunciado por Jesus não se identifica com nacionalismos religiosos, nem com projetos de supremacia cultural, nem com ideologias que transformam adversários em inimigos absolutos. A lógica do Evangelho é a lógica do serviço, da misericórdia e da justiça.

Jesus desafia frontalmente hoje  as versões da fé que reduzem o cristianismo a promessas de prosperidade material. O Cristo de Mateus 10 não promete riqueza, sucesso econômico ou imunidade ao sofrimento. Promete presença divina em meio às perseguições. Promete fidelidade em meio às provações. Promete que a última palavra pertence à vida e não à morte. Também o clericalismo aparece como uma deformação da missão cristã. Jesus ensinou que o maior deve ser servo de todos (Mt 20,26-28; Mt 23,11). O Concílio Vaticano II, especialmente em Lumen Gentium e Gaudium et Spes, recorda que a Igreja existe para servir à humanidade e testemunhar o Reino. Os documentos latino-americanos de Medellín, Puebla, Santo Domingo e Aparecida aprofundam essa perspectiva ao insistirem na opção preferencial pelos pobres, na defesa da dignidade humana e no compromisso com a justiça social..Tudo isso possui profunda relevância para o mundo contemporâneo. Vivemos numa realidade marcada por desigualdades extremas, exclusão social, violência estrutural, crises ambientais, manipulação religiosa e crescente perda de sentido existencial. O medo tornou-se uma ferramenta poderosa de controle social. Medo do diferente, medo do estrangeiro, medo do pobre, medo da mudança, medo do futuro. Jesus propõe outro caminho. O discípulo não é chamado a viver movido pelo medo, mas pela confiança. Não é chamado a reproduzir discursos de exclusão, mas a construir fraternidade. Não é chamado a defender privilégios, mas a servir. Não é chamado a buscar poder, mas a testemunhar o Reino.

Ao  contemplarmos  as leituras  de hoje percebemos uma extraordinária unidade teológica: 

  1. Jeremias é perseguido, mas permanece fiel. 
  2. O salmista sofre, mas continua esperando na misericórdia divina. 
  3. Paulo proclama que a graça de Cristo é maior do que o pecado que marca a humanidade.
  4.  Jesus envia seus discípulos para um mundo hostil, mas garante que o Pai conhece até os cabelos de suas cabeças. 

A Palavra de Deus não oferece uma espiritualidade de fuga nem promete uma existência sem conflitos. Ela convida a olhar a realidade com lucidez. O mal existe. A injustiça existe. A perseguição existe. A violência existe. O medo existe. Mas existe também o Deus: 

  •  Que Chamou Abraão para caminhar pela fé (Gn 12,1-4)
  • Que acompanhou José no Egito (Gn 39,21)
  • Que ouviu o clamor dos escravos (Ex 3,7-10)
  •  Que sustentou Jeremias em sua solidão (Jr 1,19) e fortaleceu Jeremias em meio às perseguições (Jr 20,11)
  • Que sustentou Elias no deserto (1Rs 19,1-18)
  • Que caminhou com os exilados na Babilônia (Is 43,1-5)
  • Que fortaleceu os mártires de Israel (Dn 3; 2Mc 7)
  •  Que ressuscitou Jesus dentre os mortos (Mt 28,1-10) 
  • Que derramou o Espírito Santo sobre a Igreja (At 2,1-11).
  • Que continua presente na história humana, mesmo quando sua presença parece obscurecida pelas sombras do sofrimento, da injustiça e da violência.

Por isso, a última palavra do Evangelho não é o medo, mas a esperança; não é a derrota, mas a confiança; não é a morte, mas a vida. Esta é a grande proclamação que atravessa toda a Escritura, desde o clamor dos escravos no Egito até a visão da Nova Jerusalém no Apocalipse. O Deus que ouviu o grito de seu povo (Ex 3,7), 

A mensagem de Jesus em Mateus 10,26-33 não é um convite à imprudência nem uma negação da dor. É um chamado a viver a partir de uma confiança mais profunda que o medo. O discípulo não é alguém que ignora os perigos da realidade, mas alguém que sabe que nenhuma força da história, nenhum império, nenhuma ideologia, nenhum sistema de opressão e nem mesmo a morte possuem a palavra definitiva sobre a existência humana. Como proclamará Paulo mais tarde: “Se Deus é por nós, quem será contra nós?” (Rm 8,31). E ainda: “Nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem o presente, nem o futuro, nem quaisquer outras criaturas poderão separar-nos do amor de Deus manifestado em Cristo Jesus” (Rm 8,38-39). Num mundo marcado pela desigualdade, pela exclusão, pelas guerras, pela cultura do descarte, pela manipulação das consciências e pela instrumentalização da religião em favor de projetos de poder, o Evangelho continua convocando homens e mulheres a não terem medo de viver a verdade, de praticar a justiça e de permanecer ao lado dos crucificados da história. Não ter medo significa recusar a lógica da indiferença. Significa não se conformar diante da pobreza que humilha, da violência que mata, do racismo que exclui, da corrupção que destrói o bem comum, das estruturas econômicas que produzem multidões descartáveis e das formas religiosas que transformam Deus em instrumento de dominação. A coragem cristã nasce quando o amor se torna maior que o medo.

É precisamente por isso que os mártires da Igreja não foram pessoas apaixonadas pelo sofrimento, mas testemunhas de uma esperança maior que a ameaça. Foi essa esperança que sustentou os apóstolos diante das perseguições, os primeiros cristãos diante dos imperadores, os missionários diante dos perigos da evangelização, os santos diante das incompreensões de seu tempo e tantos homens e mulheres anônimos que, ao longo da história, permaneceram fiéis ao Evangelho em contextos de opressão e injustiça. Todos eles compreenderam que o Reino de Deus vale mais do que qualquer segurança construída à custa da verdade.. 

Assim, a Palavra de Deus convida cada discípulo a renovar sua confiança no Senhor e a assumir com coragem sua vocação profética no mundo. Somos chamados a anunciar o que ouvimos ao pé do ouvido sobre os telhados (Mt 10,27), a testemunhar a misericórdia em tempos de ódio, a proclamar a verdade em tempos de mentira, a defender a dignidade humana em tempos de exclusão e a manter viva a esperança em tempos de desesperança. Porque o Reino de Deus já está presente como semente na história e caminha silenciosamente para sua plenitude..

No final, permanecerá apenas aquilo que foi construído no amor. Os impérios passarão. As ideologias passarão. As riquezas passarão. Os poderes deste mundo passarão. Mas a Palavra do Senhor permanece para sempre (Is 40,8; 1Pd 1,25). E aqueles que colocaram sua confiança em Deus descobrirão que jamais caminharam sozinhos. O Pai que conhece cada pardal do céu e conta os cabelos de cada um de seus filhos continua conduzindo a história para a plenitude do Reino. Por isso, mesmo em meio às tempestades do presente, a Igreja continua anunciando com esperança inabalável: não tenhais medo. O Senhor está conosco. E onde Deus está presente, a vida sempre será mais forte que a morte, a misericórdia mais forte que o pecado, a verdade mais forte que a mentira e o amor mais forte que todo medo.

DNonato -Teólogo do Cotidiano 

terça-feira, 26 de maio de 2026

Um breve olhar sobre Marcos 10,32-45

 
No calendário litúrgico da Igreja Católica Romana, Marcos 10,32 a 45 ocupa um lugar de especial densidade espiritual e teológica. A perícope é proclamada na Quarta feira da 8ª Semana do Tempo Comum nos anos pares do Lecionário ferial, quando a Igreja conduz os fiéis ao limiar do itinerário penitencial e pascal, convidando-os a contemplar o caminho de Jesus rumo a Jerusalém e a radicalidade do discipulado sendo uma continuidade direta do Evangelho da terça-feira da Oitava semanado Tempo  comum. O texto reaparece ainda no 29º Domingo do Tempo Comum do Ano B, quando a liturgia proclama Marcos 10,35 a 45 ou, em sua forma breve, Marcos 10,42 a 45, colocando-o em diálogo direto com Isaías 53,10 a 11 e Hebreus 4,14 a 16. Esta articulação litúrgica não é casual. Ela une o Servo Sofredor anunciado pelos profetas ao Cristo que entrega a própria vida, revelando que a glória de Deus não se manifesta pelo domínio, mas pela doação. A liturgia apresenta o Messias não como soberano segundo as categorias imperiais do mundo antigo, mas como aquele que desce à condição humana para servir e libertar. Em muitas tradições históricas do cristianismo que seguem o Lecionário Comum Revisado, especialmente comunidades anglicanas, luteranas, metodistas e setores reformados, a passagem paralela de Marcos 10,35 a 45 aparece igualmente no 29º Domingo do Tempo Comum do Ano B, preservando o mesmo horizonte cristológico. Nas Igrejas do Oriente, embora a distribuição litúrgica seja diversa, a espiritualidade da kenosis, expressa em Filipenses 2,5 a 11, aproxima esta narrativa do caminho pascal e da contemplação do Servo que se esvazia.

Marcos situa esta passagem num momento decisivo da caminhada de Jesus. O evangelista escreve que “estavam a caminho, subindo para Jerusalém” (Mc 10,32). A expressão possui profundidade geográfica, histórica e espiritual. Jerusalém localizava-se nas montanhas da Judeia, exigindo efetivamente uma subida para quem vinha da Galileia ou do vale do Jordão. Entretanto, Marcos transforma o dado geográfico em linguagem teológica. Não se trata apenas de uma ascensão física. Trata-se da subida definitiva do Messias ao lugar onde a fidelidade encontrará a violência, onde o Reino enfrentará as estruturas de poder e onde o amor será levado até as últimas consequências. Jesus caminha adiante. Os discípulos seguem assustados. Os demais acompanhantes sentem temor. A cena é carregada de tensão. O Mestre conhece o destino que o aguarda. Os discípulos ainda não compreendem plenamente. O caminho torna-se símbolo da própria experiência cristã. O cristianismo nascente será chamado “o Caminho” em Atos 9,2 porque a fé não nasce primeiro da adesão a conceitos, mas do seguimento concreto daquele que caminha.

O pré texto da narrativa é decisivo para sua interpretação. Desde Marcos 8, o evangelista desenvolve uma longa catequese sobre a identidade messiânica e o discipulado. Em Cesareia de Filipe, Pedro reconhece Jesus como o Cristo (Mc 8,29), mas imediatamente rejeita o anúncio da paixão (Mc 8,32), revelando a tensão entre expectativa humana e projeto divino. Em seguida, Jesus proclama uma das palavras mais exigentes do Evangelho: “Se alguém quiser vir após mim, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e siga-me” (Mc 8,34). A partir desse momento, toda a narrativa move-se em direção a Jerusalém. A transfiguração em Marcos 9,2 a 8 antecipa a glória, mas não elimina a cruz. O segundo anúncio da paixão em Marcos 9,31 é seguido pela discussão dos discípulos sobre quem seria o maior (Mc 9,34). Depois aparecem o acolhimento das crianças, símbolo dos pequenos e vulneráveis, o encontro com o homem rico incapaz de desprender-se dos bens (Mc 10,17 a 22) e a reflexão sobre riqueza e Reino (Mc 10,23 a 31). Tudo prepara a cena de Marcos 10,32 a 45. O evangelista constrói deliberadamente um contraste entre o projeto de Jesus e as expectativas humanas. Enquanto Cristo fala de entrega, os discípulos pensam em prestígio. Enquanto o Mestre caminha para a cruz, os seguidores continuam imaginando lugares de honra.

O texto contém o terceiro anúncio da paixão. Os anteriores aparecem em Marcos 8,31 e 9,31. Há uma estrutura repetida nos três momentos. Jesus anuncia sofrimento, os discípulos não compreendem e o Mestre responde com ensinamentos sobre o verdadeiro discipulado. Depois do primeiro anúncio, Pedro protesta. Depois do segundo, surge a disputa pela grandeza. Agora, após o terceiro, Tiago e João pedem os primeiros lugares. O evangelista não pretende apenas mostrar fragilidades individuais. Ele revela algo profundamente humano e permanentemente atual. O ser humano possui tendência constante a transformar a experiência religiosa em espaço de reconhecimento, prestígio e poder. Jesus anuncia detalhadamente o que ocorrerá: será entregue aos chefes dos sacerdotes, condenado, entregue aos gentios, escarnecido, cuspido, flagelado e morto (Mc 10,33 a 34). A sequência impressiona pela precisão e antecipa a paixão. O verbo entregar atravessa toda a narrativa. Judas entrega. O Sinédrio entrega. Pilatos entrega. Mas em Marcos 10,45 aparece um horizonte novo: o Filho do Homem entrega-se.

Neste ponto, o texto aproxima-se profundamente dos cânticos do Servo Sofredor de Isaías 52,13 a 53,12. O Servo é desprezado, carregado de dores, rejeitado e esmagado, mas assume sobre si o sofrimento dos muitos. Isaías 53,11 afirma que “o justo, meu servo, justificará muitos”, enquanto Marcos 10,45 apresenta o Filho do Homem que dá a vida “em resgate por muitos”. A Igreja primitiva reconheceu nesta correspondência uma chave decisiva para compreender Jesus. O Messias esperado por muitos grupos do século I frequentemente aparecia associado a expectativas políticas e restauracionistas. Esperava-se um libertador nacional, um restaurador do trono davídico ou um líder capaz de romper o domínio romano. Jesus não elimina a esperança messiânica. Ele a redefine radicalmente. O Messias não sobe ao trono imperial. Caminha para a cruz. É justamente neste contexto que Tiago e João aproximam-se de Jesus pedindo lugares à direita e à esquerda na glória (Mc 10,37). O pedido parece desconcertante, mas possui raízes culturais profundas. A antropologia do Mediterrâneo antigo demonstra que honra e prestígio estruturavam a vida social. A identidade era construída em torno do reconhecimento público, da posição social e da reputação. O mundo romano organizava-se em hierarquias rígidas sustentadas por patronagem, clientelismo e redes de poder. Os discípulos continuam pensando segundo estas categorias. O Reino ainda lhes parece um espaço de ascensão. Jesus responde perguntando se podem beber o cálice que ele beberá e receber o batismo que ele receberá (Mc 10,38). O cálice, nas Escrituras, aparece como símbolo do destino humano, da missão e também do sofrimento. Surge nos Salmos como porção da vida (Sl 16,5), nos profetas como imagem do sofrimento histórico (Jr 25,15; Is 51,17) e reaparecerá dramaticamente em Getsêmani quando Jesus pede ao Pai que afaste dele aquele cálice (Mc 14,36). O batismo mencionado não se refere aqui ao rito sacramental, mas ao mergulho na paixão, à imersão na entrega.

Quando os outros discípulos manifestam indignação, Jesus reúne todos e oferece uma das mais radicais inversões do Evangelho: “Os que são considerados governantes das nações as dominam e seus grandes exercem poder sobre elas. Entre vós não seja assim” (Mc 10,42 a 43). Estas palavras possuem extraordinária força histórica. O Império Romano sustentava-se sobre concentração de poder, exploração tributária, dominação militar e hierarquias sociais rígidas. A Palestina do século I vivia sob forte pressão econômica. Muitos camponeses perdiam terras, cresciam as dívidas e aumentava a dependência em relação às elites locais e ao sistema imperial. Jesus conhece esta realidade. Sua fala não é abstrata nem puramente espiritual. Possui dimensão histórica e profética. O Reino não reproduz a lógica imperial. O maior será servo. O primeiro será escravo. O termo utilizado para servo é diakonos, origem da palavra diaconia. O termo usado para escravo é doulos. Jesus não suaviza a linguagem. Ele radicaliza. A grandeza deixa de ser domínio e torna-se serviço. As tradições sinóticas desenvolvem este ensinamento com nuances próprias. Mateus 20,20 a 28 introduz a mãe dos filhos de Zebedeu como mediadora do pedido, enquanto Marcos apresenta diretamente os discípulos. Lucas desloca a discussão para o contexto da última ceia em Lucas 22,24 a 27, associando serviço e comunhão eucarística. João não reproduz a cena, mas oferece sua interpretação teológica no lava pés de João 13,1 a 17. Em todos os casos permanece a mesma inversão: o Reino subverte a lógica do poder. Marcos enfatiza o caminho. Mateus acentua a dimensão eclesial. Lucas associa o serviço à mesa comunitária. João transforma a teologia em gesto concreto.

Esta inversão possui consequências profundas para a Igreja. O Concílio Vaticano II recuperou esta compreensão ao apresentar a Igreja como Povo de Deus em Lumen Gentium e ao afirmar em Gaudium et Spes que as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias da humanidade são também as da comunidade cristã. Medellín denunciou estruturas de injustiça que produzem pobreza e exclusão. Puebla reafirmou a opção preferencial pelos pobres. Santo Domingo insistiu na evangelização inculturada. Aparecida convocou uma Igreja missionária e samaritana. Todos estes documentos convergem com Marcos 10. O Filho do Homem não veio para ser servido. A Igreja também não existe para ser servida. Existe para servir. Aqui o texto torna-se particularmente atual e profético. A religião frequentemente foi instrumentalizada por projetos de poder. No tempo de Jesus, setores religiosos aproximaram-se do sistema imperial para preservar privilégios e estabilidade. Hoje o risco permanece. Sempre que a fé é reduzida a ferramenta partidária, quando o Evangelho torna-se instrumento ideológico ou quando a religião passa a legitimar projetos de dominação, perde-se algo essencial do caminho de Jerusalém. O Cristo servidor transforma-se em símbolo de poder. A cruz converte-se em ornamento. O Reino é reduzido a retórica. Marcos denuncia precisamente esta deformação.

A crítica alcança também o clericalismo. O clericalismo não é apenas excesso administrativo ou concentração de autoridade. É deformação espiritual que transforma ministério em privilégio, substitui serviço por prestígio e converte a comunidade em espaço de controle. Jesus responde antecipadamente: “Entre vós não seja assim”. O verdadeiro ministério nasce da diaconia. O verdadeiro pastor não domina. Serve. Da mesma forma, a chamada teologia da prosperidade, quando absolutiza riqueza e sucesso como sinais inequívocos da bênção divina, encontra tensão profunda com o contexto desta passagem. Pouco antes, o homem rico afasta-se entristecido porque possuía muitos bens (Mc 10,22). Em seguida, Jesus fala de serviço e entrega. O caminho para Jerusalém não passa pela acumulação, mas pela doação. Também as teologias do domínio, que aproximam Reino de Deus e conquista cultural ou hegemonia política, necessitam discernimento crítico. Jesus não conquista Jerusalém pela força. Entra humilde. Não assume palácio. Assume cruz.   A tradição profética já denunciava estas deformações. Amós criticava elites religiosas e econômicas que mantinham culto enquanto exploravam os pobres (Am 5,21 a 24). Isaías denunciava liturgias sem justiça (Is 1,11 a 17). Jeremias confrontava a falsa segurança religiosa do Templo (Jr 7,1 a 11). Miqueias perguntava o que Deus exige: praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente (Mq 6,8). Jesus insere-se nesta tradição. Marcos 10 continua atual porque vivemos num mundo marcado por desigualdade, violência, manipulação religiosa, polarizações e crises de sentido. Há populações descartadas, juventudes sem horizonte, trabalhadores precarizados, pessoas feridas pela religião e comunidades cansadas. O Evangelho entra neste cenário não para legitimar sistemas, mas para anunciar Reino.

A sociologia da religião recorda que a experiência religiosa pode tanto libertar quanto reproduzir desigualdades. A fé possui potencial emancipador, mas também corre risco de captura ideológica. Marcos chama ao discernimento. Toda religião que abandona os pobres corre risco de abandonar o Evangelho. Toda espiritualidade sem compaixão aproxima-se do ritual vazio. Toda política religiosa que transforma adversários em inimigos absolutos afasta-se da lógica do Reino. A opção preferencial pelos pobres não nasce de ideologia, mas do Cristo que caminha para Jerusalém cercado por pequenos, enfermos, pecadores e marginalizados.

A psicologia da espiritualidade oferece outro horizonte importante. O desejo de reconhecimento é humano. Tiago e João expressam isso. Jesus não destrói este desejo. Ele o transforma. O problema não está em desejar grandeza, mas em defini-la como domínio. No Reino, grande é quem cuida, sustenta e serve. O centro da passagem aparece finalmente em Marcos 10,45: “O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos”. Este versículo sintetiza cristologia, eclesiologia, espiritualidade e missão. O Messias entrega-se. Deus aproxima-se da condição humana. A cruz torna-se solidariedade. O termo resgate recorda o Êxodo, a libertação dos escravos e a ação salvífica de Deus na história. Cristo desce às profundezas da existência humana e revela Deus ao lado das vítimas. Por isso a cruz não legitima sofrimento injusto. Ela o denuncia.

A Gaudium et Spes recorda que as alegrias e esperanças, as tristezas e as angústias da humanidade, sobretudo dos pobres e daqueles que sofrem, são também as alegrias e esperanças da Igreja. Laudato Si’ amplia este horizonte ao unir o clamor dos pobres e o clamor da terra, mostrando que a ferida humana e a ferida da criação pertencem ao mesmo drama histórico. O Documento de Aparecida convoca a Igreja a sair de si mesma e dirigir-se às periferias geográficas e existenciais, onde a vida é ameaçada e a dignidade humana frequentemente negada. Tudo isso, de certo modo, já estava contido no caminho silencioso de Jesus em Marcos. O evangelista não apresenta um Messias imóvel sobre um trono, mas um Mestre que caminha adiante, sobe para Jerusalém e conduz seus discípulos por uma estrada que atravessa o sofrimento humano e desmascara as ilusões do poder. A imagem final permanece de extraordinária força espiritual e profética. Jesus segue à frente. Os discípulos ainda não compreendem plenamente. Há medo, incompreensão e tensão. O Reino continua escondido sob o véu da cruz. Contudo, o caminho não se interrompe. Também hoje a humanidade sobe suas Jerusaléns históricas. Povos inteiros carregam cruzes coletivas. Os pobres continuam esperando justiça. A terra geme sob o peso da exploração. Crescem as desigualdades, multiplicam-se as violências, expandem-se discursos de ódio e formas sutis de idolatria do poder. Em muitos lugares, a religião corre o risco de ser capturada por projetos ideológicos, reduzida a instrumento de dominação ou esvaziada de sua dimensão profética e libertadora.

É precisamente neste cenário que Marcos 10,32 a 45 ressoa com renovada atualidade. O Evangelho responde às lógicas do mundo não com outra forma de poder, mas com uma inversão radical da história. O maior será servo. O primeiro será escravo. O Messias será crucificado. A autoridade tornar-se-á cuidado. A grandeza tornar-se-á diaconia. O centro desloca-se do privilégio para o serviço, da glória para a entrega, do domínio para a comunhão. Seguir Jesus, portanto, significa desaprender as estruturas interiores que reproduzem poder, abandonar os tronos ocultos do ego, renunciar à instrumentalização da fé e recolocar os pequenos, os pobres e os esquecidos no coração da comunidade. Significa compreender que Jerusalém não é apenas uma cidade, mas um lugar espiritual onde cada discípulo é chamado a decidir entre a lógica do império e a lógica do Reino, entre a busca de prestígio e a vocação ao serviço, entre a religião do poder e o Evangelho da cruz.

No fim, permanece apenas a estrada. Nela caminha Jesus, à frente do seu povo, carregando sobre si as dores do mundo e revelando um Deus que não domina, mas serve; que não humilha, mas ergue; que não conquista pela força, mas transforma pelo amor. E talvez seja esta a mais profunda revelação de Marcos: a verdadeira grandeza não está em ocupar lugares à direita ou à esquerda do poder, mas em permanecer no caminho com o Crucificado, servindo a vida, sustentando a esperança e ajudando a história a aproximar-se do Reino de Deus.

DNonato  - Teólogo do Cotidiano 

sábado, 21 de março de 2026

Um outro olhar sobre João 11,1-45 - 5⁰ domingo da Quaresma

 

A liturgia do 5º Domingo da Quaresma, no ciclo A, nos coloca diante de um dos momentos mais densos de todo o itinerário quaresmal, já à beira da chamada “semana das semanas”, quando a Igreja mergulha no mistério central da fé. As leituras proclamadas são Ezequiel 37,12-14; o Salmo 129(130),1-2.3-4ab.5-6.7-8; Romanos 8,8-11; e o Evangelho de João 11,1-45 ou sua forma breve 11,3-7.17.20-27.33b-45 Não se trata de uma justaposição de textos, mas de uma arquitetura teológica profundamente integrada. 

  •   Ezequiel 37,12-14:  fala dos  túmulos que se abrem na história de um povo esmagado pelo exílio, revelando que Deus não aceita a morte coletiva como destino final. 
  • O salmo 129 (130): clama das profundezas, trazendo à tona a dimensão existencial de quem experimenta o abismo da dor e da culpa. 
  • Romanos 8,8-11:  Paulo desloca a esperança para o presente ao afirmar que o Espírito que ressuscitou Jesus já habita nos corpos mortais.

O Evangelho de João, 11,1-45, nosso objetivo  principal  da reflexão  nesse 5⁰ domingo da Quaresma é  uma síntese encarnada e  apresenta a resposta definitiva: a vida não é uma ideia, nem apenas uma promessa futura, mas uma pessoa concreta. Jesus de Nazaré, texto que  passou outras  vezes em nosso canal  do  YouTube, em nosso Facebook e aqui no blog pelo menos  3 vezes: nos textos de forna plena ou em parte: 

  1. Como se fez uma hermenêutica,   
  2.   Um breve  olhar sobre  João  11,v19-27 Memória  dos Stos Marta, Maria e Lázaro 
  3. Um olhar  sobre  João 11,1-45 - 5⁰ domingo da Quaresma
Este texto ocupa um lugar privilegiado não apenas no calendário romano, mas também na tradição catecumenal restaurada pelo Concílio Vaticano II em Sacrosanctum Concilium 64-66, sendo proclamado nos escrutínios que antecedem o Batismo na Vigília Pascal. Nas Igrejas orientais, especialmente na tradição bizantina, a ressurreição de Lázaro é celebrada no sábado de Lázaro, o  anterior ao Domingo de Ramos, indicando que este sinal é a chave hermenêutica para compreender a paixão e a ressurreição de Cristo. Trata-se, portanto, de um texto axial que articula vida, morte e esperança no interior da fé cristã.

É  preciso saber que vivemos dias em que a realidade social, política e econômica revela sinais evidentes de morte. Discursos públicos que banalizam a verdade, estruturas econômicas que concentram riqueza nas mãos de poucos enquanto multidões permanecem excluídas, e episódios de violência que atravessam o cotidiano são mais do que fatos isolados. São expressões de um sistema que naturaliza a morte social. Nesse cenário, a Palavra proclamada não é neutra. Ela ilumina e julga. Ela revela que, ainda hoje, Lázaro continua sendo sepultado. Não apenas nos túmulos de pedra, mas nas periferias, nas filas do desemprego, nas dependências químicas, nas prisões invisíveis da desesperança. A liturgia, então, não nos convida a escapar da realidade, mas a lê-la à luz do Deus da vida. O Evangelho de João se insere nesse horizonte como uma catequese profunda. O capítulo 11 não é apenas um relato de milagre, mas o sétimo sinal, a plenitude dos sinais, dentro da estrutura joanina. Desde Caná (Jo 2,1-11), onde a água se transforma em vinho, até Betânia, onde a morte se transforma em vida, há um caminho progressivo de revelação. E não por acaso, após este sinal, as autoridades decidem matar Jesus (Jo 11,53). A vida revelada por Cristo ameaça diretamente os sistemas que administram a morte.

A narrativa se inicia com a doença de Lázaro (Jo 11,1-3), mas rapidamente desloca o olhar. “Esta doença não é para a morte, mas para a glória de Deus” (Jo 11,4). Aqui já se estabelece um conflito hermenêutico. A realidade visível aponta para a morte, mas Jesus lê a situação a partir de uma lógica mais profunda. Ele permanece dois dias onde está (Jo 11,6), o que escandaliza qualquer expectativa imediatista. Em um mundo que exige respostas rápidas, Deus parece “atrasar”. Mas esse atraso não é ausência. É pedagogia. É condução à fé madura, aquela que não depende do milagre instantâneo, mas da confiança no mistério.

Os discípulos revelam uma compreensão limitada. Recordam a ameaça de apedrejamento (Jo 11,8) e temem retornar à Judeia. Tomé, com sua frase ambígua “vamos também nós para morrermos com ele” (Jo 11,16), expressa um discipulado ainda imaturo, mas já marcado por uma disposição de seguir. Aqui se revela uma antropologia eclesial. A comunidade não é perfeita. Ela caminha entre o medo e a fidelidade.

Ao chegar a Betânia, Jesus encontra um cenário marcado pelo luto. Lázaro está morto há quatro dias (Jo 11,17). Este detalhe não é secundário. Na mentalidade judaica da época, acreditava-se que a alma permanecia próxima ao corpo por três dias. O quarto dia significava a decomposição irreversível. Ou seja, não há mais esperança humana. O evangelista constrói deliberadamente um cenário onde toda possibilidade foi esgotada. É nesse lugar que a revelação acontece.

Marta sai ao encontro de Jesus (Jo 11,20). Sua fé é real, mas ainda marcada por uma compreensão escatológica futura. “Eu sei que ele ressuscitará no último dia” (Jo 11,24). Jesus então desloca radicalmente essa expectativa. “Eu sou a ressurreição e a vida” (Jo 11,25). Não se trata apenas de um evento futuro, mas de uma presença atual. Esta afirmação ecoa o nome divino revelado em Êxodo 3,14. Jesus não apenas fala de Deus. Ele se identifica com a ação de Deus. Ele é a vida.

A profissão de fé de Marta (Jo 11,27) constitui um dos centros do Evangelho. Assim como Pedro nos sinóticos (Mt 16,16), ela reconhece Jesus como o Cristo, o Filho de Deus. Mas aqui há um aprofundamento. A fé não é apenas reconhecimento, é adesão existencial.

Maria, ao encontrar Jesus, traz outra dimensão. Ela chora (Jo 11,32). Sua dor é visceral. Jesus, ao vê-la, “comove-se profundamente” (Jo 11,33). O verbo grego indica uma agitação interior intensa, quase uma indignação. E então, o versículo mais curto e talvez mais revolucionário: “Jesus chorou” (Jo 11,35). Deus chora. Esta afirmação rompe com qualquer teologia de um Deus distante. Aqui se revela uma teologia da compaixão. Em consonância com Hebreus 4,15, temos um Deus que participa da dor humana.

Ao chegar ao túmulo, o cenário é descrito como uma gruta fechada por uma pedra (Jo 11,38). A pedra é símbolo poderoso. Representa não apenas a morte física, mas tudo aquilo que impede a vida. Dureza de coração (Ez 36,26), incredulidade (Mc 16,14), estruturas sociais que aprisionam. Quando Jesus ordena “Tirai a pedra” (Jo 11,39), Ele convoca a comunidade. Deus não age sozinho. Há uma corresponsabilidade. A fé sem ação é morta (Tg 2,17).

A objeção de Marta “já cheira mal” revela o realismo da morte. A decomposição já começou. Quantas vezes também naturalizamos a morte social. Quantas vidas consideramos “casos perdidos”. O Evangelho confronta essa lógica. Não há situação irreversível para Deus.

Jesus reza (Jo 11,41-42), não para ser ouvido, mas para revelar. E então pronuncia a palavra criadora: “Lázaro, vem para fora” (Jo 11,43). Assim como em Gênesis 1, a Palavra cria. Em João 5,25, Ele já havia anunciado que os mortos ouviriam sua voz. Agora isso se concretiza.

Lázaro sai. Mas sai ainda envolto em faixas (Jo 11,44). Este detalhe é decisivo. Ele voltou à vida, mas ainda não está plenamente livre. Diferente de Jesus, cujo túmulo ficará vazio com as faixas deixadas para trás (Jo 20,6-7), Lázaro ainda precisa ser desatado. Por isso, a ordem final: “Desatai-o e deixai-o ir”. A comunidade é chamada a completar o processo de libertação. Aqui está uma das mais profundas implicações pastorais do texto. Ressuscitar não é apenas devolver a vida, é reintegrar, libertar, devolver dignidade.

A conexão com Ezequiel se torna evidente. “Abrirei vossos túmulos” (Ez 37,12). Não apenas individuais, mas coletivos. Trata-se de uma ressurreição histórica. A mesma lógica aparece em Isaías 58, onde o verdadeiro culto está ligado à libertação dos oprimidos. O Salmo 130 reforça que essa experiência nasce do abismo. E Romanos 8 afirma que essa vida é sustentada pelo Espírito.

A tradição dos Evangelhos sinóticos também ilumina essa leitura. A ressurreição do filho da viúva de Naim (Lc 7,11-17) e da filha de Jairo (Mc 5,21-43) revelam a compaixão de Jesus diante da morte. Contudo, João aprofunda essa tradição ao apresentar o sinal como revelação da identidade do próprio Cristo. Não é apenas o que Ele faz, mas quem Ele é.

Diante dessa revelação, a dimensão profética se impõe. A Palavra não pode ser neutralizada. Uma fé que não toca a realidade dos pobres é denunciada pela tradição bíblica. Amós 5,21-24 rejeita um culto sem justiça. Isaías 1,13-17 denuncia práticas religiosas vazias. Jesus retoma essa crítica em Mateus 23. Nesse horizonte, a voz de Óscar Romero ressoa com força. Uma religião de domingo que não transforma a semana é uma fé sepultada.

A idolatria contemporânea assume formas sutis. Quando estruturas econômicas são tratadas como absolutas, mesmo produzindo fome, estamos diante de uma idolatria. O Salmo 115 já denunciava ídolos que têm boca e não falam, olhos e não veem. Hoje, são sistemas que produzem riqueza sem gerar vida. A teologia da prosperidade, ao reduzir Deus a um garantidor de sucesso financeiro, esvazia o Evangelho. O clericalismo, ao concentrar poder, silencia a comunidade e impede que ela cumpra sua missão de desatar os que estão presos.

A antropologia do texto revela diferentes respostas humanas. Marta representa a fé racional. Maria, a fé afetiva. Os discípulos, a fé em construção. Os judeus, a ambiguidade social entre solidariedade e incredulidade. Lázaro representa a condição humana marcada pela finitude e pela dependência da graça. E Jesus integra todas essas dimensões, revelando uma humanidade plena unida à divindade.

A dimensão psicológica também é profunda. O luto, a espera, a frustração, a esperança são experiências universais. O Evangelho não nega essas realidades, mas as atravessa com sentido. A esperança cristã não é fuga, mas resistência. A missão da comunidade é clara. Tirar a pedra, desatar as faixas, chamar à vida. Isso implica ação concreta. Mateus 25,31-46 deixa claro que o critério final é a vida do outro. Atos 2,44-47 mostra que a comunidade primitiva vivia essa realidade na partilha.

Ao final, muitos creem (Jo 11,45), mas outros endurecem o coração. A vida oferecida exige decisão. Não há neutralidade diante do Evangelho. Ao nos aproximarmos da Semana Santa, este texto nos convida a uma conversão radical. O Batismo (Rm 6,4) já nos inseriu no mistério pascal. Já começamos a ressuscitar. A Páscoa não será apenas celebrada. Ela já começou onde alguém decide viver, amar, libertar.

A voz de Jesus continua ecoando. “Vem para fora”. Não apenas para Lázaro, mas para cada realidade de morte. A pergunta permanece. 

  • Quais são as pedras que ainda mantemos?
  • Quais são as faixas que ainda prendem nossos irmãos?

A fé cristã não pode ser reduzida a uma contemplação passiva, intimista ou alienada da história. Ela nasce do encontro com Aquele que atravessou a morte e inaugura uma nova criação (2Cor 5,17), e por isso se torna necessariamente compromisso concreto com a vida em todas as suas dimensões. Crer na ressurreição, à luz de João 11, não é apenas afirmar um dogma, mas assumir uma prática: é ouvir hoje a voz que continua a clamar “vem para fora” (Jo 11,43) e responder com gestos que rompem as estruturas de morte.

Onde a vida está ameaçada, seja pela fome que desumaniza (Mt 25,35), pela exclusão que invisibiliza, pela violência que silencia, ou por sistemas que transformam pessoas em números, ali a Igreja não pode hesitar. Sua vocação é tornar visível, no tempo presente, a força da ressurreição. Não como discurso, mas como prática libertadora. Não como retórica religiosa, mas como encarnação do Reino que Jesus anunciou (Lc 4,18-19). A neutralidade diante da morte é, em si mesma, uma forma de cumplicidade. E o Evangelho não permite cumplicidade com aquilo que nega a vida. A ressurreição de Lázaro nos revela que Deus age, mas não dispensa a comunidade. A ordem “tirai a pedra” (Jo 11,39) e “desatai-o” (Jo 11,44) permanece atual. Há pedras que continuam sendo colocadas todos os dias, pedras econômicas, culturais, religiosas, ideológicas, que sepultam sonhos e sufocam existências. Há também faixas que continuam aprisionando, preconceitos, medos, estruturas injustas, espiritualidades alienantes. A Igreja, se quer ser fiel ao seu Senhor, não pode apenas orar diante do túmulo. Ela deve agir para abri-lo.

Essa ação, porém, não é ativismo vazio. Ela brota do Espírito que vivifica (Rm 8,11), da escuta da Palavra que desinstala, da Eucaristia que forma um corpo comprometido com a história (1Cor 10,16-17). É uma ação enraizada na contemplação, mas que não se esgota nela. É uma espiritualidade que une joelhos dobrados e mãos estendidas, oração e justiça, fé e compromisso. Num mundo marcado por discursos que confundem, por poderes que oprimem e por uma religiosidade muitas vezes domesticada, a fé cristã precisa recuperar sua densidade profética. Não se trata de aderir a projetos ideológicos, mas de ser fiel ao Evangelho que sempre toma partido da vida, especialmente da vida ferida. Como já afirmava a tradição profética, “aprendei a fazer o bem, buscai a justiça, socorrei o oprimido” (Is 1,17). E como reafirma Jesus, não basta dizer “Senhor, Senhor” (Mt 7,21), é preciso fazer a vontade do Pai, que é sempre vida plena para todos (Jo 10,10).

Ao nos aproximarmos da Páscoa, a Igreja é chamada a renovar sua identidade mais profunda. Somos um povo pascal, marcado pela passagem da morte para a vida (Jo 5,24). Não fomos salvos para permanecer nos túmulos, nem para nos adaptar às estruturas que produzem morte. Fomos chamados a viver e a fazer viver. A esperança cristã não é fuga para o além, mas força para transformar o agora. PPor isso, não há adiamento possível. A ressurreição não é apenas promessa futura, ela irrompe no presente sempre que a vida é defendida, restaurada, promovida. Cada gesto de justiça, cada ação de solidariedade, cada palavra que denuncia a mentira e anuncia a verdade é já um sinal pascal no meio da história.

A Igreja será fiel ao seu Senhor na medida em que se tornar, concretamente, lugar onde os mortos voltam a viver, onde os excluídos são reintegrados, onde os que estavam presos são libertos. Este é o critério. Este é o julgamento. Este é o Evangelho.  Hoje, não amanhã. Agora, não depois. Porque a voz que chamou Lázaro continua ecoando, e a história continua esperando por comunidades que tenham coragem de remover pedras, desatar amarras e testemunhar, com a própria vida, que a morte não tem a última palavra.



DNonato - Teólogo do Cotidiano 

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Um breve olhar sobre Marcos 4,26-34

 

O Evangelho de Marcos 4,26-34 marca presença na liturgia em dois momentos distintos: no 11º Domingo do Tempo Comum (Ano B) e na sexta-feira da 3ª semana (anos pares). Essa dupla inserção não é mera coincidência, mas um sinal litúrgico eloquente: a semente do Reino não germina apenas na solenidade do domingo, mas também na terra batida do cotidiano, entre o cansaço e a perseverança silenciosa. Situado no coração da pedagogia de Jesus, este texto parabólico recusa respostas fáceis ou promessas de sucesso imediato. Em vez disso, convida-nos a uma conversão profunda do olhar, reeducando nossa percepção sobre o tempo de Deus e as expectativas humanas

Marcos escreve para comunidades pequenas, frágeis, socialmente irrelevantes, marcadas pela perseguição e pela sensação de insignificância histórica. Não são comunidades triunfantes nem hegemônicas; são grupos que vivem à margem do Império, tentando discernir se a fé em Jesus crucificado faz sentido num mundo estruturado pela força, pela dominação e pela violência. Nesse contexto, o Evangelho não sustenta essas comunidades com promessas de crescimento numérico ou prestígio social, mas com a confiança de que Deus age silenciosamente na história, mesmo quando tudo parece imóvel. O Reino anunciado por Jesus não coincide com o imaginário messiânico dominante nem com os projetos religiosos de poder; ele nasce pequeno, cresce escondido e amadurece no tempo de Deus. A parábola da semente lançada na terra remete ao gesto primordial de Deus que planta a vida no caos e confia à criação uma fecundidade própria. O eco de Gênesis é evidente: “Que a terra produza vegetação” (Gn 1,11-12). O ser humano, colocado no jardim para cultivá-lo e guardá-lo (Gn 2,15), não é dono da vida, mas cooperador. Exegeticamente, quando Marcos afirma que a terra produz fruto “por si mesma”, não exclui Deus do processo, mas reconhece uma lógica divina inscrita na criação, que precede e excede o controle humano. A sabedoria bíblica sempre advertiu contra a ilusão do domínio: “Muitos são os projetos do coração humano, mas o desígnio do Senhor permanece” (Pr 19,21).

O semeador não controla o crescimento. Ele semeia e retorna à normalidade da vida: dorme, acorda, atravessa o tempo. Essa imagem desmonta toda espiritualidade baseada na ansiedade, na performance religiosa e no controle dos resultados. Marcos, em contraste com Mateus e Lucas, radicaliza essa afirmação. Em Mateus 13, a fecundidade está associada à escuta perseverante; em Lucas 8, ao coração que guarda a Palavra com constância. Marcos, porém, afirma que o Reino cresce mesmo além da consciência do semeador. O crescimento não depende da eficiência humana, mas da fidelidade ao gesto inicial de semear. Essa lógica encontra profundo eco na tradição profética. Isaías descreve a Palavra como chuva que fecunda a terra e não retorna vazia (Is 55,10-11). Jeremias compara o justo a uma árvore plantada junto às águas, que não teme o tempo da seca (Jr 17,7-8). O Salmo 65 celebra o cuidado de Deus que visita a terra e a faz transbordar de vida. Jesus retoma essa tradição e a desloca do campo da expectativa futura para o interior da história presente. O Reino não é apenas promessa escatológica; ele já atua, ainda que de modo discreto e muitas vezes imperceptível.

O crescimento gradual — primeiro o broto, depois a espiga, depois o grão cheio — revela uma pedagogia divina que respeita processos. Aqui o texto dialoga profundamente com a experiência humana. A psicologia reconhece que o amadurecimento saudável exige tempo, elaboração de conflitos e atravessamento da fragilidade. A fé não foge dessa dinâmica. Por isso, a parábola liberta o discípulo da culpa por não corresponder a modelos idealizados de santidade imediata e denuncia discursos religiosos que exigem produtividade espiritual contínua, ignorando a condição humana. Quando Jesus fala da colheita, introduz a dimensão escatológica sem recorrer ao medo. O juízo aparece como revelação da verdade que amadureceu ao longo da história. Joel fala do tempo em que a foice é lançada porque a colheita chegou (Jl 4,13). Mateus retoma essa lógica na parábola do joio e do trigo, onde a separação só ocorre no tempo oportuno (Mt 13,24-30). Lucas fala do tempo da visitação de Deus (Lc 19,44). O juízo não é punição arbitrária, mas desvelamento do que foi gestado no silêncio.

Paulo aprofunda essa compreensão ao afirmar que cada um colherá o que tiver semeado (Gl 6,7-9) e que o crescimento pertence a Deus (1Cor 3,6-7). A história, portanto, não caminha para o vazio, mas para uma plenitude que não pode ser forçada nem antecipada. Essa visão confronta diretamente as teologias da prosperidade e do domínio, que prometem colheitas imediatas, sucesso visível e ascensão social como sinais da bênção divina. O Evangelho insiste que o Reino cresce na fidelidade cotidiana e muitas vezes na contradição.

A parábola do grão de mostarda aprofunda ainda mais essa inversão simbólica. O que começa pequeno torna-se espaço de abrigo. A imagem dialoga com Ezequiel 17,22-24 e com Daniel 4, onde a árvore abriga povos e nações. Jesus, porém, redefine o símbolo: o Reino não é império que domina, mas comunidade que acolhe. As aves que repousam nos ramos evocam hospitalidade, cuidado e proteção, em contraste com sistemas que exploram e descartam vidas. Essa imagem ganha força quando confrontada com a realidade contemporânea. Vivemos sob a lógica da aceleração, do desempenho e da competição permanente. Também o campo religioso sofre essa pressão, transformando a fé em produto, a espiritualidade em técnica e a missão em marketing. Marcos 4 desautoriza essa lógica ao afirmar que o Reino não cresce pela visibilidade, mas pela fidelidade ao pequeno e ao cotidiano.

É preciso  lembrar ao padres e  pastores e demais clérigos  que o semeador não é dono do crescimento. Quando lideranças religiosas se colocam como mediadoras absolutas da graça ou administradoras exclusivas do Reino, negam o núcleo da parábola. Jesus afirma que autoridade, entre seus discípulos, significa serviço (Mc 10,42-45). Pedro exorta os presbíteros a apascentarem sem dominar (1Pd 5,2-3). O Concílio Vaticano II recorda que a Igreja é, antes de tudo, Povo de Deus em caminho (Lumen Gentium, 9).

Santo Irineu de Lyon afirmava que a glória de Deus é o ser humano vivo, cuja plenitude se constrói no tempo. Agostinho lembrava que Deus age na história sem violentar a liberdade humana. Gregório de Nissa falava do crescimento espiritual como um movimento contínuo em direção a Deus, sem esgotamento do mistério. O Reino cresce, portanto, também no interior da pessoa, como processo de conversão permanente. Essa compreensão do Reino exige uma releitura radical da noção de tempo. O tempo bíblico não se reduz ao chronos mensurável e produtivista, mas se abre ao kairós, o tempo oportuno de Deus. O Eclesiastes lembra que há um tempo para cada coisa (Ecl 3,1), e Habacuque afirma que a visão não falhará, ainda que pareça tardar (Hab 2,3). Esperar, nesse horizonte, não é passividade, mas fidelidade perseverante. Do ponto de vista histórico e sociológico, essa lógica revela que transformações profundas amadurecem no subsolo da história antes de se tornarem visíveis. O Evangelho reconhece essa dinâmica e a inscreve no horizonte teológico. O Reino cresce como fermento escondido na massa (Mt 13,33), transformando por dentro estruturas marcadas pela desigualdade e pela exclusão.

Por isso, Marcos 4 também denuncia uma fé individualista e desencarnada. A semente é lançada num campo comum. O Reino tem dimensão comunitária e histórica. A fé que não se traduz em relações justas e compromisso com os vulneráveis contradiz o Evangelho. Tiago é incisivo ao afirmar que a fé sem obras é morta (Tg 2,17).

Esse texto oferece, enfim, profundo consolo espiritual. Ele fala a quem semeia no anonimato, a quem vive a fidelidade cotidiana sem reconhecimento, a quem experimenta o cansaço e a sensação de inutilidade. O Salmo 126 recorda que os que semeiam entre lágrimas colherão com alegria. A esperança cristã não é ingenuidade, mas confiança de que Deus permanece fiel à sua promessa. Ao proclamar Marcos 4,26-34 no 11º Domingo do Tempo Comum – Ano B e na sexta-feira da 3ª semana do Tempo Comum nos anos pares, a liturgia convida a Igreja a reencontrar sua identidade mais profunda. Essa proclamação acontece dentro de um conjunto mais amplo de leituras que, na tradição litúrgica, reforçam a pedagogia do pequeno, do processo e da confiança. No 11º Domingo do Tempo Comum – Ano B, a primeira leitura é retirada de Ezequiel 17,22-24, onde Deus promete plantar um ramo pequeno que se tornará árvore frondosa. O Salmo responsorial proclama que é bom louvar o Senhor porque o justo cresce como a palmeira e se desenvolve como o cedro do Líbano (Sl 92). A segunda leitura, de 2Coríntios 5,6-10, afirma que caminhamos pela fé e não pela visão. O conjunto das leituras cria um campo hermenêutico coerente: o Reino cresce no oculto, sustenta-se pela confiança e não se mede por critérios imediatos.

Também na liturgia ferial da sexta-feira da 3ª semana do Tempo Comum, nos anos pares, Marcos 4,26-34 dialoga com leituras que reforçam a paciência histórica e a fidelidade cotidiana. A Palavra proclamada nesse dia insere o fiel no ritmo ordinário do Tempo Comum, recordando que a ação de Deus não se limita aos grandes momentos litúrgicos, mas se manifesta na perseverança silenciosa da vida diária. A repetição desse Evangelho ao longo do ano litúrgico revela sua centralidade na compreensão cristã do Reino.

O contexto histórico do texto remete à Palestina do século I, marcada por forte desigualdade social, exploração agrícola, cobrança de impostos abusivos e concentração de terras. A maioria dos ouvintes de Jesus era formada por camponeses que conheciam bem o ritmo da semeadura, a espera angustiada pela chuva e a insegurança da colheita. Falar de sementes, terra e crescimento não era recurso poético abstrato, mas linguagem profundamente encarnada. Jesus não idealiza o campo; Ele fala a partir da experiência concreta de um povo vulnerável, submetido ao poder romano e às elites religiosas locais. Nesse contexto, a imagem de um Reino que cresce sem violência e sem espetáculo constitui uma crítica implícita tanto ao Império Romano quanto às expectativas messiânicas de cunho nacionalista e militar. Enquanto o Império se expandia pela força e pela imposição, Jesus anuncia um Reino que cresce como semente, sem exércitos, sem propaganda e sem coerção. Essa contraposição atravessa todo o Evangelho de Marcos, que apresenta um Messias rejeitado, incompreendido e crucificado.

Outros textos bíblicos retomam imagens semelhantes para falar da ação discreta de Deus na história. O profeta Oséias compara a fidelidade divina ao orvalho que faz brotar a vida (Os 14,6). Zacarias fala de não desprezar o dia das pequenas coisas (Zc 4,10). O Salmo 127 recorda que, se o Senhor não constrói a casa, em vão trabalham os construtores. No Novo Testamento, Jesus utiliza imagens afins ao falar do fermento escondido na massa (Mt 13,33), do grão de trigo que precisa morrer para dar fruto (Jo 12,24) e da videira e dos ramos, onde a fecundidade depende da permanência e não da agitação (Jo 15,1-8).

A tradição paulina reforça essa mesma lógica. Em Romanos 8, Paulo descreve a criação inteira como que gemendo em dores de parto, aguardando a plenitude que ainda não se manifestou plenamente. Em Filipenses 1,6, ele afirma confiar que aquele que começou a boa obra a levará a termo. A história da salvação, portanto, é marcada por processos, não por atalhos. Ao ser proclamado hoje, esse texto encontra uma realidade marcada por crises múltiplas: crise ecológica, social, política, econômica e também religiosa. A lógica do imediato, do consumo e da visibilidade colonizou não apenas a sociedade, mas também muitas expressões de fé. Igrejas competem por fiéis, líderes disputam influência, e a linguagem religiosa é frequentemente instrumentalizada para legitimar projetos de poder, exclusão e violência simbólica. Nesse cenário, Marcos 4,26-34 ressoa como palavra profundamente contracultural.

A parábola questiona frontalmente a teologia da prosperidade, que associa a bênção de Deus ao sucesso material e à ascensão social. Questiona também a teologia do domínio, que legitima a ocupação de espaços de poder em nome de Deus. Ambas reduzem o Reino a um projeto humano e traem o Evangelho. Jesus nunca prometeu visibilidade, prestígio ou imunidade ao sofrimento; prometeu, sim, a presença fiel de Deus no meio da história.

O texto também interpela a Igreja em sua configuração atual. Em tempos de clericalismo persistente, de centralização excessiva e de autorreferencialidade, a parábola recorda que o crescimento do Reino não depende do controle institucional, mas da ação livre do Espírito. O Concílio Vaticano II, ao afirmar que a Igreja é sacramento universal de salvação, não a identifica com o Reino, mas a coloca a seu serviço. Essa distinção é fundamental para evitar que a instituição se substitua ao Evangelho.

Por fim, a perícope de Marcos 4,26-34 constitui o fundamento hermenêutico para a esperança cristã no tempo presente. Ela atesta que a fidelidade ordinária, ainda que oculta aos olhos do mundo, possui eficácia histórica e alcance escatológico. Nenhum gesto de amor é estéril. Como nos recorda a Carta aos Hebreus, a nossa garantia reside naquele que é Fiel (Hb 10,23). Assumir essa lógica é um ato de resistência contra a cultura do cinismo e a tirania do imediatismo, descansando na certeza de que o Reino germina — de forma silenciosa, discreta e soberanamente irreversível



DNonato – Teólogo do Cotidiano

sexta-feira, 22 de agosto de 2025

Um outro olhar sobre Mateus 22,34-40 - 20⁰ Sexta-feira do Tempo Comum/30º Domingo do Tempo Comum.

Na sexta-feira da 20ª semana do Tempo Comum, a Igreja Católica de rito romano proclama Mateus 22,34-40, a pergunta dirigida a Jesus sobre o maior mandamento da Lei. A mesma passagem retorna no 30º Domingo do Tempo Comum, no Ano A do ciclo trienal, em profunda sintonia com Êxodo 22,20-26, que proíbe a opressão do estrangeiro, da viúva e do órfão, e com 1Tessalonicenses 1,5c-10, que apresenta uma comunidade convertida dos ídolos para servir ao Deus vivo e verdadeiro. No conjunto das tradições cristãs históricas, embora os calendários, lecionários e distribuições das leituras não coincidam integralmente, o duplo mandamento do amor constitui um dos grandes eixos da proclamação bíblica, da catequese e da espiritualidade das Igrejas. As tradições Ortodoxas, Anglicanas, Luteranas e outras comunidades históricas conservam, cada uma segundo sua própria organização litúrgica, a centralidade do amor a Deus e ao próximo como expressão fundamental da vida cristã. Marcos 12,28-34, Lucas 10,25-28 e a tradição joanina, sobretudo João 13,34-35 e 1João 4,7-21, testemunham essa mesma convicção. A pergunta que Jesus recebe, porém, continua atravessando os séculos com uma força desconcertante: se amar a Deus e amar o próximo é o centro da Lei e dos Profetas, o que acontece quando a religião fala continuamente de Deus, mas produz desprezo pela vida, exclusão, violência, medo e indiferença?

Para compreender a passagem, é preciso evitar uma leitura superficial e também uma caricatura do judaísmo do tempo de Jesus. A discussão sobre a centralidade dos mandamentos fazia parte da rica tradição interpretativa judaica. A Torá possuía muitos preceitos, e refletir sobre sua hierarquia ou sobre os princípios capazes de resumir a vontade de Deus era uma questão legítima no interior do debate religioso. Portanto, o problema não está simplesmente no fato de um doutor da Lei perguntar a Jesus qual é o maior mandamento. No próprio Evangelho de Marcos, o escriba aparece de modo relativamente favorável e dialoga com Jesus até receber dele a afirmação: «Não estás longe do Reino de Deus» (Mc 12,34). Mateus, entretanto, situa a pergunta num contexto narrativo mais tenso. Jesus está em Jerusalém, nos últimos dias de seu ministério público, e diversas autoridades procuram confrontá-lo e testar sua autoridade. Pouco antes, ele entrou na cidade, dirigiu-se ao Templo e denunciou sua transformação em espaço de exploração, evocando Isaías 56,7 e Jeremias 7,11: «Minha casa será chamada casa de oração», mas «vós a transformais em covil de ladrões» (Mt 21,12-13). Seguem-se as parábolas dos dois filhos, dos vinhateiros homicidas e do banquete nupcial, todas carregadas de conflito e julgamento sobre a recusa da ação de Deus (Mt 21,28-22,14). Depois, fariseus e herodianos perguntam sobre o imposto a César (Mt 22,15-22), os saduceus discutem a ressurreição (Mt 22,23-33), e então surge a pergunta sobre o maior mandamento. .O cenário é Jerusalém, cidade santa, centro do Templo e da identidade religiosa de Israel, mas também cidade profundamente marcada por tensões sociais e políticas. Naquele período, a Judeia estava sob domínio romano. O poder imperial estava presente, os impostos pesavam sobre a população, havia desigualdades econômicas, concentração de terras e diferentes grupos religiosos disputando interpretações sobre a identidade de Israel e o futuro do povo. Jerusalém tornava-se particularmente movimentada durante as grandes peregrinações, e a proximidade da Páscoa aumentava a tensão. A memória da libertação do Egito era celebrada justamente numa terra submetida ao domínio estrangeiro. O Templo era o coração religioso da nação, mas estava inserido numa complexa realidade econômica e institucional. É nesse ambiente que Jesus fala do amor. E isso impede que reduzamos sua resposta a uma frase espiritualizada. A pergunta sobre Deus é feita no meio de conflitos reais. A resposta de Jesus toca diretamente a maneira como o poder é exercido, como a riqueza é distribuída, como os vulneráveis são tratados e como a religião interpreta a própria história. Jesus responde citando Deuteronômio 6,5: «Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento» (Mt 22,37). A passagem está ligada ao Shemá: «Ouve, Israel: o Senhor nosso Deus é o único Senhor» (Dt 6,4). Marcos conserva expressamente essa introdução: «Ouve, Israel» (Mc 12,29). A fé bíblica começa pela escuta. Antes de falar em nome de Deus, é preciso escutar Deus. Antes de usar a religião para confirmar nossas certezas, é preciso deixar-se questionar pela Palavra. Antes de transformar a Bíblia em arma contra os outros, é necessário permitir que ela julgue nossas próprias escolhas. O verbo «ouvir», no horizonte bíblico, não significa apenas captar sons. Significa acolher, obedecer, responder, permitir que a palavra recebida transforme a vida. Deus não é propriedade de uma instituição, de um líder, de uma nação ou de uma ideologia. Ele não pertence ao grupo que grita mais alto seu nome. Amar a Deus, nesse contexto, também não significa apenas experimentar uma emoção religiosa. O coração, na antropologia bíblica, é o centro da pessoa, lugar da memória, da inteligência, da vontade e da decisão. A alma, ou a vida, indica a existência concreta. O entendimento, destacado na formulação de Mateus, chama atenção para a dimensão do discernimento. Amar a Deus envolve pensar. Uma fé que despreza a inteligência, demoniza perguntas e exige submissão cega pode produzir obediência exterior, mas não necessariamente fidelidade a Deus. Esta dimensão possui enorme importância no mundo contemporâneo, marcado pela circulação de mentiras, fake news, teorias conspiratórias e manipulações emocionais. Quantas pessoas são levadas a acreditar que toda informação recebida de uma autoridade religiosa deve ser aceita sem exame? Quantas vezes o medo é usado para impedir o pensamento? Quantas falsidades são apresentadas como revelação divina apenas porque confirmam aquilo que determinado grupo já deseja acreditar? Paulo recomenda: «Examinai tudo e ficai com o que é bom» (1Ts 5,21). Romanos 12,2 fala da transformação pela renovação da mente para discernir a vontade de Deus. Amar a Deus com o entendimento é recusar uma fé preguiçosa, manipulável e inimiga da verdade.

Mas Jesus não para no primeiro mandamento. «O segundo é semelhante a este: Amarás o teu próximo como a ti mesmo» (Mt 22,39). A palavra «semelhante» é decisiva. Jesus não apresenta o amor ao próximo como um simples complemento moral ou uma consequência opcional da experiência religiosa. Ele aproxima os dois mandamentos de tal forma que um se torna inseparável do outro. O amor ao próximo é semelhante ao amor a Deus porque é na relação com o outro que a fidelidade a Deus se torna visível na história. Aquele que afirma amar o invisível, mas despreza o visível, precisa ser confrontado pela Palavra. Por isso João afirma: «Se alguém disser: Amo a Deus, mas odeia o seu irmão, é mentiroso» (1Jo 4,20). Não há aqui uma redução de Deus ao ser humano, mas uma afirmação radical da encarnação. O Deus bíblico escolheu relacionar-se com a humanidade. O Deus de Jesus Cristo fez-se carne (Jo 1,14). Não se pode, portanto, adorar corretamente o Deus encarnado enquanto se despreza a carne ferida do outro.

  • A passagem citada por Jesus, Levítico 19,18, encontra-se num contexto social concreto. «Não furtareis, não mentireis, nem usareis de falsidade uns com os outros» (Lv 19,11). «Não oprimirás o teu próximo nem o explorarás» (Lv 19,13). «Não cometerás injustiça no julgamento» (Lv 19,15). «Não odiarás o teu irmão em teu coração» (Lv 19,17). E o mesmo capítulo amplia a questão ao afirmar: «Quando um estrangeiro residir convosco em vossa terra, não o oprimireis. O estrangeiro que reside convosco será para vós como um natural da terra, e tu o amarás como a ti mesmo» (Lv 19,33-34). Esta é uma das dimensões mais proféticas do texto. O próximo não é apenas quem pertence ao nosso grupo. O próximo não é apenas quem compartilha nossa religião, nossa nacionalidade, nossa classe social ou nossas opiniões políticas. O estrangeiro também deve ser amado. O diferente também possui dignidade. Aquele que chega de fora não pode ser transformado em inimigo apenas por ser diferente. A Bíblia impede que o amor seja aprisionado por fronteiras identitárias.  É precisamente isso que a primeira leitura do 30º Domingo do Tempo Comum aprofunda: «Não maltratarás nem oprimirás o estrangeiro» (Ex 22,20). «Não prejudicareis a viúva nem o órfão» (Ex 22,21). Se clamarem, Deus afirma: «Eu ouvirei o seu clamor» (Ex 22,22). A viúva, o órfão e o estrangeiro representam, no universo social do antigo Israel, pessoas particularmente vulneráveis à exploração e à exclusão. Não se trata de uma categoria sentimental, mas de uma realidade social. Quem não possuía proteção familiar, propriedade, herança ou pertencimento pleno à comunidade estava mais exposto à violência. O Deus do Êxodo toma posição diante dessa vulnerabilidade. «Eu vi a aflição do meu povo que está no Egito e ouvi o seu clamor» (Ex 3,7). Esta imagem atravessa toda a Bíblia. Deus vê. Deus ouve. Deus não é indiferente ao sofrimento humano.

A segunda leitura do 30⁰  domingo do Tempo comum, 1Tessalonicenses 1,5c-10, introduz a questão da conversão dos ídolos para servir ao Deus vivo e verdadeiro. Esta palavra é indispensável para nosso tempo. Idolatria não é apenas ajoelhar-se diante de uma estátua. Idolatria é absolutizar aquilo que não é Deus. O dinheiro pode tornar-se ídolo. O poder pode tornar-se ídolo. Um líder religioso ou político pode tornar-se ídolo. Uma ideologia pode tornar-se ídolo. Mas também o Estado, a pátria, a bandeira, a ordem e a segurança podem ser transformados em absolutos. Amar a própria nação é uma coisa. Transformar a nação em realidade sagrada, superior à dignidade de outros povos e pessoas, é outra. O patriotismo pode expressar cuidado e responsabilidade pela comunidade. O nacionalismo autoritário, porém, pode transformar a pátria em ídolo e dividir o mundo entre os que merecem proteção e os que podem ser sacrificados. Quando símbolos nacionais ocupam o lugar do discernimento moral, quando a bandeira se torna mais importante que os pobres, quando a segurança é usada para justificar toda forma de violência, já não estamos diante do amor a Deus, mas diante de uma idolatria política.

Marcos, Mateus e Lucas conservam o mesmo núcleo, mas cada Evangelho o desenvolve segundo sua própria perspectiva. 

  • Em Marcos 12,28-34, proclamada em dois momentos específicos do calendário litúrgico. O primeiro acontece na sexta-feira da terceira semana da Quaresma, quando o caminho penitencial que conduz à Páscoa coloca diante dos fiéis o chamado à conversão profunda do coração e  o segundo momento  no 31º Domingo do Tempo Comum do Ano B, quando  o escriba reconhece que amar a Deus e ao próximo «vale mais do que todos os holocaustos e sacrifícios» (Mc 12,33). Jesus lhe diz: «Não estás longe do Reino de Deus» (Mc 12,34). A oposição entre amor e sacrifício não significa desprezo pela tradição cultual de Israel, mas recusa de um culto separado da vida. Nenhuma celebração substitui a misericórdia. 
  • Mateus, por sua vez, apresenta a resposta no interior de uma sequência de conflitos que culminará nas denúncias contra aqueles que negligenciam «a justiça, a misericórdia e a fidelidade» (Mt 23,23).
  •  Lucas modifica a pergunta e pergunta pelo caminho da vida eterna (Lc 10,25-37) Proclamasi no 15⁰ Domingo do Tempo Comum do Ano C. Depois, responde à tentativa de limitar o significado de próximo mediante a parábola do samaritano O homem ferido está caído à margem do caminho. O sacerdote passa. O levita passa. O samaritano, membro de um grupo desprezado por muitos judeus, vê, sente compaixão, aproxima-se, toca as feridas, cuida e paga. Lucas transforma uma discussão teórica numa cena concreta. Não basta saber quem deve ser amado. É preciso tornar-se próximo.

A cultura da punição também precisa ser confrontada a partir desse horizonte. Existe uma religiosidade que parece confiar mais no castigo do que na conversão, mais na humilhação do culpado do que na possibilidade de transformação. Jesus, entretanto, cita o profeta Oseias: «Quero misericórdia e não sacrifício» (Mt 9,13; 12,7; cf. Os 6,6). Misericórdia não significa negar a gravidade do mal ou eliminar a responsabilidade. Significa recusar que a punição seja nossa última palavra. Em Mateus 18,21-35, Jesus conduz Pedro para além do cálculo da vingança e apresenta o perdão como experiência inseparável da consciência de ter sido perdoado. Uma sociedade que só sabe encarcerar, eliminar, humilhar e vingar precisa perguntar se ainda acredita na conversão humana. A justiça é necessária, mas uma justiça sem humanidade pode tornar-se outra forma de violência. A misericórdia não é impunidade. É a recusa de abandonar definitivamente o ser humano àquilo de pior que ele fez. Jesus não apenas ensina o amor. Ele o encarna. «Amai-vos uns aos outros como eu vos amei» (Jo 13,34). O modo como ele ama culmina na entrega. «Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos» (Jo 15,13). Filipenses 2,5-8 apresenta Cristo que não se apega ao privilégio, mas assume a condição de servo e desce até a morte de cruz. A cruz, portanto, não pode ser transformada em símbolo de dominação. É profundamente contraditório utilizar o sinal daquele que foi executado pelo poder imperial como instrumento para glorificar a violência, a superioridade e o autoritarismo. Jesus é Senhor, mas seu senhorio não se manifesta como tirania. Diante de Pilatos, ele declara: «Meu Reino não é deste mundo» (Jo 18,36), isto é, sua origem e sua lógica não procedem dos mecanismos de violência que organizam os impérios. Quando os discípulos discutem grandeza, Jesus afirma: «Os chefes das nações as dominam e os grandes fazem sentir seu poder. Entre vós não deverá ser assim» (Mt 20,25-26). Entre vós não deverá ser assim. Esta frase deveria permanecer diante de todo governante, líder religioso e instituição cristã.

Por isso a teologia do domínio deve ser discernida criticamente quando se transforma na pretensão de conquistar o Estado, controlar a cultura, impor crenças e submeter consciências em nome de Deus. A fé cristã possui consequências públicas e não deve ser confinada à esfera privada, mas uma coisa é testemunhar valores e trabalhar democraticamente pelo bem comum, outra é imaginar que a sociedade deve ser dominada por uma elite religiosa. Cristo não precisa de coerção para ser Senhor. O Evangelho não avança pela violência. A Igreja que esquece isso pode conquistar espaços e perder a alma. A mesma crítica deve ser dirigida ao clericalismo, que transforma serviço em privilégio, ministério em status e autoridade em controle. Jesus denuncia aqueles que «amarram fardos pesados e os colocam sobre os ombros dos outros» (Mt 23,4), enquanto «o maior entre vós será aquele que vos serve» (Mt 23,11). Onde há medo de perguntas, silenciamento das consciências, desprezo pelos leigos e leigas ou proteção institucional acima da dignidade das pessoas, o Evangelho do amor precisa ser novamente proclamado. A teologia da prosperidade também precisa ser criticada quando apresenta Deus como mecanismo de enriquecimento individual e sugere que a pobreza é consequência de falta de fé. Jesus não anuncia um Evangelho de enriquecimento automático. «Não podeis servir a Deus e ao dinheiro» (Mt 6,24). Ele reconhece o perigo das riquezas que aprisionam o coração (Mt 19,23-24) e chama seus discípulos a buscar primeiro o Reino e sua justiça (Mt 6,33). A questão não é demonizar o trabalho, os bens ou a prosperidade, mas denunciar uma teologia que transforma a vítima da desigualdade em culpada por sua própria miséria. O pobre não precisa ser convencido de que sua fome é fracasso espiritual. Precisa de pão, justiça, trabalho digno, moradia, saúde e respeito. O samaritano não fez um discurso motivacional ao homem ferido. Ele aproximou-se e cuidou.

Essa dimensão social do Evangelho encontra profunda continuidade na tradição da Igreja. Gaudium et Spes 1 declara que as alegrias e esperanças, tristezas e angústias dos seres humanos, especialmente dos pobres e de todos os que sofrem, são também as alegrias, esperanças, tristezas e angústias dos discípulos de Cristo. Gaudium et Spes 27 condena tudo aquilo que atenta contra a dignidade humana. A tradição latino-americana, particularmente Medellín, Puebla e Aparecida, aprofundou a opção preferencial pelos pobres, compreendendo-a como consequência da fé no Deus do Êxodo, dos Profetas e de Jesus. O pobre não é um objeto de caridade ocasional. É sujeito de dignidade e de direitos. Uma Igreja comprometida com o Evangelho não romantiza a pobreza. Ela pergunta por suas causas. Não basta alimentar quem tem fome se continuamos aceitando um sistema que produz multidões famintas. A crise ecológica também entra nesse horizonte. Amar o próximo significa amar também aqueles que ainda nascerão. A destruição das florestas, das águas e das condições básicas de vida não atinge todos igualmente. Os pobres são geralmente os primeiros a sofrer com enchentes, secas, calor extremo, falta de saneamento e deslocamentos forçados. O lucro imediato de alguns pode transformar-se em sofrimento prolongado para milhões. A criação não é simples depósito de recursos destinados à exploração sem limites. Gênesis apresenta a humanidade como parte da criação e responsável por cultivá-la e guardá-la (Gn 2,15). Quando a ganância destrói as condições de vida do planeta, o próximo de amanhã já está sendo ferido pelas escolhas de hoje.

Também precisamos olhar para a cultura digital, onde a religião pode ser convertida em espetáculo de agressividade. É possível publicar uma oração pela manhã e passar o dia insultando pessoas. É possível citar Jesus e alimentar redes de difamação. É possível defender a família enquanto se desprezam famílias pobres, mães abandonadas, crianças sem proteção e pessoas submetidas à violência. A psicologia ajuda a compreender parte desse fenômeno. O medo, a insegurança e a necessidade de pertencimento tornam as pessoas vulneráveis a discursos que prometem certezas absolutas. Líderes autoritários oferecem segurança em troca de submissão, identidade em troca de hostilidade e pertencimento em troca da fabricação de inimigos. A religião manipulada torna-se terreno fértil para esse processo. A fé madura, ao contrário, não exige a destruição da inteligência. Ela pode conviver com perguntas, reconhecer a complexidade da realidade e recusar soluções que dependam do ódio.

É nesse ponto que a crítica às expressões religiosas associadas a projetos autoritários e à extrema direita precisa ser feita com precisão evangélica. Não se trata de afirmar que toda pessoa politicamente situada à direita seja inimiga do Evangelho, nem de transformar o cristianismo em propriedade da esquerda. O Evangelho não pertence a nenhuma ideologia. Mas toda ideologia deve ser julgada pelo Evangelho. Quando movimentos de extrema direita glorificam a violência, transformam minorias em inimigos, difundem medo, exaltam soluções autoritárias, desprezam pobres ou utilizam símbolos religiosos para blindar seus líderes contra qualquer crítica, a consciência cristã não pode permanecer neutra. A cruz não pode ser usada para santificar a crueldade. Jesus não autoriza seus discípulos a construir a unidade por meio do ódio. Ele não pergunta qual grupo possui mais poder. Ele pergunta pelo amor.

Amar, contudo, não é sentimentalismo e não significa passividade diante da injustiça. Os profetas amaram seu povo e, por isso, denunciaram seus pecados. Jesus amou o Templo e, por isso, confrontou sua corrupção. Amou os pobres e, por isso, denunciou quem os explorava. Amou a verdade e, por isso, não se submeteu às armadilhas do poder. A denúncia profética é uma forma de amor quando seu objetivo é interromper a destruição e abrir caminho para a conversão. A conversão, por sua vez, não é apenas sentimento de culpa. Na linguagem bíblica, converter-se é mudar de caminho. É abandonar os ídolos, reorganizar a vida e retornar ao Deus que chama para a justiça. Essa conversão possui uma dimensão pessoal, comunitária e social. Pessoalmente, precisamos perguntar qual Deus estamos realmente amando. Talvez tenhamos construído um Deus que concorda com nossos preconceitos e protege nossos privilégios. Comunitariamente, as paróquias, comunidades, movimentos e instituições eclesiais precisam perguntar se são lugares de serviço, escuta e participação ou espaços de concentração de poder e medo. Os ministros ordenados precisam perguntar se sua autoridade se parece com o serviço de Cristo. Os leigos e leigas precisam reconhecer sua responsabilidade e não entregar sua consciência a ninguém. Socialmente, a fé precisa perguntar por que tantos vivem sem o necessário enquanto outros acumulam em excesso; por que a violência atinge de maneira desigual; por que o estrangeiro é tratado como ameaça; por que tantas pessoas sofrem sozinhas. «Se alguém possuir bens deste mundo e, vendo seu irmão em necessidade, fechar-lhe o coração, como pode permanecer nele o amor de Deus?» (1Jo 3,17).

No fim, Jesus oferece um centro, e esse centro é radical. Amar a Deus e amar o próximo não são duas metades separadas da vida cristã. São um único movimento que sobe a Deus e se torna visível na história. Quem ama a Deus não pode permanecer indiferente ao ser humano. Quem ama verdadeiramente o ser humano é conduzido para além do próprio egoísmo, em direção ao mistério de Deus. A oração que sobe ao céu precisa modificar nossas mãos na terra. O culto precisa produzir justiça. A fé precisa produzir misericórdia. A Igreja precisa produzir serviço.

A  pergunta decisiva deste Evangelho seja simplesmente esta: Amas ou não  amas? 

  • Amas quando o pobre te incomoda? 
  • Amas quando o estrangeiro desperta teu medo? 
  • Amas quando o outro pensa diferente? 
  • Amas a verdade quando ela ameaça a reputação da instituição à qual pertences? 
  • Amas a justiça quando ela exige renunciar a privilégios? 
  • Amas a misericórdia quando seria mais fácil pedir punição? 
  • Amas a paz quando o ódio te oferece pertencimento e aplausos?

Mateus 22,34-40 permanece como um critério de discernimento para a religião, para a Igreja e para a sociedade. Toda doutrina deve ser interrogada pelos seus frutos. Toda interpretação bíblica deve ser confrontada com a justiça e a misericórdia. Todo projeto político deve ser examinado a partir da dignidade humana. Toda autoridade religiosa deve ser medida pelo serviço. Quando a religião deixa de produzir misericórdia, Deus pode continuar sendo pronunciado pelos lábios, mas já não está sendo obedecido pela vida. E, talvez, seja necessário terminar onde a própria liturgia nos colocou: diante do estrangeiro, da viúva e do órfão; diante do ferido à margem do caminho; diante do faminto, do sedento, do nu, do enfermo e do preso. É ali que a pergunta sobre o amor deixa de ser teoria. É ali que Deus espera ser amado. Não apenas no templo, não apenas na celebração, não apenas nas palavras corretas, mas no rosto concreto daquele cuja dor interpela nossa humanidade. A comunidade cristã que compreende isso não poderá ser indiferente. Seus ministros deverão servir, seus leigos deverão participar, suas paróquias deverão acolher, suas comunidades deverão partilhar e sua fé deverá tornar-se presença concreta no mundo.

Porque toda vez que uma pessoa ferida permanece caída à margem do caminho, o Evangelho de Mateus 22 volta a ser proclamado diante de nós como uma pergunta que não permite neutralidade: onde está o teu amor? Toda vez que o estrangeiro é transformado em ameaça, que o pobre é tratado como culpado pela própria pobreza, que a viúva e o órfão são esquecidos, Êxodo 22 continua ecoando como a voz do Deus que vê a aflição, escuta o clamor e não aceita que a dignidade humana seja negociada. Toda vez que o dinheiro, o poder, a pátria, a ideologia, o líder político ou religioso ocupa o lugar que pertence somente a Deus, a palavra de 1Tessalonicenses 1,9 volta a nos chamar à conversão: abandonar os ídolos para servir ao Deus vivo e verdadeiro e  toda vez que a Igreja prefere prestígio ao serviço, autoridade ao cuidado, silêncio à verdade ou preservação institucional à defesa dos vulneráveis, a voz de Jesus atravessa os corredores do poder religioso e continua dizendo: «Entre vós não deverá ser assim» (Mt 20,26). O Evangelho, portanto, não termina quando a liturgia termina. Ele continua na rua, na periferia, no hospital, na escola, no local de trabalho, na casa onde alguém chora em silêncio, na mesa onde falta alimento, na família marcada pela violência, no coração de quem perdeu o sentido da vida e na existência daquele que aprendeu a esconder sua dor porque ninguém parecia disposto a escutá-la. É ali que o mandamento do amor precisa ganhar carne. Porque o próximo não é uma abstração teológica. O próximo possui nome, rosto, história, feridas, sonhos, contradições e necessidades. O próximo pode estar diante de nós justamente quando preferiríamos não vê-lo.

Por isso,  a pergunta mais importante deste Evangelho não seja «qual é o maior mandamento?», porque Jesus já respondeu. 

  • A pergunta que permanece é outra: O que estamos fazendo com aquilo que já sabemos? 

Podemos:  conhecer a Escritura e continuar indiferentes,  participar da liturgia e permanecer incapazes de misericórdia,  defender a ortodoxia e abandonar a justiça, falar de Deus e construir muros contra o irmão,  carregar símbolos religiosos e ao mesmo tempo, colaborar com estruturas que humilham, exploram e descartam pessoas.

 Conhecer o mandamento não basta: 

  1. O escriba de Marcos sabia responder corretamente.
  2.  O samaritano de Lucas soube transformar a resposta em gesto. 
Entre saber e viver existe o espaço onde a fé revela sua verdade e é nesse espaço que a Igreja precisa realizar continuamente seu exame de consciência. Não apenas perguntar: 

  1.  quantas pessoas participam de suas celebrações, 
  2. quantos projetos possui, 
  3. quantas atividades realiza 
  4.  quanta influência consegue exercer na sociedade
A perguntar algo muito mais simples e muito mais exigente: 

  1. Quem está sendo amado?
  2.  Quem está sendo escutado? 
  3. Quem continua ficando do lado de fora? 
  4. Quem tem medo de falar? 
  5. Quem foi ferido pela própria comunidade religiosa?
  6.  Quem procura a Igreja e encontra uma porta aberta? 
  7. Quem procura Deus e encontra apenas burocracia, julgamento ou indiferença? 
A grandeza de uma comunidade cristã não se mede pela quantidade de poder que acumula, mas pela quantidade de vidas que consegue acolher, cuidar, reconciliar e defender. Também a nossa consciência precisa ser confrontada. Hoje  para muitos  é  mais fácil denunciar o pecado do mundo do que reconhecer os ídolos que construímos dentro de nós. . O mesmo Deus que perdoa nossa fragilidade nos chama a olhar com misericórdia para a fragilidade alheia,  a mesma graça que desejamos receber precisa transformar a maneira como tratamos quem errou. E aqui está a radicalidade do cristianismo: amar não significa concordar com tudo, tolerar toda injustiça ou abandonar a verdade. Jesus ama e confronta. Ama é: denuncia,  cura e chama à conversão. O amor cristão não é cumplicidade com o mal, mas compromisso com a vida. Por isso o profeta pode denunciar e continuar amando e por isso Jesus pode confrontar os poderosos sem transformar o outro em objeto de ódio. A misericórdia não elimina a justiça; purifica-a da vingança. A verdade não elimina o amor; impede que o amor se transforme em sentimentalismo e a justiça não elimina a misericórdia; impede que a misericórdia seja reduzida a uma palavra vazia.

No fim, tudo retorna àquele homem caído à margem da estrada. Ele não sabia quem passaria por ali,  não podia controlar quem o encontraria e  não podia oferecer nada em troca. Estava simplesmente ferido. E o samaritano não perguntou primeiro se aquele homem merecia ajuda, qual era sua religião, sua origem, sua posição política ou sua história pessoal. Ele viu e  porque viu, deixou-se afetar. Porque se deixou afetar, aproximou-se. Porque se aproximou, tocou a ferida. Porque tocou a ferida, cuidou. Porque cuidou, assumiu responsabilidade. Talvez seja esta a gramática mais simples do Evangelho: ver, deixar-se tocar, aproximar-se, cuidar e permanecer responsável.

É por isso que Mateus 22 não pode ser reduzido a uma bonita frase sobre amor. Ele é uma sentença contra toda religião que tenta separar Deus do ser humano. Ele desmonta o culto que não produz misericórdia, a espiritualidade que não produz responsabilidade, a autoridade que não produz serviço e a fé que não produz justiça. Ele coloca diante de nós o Deus de Deuteronômio, o Deus do Êxodo, o Deus dos Profetas e o Deus revelado em Jesus Cristo. Um Deus que não permanece indiferente diante do grito dos vulneráveis. Um Deus que não se deixa capturar pelos palácios do poder. Um Deus que não precisa de violência para ser Deus. Um Deus que se revela no amor e chama seu povo a tornar esse amor visível na história. Essa é  a grande conversão de que precisamos: sair de uma religião que pergunta apenas «o que devo acreditar?» e entrar numa fé que também pergunta «como devo viver?, sair de uma religião preocupada apenas em defender fronteiras e entrar numa espiritualidade capaz de construir pontes., sair da necessidade de vencer todas as discussões e recuperar a capacidade de escutar, sair do culto ao poder e redescobrir o serviço, sair da fé utilizada como arma política e reencontrar o Evangelho como Boa-Nova para os pobres, os feridos, os esquecidos e todos aqueles que o mundo considera descartáveis. 

Porque o Evangelho continua sendo proclamado não somente quando a assembleia se reúne diante do altar, mas cada vez que a vida humana nos coloca diante de uma escolha. Entre passar adiante ou parar. . É nessa hora que a fé deixa de ser discurso e se transforma em testemunho e  a liturgia ultrapassa as paredes do templo, que a Bíblia deixa de ser apenas um livro que lemos e começa a ser uma Palavra que nos lê e  a oração deixa de ser apenas voz e se transforma em compromisso e  a Igreja deixa de ser apenas instituição e se torna comunidade de discípulos.

Amar a Deus. Amar o próximo. Não como palavras para decorar, mas como uma existência para assumir e não como slogan religioso, mas como prática cotidiana.  E quando isso acontece, a palavra de Jesus deixa de ser apenas proclamada e começa a ser vivida. Então o Evangelho deixa de ser somente uma religião que fala sobre Deus e se torna uma Boa-Nova que revela Deus na história. Porque Deus é amor (1Jo 4,8), e onde o amor se torna justiça, misericórdia, serviço, reconciliação e defesa da vida, ali o Reino de Deus começa novamente a nascer entre nós. Que a nossa fé tenha coragem de chegar até esse lugar. Que nossas Igrejas tenham coragem de chegar até esse lugar. Que nossas consciências tenham coragem de chegar até esse lugar. Porque, no fim, diante de Deus, talvez permaneça apenas aquilo que conseguimos transformar em amor. E a pergunta que atravessa a Lei, os Profetas, o Evangelho, a cruz e a história continua sendo a mesma: diante de Deus e diante do próximo, o que fizemos com o amor que recebemos?

DNonato -Teólogo do Cotidiano