A unidade das leituras deste domingo é extraordinária. Jeremias 20,10-13, o Salmo 68(69), Romanos 5,12-15 e Mateus 10,26-33 convergem para uma mesma realidade espiritual e histórica: a experiência do justo que sofre, do discípulo que enfrenta oposição e da confiança que resiste mesmo quando as circunstâncias parecem apontar para o fracasso.
- A primeira leitura Jeremias 20,10-13: apresenta um dos momentos mais dramáticos da vida de Jeremias. O profeta vive nos últimos anos do Reino de Judá, num período marcado por profundas tensões políticas, religiosas e sociais. O Império Babilônico avança sobre a região, enquanto dirigentes políticos e religiosos alimentam falsas expectativas de segurança. Jeremias, porém, anuncia uma mensagem diferente. Denuncia a corrupção, a injustiça social, a falsa religiosidade e a confiança ilusória em instituições que já haviam abandonado a fidelidade à aliança. Por isso torna-se alvo de perseguições. Em Jeremias 1,4-10, seu chamado já continha o anúncio do conflito. Deus o havia constituído para arrancar e destruir, para construir e plantar. Também lhe havia advertido: “Eles combaterão contra ti, mas não prevalecerão, porque eu estou contigo para te salvar” (Jr 1,19). Em Jeremias 20 vemos essa promessa sendo posta à prova. O profeta encontra-se cercado por acusações, calúnias e hostilidade. Seus próprios amigos esperam sua queda. A expressão “Terror por todos os lados” (Jr 20,10) revela uma atmosfera de medo e ameaça constante. Entretanto, o texto culmina numa extraordinária profissão de fé: “O Senhor está comigo como poderoso guerreiro” (Jr 20,11). Jeremias não nega a realidade do sofrimento. Sua esperança não nasce da negação do conflito, mas da certeza da presença divina.
- O Salmo 68(69) prolonga essa experiência. Trata-se da oração de um inocente perseguido, alguém que sofre precisamente por permanecer fiel a Deus. A tradição cristã reconheceu nesse salmo uma antecipação da paixão de Cristo. Quando o salmista afirma: “O zelo por tua casa me consome” (Sl 69,10), João aplica essas palavras a Jesus na purificação do Templo (Jo 2,17). Quando diz: “Deram-me vinagre para beber” (Sl 69,22), a tradição vê uma referência à crucifixão (Mt 27,48; Jo 19,29). O refrão litúrgico, “Pela vossa grande misericórdia, atendei-me, Senhor”, sintetiza uma das convicções mais profundas da espiritualidade bíblica: a esperança do fiel repousa não em sua própria força, mas na misericórdia de Deus. A palavra hebraica hesed expressa esse amor fiel, constante e irrevogável com que Deus permanece unido ao seu povo apesar de suas fragilidades.
- A segunda leitura Romanos 5,12-15: amplia ainda mais o horizonte ao situar a experiência humana dentro do drama universal da salvação. Paulo estabelece um contraste entre Adão e Cristo. Sua reflexão remete a Gênesis 2–3, onde a ruptura da comunhão com Deus introduz o pecado e a morte na história humana. O apóstolo não procura explicar cientificamente a origem do mal, mas interpretar teologicamente a condição humana. Sua constatação é que todos participam de uma realidade marcada pelo pecado. Essa percepção aparece em diversas passagens bíblicas, como Salmo 14,1-3, Eclesiastes 7,20 e Romanos 3,23. Contudo, Paulo não permanece no diagnóstico da queda. Sua atenção concentra-se na superabundância da graça. Se por um homem entrou o pecado, por um homem veio a redenção. Se Adão representa a humanidade ferida, Cristo inaugura uma nova criação. A mesma ideia reaparece em 1Coríntios 15,22: “Assim como em Adão todos morrem, em Cristo todos receberão a vida”. Essa perspectiva é essencial para compreender o Evangelho. O medo humano está profundamente ligado à consciência da fragilidade, da limitação e da mortalidade. Jesus falará justamente a homens e mulheres que conhecem essa condição.
Podemos perceber que Jeremias, o salmista, Paulo e Jesus apontam para uma mesma direção.
- O justo pode ser perseguido, mas não abandonado.
- O pobre pode ser desprezado pelo mundo, mas jamais é esquecido por Deus.
- A verdade pode ser silenciada por um tempo, mas não permanecerá escondida para sempre.
- O mal pode ferir profundamente a história, mas não possui força para destruir a promessa divina.
- A cruz não é o fim do caminho e a ressurreição revela que Deus continua agindo mesmo quando tudo parece perdido.
E quando chegamos na liturgia em Mateus 10,26-33, encontramos Jesus dirigindo-se aos discípulos que acabaram de ser enviados em missão. Antes desta passagem, ele já havia dito: “Eis que vos envio como ovelhas no meio de lobos” (Mt 10,16), “Sereis odiados por todos por causa do meu nome” (Mt 10,22) e “O discípulo não está acima do mestre” (Mt 10,24). A advertência é clara. A missão do Reino não se desenvolve num ambiente neutro. O Evangelho confronta estruturas de poder, sistemas de exclusão e formas de religiosidade que perderam sua capacidade de servir à vida. Por isso encontra resistência. É nesse contexto que Jesus repete três vezes a mesma exortação: “Não tenhais medo”. A repetição não é acidental. Na Escritura, a insistência revela importância. Desde Gênesis 3,10, quando Adão diz “tive medo”, o medo aparece como uma das marcas da condição humana ferida. A psicologia contemporânea confirma que grande parte das decisões humanas é influenciada por mecanismos de proteção diante de ameaças reais ou imaginárias. Medo da rejeição, da pobreza, da violência, do fracasso, da solidão e da morte moldam comportamentos individuais e coletivos. Jesus reconhece essa realidade, mas se recusa a permitir que ela determine a vida dos discípulos.
A primeira razão apresentada para não ter medo é a certeza de que a verdade será revelada. “Nada há de encoberto que não venha a ser descoberto” (Mt 10,26). Trata-se de uma afirmação profundamente escatológica. Deus fará justiça. As mentiras que sustentam sistemas de dominação não permanecerão para sempre. A mesma esperança aparece em Daniel 12,2-3, Isaías 25,8, Lucas 8,17 e Apocalipse 21,4-5. O Reino de Deus caminha na direção da revelação da verdade. Essa palavra possui enorme atualidade numa época marcada pela manipulação da informação, pela fabricação de narrativas falsas, pela disseminação de discursos de ódio e pela instrumentalização da comunicação para proteger interesses econômicos e políticos. Muitas vezes a mentira parece triunfar. Jesus, porém, recorda que a verdade possui uma força própria porque está enraizada no próprio Deus.
A segunda razão para não ter medo encontra-se na imagem dos pardais. “Não se vendem dois pardais por algumas moedas?” (Mt 10,29). No mundo mediterrâneo do século I, os pardais estavam entre as aves mais baratas comercializadas nos mercados populares. Representavam aquilo que era considerado insignificante. Jesus escolhe deliberadamente essa imagem para revelar algo fundamental sobre Deus. Nenhum pardal cai por terra sem que o Pai o saiba. A mesma visão aparece em Jó 38–39, no Salmo 104, em Mateus 6,26 e em Lucas 12,6. O Deus revelado por Jesus não governa apenas os grandes acontecimentos da história. Ele conhece também aquilo que parece pequeno, invisível e irrelevante aos olhos humanos. Trata-se de uma crítica radical aos critérios de importância estabelecidos pelos impérios. Enquanto os sistemas de poder valorizam riqueza, prestígio e influência, Deus volta seu olhar para os pobres, os esquecidos e os marginalizados. É a mesma lógica presente em Êxodo 3,7-8, quando Deus escuta o clamor dos escravos no Egito; em 1Samuel 16,11-13, quando escolhe Davi, o menor dos filhos de Jessé; e no Magnificat de Maria, quando proclama que Deus derruba os poderosos de seus tronos e exalta os humildes (Lc 1,52-53).
A terceira razão para não ter medo é expressa numa das imagens mais belas do Evangelho: “Até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados” (Mt 10,30). Evidentemente, não se trata de uma descrição matemática da ação divina, mas de uma linguagem simbólica destinada a expressar a profundidade do cuidado de Deus. A mesma convicção aparece no Salmo 139, em Isaías 49,15-16 e em Jeremias 1,5. Deus conhece cada pessoa em sua singularidade. Numa sociedade que frequentemente reduz seres humanos a números, estatísticas ou instrumentos econômicos, o Evangelho proclama a dignidade infinita de cada vida.
O ponto culminante da passagem encontra-se nos versículos finais: “Todo aquele que se declarar a meu favor diante dos homens, também eu me declararei em favor dele diante de meu Pai” (Mt 10,32). No contexto das primeiras comunidades cristãs, essa afirmação possuía enorme peso. Confessar Jesus não era apenas uma profissão verbal de fé. Podia significar exclusão social, perseguição religiosa, perda de privilégios e até mesmo martírio. O mesmo ensinamento aparece em Marcos 8,38, Lucas 12,8-9, João 15,18-21 e Apocalipse 3,5. Contudo, é importante compreender o significado bíblico dessa confissão. Em Mateus, confessar Jesus não consiste simplesmente em repetir fórmulas religiosas. Significa praticar a vontade do Pai (Mt 7,21), buscar primeiro o Reino e sua justiça (Mt 6,33), acolher os pequenos (Mt 25,31-46), amar os inimigos (Mt 5,44) e carregar a própria cruz (Mt 16,24)..Essa compreensão conduz inevitavelmente à dimensão profética do Evangelho. Jeremias enfrentou falsos profetas que anunciavam paz quando não havia paz (Jr 6,14). Amós denunciou um culto que ignorava a justiça social (Am 5,21-24). Isaías rejeitou práticas religiosas desvinculadas da defesa dos pobres (Is 58,1-12). Jesus insere-se plenamente nessa tradição profética. Por isso, qualquer tentativa de instrumentalizar a religião para fins de dominação política, econômica ou ideológica contradiz a lógica do Reino. Sempre que a fé é utilizada para legitimar desigualdades, exclusões ou projetos autoritários, afasta-se do Evangelho. A crítica profética da Escritura dirige-se contra toda forma de idolatria do poder. O Reino anunciado por Jesus não se identifica com nacionalismos religiosos, nem com projetos de supremacia cultural, nem com ideologias que transformam adversários em inimigos absolutos. A lógica do Evangelho é a lógica do serviço, da misericórdia e da justiça.
Jesus desafia frontalmente hoje as versões da fé que reduzem o cristianismo a promessas de prosperidade material. O Cristo de Mateus 10 não promete riqueza, sucesso econômico ou imunidade ao sofrimento. Promete presença divina em meio às perseguições. Promete fidelidade em meio às provações. Promete que a última palavra pertence à vida e não à morte. Também o clericalismo aparece como uma deformação da missão cristã. Jesus ensinou que o maior deve ser servo de todos (Mt 20,26-28; Mt 23,11). O Concílio Vaticano II, especialmente em Lumen Gentium e Gaudium et Spes, recorda que a Igreja existe para servir à humanidade e testemunhar o Reino. Os documentos latino-americanos de Medellín, Puebla, Santo Domingo e Aparecida aprofundam essa perspectiva ao insistirem na opção preferencial pelos pobres, na defesa da dignidade humana e no compromisso com a justiça social..Tudo isso possui profunda relevância para o mundo contemporâneo. Vivemos numa realidade marcada por desigualdades extremas, exclusão social, violência estrutural, crises ambientais, manipulação religiosa e crescente perda de sentido existencial. O medo tornou-se uma ferramenta poderosa de controle social. Medo do diferente, medo do estrangeiro, medo do pobre, medo da mudança, medo do futuro. Jesus propõe outro caminho. O discípulo não é chamado a viver movido pelo medo, mas pela confiança. Não é chamado a reproduzir discursos de exclusão, mas a construir fraternidade. Não é chamado a defender privilégios, mas a servir. Não é chamado a buscar poder, mas a testemunhar o Reino.
Ao contemplarmos as leituras de hoje percebemos uma extraordinária unidade teológica:
- Jeremias é perseguido, mas permanece fiel.
- O salmista sofre, mas continua esperando na misericórdia divina.
- Paulo proclama que a graça de Cristo é maior do que o pecado que marca a humanidade.
- Jesus envia seus discípulos para um mundo hostil, mas garante que o Pai conhece até os cabelos de suas cabeças.
A Palavra de Deus não oferece uma espiritualidade de fuga nem promete uma existência sem conflitos. Ela convida a olhar a realidade com lucidez. O mal existe. A injustiça existe. A perseguição existe. A violência existe. O medo existe. Mas existe também o Deus:
- Que Chamou Abraão para caminhar pela fé (Gn 12,1-4)
- Que acompanhou José no Egito (Gn 39,21)
- Que ouviu o clamor dos escravos (Ex 3,7-10)
- Que sustentou Jeremias em sua solidão (Jr 1,19) e fortaleceu Jeremias em meio às perseguições (Jr 20,11)
- Que sustentou Elias no deserto (1Rs 19,1-18)
- Que caminhou com os exilados na Babilônia (Is 43,1-5)
- Que fortaleceu os mártires de Israel (Dn 3; 2Mc 7)
- Que ressuscitou Jesus dentre os mortos (Mt 28,1-10)
- Que derramou o Espírito Santo sobre a Igreja (At 2,1-11).
- Que continua presente na história humana, mesmo quando sua presença parece obscurecida pelas sombras do sofrimento, da injustiça e da violência.
Por isso, a última palavra do Evangelho não é o medo, mas a esperança; não é a derrota, mas a confiança; não é a morte, mas a vida. Esta é a grande proclamação que atravessa toda a Escritura, desde o clamor dos escravos no Egito até a visão da Nova Jerusalém no Apocalipse. O Deus que ouviu o grito de seu povo (Ex 3,7),
A mensagem de Jesus em Mateus 10,26-33 não é um convite à imprudência nem uma negação da dor. É um chamado a viver a partir de uma confiança mais profunda que o medo. O discípulo não é alguém que ignora os perigos da realidade, mas alguém que sabe que nenhuma força da história, nenhum império, nenhuma ideologia, nenhum sistema de opressão e nem mesmo a morte possuem a palavra definitiva sobre a existência humana. Como proclamará Paulo mais tarde: “Se Deus é por nós, quem será contra nós?” (Rm 8,31). E ainda: “Nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem o presente, nem o futuro, nem quaisquer outras criaturas poderão separar-nos do amor de Deus manifestado em Cristo Jesus” (Rm 8,38-39). Num mundo marcado pela desigualdade, pela exclusão, pelas guerras, pela cultura do descarte, pela manipulação das consciências e pela instrumentalização da religião em favor de projetos de poder, o Evangelho continua convocando homens e mulheres a não terem medo de viver a verdade, de praticar a justiça e de permanecer ao lado dos crucificados da história. Não ter medo significa recusar a lógica da indiferença. Significa não se conformar diante da pobreza que humilha, da violência que mata, do racismo que exclui, da corrupção que destrói o bem comum, das estruturas econômicas que produzem multidões descartáveis e das formas religiosas que transformam Deus em instrumento de dominação. A coragem cristã nasce quando o amor se torna maior que o medo.
É precisamente por isso que os mártires da Igreja não foram pessoas apaixonadas pelo sofrimento, mas testemunhas de uma esperança maior que a ameaça. Foi essa esperança que sustentou os apóstolos diante das perseguições, os primeiros cristãos diante dos imperadores, os missionários diante dos perigos da evangelização, os santos diante das incompreensões de seu tempo e tantos homens e mulheres anônimos que, ao longo da história, permaneceram fiéis ao Evangelho em contextos de opressão e injustiça. Todos eles compreenderam que o Reino de Deus vale mais do que qualquer segurança construída à custa da verdade..
Assim, a Palavra de Deus convida cada discípulo a renovar sua confiança no Senhor e a assumir com coragem sua vocação profética no mundo. Somos chamados a anunciar o que ouvimos ao pé do ouvido sobre os telhados (Mt 10,27), a testemunhar a misericórdia em tempos de ódio, a proclamar a verdade em tempos de mentira, a defender a dignidade humana em tempos de exclusão e a manter viva a esperança em tempos de desesperança. Porque o Reino de Deus já está presente como semente na história e caminha silenciosamente para sua plenitude..
No final, permanecerá apenas aquilo que foi construído no amor. Os impérios passarão. As ideologias passarão. As riquezas passarão. Os poderes deste mundo passarão. Mas a Palavra do Senhor permanece para sempre (Is 40,8; 1Pd 1,25). E aqueles que colocaram sua confiança em Deus descobrirão que jamais caminharam sozinhos. O Pai que conhece cada pardal do céu e conta os cabelos de cada um de seus filhos continua conduzindo a história para a plenitude do Reino. Por isso, mesmo em meio às tempestades do presente, a Igreja continua anunciando com esperança inabalável: não tenhais medo. O Senhor está conosco. E onde Deus está presente, a vida sempre será mais forte que a morte, a misericórdia mais forte que o pecado, a verdade mais forte que a mentira e o amor mais forte que todo medo.


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