sábado, 13 de junho de 2026

Um olhar sobre Mateus 9,36-10,8 - 11º Domingo do Tempo Comum,

O 11º Domingo do Tempo Comum do Ano A apresenta uma extraordinária unidade teológica entre as leituras proclamadas. A primeira leitura (Êxodo 19,2-6a), o Salmo 99(100), a segunda leitura (Romanos 5,6-11) e o Evangelho (Mateus 9,36–10,8)  que aparece na liturgia  de forma variada em parte  no dia de São  Barnabé Mateus 10, 7-13, no   primeiro  sábado  do advento  Mateus 9,35–10,1.6–8 e os sinóticos Marcos 10,7-13 e    Matcos 6,30-34   no  décimo  quinto e décimo sexto domingo tempo comum do ano  B e  Lucas  10,1-9  no 14º Domingo do Tempo Comum do Ano C

As .leituras  do 11⁰ Domingo  não são textos isolados, mas partes de uma única narrativa da ação de Deus na história da salvação O Deus que liberta os escravizados no Egito é o mesmo que conduz seu povo como pastor, que reconcilia a humanidade por meio de Cristo e que envia discípulos para continuar sua obra de compaixão e libertação no mundo.  Mateus 9,36–10,8 marca uma das passagens mais importantes do Evangelho. Nele acontece a transição entre o ministério realizado diretamente por Jesus e a continuidade dessa missão através dos discípulos. Ao ser lido em paralelo com Marcos e Lucas, percebemos que a missão cristã nasce da própria compaixão de Cristo e se concretiza em homens e mulheres enviados para servir, mas vamos  olhar  um pouco nas  leituras  desse dia 

A primeira  leitura  Êxodo 19,2-6a situa-nos diante de um dos momentos decisivos da história bíblica. Israel acaba de sair da escravidão do Egito e chega ao deserto do Sinai. O contexto histórico é fundamental: o povo não nasce como nação através de conquistas militares nem pela força de governantes humanos. Sua identidade surge da experiência da libertação. Antes da Lei existe a graça; antes dos mandamentos existe o amor libertador de Deus. Por isso o Senhor recorda: “Vistes o que fiz aos egípcios e como vos carreguei sobre asas de águia e vos trouxe a mim” (Ex 19,4). A imagem da águia possui profundo significado na tradição bíblica. Não descreve um Deus dominador, mas um Deus cuidador, que protege, acompanha e sustenta seu povo. O mesmo símbolo reaparece em Deuteronômio 32,11-12, onde a águia ensina seus filhotes a voar e os ampara durante a queda. O profeta Oseias utilizará linguagem semelhante ao afirmar: “Eu os atraía com laços humanos, com laços de amor” (Os 11,4). A libertação do Egito não representa apenas um acontecimento político; constitui uma experiência espiritual e antropológica na qual um povo de escravos é transformado em povo da aliança. Em seguida, Deus declara: “Sereis para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa” (Ex 19,6). Exegeticamente, a expressão não se restringe ao sacerdócio cultual posteriormente ligado à tribo de Levi. Refere-se à totalidade do povo. Israel é chamado a tornar-se mediação da presença divina entre as nações. Sua eleição não é privilégio, mas responsabilidade; não é instrumento de superioridade religiosa, mas serviço ao projeto universal de Deus. A promessa feita a Abraão já apontava nessa direção: “Em ti serão benditas todas as famílias da terra” (Gn 12,3). A mesma perspectiva reaparece em Isaías, quando o Servo do Senhor é chamado a ser “luz para as nações” (Is 49,6). Essa vocação universal alcança sua plenitude na ordem missionária de Jesus: “Ide e fazei discípulos de todas as nações” (Mt 28,19). O que começou com Israel encontra sua abertura definitiva em Cristo. Essa compreensão corrige toda forma de nacionalismo religioso, fundamentalismo ou exclusivismo espiritual. A eleição bíblica nunca existe contra os outros, mas para os outros. O povo escolhido é chamado a tornar-se sinal da bênção de Deus para toda a humanidade.

O Salmo 99(100) responde a essa experiência de aliança transformando a memória da libertação em louvor: “Sabei que o Senhor, só ele, é Deus. Ele mesmo nos fez e somos seus, nós somos seu povo e seu rebanho” (Sl 100,3). Em um mundo marcado por impérios que absolutizavam governantes e sistemas de poder, essa profissão de fé possuía caráter profundamente libertador. O salmista proclama que nenhum governante, ideologia ou estrutura humana pode ocupar o lugar de Deus. A imagem do rebanho conecta o salmo a uma das mais belas tradições bíblicas. O Senhor é o pastor do Salmo 23, o pastor prometido por Jeremias (Jr 23,1-6), o pastor que reúne as ovelhas dispersas em Ezequiel 34 e o pastor que procura a ovelha perdida em Lucas 15. Essa imagem alcança seu ponto culminante quando Jesus declara: “Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida por suas ovelhas” (Jo 10,11). Trata-se de uma relação fundada no cuidado, na proximidade e na fidelidade. Em uma sociedade marcada pela competição, pela fragmentação e pela solidão, o salmo recorda que a identidade humana não nasce do desempenho econômico nem do reconhecimento social. O ser humano descobre quem é quando reconhece a quem pertence. Somos criaturas amadas por Deus e chamadas à comunhão com Ele e com os irmãos.

A segunda leitura, Romanos 5,6-11, aprofunda ainda mais essa dinâmica da graça. Escrevendo à comunidade cristã de Roma, centro do poder político e militar do Império, Paulo apresenta uma lógica radicalmente diferente da lógica imperial. “Quando éramos ainda fracos, Cristo morreu pelos ímpios” (Rm 5,6). O apóstolo fala de pessoas fracas, pecadoras e até inimigas de Deus. A salvação não nasce do mérito humano nem da perfeição moral. Ela é fruto da iniciativa gratuita do amor divino. O ponto culminante do texto encontra-se na afirmação: “Deus demonstra seu amor para conosco pelo fato de Cristo ter morrido por nós quando ainda éramos pecadores” (Rm 5,8). A lógica do Evangelho rompe com toda visão religiosa baseada na recompensa. Deus não ama porque somos bons; ama-nos para tornar possível nossa ttransformação.essa verdade atravessa toda a Escritura. Ela aparece na parábola do filho pródigo (Lc 15,11-32), onde o pai corre ao encontro do filho antes mesmo de qualquer reparação. Manifesta-se também no encontro de Jesus com Zaqueu (Lc 19,1-10), acolhido antes de apresentar sinais concretos de conversão. O amor de Deus precede qualquer mérito. A reconciliação vem antes da perfeição. A graça não é prêmio concedido aos justos, mas dom oferecido aos necessitados. Essa experiência da graça prepara diretamente a compreensão do Evangelho.

Em Mateus 9,36–10,8 encontramos um dos momentos mais importantes da revelação da identidade e da missão de Jesus. Depois de percorrer cidades e aldeias da Galileia, ensinando nas sinagogas, anunciando o Reino e curando toda espécie de enfermidades, Jesus contempla as multidões e vê nelas uma realidade que ultrapassa o sofrimento individual. A Galileia do primeiro século era uma região marcada por contrastes sociais, diversidade cultural e forte presença da dominação romana. Camponeses endividados, trabalhadores explorados, excluídos religiosos e populações submetidas a pesados tributos compunham o cenário cotidiano. Não é sem significado que Jesus inicie sua missão nessa periferia do mundo religioso. O Deus da Bíblia frequentemente age a partir das margens::

  • Escolhe Belém em vez de Jerusalém (Mq 5,1), 
  • Escolhe Davi, o menor dos filhos de Jessé (1Sm 16,11-13)
  • Escolhe pescadores da Galileia para anunciar o Reino.
O Evangelho inicia afirmando que Jesus, ao ver as multidões, "encheu-se de compaixão por elas, porque estavam cansadas e abatidas, como ovelhas sem pastor" (Mt 9,36). O verbo grego splagchnizomai expressa uma comoção profunda, que brota das entranhas. A imagem das "ovelhas sem pastor" remete às antigas promessas de Deus de cuidar do seu povo (Nm 27,17; Ez 34). Jesus aparece, assim, como o Pastor esperado, aquele que vê a dor humana e não permanece indiferente. O verbo utilizado por Mateus deriva do grego splagchnizomai, termo que remete às entranhas humanas e expressa uma compaixão profunda, visceral e transformadora. Jesus não observa o sofrimento à distância. Ele se deixa afetar pela dor do povo. A mesma compaixão aparece no bom samaritano (Lc 10,33), no pai misericordioso da parábola (Lc 15,20), na multiplicação dos pães (Mc 6,34) e na ressurreição do filho da viúva de Naim, quando Jesus “teve compaixão dela” (Lc 7,13). Em Cristo manifesta-se o rosto misericordioso do Pai anunciado pelos prprofetas.

Em Marcos essa  conversa  tem essa mesma imagem em Marcos 6,34, mas a situa antes da multiplicação dos pães. A compaixão leva Jesus a ensinar e a alimentar. Palavra e pão caminham juntos. Lucas não utiliza a expressão nesse contexto, mas espalha essa mesma misericórdia ao longo de seu Evangelho, especialmente nas parábolas do Bom Samaritano (Lc 10,33) e do Pai Misericordioso (Lc 15,20). Nos três Evangelhos, a missão nasce do coração compassivo de Deus. Diante da multidão desorientada, Jesus faz um diagnóstico que permanece atual: "A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos" (Mt 9,37). Antes de enviar os discípulos, porém, ele pede que rezem: "Rogai ao Senhor da messe que envie trabalhadores para sua colheita" (Mt 9,38). A missão nasce da oração. Mais ainda: aqueles que rezam tornam-se a resposta à própria oração. Em Mateus, o pedido é seguido imediatamente pela escolha dos Doze. Em Lucas, a mesma frase introduz o envio dos setenta e dois discípulos (Lc 10,2), ampliando o horizonte missionário para todos os povos.

A lista dos Doze revela a força transformadora do Evangelho. Jesus reúne pessoas muito diferentes: pescadores, um cobrador de impostos e até um zelota, pertencente a uma corrente nacionalista radical. Marcos acrescenta um detalhe fundamental: eles foram chamados primeiro "para ficar com Ele" e depois para serem enviados (Mc 3,14). Antes da missão existe o discipulado; antes da palavra anunciada existe a convivência com Cristo. No momento do envio, Marcos ressalta ainda que eles partem de dois em dois (Mc 6,7), mostrando que a missão possui um caráter comunitário. Lucas enfatiza a autoridade recebida para libertar do mal e curar os enfermos (Lc 9,1-6), sinais concretos da chegada do Reino. Embora Mateus preserve algumas orientações ligadas ao contexto judaico-cristão de sua comunidade, como a prioridade às "ovelhas perdidas da casa de Israel" (Mt 10,6), o próprio Evangelho terminará com o mandato universal: "Ide e fazei discípulos entre todas as nações" (Mt 28,19). O centro da missão permanece o mesmo nos três Sinóticos: anunciar a proximidade do Reino de Deus e torná-lo visível por meio de gestos concretos de libertação, cura, acolhida e restauração da vida.

Por isso, Mateus conclui com uma das frases mais belas e exigentes do Evangelho: "De graça recebestes, de graça deveis dar" (Mt 10,8). A gratuidade torna-se a marca do discípulo. O Evangelho não é mercadoria, instrumento de poder ou privilégio religioso. Tudo vem de Deus e tudo deve ser colocado a serviço dos outros..A leitura conjunta de Mateus, Marcos e Lucas mostra que a evangelização não é um projeto de expansão institucional nem uma imposição ideológica. Ela é a continuação da compaixão de Jesus na história. Começa com um olhar atento ao sofrimento humano, passa pela oração, transforma-se em vocação e culmina no serviço. A missão cristã é, em sua essência, a compaixão de Deus colocada em movimento na direção da humanidade.

A imagem das “ovelhas sem pastor” possui profundas raízes bíblicas. Moisés já pedia que Deus não deixasse Israel “como ovelhas sem pastor” (Nm 27,17). Jeremias denunciava os líderes que dispersavam o rebanho (Jr 23,1-4), enquanto Ezequiel anunciava que o próprio Deus viria procurar suas ovelhas e cuidar delas (Ez 34,11-16). Quando Mateus aplica essa imagem a Jesus, está afirmando que nele se cumprem as antigas promessas messiânicas. Seu olhar possui também uma dimensão social. As multidões não estão apenas cansadas por problemas individuais. São pessoas esmagadas por estruturas injustas, pela exclusão e pela falta de lideranças comprometidas com o bem comum. A compaixão de Jesus torna-se, portanto, profundamente profética. Ela não ignora as causas do sofrimento humano nem se limita a oferecer consolo espiritual. Busca restaurar integralmente a vida das pessoas..É nesse contexto que surge a afirmação: “A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos” (Mt 9,37). A imagem da colheita atravessa toda a Escritura. Aparece em Joel 4,13, em Isaías 27,12 e reaparece em Apocalipse 14,15 como símbolo da ação de Deus na história. O problema não é a ausência de pessoas necessitadas de esperança, mas a escassez de trabalhadores dispostos a participar da missão. Por isso Jesus convida os discípulos à oração: “Pedi ao Senhor da messe que envie trabalhadores para sua colheita” (Mt 9,38).

Logo em seguida, Jesus chama os Doze e os envia. O número possui profundo valor simbólico, pois remete às doze tribos de Israel. O novo povo de Deus está sendo constituído para continuar a missão iniciada por Cristo. A comparação entre os Evangelhos Sinóticos enriquece nossa compreensão desse envio. Marcos destaca a confiança radical e a dimensão comunitária da missão ao apresentar os discípulos enviados dois a dois (Mc 6,7-13). Lucas enfatiza a proclamação do Reino e a universalidade da salvação, especialmente no envio dos setenta e dois discípulos (Lc 10,1-20). Mateus, por sua vez, sublinha a continuidade entre as promessas feitas a Israel e sua realização na comunidade dos discípulos. O próprio grupo apostólico manifesta a lógica do Reino. Pescadores, cobradores de impostos e pessoas provenientes de diferentes sensibilidades sociais e políticas são reunidos por Jesus em torno de uma mesma missão. A unidade não nasce da uniformidade, mas da comunhão em Cristo. Em tempos marcados por polarizações e divisões, essa mensagem conserva enorme atualidade..Além disso, os Evangelhos não escondem as fragilidades dos discípulos. 

  1. Pedro negará Jesus (Mt 26,69-75), Tomé duvidará da ressurreição (Jo 20,24-29)
  2. Tiago e João disputarão posições de destaque (Mc 10,35-41) 
  3. Judas o trairá (Mt 26,14-16). 
A Escritura apresenta homens reais, com limites e contradições. O mesmo ocorre com: 

  •  Abraão, que experimenta o medo (Gn 12,10-20), 
  • Moisés, que hesita diante da missão (Ex 4,10-13), 
  • Elias, que conhece o desânimo (1Rs 19,4),  
  • Jonas, que tenta fugir de sua vocação (Jn 1,3). A missão não depende da perfeição humana, mas da fidelidade de Deus. Como dirá Paulo: “Temos este tesouro em vasos de barro” (2Cor 4,7).

O centro da missão consiste em anunciar que o Reino dos Céus está próximo. Em Mateus, essa expressão corresponde ao Reino de Deus anunciado pelos demais evangelistas. Não se trata de um lugar geográfico nem apenas de uma realidade futura. É a ação soberana de Deus transformando a história e restaurando a vida humana segundo seu projeto de amor. Jesus já havia proclamado: “Convertei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo” (Mt 4,17). Mais tarde afirmará: “O Reino de Deus está entre vós” (Lc 17,21). As parábolas mostram que esse Reino cresce silenciosamente como o grão de mostarda (Mt 13,31-32), transforma a realidade como o fermento na massa (Mt 13,33) e amadurece misteriosamente como a semente lançada na terra (Mc 4,26-29).

Por isso, anunciar o Reino não significa apenas transmitir doutrinas. Significa testemunhar uma nova forma de viver. O Reino torna-se visível quando:  

  • Os famintos recebem alimento,
  •  os excluídos são acolhidos, 
  • a justiça vence a opressão 
  •  a misericórdia supera a vingança. 
Os milagres realizados por Jesus e confiados aos discípulos são sinais concretos dessa presença transformadora. Curar os enfermos, purificar os leprosos e libertar os oprimidos significa restaurar pessoas à convivência comunitária, devolvendo-lhes dignidade e esperança. Essa perspectiva impede qualquer redução espiritualista do Evangelho. A salvação anunciada por Jesus alcança a totalidade da existência humana. Por isso, evangelização e promoção da dignidade humana não podem ser separadas. A tradição da Igreja, desde o Concílio Vaticano II até Medellín, Puebla, Santo Domingo e Aparecida, insiste que a missão cristã envolve o anúncio da fé e o compromisso concreto com a vida dos mais vulneráveis.

O próprio Jesus oferece o critério decisivo em Mateus 25,31-46. O julgamento final é apresentado a partir do amor concretamente vivido: alimentar os famintos, acolher os estrangeiros, vestir os nus, visitar os doentes e os encarcerados. Aqui ressoam também as palavras de Isaías sobre o verdadeiro jejum (Is 58,6-7), de Tiago sobre a religião pura (Tg 1,27) e de João sobre a impossibilidade de amar a Deus ignorando o irmão necessitado (1Jo 3,17). O Evangelho convida-nos a voltar ao ponto de partida: o olhar de Jesus. Antes do envio existe o olhar; antes da missão existe a compaixão. Na Bíblia, ver significa compreender, acolher e comprometer-se. Quando Deus diz a Moisés: “Eu vi a aflição do meu povo” (Ex 3,7), anuncia ao mesmo tempo sua decisão de libertá-lo. Da mesma forma, Jesus vê as multidões e decide agir. Seu olhar atravessa os séculos e continua alcançando os homens e mulheres de hoje. Ele vê os pobres invisibilizados, os trabalhadores explorados, os migrantes rejeitados, os jovens sem perspectivas, os idosos abandonados, os doentes esquecidos e todos aqueles cuja dignidade foi ferida. Em um mundo frequentemente marcado pela indiferença, o Evangelho propõe uma espiritualidade da proximidade, do encontro e da misericórdia. A missão confiada aos discípulos consiste precisamente em tornar visível essa compaixão divina. Como Abraão que respondeu ao chamado (Gn 12,1-4), como Isaías que declarou “Eis-me aqui, envia-me” (Is 6,8), como Jeremias que acolheu sua vocação (Jr 1,4-10), como Maria que respondeu “Faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38), também a Igreja é chamada a colocar-se a serviço do Reino.

Assim, as leituras deste domingo convergem para uma única mensagem. O Deus que libertou Israel no Sinai continua conduzindo seu povo como pastor. O Cristo que reconciliou a humanidade pela cruz continua oferecendo sua graça gratuitamente. O Espírito derramado em Pentecostes (At 2,1-11) continua suscitando discípulos missionários em todas as épocas. Sustentada pela promessa do Ressuscitado — “Eis que estou convosco todos os dias até o fim dos tempos” (Mt 28,20), a Igreja caminha na história como povo da esperança. A messe continua grande. O sofrimento humano não diminuiu sua voz; ao contrário, ganhou novas formas e novos rostos. A multidão segue “cansada e abatida, como ovelhas sem pastor” (Mt 9,36), expressão que, no contexto bíblico, não descreve apenas uma realidade espiritual abstrata, mas um diagnóstico social e político: ausência de cuidado, falência de mediações justas, fragilidade das estruturas de proteção da vida..No horizonte de Mateus, o olhar de Jesus não é sentimental, mas profundamente comprometido. Ele não apenas compadece-se; ele reorganiza a missão. A oração pelos trabalhadores da messe (Mt 9,38) não é fuga do mundo, mas inserção nele com mais densidade. O envio dos Doze (Mt 10,1-8) revela que a resposta de Deus ao sofrimento humano passa por uma comunidade concreta, histórica, imperfeita, mas chamada à coerência entre anúncio e prática: curar, libertar, reerguer vidas, gratuitamente, sem acumular poder nem transformar a fé em instrumento de dominação. Como em Isaías, o envio não legitima estruturas religiosas fechadas em si mesmas, mas rompe com qualquer religião que se acomode à indiferença (Is 58,6-7). Jeremias já havia denunciado pastores que dispersam o rebanho (Jr 23,1-4), e Jesus retoma essa crítica ao revelar que a verdadeira autoridade se manifesta no serviço, não no controle. A leitura sociológica do texto evidencia que a missão cristã nasce em contextos de vulnerabilidade coletiva. A “messe grande” é também o mundo atravessado por desigualdades, exclusões e violências normalizadas. A Igreja, quando fiel ao Evangelho, não se coloca acima dessas realidades como instância julgadora distante, mas dentro delas como presença terapêutica e libertadora. Por isso, o envio dos discípulos inclui uma crítica implícita a toda forma de clericalismo que transforma o ministério em privilégio, esquecendo que o critério de autenticidade é a gratuidade e a proximidade com os feridos da história.

O  gesto de Jesus devolve dignidade aos que foram reduzidos a números, massas ou descartáveis. O Reino não é construção ideológica, mas restauração da condição humana em sua inteireza: corpo, vínculos, sentido e esperança. A cura dos doentes, a purificação dos leprosos e a expulsão de males simbólicos e reais apontam para uma antropologia do cuidado integral, onde ninguém é definido por sua exclusão..Hoje, contudo, essa mensagem encontra resistências tanto externas quanto internas. Externamente, quando a fé é instrumentalizada por projetos de poder que confundem evangelho com dominação cultural ou política, especialmente em discursos de viés autoritário que utilizam o nome de Deus para legitimar exclusões. Internamente, quando a própria comunidade eclesial se fecha em estruturas rígidas, esquecendo que foi enviada não para preservar status, mas para servir à vida. Ainda assim, permanece a promessa. O mesmo Cristo que envia também precede. Ele não manda a Igreja para lugares onde já não esteja presente. Ele vai à frente, especialmente nas periferias existenciais e sociais onde a dignidade humana é ferida. Por isso, a missão não é carregada de triunfalismo, mas de esperança vigilante. E assim, entre a dor que persiste e a promessa que sustenta, a Igreja caminha como sinal provisório de um Reino definitivo. Um Reino onde a lógica da escassez dará lugar à abundância da graça, onde o poder será convertido em serviço e onde toda lágrima será enxugada (Ap 21,4), porque a história será finalmente reconciliada no Cristo total, “para que Deus seja tudo em todos” (1Cor 15,28).

DNonato - Teólogo  do Cotidiano 

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