O tempo do Advento nos coloca em expectativa ativa. Somos chamados a esperar com vigilância, preparando o caminho do Senhor, atentos à sua presença no mundo e nas pequenas coisas da vida cotidiana. Mateus nos apresenta Jesus percorrendo aldeias e cidades, entrando nas sinagogas, ensinando e proclamando que o Reino dos Céus estava próximo, curando toda enfermidade e fragilidade. Ele olha para as multidões e sente compaixão: “Estavam aflitas e desamparadas, como ovelhas sem pastor” (Mt 9,36). A metáfora da ovelha dispersa revela a fragilidade humana diante da solidão, da dor, da fome, da marginalização e da injustiça. Também aponta para a responsabilidade comunitária: um rebanho sem guia evidencia a necessidade de liderança justa, próxima, solidária e servidora.
A compaixão de Jesus, expressa pelo termo grego splagchnizomai, não é mero sentimentalismo. É uma empatia que move o corpo, a mente e o coração, levando à ação concreta. Ele se aproxima do sofrimento humano, toca, cura, ensina e liberta. Historicamente, a Palestina do século I era marcada por desigualdade, exploração e opressão. Hoje, as periferias urbanas, os centros de trabalho, escolas e hospitais revelam feridas semelhantes: pobreza, violência, desvalorização da vida, abandono. Psicologicamente, a compaixão de Cristo nos ensina a cultivar empatia ativa: não basta compreender; é preciso agir. Filosoficamente, a ética do Reino se realiza no agir justo, na solidariedade e na transformação concreta da vida alheia.
Mateus enfatiza que Jesus percorria cidades e aldeias, ensinando nas sinagogas, proclamando a Boa Nova e curando toda enfermidade (Mt 9,35). Cada gesto de cura, cada palavra de anúncio é pedagógico: o Reino se manifesta em ação, presença, compaixão. Os milagres não são espetáculos ou demonstração de poder; são sinais de libertação e dignidade restaurada. O Evangelho ensina que anunciar o Reino exige presença concreta, atenção às dores humanas e coragem de enfrentar estruturas que oprimem.
O envio dos discípulos, registrado em Mateus 10,1.6‑8, apresenta a missão como tarefa compartilhada: Jesus chama os doze e lhes concede autoridade sobre espíritos impuros, para curar enfermidades e proclamar o Reino. Lucas 10,1–2 descreve o envio dos 72 discípulos, destacando simplicidade e dependência de Deus; Marcos 6,7–13 enfatiza a radicalidade do testemunho e a confiança na providência. João 10,11–16 reforça a imagem do Bom Pastor, que dá a vida pelas ovelhas e convoca colaboradores para cuidar do rebanho. Patrísticos como Orígenes e Santo Agostinho veem o envio como participação na missão de Cristo: autoridade é serviço, liderança é cuidado, poder é libertação e não dominação.
O texto de Mateus é repleto de símbolos ricos: a ovelha representa fragilidade e busca de cuidado; o pastor, liderança servidora e proteção; o campo de messe, vocação e corresponsabilidade; o poder sobre espíritos impuros, autoridade ética e espiritual voltada à libertação integral. Cada símbolo nos convida a refletir sobre nossa própria vocação: cuidar, servir, curar, libertar e transformar o mundo em consonância com o Reino.
O Documento 105 da CNBB reforça que leigos e leigas são sujeitos eclesiais, com vocação própria, chamados a atuar no mundo e na Igreja. Pelo Batismo e Crisma, participam do sacerdócio, da profecia e da realeza de Cristo. A missão laical se realiza em todas as dimensões da vida cotidiana: família, trabalho, escola, cultura, política e sociedade. O laicato não é auxiliar ou secundário: é protagonista da evangelização, agente de justiça, esperança e transformação social.
O Evangelho denuncia o clericalismo e a concentração de poder. Jesus distribui autoridade, confia e envia. Liderança cristã é servidora, nunca opressiva. Distorções como a teologia da prosperidade, a fé-mercadoria e o individualismo prometem milagres, riquezas e prestígio em troca de fé, mas contradizem radicalmente a pedagogia de Cristo. O discípulo é chamado a entregar-se ao serviço concreto, à presença junto aos pobres, doentes e marginalizados, promovendo a transformação social e libertação integral.
Sociologicamente, leigos e leigas conhecem as feridas do mundo e podem agir de forma criativa e corresponsável, transformando estruturas, denunciando injustiças e promovendo dignidade. Psicologicamente, a vocação exige discernimento, coragem, empatia e dedicação. Filosoficamente, evidencia que o Reino se constrói com ética, justiça e ação transformadora. Historicamente, a missão continua: o mundo precisa de pastores servos, operários da messe e anunciadores da Boa Nova, capazes de transformar estruturas sociais, familiares e políticas.
A vocação laical encontra sua expressão concreta na vida diária: professores que educam com ética e esperança, médicos e enfermeiros que cuidam com dedicação, agentes sociais que promovem justiça, famílias que educam na fé e no amor, jovens que atuam nas comunidades e periferias. Cada gesto de compaixão, justiça e solidariedade é expressão do Reino. A fé não é mercadoria; a Igreja não é palco; o Reino não é espetáculo: é serviço, ação concreta e transformação da vida humana.
No Advento, somos chamados à vigilância e à esperança ativa. A compaixão de Cristo nos desafia a agir. Cada batizado é convocado a ser presença viva do Reino: cuidar dos pobres, libertar os oprimidos, denunciar injustiças e promover fraternidade e dignidade. Cada ação concreta, cada gesto de amor e solidariedade torna-se anúncio do Reino.
A Igreja é convocada a ser corpo presente, fermento do Reino, luz no mundo. O Documento 105 da CNBB enfatiza que leigos e leigas devem ser formados, conscientes de sua missão, capazes de agir em todos os ambientes do mundo secular. Padres e consagrados caminham junto, promovendo corresponsabilidade e evitando clericalismo. Juntos, todos participam da missão profética de Cristo: libertar, curar, anunciar e servir.
A leitura deste Evangelho nos desperta à vigilância, à esperança ativa e à coragem de assumir a missão de Jesus no mundo. Que possamos ser pastores servos, operários da messe, curadores, libertadores, anunciadores do Reino, firmes na esperança, atentos à dor do mundo e generosos na ação concreta de amor. Que neste Advento, o Reino se torne realidade viva, presente em nossas mãos, nossos gestos e nossa vida inteira.
Que cada um de nós escute o chamado de Jesus, perceba sua vocação, viva com coragem e generosidade, e transforme nossas comunidades, nossas relações e nossas estruturas sociais. Que sejamos operários da messe, servos compassivos, profetas do amor e da justiça. Que, neste tempo de Advento, a espera se transforme em ação, a compaixão se transforme em cuidado e o Reino de Deus se torne realidade concreta, visível, presente em nossa vida cotidiana e na vida de todos
DNonato - Teólogo do Cotidiano

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