O Advento sempre nos põe em movimento. É tempo de espera ativa, tempo de olhos que se abrem pouco a pouco, tempo de ver o que ainda não vemos, tempo em que Deus acende claridades nas noites mais densas. Nesse contexto litúrgico, a Igreja nos oferece, na sexta-feira da primeira semana, o episódio de Mateus 9,27-31, onde dois cegos seguem Jesus clamando: “Filho de Davi, tem piedade de nós!”. A liturgia faz este texto ressoar também de maneira próxima ao ciclo do Tempo Comum, quando se medita a sequência de milagres reunidos por Mateus no capítulo 9, formando um mosaico da compaixão messiânica. Cada cura é um lampejo escatológico. Cada gesto de Jesus é Advento em miniatura. A liturgia atualiza o gesto: ouvir essa Palavra é estar diante do mesmo Jesus que passa, que entra na casa, que pergunta, que toca, que restitui luz.
O Evangelho nos mostra que aqueles dois cegos não apenas veem Jesus passar — porque não veem — mas o escutam, o percebem, o desejam. Na narrativa mateana, a fé nasce do ouvido: “A fé vem pelo ouvir”, dirá Paulo mais tarde (Rm 10,17), e aqui essa verdade se encarna de modo literal. Antes de verem, eles creem. Antes de enxergarem, seguem. Antes de terem clareza, caminham. E aqui já somos confrontados com nossas cegueiras contemporâneas: cegueiras sociais, cegueiras políticas, cegueiras religiosas, cegueiras afetivas, cegueiras que escolhemos manter porque ver exige conversão, ver exige responsabilidade, ver exige ruptura com as sombras que alimentam nossas ilusões. Como repetimos tantas vezes: pior que o cego que não vê é o cego que não quer ouvir, o que não suporta escutar o chamado divino que desenraiza falsas seguranças.
O clamor “Filho de Davi” já é um mergulho no Antigo Testamento. É título messiânico, presente na tradição judaica, que aponta para as promessas feitas a Davi em 2Sm 7. É também eco de Isaías 35 — texto proclamado diversas vezes no Advento — onde o profeta anuncia que, nos dias messiânicos, “os olhos dos cegos se abrirão” (Is 35,5). Mateus quer deixar claro que Jesus cumpre essas promessas. E é importante recordar que, no mundo bíblico, cegueira não é apenas condição física, mas símbolo existencial, teológico e social. O cego é alguém marginalizado, impedido do culto pleno, muitas vezes reduzido à mendicância. A crença popular afirmava — como aparece em João 9 — que cegueira era punição por pecado. Jesus confronta essa mentalidade e a corrige. Ele não apenas cura o corpo: cura a imagem de Deus deformada pelos moralismos e pelos discursos religiosos culpabilizadores. Ele devolve dignidade.
O texto diz que os cegos “o seguiram”. É teologicamente ousado. Mateus utiliza akolouthein — o verbo do discipulado. Antes de verem, eles já são discípulos. Esse detalhe contradiz a lógica meritocrática da fé-mercadoria e desmonta a teologia da prosperidade, que atrela fé à visibilidade do sucesso e às evidências de bênçãos materiais. Os cegos mostram o contrário: a fé verdadeira nasce na escuridão, caminha no não-saber, atravessa a noite. Em um mundo dominado pela idolatria do controle, onde se busca um Deus que dê certezas e vantagens, o Evangelho mostra que o seguimento começa justamente sem garantias.
Eles entram na casa. Esse detalhe ecoa inúmeros episódios bíblicos onde a casa é lugar de revelação: a casa de Abraão onde passam os três visitantes (Gn 18), a casa de Matatias na resistência macabaica, a casa de Maria em Nazaré na Anunciação, a casa de Zaqueu que se transforma em templo, a casa da Última Ceia. A casa é espaço da intimidade, do desvelamento, do encontro profundo. A cura não acontece no espetáculo da rua — ao contrário do show religioso digital que busca audiência — mas no silêncio da casa. Jesus nos recorda que fé não é performance, não é palco, não é holofote, não é “live” para ganhar seguidores. A fé cresce no escondimento, no íntimo, no espaço onde Deus fala ao coração, como em Oseias 2,16: “Eu a conduzirei ao deserto e lhe falarei ao coração”.
Jesus pergunta: “Credes que eu posso fazer isso?” A pergunta é antropológica, psicológica e espiritual. Jesus não impõe a cura; convida a entrar em relação. Ele convoca a responsabilidade subjetiva. A fé é sempre encontro de duas liberdades: a divina que oferece, a humana que acolhe. Psicologicamente, esse gesto revela o respeito à autonomia do sujeito, a necessidade de que quem sofre participe da própria transformação. Não há cura sem consentimento. Filosoficamente, é Kierkegaard em Nazaré: Deus pede o salto, mas não empurra. A fé como confiança fundamental, como entrega do coração.
LlllDiante da declaração de fé, Jesus toca os olhos deles. O toque é sacramento: gesto concreto, sensível, que comunica graça. É gesto que atravessa fronteiras sociais, porque tocar um cego significava, para muitos, tocar a impureza. Jesus ultrapassa as fronteiras da religião rígida, denuncia com o próprio corpo o moralismo que exclui. Aqui se desmonta também toda teologia do domínio que faz do sagrado instrumento de controle. Jesus não domina; liberta. Não manipula; eleva. Não humilha; cura. A Igreja primitiva viu nesse toque um símbolo da encarnação: Deus toca a humanidade para fazê-la ver. Os Padres da Igreja, como Santo Irineu, diziam que o Verbo se faz carne para “acostumar o homem a ver Deus e acostumar Deus a habitar no homem”. Cada toque de Jesus educa o olhar humano para reconhecer a presença divina.
Quando os olhos se abrem, eles veem. O texto é rápido, direto, sem espetáculo. Mateus quer frisar que o essencial não é a visibilidade da cura, mas o encontro com o Messias. A cura é sinal do Reino que irrompe. É anúncio escatológico. São Beda o Venerável, comentando esse trecho, dizia que a cura dos cegos representa a Igreja que é iluminada pela Palavra para ver a verdade e denunciar as mentiras que circulam como luz falsa. Hoje, numa sociedade saturada de imagens e vazia de visão, somos chamados a recuperar a capacidade de ver à luz do Evangelho, e isso implica resistir às ideologias que distorcem a realidade: a extrema-direita que manipula símbolos cristãos para justificar violência, os pregadores digitais que transformam fé em produto, o clericalismo que reduz a missão a uma casta de puros e iluminados, a teologia da prosperidade que transforma Deus em caixa eletrônico de bênçãos.
Jesus os adverte severamente para não contarem a ninguém. Esse “segredo messiânico”, típico da tradição sinótica, mostra que Jesus rejeita publicidade religiosa. Ele não quer seguidores por interesse, não quer devotos ávidos por vantagens espirituais, não quer mercado de milagres. Mateus reforça isso quando recorda, mais adiante, que muitos dirão “Senhor, Senhor”, mas ouvirão: “Não vos conheço” (Mt 7,21-23). Fé não é espetáculo. Fé é verdade. E verdade não busca aplauso. Ao mandar silêncio, Jesus nos educa contra o narcisismo espiritual, contra o exibicionismo religioso, contra a fé como moeda. É crítica direta ao nosso tempo em que a religião virou mercado e celebridades eclesiais disputam espaço com influenciadores digitais.
Mas eles, ao saírem, divulgaram por toda a região. Aqui se revela a ambiguidade do coração humano. O encontro com Jesus transforma, mas nem sempre transforma plenamente. A libertação recebida é real, mas a pedagogia do Reino exige ainda maturidade. Mesmo assim, o Evangelho mostra que Deus age não por causa de nossa perfeição, mas apesar de nossas imperfeições. Isso é profundamente cristológico e profundamente pastoral. Deus não age só quando estamos prontos; age para nos tornar prontos.
Mateus insere esse episódio em um capítulo marcado por um duplo movimento: Jesus cura e envia. Logo depois, ele olha as multidões e se compadece porque são “como ovelhas sem pastor” (Mt 9,36), e então envia os discípulos para a missão (Mt 10). A cura da cegueira antecede a missão: só pode ser enviado quem aprendeu a ver. Não se evangeliza sem conversão do olhar. Sem essa conversão, a religião vira arma, vira ideologia, vira domínio. A extrema-direita pseudo-religiosa que usa cruz como símbolo de guerra revela a cegueira espiritual de quem nunca deixou Jesus tocar seus olhos. O clericalismo que se arroga superioridade moral revela a cegueira de quem não entende que a missão nasce da compaixão, não do poder. A teologia da prosperidade revela a cegueira de quem substituiu o Evangelho pelo mercado.
O Advento, então, nos chama a pedir olhos novos. Pedir para ver a realidade como Deus vê: ver as dores sociais, ver as injustiças, ver os que sofrem, ver os marginalizados, ver os que são cegados pelo sistema. A sociologia nos ajuda a enxergar como estruturas de desigualdade produzem cegueiras coletivas; a antropologia nos recorda que toda cultura carrega sombras que precisam ser iluminadas; a filosofia mostra que há verdades que só se percebem quando deixamos cair as ilusões; a psicologia revela como traumas, medos e defesas internas nos impedem de ver a realidade espiritual e afetiva. O Evangelho integra tudo isso e ilumina tudo isso, porque a fé cristã é sempre encarnada, nunca é fuga do real.
O gesto de Jesus abre também uma crítica profética às espiritualidades individualistas. Os cegos caminham juntos. A cura acontece na communio. Não existe cristão solitário. A Igreja ― como lembra Fratelli Tutti ― só existe como fraternidade universal, como laço que une diferentes. A cura dos cegos é ícone dessa experiência: caminhar junto, clamar junto, crer junto. A fé não é mero esforço pessoal; é encontro, é relação, é povo. O Magistério da Igreja, especialmente no Vaticano II, sublinha o caráter comunitário da salvação. Lumen Gentium recorda que ninguém se salva sozinho; Gaudium et Spes insiste que as alegrias e esperanças, tristezas e angústias de cada pessoa são também as da Igreja.
Assim compreendemos que o Advento é escola de olhar. É tempo de cura das cegueiras que cultivamos, voluntárias ou involuntárias. É tempo de deixar o Cristo tocar o que ainda não vemos. É tempo de escutar sua pergunta: “Crês que eu posso fazer isso?” A liturgia de hoje não é memória distante, mas convocação presente. Somos os cegos que clamam e somos também os cegos que resistem à luz. Somos os que recebem a cura e os que ainda não compreendem plenamente. Somos os que precisam deixar Deus desfazer nossas sombras políticas, eclesiais, afetivas, espirituais. O toque de Jesus é sempre libertação: liberta da mentira, da manipulação, do medo, da ideologia, da religião vazia, do clericalismo que obscurece, da fé utilitária que cega, da espiritualidade de consumo que embota.
Que este Advento seja tempo de ver, tempo de luz, tempo de cura. Que a Palavra abra nossos olhos como abriu os daqueles dois cegos. Que possamos ver o que Deus vê e denunciar o que Deus denuncia. Que possamos caminhar juntos até que a noite se dissolva e o Cristo, Sol da Justiça, nasça em nós.
DNonato – Teólogo do Cotidiano


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