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terça-feira, 26 de maio de 2026

Um breve olhar sobre Marcos 10,32-45

 
No calendário litúrgico da Igreja Católica Romana, Marcos 10,32 a 45 ocupa um lugar de especial densidade espiritual e teológica. A perícope é proclamada na Quarta feira da 8ª Semana do Tempo Comum nos anos pares do Lecionário ferial, quando a Igreja conduz os fiéis ao limiar do itinerário penitencial e pascal, convidando-os a contemplar o caminho de Jesus rumo a Jerusalém e a radicalidade do discipulado sendo uma continuidade direta do Evangelho da terça-feira da Oitava semanado Tempo  comum. O texto reaparece ainda no 29º Domingo do Tempo Comum do Ano B, quando a liturgia proclama Marcos 10,35 a 45 ou, em sua forma breve, Marcos 10,42 a 45, colocando-o em diálogo direto com Isaías 53,10 a 11 e Hebreus 4,14 a 16. Esta articulação litúrgica não é casual. Ela une o Servo Sofredor anunciado pelos profetas ao Cristo que entrega a própria vida, revelando que a glória de Deus não se manifesta pelo domínio, mas pela doação. A liturgia apresenta o Messias não como soberano segundo as categorias imperiais do mundo antigo, mas como aquele que desce à condição humana para servir e libertar. Em muitas tradições históricas do cristianismo que seguem o Lecionário Comum Revisado, especialmente comunidades anglicanas, luteranas, metodistas e setores reformados, a passagem paralela de Marcos 10,35 a 45 aparece igualmente no 29º Domingo do Tempo Comum do Ano B, preservando o mesmo horizonte cristológico. Nas Igrejas do Oriente, embora a distribuição litúrgica seja diversa, a espiritualidade da kenosis, expressa em Filipenses 2,5 a 11, aproxima esta narrativa do caminho pascal e da contemplação do Servo que se esvazia.

Marcos situa esta passagem num momento decisivo da caminhada de Jesus. O evangelista escreve que “estavam a caminho, subindo para Jerusalém” (Mc 10,32). A expressão possui profundidade geográfica, histórica e espiritual. Jerusalém localizava-se nas montanhas da Judeia, exigindo efetivamente uma subida para quem vinha da Galileia ou do vale do Jordão. Entretanto, Marcos transforma o dado geográfico em linguagem teológica. Não se trata apenas de uma ascensão física. Trata-se da subida definitiva do Messias ao lugar onde a fidelidade encontrará a violência, onde o Reino enfrentará as estruturas de poder e onde o amor será levado até as últimas consequências. Jesus caminha adiante. Os discípulos seguem assustados. Os demais acompanhantes sentem temor. A cena é carregada de tensão. O Mestre conhece o destino que o aguarda. Os discípulos ainda não compreendem plenamente. O caminho torna-se símbolo da própria experiência cristã. O cristianismo nascente será chamado “o Caminho” em Atos 9,2 porque a fé não nasce primeiro da adesão a conceitos, mas do seguimento concreto daquele que caminha.

O pré texto da narrativa é decisivo para sua interpretação. Desde Marcos 8, o evangelista desenvolve uma longa catequese sobre a identidade messiânica e o discipulado. Em Cesareia de Filipe, Pedro reconhece Jesus como o Cristo (Mc 8,29), mas imediatamente rejeita o anúncio da paixão (Mc 8,32), revelando a tensão entre expectativa humana e projeto divino. Em seguida, Jesus proclama uma das palavras mais exigentes do Evangelho: “Se alguém quiser vir após mim, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e siga-me” (Mc 8,34). A partir desse momento, toda a narrativa move-se em direção a Jerusalém. A transfiguração em Marcos 9,2 a 8 antecipa a glória, mas não elimina a cruz. O segundo anúncio da paixão em Marcos 9,31 é seguido pela discussão dos discípulos sobre quem seria o maior (Mc 9,34). Depois aparecem o acolhimento das crianças, símbolo dos pequenos e vulneráveis, o encontro com o homem rico incapaz de desprender-se dos bens (Mc 10,17 a 22) e a reflexão sobre riqueza e Reino (Mc 10,23 a 31). Tudo prepara a cena de Marcos 10,32 a 45. O evangelista constrói deliberadamente um contraste entre o projeto de Jesus e as expectativas humanas. Enquanto Cristo fala de entrega, os discípulos pensam em prestígio. Enquanto o Mestre caminha para a cruz, os seguidores continuam imaginando lugares de honra.

O texto contém o terceiro anúncio da paixão. Os anteriores aparecem em Marcos 8,31 e 9,31. Há uma estrutura repetida nos três momentos. Jesus anuncia sofrimento, os discípulos não compreendem e o Mestre responde com ensinamentos sobre o verdadeiro discipulado. Depois do primeiro anúncio, Pedro protesta. Depois do segundo, surge a disputa pela grandeza. Agora, após o terceiro, Tiago e João pedem os primeiros lugares. O evangelista não pretende apenas mostrar fragilidades individuais. Ele revela algo profundamente humano e permanentemente atual. O ser humano possui tendência constante a transformar a experiência religiosa em espaço de reconhecimento, prestígio e poder. Jesus anuncia detalhadamente o que ocorrerá: será entregue aos chefes dos sacerdotes, condenado, entregue aos gentios, escarnecido, cuspido, flagelado e morto (Mc 10,33 a 34). A sequência impressiona pela precisão e antecipa a paixão. O verbo entregar atravessa toda a narrativa. Judas entrega. O Sinédrio entrega. Pilatos entrega. Mas em Marcos 10,45 aparece um horizonte novo: o Filho do Homem entrega-se.

Neste ponto, o texto aproxima-se profundamente dos cânticos do Servo Sofredor de Isaías 52,13 a 53,12. O Servo é desprezado, carregado de dores, rejeitado e esmagado, mas assume sobre si o sofrimento dos muitos. Isaías 53,11 afirma que “o justo, meu servo, justificará muitos”, enquanto Marcos 10,45 apresenta o Filho do Homem que dá a vida “em resgate por muitos”. A Igreja primitiva reconheceu nesta correspondência uma chave decisiva para compreender Jesus. O Messias esperado por muitos grupos do século I frequentemente aparecia associado a expectativas políticas e restauracionistas. Esperava-se um libertador nacional, um restaurador do trono davídico ou um líder capaz de romper o domínio romano. Jesus não elimina a esperança messiânica. Ele a redefine radicalmente. O Messias não sobe ao trono imperial. Caminha para a cruz. É justamente neste contexto que Tiago e João aproximam-se de Jesus pedindo lugares à direita e à esquerda na glória (Mc 10,37). O pedido parece desconcertante, mas possui raízes culturais profundas. A antropologia do Mediterrâneo antigo demonstra que honra e prestígio estruturavam a vida social. A identidade era construída em torno do reconhecimento público, da posição social e da reputação. O mundo romano organizava-se em hierarquias rígidas sustentadas por patronagem, clientelismo e redes de poder. Os discípulos continuam pensando segundo estas categorias. O Reino ainda lhes parece um espaço de ascensão. Jesus responde perguntando se podem beber o cálice que ele beberá e receber o batismo que ele receberá (Mc 10,38). O cálice, nas Escrituras, aparece como símbolo do destino humano, da missão e também do sofrimento. Surge nos Salmos como porção da vida (Sl 16,5), nos profetas como imagem do sofrimento histórico (Jr 25,15; Is 51,17) e reaparecerá dramaticamente em Getsêmani quando Jesus pede ao Pai que afaste dele aquele cálice (Mc 14,36). O batismo mencionado não se refere aqui ao rito sacramental, mas ao mergulho na paixão, à imersão na entrega.

Quando os outros discípulos manifestam indignação, Jesus reúne todos e oferece uma das mais radicais inversões do Evangelho: “Os que são considerados governantes das nações as dominam e seus grandes exercem poder sobre elas. Entre vós não seja assim” (Mc 10,42 a 43). Estas palavras possuem extraordinária força histórica. O Império Romano sustentava-se sobre concentração de poder, exploração tributária, dominação militar e hierarquias sociais rígidas. A Palestina do século I vivia sob forte pressão econômica. Muitos camponeses perdiam terras, cresciam as dívidas e aumentava a dependência em relação às elites locais e ao sistema imperial. Jesus conhece esta realidade. Sua fala não é abstrata nem puramente espiritual. Possui dimensão histórica e profética. O Reino não reproduz a lógica imperial. O maior será servo. O primeiro será escravo. O termo utilizado para servo é diakonos, origem da palavra diaconia. O termo usado para escravo é doulos. Jesus não suaviza a linguagem. Ele radicaliza. A grandeza deixa de ser domínio e torna-se serviço. As tradições sinóticas desenvolvem este ensinamento com nuances próprias. Mateus 20,20 a 28 introduz a mãe dos filhos de Zebedeu como mediadora do pedido, enquanto Marcos apresenta diretamente os discípulos. Lucas desloca a discussão para o contexto da última ceia em Lucas 22,24 a 27, associando serviço e comunhão eucarística. João não reproduz a cena, mas oferece sua interpretação teológica no lava pés de João 13,1 a 17. Em todos os casos permanece a mesma inversão: o Reino subverte a lógica do poder. Marcos enfatiza o caminho. Mateus acentua a dimensão eclesial. Lucas associa o serviço à mesa comunitária. João transforma a teologia em gesto concreto.

Esta inversão possui consequências profundas para a Igreja. O Concílio Vaticano II recuperou esta compreensão ao apresentar a Igreja como Povo de Deus em Lumen Gentium e ao afirmar em Gaudium et Spes que as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias da humanidade são também as da comunidade cristã. Medellín denunciou estruturas de injustiça que produzem pobreza e exclusão. Puebla reafirmou a opção preferencial pelos pobres. Santo Domingo insistiu na evangelização inculturada. Aparecida convocou uma Igreja missionária e samaritana. Todos estes documentos convergem com Marcos 10. O Filho do Homem não veio para ser servido. A Igreja também não existe para ser servida. Existe para servir. Aqui o texto torna-se particularmente atual e profético. A religião frequentemente foi instrumentalizada por projetos de poder. No tempo de Jesus, setores religiosos aproximaram-se do sistema imperial para preservar privilégios e estabilidade. Hoje o risco permanece. Sempre que a fé é reduzida a ferramenta partidária, quando o Evangelho torna-se instrumento ideológico ou quando a religião passa a legitimar projetos de dominação, perde-se algo essencial do caminho de Jerusalém. O Cristo servidor transforma-se em símbolo de poder. A cruz converte-se em ornamento. O Reino é reduzido a retórica. Marcos denuncia precisamente esta deformação.

A crítica alcança também o clericalismo. O clericalismo não é apenas excesso administrativo ou concentração de autoridade. É deformação espiritual que transforma ministério em privilégio, substitui serviço por prestígio e converte a comunidade em espaço de controle. Jesus responde antecipadamente: “Entre vós não seja assim”. O verdadeiro ministério nasce da diaconia. O verdadeiro pastor não domina. Serve. Da mesma forma, a chamada teologia da prosperidade, quando absolutiza riqueza e sucesso como sinais inequívocos da bênção divina, encontra tensão profunda com o contexto desta passagem. Pouco antes, o homem rico afasta-se entristecido porque possuía muitos bens (Mc 10,22). Em seguida, Jesus fala de serviço e entrega. O caminho para Jerusalém não passa pela acumulação, mas pela doação. Também as teologias do domínio, que aproximam Reino de Deus e conquista cultural ou hegemonia política, necessitam discernimento crítico. Jesus não conquista Jerusalém pela força. Entra humilde. Não assume palácio. Assume cruz.   A tradição profética já denunciava estas deformações. Amós criticava elites religiosas e econômicas que mantinham culto enquanto exploravam os pobres (Am 5,21 a 24). Isaías denunciava liturgias sem justiça (Is 1,11 a 17). Jeremias confrontava a falsa segurança religiosa do Templo (Jr 7,1 a 11). Miqueias perguntava o que Deus exige: praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente (Mq 6,8). Jesus insere-se nesta tradição. Marcos 10 continua atual porque vivemos num mundo marcado por desigualdade, violência, manipulação religiosa, polarizações e crises de sentido. Há populações descartadas, juventudes sem horizonte, trabalhadores precarizados, pessoas feridas pela religião e comunidades cansadas. O Evangelho entra neste cenário não para legitimar sistemas, mas para anunciar Reino.

A sociologia da religião recorda que a experiência religiosa pode tanto libertar quanto reproduzir desigualdades. A fé possui potencial emancipador, mas também corre risco de captura ideológica. Marcos chama ao discernimento. Toda religião que abandona os pobres corre risco de abandonar o Evangelho. Toda espiritualidade sem compaixão aproxima-se do ritual vazio. Toda política religiosa que transforma adversários em inimigos absolutos afasta-se da lógica do Reino. A opção preferencial pelos pobres não nasce de ideologia, mas do Cristo que caminha para Jerusalém cercado por pequenos, enfermos, pecadores e marginalizados.

A psicologia da espiritualidade oferece outro horizonte importante. O desejo de reconhecimento é humano. Tiago e João expressam isso. Jesus não destrói este desejo. Ele o transforma. O problema não está em desejar grandeza, mas em defini-la como domínio. No Reino, grande é quem cuida, sustenta e serve. O centro da passagem aparece finalmente em Marcos 10,45: “O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos”. Este versículo sintetiza cristologia, eclesiologia, espiritualidade e missão. O Messias entrega-se. Deus aproxima-se da condição humana. A cruz torna-se solidariedade. O termo resgate recorda o Êxodo, a libertação dos escravos e a ação salvífica de Deus na história. Cristo desce às profundezas da existência humana e revela Deus ao lado das vítimas. Por isso a cruz não legitima sofrimento injusto. Ela o denuncia.

A Gaudium et Spes recorda que as alegrias e esperanças, as tristezas e as angústias da humanidade, sobretudo dos pobres e daqueles que sofrem, são também as alegrias e esperanças da Igreja. Laudato Si’ amplia este horizonte ao unir o clamor dos pobres e o clamor da terra, mostrando que a ferida humana e a ferida da criação pertencem ao mesmo drama histórico. O Documento de Aparecida convoca a Igreja a sair de si mesma e dirigir-se às periferias geográficas e existenciais, onde a vida é ameaçada e a dignidade humana frequentemente negada. Tudo isso, de certo modo, já estava contido no caminho silencioso de Jesus em Marcos. O evangelista não apresenta um Messias imóvel sobre um trono, mas um Mestre que caminha adiante, sobe para Jerusalém e conduz seus discípulos por uma estrada que atravessa o sofrimento humano e desmascara as ilusões do poder. A imagem final permanece de extraordinária força espiritual e profética. Jesus segue à frente. Os discípulos ainda não compreendem plenamente. Há medo, incompreensão e tensão. O Reino continua escondido sob o véu da cruz. Contudo, o caminho não se interrompe. Também hoje a humanidade sobe suas Jerusaléns históricas. Povos inteiros carregam cruzes coletivas. Os pobres continuam esperando justiça. A terra geme sob o peso da exploração. Crescem as desigualdades, multiplicam-se as violências, expandem-se discursos de ódio e formas sutis de idolatria do poder. Em muitos lugares, a religião corre o risco de ser capturada por projetos ideológicos, reduzida a instrumento de dominação ou esvaziada de sua dimensão profética e libertadora.

É precisamente neste cenário que Marcos 10,32 a 45 ressoa com renovada atualidade. O Evangelho responde às lógicas do mundo não com outra forma de poder, mas com uma inversão radical da história. O maior será servo. O primeiro será escravo. O Messias será crucificado. A autoridade tornar-se-á cuidado. A grandeza tornar-se-á diaconia. O centro desloca-se do privilégio para o serviço, da glória para a entrega, do domínio para a comunhão. Seguir Jesus, portanto, significa desaprender as estruturas interiores que reproduzem poder, abandonar os tronos ocultos do ego, renunciar à instrumentalização da fé e recolocar os pequenos, os pobres e os esquecidos no coração da comunidade. Significa compreender que Jerusalém não é apenas uma cidade, mas um lugar espiritual onde cada discípulo é chamado a decidir entre a lógica do império e a lógica do Reino, entre a busca de prestígio e a vocação ao serviço, entre a religião do poder e o Evangelho da cruz.

No fim, permanece apenas a estrada. Nela caminha Jesus, à frente do seu povo, carregando sobre si as dores do mundo e revelando um Deus que não domina, mas serve; que não humilha, mas ergue; que não conquista pela força, mas transforma pelo amor. E talvez seja esta a mais profunda revelação de Marcos: a verdadeira grandeza não está em ocupar lugares à direita ou à esquerda do poder, mas em permanecer no caminho com o Crucificado, servindo a vida, sustentando a esperança e ajudando a história a aproximar-se do Reino de Deus.

DNonato  - Teólogo do Cotidiano 

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Um breve olhar sobre Marcos 10,28-31


No calendário litúrgico da Igreja Católica Romana, Marcos 10,28-31 é proclamado no Tempo Comum,  na terça-feira da oitava semana, aparecendo como continuação imediata da narrativa do homem rico em Marcos 10,17-27. A perícope integra uma unidade maior sobre discipulado, riqueza, Reino de Deus, desapego e seguimento, formando uma das catequeses mais profundas do Evangelho de Marcos sobre a identidade do discípulo. Suas variantes paralelas aparecem em Mateus 19,27-30 e Lucas 18,28-30, sendo igualmente recebidas no Lecionário Romano e nas tradições litúrgicas das Igrejas históricas. No Oriente cristão, especialmente nas Igrejas Ortodoxas, o texto encontra eco na espiritualidade ascética e monástica, associando-se ao chamado à kenosis, ao esvaziamento e à comunhão fraterna; nas tradições anglicanas, luteranas e reformadas históricas, a perícope é frequentemente vinculada ao discipulado radical e à ética do Reino. A proclamação litúrgica desta passagem não possui apenas caráter memorial. A Igreja, ao ouvi-la, é colocada diante de uma pergunta permanente e desconcertante: o que significa seguir Jesus quando o Evangelho alcança exatamente os lugares onde construímos segurança, poder, prestígio, identidade e nossas próprias imagens de Deus?  

Marcos 10,28-31 não nasce isolado, mas dentro de uma sequência narrativa cuidadosamente construída. Seu ponto de partida está no encontro entre Jesus e o homem rico. Um homem corre até Jesus, ajoelha-se diante dele e pergunta: “Bom Mestre, que devo fazer para herdar a vida eterna?” (Mc 10,17). O gesto possui grande densidade cultural. No mundo mediterrâneo do primeiro século, homens adultos e socialmente estabelecidos não corriam em público. A honra possuía expressão corporal. Aquele homem corre porque existe urgência em sua alma. Existe busca. Existe inquietação. A pergunta que ele faz atravessa toda a história humana. Jó perguntou sobre o sentido do sofrimento (Jó 7,17-21); o salmista buscou a felicidade do justo (Sl 1,1-6); Qohelet interrogou o sentido da existência (Ecl 1,2-11); Nicodemos perguntou sobre o novo nascimento (Jo 3,1-10). A antropologia das religiões demonstra que toda civilização desenvolveu ritos, narrativas e símbolos para enfrentar o mistério da morte e da transcendência. O homem rico torna-se imagem universal da humanidade que busca vida eterna, mas ainda imagina a salvação como conquista ou mérito.   Jesus inicialmente conduz o diálogo pelos mandamentos: “Não matarás, não adulterarás, não furtarás, não levantarás falso testemunho, honra teu pai e tua mãe” (Mc 10,19; Ex 20,12-16; Dt 5,16-20). O homem responde que tudo isso observava desde a juventude. Então Marcos registra uma das expressões mais belas e teologicamente profundas do Evangelho: “Jesus olhou para ele e o amou” (Mc 10,21). Antes da exigência existe amor. Antes da renúncia existe encontro. Antes da cruz existe misericórdia. Antes da entrega existe um olhar que reconhece dignidade.  

Jesus então diz: “Falta-te uma coisa. Vai, vende tudo o que tens, dá aos pobres e terás um tesouro no céu; depois vem e segue-me” (Mc 10,21). A exegese mostra que o problema não é simplesmente econômico. O texto alcança uma dimensão antropológica. O homem não apenas possuía riquezas; estava existencialmente estruturado por elas. Sua identidade, segurança e visão de bênção estavam ligadas ao acúmulo. O Evangelho alcança o centro de sua existência e ele se entristece. Esta cena encontra ressonância nas advertências proféticas do Antigo Testamento: “Ai dos que ajuntam casa a casa e campo a campo” (Is 5,8); “vendem o justo por dinheiro e o pobre por um par de sandálias” (Am 2,6); “cobiçam campos e os arrebatam” (Mq 2,1-2). O homem rico torna-se símbolo de toda espiritualidade incapaz de abandonar aquilo que ocupa o lugar de Deus.   É deste contexto que surge a fala de Pedro: “Eis que nós deixamos tudo e te seguimos” (Mc 10,28). Mateus explicita ainda mais a tensão ao acrescentar: “Que receberemos?” (Mt 19,27). Pedro representa a humanidade do discípulo. Já caminhou, já deixou redes, barcos e segurança (Mc 1,16-20), mas continua buscando confirmação.   Ele  não condena a pergunta; ele a purifica. Para compreender sua resposta é necessário entrar no contexto histórico do primeiro século. A Palestina vivia sob domínio romano. A Galileia experimentava concentração fundiária, aumento da tributação e empobrecimento das famílias camponesas. A terra, no mundo bíblico, não era apenas bem econômico; era herança, identidade, sobrevivência e memória. A promessa da terra atravessa toda a Escritura, desde Abraão (Gn 12,1-9), passando pela libertação do Egito (Ex 3,7-8), pela entrada em Canaã (Js 1,1-9) e pela esperança profética da restauração (Ez 36,24-28). Perder a terra significava perder parte da própria história.  

Quando Jesus fala sobre deixar casas, irmãos, irmãs, pai, mãe, filhos e campos por causa dele e do Evangelho (Mc 10,29), toca os pilares da organização social mediterrânea. Casa significava pertencimento; família significava honra; campos significavam continuidade histórica. O chamado de Jesus não destrói vínculos humanos. O quarto mandamento permanece (Ex 20,12). Jesus condena tradições que anulam o cuidado com os pais (Mc 7,9-13). Contudo, o Reino relativiza todas as estruturas quando estas se tornam absolutas.   Marcos introduz um detalhe singular: “por causa de mim e do Evangelho” (Mc 10,29). O discipulado não é devoção intimista nem espiritualidade alienada. Seguir Jesus significa aderir ao projeto do Reino anunciado desde o início do Evangelho: “Cumpriu-se o tempo e o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1,15).   Este Reino possui implicações espirituais, sociais, antropológicas e históricas. Ele toca leprosos (Mc 1,40-45), acolhe pecadores (Mc 2,15-17), cura a mulher hemorroíssa (Mc 5,25-34), ressuscita a filha de Jairo (Mc 5,35-43), alimenta famintos (Mc 6,30-44; Mc 8,1-10), acolhe estrangeiros (Mc 7,24-30), dignifica mulheres (Lc 8,1-3), anuncia libertação aos cativos (Lc 4,18-19), proclama felizes os pobres (Lc 6,20), identifica-se com os pequenos (Mt 25,31-46) e declara que o sábado foi feito para o ser humano (Mc 2,27).  Jesus promete cem vezes mais nesta vida, mas Marcos acrescenta algo frequentemente esquecido: “com perseguições” (Mc 10,30). Esta expressão desmonta toda leitura triunfalista. O seguimento não elimina sofrimento. A fé não remove conflito. O Reino não anula a cruz. O Cristo de Marcos caminha para Jerusalém, anuncia sua paixão três vezes (Mc 8,31; Mc 9,31; Mc 10,32-34) e chama os discípulos a tomarem a cruz (Mc 8,34).  

Por isso a promessa do cem por um não é prosperidade econômica. Jesus não promete palácios; promete irmãos. Não promete hegemonia; promete comunhão. Não promete poder; promete Reino.   Atos dos Apóstolos mostra esta promessa tornando-se realidade: a comunidade coloca bens em comum (At 2,42-47; At 4,32-35), mas também enfrenta perseguições (At 5,17-42), prisão (At 12,1-5), martírio (At 7,54-60) e dispersão (At 8,1-4). O Evangelho não oferece imunidade histórica; oferece fidelidade.   

Aqui emerge uma crítica necessária ao presente. Muitas expressões religiosas contemporâneas transformaram a fé em tecnologia de sucesso. A chamada teologia da prosperidade deslocou o centro do Evangelho, reduzindo bênção ao acúmulo e Reino à ascensão individual. O sofrimento foi espiritualizado. O pobre tornou-se suspeito. A cruz desapareceu.   Contudo, Jesus afirma: “Bem-aventurados os pobres” (Lc 6,20), “não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (Mt 6,24), “onde está teu tesouro aí estará teu coração” (Mt 6,21). Tiago denuncia comunidades que honram ricos e desprezam pobres (Tg 2,1-9). João pergunta: “Quem possuir bens e fechar o coração ao irmão, como permanece nele o amor de Deus?” (1Jo 3,17).  

O Antigo Testamento já havia denunciado o culto vazio separado da justiça: “Quero misericórdia e não sacrifício” (Os 6,6); “aprendei a fazer o bem, buscai a justiça” (Is 1,17); “corra o direito como água” (Am 5,24). Jesus encontra-se nesta tradição profética. Seu Reino não é neutro diante da injustiça.   Quando conclui dizendo que muitos primeiros serão últimos e muitos últimos serão primeiros (Mc 10,31), realiza uma das maiores inversões teológicas do Novo Testamento. O mundo romano estava organizado por honra, patronagem e hierarquia. Existiam centros e periferias humanas. Jesus rompe esta lógica. “Quem quiser ser o maior seja servo” (Mc 10,43); “o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir” (Mc 10,45); “quem se exaltar será humilhado” (Mt 23,12).   Esta crítica alcança também a vida eclesial. O clericalismo continua sendo deformação da missão quando transforma ministério em privilégio. O Concílio Vaticano II, especialmente em Lumen Gentium, recupera a imagem da Igreja como Povo de Deus. O sacerdócio comum dos fiéis é reafirmado. O serviço volta ao centro. Jesus lava os pés dos discípulos (Jo 13,1-15). Pedro exorta os presbíteros a não dominarem o rebanho (1Pd 5,1-4). Paulo afirma que a autoridade existe para edificar e não destruir (2Cor 10,8).  

A sociologia da religião mostra que toda instituição corre o risco de transformar pertença em exclusão. A religião pode libertar ou legitimar opressões. A América Latina leu esta tensão de modo profético. Conferência de Medellín denunciou estruturas de pecado; Conferência de Puebla aprofundou a opção preferencial pelos pobres; Conferência de Aparecida convocou a Igreja à missão.   O Concílio Vaticano II, em Gaudium et Spes, recorda que as alegrias e esperanças dos pobres são as alegrias e esperanças da Igreja. Marcos 10 obriga então a perguntar que cristianismo estamos construindo. Uma religião do prestígio ou uma espiritualidade do Reino? Uma Igreja servidora ou autorreferencial? Uma fé libertadora ou instrumentalizada?  

Estas perguntas tornam-se urgentes quando a religião é usada para projetos de poder. Jesus recusou o messianismo militar (Jo 6,15), entrou em Jerusalém montado num jumento (Mc 11,1-10), chorou sobre a cidade (Lc 19,41-44) e morreu perdoando (Lc 23,34).  .Contudo, setores religiosos aproximaram-se de discursos autoritários e ideologias de extrema direita que substituem misericórdia por guerra cultural e Evangelho por identidade política. O Reino não cresce assim. Jesus comparou o Reino ao grão de mostarda (Mc 4,30-32), ao fermento escondido (Mt 13,33), à semente que morre (Jo 12,24).  Também a teologia do domínio entra em tensão com o Evangelho quando transforma missão em hegemonia. O Reino não é império. O discípulo não é conquistador. O Evangelho não é supremacia.   Pouco depois desta passagem, Tiago e João pedirão lugares de honra (Mc 10,35-45). Jesus responde: “Quem quiser ser o primeiro seja servo de todos”. A psicologia da espiritualidade ajuda a compreender esta cena. O ser humano deseja reconhecimento. Pedro busca confirmação. Tiago e João buscam proximidade privilegiada. Jesus não destrói esta humanidade; ele a converte. O amadurecimento espiritual acontece quando o desejo de poder se torna serviço.  

Também hoje comunidades reproduzem estas tensões. Disputam cargos, visibilidade e reconhecimento. Criam primeiros e segundos escalões. Mas o Reino não possui lado A e lado B.  

A conclusão do texto conduz à vida eterna. Na linguagem bíblica, vida eterna não é apenas futuro; é participação na vida de Deus (Jo 17,3). Apocalipse fala da nova Jerusalém onde Deus enxugará toda lágrima (Ap 21,4). Isaías anuncia um banquete universal (Is 25,6). Ezequiel fala do rio que gera vida (Ez 47,1-12). Jesus fala repetidamente de mesas e festas (Mt 22,1-14; Lc 14,15-24).   A imagem da estrada torna-se profundamente escatológica. Uns caminham rapidamente; outros lentamente. Há feridos como o homem caído na estrada de Jericó (Lc 10,25-37). Há cansados como Elias sob o zimbro (1Rs 19,4-8). Há exilados como os discípulos de Emaús (Lc 24,13-35). Contudo, todos caminham para uma mesa. Não para um trono, mas para uma mesa.  

Ali não haverá competição, clericalismo, exclusão ou prosperidade usada como medida de fé. Contará apenas a fidelidade. Marcos 10,28-31 permanece então como espelho diante da Igreja e do discípulo. Pergunta o que ainda seguramos, quais riquezas interiores nos impedem de caminhar, quais poderes desejamos conservar e quais medos nos fazem parar quando o Evangelho chega à cruz.  Porque muitas vezes aceitamos o cem por um e esquecemos as perseguições; queremos a glória e evitamos o serviço; desejamos a festa e rejeitamos a estrada.   Contudo, Jesus continua chamando, continua desinstalando, continua libertando e continua dizendo: segue-me.  

  • O maior milagre não é chegar primeiro, mas permanecer caminhando. 

Porque ao final da estrada não haverá vencedores nem vencidos, primeiros nem últimos segundo as medidas humanas. Não haverá títulos convertidos em privilégio, nem distinções erguidas como muros; não haverá bispos, padres, diáconos ou qualquer outro nome transformado em superioridade. O que na história foi ministério retornará plenamente ao seu sentido original: serviço. O que foi vocação encontrará sua plenitude na comunhão. Haverá apenas irmãos e irmãs reunidos pela graça. O Povo de Deus reconciliado. Não existirão tronos sustentados pela vaidade, lugares reservados pelo poder ou honras disputadas. Diante do Cordeiro, toda grandeza humana perderá seu brilho e permanecerá apenas o amor que serviu.

Estaremos  em um  unica mesa. A mesa do Reino. Não um palácio para poucos, mas o banquete preparado pelo Deus da aliança (Is 25,6). Nela se sentarão os que caminharam depressa e os que avançaram lentamente; os fortes e os cansados; os que sustentaram e os que precisaram ser sustentados; os que chegaram com passos firmes e os que chegaram carregando suas feridas; os que conservaram a esperança e os que sobreviveram apenas pela misericórdia. Sentar-se-ão também os esquecidos da história, os pobres, os pequenos, os feridos da estrada, os exilados e os que permaneceram fiéis apesar da noite. Os últimos ouvirão seu nome pronunciado com ternura, e aqueles que buscaram ser primeiros compreenderão que o maior sempre foi aquele que serviu (Mc 10,43-45).

Toda lágrima será enxugada (Ap 21,4). Toda fome encontrará pão (Is 25,6). Todo exílio encontrará casa. Toda ferida encontrará cura. Toda saudade encontrará abraço. A criação inteira, que geme esperando redenção (Rm 8,22-23), participará da plenitude prometida. Então cessarão as disputas, cairão as coroas, silenciarão os orgulhos e desaparecerão as fronteiras construídas entre irmãos. Todos reconciliados. Todos acolhidos. Todos participantes da festa sem ocaso.

Porque ao final não permanecerão cargos, títulos ou lugares de honra. Permanecerão a graça, a misericórdia e o amor.



E Deus será tudo em todos (1Cor 15,28).

DNonato - Teólogo do Cotidiano