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segunda-feira, 25 de maio de 2026

Um breve olhar sobre Marcos 10,28-31


No calendário litúrgico da Igreja Católica Romana, Marcos 10,28-31 é proclamado no Tempo Comum,  na terça-feira da oitava semana, aparecendo como continuação imediata da narrativa do homem rico em Marcos 10,17-27. A perícope integra uma unidade maior sobre discipulado, riqueza, Reino de Deus, desapego e seguimento, formando uma das catequeses mais profundas do Evangelho de Marcos sobre a identidade do discípulo. Suas variantes paralelas aparecem em Mateus 19,27-30 e Lucas 18,28-30, sendo igualmente recebidas no Lecionário Romano e nas tradições litúrgicas das Igrejas históricas. No Oriente cristão, especialmente nas Igrejas Ortodoxas, o texto encontra eco na espiritualidade ascética e monástica, associando-se ao chamado à kenosis, ao esvaziamento e à comunhão fraterna; nas tradições anglicanas, luteranas e reformadas históricas, a perícope é frequentemente vinculada ao discipulado radical e à ética do Reino. A proclamação litúrgica desta passagem não possui apenas caráter memorial. A Igreja, ao ouvi-la, é colocada diante de uma pergunta permanente e desconcertante: o que significa seguir Jesus quando o Evangelho alcança exatamente os lugares onde construímos segurança, poder, prestígio, identidade e nossas próprias imagens de Deus?  

Marcos 10,28-31 não nasce isolado, mas dentro de uma sequência narrativa cuidadosamente construída. Seu ponto de partida está no encontro entre Jesus e o homem rico. Um homem corre até Jesus, ajoelha-se diante dele e pergunta: “Bom Mestre, que devo fazer para herdar a vida eterna?” (Mc 10,17). O gesto possui grande densidade cultural. No mundo mediterrâneo do primeiro século, homens adultos e socialmente estabelecidos não corriam em público. A honra possuía expressão corporal. Aquele homem corre porque existe urgência em sua alma. Existe busca. Existe inquietação. A pergunta que ele faz atravessa toda a história humana. Jó perguntou sobre o sentido do sofrimento (Jó 7,17-21); o salmista buscou a felicidade do justo (Sl 1,1-6); Qohelet interrogou o sentido da existência (Ecl 1,2-11); Nicodemos perguntou sobre o novo nascimento (Jo 3,1-10). A antropologia das religiões demonstra que toda civilização desenvolveu ritos, narrativas e símbolos para enfrentar o mistério da morte e da transcendência. O homem rico torna-se imagem universal da humanidade que busca vida eterna, mas ainda imagina a salvação como conquista ou mérito.   Jesus inicialmente conduz o diálogo pelos mandamentos: “Não matarás, não adulterarás, não furtarás, não levantarás falso testemunho, honra teu pai e tua mãe” (Mc 10,19; Ex 20,12-16; Dt 5,16-20). O homem responde que tudo isso observava desde a juventude. Então Marcos registra uma das expressões mais belas e teologicamente profundas do Evangelho: “Jesus olhou para ele e o amou” (Mc 10,21). Antes da exigência existe amor. Antes da renúncia existe encontro. Antes da cruz existe misericórdia. Antes da entrega existe um olhar que reconhece dignidade.  

Jesus então diz: “Falta-te uma coisa. Vai, vende tudo o que tens, dá aos pobres e terás um tesouro no céu; depois vem e segue-me” (Mc 10,21). A exegese mostra que o problema não é simplesmente econômico. O texto alcança uma dimensão antropológica. O homem não apenas possuía riquezas; estava existencialmente estruturado por elas. Sua identidade, segurança e visão de bênção estavam ligadas ao acúmulo. O Evangelho alcança o centro de sua existência e ele se entristece. Esta cena encontra ressonância nas advertências proféticas do Antigo Testamento: “Ai dos que ajuntam casa a casa e campo a campo” (Is 5,8); “vendem o justo por dinheiro e o pobre por um par de sandálias” (Am 2,6); “cobiçam campos e os arrebatam” (Mq 2,1-2). O homem rico torna-se símbolo de toda espiritualidade incapaz de abandonar aquilo que ocupa o lugar de Deus.   É deste contexto que surge a fala de Pedro: “Eis que nós deixamos tudo e te seguimos” (Mc 10,28). Mateus explicita ainda mais a tensão ao acrescentar: “Que receberemos?” (Mt 19,27). Pedro representa a humanidade do discípulo. Já caminhou, já deixou redes, barcos e segurança (Mc 1,16-20), mas continua buscando confirmação.   Ele  não condena a pergunta; ele a purifica. Para compreender sua resposta é necessário entrar no contexto histórico do primeiro século. A Palestina vivia sob domínio romano. A Galileia experimentava concentração fundiária, aumento da tributação e empobrecimento das famílias camponesas. A terra, no mundo bíblico, não era apenas bem econômico; era herança, identidade, sobrevivência e memória. A promessa da terra atravessa toda a Escritura, desde Abraão (Gn 12,1-9), passando pela libertação do Egito (Ex 3,7-8), pela entrada em Canaã (Js 1,1-9) e pela esperança profética da restauração (Ez 36,24-28). Perder a terra significava perder parte da própria história.  

Quando Jesus fala sobre deixar casas, irmãos, irmãs, pai, mãe, filhos e campos por causa dele e do Evangelho (Mc 10,29), toca os pilares da organização social mediterrânea. Casa significava pertencimento; família significava honra; campos significavam continuidade histórica. O chamado de Jesus não destrói vínculos humanos. O quarto mandamento permanece (Ex 20,12). Jesus condena tradições que anulam o cuidado com os pais (Mc 7,9-13). Contudo, o Reino relativiza todas as estruturas quando estas se tornam absolutas.   Marcos introduz um detalhe singular: “por causa de mim e do Evangelho” (Mc 10,29). O discipulado não é devoção intimista nem espiritualidade alienada. Seguir Jesus significa aderir ao projeto do Reino anunciado desde o início do Evangelho: “Cumpriu-se o tempo e o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1,15).   Este Reino possui implicações espirituais, sociais, antropológicas e históricas. Ele toca leprosos (Mc 1,40-45), acolhe pecadores (Mc 2,15-17), cura a mulher hemorroíssa (Mc 5,25-34), ressuscita a filha de Jairo (Mc 5,35-43), alimenta famintos (Mc 6,30-44; Mc 8,1-10), acolhe estrangeiros (Mc 7,24-30), dignifica mulheres (Lc 8,1-3), anuncia libertação aos cativos (Lc 4,18-19), proclama felizes os pobres (Lc 6,20), identifica-se com os pequenos (Mt 25,31-46) e declara que o sábado foi feito para o ser humano (Mc 2,27).  Jesus promete cem vezes mais nesta vida, mas Marcos acrescenta algo frequentemente esquecido: “com perseguições” (Mc 10,30). Esta expressão desmonta toda leitura triunfalista. O seguimento não elimina sofrimento. A fé não remove conflito. O Reino não anula a cruz. O Cristo de Marcos caminha para Jerusalém, anuncia sua paixão três vezes (Mc 8,31; Mc 9,31; Mc 10,32-34) e chama os discípulos a tomarem a cruz (Mc 8,34).  

Por isso a promessa do cem por um não é prosperidade econômica. Jesus não promete palácios; promete irmãos. Não promete hegemonia; promete comunhão. Não promete poder; promete Reino.   Atos dos Apóstolos mostra esta promessa tornando-se realidade: a comunidade coloca bens em comum (At 2,42-47; At 4,32-35), mas também enfrenta perseguições (At 5,17-42), prisão (At 12,1-5), martírio (At 7,54-60) e dispersão (At 8,1-4). O Evangelho não oferece imunidade histórica; oferece fidelidade.   

Aqui emerge uma crítica necessária ao presente. Muitas expressões religiosas contemporâneas transformaram a fé em tecnologia de sucesso. A chamada teologia da prosperidade deslocou o centro do Evangelho, reduzindo bênção ao acúmulo e Reino à ascensão individual. O sofrimento foi espiritualizado. O pobre tornou-se suspeito. A cruz desapareceu.   Contudo, Jesus afirma: “Bem-aventurados os pobres” (Lc 6,20), “não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (Mt 6,24), “onde está teu tesouro aí estará teu coração” (Mt 6,21). Tiago denuncia comunidades que honram ricos e desprezam pobres (Tg 2,1-9). João pergunta: “Quem possuir bens e fechar o coração ao irmão, como permanece nele o amor de Deus?” (1Jo 3,17).  

O Antigo Testamento já havia denunciado o culto vazio separado da justiça: “Quero misericórdia e não sacrifício” (Os 6,6); “aprendei a fazer o bem, buscai a justiça” (Is 1,17); “corra o direito como água” (Am 5,24). Jesus encontra-se nesta tradição profética. Seu Reino não é neutro diante da injustiça.   Quando conclui dizendo que muitos primeiros serão últimos e muitos últimos serão primeiros (Mc 10,31), realiza uma das maiores inversões teológicas do Novo Testamento. O mundo romano estava organizado por honra, patronagem e hierarquia. Existiam centros e periferias humanas. Jesus rompe esta lógica. “Quem quiser ser o maior seja servo” (Mc 10,43); “o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir” (Mc 10,45); “quem se exaltar será humilhado” (Mt 23,12).   Esta crítica alcança também a vida eclesial. O clericalismo continua sendo deformação da missão quando transforma ministério em privilégio. O Concílio Vaticano II, especialmente em Lumen Gentium, recupera a imagem da Igreja como Povo de Deus. O sacerdócio comum dos fiéis é reafirmado. O serviço volta ao centro. Jesus lava os pés dos discípulos (Jo 13,1-15). Pedro exorta os presbíteros a não dominarem o rebanho (1Pd 5,1-4). Paulo afirma que a autoridade existe para edificar e não destruir (2Cor 10,8).  

A sociologia da religião mostra que toda instituição corre o risco de transformar pertença em exclusão. A religião pode libertar ou legitimar opressões. A América Latina leu esta tensão de modo profético. Conferência de Medellín denunciou estruturas de pecado; Conferência de Puebla aprofundou a opção preferencial pelos pobres; Conferência de Aparecida convocou a Igreja à missão.   O Concílio Vaticano II, em Gaudium et Spes, recorda que as alegrias e esperanças dos pobres são as alegrias e esperanças da Igreja. Marcos 10 obriga então a perguntar que cristianismo estamos construindo. Uma religião do prestígio ou uma espiritualidade do Reino? Uma Igreja servidora ou autorreferencial? Uma fé libertadora ou instrumentalizada?  

Estas perguntas tornam-se urgentes quando a religião é usada para projetos de poder. Jesus recusou o messianismo militar (Jo 6,15), entrou em Jerusalém montado num jumento (Mc 11,1-10), chorou sobre a cidade (Lc 19,41-44) e morreu perdoando (Lc 23,34).  .Contudo, setores religiosos aproximaram-se de discursos autoritários e ideologias de extrema direita que substituem misericórdia por guerra cultural e Evangelho por identidade política. O Reino não cresce assim. Jesus comparou o Reino ao grão de mostarda (Mc 4,30-32), ao fermento escondido (Mt 13,33), à semente que morre (Jo 12,24).  Também a teologia do domínio entra em tensão com o Evangelho quando transforma missão em hegemonia. O Reino não é império. O discípulo não é conquistador. O Evangelho não é supremacia.   Pouco depois desta passagem, Tiago e João pedirão lugares de honra (Mc 10,35-45). Jesus responde: “Quem quiser ser o primeiro seja servo de todos”. A psicologia da espiritualidade ajuda a compreender esta cena. O ser humano deseja reconhecimento. Pedro busca confirmação. Tiago e João buscam proximidade privilegiada. Jesus não destrói esta humanidade; ele a converte. O amadurecimento espiritual acontece quando o desejo de poder se torna serviço.  

Também hoje comunidades reproduzem estas tensões. Disputam cargos, visibilidade e reconhecimento. Criam primeiros e segundos escalões. Mas o Reino não possui lado A e lado B.  

A conclusão do texto conduz à vida eterna. Na linguagem bíblica, vida eterna não é apenas futuro; é participação na vida de Deus (Jo 17,3). Apocalipse fala da nova Jerusalém onde Deus enxugará toda lágrima (Ap 21,4). Isaías anuncia um banquete universal (Is 25,6). Ezequiel fala do rio que gera vida (Ez 47,1-12). Jesus fala repetidamente de mesas e festas (Mt 22,1-14; Lc 14,15-24).   A imagem da estrada torna-se profundamente escatológica. Uns caminham rapidamente; outros lentamente. Há feridos como o homem caído na estrada de Jericó (Lc 10,25-37). Há cansados como Elias sob o zimbro (1Rs 19,4-8). Há exilados como os discípulos de Emaús (Lc 24,13-35). Contudo, todos caminham para uma mesa. Não para um trono, mas para uma mesa.  

Ali não haverá competição, clericalismo, exclusão ou prosperidade usada como medida de fé. Contará apenas a fidelidade. Marcos 10,28-31 permanece então como espelho diante da Igreja e do discípulo. Pergunta o que ainda seguramos, quais riquezas interiores nos impedem de caminhar, quais poderes desejamos conservar e quais medos nos fazem parar quando o Evangelho chega à cruz.  Porque muitas vezes aceitamos o cem por um e esquecemos as perseguições; queremos a glória e evitamos o serviço; desejamos a festa e rejeitamos a estrada.   Contudo, Jesus continua chamando, continua desinstalando, continua libertando e continua dizendo: segue-me.  

  • O maior milagre não é chegar primeiro, mas permanecer caminhando. 

Porque ao final da estrada não haverá vencedores nem vencidos, primeiros nem últimos segundo as medidas humanas. Não haverá títulos convertidos em privilégio, nem distinções erguidas como muros; não haverá bispos, padres, diáconos ou qualquer outro nome transformado em superioridade. O que na história foi ministério retornará plenamente ao seu sentido original: serviço. O que foi vocação encontrará sua plenitude na comunhão. Haverá apenas irmãos e irmãs reunidos pela graça. O Povo de Deus reconciliado. Não existirão tronos sustentados pela vaidade, lugares reservados pelo poder ou honras disputadas. Diante do Cordeiro, toda grandeza humana perderá seu brilho e permanecerá apenas o amor que serviu.

Estaremos  em um  unica mesa. A mesa do Reino. Não um palácio para poucos, mas o banquete preparado pelo Deus da aliança (Is 25,6). Nela se sentarão os que caminharam depressa e os que avançaram lentamente; os fortes e os cansados; os que sustentaram e os que precisaram ser sustentados; os que chegaram com passos firmes e os que chegaram carregando suas feridas; os que conservaram a esperança e os que sobreviveram apenas pela misericórdia. Sentar-se-ão também os esquecidos da história, os pobres, os pequenos, os feridos da estrada, os exilados e os que permaneceram fiéis apesar da noite. Os últimos ouvirão seu nome pronunciado com ternura, e aqueles que buscaram ser primeiros compreenderão que o maior sempre foi aquele que serviu (Mc 10,43-45).

Toda lágrima será enxugada (Ap 21,4). Toda fome encontrará pão (Is 25,6). Todo exílio encontrará casa. Toda ferida encontrará cura. Toda saudade encontrará abraço. A criação inteira, que geme esperando redenção (Rm 8,22-23), participará da plenitude prometida. Então cessarão as disputas, cairão as coroas, silenciarão os orgulhos e desaparecerão as fronteiras construídas entre irmãos. Todos reconciliados. Todos acolhidos. Todos participantes da festa sem ocaso.

Porque ao final não permanecerão cargos, títulos ou lugares de honra. Permanecerão a graça, a misericórdia e o amor.



E Deus será tudo em todos (1Cor 15,28).

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

sábado, 7 de fevereiro de 2026

Um breve olhar sobre Marcos 6,30-34


O Evangelho segundo Marcos 6,30-34, proclamado no sábado da 4ª semana do Tempo Comum nos anos pares e retomado no 16º Domingo do Tempo Comum no Ano B, descreve o momento em que os apóstolos retornam da missão confiada por Jesus e se reúnem novamente ao seu redor para partilhar tudo o que fizeram e ensinaram. Esse retorno não é apenas um detalhe narrativo, mas revela um Jesus atento não aos resultados mensuráveis da missão, e sim à condição humana daqueles que enviou. O evangelista deixa claro que a missão gera desgaste real, que o discipulado não elimina os limites do corpo e que a fidelidade ao Evangelho não imuniza ninguém contra o cansaço, a exaustão e a falta de tempo até para as necessidades mais básicas, como o alimento. Marcos escreve para comunidades marcadas por perseguição, instabilidade social e sobrecarga cotidiana. Por isso, escolhe mostrar um Cristo que não espiritualiza a exaustão, não glorifica o sacrifício permanente e não transforma o desgaste contínuo em virtude religiosa. Ao contrário, Jesus reconhece os limites humanos e os assume como lugar legítimo da vida espiritual. Quando convida os discípulos a se retirarem para um lugar deserto a fim de descansar, Ele afirma que o cuidado com a vida não é fuga da missão, mas parte integrante dela.

O deserto, na tradição bíblica, não é espaço de evasão, mas de recomposição. É o lugar onde Israel reaprende a confiar, onde o excesso é desmascarado, onde o desejo é purificado e onde a Palavra volta a ocupar o centro. Ao conduzir os discípulos para um lugar à parte, Jesus propõe uma pedagogia espiritual profundamente encarnada: a missão só permanece fiel quando nasce da escuta, e a ação só é evangélica quando respeita os ritmos do corpo e da alma. Uma missão que não retorna à escuta corre o risco de se tornar violência, mesmo quando realizada em nome de Deus.

Marcos sublinha que os discípulos relatam a Jesus tudo o que fizeram e ensinaram. Não se trata de um relatório de desempenho nem de prestação de contas baseada em eficiência. Não há traço de triunfalismo, nem culto ao resultado. O Evangelho, já aqui, desmonta a lógica religiosa que mede fidelidade por números, bênção por visibilidade e missão por produtividade. Jesus escuta, mas seu olhar não se fixa nos feitos; Ele contempla os corpos cansados, o ritmo exausto, a interioridade fragilizada.

É nesse contexto que emerge uma das afirmações mais perturbadoras do texto: “Eles não tinham tempo nem para comer” (Mc 6,31). Comer, na Escritura, é gesto profundamente humano e teológico. Desde o Gênesis, o alimento aparece como dom confiado à humanidade; no Êxodo, a fome se torna lugar de revelação; nos Salmos, Deus é aquele que prepara a mesa; nos Evangelhos, Jesus come com os excluídos, multiplica o pão e se deixa reconhecer no partir do pão. Quando Marcos afirma que não havia tempo nem para comer, ele revela uma ruptura da dignidade básica da vida, um cotidiano onde até o essencial é sacrificado em nome da urgência.

A Bíblia conhece bem essa experiência. Os profetas denunciam sistemas que enriquecem explorando o cansaço alheio. Amós acusa os que esmagam os pobres enquanto vivem no luxo; Isaías rejeita o jejum que convive com a opressão do trabalhador; Jeremias condena quem constrói prosperidade fazendo o próximo trabalhar sem justiça (Jr 22,13). O clamor do povo exausto atravessa os Salmos e as Lamentações, revelando que o cansaço coletivo não é falha moral individual, mas consequência de estruturas injustas que roubam o tempo de viver.

Nesse horizonte, o convite de Jesus:  “Vinde sozinhos para um lugar deserto e descansai um pouco”, adquire força subversiva. Descansar não é luxo espiritual, mas resistência. É ruptura com a lógica do Egito, onde o faraó aumenta a produção e retira o descanso (Ex 5). É retorno à teologia do sábado, que nasce como memória política da libertação: “Lembra-te de que foste escravo” (Dt 5,15). O sábado protege o corpo do pobre, do estrangeiro, do trabalhador e até do animal. Ele afirma que ninguém pertence totalmente ao sistema, porque todos pertencem a Deus.

O mundo contemporâneo, porém, reconfigura o Egito em novas linguagens. A cultura da produtividade contínua, da disponibilidade permanente e da urgência sem pausa transforma o cansaço em virtude e o descanso em culpa. A escala 6×1 se torna símbolo dessa lógica: consome corpos, fragmenta vínculos, empobrece a espiritualidade e reduz o ser humano à função que exerce. A Escritura não legitima esse modelo. O Salmo 127 desmonta a mística do esforço incessante ao afirmar que Deus concede repouso aos seus amados; Provérbios adverte que o excesso de trabalho pode custar a própria vida; o Eclesiastes questiona o sentido de uma existência consumida pelo labor sem horizonte. Jesus não romantiza a exaustão. Ele não diz que o sofrimento contínuo purifica nem que o cansaço agrada a Deus. Sua postura se aproxima da experiência de Elias, que só reencontra a Palavra depois de comer, beber e dormir. Antes da correção, vem o cuidado. Antes da missão renovada, vem o descanso. Isso revela uma antropologia profundamente encarnada: uma espiritualidade que ignora o corpo se torna violenta, e uma fé que despreza o limite humano acaba servindo à opressão.

O descanso planejado, no entanto, é interrompido pela chegada da multidão. Jesus vê o povo e se compadece. O olhar é teológico. É o mesmo olhar de Deus sobre o sofrimento no Egito, sobre a humilhação dos esquecidos, sobre a dor silenciosa dos pobres. A imagem das “ovelhas sem pastor” não é romântica, mas profética. Denuncia lideranças que abandonam, exploram ou mercantilizam o cuidado. Os profetas já haviam acusado esse tipo de pastoreio, e Jesus se apresenta como contraponto vivo a essas estruturas. A resposta de Jesus é ensinar. Na Bíblia, ensinar é libertar. “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8,32). Um povo exausto perde a capacidade de pensar, discernir e resistir. Uma sociedade cansada questiona menos, sonha menos e se submete mais facilmente. Por isso, defender o descanso é também defender a liberdade. Onde o tempo é roubado, a consciência é anestesiada.

Essa lógica confronta diretamente os ministros  do alta que fazem do ministério  uma produção  e   vive a espiritualidades do ativismo. Jesus denuncia os que impõem fardos pesados e não os carregam. Ele afirma que o sábado foi feito para o ser humano, e não o ser humano para o sábado. Esse princípio se estende legitimamente ao trabalho: o trabalho existe para servir à vida, não para consumi-la. O Magistério da Igreja ecoa essa tradição bíblica. A Gaudium et Spes afirma que o desenvolvimento econômico deve respeitar os ritmos humanos. A Laborem Exercens reconhece o descanso semanal como direito fundamental. A Evangelii Gaudium denuncia uma economia que mata. A Laudato Si’ relaciona a exploração do tempo humano à devastação da criação. A Fratelli Tutti insiste que não há fraternidade onde o tempo de viver é roubado.

À luz do Evangelho, a escala 6×1 revela uma antropologia incompatível com o Reino. Ela normaliza o esgotamento, enfraquece os vínculos comunitários e transforma a vida em mercadoria. A Escritura afirma o contrário: que o ser humano é pó animado pelo sopro de Deus, não engrenagem produtiva; que a vida é dom, não produto; que o descanso antecipa o Reino. A Carta aos Hebreus proclama que “resta um repouso sabático para o povo de Deus”. Esse repouso não é fuga da história, mas critério para julgá-la. Onde o descanso é negado, o Evangelho é traído. Onde o cansaço é glorificado, a fé se torna cúmplice da opressão. Onde não há tempo nem para comer, a Boa Nova precisa ser anunciada com ainda mais clareza.

Jesus continua vendo os cansados, continua se compadecendo e continua convidando ao descanso. E chama sua Igreja a não pactuar com nenhuma estrutura que transforme o tempo de viver em mercadoria. Defender o descanso é proclamar o Evangelho. Denunciar a exploração do tempo é fidelidade bíblica. Anunciar esse Cristo solidário com os exaustos é um ato profundamente profético, urgente e libertador.

DNonato – Teólogo do Cotidiano

quinta-feira, 25 de setembro de 2025

Um breve olhar sobre Lucas 9,18-22

O evangelho  de Lucas 9, 18-22, proclamado na liturgia da Sexta-feira da 25ª Semana do Tempo Comum também   proclamado  no 12º Domingo do Tempo Comum do ciclo C até o versículo 24, toca o centro da fé cristã: a identidade de Jesus e a correção da falsa imagem que se pode ter do Messias. O contexto é marcante: Jesus está em oração, sozinho, e os discípulos estão com ele. Lucas sublinha constantemente a oração como lugar da revelação e do discernimento (cf. Lc 3,21; 6,12; 11,1). É nesse ambiente de recolhimento, onde a intimidade com o Pai se torna espaço de revelação, que Jesus interpela os discípulos: “Quem dizem as multidões que eu sou?”. A pergunta não é uma curiosidade, mas uma provocação pedagógica: confronta-os com o contraste entre a opinião popular e o chamado a reconhecer a verdade mais profunda.

As respostas soam variadas: João Batista, Elias, um dos antigos profetas que ressuscitou. Há ecos da expectativa judaica messiânica, enraizada em textos como Malaquias 3,23-24, que anuncia o retorno de Elias antes do dia do Senhor. Contudo, essas respostas revelam apenas fragmentos de verdade. Não tocam a essência. Por isso, Jesus vai além: “E vós, quem dizeis que eu sou?”. Aqui não basta repetir opiniões alheias, é preciso um posicionamento existencial. Pedro, porta-voz dos discípulos, confessa: “O Cristo de Deus”.

Mas Jesus imediatamente adverte com severidade: não anunciem isso publicamente. Por quê? Porque a noção de “Cristo” ou “Messias” estava impregnada de expectativas políticas, nacionalistas e triunfalistas. Era a esperança de um rei guerreiro que libertaria Israel do jugo romano, que restabeleceria a glória davídica e que implantaria o domínio do povo eleito sobre os demais. Essa mentalidade, que hoje poderíamos chamar de teologia da glória sem cruz, precisava ser desconstruída. Por isso, Jesus anuncia o caminho real do Messias: sofrer, ser rejeitado pelos anciãos, sumos sacerdotes e escribas, ser morto e, ao terceiro dia, ressuscitar.

O paradoxo da cruz atravessa toda a tradição sinótica. Marcos (8,27-33) apresenta a mesma cena em Cesareia de Filipe, onde Pedro confessa Jesus como Messias, mas logo em seguida é repreendido por pensar segundo a lógica humana, e não de Deus. Mateus (16,13-20)  proclamado  no 21º Domingo do Tempo Comum,  também proclamado  até o versículo  19 no  dia dos Santos  Pedro e Paulo  ao narrar a mesma confissão, acrescenta a bem-aventurança de Pedro e a promessa das chaves do Reino, mas também não omite a advertência de que o Messias deve sofrer. Em todos os sinóticos, a confissão messiânica está imediatamente vinculada ao anúncio da paixão: não há Cristo sem cruz, não há glória sem entrega, não há ressurreição sem morte.

No coração desse relato, vale recordar os aspectos comuns e as diferenças nos sinóticos. Marcos (8,27-33) apresenta a cena em Cesareia de Filipe, com a mesma confissão de Pedro, mas ressalta de modo mais abrupto a incompreensão do discípulo, a ponto de Jesus repreendê-lo como “satanás” por pensar segundo os homens. Mateus (16,13-20), além de narrar a confissão, introduz a promessa das chaves e o papel de Pedro como fundamento visível da comunidade, revelando uma dimensão eclesial mais explícita, mas igualmente sem omitir a necessidade do Messias sofrer. Lucas (9,18-22), diferentemente, insere o episódio em clima de oração, sublinhando a centralidade do discernimento diante de Deus. Em todos, o eixo é o mesmo: confissão de fé e anúncio da paixão estão inseparavelmente unidos. A diferença está no acento teológico de cada evangelista — Marcos destaca o confronto entre messianismo humano e divino, Mateus ressalta a dimensão eclesial e a autoridade confiada, e Lucas ilumina a relação íntima de Jesus com o Pai como fonte de sua identidade. Ao mesmo tempo, o Evangelho de João, embora não narre essa cena da mesma forma, oferece sua própria maneira de revelar a identidade de Jesus: os sete grandes “Eu sou” (Jo 6,35; 8,12; 10,7.11; 11,25; 14,6; 15,1), que evocam o nome divino revelado a Moisés (Ex 3,14), tornam explícito aquilo que nos sinóticos aparece em forma de confissão. Assim, João apresenta de forma mais direta e teológica o que os sinóticos revelam de modo narrativo e pedagógico: Jesus é o Messias, mas um Messias que carrega a cruz e que é, ao mesmo tempo, o próprio “Eu sou” de Deus no meio da história humana.

Esse é o ponto onde a hermenêutica lucana se torna essencial. Lucas, ao destacar o momento de oração, recorda que a identidade de Jesus não se compreende pela lógica das massas, nem pela manipulação religiosa, mas no silêncio diante de Deus. A oração abre ao discernimento. A confissão verdadeira não nasce da propaganda nem da emoção das multidões, mas da experiência profunda do encontro com o Cristo que se doa.

Hoje, em nosso tempo, a pergunta de Jesus ecoa com ainda mais força: “E vós, quem dizeis que eu sou?”. Vivemos em meio a imagens distorcidas de Cristo. Para alguns, Ele é um ídolo da prosperidade, que garante sucesso financeiro e saúde plena, como se fosse um amuleto mágico. Essa leitura, chamada de teologia da prosperidade, transforma a fé em mercadoria, o Evangelho em empresa, e a cruz em decoração sem escândalo. Para outros, Jesus é apresentado como líder de um projeto de domínio, quase um general que legitima guerras, exclusões e ódio, usado por grupos políticos que se apropriam do cristianismo para justificar a extrema-direita e seus projetos de poder. Há ainda os que reduzem a fé a uma experiência individualista, descomprometida com a realidade social, um “Cristo privado” que consola apenas o eu e fecha os olhos para a dor dos outros.

Essas visões são denunciadas pelo próprio Jesus quando Ele insiste que o Messias deve sofrer e ser rejeitado. O Reino não se implanta pelo poder da espada, mas pela força do amor que se entrega. É nesse sentido que São Paulo fala da loucura da cruz (1Cor 1,18-25): o que para o mundo é fraqueza, em Deus é força; o que parece derrota, em Cristo é vitória.

Hoje como ontem  temos as  falsas imagens de Jesus se enraízam em contextos de manipulação religiosa e política. A fé é transformada em capital simbólico, negociada em palcos que mais parecem shows do que espaços de encontro com o mistério. A religião, quando colonizada pelo mercado, perde sua alma profética e se torna mecanismo de controle. A antropologia, por sua vez, lembra que toda sociedade projeta suas expectativas no sagrado, criando ídolos que confortam seus desejos. Mas a revelação cristã desconstrói essas projeções: Deus não cabe em nossos esquemas. O Messias não é o que esperamos, mas o que precisamos.

Muitos buscam em Jesus apenas uma compensação para suas carências, uma figura que responda a desejos imediatos. No entanto, o encontro autêntico com Cristo passa pela aceitação da própria vulnerabilidade e pelo enfrentamento do sofrimento. A cruz não é um castigo, mas o lugar onde o amor assume até as últimas consequências a condição humana. Nesse sentido, a fé amadurece quando deixa de ser infantil, baseada em recompensas, e se torna adesão responsável ao caminho de Jesus.

Lembrando que o problema da verdade não pode ser reduzido à opinião. Como dizia Sócrates, é preciso sair da doxa (opinião) e buscar a alétheia (verdade). A pergunta de Jesus “E vós, quem dizeis que eu sou?” não busca repetir o senso comum, mas conduzir a uma decisão pessoal e comunitária que exige compromisso. Heidegger lembraria que a verdade é desvelamento, revelação. Aqui, a revelação é o próprio Cristo que se dá, não como mito triunfalista, mas como realidade encarnada, ferida e ressuscitada.

Sabemos que o título de Messias era perigoso na época de Jesus. As autoridades religiosas e políticas viam nele uma ameaça. Por isso, a advertência de Jesus de não divulgar ainda sua identidade messiânica é um recurso pedagógico e estratégico. Ele não quer ser confundido com os messias nacionalistas que se levantaram em Israel, nem com líderes revolucionários que buscavam derrubar Roma pela violência. Seu projeto era radicalmente diferente: instaurar o Reino de Deus pela via da compaixão, do perdão e da entrega.

A patrística nos ajuda a aprofundar ainda mais essa compreensão. Santo Agostinho dizia que “Pedro confessou uma vez por todos, mas cada dia a Igreja confessa Cristo” (Sermão 295). Para ele, a confissão de Pedro é fundamento e também missão permanente: reconhecer Cristo não apenas com palavras, mas com a vida. Orígenes, ao comentar este evangelho, afirma que “dizer que Jesus é o Cristo não é suficiente, é preciso compreender que Ele é o Cristo crucificado” (Comentário a Mateus, XII). Já Santo Irineu recordava que o Cristo verdadeiro não é o fruto da imaginação humana, mas a plena revelação do Pai no Filho encarnado (Adversus Haereses).

O Magistério da Igreja reforça essa visão. O Concílio Vaticano II, em Gaudium et Spes (n. 10), afirma que “o mistério do homem só se esclarece verdadeiramente no mistério do Verbo encarnado”. Em Evangelii Gaudium (n. 93), o Papa Francisco denuncia o mundanismo espiritual que busca a glória humana em vez da glória de Deus, advertindo contra a tentação de transformar a fé em espetáculo ou em poder. E em Fratelli Tutti (n. 272), recorda que a verdadeira grandeza do cristão está em fazer-se próximo, como o Bom Samaritano, não em se colocar acima dos outros.

O clericalismo,  que foi denunciado pelo Papa Francisco como “um dos males mais graves que ameaça a Igreja” (Carta ao Povo de Deus, 2018), também é uma distorção desse evangelho. Quando padres, bispos ou líderes eclesiásticos se colocam como donos da fé, como se fossem os mediadores absolutos, caem na tentação de se fazerem messias paralelos. Mas o verdadeiro Cristo não é posse de ninguém: Ele é dom para todos, especialmente para os pobres e marginalizados.

Assim, diante de Lucas 9,18-22, somos convidados a rever nossas concepções de Messias. Não basta declarar que Jesus é o Cristo; é preciso reconhecer que Ele é o Cristo crucificado e ressuscitado, aquele que caminha na contramão das expectativas triunfalistas. O discípulo, por sua vez, não pode seguir outro caminho senão o da entrega. A pergunta de Jesus continua viva: “E tu, quem dizes que eu sou?”. Nossa resposta não pode ser apenas verbal, mas existencial. É preciso confessá-lo no compromisso com a justiça, na solidariedade com os pequenos, na luta contra toda forma de opressão, na recusa de transformar a fé em mercado, poder ou privilégio.

O evangelho de hoje, ao ser proclamado na sexta-feira da 25ª semana do Tempo Comum, insere-se no ritmo do Tempo Comum, mas já aponta para a radicalidade do seguimento. A liturgia não nos deixa esquecer que cada Eucaristia é memória da cruz e da ressurreição, convite a participar da entrega de Cristo. Não é à toa que a confissão messiânica está vinculada à mesa do Senhor: confessar Cristo é também partilhar seu corpo entregue e seu sangue derramado.

Portanto, diante desse texto, nossa tarefa é dupla: desmontar as falsas imagens de Jesus e viver a verdadeira confissão de fé. Como Pedro, podemos dizer: “Tu és o Cristo de Deus”. Mas que nossas vidas digam também: “Tu és o Cristo que sofre, morre e ressuscita, e eu sigo teus passos, mesmo que isso me custe carregar minha própria cruz”. Esse é o único caminho que gera nova história, o único Messias que pode transformar a humanidade.



DNonato – Teólogo do Cotidiano