Mostrando postagens com marcador #FeECompromisso. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador #FeECompromisso. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 12 de março de 2026

Um breve olhar sobre Marcos 12,28b-34

 
O Evangelho de Marcos 12,28b-34 ocupa um lugar particularmente significativo na tradição litúrgica da Igreja. Na liturgia da Igreja Católica Romana esta passagem é proclamada em dois momentos específicos do calendário litúrgico. O primeiro acontece na sexta-feira da terceira semana da Quaresma, quando o caminho penitencial que conduz à Páscoa coloca diante dos fiéis o chamado à conversão profunda do coração e  o segundo momento  no 31º Domingo do Tempo Comum do Ano B, quando a comunidade cristã escuta o diálogo entre Jesus e o escriba acerca do maior mandamento da Lei.  Nessas duas ocasiões a Igreja apresenta esse trecho como síntese da vida cristã, como se a própria liturgia quisesse recordar que toda prática religiosa, toda espiritualidade e toda moral encontram seu eixo nesse duplo mandamento do amor. Em diversas tradições litúrgicas de Igrejas históricas que seguem lecionários semelhantes, como comunidades anglicanas, luteranas e reformadas, esta mesma passagem ou suas variantes sinóticas também aparecem em ciclos que enfatizam o mandamento do amor como núcleo da revelação bíblica. Assim, ao longo dos séculos, diferentes comunidades cristãs reconhecem nesse diálogo um ponto de convergência da fé, onde a Lei, os Profetas e o próprio Evangelho encontram sua síntese viva.

Para compreender plenamente essa passagem é necessário situá-la dentro do movimento narrativo do Evangelho de Marcos. Jesus encontra-se em Jerusalém, na fase final de sua missão pública. A cidade não é apenas um espaço geográfico. Ela concentra o coração simbólico, religioso e político de Israel. O Templo domina o horizonte espiritual da nação e representa o centro da vida religiosa. Ali convergem peregrinos vindos de toda a região, sacerdotes ligados ao culto, mestres da Lei responsáveis pela interpretação da Torá e autoridades vinculadas tanto ao poder religioso quanto ao poder político mediado pelo domínio romano.

Pouco antes do diálogo com o escriba, Jesus havia realizado um gesto profundamente profético ao expulsar os vendedores do Templo, denunciando a transformação da casa de oração em espaço de comércio e exploração, conforme Marcos 11,15-17. Citando Isaías 56,7 e Jeremias 7,11, ele proclama que a casa de Deus deveria ser casa de oração para todos os povos, mas havia se tornado um covil de ladrões. Esse gesto não pode ser interpretado apenas como indignação moral diante do comércio religioso. Trata-se de uma denúncia contra um sistema que instrumentalizava a religião para manter estruturas de poder e exclusão. O gesto de Jesus insere-se na longa tradição profética de Israel, que continuamente recordava que o culto verdadeiro não pode ser separado da justiça.

A partir desse momento o Evangelho apresenta uma sequência de debates entre Jesus e diversos grupos religiosos. Fariseus e herodianos interrogam Jesus sobre o tributo a César em Marcos 12,13-17. Saduceus questionam a ressurreição dos mortos em Marcos 12,18-27. Esses diálogos revelam o clima de tensão teológica e política que envolve o ministério de Jesus em Jerusalém. Não são discussões abstratas. São disputas que tocam diretamente a forma de compreender Deus, a Lei, a autoridade religiosa e a própria organização da sociedade.

É nesse ambiente que surge a pergunta do escriba. O evangelista observa um detalhe significativo. O escriba percebeu que Jesus havia respondido bem às discussões anteriores. Esse detalhe sugere que sua pergunta não nasce necessariamente de hostilidade, mas de uma busca honesta por discernimento. No judaísmo do primeiro século existiam intensos debates sobre a interpretação da Lei. A tradição rabínica identificava 613 mandamentos presentes na Torá, entre prescrições positivas e negativas. Diante dessa multiplicidade de normas, muitos mestres procuravam compreender qual seria o princípio fundamental capaz de orientar toda a vida religiosa do povo.

Quando o escriba pergunta qual é o primeiro de todos os mandamentos, Jesus responde citando uma oração central da fé de Israel. “Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor”, conforme Deuteronômio 6,4. Essas palavras constituem o início do Shema Israel, oração que os judeus recitavam diariamente ao amanhecer e ao entardecer. Ela expressa a identidade espiritual de Israel como povo que reconhece o Deus único como fundamento de toda a existência. Essa confissão monoteísta não é apenas uma declaração teológica. Ela representa um chamado à fidelidade exclusiva a Deus em meio a um mundo onde diversos povos cultuavam múltiplas divindades ligadas ao poder, à fertilidade ou à guerra.

Logo em seguida Jesus continua citando Deuteronômio 6,5: “Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento e com toda a tua força”. Na antropologia bíblica essas expressões não indicam partes isoladas do ser humano, mas dimensões complementares de uma existência integral. Amar a Deus significa orientar toda a vida para Ele.

O coração, na linguagem bíblica, não é apenas o lugar das emoções. Ele representa o centro da consciência moral e da decisão humana. Provérbios 4,23 afirma que do coração brotam as fontes da vida. O coração é o espaço interior onde o ser humano escuta Deus e decide seus caminhos. Por isso o salmista suplica: “Cria em mim um coração puro, ó Deus”, conforme Salmo 51,12. O profeta Ezequiel anuncia uma promessa profundamente ligada a essa transformação interior quando transmite a palavra divina: “Dar-vos-ei um coração novo e porei em vós um espírito novo”, conforme Ezequiel 36,26.

A alma, ou nefesh, refere-se ao sopro vital que anima a existência humana. O entendimento indica a dimensão da inteligência e do discernimento. A força remete às energias físicas, sociais e materiais que sustentam a vida cotidiana. Amar a Deus com todas essas dimensões significa reconhecer que a relação com o Criador não é apenas um sentimento religioso, mas uma orientação completa da existência.

Logo após citar esse mandamento, Jesus acrescenta outro que declara inseparável do primeiro. “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”, conforme Levítico 19,18. A originalidade da resposta de Jesus não está apenas em citar esses dois textos da Torá, mas em uni-los de forma indissolúvel. O amor a Deus e o amor ao próximo formam uma única realidade espiritual e ética.

Essa síntese percorre toda a Escritura. O apóstolo João afirma que quem diz amar a Deus mas odeia o irmão torna-se mentiroso, conforme 1 João 4,20. O apóstolo Paulo escreve que quem ama o próximo cumpriu plenamente a Lei, conforme Romanos 13,8. No hino ao amor presente em 1 Coríntios 13, Paulo afirma que mesmo os maiores dons espirituais perdem sentido se não forem acompanhados pelo amor. O escriba reconhece a profundidade dessa síntese e afirma que amar a Deus e ao próximo vale mais do que todos os sacrifícios e holocaustos. Essa resposta ecoa diretamente a tradição profética de Israel. Ao longo da história bíblica os profetas denunciaram repetidamente uma religião centrada em rituais enquanto ignorava a justiça social.

Em Oséias 6,6 Deus declara que deseja misericórdia e não sacrifícios. Em Isaías 1,11-17 o Senhor rejeita cultos vazios e convoca o povo a aprender a fazer o bem, buscar a justiça, socorrer o oprimido e defender o órfão e a viúva. Em Amós 5,24 o profeta proclama que o direito deve correr como água e a justiça como um rio que nunca seca. Em Miquéias 6,8 encontramos uma síntese admirável da espiritualidade bíblica quando o profeta afirma que Deus pede apenas que o ser humano pratique a justiça, ame a misericórdia e caminhe humildemente com seu Deus. Quando Jesus afirma ao escriba que ele não está longe do Reino de Deus, revela algo essencial sobre a natureza do Reino. O Reino não é apenas uma realidade futura reservada ao fim dos tempos. Ele começa a germinar sempre que a vida humana se orienta pela lógica do amor, da justiça e da misericórdia.

Os evangelhos sinóticos apresentam essa tradição com nuances próprias. Em Mateus 22,34-40 Jesus declara que desses dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas. Em Lucas 10,25-28 o diálogo conduz à parábola do bom samaritano. Nessa narrativa um estrangeiro, pertencente a um povo considerado impuro pelos judeus, torna-se exemplo de compaixão. Um sacerdote e um levita passam adiante diante do homem ferido na estrada. O samaritano, porém, aproxima-se, cuida das feridas e garante sua recuperação. A parábola amplia radicalmente o significado da palavra próximo. No contexto cultural do Mediterrâneo antigo, o termo próximo muitas vezes estava ligado ao pertencimento ao próprio grupo religioso ou étnico. A solidariedade era frequentemente delimitada por fronteiras de identidade. Jesus rompe essa lógica. O próximo não é apenas quem pertence ao mesmo povo, à mesma religião ou à mesma posição social. O próximo é qualquer pessoa cuja dor se cruza com nossa existência na estrada da história.

A ampliação da fraternidade  proposta  por Jesus  encontra ecos também em diversas tradições éticas da humanidade. Dentro do judaísmo antigo, o rabino Hillel ensinava que a essência da Lei poderia ser resumida na regra de não fazer ao outro aquilo que não desejamos para nós. No mundo grego, pensadores estoicos defendiam a ideia de uma fraternidade universal baseada na razão comum que habita todos os seres humanos. No Oriente, tradições associadas a Confúcio também destacavam a benevolência e o respeito mútuo como fundamentos da ordem social. Esses paralelos revelam que a humanidade sempre buscou caminhos éticos baseados no respeito e na compaixão. No entanto, no ensinamento de Jesus essa ética encontra seu fundamento último na própria natureza de Deus.

Essa  visão  de forma  aparece no Sermão da Montanha. Em Mateus 5,44-45 Jesus convida seus discípulos a amar os inimigos e rezar pelos perseguidores para se tornarem filhos do Pai celeste, pois Deus faz nascer o sol sobre bons e maus e faz cair a chuva sobre justos e injustos. Aqui se revela a raiz teológica do amor ao próximo. Deus não distribui sua bondade apenas aos que pertencem a um grupo específico. A criação inteira participa da generosidade divina e esse horizonte transforma radicalmente a compreensão da vida social. Se Deus faz o sol nascer para todos, então nenhuma ideologia religiosa pode reivindicar monopólio da graça ou justificar exclusões baseadas em poder, riqueza ou identidade. O amor ao próximo torna-se expressão concreta da própria universalidade da misericórdia divina.

O contexto histórico da Palestina do primeiro século ilumina ainda mais a radicalidade desse ensinamento. A sociedade estava marcada por fortes desigualdades econômicas. Pequenas elites sacerdotais e aristocráticas concentravam riqueza e poder enquanto grande parte da população camponesa enfrentava pobreza crescente. O sistema de impostos imposto pelo domínio romano agravava ainda mais essa realidade. Nesse cenário o mandamento do amor ao próximo possuía implicações sociais profundas. Levítico 19, de onde Jesus cita esse mandamento, inclui orientações claras sobre justiça social. O texto ordena não explorar o trabalhador, não reter o salário do pobre, não cometer injustiça nos tribunais, não discriminar o estrangeiro e não oprimir o fraco. O amor ao próximo na tradição bíblica não é apenas sentimento interior. Ele se manifesta em práticas concretas de justiça. Essa preocupação aparece também em Deuteronômio 24,17-22, onde o povo é chamado a proteger o órfão, a viúva e o estrangeiro. Esses grupos representavam as categorias mais vulneráveis da sociedade antiga. Defender sua dignidade era sinal de fidelidade à aliança com Deus.

O  impacto desse ensinamento. Nas sociedades antigas a solidariedade frequentemente se limitava ao próprio grupo. Identidade religiosa, étnica ou familiar definia quem era digno de cuidado. Ao afirmar que o próximo pode ser qualquer pessoa necessitada, Jesus rompe barreiras profundamente enraizadas.  O ser humano busca sentido, pertencimento e reconhecimento. Quando a religião se transforma apenas em sistema de normas ou instrumento de controle social, ela pode gerar medo e alienação. O ensinamento de Jesus aponta para uma espiritualidade que integra interioridade e compromisso ético, contemplação e responsabilidade social.

Essa visão encontra eco em documentos importantes da Igreja contemporânea. O Concílio Vaticano II afirma em Gaudium et Spes 1 que as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias da humanidade são também as da comunidade cristã. O mesmo documento afirma em Gaudium et Spes 27 que toda forma de injustiça social constitui ofensa ao Criador.

Na América Latina os documentos do CELAM aprofundaram essa dimensão social da fé. Medellín destacou que a evangelização exige compromisso com a libertação dos pobres. Puebla reafirmou a opção preferencial pelos pobres como exigência do Evangelho. Aparecida recorda que a fé cristã deve transformar estruturas injustas que produzem exclusão e sofrimento. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil também tem reiterado que o amor ao próximo exige compromisso com políticas públicas que promovam justiça social, dignidade humana e defesa da vida em todas as suas dimensões.

Nesse horizonte emerge o caráter profético do ensinamento de Jesus. Ao longo da história muitas vezes a religião foi instrumentalizada para legitimar projetos de poder. Quando a fé é usada para justificar dominação, exclusão ou intolerância, o Evangelho é distorcido. Jesus já denunciava esse perigo ao criticar líderes religiosos que se preocupavam com minúcias rituais enquanto negligenciavam a justiça, a misericórdia e a fidelidade, conforme Mateus 23,23. Essa denúncia permanece atual quando discursos religiosos são utilizados para sustentar ideologias autoritárias, manipulações políticas ou projetos de dominação que esvaziam o Evangelho de sua força libertadora.

Algumas correntes contemporâneas, como a chamada teologia da prosperidade, reduzem a fé a promessa de sucesso econômico individual. Essa visão contrasta profundamente com o testemunho bíblico que apresenta Jesus identificando-se com os pobres, os pequenos e os excluídos, conforme Mateus 25,40. O Evangelho não promete prosperidade automática. Ele anuncia um Reino que coloca os pobres no centro da atenção divina.

Outro desafio é o clericalismo, quando a autoridade religiosa se transforma em poder distante do povo. O Concílio Vaticano II recorda que toda a Igreja é povo de Deus chamado ao serviço e à comunhão. A autoridade na comunidade cristã deve refletir o estilo de Jesus, que declarou ter vindo não para ser servido, mas para servir, conforme Marcos 10,45.

O Papa Francisco recorda na Evangelii Gaudium 188 que a fé autêntica implica um profundo desejo de transformar o mundo. Na encíclica Laudato Si 49 ele afirma que o clamor da terra e o clamor dos pobres formam um único clamor que sobe diante de Deus.

O mandamento do amor ao próximo continua desafiando os cristãos diante das feridas do mundo contemporâneo. Desigualdade social, violência urbana, exclusão econômica, migrações forçadas e crise ambiental revelam que a humanidade ainda luta para construir relações baseadas na justiça e na solidariedade.

A tradição espiritual da Igreja encontra no coração de Cristo um símbolo dessa síntese entre amor a Deus e amor à humanidade. O coração aberto de Jesus revela um amor que se entrega completamente. Em João 15,13 ele afirma que ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos.

Assim a pergunta do escriba continua ecoando através dos séculos.

 Qual é o maior mandamento?

A resposta de Jesus permanece clara e exigente: Amar a Deus com todo o coração e amar o próximo como a si mesmo.

 Essa síntese não é apenas um princípio moral abstrato. Ela é um caminho concreto de transformação da história. O Reino de Deus começa a manifestar-se sempre que a lógica do amor substitui a lógica da violência, da exploração e da indiferença.

O Evangelho convida cada geração a redescobrir essa verdade fundamental. A verdadeira religião não consiste apenas em ritos ou discursos, mas em permitir que o amor de Deus transforme o coração humano e inspire novas relações sociais. Quando o coração humano se abre à compaixão divina, nasce uma nova forma de viver. Comunidades tornam-se espaços de solidariedade. A fé torna-se força de justiça. A esperança torna-se energia para transformar o mundo. Nesse caminho o ensinamento de Marcos 12,28b-34 continua iluminando a consciência humana. Ele recorda que toda a Lei e toda a revelação encontram sua plenitude no amor. Amar a Deus e amar o próximo é o coração do Evangelho e o caminho pelo qual o Reino de Deus começa a florescer na história.



DNonato - Teólogo do cotidiano 

quinta-feira, 8 de maio de 2025

Um breve olhar sobre João 6,44-51

        Por DNonato


O trecho de João 6,44-51, proclamado na liturgia da Igreja na quinta-feira da terceira semana da Páscoa e a continuação  do da quarta-feira no caso ontem, mas  também esta  minserido no ciclo dominical do Ano B, não surge como uma leitura isolada, mas como parte de um caminho pedagógico e mistagógico no qual a comunidade, já iluminada pela experiência do Ressuscitado, é conduzida a reconhecer que Cristo permanece presente como alimento que sustenta, interpreta e transforma a existência. A repetição progressiva desse capítulo ao longo da liturgia revela que não estamos diante de uma palavra meramente informativa, mas de uma realidade que se experimenta. Trata-se de uma Palavra que se torna alimento e que ilumina a vida concreta à luz da Páscoa, penetrando as dimensões históricas, sociais e existenciais do ser humano.

Quando Jesus afirma que ninguém pode ir a Ele se o Pai não o atrair, conforme João 6,44, Ele nos introduz no mistério da graça que precede toda busca humana. Deus não é encontrado como objeto de investigação ou conquista intelectual, mas como presença viva que chama, seduz e conduz. Jeremias 31,3 e Oseias 11,4 já apontavam para esse dinamismo de um amor que atrai com laços de ternura. Essa atração não anula a liberdade, mas a desperta, pois revela que a fé nasce de um encontro e não de uma imposição. Ao dizer que todos serão ensinados por Deus, conforme João 6,45, ecoando Isaías 54,13 e Jeremias 31,33, Jesus indica que esse ensinamento não é externo, mas interior. A Lei deixa de ser norma escrita fora do sujeito e passa a habitar o coração, tornando-se princípio de discernimento e transformação da vida.

É nesse horizonte que se compreende que o Senhor deseja nos alimentar e indica claramente onde se encontra a verdadeira comida. A experiência do deserto, evocada em Deuteronômio 8,3 e retomada por Jesus em Mateus 4,4, revela que o ser humano não vive apenas de pão, mas de toda Palavra que procede de Deus. O deserto é lugar de revelação da verdade do coração humano, onde a fome ultrapassa o biológico e se torna existencial. O alimento que Deus oferece é o Pão da Palavra, luz para o caminho, como afirma o Salmo 119,105. Essa Palavra não deve ser apenas ouvida, mas acolhida com fé e abertura, permitindo que penetre, ilumine e transforme, como ensina Hebreus 4,12. Em Jesus, o Verbo feito carne, conforme João 1,14, essa Palavra assume densidade histórica, torna-se presença concreta e viva no meio de nós, expressão plena do que o Pai quis comunicar, como reconhece Santo Agostinho ao afirmar que em Cristo Deus disse tudo o que tinha a dizer.

Ao afirmar: “Quem crê em mim possui a vida eterna. Eu sou o pão da vida [...] e o pão que eu darei é a minha carne para a vida do mundo” (João 6,47-51), Jesus nos conduz além da lógica da saciedade imediata e nos introduz em um horizonte de plenitude. Ele nos convida a um banquete de vida plena, já anunciado em Isaías 55,1-3, onde todos são chamados gratuitamente, rompendo com qualquer lógica de exclusão ou meritocracia. Como observa São João Crisóstomo, a fé é suficiente para a vida, não como fuga da realidade, mas como adesão ao que sustenta verdadeiramente. Sua Palavra e sua carne oferecida são alimento de eternidade, acolhidos na fé, como também se afirma em João 3,16.

O contraste com o maná, conforme Êxodo 16 e João 6,49, evidencia o limite de um alimento que sustenta, mas não vence a morte. Jesus se apresenta como o verdadeiro Pão da Vida, conforme João 6,48, um alimento que não apenas sustenta, mas recria o ser humano em profundidade. Ao declarar que o pão que dará é sua carne para a vida do mundo, conforme João 6,51, Ele aponta para sua entrega total, consumada na cruz em João 19,30 e iluminada por Isaías 53,5. Trata-se de um Deus que não domina pela força, mas se doa radicalmente. Como ensina Santo Irineu de Lyon, essa entrega é penhor da ressurreição, sinal de que a vida não termina na morte, mas se abre à plenitude. A fé, portanto, não é apenas promessa futura, mas início da vida eterna já aqui e agora.

Essa proposta, porém, desinstala profundamente. A fé que Jesus propõe não é comodidade religiosa, mas adesão corajosa que transforma toda a existência, fazendo de nós novas criaturas, conforme 2 Coríntios 5,17. Como recorda o Concílio Vaticano II, o ser humano não pode viver sem amor, conforme Gaudium et Spes 24, e esse amor se manifesta plenamente em Cristo, como afirma 1 João 4,9. O pão vivo descido do céu revela não apenas uma doutrina, mas o próprio coração de Deus, um amor que se traduz em compromisso com a vida concreta.

Essa presença de Cristo se perpetua na Sagrada Escritura e na Eucaristia. A Igreja sempre venerou as Escrituras como o próprio Corpo do Senhor, conforme Dei Verbum 21, reconhecendo nelas a Palavra viva que alimenta. Na Eucaristia, esse encontro se aprofunda de modo singular, pois Cristo se entrega por inteiro, Corpo e Sangue, tornando-se verdadeiramente nosso sustento. Como afirma São João Crisóstomo, Ele se deu a nós e colocou diante de nós seu Corpo e seu Sangue. Esse alimento não apenas sustenta a caminhada, mas incorpora os fiéis ao Corpo de Cristo, conforme 1 Coríntios 10,17, formando uma comunidade viva e missionária.

Pela fé e pela Eucaristia, começamos a experimentar já neste mundo os sinais da eternidade. Como expressa Santo Inácio de Antioquia, a Eucaristia é remédio de imortalidade, antecipação da vida plena prometida em Apocalipse 21,3-4. Ela é o pão dos anjos, como em Salmo 78,25, alimento que sustenta na travessia. Quando o coração se abre a esse mistério, ele ecoa o clamor dos discípulos de Emaús: “Fica conosco, Senhor!” (Lucas 24,29), reconhecendo sua presença na fração do pão e reencontrando sentido para o caminho.

Essa dinâmica da fé e da comunhão toca profundamente o ser humano em sua estrutura mais íntima. Como expressa Santo Agostinho, o coração permanece inquieto enquanto não repousa em Deus. Do ponto de vista antropológico, somos seres famintos de sentido, de vínculo e de pertencimento. Quando essa fome não encontra o alimento verdadeiro, busca-se satisfação em realidades passageiras, como denuncia Eclesiastes 2,11. A sociedade contemporânea, marcada pelo consumo, pelo acúmulo e pela lógica meritocrática, intensifica essa busca, mas não a resolve. Cristo, porém, se apresenta como fonte de água viva, conforme João 4,13-14, e como pão que não perece, conforme João 6,27, respondendo à sede mais profunda da existência.

A história do cristianismo mostra que esse discurso sempre foi um ponto de ruptura. Muitos consideraram suas palavras duras e se afastaram, conforme João 6,60 e 6,66. A Eucaristia permanece como sinal de contradição, conforme Lucas 2,34, pois desafia a lógica do poder, da posse e da meritocracia. Nela, experimentamos a gratuidade do amor divino, um dom que não pode ser merecido, e somos convidados a entrar na lógica da entrega, seguindo o exemplo de Cristo.

Nesse horizonte, a palavra profética de Dom Paulo Evaristo Arns ressoa com força ao afirmar que não se pode comungar o Corpo de Cristo sem compromisso com o corpo sofredor do povo. Essa verdade encontra fundamento em 1 Coríntios 10,17 e em Mateus 25,35, onde Cristo se identifica com os famintos. A Eucaristia não é refúgio espiritualista, mas encontro com o Deus encarnado que nos impulsiona a sair de nós mesmos e reconhecer sua presença no outro, especialmente nos que sofrem. Ao comungarmos, somos chamados a nos tornar Corpo de Cristo no mundo, instrumentos de sua paz e de sua justiça.

Da mesma forma, a intuição de Dom Adriano Hipólito de que o céu começa aqui ecoa a palavra de Jesus em Lucas 17,21. O Reino de Deus não é fuga da realidade, mas presença que transforma a história. A Eucaristia, como memória da Última Ceia e antecipação do banquete do Reino, impulsiona a construção concreta de uma realidade marcada pela justiça, pela dignidade e pela fraternidade.

Na mesa da Palavra e do Pão, a Igreja reencontra sua vocação mais radical de comunhão, como suplica Jesus em Evangelho de João “que todos sejam um” (Jo 17,21). Não se trata de uma unidade meramente espiritualizada, mas de uma experiência concreta que se encarna na partilha e na vida comum. Como recorda São Cipriano de Cartago, assim como muitos grãos formam um só pão, os fiéis, reunidos, tornam-se um só corpo. Essa imagem revela uma eclesiologia profundamente relacional, em oposição a qualquer forma de fé isolada ou individualista. Essa mesa encontra seu fundamento nas práticas do próprio Jesus, que se reunia à mesa com pecadores, publicanos e excluídos, rompendo barreiras religiosas e sociais (cf. Evangelho de Marcos,15-17; Evangelho de Lucas,29-32). À mesa, Ele não apenas ensinava, mas restaurava vínculos rompidos, antecipando o Reino como espaço de inclusão, reconciliação e dignidade. Esse gesto alcança sua expressão máxima na Ceia (cf. Evangelho de Lucas,14-20), onde o pão partido e o cálice partilhado manifestam uma vida entregue e uma comunidade chamada a viver da mesma lógica, “fazei isto em memória de mim”.

Do ponto de vista sociológico, a mesa partilhada é um dos mais antigos dispositivos de construção de solidariedade e pertencimento. Comer juntos implica reconhecer o outro como igual, romper hierarquias excludentes e estabelecer uma ética de reciprocidade. Por isso, a prática de Jesus confronta estruturas que produzem exclusão, algo que aparece de forma contundente na crítica de Paulo à comunidade de Corinto, onde a Ceia do Senhor foi esvaziada de sentido por causa das desigualdades (cf. Primeira Carta aos Coríntios,17-34). Quando olhamos para a nossa realidade, essa tensão permanece. Há mesas eucarísticas que, embora liturgicamente celebradas, tornam-se existencialmente vazias. Vazias não pela ausência de rito, mas pela ausência de vida partilhada, de justiça e de compromisso com os que têm fome real. O pão é consagrado, mas não é repartido na prática social; a assembleia se reúne, mas não se reconhece como corpo que sofre junto. Assim, a advertência de Paulo de Tarso continua atual, quem come e bebe sem discernir o corpo, come e bebe a própria condenação (cf. 1Cor 11,29).

Nesse horizonte, ecoa a voz profética de Dom Adriano Hipólito, que insistia que a Eucaristia não pode ser separada da vida do povo, especialmente dos pobres, pois uma Igreja que não se compromete com a justiça corre o risco de trair o próprio Cristo presente no pão e na história. Sua denúncia permanece atual, a mesa do altar não pode estar desligada da mesa da vida. Uma mesa eucarística vazia é aquela onde a liturgia não transborda em ética, onde o altar não se prolonga na vida concreta, onde a fé não se traduz em solidariedade. Em contextos marcados por desigualdade, fome e exclusão, como os nossos, celebrar a Eucaristia sem compromisso com a justiça é esvaziar o próprio gesto de Jesus. A mesa do Senhor exige coerência, ou se torna apenas um símbolo domesticado, incapaz de confrontar as estruturas que negam a vida.

Assim, João 6,44-51 permanece como palavra viva que ilumina, desinstala e envia. Ele revela um Deus que se dá como alimento, que sustenta a vida e chama à comunhão. Denuncia uma fé reduzida a ritual ou interesse e convida a uma experiência autêntica, onde a vida é transformada pela graça. Diante dessa revelação, resta acolher a atração do Pai, abrir-se ao seu ensinamento e reconhecer em Cristo o pão da vida. Isso implica reorganizar a existência, buscar o Reino como prioridade, conforme Mateus 6,33, e viver a justiça e a misericórdia, conforme Miqueias 6,8. Alimentados por esse pão, somos chamados a nos tornar pão para os outros, sinais concretos de uma vida que não se esgota, mas se plenifica no amor que vem de Deus.



----------'---.

*DNonato graduado em História 

¹ Dom Adriano Hipólito (1974–1994), bispo de Nova Iguaçu, profeta da fé comprometida com a justiça social em tempos de repressão – símbolo de resistência durante a ditadura militar. Sua vida e a afirmação 'O céu começa aqui' ilustram como a Eucaristia inspira a construção do Reino pela vivência da fé engajada na realidade.

Referência: NONATO, Daniel. A Igreja de Nova Iguaçu no Regime Militar: Atentado à Fé. Publicado em 13 de novembro de 2012.  .